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           Wanderlino Arruda    arrud@wanderlino.com.br

58916
Por Wanderlino Arruda - 1/6/2010 07:10:13
UM PRESENTE PARA O CORAÇÃO

Wanderlino Arruda

Foi num mês de fevereiro, trinta e dois anos depois, que voltei a rever a minha terra, São João do Paraíso. Foi bem naquele fevereiro brabo de tantas enchentes, estradas intransitáveis, com um mundão de dificuldades para chegar lá, partindo de Taiobeiras. Foi depois de longa viagem por Valença e Nazaré, por Itaparica e Salvador, andanças de muito laudar pelo céu e pelo mar. Em São João, entramos num dia de intensa luz, depois das chuvas. E comigo estavam Olímpia, Rízzia e Gracielle, ao mesmo tempo que bons amigos como Joaquim da Caixa Econômica, Mário Português e meus cunhados, Anderson e Nelme, todos para dar maior prestígio ao filho que voltava à casa. Nas ruas, o Lauro, colega de curso primário, fazia a surpresa com muitas faixas de saudação, tudo muito grato, bom demais para os olhos e para a alma. Visitas, encontros, apresentações, um rememorar de saudades, o reviver de velhas e bem guardadas lembranças, uma alegria aqui, uma decepção ali, porque nem tudo que o coração registra fica imune à ação do tempo. Jovens transformados em velhos, velhos já não em vida. A paisagem já não a mesma e, ainda que melhorada pelo progresso, diferente. Não mais a ponte dos banhos de meninos pelados e jovens lavadeiras; não mais o canavial sem fim; não mais a serra verde escura ligada às nuvens; não mais a igrejinha do alto do morro, nova em folha; a grama da praça, substituída por pavimentação e postos de gasolina; o matagal do cemitério já bairro novo. Tudo mudado. Os olhos procuram, o coração deplora toda a ausência de eternidade nas coisas e nas pessoas! Quanta falta! A noite, o lançamento do meu livro, na Matriz, o louvor dos discursos, as explicações, os abraços, o rolar de tranqüilas lágrimas de gratidão ao passado, a riqueza das lembranças boas que só a infância pôde dar, o olhar reverente de jovens professoras ao câmara da mais velho, amadurecido pelas dores da vida. Olímpia me pergunta baixinho o que me passa pela cabeça, enquanto olho a velha igreja, ouço o antigo sino, sinto a paisagem pisada por pés descalços em tempo distante. O que responder? As coisas que passam pelo sentimento não podem ser analisadas, não são lógicas. As imagens são superpostas, principalmente as do meu pai, ainda novo, do meu avô Vicente, de longas barbas brancas, e da tia Raquel e de D. Adelina, gorda e clara. Vem o segundo dia e, enquanto dia, uma viagem pelo Mato Cipó para visitar os tios Júlio e Diolina, a passagem pela Lagoa da Viada, pelo rio, pelos mangueiros, a procura de velhas estradas por onde costumava passar, indo para a casa de Maria de Silvina, o caminho da fazenda do doutor Osório. A cada lembrança, uma fotografia, a promessa intima de pintar um quadro. Na volta, à noite, depois do jantar, a palestra na Escola, uma espécie de acerto de contas, um desfiar de vivos sonhos, um voto de confiança e um incentivo às novas gerações. Mais tarde, o passeio pelas ruas, o mingau de milho na sala de jantar de D. Benzinha, o café com biscoitos a convite do padre João, madeirense culto, amigo solícito. Foi durante o café, sentados em duros bancos, braços sobre uma mesa comprida sem toalha, daquelas feitas com madeira fornida, que resolvi fazer um comentário sobre meu primeiro professor, o velho Joaquim Rolla, mestre de régua e palmatória, de lousa e tabuada, de norma e abecê. Falei da escola, falei dos alunos, descrevi os objetos. Quando ia mostrar que me lembrava também dos móveis, Cristovina, a anfitriã, sorriu maliciosa, e com brilho no olhar me fez arrancar de dentro a mais querida das lembranças, pois aquela mesa, aqueles bancos, todo aquele ambiente era a minha primeira sala de aula. Havia eu, por acaso, me esquecido de que ela era a filha do professor? Estava ali o maior presente ao meu coração... Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


56781
Por Wanderlino Arruda - 1/4/2010 07:10:45
QUE VENHAM TEMPOS DE ESPERANÇAS

Wanderlino Arruda

Houve um dia na história do mundo que deveria ter sido gravado em fita de ouro, conservados todos os sons, todas as cores, os movimentos todos. Não somente uma filmagem pessoal de uma câmara só, um ângulo isolado, mas um belo trabalho de equipe, com lentes naturais e de efeitos vários. Os sons, estes deveriam ser tomados de todas as distâncias, de todos os lados, do alto e do chão, até um microfone semi-enterrado como se faz em jogos de campeonatos. Deve ter sido uma manhã e tarde da maior importância na vida do maior gênio da arte de todos os tempos, uma coroação de esforços e de momentos de amor do italiano Leonardo da Vinci. Era a hora final dos retoque do quadro Mona Lisa, aquele minuto marcante de a obra de arte receber a moldura e ser exposto à crítica de todos os tempos e de todas as gentes. La Gioconda havia posado para ele por cerca de vinte anos, encantada com toda a equipe de moedores de tintas, de tocadores de alaúde e de cítaras, assobiadores, cantores, fazedores de graças, encantada, sobretudo, com a admiração do mestre e a luz bem distribuída do grande pátio e cenário. O que parecia eterno chegava ao fim! Assim é a vida. Por mais longo que seja o dia, haverá sempre um crepúsculo. A mais escura das noites, a mais tempestuosa ou a mais alegre e festiva será sempre substituída por uma aurora. As existências se sucedem num vai-e-vem eterno, monótonas para quem não saber ser, mas interessantíssimas para quem tenha olhos de ver novidades. Não há bem ou mal que nunca se extinga, porque tudo é passageiro. Definitivo, só o gesto de amor, o bem, a luz que ilumina a alma das criaturas. O mal? O mal também tem prazo de consideração, porque não há trevas que não sejam batidas pela claridade. Um gesto de crença verdadeira muda a história de muitas existências. Enquanto houver fé e esperança, enquanto houver amor, haverá felicidade. O desespero é o pior ângulo de qualquer atitude, do indivíduo ou da sociedade. Por que não esperar o amanhã? Estamos, hoje, num desses momentos de real importância em nossas vidas, um bem encaminhado início de século e de milênio que - ricos de angústias -, têm marcado profundamente o nosso modo de ser. Uma hora tão decisiva, tão propícia aos nossos conhecimentos, que ninguém - ninguém mesmo - fica realmente isolado dos acontecimentos. Se já não era, agora pessoa nenhuma será uma ilha. Vivemos o momento da informação realizada por todos os meios. É preciso muita garra para vivermos a nossa própria vontade, a nossa independência. Vivemos de uma só vez todas as vidas, da família, do trabalho, da profissão, da crença, dos grupos de aptidões, mas, em nenhum momento prevalece o direito realmente individual, aquela vontade saída do próprio coração. Tudo é grupo, dependente. Querendo ou não, um mundo de irmãos, de companheiros, de camaradas, sob o mesmo teto do mundo. Alegres, tristes, sofridos, angustiados, mas unidos. O egoísmo tornou-se uma ilusão, um engodo; somos, na verdade um enorme grupo de aldeia global, sacos de sorrisos e de sofrimento, ouvintes e assistentes compulsórios de verdades e de ilusões. Que venham tempos de esperanças. Se problemáticos, que sejam com dificuldades estimulando o raciocínio em busca de novas soluções. Que venham as possibilidades de perdão, de reajustamentos, de solidariedade. Que seja aberta uma fresta para a lembrança das promessas geradas no início da era cristã, na pobrezinha manjedoura do Belém! Havendo amor, haverá muita luz na saída do túnel. E que haja!

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56505
Por Wanderlino Arruda - 24/3/2010 14:20:49
GAROTO SEM ESTILINGUE

Wanderlino Arruda

Sempre me preocupei pensando se o nosso Reivaldo Canela - que escrevia semanalmente sobre animais, grandes e pequenos, selvagens e domésticos, teria sido mesmo um menino sem estilingue, um garoto desarmado, um jovem de paz com a natureza. Tenho direito a cessa preocupação porque sei que Reivaldo viveu os anos de estripulia da meninada, tempo violento e cheio de brincadeiras de guerra, cada moleque agindo como bandido ou soldado, sempre luta divertida. Ele cresceu totalmente fora desta fase de agora, crianças envolvidas só com brincadeiras de era eletrônica: telões ful hd, ifones, mp3, ipods, mp4, ipads, mp12, telefones e celulares com tudo muito além do ouvir e do falar. Digo isso, porque minha geração - que foi também a dele - tinha de construir seus próprios brinquedos, jequis, quebras, arapucas, visgos, facas de folha de flandre e de fitas de aço, que vinham amarrando os volumes de mercadorias das lojas e armazéns. Foi nossa geração a do feliz "laissez faire" de toda espécie de instrumentos de sobrevivência da alegria, em todo tempo vago no antes e no depois da escola. Nunca vi estilingues ou qualquer outro tipo de atrativos para captar passarinhos na fase nova dos meninos do fim do século, principalmente nos mais moderninhos da classe média.Todo mundo limpinho, calçados de tênis, quase sempre andando de bicicleta e de moto, indo e vindo sem muita anarquia, bem diferente do que acostumava acontecer em tempos mais distantes, quando duas rodas eram um luxo sem igual. Os garotos atuais, ou de pouco tempo atrás, já não tiveram à sua disposição o mundo dos passarinhos e pequenas caças, aquele mundão em quantidade e fartura, que se tornava um grande atrativo à guerra de conquista de todas as horas, antes ou depois dos banhos pelados nos poços e nas lagoas, que a gente descobria onde eles existissem. Parece que tudo mudou no jeito e na formação dos jovens depois que inventaram os banheiros dentro de casa - tudo de cerâmica e de louça - e as lojas começaram a vender brinquedos em dez meses no cartão, e a comunicação passou a ser informatizada, meninos e meninas falando com outros meninos e outras meninas, via Messenger, tweet, Facebook, próximo ou infinitamente distante, deste ou do outro lado do planeta. É claro que hoje já não tenho problemas de consciência quanto ao amor que o Reivaldo dedicou aos passarinhos, ele que sempre pôde viver feliz e gastou não-sei-quanto de fubá para alimentar os seus dó-me-réis e os seus pardais. Posso afirmar que ele, que foi um São Francisco de Assis de fim e de início de séculos, viveu literalmente com os passarinhos, recebendo-os nas mãos, tudo na base de carinho e natural amizade, convênio não assinado, pacto de não-agressão grato a ambas as partes. Eu vi muitas vezes Reivaldo conversar com os bichinhos, parecia até chamando-os pelos nomes, fazendo com que aquelas grandes revoadas viessem para o seu lado, saltitantes de alegria inocente, bicando aqui, batendo asas ali... contentes com a vida, a exemplo do fiel protetor da Praça da Santa Casa. Para começo ou fim de conversa, a casa do Reivaldo era um grande viveiro, com todas as árvores que os passarinhos pediam a Deus, um encanto de ramos e folhas de toda espécie. Devia ser bem interessante o ato de ser amigo das avezinhas, amizade sem interesse, sem perspectiva de retribuição, a não ser a da felicidade. Amigos sinceros, homem e aves se confraternizavam todas as vezes que se encontravam, marcada ou não a hora. Durante muitos anos, nunca me foi possível visitar Cândido Canela, pai de Reivaldo, na casa ao lado, sem ver e ouvir passarada. É que, felizes, eles conviviam para sempre!

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56256
Por Wanderlino Arruda - 18/3/2010 07:18:42
CORRESPONDÊNCIA E AMIZADE

Wanderlino Arruda

De todas as manifestações de amizade e de carinho, a correspondência é uma das mais interessantes, a que toca mais profundamente a sensibilidade de quem escreve e de quem recebe. Bom e agradável é ver nas mãos do carteiro um envelope com letra amiga, o nome escrito por quem de alguma forma quer a nossa felicidade, o nosso contentamento. Escrever para as pessoas a quem queremos bem deveria ser um exercício de todos os dias, uma espécie de doação espontânea e viva, própria de almas afeitas à camaradagem, ao exercício da saudade construtiva, ao apego positivo e enriquecido. Afinal, a escrita é o gesto gravado com tinta e amor, direto e pessoal, até mesmo quando feito com os recursos mais modernos que não os do próprio punho. O que mais atrapalha as pessoas no ato de escrever aos amigos é a falsa noção de que correspondência tem que ser sempre sob a forma e a formalidade de carta, com todos aqueles palavrórios cheios de cerimônia e gramatiquices, com tratamento sério, repositórios de salamaleques verbais. Mas acontece que correspondência de amizade não é isso, é coisa muito mais simples, mais pessoal, despretensiosos gestos de simpatia através de um vocabulário do dia-a-dia, uma comunicação sem preconceitos, direta e desobrigada de enfeites. Um bilhete, um recado, um conselho, uma consulta, uma informação, um cumprimento, tudo o que dirigimos por escrito a uma pessoa amiga constitui correspondência. É preciso aprender a escrever com freqüência, criando pontes de amizade, demonstrando que nossa memória está firme, de que o esquecimento e a ingratidão não são os nossos maiores defeitos. Não deixemos que o telefone e o e-mail sejam impedimento à nossa correspondência tradicional. A palavra escrita ainda vale muito mais porque, guardada, será sempre uma boa lembrança, uma forma de recordação. Aproveitemos qualquer papel, não importa o tamanho, a cor, a origem. Escrevamos à tinta, a lápis, de forma calma ou apressadamente, mas escrevamos. Por que não usar um cartão, uma nota de compra, um recorte de jornal ou revista e, em último caso, até mesmo um papel de carta propriamente dito? O que interessa é nosso interesse pelo ato de comunicar, de dizer que estamos vivos, que ficamos alegres com a alegria do amigo, felizes com sua felicidade. Se não pudermos escrever vinte linhas, que escrevamos dez. Se não pudermos escrever dez, escrevamos três, mas não deixemos de escrever. O sorriso interior criado pela nossa amizade vale mais do que todas as fortunas do mundo. Experimente hoje mesmo!

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55930
Por Wanderlino Arruda - 10/3/2010 07:47:03
ENSINAR E APRENDER

Wanderlino Arruda

"Quem sabe faz, quem não sabe, ensina" - dizia sempre o doutor Hermes de Paula, repetido o dramaturgo inglês Bernard Shaw. Era a forma de ironizar seu próprio trabalho de homem que viveu a vida, tentando e conseguindo ensinar as coisas boas do saber viver. Ele, doutor Hermes, que não sendo um grande orador, não possuindo os arroubos da melhor oratória, sempre sabia empolgar todo e qualquer auditório fosse de crianças, fosse de moças e rapazes, fosse de gente grande e sabida. Era ele um professor nato, convincente, bem humorado, claro, direto no falar e no convencer. Nunca o doutor Hermes deixava uma audiência triste. Sabia enriquecê-la com a sabedoria e a virtude de amor. Era um grande mestre! Realmente, a vida consiste em aprender e ensinar. E diz a regra que aquele que mais ensina é o que mais aprende. Quem mais se dispõe a aprender é quem melhor ensina ou o sabe ensinar. Professor e aluno crescem sempre juntos, na medida em que vão realizando coisas importantes para eles mesmos, coisas importantes para seu meio social, sua terra, seu país. O aluno aprende com o professor, mas mais aprende o professor com o aluno. Um atende às necessidades do outro. Uma vida em honesto conluio, só agradável quando em franca e mútua disposição de progredir. Ensinar e aprender - diversão ou trabalho - só valem muito para quem tenha amor pelo conhecimento, pela descoberta do novo pelo sentimento de riqueza no poder da cultura! Aprender é renovar-se, mudar comportamentos, somar habilidades, descortinar horizontes. Ensinar é abrir caminhos, criar motivação saudável, crescer e fazer crescer. Aprender e ensinar são ações de grande valia, de importância indiscutível, porque nossa inteligência só se satisfaz com o inovador, com a novidade, com o que empolga e fascina, com situações que possam mudar destinos. A repetição será sempre rotina, nunca encaminha para o melhor no plano da gratificação da mente e do espírito. O homem será sempre o animal curioso, faminto do desconhecido, um desbravador, um insaciável vencedor de fronteiras. O professor é o arado que semeia, a mão que cultiva, a semente que multiplicadamente germina e haverá sempre de germinar. Sócrates foi professor de Platão. Platão ensinou a Aristóteles. Aristóteles fez o melhor que pôde por Alexandre... Se Alexandre não ensinou, aumentou o mundo para que outros ensinassem. Foram professores de diferentes regiões e de tempos diferentes que prepararam Miguel Ângelo, Leonardo, Giotto, Camões, Dante, Petrarca, Einstein, Sartre, Tristão de Athayde, Vinícius de Moraes e o Padre Aderbal Murta. Foram professores que ensinaram a Afonso Arinos, a Carlos Drummond de Andrade à Maria Luíza Silveira, a Georgino Júnior, a Petrônio Braz e a Dário Cotrim. Todos tiveram professores. Todos tivemos. Todos nós! Lembro-me muito bem de quando Lazinho Pimenta era aluno do velho Colégio Diocesano. Interessado, participante, tinha já todas as características de um bom jornalista. Sempre bem informado, era só armar um palco ou uma tribuna, ligar um microfone, lá estava Lazinho a dar as últimas novidades, a minerar novos valores entre a moçada. Está aí! Você já mais vivido, é possível, só tenha visto o Lazinho Pimenta como cronista e homem de jornal. Eu o vi sempre com bem maior amplitude. Sempre vi o Lazinho na qualidade de aluno e professor, vivendo e aprendendo e ensinando a conviver. Se ele cobrasse em provas o que ensina, estou certo, muitos agradeciam pelo tanto que aprendeu. Afinal, foram em muitos e muitos anos que o inesquecível Laércio Vitalino Pimenta transmitiu a boa etiqueta em sua página de jornal...

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55651
Por Wanderlino Arruda - 3/3/2010 07:52:44
O MELHOR TEMPO É AGORA

Wanderlino Arruda

Adoro as pessoas que amam a vida, que gostam de viver, que são alegres que sabem valorizar cada minuto de felicidade. Nada melhor do que uma certa capacidade de conformação, um jeito de dar a volta por cima nas horas difíceis, de sacudir a poeira das vãs preocupações quando elas só podem nos atrapalhar. Não remoer mágoas é um ato de grande sabedoria. Perdoar, mesmo sem esquecer a ofensa, já é um sábia atitude. Perdoar, com esquecimento é suprema perfeição, coisa assim de quem já se sinta num excelente caminho evolutivo, pode-se dizer quase uma matrícula ao vestibular de santo. Adoro as pessoas que sabem fazer amigos, que são sociáveis que se interessam pelo contentamento do próximo. É dessa gente que a melhor parte do mundo é feita, que dá o lado útil da vida, o construtivo, o leal, o bom. De que adianta o negativismo? O que pode a tristeza realizar senão a dor moral de que ela é a própria argamassa? Os tristes estão sempre muito longe da vitória, do sucesso, e até mesmo de uma certa estabilidade vivencial. A tristeza não é o lado normal da criatura, pelo menos não é o mais agradável. Os tristes deveriam parar um pouco e pensar numa mudança mental, sorrir, procurar ver um mundo de coisas lindas que acontecem e estão aí na nossa frente todas as horas. Nada mais positivo do que os momentos de alegria! Adoro as pessoas que gostam da luz do sol, da brisa, da lua, pessoas que saibam olhar para cima à noite e ver estrelas com atitude de quem sonha! São estas que, por amarem a imensidão do infinito têm a mística ou a lógica da fé, acreditam num poder maior, num verdadeiro foco de amor de quem emana toda a sabedoria. Não se pode viver sem uma crença, uma certeza, uma diretiva para o bem que se pratica e que se recebe. É preciso ter a sensação de plenitude, a consciência firme de que fazemos parte do grande Infinito, partícula de luz eterna e caminhante para a sabedoria. Adoro as pessoas que sabem esperar quando outras desesperam, que guardam a fé, acima da tormenta das dúvidas, que suportam o peso da própria cruz. Adoro as pessoas que sabem cultivar o lado bom, que sabem discernir o justo valor das causas e das coisas, que amparam com sinceridade os que erram na caminhada da vida, que sustentam sempre o bom ânimo. Que ninguém se engane com falsas apreciações acerca da justiça, porque o tempo é o juiz de todos. Cada criatura colherá da vida não só pelo que faz, mas também conforme esteja fazendo aquilo que faz. Adoro o ouro do tempo e o serviço da paz! Amanhã será, certamente um belo dia, não tenho dúvidas. O meu senso de felicidade me indica, me dá certeza e confiança. Mas, para trabalhar e servir, renovar e aprender, acredite, o melhor dia é hoje mesmo, o melhor tempo é agora! Seja feliz!

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55482
Por Wanderlino Arruda - 26/2/2010 07:27:58
TER OU NÃO TER TEMPO

Wanderlino Arruda

Conheço um mundão de pessoas que dizem nunca ter tempo para fazer as coisas mais necessárias. Sempre ocupadas demais, não sabem com quê. Nenhum momento disponível para escrever um e-mail, um bilhete, para uma palavra de amizade a um parente ou a uma pessoa amiga. Nenhum minuto para dar um telefonema de parabéns ou mesmo dizer qualquer palavra amável a alguém que teria grande alegria com essa atitude. Nenhum segundo para uma leitura proveitosa, para visita a um site, para um acréscimo ao conhecimento de utilidade, para um brilhozinho na cultura e na atualização do que anda acontecendo no mundo. Conheço um mundão de pessoas que só têm olhos para o que nada acrescenta de melhor à própria vida. Conheço-as e tenho pena de todas elas, pobres coitadas... É que não existe nada no mundo mais importante do que o tempo, a correta administração do tempo, esse ente incompreensível que só é longo quando a criatura vive e ou se encontra mergulhada no sofrimento e na dor. O tempo passa devagar só nas horas em que ele deveria correr mais depressa, quando estamos na angústia da espera de que ele logo se acabe, seja no leito da doença, seja na fila interminável que nunca anda. É difícil dispormos de tempo para todos os compromissos, mesmo aqueles bem distribuídos na agenda mental ou até na de papel ou do computador, principalmente aquele tempo que costumamos dizer que vale ouro, patrimônio sagrado que ninguém tem direito de malbaratar sem graves danos. "Há quatro coisas que não voltam atrás: a pedra depois de solta pela mão, a palavra depois de proferida, a ocasião depois de perdida, e o tempo depois de passado". Não me perguntem quem disse isso, que foi um tal de H. Riminaldo, que não sei quem é... Mas, que ele está certo, isso está, inclusive por mais isso: "A maior parte do nosso tempo, passa-se a passar tempo". Trezentos e sessenta e cinco dias do ano podem ser comparados a trezentas e sessenta e cinco áreas de plantio, cotas igualmente distribuídas para cada um em particular e para todos em conjunto, cada qual com certa liberdade de cultivá-las, dependendo do modo de pensar e agir. "Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu", diz o Eclesiastes no início do capítulo três. "Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derribar, e tempo de edificar; tempo de chorar, e tempo de ri; tempo de prantear, e tempo de saltar de alegria; tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de fartar-se de abraçar; tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deitar fora; tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado, tempo de falar; tempo de amar, e tempo de aborrecer; tempo de guerra, tempo de paz". Assim, há tempo para tudo, para a sublimação do santo, para a beleza do ato heróico, para a grandeza do sábio, para a angústia do penitente, para a provocação, para a alegria da simplicidade e até para a crueldade do malfeitor de qualquer grau. É o tempo um caudal de angústias e de tribulações para quem não saiba vivê-lo, ou simplesmente um limbo de inexistências par quem o deixe passar sem idéias do que fazer. Tempo é mar de ondas que nunca voltam, é chuva que passa sem obstáculos, um relógio de corda sem fim... E como você teve tempo de terminar... Perdoe-me se tomei muito do seu tempo!

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54941
Por Wanderlino Arruda - 10/2/2010 09:17:36
PEDRO II

Wanderlino Arruda

Há muito tempo, eu estava querendo escrever sobre o Imperador Pedro II, uma das mais admiráveis personalidades da nossa tão esquecida história. Porque escrever sobre ele, não sei. Sei apenas que o filho de Pedro I e pai da Princesa Isabel sempre me fascinou pela sabedoria e pelo caráter reto, uma grandeza de espírito e simplicidade muito raras nos políticos de qualquer época. Hoje, cumpro a promessa comigo mesmo, e sei que isso é bom, servindo de uma espécie de catarse, que é algo como um banho da própria alma, um descanso de compromisso e de tensões que nos invadem o saber e o querer. Cyro dos Anjos diz que tudo que a gente quer escrever ou escreve constitui uma gravidez intelectual e, quando não vem o parto, não virá o descanso. Bem haja, como dizem os portugueses! E o que sei eu de D. Pedro II? Não muita coisa, que isso dependeria de muita leitura sobre o Segundo Reinado. Mas sei um pouco, que posso passar, com prazer, para os que têm a paciência de me ler. Como é a moda, é bom começar dizendo que Pedro II foi um grande democrata, amigo do povo, simples como devia ser um perfeito cristão. Para não fugir à verdade, é bom também dizer que seus maiores amigos eram mesmo os filósofos, os poetas, os cientistas, os inventores, a gente da grande inteligência e da cultura. O que ele não gostava muito era da realeza cheia de pompas e de protocolos, o povo metido da nobreza, cheio de luxo e de aparências. D. Pedro II sentia-se bem mesmo era na companhia de homens como Victor Hugo, Renan, Thomás Edison, Longfellow, Graham Bell, Pasteur, Alexandre Herculano, Manzoni, Gonçalves de Magalhães, Francisco Otaviano, Carlos Gomes, Pedro Américo, intelectuais que ele admirava e protegia. Dizem que ele nunca deixou de demonstrar constrangimento diante das cortes de grande gala e muito ouro. De vestir, D. Pedro II gostava mesmo era de uma sisuda sobrecasaca preta, à moda dos professores da época, vivendo longe das jóias, com um ar discreto de um bom burguês, fino, educado, seduzido só pelas belas idéias e pela sabedoria dos pensadores. Gostava imensamente de viajar, mas viajava pouco. E, quando o fazia pelas cortes européias, pagava as passagens e as contas, tirando dinheiro do próprio bolso, nunca ofendendo os saldos do Tesouro Nacional, desvio tão à moda nos dias de hoje. Educado para reinar, mediante disciplina férrea, quase monástica, foi moldado como um responsável funcionário público, modesto e compenetrado. Tolerante ao máximo, bondoso, era também de vontade inquebrantável, renitente, intransigente em seus propósitos. Antes de tudo, a pátria, o trabalho, a obrigação. Madrugava no cumprimento do dever. Decidia com tanta justiça que mais parecia um juiz centralizador do bem e da paz. Homem livre, estudioso, de uma curiosidade científica de encantar, chegou muitas vezes a escandalizar as cortes do velho continente, deixando para trás até as idéias estapafúrdias dos conservadores. É que mais do que os palácios, visitava os livres pensadores, os rabinos, os artistas, os republicanos, ímpios como Renan e Victor Hugo. Pouco lhe importava a antipatia quase que natural do Papa Pio XI, um radical conservador, que nunca lhe poupou censuras. Claro que não chegava a ser um iconoclasta, isso nunca. Era um homem de paz, um bom sujeito de ótimo coração! Sério, compenetrado, virtuoso, respeitado e respeitador, discreto como homem e como governante, não deixou, porém, de ter uma boa seqüência de amores, além do que teve para com sua mulher, princesa napolitana D. Teresa Cristina Maria, modelo de bondade, D. Pedro II amou, e muito, outras mulheres, com as quais mantinha volumosa correspondência sentimental. Ocuparam seu coração nada menos do que a Condessa de Villeneuve, Madame de La Tour, Eponina Octaviano e a Condessa de Barral e Pedra Branca, sendo esta última sua preferida, a quem se dedicou profundamente. Ao contrário do famoso pai, nunca fez desses afetos motivo de escândalo. O amor para ele foi sempre um sentimento íntimo, de alma para alma. Expulso do Brasil numa trágica e tempestuosa madrugada de 17 de novembro de 1889, viajou chorando de tristeza e de saudades, já muito alquebrado pelos longos anos de trabalho e de estudos. Morreu num quarto simples do Hotel Bedford, em Paris, dois anos depois. Seu maior sofrimento eram as lembranças do Brasil. Quanto era doloroso a dor do exílio! Ainda bem que o Governo francês concedeu-lhe as honras de Chefe de Estado e seu enterro foi dos maiores que a cidade de Paris já viu, tão grande como o de Victor Hugo. Diante do sábio e do homem, mais uma vez a Europa se curvava perante o Brasil!

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54608
Por Wanderlino Arruda - 3/2/2010 07:42:06
CORRENTE PRA FRENTE

Wanderlino Arruda

Sempre pensei que a mania de fazer e enviar correntes, diretamente ou pelo correio, para amigos ou para conhecidos, fosse uma dessas qualidades ou defeitos genuinamente brasileiros, um desses jeitinhos de levar alguma vantagem ou fugir de um supersticioso perigo. É que a corrente, sempre feita em número de seis ou meia dúzia, manuscrita ou digitada, contendo uma estória de princípio, meio e fim, sempre com ameaças a quem cometer a ousadia de interrompê-la: "Um fulano de tal não quis prosseguirr a corrente recebida e enviar as cópias aos amigos e... caiu de avião, batendo numa serra do litoral, esborrachando-se, mergulhando no mar como mergulhou nosso saudoso Ulisses Guimarães. Outro não deu seqüência em duas que recebeu e perdeu o emprego, passando a rechear as estatísticas dos desocupados. Outro fez tudo direitinho e... marcou os treze pontos sozinho na mega sena, e, ainda por cima, tirou o primeiro prêmio na federal". Correntes, correntes, já as vi de todas as maneiras possíveis, destinadas a ricos, a pobres e às classes média, baixa e baixíssima. Já as vi com todo tipo de redação, partindo de gente que entende, de gente que pouco mais sabe do que fazer um "ó" com fundo de garrafa. Há daquelas correntes que chegam em envelopes baratos, capeando surradas notas um real, já fora de circulação, aquelas que nenhuma criança aceita mais, nem por brincadeira. Há as que vêm por e-mail, controladas com comando de recebimento, cláusula de satisfação garantida ou seu dinheiro de volta", como se fossem de vendedoras de eletrodomésticos. Tudo muito interessante e bastante curioso... Não foi pequena minha surpresa, quando recebi, há poucos dias, de uma amiga, uma corrente realmente internacional, com passagens por vários países e destinada a esperantistas, tendo como agrado o recebimento, em linha final, de centenas ou milhares de cartões postais. Iniciada na Alemanha, seu exemplar foi remetido por correspondente que ela tem na Polônia, os primeiros nomes endereçados para o sul da Rússia e para a um bairro da cidade de Tóquio. Fiquei curioso e interessado, e lá vão correntes redigidas em esperanto, inglês, francês e espanhol, dirigidas a colegas de grupos de literatura moradores na Suécia, no Emirado Árabe, nos Estados Unidos e na França, além de outros que moram aqui mesmo nesta movimentada Montes Claros. Mas, de todas essas correntes, a mais interessante que recebi na longa caminhada da vida é a que passo a transcrever, nenhum comentário fazendo, e deixando a apreciação por conta do leitor que, a partir de agora, passa também à condição de destinatário. E que faça bom proveito. Ei-la: "Esta corrente foi feita para homens comprometidos e esgotados como você: não é necessário dinheiro. Faça 5 (cinco) cópias e mande para seus amigos na mesma situação e que sejam de inteira confiança. Em seguida, empacote sua mulher e envie para o primeiro da lista, acrescentando seu nome em último lugar. Quando seu nome estiver no primeiro, você receberá 16.478 mulheres, e algumas delas poderão ser interessantíssimas. Não quebre a corrente. Um sujeito quebrou-a e recebeu a mulher de volta. Um amigo meu já recebeu 18. Hoje, foi o enterro dele. Tinha nos lábios um sorriso nunca visto durante toda a sua vida... Mantenha a corrente e morra contente".

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Por Wanderlino Arruda - 27/1/2010 07:26:34
SOBRETUDO PALAVRAS

Wanderlino Arruda

Existe na cidade de São Paulo um cursinho de língua portuguesa destinado ao ensino de redação que dá, como único meio de aprendizagem, a contínua produção de poesias. Só poesias e nada mais, poemas sobre poemas, estrofes e mais estrofes de versos possíveis e impossíveis, com métrica e sem métrica. O universo de cada aluno é o eterno versejar, uma poetização do mundo e da vida, existam ou não existam vocações autênticas. Ninguém tem direito de não ser artista ou de não ter inspiração momentânea. Aquela estória de que aluno é o único redator que ter de escrever na hora em que não quer e sobre o tema que não pode escolher. E por que o cursinho de São Paulo escolheu tão gostosa e musical forma de ensinar o processo de comunicação em língua pátria? Onde a vantagem da busca de rimas, da medida de sílabas, do procura-que-procura o balanço dos sons? Isso resolve alguma coisa ou revoluciona o ensino? O que o noticiário diz é que os alunos estão surpreendentemente satisfeitos e até, segundo demonstram, mais inteligentes a cada dia que passa. Dois motivos levam a isso: vêem-se na obrigação de raciocinar em tempo integral e passam a valorizar muito mais a grafia, a sonoridade e o valor do significado de cada palavra, de cada vocábulo grande ou pequeno. Substantivos, adjetivos, advérbios, verbos com seus tempos e modos, números e pessoas, transformam-se em suave material de construção lingüística, tudo uma graça! Já imaginou como o mundo seria bonito e tão interessante se todas as pessoas se transformassem, de uma hora para outra, em dedicados menestréis, em declamadores, em jograis, em poetas? Já pensou se cada pessoa feia ou bonita, inteligente ou burrinha, se visse assim-assim no papel de musa inspiradora, foco da musicalidade da última flor do Lácio inculta e bela ou de outra língua qualquer? Já imaginou como o mundo seria bonito e tão interessante se todas as pessoas se transformassem, de uma hora para outra, em dedicados menestréis, em declamadores, em jograis, em poetas? Já pensou se cada pessoas feia ou bonita, inteligente ou burrinha, se visse pessoal e conscientemente em um papel inspirador, foco da musicalidade e da semântica da última flor do Lácio inculta e bela ou de outra língua qualquer? Outra luz iluminaria o amor e a amizade, outros cantares fariam da natureza o cântico da imaginação! Aí a palavra reinaria absoluta e os dicionários seriam os livros mais importantes de todas as estantes e gavetas, de todas as bolsas de estudantes daqui e de alhures. Mais do que nunca a palavra seria realmente uma entidade viva e palpitante. Fico pensando que essa idéia dos professores paulistas deveria ser imitada urgentemente, como se faz naqueles projetos de esforço concentrado que os nossos deputados e senadores aprovam madrugadas a dentro para não deixar para outro dia. Vencedora a palavra, amanhã os nossos valores seriam outros. Trabalho, competência, idéia, talento, amor, luta, democracia, honestidade, gente, fé, informação, povo, paz, arte, livro, liberdade, imprensa, fraternidade, justiça, esperança cultura, todo o universo de vocábulos seria a argamassa para a construção da vida.

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Por Wanderlino Arruda - 20/1/2010 07:45:09
ENCONTRO COM O GÊNIO DA VINCI

Wanderlino Arruda

Eu lera com sofreguidão e por várias vezes o anúncio "assinado" por Leonardo da Vinci e publicado em revistas nacionais. Era um convite para uma exposição preparada, em Nova York, por um artista da IBM americana e destinada a salões do mundo inteiro. No Brasil, às cidades de São Paulo, Rio e Brasília. A publicidade dizia, com atualização, que até o fim do ano, mas sem marcar data específica, os admiradores da vida e da obra de Leonardo da Vinci poderiam com calma, percorrer toda a trajetória de suas invenções de aparelhos, seus textos, seus enigmas estariam à disposição de quantos se interessassem e dispusessem de algum tempo para viver e sonhar o sucesso. Era só esperar! Na ocasião da leitura do anúncio, prometi a mim mesmo fazer viagem a qualquer uma das três capitais, simplesmente porque não poderia deixar de ver a exposição, de conhecê-la, de admirá-la como um presente à cultura, ao conhecimento e à existência. Vida difícil, corrida, trabalhosa, o tempo passou, e a desinformação do interior acabou deixando passar despercebidas as mostras de São Paulo e do Rio. Nenhuma notícia, não onde, não quando. Nenhuma explicação para mim mesmo do porquê não ter acompanhado o assunto com mais cuidado. Cheguei a pensar mais tarde de quanto teria perdido se não fosse o acaso me ter colocado em Brasília exatamente nos três últimos dias de presença, do gênio e da alma do Leonardo, mesclados com a beleza e a grandiosidade do Teatro Nacional, formando uma simbiose de artes egípcia e italiana. Primeiro assistir ao vídeo bem feito com os principais fatos da existência do mestre Leonardo, seus relacionamentos, seus esforços, sua garra de criar o impossível e possível; depois, o percorrer de todo o roteiro inventivo. Não apenas um dos maiores pintores da humanidade, a curiosidade sem limites levou-o a explorar todos os ramos do conhecimento, criando engenhos ultrapassando obstáculos do tempo e do espaço. Assim, pela ordem, uma maravilhosa exposição explicativa, descritiva, da ponte giratória, do inclinômetro, da metralhadora tripla, da impressora automática, do macaco hidráulico, da assadeira com ar quente. Logo adiante, o higrômetro, o helicóptero, o ornitóptero, a transmissão de velocidade variável, a ponte de dois níveis, o pára-quedas, os cascos fusiformes e duplos de navios, o mecanismo de relógio, o odômetro, o tanque de guerra. Leonardo da Vinci, através do também gênio Roberto Guatelli da IBM, autor de todas as maquetes realizadas com absoluta precisão, estava mais vivo do que nunca, presente até, incorporado à mais avançada tecnologia mundial do momento, despertando e revivendo a admiração de cada visitante. Ninguém é capaz de resistir a emoção de vê-los e amá-los, de acompanhá-los como maiores inteligências e capacidades de sonho. Cinco séculos depois, afinal, a IBM pôde oferecer um dos mais belos acontecimentos, uma das provas mais palpáveis do quanto o esforço e a vontade de vencer podem engrandecer o homem. Não só o gênio é necessário. Leonardo da Vinci, mais do que qualquer outro artista é criador, provou que o trabalho incessante e decisivo ainda é a melhor forma de produzir inteligência e genialidade. Os séculos futuros jamais esquecerão Leonardo da Vinci!

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Por Wanderlino Arruda - 13/1/2010 07:29:06
RUAS DE LISBOA

Wanderlino Arruda

Não creio que exista outra cidade no mundo com ruas de no¬mes mais engraçados do que as de Lisboa. Parece que os portu¬gueses que viveram mais perto de El rei tinham mais aguçada a imaginação, eram mais românticos ou, então, queriam uma noto¬riedade pelo lado alegre da vida. Os lisboetas, lisbonenses ou ulis¬siponenses, conforme o grau de erudição, ou simplesmente alfaci¬nhas, conforme o grau de intimidade, foram sempre uma gente bem disposta, cheia de vida, vaidosa por sua cidade. Chamam Roma de cidade eterna, mas eu acho que Lisboa é que é cidade de nunca se esquecer. Ninguém passa pela capital portuguesa como um sim¬ples passageiro. Lisboa é terra para uma saudade de vida inteira, fina, aconchegante, educada, cheia de cultura, inteligência e arte em cada rua, em cada beco, nos largos, nas travessas, nas praças, nas ladeiras, nos terreiros em vielas ou avenidas, no morro do Castelo ou na beira do Tejo! Eterna menina moça, noiva e namorada, Lisboa tem a mágica de uma lembrança de muitos séculos de história, o encanto das descrições literárias de Eça, de Herculano, de Castilho e até do nosso saudoso David Nasser, que tanto amou o que ele chamava de "Portugal, meu avôzinho". Se Lisboa fosse brasileira, podería¬mos dizê la um doce de coco, tempero de cravo e canela, bem chegada ao nosso coração! Sentimental ou não, o papel do visitante brasileiro é ter muito amor, descobri la, percorrê la, vivê la com carinho e sofreguidão! Apaixonada como Lisboa, viva, vívida, bem vivida, talvez só a nossa Salvador, que em alegria quase santa, é cidade de todos os santos. Tão bonita ou mais bonita, possível que só o Rio de Janeiro. Aconchegante, faceira, quem sabe só Fortaleza ou Maceió! Lisboa muito tem de Manaus, de Porto Ale¬gre, de Belo Horizonte, de Curitiba! Linda, movimentada, antiga e moderna ao mesmo tempo! O gostoso é que Lisboa nunca perde seu encanto, com velhos elevadores, velhas igrejas, o casario de telhados vermelhos em Al¬fama, a beira do Tejo, rio mar, com brancas gaivotas; a historia viva nas paredes de pedras do castelo romano de São João, o Rossio, o Chiado, o bondinho valente da Graça, as cegonhas do Sete Rios, os vendedores de rua, as raparigas de chales negros, as feireiras de saltos de madeira e vistosos brincos de ouro, o Bairro Alto, o som do fa¬do! Encanto em todos os cantos! Mas o mais gostoso em Lisboa são os nomes das ruas ou de todos os lugares por onde passam as gentes, por onde a gente passa. Ninguém pode deles esquecer: Beco da Amorosa, Largo das Garridas, Poço dos Negros, Pátio do Albergue das Crianças Aban¬donadas, A Calçadinha de São Miguel, Beco do Pocinho, Rua das Escolas Gerais, Rua da Fresca, Rua da Bempostinha, Quinta do Espião, Pátio do Joaquim Polícia, Pátio das Malucas, Travessa do Pinto, Quinta da Argolinha, Rua da Horta Nova, Travessa do Vin¬tém das Escolas, Pátio do Ferro de Engomar, Travessa do Pau de¬-ferro, Azinhaga da Bruxa... Tudo um amor! Tem mais, tem muito mais: Pátio da Fartura, Rua da Cozinha Econômica, Rua da Horta das Tripas, Rua Joaquim Leiteiro, Bairro das Galinheiras, Beco da Bicha, Largo do Chafariz de Dentro, Beco do Pocinho, Rua do Benformoso, Vila do Penteado, Rua do Alfredo Pimenta, Largo da Bomba, Beco dos Surradores, Travessia da Ze¬bra, Vila do Cabaço, Rua do Saco, Travessa da Rabicha, Rua da Buraca, Rua dos Bons Dias, Pátio da Mariana Vapor. Cinco são as ruas chamadas Direita, uma rua chamada Esquerda, Rua da Pátria, Rua do Ouro, Terreiro do Paço. Quanta fartura de ruas com nomes de santos, só de Santo Antônio, quase cinqüenta! Existem até a Travessa dos Prazeres, a Rua da Triste Feia e a Praça da Alegria! Não sei quando, mas ainda vou vê las de novo!

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Por Wanderlino Arruda - 22/12/2009 09:15:42
NELSON WASHINGTON VIANNA

Wanderlino Arruda

Escolhi, como patrono da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, um notável homem de letras da nossa região, um regionalista e sério pesquisador de costumes, literato de fôlego, um sentimental homem do sertão, sempre vestido com roupagens de sério trato: Nelson Washington Vianna, um curvelano mais do que montes clarense. Escolhi o como desejo de marcar de modo definido minha admiração por sua obra diretamente ligada às gentes do grande sertão do Norte, ao agricultor, ao caboclo, ao vaqueiro, ao freqüentador de feiras, ao fazendeiro, ao contador de "causos", assim como ao tocador de viola, ao solitário das madrugadas e das bocas de noites. Elegi-o em homenagem a todos os sertanejos que, cansados das tarefas do dia, se sentam nos calca¬nhares para ouvir ou falar com sabedoria. Nel¬son Vianna, com a sinceridade do cientista, contou muito da esper¬teza do interiorano de Minas, homo rusticus ou homo urbanus, pessoas com a alma aberta à criação de tipos, caracteres e personalidades de rara beleza, tanto para a vida diária como para as letras. Ele despertou um sentido novo de humor, uma figuração de inteligência e perspicá¬cia, um savoir vivre e savoir faire difíceis de se encontrar em outra literatura. Perscrutador impenitente, incansável olheiro da fraqueza humana, quase libidinoso no modo de ver e interpretar, Nelson Vianna foi imaculadamente o grande repórter de uma vasta reportagem do homem sertanejo desse lado de cá do mundo, que vem do coração de Minas até os Montes Claros. Ele sempre viveu acompanhando vertentes e serrarias, capões de mato e serrados, veredas e gerais, cenários tão gratos aos nossos corações. E pena que eu não tenha conhecido tão bem Nelson Vianna como o conheceu Cândido Canela, Mário Veloso, Olyntho da Silveira, Vianna de Góes, como o estudou o grande cronista Haroldo Lívio. Homem distante, severo, de poucos amigos, ele não dava muita oportunidade aos mais novos nem para pequenas conversas ou ligeiras troca de idéias. Lembro me de ter conversado com Nelson Vianna apenas uma vez, na varanda da casa de Osmani Barbosa. Estava eu na¬quela ocasião interessado em fazer uma pesquisa sobre a literatura do Grande Sertão, exatamente no pedaço de terra que fica entre o centro de Minas, a Serra das Araras e Carinhanha. Precisava de dados comparativos de dois estilos que dissessem diretamente sobre o elemento humano, fruto teórico da paisagem sofrida, ponto de ligação entre a natureza e a vida do passado e do presente. Propus, então, a ele uma entrevista, do homem e do literato, para que eu pudesse, depois, compará lo com Guimarães Rosa, o outro lado do trato com o comportamento sertanejo. Nelson Vianna espantou se, olhou me de frente, franziu o semblante, parece até que tremeu - e, considerou minha atitude uma audácia: fazer comparação dele com Guima¬rães Rosa não tinha qualquer propósito, não havia paralelos; Guimarães, o grande escritor, ele - segundo ele mesmo - um joão ninguém. É isso o que pensava. Não, não era possível, era um absurdo, não me daria entrevista alguma. Insisti, mostrei que a diferença de estilos não desmanchava a beleza nem a precisão des¬critivas da relação humana e humanística do tema e que, embora divergentes, ele e Guimarães eram literariamente sertanejos puros. De nada adiantou, foi irredutível, iria pensar, poderia ser ou não ser . . . mais para o não ser. Aquele encontro de frente e direto na casa de Osmani Barbosa com Nelson Vianna foi o último, o único, como também estava sendo o primei¬ro. Mudou se o escritor, logo em seguida, para Belo Horizonte. Quando o vi de novo, foi andando lá pelo quarteirão montes clarense da Rua Tupis com a Rua Rio de Janeiro, aparentemente distraído e solitário, senhor ou não da vida. Claro que não me reconheceu ... E até parece que a Montes Claros nunca mais voltou nem a passeio. Coisas que só o Haroldo Lívio deve e pode entender...
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Por Wanderlino Arruda - 9/12/2009 07:06:55
DOCES SAUDADES DO COLÉGIO DIOCESANO

Wanderlino Arruda

Não me canso de ter saudades do tempo bom e gostoso das aulas do Colégio Diocesano, de quando podíamos, todos os dias, sentir e ouvir a alegria do Monsenhor Osmar, a braveza do Padre Agostinho e a terna amizade do Monsenhor Gustavo. É de fato um momento inesquecível, de quando cada gesto era uma lição, cada atitude uma experiência de seres em luta e em paz com a vida. Os três juntos, ou cada um em particular, eram para nós, meninos-rapazes, o grau mais alto da sabedoria, a fonte inesgotável de conhecimento, os degraus por onde alcançar a segurança do futuro. É claro que, particularmente, um por um tinha o seu séqüito de seguidores, dependendo da esperteza ou do grau de inteligência de cada aluno, ou mesmo da maturidade ou falta de juízo, como podíamos encontrar nos mais sérios como Geraldo Miranda e Nivaldo Neves, ou nos mais afoitos como Pai da Mata e João Doido. Em órbita havia gente de todo jeito, tipo Tereziano Dupin, Renato Pobre, Renato Almeida, Dezinho Dias, Ivan Guedes, Lazinho Pimenta, Raimundo Santana, José Maravilha, personalidades marcantes que iam do folclore à poesia, do trabalho sério à justa compenetração. Cada dia era um novo esquema de novidades, de surpresas, uma sensação de estarmos construindo o mundo, preparando-o para a nossa geração e para todas as outras que poderiam vir depois de nós. Ninguém fugia da luta, tirar o corpo de banda, em qualquer tarefa, era um sacrilégio. Matar aulas era pecado capital. Durante a semana não valia nem cinema nem namoro. A ordem era estudar! Uma única transgressão era permitida e só ao Miranda, porque ele havia inovado o sistema, inventado uma saída, namorando com a professora Lourdes, inteligentão que era. O Dezinho Dias, já mais velho um pouco, falava de fazendas, de vez em quando ou toda hora. O Raimundo Santana era um importante, pois tinha bicicleta e tomava uísque antes das provas de matemática. Ivan impunha grande respeito, já era destaque: de vez em quando jantava em restaurante, depois do grêmio e até em dias de semana, pois ganhava boas gorjetas aplicando injeções. A maioria, como eu, não tinha dinheiro nem para picolé ou quebra-queixo, e quando muito, bebíamos caldo de cana. Cafezinho era luxo para pouquíssimos! Professor bom mesmo era o Pedro Santana, vibrante, grã-fino, dominante nas cadeiras de História, Ciências e Inglês, um terror para quem não tivesse as matérias na ponta da língua, a capacidade de responder, falando ou escrevendo, sem gírias. Pedro era tão imponente, que não repetia ternos e gravatas durante um mês, cada dia uma nova cor, hoje um três-botões, amanhã um jaquetão, tudo dentro do melhor figurino de Vavá ou Wilson Drumond. O cabelo, ah! O cabelo era que merecia o maior cuidado! A barba, de um barbear diário na barbearia de Antônio Guedes, com massagem facial, na mesma hora em que também estavam sentados os intelectuais Júlio de Melo Franco e Nelson Vianna, fregueses de manhã cedinho. Errar com Pedro ou com o Padre Agostinho - outro elegante - era imperdoável. A nota menor que um bom aluno podia tirar era dez. O nove era um (de)feito vergonhoso! Havia outros professores famosos e entre eles o Tabajara, a Terezinha Pimenta, Doutor Carlyle, Maria Inês Versiani, D. Rosita Aquino. O professor Belizário, falava latim, declamava admiravelmente, e tinha o cabelo à Castro Alves. Em certas ocasiões, o bispo D. Antônio, simples e simpático, chegava a assistir a algumas aulas, sentado conosco, perguntando e participando, como se não soubesse de tudo! D. Antônio, muito querido de todos os alunos, era a maior inteligência da época, uma cultura universal, um poder oratório que Montes Claros nunca teve igual, nem com Simeão Ribeiro, ou com os doutores Maurício e Georgino. Tudo era um admirável mundo novo, principalmente para mim, que sem ternos e sem paletós - o primeiro foi o Vadiolando Moreira que me deu - achava tudo aquilo um sonho em realização. Maravilhosamente encantado, sedento de aprender, nunca cedendo o primeiro lugar a ninguém, a ninguém mesmo, uma coisa me marcou profundamente a diretiva na vida e me tem servido constantemente de bom exemplo: a alegria de viver de Monsenhor Osmar Novais de Lima, nosso diretor!

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Por Wanderlino Arruda - 1/12/2009 07:28:03
A FOME DO LEÃO DE ADAUTO

Wanderlino Arruda

Quem sempre inventou o maior número de lances da estória do circo pobrezinho é o Adauto Freire. De minha parte, tenho dado a maior contribuição de que sou capaz, mas, nunca consigo ter tanta imaginação como ele, a cada tempo com um novo colorido, um detalhe, uma figuração mais humana para dar mais crédito à criatividade. A estória já tem uns vinte anos e, contada e recontada, principalmente para colegas e ex-colegas do Banco do Brasil, dá sempre um sabor novo e um halo de simpatia. A Raquel por muito tempo deliciou-se com os eventos, no trabalho e em casa, pois o Rafael e o Rodrigo, quando meninos, especializaram-se em armar circos de brinquedo só para fazer o leão urrar com depressão e tristeza. Paulinha, Paulo Sidônio, Maninho, Elizena, Mariazinha, Consuelo, mais sérios, sempre perguntaram até onde podia uma coisa dessas acontecer. Realmente, era um circo bem pobrezinho, muito embora dotado de bom palhaço, de artista comedor de fogo, de trapezista loura, baleiro, tratador do leão. A trapezista era a vendedora dos ingressos quando achava alguém com coragem de comprá-los. O tratador do leão era o mesmo encarregado da pirofagia, isto é, o lambedor das labaredas, e o vendedor de caramelos e de chicletes. O palhaço acumulava também a função de dono e gerente da companhia. Como vemos, pouca gente, que em condições normais seria fácil de se manter. A verdade, porém, era uma lástima, um miserê dos capetas, como diria nosso prefeito Luiz Tadeu Leite nos tempos em que era ainda radialista na D7, com a boca no trombone. Com o correr do tempo, passada a primeira semana com assistência normal, o circo virou uma verdadeira escola de sacrifícios, a fome chegou solta e para valer, privação total, salva apenas por dois pés de manga rosa bem em frente à bilheteria. O palhaço de tão pálido de desnutrição já nem precisava usar tinta amarela nem branca, no que ele aproveitava para fazer economia na pintura do rosto, bastando o vermelho, o preto e azul. Durante o dia, empregou-se como vaqueiro num sítio próximo e, nas horas vagas, trabalhava como embrulhador num supermercado. A trapezista foi ser empregada para almoço e jantar na casa do médico, fazendo ainda uma fezinha como lavadeira no tempo de descanso. O tratador do leão foi ser raizeiro no mercado, principalmente no horário de dar comida, pois, já não agüentava mais os lamentos do bicho, que a todo momento urrava - "e lugarrrr". Difícil mesmo era a situação dos meninos, filhos da necessidade com cara de herege, deitadinhos e coitados, de barriga para cima, perto das mangueiras, quando viam uma manga já com um pouco de brilho, subiam correndo tronco acima, e as virava para tomar sol do outro lado e amadurecer mais depressa, enquanto a fome não fosse de morte. Quando a situação ficou mesmo com o absoluto de pobreza, a metade da cobertura foi vendida para lona de caminhão carvoeiro e as tábuas das arquibancadas foram cedidas a preço de custo para tapume na construção de um grupo escolar da prefeitura. O mais engraçado, na falência da empresa, foi feito com o leão, e isso o Adauto sempre afirmou ser testemunha ocular: passaram sabão de coco com água no corpo da fera, fizeram a barba de alto a baixo e o venderam como cachorro para um comerciante de Montes Claros, cidade-sede da região...

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 24/11/2009 11:28:20
PRIMEIROS PASSOS

Wanderlino Arruda

Não sei bem porque, mas ser jornalista era um sonho que eu acalentava há muito tempo, bem antes de ter-me mudado para Montes Claros, nos meus adolescentes dias de Taiobeiras, tempos de convívio com tudo que um ainda quase menino poderia sonhar. Escrever para jornais e revistas, naquela época já não me parecia uma coisa totalmente impossível, tinha cheiro de realidade, com boa marca de prazo por acontecer. Na verdade, foi de lá o bom começo, nos meus primeiros exercícios de charadismo e de palavras cruzadas, quando não me limitava à passividade das decifrações, mas indo com determinação a bem mais do que isso: passei a compor charadas e a construir os primeiros desenhos e armar as primeiras batalhas de vocábulos e siglas, encaminhando-os à Revista "Libertas", que a Polícia Militar publicava em Belo Horizonte e à "Revista da Marinha", que o Ministério da Marinha editava no Rio de Janeiro. Era uma experiência e tanto, uma grande alegria ao ver textos e nome publicados em letras de imprensa. Aníbal Rego, amigo e companheiros de estudos, um dos melhores professores que já tive, muito me incentivou, procurando valorizar meus primeiros passos nesse tipo de atividade na imprensa. Desenhar a nanquim eu sabia de alguma forma, o que eu não sabia era datilografar, que era coisa difícil em cidade de interior. Foi aí que Ageu Almeida, outro amigo, nas horas de folga da farmácia, me deu grande ajuda, ensinando-me, corrigindo e, mesmo, passando a limpo minhas primeiras produções. Foi uma boa escola, coisa de jamais me esquecer. Depois, vendo meu esforço, meu interesse, meu pai comprou uma máquina de escrever e um método simplificado de datilografia. Foi para mim, não tenho dúvida, uma fase de encantamento e alegria. Ainda me lembro de tudo como se fosse hoje: coloquei máquina e livro em cima da canastra de madeira e couro, que havia no meu quarto, bem em frente à janela para aproveitar a claridade, e passei a gastar nos exercícios resmas inteiras de papel almaço, batendo e rebatendo as quatro carreiras de teclas - dedos das duas mãos - até adquirir razoável destreza para escrever bilhetes, cartas e pequenos relatos de acontecimentos de cada dia. Foi assim que - quase datilógrafo - cheguei a Montes Claros, em janeiro de 1951, já com meio caminho andado para trabalhar em jornal. Quando o prefeito Enéas Mineiro e médico Luiz Pires fundaram "O Jornal de Montes Claros", alvoroçado, vi abrirem para mim as portas de uma nova profissão, sentindo mesmo que o grande sonho poderia transformar-se em realidade. Nada, porém, aconteceu, porque o excesso de trabalho no comércio, as tarefas no Colégio Diocesano, a leitura de pelo menos um livro por semana, as cartas para a namorada, tudo, tudo não deixava tempo para o futuro jornalista. Na faixa dos sonhos quase reais, num querer muito, acompanhei, mais do que interessado, a primeira fase do jornal, principalmente as polêmicas entre professor Pedro Sant"Ana e o jovem médico João Valle Maurício. Depois veio a política estudantil no grêmio do Instituto Norte Mineiro, com eleições perdidas e eleições ganhas, liderança construída quase a ferro e fogo. Foi também nesse tempo que recebi de Waldir Senna a presidência do Diretório dos Estudantes, numa velha sala da Rua Doutor Santos, em frente ao Hotel São José. E daí, para quem vinha de tão longe na vida estudar de favor, o novo cargo era um brilho súbito, uma quase consagração, nome diariamente no rádio e pelo menos duas vezes por semana nos jornais. Deve ter sido por isso que o professor José Márcio de Aguiar, que não era tão meu amigo como o era de Haroldo Lívio, resolveu atender o pedido de Oswaldo Antunes e me mandar para o JMC. Antes, recomendou-me o máximo de respeito à gramática, cuidados no contato com o público, e mais do que isso: nunca esperar do jornalismo a riqueza de saldos bancários, porque jornalismo teria que ser sempre um sacerdócio, ou mais do que isso. Trabalhei três meses sem ver cor de dinheiro, tudo completamente de graça e até com alguma despesa saída do meu próprio bolso. Depois, Oswaldo destinou ao jovem e apressado repórter o diminuto salário de mil cruzeiros, sominha que nem dava para pagar um mês inteiro à pensão de D. Duca. Um bom começo. Claro, um bom começo!

Do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 4/11/2009 13:04:26
ENCANTADORA A POESIA DE EVANY

Wanderlino Arruda

Somente a sabedoria nos coloca em situação de ver além das aparências, seja esta dos fatos, seja esta dos sonhos. Só a sabedoria remete-nos direto ao significado verdadeiro de cada acontecimento, de cada nesga ou lance de vida. Somente a sabedoria nos faz ver uma legítima dimensão poética e a função quase divina de quem pensa e de quem faz o verso e o ritmo do verso, melhor dizendo, de quem é e de quem se sente poeta. Digo mais: só a minha experiência - não muito nova no campo do saber literário - me remete à interpretação do muito bonito e encantador texto de Evany Cavalcante Brito Calábria, ao mesmo tempo história e marca de família, ao mesmo tempo estórias e causos mineiros, entreouvidos e sentidos com a marca existencial da menina, sempre linda e criativa. Leitor atento de todos os poemas deste INFÂNCIA VERDE, confesso que faço minha a conhecida posição de Ferreira Gullar em relação ao fazer poético e a esse universo que não conseguimos aprender no todo, porque nascido conosco no modo até mais do que pessoal. Somos seres do grafar e do laborar palavras e sentimentos. Temos o talento e a inspiração que chegam como relâmpagos e por caminhos de sonhos, tudo dividido ou multiplicado, tempo-espaço do ser, do viver e do conviver. Só ao poeta a necessidade de espanto com as coisas e com os acontecimentos, flor e fruto da motivação que leva ao poema e à poesia, algo muito mais do céu do que da terra. Em poesia o saber, o saber fazer e o querer fazer não são suficientes, porque de nada adianta a técnica quando não há inspiração e/ou marcas de sentimentos. Mesmo para seres privilegiados por Deus para entregar ao mundo a ordenação lógica das palavras, só uma vivência encantada nos permite construir - versos depois de versos - textos com cadência e musicalidade, haja ou não rimas de dentro ou de fora. Para o poeta a epopéia ou o lirismo, querendo ou não querendo um modo diferente de lidar com idéias, um superar limites racionais, quase sempre sem o controle da razão. Sinto-me feliz e prazeroso com os muitos textos de Evany, bonitos e elegantes do começo ao fim, tudo gramaticalmente limpo e perfeito, resgate da infância que o tempo não desviou em momento algum, sempre vida bem vivida em saudades do passado e em vôos de esperança e de futuro. Na idéia de D. Olga, mãe e conselheira, em Evany a poesia é um eterno querer bem, um dizer sim para todas as belezas do corpo e do espírito. Por mais que essa poesia se esquive de suas mãos, Evany fugir ou fingir não pode, porque ela inteirinha é um colorido momento de saudades, sempre e sempre uma pura alegria, cenário de sonhos, princesa e rainha vestida e revestida de amor. Sobre isso, a própria Evany faz relembranças: "Eu tinha doze anos e uma vida inteira". Tinha e tem, digo eu, prefaciador do seu primeiro livro. Não somente de imagens e de idéias, não somente arco-íris de beleza, Evany é mulher decidida e incrivelmente organizada, sempre afeita ao trabalho de cada dia. A ela, por isso, posso atribuir em parte e com pequenas modificações, os versos de Camões que dizem não aprender somente na fantasia, sonhando, imaginando ou estudando, senão vendo, tratando e pelejando. Afinal, o mundo vitorioso está nas mãos das pessoas que têm coragem de sonhar e laborar, pessoas capazes de correr risco para viver todos os seus sonhos. Feliz de quem atravessa a vida tendo mil razões para viver. Um charmoso jogo de amor! Desejo a Evany todo o sucesso do mundo, certo de que a sua lavra poética está entre as dez mais bem aquinhoadas de nossa Montes Claros. Conscientemente hábil nos raciocínios e nos sonhos, Evany pode dizer como disse o poeta Manuel Bandeira: "Não faço poesia quando quero e sim quando ela, poesia, quer." E como Cora Coralina: "Nunca escreverei uma palavra para lamentar a vida. Meu verso é água corrente, é tronco, é fronde, é folha, é semente, é vida". Evany - ser especial - é água, fogo, brisa e vento... Telúrica ainda menina, telúrica moça, telúrica mulher. É espaço, terra e tempo... É uma trajetória do pensar e do viver com alegria, vereda fértil de amor e de carinho, uma imensa vontade de caminhar... ir e vir ao mesmo tempo. Este INFÂNCIA VERDE, publicado em nosso Consórcio Literário da Secretaria de Cultura, não é apenas o seu primeiro livro, é pedra angular de muitos outros. O segundo e o terceiro já estão pertinho da editora... Academia Montesclarense de Letras


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Por Wanderlino Arruda - 20/10/2009 09:04:09
CLASSE E ELEGÂNCIA

Wanderlino Arruda

Como, há algum tempo, falei de etiqueta social, de um meio curso da Socila que acidentalmente fiz no Rio, aproveitando intervalos de função pedagógica no Banco do Brasil, sinto-me, hoje na obrigação de transmitir para o pessoal do centro e da periferia algumas regrinhas de bom-tom que muito ajudam na elegância do bem-viver. Falo assim de centro e periferia sem a mínima vontade de discriminar ou dividir o mundo em pobres e ricos. Longe de mim em pensar nisso! Falo, porque tudo hoje virou farinha do mesmo saco, ricos passando para a classe média, remediados chegando à pobreza, pobres subindo de vida, ou até mesmo ficando mais pobres. Uma mistura proletária na maior parte com o facão de impostos do governo podando por cima e por baixo. Na descida de quem paga e na subida de quem recebe, aparece até a classe dos marajás, que também precisam de etiqueta para explicar educadamente quanto ganham, ou abocanham. Pois bem, em primeiro lugar no trato do dia-a-dia é preciso aprender a apresentar ou ser apresentado, como cumprimentar, como pedir desculpas, como evitar ou sair-se das gafes, como ser elegante mesmo nunca tendo ao menos sonhado com um berço de ouro. Claro que há pessoas expansivas e pessoas tímidas, cada qual terá seu próprio ânimo na hora de agir. O essencial é não preocupar-se demais com as formalidades. Agindo naturalmente, a possibilidade de erros será sempre menor, embora necessário o conhecimento das regras. Nada de frases empolgadas como “permita-me que eu lhe apresente...”, “Eu tenho o imenso prazer de apresentar-lhe...”. Basta um “Você conhece...” ou “Faço a questão que você conheça...”. Apresente sempre a pessoa menos a mais importante. A mais jovem a mais velha, o homem à mulher. O sobrenome é válido, ainda mesmo que entre os jovens. É pelo sobrenome que as pessoas podem identificar, localizar os pontos de referência comuns. Nem sempre é indispensável citação da família, principalmente nas cidades menores. Cabe à pessoa mais importante, àquela que recebe a apresentação, fazer o primeiro gesto, e estender a mão, fazer um aceno de cabeça. Acrescente à apresentação algum dado que qualifique as pessoas. “Você conhece Eva, uma ótima professora?”, “Já conhece o Hércules, um excelente advogado?”. Isso dará a motivação para a conversa, o gancho para o início de assunto. Há sempre um momento de pânico quando você esquece o nome da pessoa que tem de apresentar. Há várias possibilidades: a) você pergunta claramente à pessoa em questão qual o seu nome, dizendo que se esqueceu; é uma maneira sincera de agir, mas corre-se o risco de magoar o outro; b) evita apresentar, incluindo apenas o outro na conversa; e c) você usa uma fórmula intermediária, do gênero: “Vocês já se conhecem?”, que, em geral, leva as pessoas a se apresentarem. Com simplicidade e simpatia, tudo ficará bem colocado. Outra coisa: pedir desculpas é bom e louvável, é um ato social indispensável, e bom que seja mesmo na hora do erro. Ninguém precisa ficar com vergonha de pedir desculpas. Se não o fizer na hora, que o faça depois por telefone, com um cartão, com bilhete. O que não pode é deixar passar um erro ou indelicadeza sem uma palavra de explicação. Seja você com toda a sinceridade. Só os inimigos não mandam flores! E por falar em sinceridade e educação, muito obrigado à Revista Nova, de onde realizei a pesquisa para toda essa sabedoria na arte de viver mais civilizada.

(Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros)


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Por Wanderlino Arruda - 7/10/2009 07:07:44
JOÃO CHAVES

Wanderlino Arruda

No antes, no durante e no depois sempre um feliz encanto tem marcado a vida de João Chaves. Isso é coisa que o leitor, que acaba de acompanhar todos os capítulos do livro de Amelina Chaves, não precisa de muito esforço para verificar. Basta um pouco de visão panorâmica e raciocínio comparativo para valores humanos - pessoais ou de família - importantes no tempo e na vida. Assim, vejamos, leitor/leitora, se estou ou não com a lógica, se tenho ou não tenho razão. Voltemos, pois, a nossa análise para para todas as páginas deste livro e decifremos os Chaves e a chave do sucesso do biografado João Chaves. A primeira visão, o primeiro foco tinha que estar realmente no Cônego Chaves, ser fecundante em idéias e ações, em amor à fé e à vida, multiplicador de encargos na qualidade e na quantidade da quase iniciante população da Vila de Formigas. Ótimo exemplo de quem deseja um mundo maior e melhor. Do ontem ao hoje, toda uma riqueza de filhos e filhos dos filhos, em quatro gerações, cada um dando conta do seu recado na mecânica da criação. Mais seres e saberes, nas belezas da vida e da arte. Bom e importante que no centro do tempo esteja João Chaves, nosso maior e mais conhecido autor e ator de serestas, com função encantatória de elevar poderes de amor ao Céu e à Terra. Nas manhãs, sublimidade nos cantos de fé; nas tardes e noites, ternura em canções de amizade e amor. Sempre arte, sempre emoção, compromissos com a lua, seja em estreitas ruas e pequenas praças: sedutoras por natureza; seja em frias campas: sentido mais nítido da verdadeira saudade. A importância de João Chaves não esteve somente na proficiência jurídica, em que foi mestre reconhecido e seguido. Muito devemos a ele pela antecipação de teorias e aplicações da Qualidade e da Inteligência Emocional, pois que tudo que realizou teve a marca de zelo profissional e paixão humanamente sorvida: um luxo só! Zelo nas letras, zelo nas músicas, vaidade na divulgação de umas e de outras. Um homem de marketing a aproveitar todo o tempo, disposição sem limites. Bem vestido, gravata borboleta como diferencial, era árbitro da elegância sempre com ternos bem talhados, sapatos de pelica, colarinhos e punhos magnificamente engomados. Palmas para Dona Mercês, senhora e escrava de tudo. Não é favor - e não é mesmo - colocar João Chaves entre os melhores e mais eficientes construtores da cultura de Montes Claros. "Amo-te muito" e " O Bardo", pontos altos da seresta, têm dimensões importantes no cenário nacional, principalmente para os mais entendidos. Não se tem notícia de qualquer idéia em contrário. Poucas músicas, no Brasil, receberam tão entusiásticos elogios. Em qualquer tempo! Parabéns, Amelina Chaves, amiga e companheira, pelo muito que você tem resgatado dos saberes e dos costumes de nosso povo e de nossa região, principalmente desta Montes Claros, cidade da arte e da cultura. Com este livro - JOÃO CHAVES, ETERNA LEMBRANÇA - todos nós ficamos mais bem informados e mais convencidos no papel de destinatários e produtores da história local. Continue produzindo, continue embelezando a poesia das vidas edificantes. As gerações vindouras, por certo, muito lhe vão agradecer.

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Por Wanderlino Arruda - 29/9/2009 09:10:51
O GÊNIO LEONARDO DA VINCI
Wanderlino Arruda

Eu lera com sofreguidão e por várias vezes o anúncio “assinado” por Leonardo da Vinci e publicado em revistas nacionais. Era um convite para uma exposição preparada, em Nova York, por um artista da IBM americana e destinada a salões do mundo inteiro, no Brasil às cidades de São Paulo, Rio e Brasília. A publicidade dizia, com atualização, que até o fim do ano, mas sem marcar data específica, os admiradores da vida e da obra de Leonardo da Vinci poderiam com calma, percorrer toda a trajetória de suas invenções de aparelhos, seus textos, seus enigmas estariam à disposição de quantos se interessassem e dispusessem de algum tempo para viver e sonhar o sucesso. Era só esperar!
Na ocasião da leitura do anúncio, prometi a mim mesmo fazer viagem a qualquer uma das três capitais, simplesmente porque não poderia deixar de ver a exposição, de conhecê-la, de admirá-la como um presente à cultura, ao conhecimento e à existência. Vida difícil, corrida, trabalhosa, o tempo passou, e a desinformação do interior acabou deixando passar despercebidas as mostras de São Paulo e do Rio. Nenhuma notícia, não onde, não quando. Nenhuma explicação para mim mesmo do porque não ter acompanhado o assunto com mais cuidado. Cheguei a pensar mais tarde de quanto teria perdido se não fosse o acaso me ter colocado em Brasília exatamente nos três últimos dias de presença, do gênio e da alma do Leonardo, mesclados com a beleza e a grandiosidade do Teatro Nacional, formando uma simbiose de artes egípcia e italiana.
Primeiro assisti ao vídeo bem feito com os principais fatos da existência do mestre Leonardo, seus relacionamentos, seus esforços, sua garra de criar o impossível e possível. Depois, percorri todo o roteiro inventivo. Não apenas um dos maiores pintores da humanidade, a curiosidade sem limites levou-o a explorar todos os ramos do conhecimento e a criar engenhos que ultrapassam tempo e espaço. Assim, pela ordem, uma maravilhosa exposição explicativa, descritiva, da ponte giratória, do inclinômetro, da metralhadora tripla, da impressora automática, do macaco hidráulico, da assadeira com ar quente. Logo adiante, o higrômetro, o helicóptero, o ornitóptero, a transmissão de velocidade variável, a ponte de dois níveis, o pára-quedas, os cascos fusiformes e duplos de navios, o mecanismo de relógio, o odômetro, o tanque de guerra.
Leonardo da Vinci, através do também gênio Roberto Guatelli da IBM, autor de todas as maquetes realizadas com absoluta precisão, estava mais vivo do que nunca, presente até, incorporado à mais avançada tecnologia mundial do momento, despertando e revivendo a admiração de cada visitante. Ninguém é capaz de resistir a emoção de vê-los e amá-los, de acompanhá-los como maiores inteligências e capacidades de sonho. Cinco séculos depois, afinal, a IBM pôde oferecer um dos mais belos acontecimentos, uma das provas mais palpáveis do quanto o esforço e a vontade de vencer podem engrandecer o homem. Não só o gênio é necessário. Leonardo da Vinci, mais do que qualquer outro artista é criador, provou que o trabalho incessante e decisivo ainda é a melhor forma de produzir inteligência e genialidade.
Os séculos futuros jamais esquecerão Leonardo da Vinci!

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Por Wanderlino Arruda - 22/9/2009 21:45:03
SER FELIZ É A NOSSA META
Wanderlino Arruda

É triste, muito triste, ver como o mundo se acha cheio de ansiedades, de conceitos puramente materialistas e utilitaristas. Pessoas e mais pessoas se esquecem da beleza da vida, da generosidade de outras pessoas, e se colocam como pequenos donos de um pedaço de meia-verdade, julgando-se numa independência que não existe. Esquecem-se de que a existência é um insistente ensino, uma perseverante luta pela felicidade e que só podemos ser felizes na caminhada solidária, de mãos dadas, unidos, com toda a alegria possível, com toda coragem, ou pelo menos com um pouco de sorriso em agradecimento à própria vida. De nada adianta o transbordamento das paixões, a manutenção de arestas morais, o narcisismo, a supervalorização, o pretexto domínio da inteligência ou do poder, o ódio sem direção ou mesmo direcionado. Tudo é vão, o viver é um crescimento espiritual de todo o tempo.
Amar a si mesmo é importante, mas é preciso amar o semelhante. E amar impõe sinceridade pessoal, desprendimento, uma visão clara de sonhos e realidades, um gostar do outro, um querer bem sem limites. De nada vale o isolamento, a limitação, só a defesa do próprio interesse, a fanfarronice vazia e boba, uma falsa autoconfiança, o desprezo bulhento aos que amam a vida. De nada vale a falsa declaração de amor, sem identificação com o bem geral. É preciso desnovelar-se num esforço de melhoria geral, abrir os olhos para a paz, a paz das quatro paredes da nossa casa, a paz da nossa rua, dos nossos companheiros de jornada, a paz do mundo. Para alcançarmos a alegria, necessário é desafadigar-nos das opacas viseiras da falsa auto-suficiência, triste posição da pessoa infeliz.
Há ardorosos propagandistas de si mesmo que não passam do labirinto da sua própria ilusão, mas que caminham por caminhos tão estreitos e tão vulneráveis que nunca enganam a ninguém. Falam de liberdade, pregam autonomia, fomentam guerras, exterminam simpatias, direcionam-se para o fanatismo, combatem falsamente os preconceitos, mas não sabem libertar-se da cordoalha da servidão mental a que são jungidos por si mesmos.
É preciso restaurar a fé nos semelhantes, semear a palavra de vida na luz da esperança, viver com amor verdadeiro, perseverar no bem, tirar as lentes negras de diante dos olhos físicos e espirituais. Trombetear importância nunca foi medida levada a sério, porque a avidez de promoção pode ser atalho de caminhos, mas será sempre lodaçal de incompreensões. Não se deve morrer de orgulho, porque nem sempre a existência ajuntará o pequeno punhado de amigos que cada um tem. Eles podem espantar-se da nossa própria inconsciência.
Que cada um submeta-se ao currículo da aprendizagem na academia da vida, propondo valorizar todas as lições que estudam e preparam a conquista de tesouros maiores da inteligência e do sentimento. Cada período brinda-se com nova gama de experiências. É importante saber tirar proveitos do equilíbrio dos que são verdadeiramente equilibrados. É importantíssimo saber viver todos os momentos possíveis da felicidade. Na verdade, ser feliz é a nossa meta. E para ser feliz é preciso saber retribuir o bem, ter gratidão. A vida não é só pedir. É muito mais agradecer!


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Por Wanderlino Arruda - 9/9/2009 08:18:57
CRÔNICA É ALGUMA COISA QUE MUITO EXISTE

Wanderlino Arruda

Antes de mais nada, é bom dizer que crônica é coisa de jornal e de internet. Sempre feita depressa, com hora marcada, muitas vezes com atraso. É construída de pequenos lances, registro mais do circunstancial e não do definitivo. Assuntos efêmeros, soma de jornalismo e literatura, os temas, vez por outra, ganham concretude, universalidade, jeito especial na ultrapassagem de tempo e espaço. Crônica é comentário de assuntos que podem ser ou não ser do conhecimento do público, tipo assim - como dizem os jovens - de algum ângulo subjetivo de acontecências. Conteúdo de crônica é algo recriado pelo cronista, espécie de busca do existente ou do imaginário muito próxima do conto. Crônica pode ser sempre narração de experiência ou de sonhos, visão de mundo e de vida, reportagem quase em nível poético. A crônica tem de ter aparência de simplicidade, mesmo que seja construída com recursos artísticos. Como um jornal ou um blog nasce, vive, envelhece e morre a cada dia, a crônica é destinada a leitores apressados, feita para ligeiro momento de leitura. Precisa de pelo menos um sentido de duração, ser mensagem para ficar na memória. Não pode, nem deve ser esquecida como folha impressa ou imagem virtual. Crônica não é notícia comum, codificada só para informação diária, tem que ter profundidade. É mais para o sentimento, palavras diretamente ligadas à emoção, fazendo do leitor um cúmplice ideológico da condição humana. É um reencontro com o prazer ameno, uma intensidade de sinais de vida que, se não escritos, acabam deslizados para o esquecimento. Claro que é a pressa de viver do cronista a vontade de estar presente e de ser ao mesmo tempo em determinado lugar, que o faz testemunha, porta voz e intérprete de um quase real normalmente gratificante. A crônica é mais um espaço de dimensão interior repartida entre escritor e leitor, ternura resgatada das experiências de cada um. Cada palavra, cada frase, cada silêncio representarão significados mais do individual do que do coletivo, pois, no fundo, a crônica é uma conversa entre duas pessoas, um conluio positivo e amigo, quando um e outro vêem mundo e vida da mesma forma que ambos gostariam de ver. O autor constrói o texto e lhe dá o colorido quase que pré-combinado com o seu parceiro leitor. Comparada com formas mais consistentes, a crônica é mais uma tenda, um pequeno abrigo espiritual, nunca uma casa de verdade. A crônica serve ao espírito como ato de reflexão compartilhada e mágica, algo assim de ligeiro conforto. Em verdade, a crônica é alguma coisa que muito existe, mas que se não fossem os olhos do cronista, jamais apareceria em público. Um acontecimento não escrito é mera potencialidade dispersa, conteúdo não sentido, essência não encontrada. Viva - pois e assim - hoje e sempre - a crônica!

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Por Wanderlino Arruda - 30/8/2009 23:18:41
Montes Claros, Cidade da Arte e da Cultura

Wanderlino Arruda

É Montes Claros realmente uma cidade de arte e cultura? O que tem sido feito nos últimos cinqüenta anos pelos artistas, pelos intelectuais e pelo poder público no sentido de aumentar a nossa produção de arte? Existe um esforço que possa ser considerado sério? Há liberdade ou há manipulação política nos setores da cultura? Afinal, quais são as perspectivas para o futuro, neste já bem iniciado século XXI e III milênio? Muitas são as perguntas, especulações de todo tipo podem ser formuladas, considerações de ordem erudita ou popular podem ser apresentadas. Muito espaço pode ser gasto em cogitações, porque o assunto é complexo e merece estudo minucioso. Nada mais verdadeiro, no momento, do que a necessidade de pensar e repensar, tudo tecnicamente, sem paixões, sem interesses pessoais, sem a demagogia dos que quiseram ou ainda podem querer impor, com exploração do povo, que, facilmente, se deixa iludir. A primeira coisa que deve ser feita, a meu ver, é acabar com a bobagem de divisão entre cultura erudita e cultura popular, porque tudo é a mesma coisa. A manifestação de arte e inteligência não escolhe origens, pode vir de qualquer parte da cidade, do município e da região. O que existe é interesse maior ou menor de estudos, de pesquisas, de trabalho de apresentação de resultados. De nada adianta querer sufocar as chamadas elites culturais, com pretextos de popularismos bestas e interesseiros no sentido eleitoral. Arte e cultura nada têm a ver com partidos políticos. Pertencem, sim, à sociedade como um todo. O apoio, ou melhor, a liberdade de ação deve ser oferecida de modo amplo e irrestrito a todos os habitantes, e em todos os setores: música, pintura, literatura, teatro, desenho, escultura, dança, sites, blogs, etc., que a inventiva humana não tem limites. Agora, que a Cultura está voltada para atividades de forma global, pode ser realmente uma fonte de programações que resultem movimentação artística verdadeiramente ampla, sem distinções de segmentação social. Não quer dizer que seja a Praça Doutor Chaves o único espaço de cultura, pois muitos outros existem, mas é lá - pode-se considerar - uma vertente de trabalho, o pólo principal, capaz de coordenar, incentivar, produzir, divulgar, distribuir, programar, premiar, provocar a criação constante. Muito pode ser esperado, principalmente porque a turma da Cultura de bom tempo para cá vem trabalhando com critérios técnicos e competência comprovada, sem ranço político de qualquer espécie e com trânsito livre em todo e qualquer setor da cidade. Mais do que tudo: com interesse da arte pela arte. Ótimo que já tenha passado o tempo da chamada inteligência do boi. Ótimo mesmo!

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Por Wanderlino Arruda - 26/8/2009 08:00:36
ARTE DE FALAR EM PÚBLICO

Wanderlino Arruda

Em curso de oratória que tive oportunidade de ministrar, algum tempo atrás, para vinte participantes, na Academia Montes-clarense de Letras, vivi poucos dias e muitas horas de intenso labor dirigido aos objetivos do mais gratificante prisma da comunicação. É que o falar em público, a arte da eloqüência, o verdadeiro discurso, aquele que agrada e gratifica a quem fala e a quem ouve, é indiscutivelmente uma realização pessoal, sempre recebido com prazer e, muitas vezes, com emoção. Difícil de acontecer, porque, resultado de dom, de cultura, de domínio lingüístico e de longo treinamento, a oratória legítima fica a cada dia mais distante de se encontrar. Há os que falam com brilhantismo e beleza, os que dão vida às frases e períodos, criando o ambiente receptivo, estabelecendo os liames da verdadeira compreensão. Estes trabalham mais achegados no campo da arte ao gerar novas possibilidades no manejo do pensamento, plasmando formas, movimentos, cores, oferecendo novas imagens à inteligência. Há também os que, sem conseguir a perfeição da forma, alcançam a melhoria do entendimento, transmitido e comunicando com segurança a cultura e o saber, voltados mais para a ciência da didática e da informação. Estes mais professores do que artistas, mais objetivos e pragmáticos, são os informadores e formadores do conhecimento. Não sei a quem atribuir o mérito maior, já que o mundo é uma composição de ciência e de arte, de engenho e beleza. O pensamento, abstrato para quem só sabe pensar, mas muitissimamente concreto para os que materializam a palavra, em qualquer de suas formas, será sempre objeto de curiosidade e de interesse sincero. É através dele que se verificam a aprendizagem, a compreensão, o entendimento, bem como as possibilidades de análise, síntese e de crítica, coordenadas construtoras de todos os elementos civilizatórios. Na verdade, o mundo, em todo processamento histórico, vem sendo construído, em primeiro lugar, pela força das idéias, pela projeção do raciocínio dos grandes líderes de todos os tempos. Creio, sinceramente, que Juscelino Kubitschek, o grande modificador das estruturas do progresso brasileiro, o homem de fronteiras, o bandeirante do otimismo, realizou muito mais pela força da retórica do que propriamente pelo dinamismo do trabalho. Sua palavra, clara, direta e bonita, era uma receptiva usina de coragem e decisão, plasmadora de patriotismo, convincente, agradável de ser ouvida e, sobretudo, confiável e confiante. Um presidente de todos os lugares e de todas as pessoas, festivo nos contatos e sério nas decisões, soube liderar, escutando com paciência e falando com entusiasmo. Sua palavra rasgou mais territórios do que os tratores das construtoras, e desbastou e esculpiu e cinzelou uma nova realidade. Assim, palavra vai e palavra vem, é bom acreditar nela, convencer-se da sua força, sentir todo o seu poder. É necessário, pois, estudá-la, vivê-la, acostumar-se ao seu fascínio. Não nos esqueçamos de que foi com o exemplo e com a palavra que um humilde carpinteiro da Galiléia modificou a história da humanidade.

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Por Wanderlino Arruda - 12/8/2009 07:49:28
Ruth Tupinambá
Wanderlino Arruda

Muito tempo atrás, num comentário que fiz no Elos Clube sobre Hermes de Paula, falando da continuidade de escrita da história de Montes Claros, apontei a acadêmica Ruth Tupinambá Graça como a pessoa indicada para essa importante tarefa. Sei que alguns elistas até puderam ter julgado minha opinião como fruto de entusiasmo de momento, um arroubo de palestrante amigo e companheiro. A própria Ruth Tupinambá deve ter pensado o mesmo, pois sorriu descrente, nunca se colocando como continuadora da obra do nosso mais famoso historiador. A memória recente sobre Hermes de Paula, principalmente agora no seu Centenário, ainda é muito viva. A admiração por ele é incontestável, a visão de sua luta diária com os acontecimentos o coloca como insubstituível e, por isso, ainda não se firmou o pensamento de que a história não pára e exige outro acompanhante.
Continuo, pois, dizendo que depois de Hermes de Paula, mesmo passado meio século da publicação do seu livro principal, deve vir Ruth Tupinambá Graça. Não só deve, como precisa que venha. Precisamos de alguém que conheça a cidade e sua gente, alguém que goste do trabalho de registrar acontecimentos e de marcar as presenças das personagens nesses acontecimentos. Alguém que tenha amor suficiente à cidade e que saiba como manusear as palavras para pintar e descrever os momentos dignos de registros. Precisamos, sobretudo, de uma pessoa que seja, ao mesmo tempo, repórter, cronista, documentadora e contadora de histórias. E estas qualidades a autora de “Montes Claros Era Assim...” tem de sobra. Sem nenhuma intenção de fazer trocadilhos, posso dizer que Ruth Tupinambá tem muita graça para isso. Escreve com a suavidade de quem toma banho em cachoeira, com limpidez e transparência.
Ressalte-se também o fato de ela conhecer muito bem o passado de Montes Claros, desde quando se entendeu por gente. Menina curiosa, versátil, muito inteligente e perspicaz, ela observou tudo e, às vezes, até acompanhou e viveu muitos episódios, principalmente a atuação das pessoas, as visões de cortes sociais, os ambientes, as mudanças físicas e psicológicas. Analista da alma humana, Ruth Tupinambá alcança cada gesto, cada piscar de alegria, cada remoer de tristezas. Em tudo ela vê cores, sons, dimensões, o amor ou o desamor, as crendices, o folclórico. Ruth tem imensa saudade de todas as horas, e isso lhe dá condições de sempre refrescar as lembranças da memória e do coração. Parece-me um bom passaporte para a posição de historiadora, pelo menos para a criação da história apaixonada como sempre o fez Hermes de Paula.
Já quase sem espaço nesta crônica, quero dizer que o livro “Montes Claros Era Assim...” é uma boa oportunidade de conhecermos o passado da cidade, esse conjunto de gente sertaneja e vivedora que soube crescer e multiplicar. É bom, minha senhora, ler depressa (ou devagar, conforme o gosto) todas as crônicas do livro de Ruth Tupinambá para saber tudo ou, pelo menos, o lado mais interessante das coisas e das gentes. Nelas estarão os “cometas”, os bruaqueiros, o velho Christoff (pai de Konstantin), o velho João Maurício, o primo Luís, o Sinval Amorim e seu bar, a Euterpe Montes-clarense, o Cine Montes Claros, o “footing” da Rua Quinze, as boiadas, os carros de bois, os circos, a brincadeira da argolinha, a Matriz, um grande universo de assuntos que marcam saudades.
Depois da leitura, pode vir o julgamento se Ruth Tupinambá é ou não nossa real e experiente historiadora, testemunha ocular e personagem ao mesmo tempo. Tudo com muito amor!

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48627
Por Wanderlino Arruda - 5/8/2009 18:10:49
O MULO DARCY RIBEIRO

Wanderlino Arruda

O lançamento do segundo romance de Darcy Ribeiro-"O MULO"- na Academia Montesclarense de Letras, numa descontraída noite de alguns anos atrás, foi um reencontro de alegria e de contrastes, com um amado e temido filho da terra a derramar nos ouvidos o mel e o fel de santas heresias e virtudes. Ora terno, doente de romantismo, saudoso filho de dona Fininha Silveira, ora demolidor, prenhe de força belicosa, irmão de Mário Ribeiro, ora compulsivamente criativo, primo espiritual de Konstantin Christoff. É que Darcy Ribeiro nasceu pouco adaptado ao modo e ao jeito dos mineiros, nunca afeito ao silêncio, ao retraimento, mas, ao contrário, incomodo para inteligências e sentimentos preguiçosos, bisturi ou látego auto-conduzido e sempre a si mesmo proclamado. Ao contrário de Ciro dos Anjos, outro montes-clarense famoso no mundo das Letras, este sereno, machadiano, universalista, acomodado como um velho funcionário público, a curtir um silêncio invisível, Darcy Ribeiro é e afigura-se agitado, fogoso, tropicalmente brasileiro, aquecido de alma e corpo, de lufa e de luta, instintivo, felino como um condor. De inteligência selvagem, incontida, Darcy raciocina como uma ventania de amor a tudo que é cultura. Curtido primitivamente no sol e no solo do sertão de Montes Claros, fruto teórico de ternura e de instinto, de voluptuosa ambição de mundo. Darcy é um caldeirão efervescente de idéias como a querer viver em uma só vida todas as vidas. Mortal, tem pretensões de imortalidade e imortal se fez pelos feitos multifeitos. Bem brasileiro, latinamente apaixonado, traz na alma o Mulo Darcy retalhos de peles de todas as cores: a cor do índio, a cor do negro, lembranças atávicas do misticismo dos celtas, aguerrida força de velhos godos, gosto de mando da alma ibérica, uma noção tão grande de espaço e de glória que só navegadores fenícios poderiam ter impregnado o sangue de marinheiros do velho Portugal. Tem mais: Darcy é lúbrico como um cristão novo, fogoso como um nômade cavaleiro árabe. Na verdade, é um homem com a alma da raça, e não só da portuguesa, da índia e da africana, misturadas no cadinho brasileiro. E da raça humana, pois portador de muitas virtudes e de muitos defeitos, um caldo bem temperado de sêmens jorrados do chuveiro eterno, não sei porque nascido em Montes Claros. O MULO é esta cidade sedenta de força humanamente parceira de Deus na distribuição da vida e da morte; divinamente sequiosa na busca de amor, criadoramente envolvente na caça do mando e do poder. Sensual, oportunista, material, religiosamente mística, faminta da novidade, sonhadora de futuro. O MULO é um pedaço de cada criatura que viva ébria da própria terra natal, homem ou mulher. O MULO tem muito de João Valle Maurício na palavra e na sutileza, muito de Konstantin no arregalo da anatomia, no desenhar das forças; muito de Crispim da Rocha no faro do homem do mato, forte e inteligente; muito de Filomeno na sede do ter e do governar; muito de Plínio Ribeiro, no misticismo, no gosto do idear, no ser e não ser da vida. O MULO é Darcy e é Mário Ribeiro, inconseqüentes e perseverantes, sempre determinados. O MULO, centro de uma bem romanceada trama de Realismo e Naturalismo, barroco talvez pelos contrastes, hereditariamente marcado pelo destino, fruto do amor e do desamor, sem peias, sem origem e sem destino produto da terra e da carne, tudo e muito de todos nós, pequenas ou grandiosas criaturas no sofrer e no gozar. E que Deus nos perdoe, amém!

Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 29/7/2009 07:36:56
HOTEL SÃO JOSÉ

Wanderlino Arruda

Sempre foi bom e importante para as minhas lembranças o percorrer, aos poucos, a rua Doutor Santos, desde que recebi um pedido do meu amigo Elton Jackson e também em obediência a um esquema tempo/espaço traçado desde as minhas primeiras crônicas so­bre o centro de Montes Claros. O meu objetivo era chegar à Rua Bocaiúva e, aí, em atendimento a um sonho de minha amiga Nailê, fiel cobradora de minhas lembranças de vizinho, falar de quando ela era criança, quase menina‑moça, dos tempos de nascimento do João Wlader e de José Danilo. Passo a passo, saí do Hotel São Luiz, de D. Naza­reth Sobreira, e do Bar de Adail Sarmento, no início da rua, até chegar ao Hotel São José, de D. Laura e, depois, de D. Emília e do inesquecível Juca de Chichico e do eterno gerente Geraldo. São lembranças agradáveis, grandemente gratificantes de um jovem que alcançava a idade adulta, já hóspede em hotel, com uma indi­vidualidade e uma privacidade nunca antes imaginadas como mo­rador de pensões. No Hotel São José, cuja placa dizia ser o maior e o melhor, ser hóspede já era um grande privilégio, marcava, quer queira quer não, um status de matar de inveja os estudantes de repúblicas, ou aqueles que viviam desprezados nas casas de parentes, muitos em barracões de fundo de quintal. Foi lá que tive, pela primeira vez, um quarto só meu, com pia e guarda‑roupa, inicialmente, no térreo, do lado de dentro do pátio, na ala da praça Cel. Ribeiro, e, depois, no primeiro andar, quase de frente para os dois mais importantes endereços internos: os apartamentos de Ademar Leal Fagundes e do diretor do DNOCS, de quem não me lembro mais o nome. Foi uma melho­ria de situação social que quase não tinha limites, quando comprei, duas calças de tropical, uma meia dúzia de camisas sociais, novas meias e... realização de velho sonho, um rádio de segunda mão, rabo­ quente, que tocava músicas e dava notícias todas as manhãs. O Hotel São José era um mundo à parte, bom, alegre, impor­tante, chique, principalmente depois que "seu" Juca assumiu a di­reção e realizou uma grande reforma. A saudade marcada com a ausência de D. Laura foi compensada com a elegância de D. Emília e a descontraída presença dos filhos, principalmente de uma meni­na que era a mais bonita da rua Doutor Santos, a Mercesinha, já quase em início de namoro com o João Walter Godoy. Zé de Juca, Lauro, Bernadete, todos eram também bastante simpáticos com os hospedes. A hora do jantar era quase sempre uma festa, exigindo­-se a melhor roupa de cada participante do banquete diário, uma etiqueta fiscalizada de perto pelos garçons, principalmente pelo Fernando, que, até hoje, trabalha na profissão Poucos foram os estudantes que conseguiram a permanência no quadro de hóspedes. Um a um ia saindo, pedindo ou recebendo as contas, depois de uma brincadeira mais forte, ou do não respei­to à posição da gente importante e seria como era o sisudo e culto fazendeiro Ademar Leal, o milionário Manoel Rocha, a mais gra­duada figura do Exército na região, o sargento Moura, o advogado José Carlos Antunes, que falava inglês corretamente, Lagoeiro, músico‑chefe da regional da Rádio Sociedade, o diretor do IBGE, e o próprio dono, seu Juca, o único montes‑clarense, na época, a ter feito uma viagem internacional de muitos meses pela Terra Santa e pelo Mundo Antigo. Pode ser exagero de minha parte, mas, para nós, lá era o centro da cidade e da cultura. Bons tempos aqueles, justamente quando iniciava atividades, já com os pés no chão, O jornal de Montes Claros, não sei bem certo, parece-me já com a direção do Oswaldo Antunes, pois o ano em que estamos é o de 1955, quando recebi das mãos do Waldyr Senna a presidência do Diretório dos Estudantes e quando foi eleita a nossa rainha mais bonita de todos os tempos, nenhuma outra igualada em elegância e nobreza, nem antes nem depois: Cibele Veloso Milo!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 22/7/2009 14:46:23
MOZART DAVID

Wanderlino Arruda

Agora que você terminou de ler este livro, é bom lembrar que a lei do amor é a essência da vida, de tudo que a vida tem, de tudo que a vida faz e nos permite fazer. A lei do amor é o caminhar, o escolher um horizonte, o definir a própria existência. Cada criatura se direciona pelo amor que elege: o que pondera, o que investiga, o que analisa, o que pensa, o que eleva. Há um amor que busca momentos, um amor maior que sonha a esperança e um que auxilia a construção do mundo. Dimensionar o amor é o que constitui a verdadeira sabedoria. De muitas fogueiras de amor viveu Mozart David, homem de família, intelectual, administrador, amado-amante da baianidade de Jacaraci. Em cada gesto seu a oportunidade de ser feliz e fazer a felicidade dos que o rodearam: em casa, na Prefeitura, nos encontros políticos, nas acontecimentos religiosos. Amor - sempre incessante e renovado - com dimensão dos melhores exemplos do ser e do viver. Um homem simples que se fazia grandioso quando tinha que dar exemplos de grandeza. Sempre equilibrado! Por todos os bons sentimentos de Mozart David, esta biografia traçada por Zoraide Guerra David constitui mais que um dever histórico. São reproduções ou descrições de tempos de pureza política, patriotismo não mais existente, uma cidadania não mais da mesma forma exercida. DOCUMENTÁRIO MOZART DAVID, UMA VIDA A SERVIÇO DE JACARACI é da primeira à última página, um documentário vivo e vibrante, interessantíssimo, marca do trabalho e da honestidade, ele um zelador do meio ambiente físico e espiritual. Mozart espraiou em torno de si o amor universal de espírito superior, corporificando e cumprindo missões possíveis e impossíveis. Vitória do bom senso, discernimento e responsabilidade! Importante destacar o papel exercido pelos familiares de Mozart David, muito importante, porque sempre consubstanciado no amor e no respeito, dedicação sem limite. Bons leitores, estudiosos, interessados, nunca faltaram ao seu líder com o apoio e o aplauso. E até não poderia ser de outro modo, porque Mozart David tornou-se um administrador e um político de dimensão regional e estadual, grande orador que era, opinião abalizada que sempre teve. Que este livro da historiadora Zoraide Guerra David sirva de exemplo a esta geração e às novas gerações de Jacaraci, da Bahia e do Brasil! Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros (MG)


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Por Wanderlino Arruda - 9/7/2009 07:12:56
PETRÔNIO BRAZ, UM INCENTIVADOR

Wanderlino Arruda

Com longa estrada percorrida pelos caminhos de Minas e pelas veredas da cultura, Petrônio Braz, homem do tempo e da sorte, sempre andou próximo aos horizontes, sempre visualizou o sucesso: na política, na administração, no direito, na literatura, nas universidades da vida. Altivo no ser e no estar, no viver e no conviver, sempre teve fé e crédito no dourado mundo dos sonhos jurídicos e literários. Desde novo, concordante com Fernando Pessoa, sabe de uma grande verdade: Deus quer, o homem sonha e a obra nasce. Tudo isso dito para marcar a minha admiração pelo seu trabalho grandioso na pesquisa e na escrita do seu destacado caleidoscópio, ou melhor sua coleção de crônicas e artigos sobre autores e obras da nossa literatura regional norte-mineira, inclusive, é claro, quase tudo que surgiu nos últimos anos, em livros e textos esparsos. Conteúdo de primeiríssima linha, feito por quem sabe fazer, da primeira à última página tem quase sempre riqueza de detalhes, principalmente com relação aos estilos. Vitorioso, incentivador - principalmente dos jovens escritores - Petrônio escreve querendo que outros também escrevam. Ele nunca perde de vista o futuro e a esperança, nem para si mesmo nem para seus contemporâneos. Estudioso, disciplinado, conscientemente responsável do seu papel nas artes e o trabalho, é um autor que sempre recebeu as melhores notas da vida, e como diria os mais novos: tipo assim dez com louvor. Para Petrônio não há ponto final para o amar, principalmente no amor que enobrece as pessoas e as coletividades. Amar é viver e a existência é desenho de eternidade. Já que tem que amar, ama hoje; já que tem que viver, vive agora. Como Cora Coralina, nunca escreve ou fala para lamentar existências. Sua inteligência é fronde, é folha, é semente, é flor, é fruto. Inventa e reinventa, cria sempre! Se seu tempo é como o dos outros, faz a diferença sabendo sempre o que vai fazer com esse tempo. Não há, em Petrônio, espaços vazios ou perdidos; não há problemas, há soluções. Se as perguntas já encontraram muitas respostas, melhor inventar outras perguntas. Em verdade, tudo que Petrônio Braz tem publicado forma uma importante coletânea de apresentações e de críticas incentivadoras de praticamente tudo que já foi ou está sendo escrito por este lado de cima de Minas Gerais. Misto de crônicas e artigos, ilumina vocações, expõe idéias, valoriza conceitos, tudo com riqueza de detalhes. É ao mesmo tempo, vitrine e delinear acadêmico. É fruto e usufruto de escritos e de palavras, vereda importantíssima para os que percorrem caminhos em publicações de jornais e livros, parâmetros entre o que se escreve aqui e o que é publicado pela literatura em língua portuguesa: um prêmio a autores e a leitores. Conhecendo Petrônio Braz como conheço, tenho certeza de que sua atual série de bons e oportunos escritos terá pronta continuidade, com e sobre outros escritores. Petrônio Braz continuará arquiteto e operário de sonhos, dínamo competente para gerar de um tudo do bom e do melhor. Deo gratias! Institutos Históricos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 24/6/2009 07:48:55
IMPORTANTE O PENSAMENTO POSITIVO

Wanderlino Arruda

Respeito, consideração, fé, amor, admiração, carinho - tudo começa em você, tudo faz parte da teia da vida tecida no grupo pessoal, seja ele o familiar, o de trabalho, o de busca da verdade ou do entretenimento. O normal é ofertarmos somente aquilo de que dispomos e recebermos o que é do nosso merecimento. Ninguém dá o que não tem. A felicidade é um direito, mas temos que fazer jus a ela. Se você quer ter alegria, conforto íntimo, segurança da realização interior, comece logo a oferecer o que você tem de melhor. A vida é uma eterna troca de valores espirituais. Precisando mudar alguma coisa no que é e no que sente, comece tudo ainda hoje, porque a mudança começa em você. Procuramos Deus na infinitude dos céus, mas Ele - onipresente - está sempre dentro de nós, de cada criatura que Ele criou à Sua semelhança. A felicidade, a coisa mais importante que temos que aprender, é de nossa escolha. Ela está sempre ao nosso alcance, dependendo de como pensamos e de como agimos, de qual é a nossa relação com o nosso próximo. Se há momentos difíceis, temos é que aprender como administrá-los, como vivê-los, como vivenciá-los. Superar momentos difíceis é sabedoria, é arte, e isso tem que ser o nosso principal objetivo de vida. A melhor receita é saber amar, valorizar o amor, porque tudo que é sensível à mente e ao coração deixa-nos marcas positivas que nem o tempo consegue apagar. Importante substituir tristezas por alegrias, aproveitando cada lição que a existência nos oferece ou nos impõe. Sejamos felizes pelos momentos que haverão de vir, seja aos olhos dos nossos semelhantes, seja aos olhos de Deus. Em uma de suas mais bonitas afirmações, Thomas Jefferson disse que nada consegue impedir o homem que tem a atitude mental correta de atingir as suas metas. Chico Xavier, nosso grande Chico, sempre pedia a Deus para não lhe permitir perdesse a beleza e a alegria de viver, até mesmo quando as lágrimas brotassem nos seus olhos ou escorressem por sua alma. Importante lembrarmo-nos no início da leitura deste tão bonito e inspirativo livro de bolso e de cabeceira, o conteúdo maravilhoso de uma bênção irlandesa: Que Deus lhe dê: para cada tempestade, um arco íris; para cada lágrima, um sorriso; para cada cuidado, uma promessa. E uma bênção para cada provação. Que para cada problema, a vida lhe traga alguém fiel com quem dividi-lo; Para cada olhar, uma doce canção; E, para sua oração, uma grande resposta. Que este teu livro de pensamentos positivos, estimada Dannaé, filha querida de meus queridos amigos Said e Cida Campos, seja para todos que o venham lê-lo um verdadeiro celeiro de luzes e de boas atitudes, um incondicional agradecimento e louvor a Deus. Mais do que conscientes sejam os nossos agradecimentos ao Pai Celestial por todas as dádivas que nos concedeu e concederá! As pessoas poderão esquecer o que você disse e até não se lembrar do que você fez. Porém, jamais se esquecerão dos bons momentos de carinho, de amizade e de amor da convivência com você. Academia Montesclarense de Letras


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Por Wanderlino Arruda - 17/6/2009 07:10:53
A PALAVRA SAUDADE

Wanderlino Arruda

Segundo Bess Sondel, as palavras podem suscitar todas as emoções; pasmo, terror, nostalgia, pesar... As palavras podem desmoralizar uma pessoa até a apatia ou espicaçá-la até o deleite, podem exaltá-la a extremos de experiência espiritual e estética. As palavras têm um poder assustador. E tudo isso é muita verdade, não acredito haja alguém que duvide. As palavras têm uma força, uma resistência, um poder que suplantam quase tudo que existe no mundo. Passam exércitos, passam impérios, passam repúblicas, mas as palavras não passam. Elas são permanentes, mais firmes do que os granitos dos palácios e dos monumentos. As palavras de Sócrates, escritas por intermédio de Platão, suplantaram todos os governos gregos e suas obras militares ou civis. Passarão as pirâmides e a esfinge do Egito, mas as palavras do "Livro dos Mortos" não desaparecerão. Deve ser por isso que nós dispomos, na Língua Portuguesa, de uma palavra que não tem igual no mundo em sentido, em significado, em força, tanto no aspecto denotativo (se isso é possível!) como no conotativo. É a palavra saudade, de origem tão obscura como o fundo dos mares portugueses, tão misteriosa como a virgindade das selvas brasileiras, ou tão cheia de calor como as terras de Angola ou Moçambique, também de linguajar lusitano. De onde veio realmente o vocábulo saudade? Do latim solitate (soledade, solidão)? Do árabe saudah? Dos arcaísmos soydade, suydade? Até Antenor Nascentes, que foi nosso melhor estudioso da etimologia, não é convincente na explicação da origem. Influência da palavra saúde, como pode parecer uma analogia fonética? Dificilmente. Não sendo possível definir a matriz de onde sai esta filha tão grata a todos nós, resta-nos apenas a satisfação e a honra de tê-la em nosso vocabulário, sem o perigo de competição por parte de qualquer língua de dentro ou de fora de nossa família latina. O francês solitude está longe de ter o mesmo significado. Mesmo do esperanto (re)sopiro e rememoro estão longe de alcançar expressividade que a palavra tem em português. São termos que passam a quilômetros de distância da riqueza semântica do que usamos. E o que é mesmo saudade? Um sentimento que deve existir no coração de toda criatura humana, seja ela de qualquer raça, de qualquer parte do mundo, seja pobre, seja rica. A saudade não escolhe, não descrimina, não se faz de rogada para existir. Ela vem de mansinho ou vem fortemente, chegando quando menos se espera. A saudade é amiga da solidão, companheira inseparável do amor, visita invisível da amizade, às vezes pedaço de paixão, em muitos casos suave perfume de momentos de carinho e ternura. Realmente, não é fácil definir o sentimento da saudade. E é talvez por isso que ela só exista, como palavra, na Língua Portuguesa, na mística do povo de nossa raça, principalmente no brasileiro, esta maravilhosa mistura de sangue tropical, fruto de três origens: a branca, a negra e a tupi. Saudade é dor que sufoca o coração e alegra a alma. Saudade é presença do ausente, é lembrança do bem-querer, um doce convívio com a distância, uma alegre e agradável tristeza do ver-não-vendo, do amar sem ter presença, ou do sentir-se longe-pertinho do ente do amor...

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 15/6/2009 07:20:48
VELHAS FOTOGRAFIAS
Wanderlino Arruda

Luiz de Paula, homem ilustrado e prático, lido, corrido e curtido na vida, disse-me, há alguns anos, com um tanto de malícia no sorriso, que a única arte que não progrediu no mundo moderno foi a da fotografia. Pelo menos, no que toca a ele, não tem visto nada de melhoria, principalmente nos retratos, os quais, a bem da verdade, até têm piorado muito. Por exemplo, quando ainda estava nos dezoito, nos vinte e cinco, nos trinta anos, os retratos que ele tirou com Serafim Facella, eram bem mais bonitos, com a pele mais lisa, os olhos mais brilhantes, os cabelos fartos, soltos e retintos de boa cor. A musculatura era de encantar, tudo no lugarzinho, tudo bem proporcionado, rugas nenhumas. Hoje, ele tem até medo de posar, porque mesmo os melhores fotógrafos, com as melhores máquinas, digitais ou de filmes supercoloridos, nada conseguem, nem mesmo uma vaga lembrança das antigas fotos cheias de charme e juventude. Uma lástima, uma involução terrível da fotografia!
É isso aí, nem tudo progrediu neste mundo, vasto mundo de artistas e mortais. Acredito que a queixa de Luiz de Paula quanto aos fotógrafos deve ser a de todos nós que, mercê de Deus, passamos dos cinqüenta, dos sessenta ou dos setenta, salvação talvez de raras exceções, que não ouso dizer os nomes, para não ficar denunciando idade de ninguém, principalmente das madames minhas amigas. Mas que a fotografia não progrediu com relação a este aspecto das feições humanas, isso realmente é verdade. Os leitores mais antigos, depois desta leitura, façam um exame nos álbuns de família, uma comparação no porte, o meio-de-campo sem barrigas, a retidão na coluna, o nariz afilado? Onde estão, na madame, o busto bem levantado e em posição de três horas, o pescoço escultural, os cabelos sedosos e cheios, a boca sensual, cada curvinha em seu lugar? Oh! Como tudo mudou! Como os fotógrafos perderam a técnica tão simples de iluminar a velha juventude!
De fato, só a fotografia é capaz de paralisar o tempo, de capturar momentos de luz, de segurar uma jovial feição enquanto esta ainda existe. Nada mais na vida é capaz de parar o tique-taque dos segundos ou da eternidade, solidificar minutos de uma existência, movimentos incessantes como as das chuvas e dos rios. A fotografia é um plasmar de realidade. É o que é: objetiva, concreta, verdadeira. O fotógrafo, o artista, o criador nada pode mudar, porque entre ele e o figurante existe a máquina, sempre fria, indiferente, veraz, permitindo quando muito só alguns retoques de negativo, hoje cada vez mais raros. O fotógrafo não pode ser como o pintor, que pode escolher a tinta e a cor da tinta, que trabalha mais com a imaginação do que com a realidade, um dos poucos profissionais ainda com direito a ser romântico num mundo de desilusões como o nosso. O fotógrafo, por mais criativo que seja, sempre encontrará limites à sua ação.
Mas é exatamente porque a fotografia é a prisão do tempo, que ela se torna importante e atual para cada etapa, ao mesmo caso documento e denúncia, repositório de bons motivos de muitas lembranças, quantas vezes moldura de infinitas saudades. Com que grata recordação vemos nossos traços dos anos de infância, dos dias de adolescência, da escola, da formatura, do casamento, da lua-de-mel. Como são lindas as paisagens das nossas inexperiências, dos sonhos inacabados, das gostosas torturas da paixão jovem! Como é importante o brilho de uma recordação! Tudo tão grato aos olhos do corpo e da alma!
Tem muita razão o meu amigo Luiz de Paula. Ele está certíssimo na birra e na zanga para com os que tiram retratos. Bem que os fotógrafos poderiam descobrir nova fonte de juventude. Mesmo que esta não espalhasse nem um pouquinho a mínima verdade!
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 9/6/2009 07:18:19
ROTARY CLUBE MONTES CLAROS - NORTE

Wanderlino Arruda

A primeira vez que ouvi falar do Rotary Clube Montes Claros - Norte foi pela voz educada e amiga de Nathércio França, num mês de março de 1969, quando ele me convidou para fazer parte da lista de fundadores. Era Nathércio o encarregado de tomar todas as providências para a organização do quadro de sócios e apresentação dos documentos constitutivos, assim como do levantamento das possibilidades de serviços à comunidade pelo novo clube. Trabalho difícil, suado, mas nunca impossível para o dinamismo diplomático de Nathércio. A confiança nele depositada pelo Rotary International seria, marcou, muito antes do tempo previsto, um elogiável sucesso, com o clube oficializado já em maio, com as primeiras reuniões no Automóvel Clube. Foi o saudoso Benoni Gomes da Mota o presidente provisório, conhecido e reconhecido empresário que, no dizer dos jovens repórteres da década de cinqüenta, havia sido o melhor presidente da Câmara Municipal de Montes Claros. Éramos trinta e dois os sócios, representantes de quase todos os campos profissionais da cidade, ainda presentes no Clube apenas Victor Hugo Marques Pina e eu. Lembro-me perfeitamente do zelo com que o Nathércio França ensinava aos novos companheiros toda a trajetória de trabalho que deveríamos seguir, de forma a fazer do Rotary Norte um modelo de integração, com todas as possibilidades de firme prestação de serviços. O cuidado dele em semear a boa semente era tanto, sua sincera pregação de filantropia era tão grande, que muitos dos convidados menos decididos preferiram afastar-se logo, nem chegando a oficializar a admissão. O Rotary Norte teria de seguir o exemplo de energia do Rotary Montes Claros, campeão de progresso em todos os setores, decididamente um dos melhores clubes entre os dois mil e quinhentos existentes no Brasil. Estava lançado um enorme compromisso, iniciada uma entusiasmada luta. Dos velhos companheiros do tempo de recebimento da carta constitutiva, dos muitos que trabalharam pela afirmação do clube na primeira fase, olho hoje a relação, e pouco mais posso ver que uma imensa saudade. Quanta distância o tempo tem provocado! De uns, uma eternidade: Antônio Augusto Barbosa Moura, José Comissário Fontes e Ricardino Francisco Tófani, Antônio Brant Maia. Muitos como José Carlos Pereira, Antônio Jorge, Padre Aderbal Murta e Nelson Vilas Boas, que chegaram depois, também já freqüentam outro Rotary do mundo maior, deixando entre nós um incomensurável vazio. De outros, que a vida ainda nos faz companheiros, inclusive em outros Rotary Clubes, uma vontade sincera de que voltem pra o nosso convívio a cada semana, a cada dia de atividades, com um recomeço de alegrias. Tenho certeza de que a felicidade de ontem seria a mesma de hoje! Em 2009, o Rotary Cube de Montes Claros - Norte completou oficialmente seus primeiros quarenta aos de plena atuação. Está sendo uma oportunidade de muito relembrar, perfilando velhas histórias tão gratas a nossos corações, muitas delas com amplitude nacional e internacional. Que bom viver toda a tradição rotária dos Montes Claros! Um mundo de cultura e de serviços comunitários realizados pelo bom companheirismo de várias gerações. Afinal, foi na Montes Claros de 1926, o local de fundação do terceiro Rotary Clube brasileiro, sonho de Niquinho Teixeira, que, sem dúvida, muito deu certo.
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 3/6/2009 08:07:24
PORTUGUÊS, LINGUA LUSO-BRASILEIRA

Wanderlino Arruda

Segundo o professor Silvio Elias, a língua nasce como um produto da cultura, da alma de um povo, da sua filosofia, da sua lógica. E perdura enquanto a cultura perdurar. E é aí, entretanto, que é preciso contar com o fator homem, e não julgá-las, como fez Splenger, mero produto de forças históricas misteriosas e fatais. Claro que o homem, quanto mais bem dotado intelectualmente, quanto mais senhor das leis da natureza, quanto mais civilizado, maior poder exerce sobre as culturas. A língua, não existindo por si mesma, mas só no homem que a emprega, terá de adaptar-se ao seu estilo, e será como ele lerda ou ágil, majestosa ou vulgar, vivaz ou petrificada, uma espécie de espelho da realidade de cada povo, de cada região. Assim, a língua representa o próprio homem, sua condição social o local onde nasce e vive, seu grau de cultura. Representa também os sentimentos, a coragem, a força de vontade, as condições de saúde, o patriotismo, até a religião. Do povo depende a língua, que pode ser oculta, vibrante, civilizada ou vulgar. Dependendo dele, ela pode ser também romântica, lírica, política ou simplesmente comercial, opaca como o barro ou transparente e translúcida como o orvalho. No Brasil, falamos e escrevemos a língua portuguesa, é claro, a nosso modo, principalmente depois do brado de independência do grande brasileiro José de Alencar, misto de ufanismo e exaltação patriótica, verdadeiro minerador dos sentimentos dos trópicos selvagens de nossa terra, venha a inspiração das aldeias indígenas ou das ruas movimentadas de nossas metrópoles. Quatrocentos anos depois de trazida para cá, surgiram, como teria de surgir, considerável número de diferenciações, deu modalidades de expressão, de indisciplina espontânea tão própria à alma do nosso povo. E o romântico e bem brasileiro Alencar, criador de Iracema e de Poti, escrevendo bonito, foi quem melhor viu, anteviu e transformou literariamente em nova realidade. Mesmo fora do Brasil, na mãe-pátria portuguesa, no local da invenção, nossa língua não permaneceu estacionada, não se estratificou, como aliás, não poderia acontecer com nenhuma língua. Evoluiu como tinha de evoluir, mercê principalmente da alma conquistadora de amantes da descoberta e descortino de novos horizontes. Se é verdade que já não falamos a mesma língua de D. Sancho ou de D. Diniz, Camões também já não a falava, assim como Camilo ou Eça não se expressavam como Camões. Em Olavo Bilac, já bem diferente, encontramos música, lirismo, amor às tonalidades puras, versos com novo colorido verde-amarelo da paisagem brasileira. De Vieira, mais brasileiro que português, até Guimarães Rosa, outra grande distância. E porque não falar da metamorfose existente entre a poesia de Sá de Miranda e a de Carlos Drummond de Andrade e a de Cecília Meireles e Adélia Prado? Tudo boa gente falando a mesma língua, só que com tempero diferente. Sei que muita gente comenta que nossa língua está se acabando aos poucos, está sendo impiedosamente destruída pelos que falam ou escrevem mal, pelos que a deturpam, pelos que a não respeitam. Será que isso é verdade? Não terá a língua um automático instrumental de defesa da sua própria sobrevivência? Não sejamos apressados no julgamento, não sejamos injustos. Potencial vivo e vivificante, a língua portuguesa já, a esta altura, com quase um milênio de história, dos quais a metade no Brasil, ainda terá muito de que falar, ainda será objeto de muito estudo, contará com defesas e ataques neste nosso admirável mundo novo das comunicações. Melhor ler e prestar muita atenção em muitos dos nossos autores - sejam em jornais, revistas ou livros - que estão aí erigindo, com perfeição, grandiosos monumentos do nosso bonito e musical idioma, seja com tonalidade lusa, seja com os tons brasileiros. Tanto em prosa como em poesia, ora pois!
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


46432
Por Wanderlino Arruda - 27/5/2009 07:35:59
NENÉM BARBOSA, MARIDO DE JENNY, PAI DE LUIZINHA

Wanderlino Arruda

Se ainda estivesse materialmente entre nós, Neném (Augusto Octávio) Barbosa estava completando quase cem anos de vida de trabalho e interesse por tudo quanto era bonito nas pessoas e na Natureza. Foi um mês de abril, tempo de sol e fim de estação chuvosa que ele nasceu para ser sertanejo e desbravador, estudioso de todas as horas, homem da fazenda e do comércio, observador do código de ética maior que pauta a existência dos grandes homens. Educado, fino, sabia falar à inteligência e ao coração, sempre excelente ouvinte, ponderado como ninguém. Um cavalheiro de tempo integral! Se estivesse ainda conosco, se estivesse fisicamente à disposição dos amigos - que eram muitos - Neném, mesmo com a muita idade, ainda estaria prestando relevantes serviços, sempre pronto e bem preparado para dirigir e aconselhar. Era um notável fixador caminhos, orientador de rotas, finíssimo arquiteto de muitos projetos de vida. Bom leitor, de várias horas de leitura por dia, Neném Barbosa era possuidor de uma vasta cultura, qualidade intelectual tão grande que se posicionava ao mesmo nível da cultura da esposa e professora Dona Jenny, assim como da querida filha Luizinha, esta uma das mulheres mais inteligentes e mais dedicadas ao saber filosófico e literário da história de Montes Claros. Chego a acreditar que grande parte dos conhecimentos de Luizinha tenha vindo de Neném Barbosa, seu eterno preceptor. Os dois foram sempre uma bela união de vontades, uma definitiva sintonia de valores. Luizinha Barbosa está aí para demonstrar o quanto Augusto Octávio, seu pai, foi importante em sua vida e quanto ele foi importante para a cidade e para a região. E o que ela sabe, o que ela é, o que ela vê como obrigação de dirigir, organizar e manter o patrimônio da sensatez de Neném é algo que só a fibra de uma grande mulher pode garantir. Eterna secretária do pai e de Dona Jenny, Luizinha segue uma trajetória que Neném traçou e que precisa ser preservada. Para que o leitor tenha uma idéia do legítimo pensamento de Augusto Octávio Barbosa, transcrevo, em fim de comentário, um texto que ele me ofereceu em setembro de 1975, que poderá ser a marca de muitas vidas. Ei-lo, para proveito de quem me lê: "Deus, Dai-nos a graça da moderação, o privilégio de sermos gratos. Que todos os nossos atos sejam pautados dentro do bom senso; que as nossas palavras só sejam liberadas depois que passarem pelo crivo da censura íntima. Ajudai-nos, Senhor, a agir com ponderação e não perder o domínio de nós mesmos, principalmente quando recebermos agressões verbais que atinjam nosso amor próprio. Nessas ocasiões. Pedimos a Vós não nos deixar ser tomados pela cólera, tóxico maligno que leva à precipitação e intemperança, contribuindo para o exceder-nos, dando, quase sempre, como discussões acaloradas que, no resumo, nada de proveitoso nos deixam. Suplicamos auxiliar-nos a evitar palavras inúteis e a servir da paciência e do silêncio como instrumentos preciosos para contarmos as situações difíceis. Eterna a boa memória, a saudade dos bons tempos de convívio com Neném Barbosa!
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 20/5/2009 07:09:21
ANOS DE TINTAS E PINCÉIS
Wanderlino Arruda

Lembro-me como se fosse ainda hoje o dia em que, na casa de Samuel Figueira, eu dera palpites, mais do que o usual, na sua forma de pintar, no uso das cores, na escolha dos temas e creio que até na evolução dos seus quadros. Devo ter exagerado na função de crítico, e foi daí que veio o desafio: Por que eu, que queria saber tanto de pintura, não tentava fazer um quadro ali mesmo, diante dele, de Mila, sua mulher, e de Shirley Durães, que os visitava naquela tarde de domingo? Insulto ou convite, chamamento ou convocação, fosse o que fosse, não me fiz de rogado e lancei-me ao trabalho, imediatamente, pintando a minha primeira paisagem azul, branca e verde, chapada, lisinha e até com um pouco de transparência. Para começo, creio que foi até um sucesso, em pouco mais de duas horas, com ele Samuel orientando aqui, orientando ali, e até ajudando dar uns retoques nos coqueiros, pois me faltava naquela hora uma certa leveza que, aliás, falta até hoje. Mais tarde em Mirabela, Shirley me lembrou da façanha e perguntou-me se valeu a pena todos estes anos de aventura no mundo das tintas, dos pincéis, das espátulas e das telas. Quis saber também se eu me considerava mais feliz com a atividade de pintor, metiê que sofre tanta crítica de quem entende do assunto e até muito mais de quem não entende nada. E qual seria minha resposta? Claro que tudo ia bem, a pintura vinha sendo um grande passa-tempo, um exercício de paciência realmente maravilhoso, uma nova fonte de estudos, um encontro e reencontro com a arte que tem atravessado séculos de admiração e encantamento. Enquanto pinto ou enquanto escrevo, as horas passam como verdadeiros sonhos, interessantes, cheias de gratificação mental, gostosas mesmo. E quanto às críticas, principalmente as desfavoráveis, sempre me ajudam muito, contribuem para mudanças e busca de melhor desempenho. Na verdade, não sabia a quanto andava, porque sempre ficava muito tempo sem me encontrar com Samuel e com Konstantin, meus dois orientadores mais exigentes que, mesmo elogiando, ainda faziam reparos, davam sugestões, nunca se mostravam totalmente satisfeitos. Não falo de Godofredo, porque este nunca achava boa a pintura de ninguém e só raramente dava uma palavra de incentivo, tanto faz para velho como para novos. É que o bom GG achava a profissão muito sofrida, trabalhosa, difícil. E também para ele, pintura só valia a clássica - acadêmica - a real nas cores e na forma. Essas invenções nossas são coisas de gente que acha que sabe, mas, não sabe... Cristina Rabelo, em certa ocasião, olhou quase tudo que preparei para uma exposição no Centro Cultural, disse que gostou, mas, perguntou porque eu havia abandonado a pintura de flores... Os críticos da família, a Olímpia, a Wladênia, a Rízzia, a Nádia, estas sempre seguiram cada trabalho, serviam e servem de feedback no exato minuto de cada pedido de avaliação. É o que tem acontecido e não posso me queixar. Não me têm faltado os melhores e mais proveitosos momentos nestes mais de trinta anos de trabalho, exatamente quando vou completar os três quartos de século de vida. Pintar sempre fora uma distração, uma forma de paz interna e externa, uma evocação de viagens, um rememorar de paisagens. Depois que comecei a pintar, a Natureza jamais passou por mim (como eu tenho passado por ela), como página em branco. Cada estrada, cada pedaço de céu, cada folhagem, uma superfície de água, por menor que seja, é sempre uma festa para os olhos e para a imaginação. O pintor é um ledor de cores, de movimentos, de formas, um visualizador e dimensões que existem e que não existem... Já ia me esquecendo de fazer um conserto sobre o relacionamento de Godofredo com os seus colegas menores da arte pictórica. Ele não gostava é de pintura dos outros. Dos pintores ele sempre fora grande amigo. No que me toca, o mestre Godô só deu palavras de incentivo e de entusiasmo. Talvez seja eu a única pessoa a quem ele tenha ensinado as técnicas de pintura. E sou-lhe, eternamente, muito grato por isso!
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 13/5/2009 07:46:37
DONA DINA PAULINO CORREIA

Wanderlino Arruda

Os noventa anos de coragem e alegria, que sempre marcaram nobreza, nunca envelheceram em Enedina Paulino Correia - nossa querida Dona Dina - a sua crença de amor à vida. Tem sido quase um século de invenção e re-invenção diárias, cada momento dedicado ao melhor da consideração humana. Sempre pensamentos de bondade e beleza irradiando positividade e fé, sempre o mais fino trato no ser, no estar e no compartilhar. Definitivamente marcante o amor à família, aos colegas de trabalho, aos amigos. Máxima elegância sempre! Filha de pai advogado e cronista da Gazeta do Norte, Dona Dina nasceu em Grão Mogol no quatorze de maio de 1919 e só veio para Montes Claros dois anos depois. Morou em Pires e Albuquerque oito, casou-se com dezenove. Porque o marido Geraldo de Paula Correia foi para São Paulo e voltou doente, a ela sozinha coube criar e educar os filhos Pedro, Theodomiro, Terezinha, Nadir, Carlos, Itamar, Geralda e Cláudia. Antes da aposentadoria aos trinta e cinco anos de trabalho na Escola Normal - direção de D. Taúde, de Luiz Pires, de Francolino e Sônia Quadros - sei que muitos foram os biscoitos e doces feitos no forno e fogão do Alto do Santo Expedito, casinha humilde, embora imponentemente rodeada de bonitas mangueiras. O terreno era de Neném Barbosa e ficava mais ou menos onde está o Montes Claros Shopping Center. Era de lá que o filho Theodomiro saia com a bandeja cheia para as vendas em domicílio. Dona Dina fazia questão de ter, fora do horário da escola, todos os filhos e filhas também trabalhando para garantir a lenha da cozinha e a feira dos sábados. Ela dava o melhor exemplo e fazia questão de ser seguida. Fui colega de Dona Dina, por duas vezes, no sobradão da Coronel Celestino, em 1954, quando lecionei inglês, e na Avenida Mestra Fininha, de 1965 a 1970 , quando eu era professor de português e literatura para as turmas do científico. Foi um tempo maravilhoso em nossas vidas, pois muitas e muitas amizades feitas naquela época duram até hoje e nos seguirão ao longo da jornada terrena. Dona Dina foi sempre uma colega perfeita, dedicada, presente, para mim e para todos os companheiros de trabalho, uma amiga insubstituível. Sua educação de berço, a voz sempre comedida, os olhos sempre brilhantes de consideração e amizade eram marcas de uma personalidade inesquecível para qualquer tipo de histórico pessoal. Podemos nos esquecer do que as pessoas nos dizem, mas jamais olvidaremos da forma que elas nos tratam, de como elas nos fazem sentir. Como nunca virou as costas para a vida, Dona Dina tem milhares de amigos e um milhão de admiradores. Para cada dificuldade e cada desafio, ela descobriu as respostas e a melhor forma de superá-los. Uma criatura de muitas vitórias! Com bom humor espalhando mais do que simples felicidade, Dona Dina é digna de todas as riquezas do mundo, de todos os horizontes de esperança, de todo o despertar dos sonhos. Fazendo sempre a sua parte e, muitas vezes, até a dos outros, nossa homenageada é força visível e invisível do bem, suficientemente poderosa para transformar para melhor qualquer um dos nossos momentos. Se vivo fosse Henfil, ele poderia dizer que, em toda existência de Dona Dina houve frutos e valeu a beleza das flores, houve flores e valeu a sombra das folhas, houve folhas e valeu a intenção das sementes. Nesta comemoração dos novent`anos, pedimos ao bom Deus que sempre protegeu Dona Dina e os que lhe são queridos - oito filhos, vinte e cinco netos, vinte e três bisnetos - continue sempre amparando a todos com a infinita e majestosa luz do amor!
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 6/5/2009 12:17:24
RUTH TUPINAMBÁ E MONTES CLAROS

Wanderlino Arruda

Não faz muito tempo, num comentário que fiz, no Elos Clube, sobre Hermes de Paula, falando em continuidade dos registros históricos de Montes claros, apontei a acadêmica Ruth Tupinambá Graça como a pessoa indicada para essa tarefa. Sei que alguns ouvintes devem ter julgado minha opinião como fruto de entusiasmo de orador de momento, um arroubo de amigo e companheiro. A própria Ruth Tupinambá deve ter pensado o mesmo, pois sorriu descrente, nunca se colocando como continuadora da obra do nosso mais famoso historiador. A memória remota e recente sobre Hermes de Paula ainda é muito viva a admiração por ele é incontestável, a visão de sua luta diária com os acontecimentos o coloca como insubstituível e, por isso, ainda não se firmou o pensamento de que a história não pára e exige outro acompanhante. Continuo, pois, dizendo que depois de Hermes de Paula deverá vir Ruth Tupinambá Graça, como eu disse a ela mesma hoje numa reunião conjunta da Academia Montesclarense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros. Não só deve, como precisa que venha. Precisamos de alguém que conheça a cidade e sua gente, alguém que goste do trabalho de registrar acontecimentos e de marcar as presenças das personagens nesses acontecimentos. Alguém que tenha amor suficiente à cidade e que saiba como manusear as palavras para pintar e descrever os momentos dignos de registros. Precisamos, sobretudo, de uma pessoa que seja, ao mesmo tempo, repórter, cronista e contadora de histórias. E estas qualidades a autora de "Montes Claros Era Assim..." tem de sobra. Sem nenhuma intenção de fazer trocadilhos, posso dizer que Ruth Tupinambá tem muita graça para isso. Escreve com a suavidade de quem toma banho em cachoeira, com limpidez e transparência. Ressalte-se também o fato de ela conhecer muito bem o passado de Montes Claros, desde quando se entendeu por gente. Menina curiosa, versátil, muito inteligente e perspicaz, ela observou tudo e, às vezes, até acompanhou e viveu muitos episódios, principalmente a atuação das pessoas, as visões de cortes sociais, os ambientes, as mudanças físicas e psicológicas. Analista da alma humana, Ruth Tupinambá alcança cada gesto, cada piscar de alegria, cada remoer de tristezas. Em tudo ela vê cores, sons, dimensões, o amor ou o desamor, as crendices, o folclórico. Ruth tem imensa saudade de todas as horas, e isso lhe dá condições de sempre refrescar as lembranças da memória e do coração. Parece-me um bom passaporte para a posição de historiadora, pelo menos para a criação de história apaixonada como sempre o fez Hermes de Paula. Já quase sem espaço nesta crônica, quero dizer que o livro "Montes Claros Era Assim..." é uma boa oportunidade de conhecermos o passado da cidade, esse conjunto de gente sertaneja e vivedora que soube crescer e multiplicar. É bom e importante ler depressa (ou devagar, conforme o gosto) todas as crônicas do livro de Ruth Tupinambá para saber tudo ou, pelo menos, o lado mais interessante das coisas e das gentes. Nelas estarão os cometas, os tropeiros, os bruaqueiros, o velho Christoff (pai de Konstantin), o velho João Maurício, o primo Luís, o Sinval e seu bar, a Euterpe Montes-clarense, o Cine Montes Claros, São Luiz e Coronel Ribeiro, o footing da Rua Quinze, as boiadas, os carros de bois, os circos, os primeiros carros de praça, a seresta, as modinhas, a brincadeira da argolinha e a de fazer a gata parir, a matriz, a catedral em construção, as ruas das mulheres de vida livre, as publicações da Gazeta do Norte, um grande universo de assuntos que marcam saudades. Depois da leitura, pode vir o julgamento se Ruth Tupinambá é ou não nossa futura historiadora. De minha parte tenho mais que certeza disso! Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 29/4/2009 07:44:23
EDMILSON, SERVIÇO DE UTILIDADE PÚBLICA

Wanderlino Arruda

A cidade existe para servir às pessoas ou as pessoas existem para servir à cidade? Afinal, quem é dono de quem? Quem é mais importante: Montes Claros ou seu povo? Que um depende do outro, ninguém duvida, porque só a colaboração de cada habitante, o grau de interesse pelos problemas, a busca de solução particular ou geral, o elo de amor de cada um poderão marcar pontos positivos no progresso e na humanização da nossa vida, de jovens e mais idosos, de pobres e ricos, de conhecidos e de desconhecidos, todos donos de uma fração desta antiga Vila de Formigas. Por outro lado, a cidade não pode ter vida própria fora da vida dos seus moradores, longe do interesse de cada família, de cada estudante, ou de trabalhadores ou mães de famílias, de técnicos ou de simples artistas dos minutos de beleza que o dia-a-dia nos oferece generosamente. A cidade de Montes Claros, na verdade, somos todos nós, com todas nossas alegrias e tristezas, nossa pressa, nosso trabalho, nosso interesse às idas e vindas; os enganos e desenganos, a amizade dedicada e recebida; a concorrência em todos os campos da vida, a seriedade, necessária para fazer o mundo melhor. Não se pode desligar a cidade do cidadão. Quando alguém se isola, por comodismo ou por incompreensão, alguma coisa fica em débito na conta-corrente do progresso. E não falo do progresso só material, do desenvolvimento de pedra e cimento, tijolos e de asfalto, de mio fio e de muro cercando lote vago. Falo principalmente da argamassa psíquica de alegria e gosto de viver daquela sensação gostosa de morar numa cidade onde o humanismo seja a maior bandeira, onde o bicho-homem represente o geral e o particular, uma espécie de fio de ouro que ligue a terra ao céu. A meta tem de ser o homem. E quando falo em homem, quero representar bem o sentido bíblico de criatura, sendo homem a generalização de todas as raças e posicionamento na sorte, de crianças, velhos, mulheres, moças, homens jovens ou maduros. Não deve haver nenhuma discriminação, pois são todas as criaturas de direitos e deveres distribuídas pela Criação para o desempenho de papéis no eterno drama da existência. Cada indivíduo é um universo com todas as suas implicações no campo da sensibilidade. Ninguém é realmente uma ilha; todas as nossas vidas se encontram entrelaçadas; apertemos ou não mutuamente nossas mãos lisas ou calejadas, sujas ou limpas. Há e sempre houve e há muita gente trabalhando para o bem geral desta cidade de Montes Claros. Mulheres que se santificam no trabalho do ensino e do amparo social; na enfermagem e na higienização das ruas, na criação dos filhos, no preparo dos alimentos ou nos balcões de lojas e mesas de bancos e de escritórios. Há homens que lutam e se aperfeiçoam: que correm suados ou se assentam para busca de organização da própria vida em comum. Há profissionais que vivem para o cumprimento do seu dever, convivendo com a disciplina e gerando com seus próprios meios a felicidade desejada. O que desejo destacar, agora, é a marca histórica de um profissional de função pública que observei durante longo tempo, quando ele trabalhava com total dedicação e carinho no trato diário de seu trabalho. Lúcido, atento, gentil, tinha na dura luta pela vida só atitudes de tornar tudo mais gratificante para si mesmo e para as pessoas a que servia por obrigação e, como tudo demonstrava, por prazer. Era um guarda que o Décimo Batalhão colocara em serviço nas imediações do Grupo Escolar D. João Antônio Pimenta e do SESC. Sua atuação sempre fora impecável e as crianças e passantes diários pela rua adoravam-no e tinham por ele grande respeito e amizade, o que era bom e agradável para ambas às partes. Faço justiça, terminando esta crônica registrando o seu nome: Edmilson Oliveira Paz, perfeito e competente militar e um notável homem público. Por onde anda Edmilson não sei, mas tenho consciência de que a sua atuação será sempre inesquecível!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 21/4/2009 18:41:05
APOSENTADORIA PROBLEMAS VANTAGENS

Wanderlino Arruda

Aos poucos, quando vem chegando o final da carreira, é importante a pensar na sempre tão sonhada situação de aposentado, fazer o exame de consciência necessário para interpretá-la compreendê-la, saboreá-la por antecipação. Parece que não existe trabalhador que não pense, não sonhe com o que chama de merecida aposentadoria. Conheço gente que tem quatro ou cinco anos de carteira assinada e já fala nos dias futuros em que não mais terá de assinar o ponto todas as manhãs, aquela vocação de quem não nasceu para as amarras do assalariado, que todo empregado é, seja humilde, seja grã-fino. De mansinho vem a idéia de interpretação se realmente a aposentadoria é mesmo um prêmio. Francamente, não sei se a aposentadoria não seja mais um castigo, algo de punição para modificar hábitos, desorganizar arraigados modos de vida, avacalhar o coreto do dia-a-dia dos trabalhadores e das famílias. Já imaginou, de uma hora para outra, não ter o que fazer? Ficar o dia todo dentro de casa, aranhando, vivendo sem pressa, desarrumando e arrumando papéis velhos, passando a toda hora perto das panelas na cozinha, beliscando, comendo antes do horário? Ou, de forma diferente, tendo de viver o dia todo no Quarteirão do Povo, de pé, conversando as mesmas conversas, "resolvendo" eternamente os mesmos problemas que os governos nunca resolvem? Francamente, minha senhora, não sei! O conselho de quem sabe e já passou pela experiência é que o problema menor do aposentado é a questão financeira. Nessa até que se dá jeito, podendo ser reforçada com alguns "bicos", um emprestimozinho, aqui ou ali. O que precisa ser suportado com galhardia é o descompasso violento entre algumas obrigações e a ociosidade. Há de haver uma preparação espiritual para receber os acontecimentos nunca como castigo. É preciso descobrir regalias, interpretar tudo como prêmio merecido, abrir opções de lazer, visitas possíveis e que não incomodem os visitados, prática de alguns esportes também possíveis e, sobretudo, a consciência do que não pode ou não deve ser feito. Em todo caso, vejamos alguns pontos positivos para os aposentados, nas palavras de um colega de muita experiência no assunto. O primeiro e mais agradável é a desobrigação dos horários rígidos, da responsabilidade de sentir-se sempre como peça importante de uma máquina que nunca pára, o que costumo chamar de servidão do relógio, disciplina, administração do tempo. Depois, há os favorecimentos da liberdade do ir e vir, do alimentar-se, do dormir na hora que mais convém, do não ter pressa, de ter todos os dias como domingos e feriados, do direito de tomar sol ou esconder-se do frio. Melhor, do viajar, de chegar e sair sempre que pedir licença. Assim é a vida. Até as coisas boas trazem problemas. Se todos nós preocupamos tanto com o muito fazer, por que esquentarmos a nossa cabeça com o dolce far niente, com o papo pro ar, a perna pra cima? Melhor aprender a suportar a realização dos sonhos. Isso, afinal, até que é bom, bem sei!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 14/4/2009 12:26:14
HERMES DE PAULA,UM TRABALHADOR

Wanderlino Arruda

Trabalho significa só pegar no pesado, ter as mãos calejadas? Trabalho é suar, cansar-se fisicamente, dormir à noite moído de dores em todo o corpo? Ou trabalho é o exercício continuado de uma ou de múltiplas atividades, esteja ou não desenvolvido para ganhar o pão de cada dia? Trabalho pode ser também a aplicação apaixonada do bem e do amor? Pode ser busca estética, busca de beleza, de cultura, esforço mental em benefício da coletividade ou do próprio trabalhador? Sempre achei que sim. Trabalho é a produção do progresso pessoal e coletivo, aprimoramento da boa vontade em direção ao semelhante, ação física ou mental sem fronteira de tempo ou de espaço. Trabalho é modo de fazer a independência da virtude frente às coisas erradas que acontecem no mundo. Trabalhar é o realmente viver a alegria de estar sempre fazendo algo proveitoso e digno de admiração pela utilidade ou pela beleza. Levados em conta todos esses considerandos, Hermes de Paula deixou-nos a todos com imensa saudade depois de ter desenvolvido uma estafante vida de trabalho. Trabalho de todos os dias - todos mesmo - até o seu último, na sexta-feira, dia 10 de junho de 1983, um dia antes da comemoração do "Dia da Raça", da nossa lusíada raça, cadinho de miscigenação de tantas outras. Foi Hermes de Paula um artista do trabalho amoroso à terra e ao povo, menestrel de todas as canções, poeta e trovador das boas causas, intelectual valorizador do melhor que podem realizar as lembranças do passado montes-clarense, remoto e recente. Hermes de Paula respirou e viveu sempre a cidade de Montes Claros, historiou-a e engrandeceu-a com todas as luzes do seu coração. Inteligente e lúcido, de memória invejável e invejada, interessado e perspicaz na observação dos fatos mais simples, , além de escrever, viveu a história, puxou-a, induziu-a num hino de encantamento. Foi um homem engajado ao seu tempo, um trabalhador no sentido mais amplo. Como homem sem riquezas, existência mais de poesia que de finanças, viveu sempre dependente do esforço pessoal aplicado ao ganho de todos os dias. Dedicado, consciente, estudioso, sempre procurou as vantagens da satisfação numa sincera prestação de serviços. Viver feliz foi sempre sua meta principal. Disso dependia sua constante socialização de uma ponderada alegria, um eloqüente contentamento, tudo muito bem distribuído a todos que lhe ficavam ao redor. Hermes, um homem de bem, um homem do amor! Merece a nossa maior consideração neste ano em que comemoramos o seu Centenário de Nascimento.

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 7/4/2009 14:58:37
AS DUAS BRASÍLIAS

Wanderlino Arruda

A idéia de fazer cidades irmãs as duas Brasílias, a de lá do Planalto Central e a de cá deste sofrido setentrião de Minas, só podia ter saído da cabeça de Luiz de Paula, o nosso escritor, industrial, compositor e fazendeiro, que, todos os dias, em manhãs e tardes, reserva um bom naco de tempo para filosofar e empreender revoadas poéticas. Realmente foi do Luiz a invenção, as providências, o trato diplomático da união de Brasilinha e de Brasília-DF, a pobre e a rica do seu coração, uma porque terra do seu pai, outra porque ajudou a fazer, politicando e pagando impostos. Foi assim que a terra de Haroldo Lívio tornou-se irmã da capital de JK, com todos os direitos de papel passado, documento com assinaturas do então governador José Aparecido e do prefeito Francisco Simões, testemunhado por Oscar Niemeyer e pelo próprio Luiz de Paula. Tudo começou com o discutido e aprovado em uma reunião da UNESCO, em Paris no dia 7 de dezembro de 1987, quando Brasília foi consagrada como patrimônio Cultural da Humanidade, primeiro bem contemporâneo considerado monumento das novas gerações. A notícia, que circulou o mundo, acabou aterrissando na inteligência do Luiz e, tome lá poesia, veio a idéia da proposta ao governador Aparecido, num telefonema de muita ansiedade: - Chegou a hora de fazer justiça, meu caro Aparecido, é preciso que a grande Brasília dê as mãos a nossa Brasilinha, e cumpra as promessas de Juscelino e entrelace todos os corações e sejam as duas cidades um bom exemplo de fraternidade! - Só se for agora, Luiz. Você tem toda razão, venha cá com urgência. Hospede-se comigo, vamos muito conversar! E Luiz foi, sentou-se com Aparecido, tomaram uísque, recordaram velhos casos de Minas, falaram de cachaça, de licor de pequi, de doces caseiros, de umbu, dos nossos saudosos políticos honestos e, como não podia deixar de ser, do chamego do governador para com as coisas do Norte-mineiro, entre elas Brasília de Minas. Foi um bom encontro de amizade e sabedoria, com largos sorrisos, final definidor de data de ida de Luiz e do prefeito Chico Simões a Brasília foi chamada para assinatura de um protocolo histórico. Tudo muito mineiro e poético! Cinco são os itens de sustentação documental, considerando: a) a consagração de Brasília pelo UNESCO, como Patrimônio Cultural da Humanidade, em 7 de dezembro de 1987; b) a vocação pioneira da Capital, sonhada desde a Inconfidência, e conquistada pela vontade inabalável, e a visão histórica do presidente Juscelino Kubitscheck; c) o uso do nome Brasília para a capital da República; d) o gesto bonito da comunidade norte-mineira, que compartilhou o seu nome com Capital Federal, passando logo a chamar-se Brasília de Minas; e) afinal, as duas são cidades irmãs não apenas no nome, mas também nos compromissos de civilização e modernidade. Por isso, resolvem incentivar e aprofundar a cooperação entre ambas nas áreas sócio-econômica e cultural, reivindicando a imediata pavimentação asfáltica do trecho da estrada entre as cidades São Francisco e Unaí. Para fechar o entendimento com chave de ouro, o Prefeito de Brasília de Minas, no dia 21 de abril, à frente de delegação de cidade-irmã, inaugurou placa comemorativa, em local indicado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, perpetuando as circunstâncias e a história da bonita união. Um lindo final feliz!
Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais


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Por Wanderlino Arruda - 24/3/2009 12:55:27
NELITON E OS CUIDADOS DA VIDA
Wanderlino Arruda

Eu me lembro muito bem de quando, há alguns anos, a família de Neliton chegava, em desespero, ao São Lucas, depois da notícia do acidente de moto ocorrido com ele na estrada de Janaúba. Muitas luzes acesas na Avenida Geraldo Athayde, muita gente, aquela triste curiosidade de quem chega e de quem passa. Uns diziam que se tratava de um fotógrafo, outros mais chegados sabiam o nome de Neliton, outros ainda mais próximos diziam que era um irmão da professora Neide Rodrigues Pimenta. Todos lamentavam o acontecimento e reprisavam a informação de que Neliton era um motociclista muito cuidadoso, bastante ponderado para saber evitar qualquer acidente de rua ou de estrada. “Estaríamos diante de uma fatalidade?” Todos perguntavam!
Passado muito tempo após a borrasca de dor, a terna lembrança, a doce saudade do amigo ainda marcando uma humana e lamentada ausência, acatada mas nunca compreendida ou aceita, principalmente por causa dos vigilantes cuidados que o Neliton tinha no dirigir e no dispor da máquina e de sua força, para ele um instrumento de condução normal desde que em mãos de pessoa sensata e não apressada. Alguns meses depois, recebi da Neide, minha colega de magistério, um trabalho do Neliton sobre motos e motociclistas, frases destinadas a um concurso promovido para a Revista Quatro Rodas. “Pouco tempo antes do acidente de que foi vítima, ele nos telefonou do Foto para nos pedir, a Baltazar e a mim, um favor” – disse-me Neide: “Ele queria sugestões e quando veio buscar o que havíamos feito, já trazia consigo três slogans de um tal Zé Gordo e muitas outras frases de sua autoria”.
De Zé Gordo: “Duas rodas, duas mãos e uma consciência”. “Para um equilíbrio perfeito, duas rodas bastam”. “Duas rodas bastam, quando há cautela”. Do próprio Neliton: “Motociclista, todo cuidado é pouco”. “Segurança nunca é demais”. “Segurança dobrada, acidentes evitados”. “Motocando ou pedalando, mas, sempre se cuidando”. “Segurança... segurança... como é bom!”. “Motociclista, não vacile, não abuse, não se invalide”. “Motociclista, não tenha pressa de morrer”. “Cabeça inteligente, cabeça protegia. Máquina, quente, cabeça fria”. “Motociclista, ligue-se mais”. “Motociclista, ultrapassar às vezes é suicídio”. “Farol aceso, uma idéia luminosa”.
Aos slogans de Zé Gordo e do Neliton, o professor Baltazar Pimenta acrescentou estes: “Sua moto não pensa, pense por dois”. “Ser livre é importante, mas... vivo”. “Desfrute de sua liberdade... de ser realmente vivo”. “Agarre-se ao guidão da vida, ao guiar sua moto”. “Seja vivo e permaneça vivo! Não confunda liberdade com velocidade”. “Fique vivo! Corra da morte, andando devagar”. “Na minha moto eu corro muito, mas muito mais... da morte”.
Anos depois das frases e da passagem de Neliton para a vida maior, bem seria que todos os motociclistas redobrassem o cuidado no amparo da própria segurança. Como Neliton, muitos outros já se foram, também deixando saudades.
Que as frases do concurso do Neliton, o excelente amigo, o bom rapaz, não fiquem em vão. Volte o leitor a contá-las e repare bem que os números já não são mais somente simbólicos; dão muito o que meditar e fazer nova tomada de consciência. Quem quiser ter uma idéia de número de acidentes todos os dias, visita um pronto socorro de qualquer hospital.
Que Deus proteja a todos nós, principalmente aos motociclistas, agora chamados de motoqueiros.

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


44409
Por Wanderlino Arruda - 17/3/2009 10:10:16
HERMES DE PAULA, DOUTOR HONORIS CAUSA Wanderlino Arruda

Foi com morosidade que as quase trezentas vozes, que pareciam mais de mil, pausadamente, atenderam o pedido de silêncio do diretor José Nildo e Silva para o início dos trabalhos da segunda Sefam", o seminário dos professores e alunos da Faculdade de Medicina. Era uma quarta-feira, meio de semana, com suspensão de aulas para a maior avaliação até hoje feita pela nossa Faculdade, um cuidado necessário para enfrentar o presente de dificuldades e o futuro de incertezas. O diretor chama para dirigir os trabalhos, o patrono do D. A. e primeiro dirigente e organizador da escola, Mário Ribeiro. Caberá a ele, Mário, a formação da mesa, o anúncio maior da finalidade do encontro. Poucos nomes são declinados e, quando se levantam, caminham sob aplausos de alunos que sabem admirar seus professores. Apenas dois professores de fora são nomeados, fora da mesa, com permanência no auditório: o professor Álvaro de Azevedo Ávila, diretor da Fadir e representante da FUMN, e eu, representante da Fafil. Olho, ao lado, e vejo, triste uma grande omissão; Hermes de Paula fica esquecido, não é lembrado, muito embora doutor Cláudio Pereira, também ex-diretor, esteja mais atrás, também sem menção. Iniciados os trabalhos, com apresentações objetivas, curtas como devem ser, o diretor fala da Fundação da escola, de sua finalidade, anuncia uma palestra sobre a história de todas as lutas e sofrimentos nestes anos iniciais. Volta a palavra ao mestre Mário Ribeiro (nessa noite, de cerimônias) e, este faz o anúncio maior: "No auditório está o idealizador da Faculdade de Medicina do Norte de Minas, o homem que tomou os primeiros passos para a sua criação, o homem que me convidou para primeiro diretor. Convido-o para tomar o lugar que lhe compete, que é seu por direito; que é seu pelo desejo maior de todos nós. Recebamos Hermes de Paula, o nosso maior nome nesta Escola. A sua cadeira o espera, Hermes. Venha nos dar a honra". E com dificuldade que o doutor Hermes de Paula se levanta e encaminha-se para o estrado da mesa diretora. Para subir, é necessário o amparo de uma mão amiga. Nunca se presenciou tantos e tão demorados aplausos. A turma, de pé, bateu palmas como se estivesse batendo pela última vez, numa gratidão que só se tributa a um grande herói, herói e amigo. É nessa hora que vem a verdadeira declaração do primeiro dia de trabalho da Sefam. O diretor José Nildo lê a resolução; Hermes de Paula é declarado o primeiro Doutor Honoris Causa da Faculdade de Medicina, uma honra que lhe é deferida pela capacidade e por um milhão de méritos como o maior de todos os montes-clarenses. Nova ovação. Alegria e sentimentalismo. Existe algo no ar que ninguém sabe o que é. Aquele não é o momento qualquer nas estórias da vida. Existem minutos que valem por um século. Ou mais... Hermes de Paula toma a palavra. Não vai falar muito, que não é de discursos. "Senhores, formei-me em Medicina em 1937, em Niterói. Vital Brasil, um dos homens mais famosos na Medicina brasileira, convidou-me para trabalhar com ele, no seu Instituto ganhando um dos melhores salários que um profissional poderia desejar ou sonhar, Cr$ 1.800. Além de ganhar tanto dinheiro, muito para a época, eu teria a oportunidade de ser também muito famoso. Mas, a saudade de Montes Claros e a lembrança dos meus amigos não deixaram que eu ficasse lá. vim para cá. Em todos estes anos, questionei-me se eu não havia cometido um grande erro, escolhendo a minha terra, numa vida humilde e trabalhosa. Às vezes, eu achava que tinha feito o certo.. Hoje, porém, sei que não poderia ter tomado uma resolução melhor. Eu fiz bem em vir para Montes Claros. Senhores, muita coisa me tem acontecido, todas gratas e muito tenho agradecido a Deus, por elas. Mas, se nada tivesse ocorrido, só esta noite, só esta cerimônia, só fato de estar recebendo este diploma das mãos e dos corações de vocês, eu posso dizer com toda a minha convicção: valeu a pena. Valeu. Muito obrigado a todos". Dois dias depois, Hermes de Paula se despediu de Montes Claros, para a viagem eterna. Para nos também, valeu a pena a vinda dele. Valeu! Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 10/3/2009 11:37:32
Professor Ezequiel Pereira

Wanderlino Arruda

Acho que esta crônica deveria estar sendo escrita por Haroldo Lívio. Ele a faria bem melhor, com mais sabor telúrico, uma vez que ele sente muito mais de perto a força da terra de Grão Mogol, o cheiro do amor metafísico que perpassa pelas ruas tortas e pela velha praça nominada pela placa mais bonita que já vi, a placa da Praça Prof. Ezequiel Pereira, bem o no centro da velha cidade. O Professor Zeca é de Grão Mogol, de lá mesmo, município cheio de pedras escuras de verde-musgo e maduras de amarelo-dourado, lugar de águas tão claras como o cristal mais claro, árvores de um verde tão intenso que faz doer-nos a vista. Nascido lá, ali tomando contato com a natureza e com o mundo, lendo e escrevendo as primeiras letras, construiu, construiu, de menino, um feliz alicerce de vida mais do que feliz. Não sei quantos anos tive de convivência com o Professor Zeca nem posso precisar bem a época dos nossos primeiros encontros, de quando eu comecei a beber na fonte inesgotável de sua sabedoria, do manancial de erudição tão maravilhoso que ele sabia muito bem guardar envolto numa sincera e natural simplicidade. Foi o Professor Zeca um dos homens mais cultos e mais humildes que pude conhecer até hoje, cultura que a gente tinha de minerar aos poucos através de perguntas, de colocação de assuntos que pudessem provocar sua obrigação de ensinar, de esclarecer. Sabendo muito, por demais preciso nos seus conceitos de ciência, de filosofia, de religião, de lingüística, parece que tinha medo, ou mesmo por excesso de amor evitava ofuscar os que pouco sabiam ou sabiam quase nada. O Professor Zeca era impecável na limpeza. Limpeza física e de coração, limpeza de idéias, de vocabulário, uma limpeza alegre, descontraída, despojada de qualquer tipo de pompa ou de orgulho. Sua presença colocava as pessoas tão à vontade como se elas estivessem numa respeitosa festa de família. Era um homem de bem, tudo indica, sem qualquer defeito visível ou invisível. Os que conviveram mais tempo com ele, - os saudosos Olímpio Abreu, Ney David, D. Deuslira Filpi, D. Lisbela, D. Lia Rameta, João Afonso, todos diziam nunca terem notado nele qualquer faceta negativa. Espírita desde os treze anos, juntamente com seu famoso irmão Cícero Pereira, Professor Zeca foi estudioso da doutrina até os 84, paciente nas anotações, firme e sem desfalecimento até o fim. Um erudito, obediente à Codificação, firme no escrever e no proferir palestras, foi sempre mestre admirado de muitas gerações. Houve em Montes Claros - há três décadas - uma semana de comemorações do centenário de nascimento do Professor Zeca. Foram dias de repasse de feitos grandiosos de um homem que jamais sonhou com grandezas. Professor, coletor do Estado, chefe político, guarda-livros na antiga fábrica do Cedro, foi sempre metódico e seguro nas suas decisões. Foi um dos fundadores da Fraternidade Espírita Canacy, no início do século XX, companheiro também dos sempre lembrados Aristeu de Melo Franco e de Sebastião Sobreira. O Professor Zeca não estudava só em português e não podia assim fazê-lo numa época em que muitos livros importantes não haviam sido traduzidos para nossa língua. Lia diligentemente em francês, inglês, italiano, espanhol, esperanto. Eram excelentes seus conhecimentos de grego e de latim. Um intelectual exemplar. O Professor Zeca, Ezequiel Pereira, foi sempre uma raríssima figura humana, homem bom, atualizado, competente, de uma elegância sem par. Um homem de bem!
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 4/3/2009 08:49:02
REVISTA 3 DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRÁFICO
Wanderlino Arruda
Desejo, de início, saudar o companheiro Dário Teixeira Cotrim, nosso ilustre vice-presidente, como o sempre vitorioso coordenador desta Revista, agora em seu terceiro volume, feito inédito para qualquer instituição científica ou literária. Um maravilhoso acontecimento que tem tudo para ser repetido pelo menos uma vez a cada semestre,pode esperar nosso querido público interno e externo, sempre pronto a elogiar um feito tão bem feito. A Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, edição primorosa graças ao bom trabalho gráfico da Editora Millennium Ltda., tem sido também um exemplo de uma exemplar capacidade de trabalho e de boa vontade de grande parte do nosso quadro social, agora já acima dos noventa companheiros na lista efetiva e de muitos dos companheiros correspondentes moradores em outras partes fora da região norte-mineira. Somos felizes com a colaboração de todos, seja com trabalhos publicados, seja com a crítica amiga e positiva, mais útil ao nosso aperfeiçoamento. Tudo tradução de muita alegria e muita esperança, capazes de implantar, mudar e transformar qualquer coisa, principalmente a construção dos sonhos e a concretização do amor a tudo que represente registro da cultura e do saber histórico e geográfico. Afinal, somos pessoas com os pés na terra e a cabeça nas estrelas, capazes de sonhar, sem medo de nossos sonhos. Idealistas, determinados, transformamos sonhos em metas, com uma vontade incrível de tornar tudo uma segura realidade. Desde os primeiros dias da fundação no final de 2006, nunca abrimos mão de construir nossos destinos e arquitetar o melhor para o nosso Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, que chegou orientado e protegido pelo centenário Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, uma das mais firmes instituições do país, reconhecida internacionalmente. Parceiros da eternidade, permitimo-nos até uma brincadeira com um assunto mais do que sério: os limites da vida humana, tudo mutável e muito passageiro. Na Revista número um, registramos as nossas saudades ao primeiro companheiro chamado pelo andar de cima, o historiador João Botelho Neto, da cidade de São Francisco. Na Revista número dois, uma saudade dupla, com o passamento do também mui querido Padre Aderbal Murta de Almeida, página de homenagem já com duas fotos. Agora, número três, o Grande Arquiteto do Universo antecipou nossa edição com o chamamento ao colega Reivaldo Simões de Souza Canela: três fotos marcando doces lembranças, imensa saudade e registro de três vagas no quadro social. Tudo fora do nosso controle e nem podemos nos queixar do Criador, porque vida e morte sempre farão parte do cenário tanto da História como da Geografia. Desculpe-me o leitor e vamos esperar que a quarta revista, que deverá sair em junho/julho não contenha qualquer foto nova que não a da página de homenagens desta edição. Nossa última palavra é a de saudação ao Centenário do notável Godofredo Guedes, nosso artista maior de todos os tempos.

Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 10/2/2009 09:59:41
Lembranças do Tiro de Guerra 87

Wanderlino Arruda

"Aprendemos não para a escola, mas para a vida", pensamento latino do velho Colégio Diocesano, aulas de latim de Monsenhor Gustavo, que muito têm servido a muitos ao longo da existência. No meu caso, realmente, nunca estudei só para a escola, só com o objetivo imediato de ganhar boas notas, embora uma nota mais alta cause sempre em um adulto uma alegria quase infantil, situação importante em qualquer época da vida. Quero agora falar sobre resultados, sobre alegria íntima, lembranças de inesquecíveis tempos do Tiro de Guerra 87, espaço de civismo do meu saudoso mestre, Sargento Moura. Idos de 1953, turma de quase cem rapazes, todos da mesma idade, todos com o mesmo sonho, povoando por vários meses a poeirenta Praça da Estação, terreiro público onde a velha Rodoviária incomodava o formigueiro humano que entrava e saia de Montes Claros. O prédio de Tiro de Guerra, localização privilegiada, esquina da Rua Tiradentes com a Praça e a Rua Melo Viana, tinha grande espaço de manobras até a estátua de Francisco Sá, no meio de pequeno jardim, no início das outras avenidas. Casa enorme, com salas e salões, tinha nos fundos a moradia do Sargento Moura e um quintal onde um por um havia de montar guarda, dividindo a segurança com um camarada, que ficava na porta de entrada. Não havia cadeiras; havia bancos, duros e pesadões, separados com razoável distância para evitar cotoveladas e outros tipos de brincadeiras tão normais entre a rapaziada. De todos os lados, menos à direita, janelas e mais janelas, que existem até hoje no prédio que veio alguns anos depois, quando o TG saiu para o Bairro Edgar Pereira, mudou de instrutor e permaneceu lá até a chegada do 55 BI. O Sargento Moura, altão, moreno, elegante, imponente, falador sempre, era o dono incontestável do tempo e da turma, primeira e última palavra em qualquer situação, só humilde nas eventuais inspeções ou no exame final do mês de outubro, quando vinha um capitão ou um major, uma espécie de imperador ou professor-chefe, que passava a centralizar todo o nosso interesse e cuidado. O Sargento Moura só era muito sério nas horas de instrução, pois extremamente exigente nas ordens de comando. Nas outras partes do dia, quando íamos ao Tiro para qualquer assunto, ou quando nos encontrava na rua ou em nosso local de trabalho, era como se fosse um colega mais velho, bondoso, amável, sempre um grande amigo, brincalhão, a colocar a mão no ombro de cada um em tom de conselheiro. Como bom professor, sabia de tudo, todos os assuntos eram do seu domínio, pertenciam ao seu mundo de cultura e de experiência humana. Dos companheiros de caserna, se podemos chamar de caserna um local que nos segurava apenas em parte de cada manhã e em algumas horas a mais no domingos, dos companheiros, temos muito que lembrar. Afinal, havia gente de todo jeito para povoar toda um universo de lembranças, principalmente os mais extrovertidos que deixam marcas pela quase eternidade. Isso para não dizer das influências e notícias de turmas passadas e futuras que - queira ou não - surgem e ressurgem da saudade. No meu tempo, os mais compenetrados eram os dois Renatos, o Veloso e o Almeida, por sinal, os mais capazes, do RDE aos exercícios de marcha e de tiro. Os mais malandros eram o Pamplona e o Souto, os dois terrivelmente imprevisíveis, tanto para nós como para o Sargento. O Souto é hoje bem conhecido, gostando mais de ser chamado de Humberto, sem o Guimarães, depois de eleito deputado estadual e federal, depois de ser ministro, sem favor nenhum, um político sério, um dos mais honestos que o Brasil já teve. Havia os caladões, os resistentes, os corajosos, uns que queriam aparecer, e alguns poucos bem desligados. A maioria, com o máximo de interesse, sempre vibrantes. Bons tempos, com tantas lembranças, que acho terei de voltar ao assunto em outras oportunidades. De alguma forma, fico muito grato ao bom tempo de TG, evocação de importantes e saudáveis momentos de vida. A todas as Semanas do Reservista, até hoje, 55 anos passados, dedico-as à memória dos que passaram pelo inesquecível tempo de vida militar no velho Tiro de Guerra 87. Os destaques são sempre para o Sargento Moura e seus sucessores. E pelo muito aprendizado e experiência!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 28/1/2009 20:40:19
CORBINIANO R. AQUINO
Wanderlino Arruda

Foi com tristeza e, ao mesmo tempo, com emoção e alegria, que vi, há alguns anos, o amigo e companheiro Corbiniano R. Aquino, o tão querido Corby, fazer a grande viagem de volta ao Mundo Maior, deixando os familiares e amigos um tanto órfãos de sua presença e bondade, pois consideradas agradáveis e proveitosas todos os pequenos e grandes momentos em que estivemos juntos no trato diário e nos trabalhos e discussões da Academia Montesclarense de Letras. Tristeza, porque, mesmo sabendo-nos não-imortais, nunca esperamos de imediato a ausência dos que nos são mais queridos, principalmente os mais próximos de nosso viver e conviver.
Por mais que saibamos da realidade da morte nunca a aceitamos sem queixas e saudades e, assim, toda ausência definitiva parece nunca vir no tempo certo, tem sempre um tom de antecipação. Emoção e alegria, porque nada melhor e mais gratificante que a sensação de ver concluída tão brilhantemente uma vida e lutas e vitórias, com certeza do dever cumprido, o coroamento do êxito e consolidação de amizades verdadeiras.
Corby foi grande e constante amigo, bom irmão, colega, condiscípulo na escola do trabalho, mestre-professor sensível e determinado de todas as horas. Não passou pela vida simplesmente, porque a viveu no que ela tem de melhor, de mais útil, em seara do esforço incansável de cada dia, sem paradas, sem perguntar a que veio, mas com a sincera disposição de quem sabia o porquê de estar no mundo. A boa hora para Corby era aquele tempo em que podia ser lucrativo em termos de cultura, de conforto, de progresso e evolução para todos que lhe seguiam a trajetória da romagem terrena. Nunca viver bem social, um conjunto de valores isolado, um não vigoroso e efetivo ao egoísmo. O bem de Corby foi que pudessem, sem dúvida, trazer a felicidade ao maior número possível de pessoas. Viver, viver muito, mas acima de tudo, conviver!
Sei que muitas pessoas só conheceram Corby como industrial e comerciante. Sei que muitas só o consideraram como líder classista na ACI, como filantropo na Maçonaria, como orador e conferencista em entidades públicas e escolas. Alguns o conheceram como homem de fino trato, social e sociável, sério e alegre, amigo, acolhedor. Alguns o viram no cultivo da terra, vidrado em plantações, pelo colorido das flores, por tudo que o solo produz, enriquece e embeleza a vida. Mas quanto eu gostaria que os nossos contemporâneos tivessem aproveitado mais de sua inteligência como escritor e poeta, de sua habilidade como desenhista, de sua lógica contundente nos assuntos da sabedoria e do espírito! Foi ele um grande pensador, homem de cultura em todos os aspectos.
Autor dos livros ACONTECEU EM SERRA AZUL e ACONTECEU, dois excelentes romances, muita coisa ainda virá a lume para lhe dar um reconhecimento póstumo. Bom advogado, respeitado químico, redator consciente das exigências da gramática, espero não demorar muito o dia em que Corbiniano seja citado como um dos nossos melhores intelectuais. Na imprevista ideologia da política e dos políticos mineiros, penso que não basta nem satisfaz só o existir, é preciso que haja recompensa. E disso, é claro que um dia Corby virá a ser reconhecido como um grande e notável merecedor.
Ninguém perde por esperar! A justiça tarda, mas não falta.

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 21/1/2009 12:38:45
Cap. Enéas e a fundação de Burarama
Wanderlino Arruda

A decisão definitiva de mudar-se para a beira do Rio Verde, no Sapé, meio de mundo cercado, de matas compradas do Dr. Marcianinho, foi tomada em Belo Horizonte. Era uma decisão bem desenhada de sonhos, cheia de cuidados com um cheiro romântico e premeditado de aventuras na densa floresta e nos macios carinhos da mulher mais linda do mundo, que o capitão Enéas Mineiro de Souza acabara de conquistar depois de seis meses de investidas. Maria Aparecida, Neném, maravilha de vinte anos, morena clara, olhos castanhos da cor de uma noite de Caruaru, pele nova e aveludada de doce mangaba, falava com uma musicalidade que só uma fada poderia ter, tudo e muito mais do que o pernambucano pedia a Deus. Era o que Enéas sempre sonhara em todas as horas fáceis e difíceis da vida. Estava decidido, e esta decisão jurada no apartamento novinho do Brasil Palace, de frente para a avenida, não podia vir em hora melhor. Neném não aceitava de modo nenhum morar com ele em Montes Claros, e em Belo Horizonte ele não podia ficar por causa dos negócios aqui na região Norte. O Sapé era uma vilazinha velha, sem conforto, feinha até, mas nada importava, porque ao lado de Neném ele haveria de criar uma cidade nova, novinha, onde ela fosse até mais do que uma rainha. Quem vivesse ou sobrevivesse, veria!
Neném ficou em Belo Horizonte duas semanas para dar tempo ao tempo, indo depois para mais uns quinze dias na casa de D. Altina, no Alto São João, em Montes Claros. Foi o prazo para Enéas comprar pneus novos para os caminhões, ajeitar alguma coisa nos motores, aprontar as ferramentas e ensacar o que comer e pegar a gasolina tão difícil na época. Antônio Miguel, Mestre Severino, Epifânio e José Porfírio, além dos motoristas a postos, só esperavam a ordem de viajar. Foi uma dura travessia de muito esforço e suor, principalmente depois de Brejo das Almas, em estradas feitas para animais e quando muito para carroções e carros de bois. As enxadas e os enxadões, as picaretas e alavancas não pararam tempo nenhum pela tarefa de derrubar barrancos e tapar buracos, acertando aqui e ali, empurrando pedras nos carreiros das rodas dentro dos rios e córregos. Dos lados da mataria densa, com cheiro de terra molhada, a natureza espocava em flores e sons, numa alegria depois de chuva rara. Chegaram ao Sapé, afinal, na madrugada do dia 20 de janeiro, ano de guerra de 1942, depois de quase meia semana de pelejas. Foi um sono só para todos nos catres sem conforto da casa já alugada, por carta, a D. Antônia, mãe de Elpídio da Rocha.
Instalada com a consciência de quem veio para ficar, Neném era, a seu ver, a mais jovem e mais bonita dona de pensão de todo o sertão brasileiro, competente, decidida, a gerir uma casa grande, bem assoalhada e de paredes brancas, logo mais uma hospedaria para doutores da estrada-de-ferro em construção, entre eles os engenheiros Demóstenes Rockert, Novais, Laviola, e os médicos Eduardo Morgado e Darce, todos gente de maior simpatia. Para cumprir as exigências dela e salvar as aparências, Enéas Mineiro de Souza, capitão da Polícia de Pernambuco, era apenas um hóspede a mais, empreiteiro de muitos serviços, desmatador chefe. Nada além disso, pelo menos durante o dia e até a hora em que todos iam dormir... Com as duas empregadas que Neném trouxera de Montes Claros, tudo espelhava limpeza e arrumação, já com luz elétrica e água encanada, providenciadas para o maior conforto de todos.
No mesmo dia 20 de janeiro de 1942, voltando pela velha estrada, Antônio Miguel e o capitão, no meio da esplanada de nunca acabar, capaz de abrigar dois milhões de habitantes se tanto fosse preciso, escolheram um pé de tingui bem copado para localização da primeira barraca do acampamento inicial. A idéia era colocar aquela mataria toda no chão e sobre as bancadas das serras, começando logo uma frente de serviço, tão comum em suas vidas... Era como se ali estivesse começando a história do mundo. E ainda bem, porque, um quilômetro abaixo, em casa, Enéas tinha uma mulher que valia por todas as minas de ouro da terra. Na coragem dos seus companheiros e na sua vontade e determinação de vencer, apareciam os primeiros toques para a existência da fazenda Burarama, de cujas avenidas e praças ele daria mais tarde a formação da futura cidade que, depois de sua morte, receberia o seu nome: Capitão Enéas.
Poderia haver momento mais feliz? Impossível!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 14/1/2009 21:52:18

SAUDADES DE DUCHO
Wanderlino Arruda

Poderia demorar o tempo que demorasse, depois de longo período de saudades, eu teria de escrever uma crônica sobre meu amigo Ducho, pai de Glacira e Thaís, de Lúcia e Fátima de Tarcísio e Expedito, de Tiãozinho e Raimundo, pai de Miguel e marido de Dona Geralda. E para isso valho-me de antigas anotações feitas por ocasião das homenagens que lhe foram prestadas por alunos e professores do Conservatório Lorenzo Fernandez, fruto de um momento vivo de amor e admiração, festa cantada em prosa e verso numa noite de maior alegria para o amigo Sebastião Mendes, mestre da arte de ser feliz.
Realmente, para falar de Ducho ninguém precisa ou precisava de pressa. Ele era o homem da calma constante, da boa disposição íntima, da alegria bem comportada, do sorriso sério, um desfilar de completa felicidade. Lúcido, realista, racional e equilibradamente místico, era o filósofo elegante e de bom trato, sempre portador de uma palavra amiga, sem qualquer sinal de ostentação. Ducho era um homem, sobretudo, interessante, sóbrio e limpo, parecendo estar sempre saindo do banho; amigo de todos. Equidistante, não se apegava nem se afastava de ninguém; um quase silencioso e respeitado companheiro, pois falava comedido como um velho marinheiro, voz suave de um vitorioso embaixador. Não creio que Ducho guardasse no coração qualquer traço de ressentimento; pois seu olhar era de completa paz, misto de Sócrates e de Gandhi, parecendo completo conhecedor dos mistérios de Eleusis, um tipo de viajante feliz do Nirvana, só com passagem por este planeta Terra.
Falando, certa vez, com Ducho sobre religião, perscrutando profundamente seu pensamento, perguntei-lhe sobre seu conhecimento espírita e até aonde ia sua convicção nos postulados da codificação de Kardec, tal sua harmonia de idéias, um tanto de Buda e muito Krishnamurti. Ele sorriu com o mais amistoso dos sorrisos e, sem qualquer atitude crítica, disse-me que era um fiel respeitador de todas as opiniões religiosas, mas que, por questão até de inteligência, procurava situar-se sempre acima delas, jamais as tocando diretamente. Para se viver bem com todas, respeitava-as, aproveitava de cada uma o melhor, pairando do alto, não se envolvendo, não tomando partido. Era preciso ler de tudo e retirar a essência como aconselhara o combativo e sábio apóstolo Paulo de Tarso. Aí estava o segredo obtido das suas observações e de muita leitura que sempre fez cuidadosamente, já que muitos são os caminhos que nos levam a Deus.
Para Ducho, o purgatório, que o homem tem construído, poderia transformar-se em céu, se o estado geral das consciências fosse melhor, se houvesse menos ambição, menos pressa, esse cansativo jogo em busca do poder e da riqueza. Cada criatura deveria legislar sobre o próprio bem com a busca do equilíbrio, da tolerância, confiando sempre na sabedoria divina, cuidando de não se ferir e não ofender os companheiros de romagem da vida. A felicidade pode ser encontrada, e ele sempre a encontrou. Afinal se não fosse assim, como estaria diante dos seus milhares de amigos?...
Já com mais de noventa anos, saúde perfeita, prática diária de longa, Sebastião Mendes, o nosso Ducho, empresário e artista, intelectual e filósofo, era o melhor exemplo de companheirismo, o melhor agente da soberania e da sóbria distinção dos sertanejos de Montes Claros. Um maravilhoso exemplo!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 7/1/2009 09:25:42
Osmar Cunha
Wanderlino Arruda

A lembrança mais antiga que tenho de Osmar Cunha é de Taiobeiras, ano de 1949, quando ele, estudante de contabilidade em São Paulo, veio a Minas para um período de férias. Sério e alegre ao mesmo tempo, parecendo mais novo do que a idade exigia, era a elegância em pessoa, com ternos e gravatas da última moda, tecidos caros, cortes perfeitos, qualidade distante para as que qualquer outro vivente comum poderia usar, inclusive seu irmão Dudu Cunha, que também era muito grã-fino. Ninguém vestia ou calçava como Osmar, porque, de São Paulo, ele sempre escolhia o melhor, uma vez que dinheiro e bom gosto nunca lhe foram problemas. Invejado por nós, pobres mortais de Taiobeiras? Não, não creio. Na verdade, Osmar Cunha era é respeitado, admirado, elevado a um patamar, algo assim como se fosse herdeiro do trono do Brasil. O melhor a quem de direito!
Também não me lembro de Osmar namorador como Dudu, ou como qualquer outro de nós, mesmo os meninos, que normalmente tinham mais de um flirt. Osmar era comedido, calmo, mais ligado às pessoas de idade, para conversas de assuntos mais importantes. Mesmo para uma cidadezinha culta como era Taiobeiras em 1949, quando se discutia literatura, acontecimentos mundiais, artes, esportes, concursos de misses, quando existia uma meia dúzia com algum domínio do inglês, Osmar ainda era considerado de padrão superior, principalmente por morar e estudar no centro da cidade de São Paulo, como filho de família rica. Mas, no meio de toda importância, Osmar fazia algumas concessões ao jogar futebol, nadar na barragem, jogar pôquer, dançar, dar voltas em torno da feira de sábado, ir à missa na antiga igreja perto de sua casa. Namorar, namorar, que era o esporte mais gostoso por lá, era só com a Laury, a moça mais culta e mais bonita, também viajada e lida como ele. Ou mais que ele!
Não me lembro de Osmar político, candidato a prefeito de Taiobeiras, porque aí, eu já morava em Montes Claros. Talvez por uns dois passeios rápidos por lá, quando eu ia ver Olímpia e a minha família, tenho lembranças poucas, flashes dos acontecimentos, com um quadro mergulhado de paixões, a situação batendo duro, furtando escandalosamente para não perder o mando, não respeitando nem a elegância de Osmar. Lembro-me de Laury lutando com todas as forças, até pegando em armas, como um dia em que ela espantou uma multidão de adversários, fazendo todos correrem sob a mira de uma carabina. Mas de Osmar, não me lembro! Sua capacidade administrativa, assim como sua diplomacia elevada bem acima das efervescências maledicentes, não o pôde conduzir a vitória. Votos comprados, urnas fraudadas, todo tipo de astúcias e tramóias dos adversários tiraram a sua vez. Triste e desiludido mudou-se para Montes Claros. Secretamente, caladão, nunca cicatrizou a paixão da derrota. Com amargo sorriso era que falava da política de Taiobeiras.
Em Montes Claros, sempre comerciante, ao lado de Dudu ou sozinho, Osmar talvez tenha sido o empresário mais amado e querido por seus funcionários, por seus clientes, pelos fornecedores. Não sei e talvez ninguém saiba de alguém que não gostasse dele. As pessoas o adoravam e nele confiavam sem limitações. Nenhum documento valia mais que a palavra de Osmar. Nenhum prazo era tão rígido no comércio que ele não pudesse ceder em favor de um devedor mais apertado. Quantas vezes Dudu não ficou com o coração nas mãos diante da bondade de Osmar, sempre ajustando vencimentos, sempre ajudando alguém! Osmar era uma espécie de pai dos pobres e deserdados, que o digam os pequenos comerciantes de Montes Claros e de todas as cidades do Norte de Minas e Sul da Bahia. Até hoje posso imaginá-los chorando de saudades!
Osmar Cunha, inesquecível presidente do Elos e do Rotary, marido, pai, irmão, companheiro e professor de muitos, nunca foi um homem comum, nem só um homem elegante. A estrela de ouro que, por nobreza, deixou no mundo, por muito tempo ainda brilhará e abrirá caminhos de luz, de amizade e de admiração!
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


42080
Por Wanderlino Arruda - 30/12/2008 17:14:26
EDUCADORES E JEQUITIBÁ
Wanderlino Arruda

Começou com uma analogia feita por Rubem Alves, no livro "CONVERSA COM QUEM GOSTA DE ENSINAR", fazendo uma comparação entre jequitibás e eucaliptos, para confronto ou sintonia entre educadores e professores. Que diferenças existem entre um educador e um professor? Que diferença há entre um jequitibá e um eucalipto? Primeiramente é bom lembrar as diferenças entre um antigo boticário e um atual farmacêutico, entre um antigo tropeiro e um transportador moderno. O boticário era um homem que fazia tudo na farmácia: manipulava os remédios, embalava-os diretamente para as mãos do freguês, com o máximo de carinho, quando não os levava ao leito do doente. Boticário era a pessoa que tinha sempre um dedo de prosa para cada um que entrava na sua farmácia, era o principal nariz do seu estabelecimento comercial, um dirigente da cultura local, um distribuidor de notícias e conselhos, um agregador social, um encaminhador de diretivas de vidas. Um tropeiro era o homem que criava os seus animais, alimentava-os, limpava-os, arrumava os arreios, cuidava das cargas zeladas pela comida na trempe improvisada, fazia o pouso de dormida, contava estórias para a sua equipe de viagem. Hoje, o boticário é o farmacêutico que ninguém vê, ninguém conhece nem sabe que existe, em farmácias impessoais e apressadas, quase sem qualquer vínculo de consideração humana. As exceções, claro, são raras. O transportador nem existe mais em lugar do tropeiro. O que há são empresas dirigidas por escritórios que falam por telefone ou controlam por computadores, enviando e-mails com cheiros de nada, distantes, tão distantes como os destinos das mercadorias que transportam.
E os educadores? Eram mulheres ou homens dedicados por toda uma vida, mesclando suas existências com as existências dos seus alunos. Eram detentores da sabedoria universal, ensinando tudo, da higiene à história do mundo, desde a língua pátria aos mais complexos problemas de aritmética, da geografia à religião, do desenho às ciências naturais, da economia doméstica aos requintes dos salões. Era um tempo em que formavam rapazes competentes e moças prendadas, uma finura de nobreza, um ambiente em perfume de primavera. Os professores de hoje, pelo menos os que não são educadores, pobres coitados, são descartáveis, mão-de-obra perfeitamente substituível. Ficam em greves durante meses, entram em licença, saem de férias, são demitidos, sem nada influir suas ausências nas considerações dos governos, da pátria ou do povo. No lugar de um entra outro, pouco importa a competência ou o grau de conhecimento. A melhor comparação é feita entre o jequitaí e o eucalipto. O jequitibá é árvore de longa vida, de cinqüenta, cem, duzentos anos, passando de geração em geração, útil e precioso. Ao contrário, o eucalipto está maduro para uso em quatro ou cinco anos, pasto para nenhum vivente, deserto verde, alimento para nada, toca de silencia com ausência de pássaro e animais.
Verdade? Não adianta discutir, não adianta o profissional moderno de ensino, ou trabalhador de ensino, como gosta de ser chamado para efeito sindical, dizer que não é bem assim. É o próprio mundo que vem dissolvendo a tarefa do educador da mesma forma que também quase acabou com o jequitibá, com a braúna, a violeta, o jacarandá, o cedro, a peroba e já quase com a sucupira. O jequitibá, forte e eterno, simboliza o educador, tem o sentido de permanência, é para a vida inteira, utilidade em todos os sentidos; o eucalipto – descartável por natureza e quase fora da natureza – é o professor, que não mais acompanha o aluno, não mais dispõe de tempo, não mais vive o problema do aprendiz, não mais sente ou vive qualquer tarefa, um desesperado a correr de escola em escola, de classe em classe para conseguir o pão de cada dia, ou uma renda menos decepcionante. Professor já não sabe o nome do aluno; aluno já não se interessa mais pelo professor, nem de onde vem, nem para onde vai. Materiais de consumo de expediente, uns e outros. Nada mais!
O não dar certo em muitas coisas do mundo de hoje é problema de falta de fidelidade, de interesse, de motivação, de incentivo, da incapacidade de sonhar. O não dar certo na profissão de educador é que os governos não mais se interessam pelo problema do ensino, jogando-o de escanteio, livrando-se dele, principalmente porque o ensino nos lhe dá as interessadas vantagens adicionais, têm as campanhas políticas. Como tirar percentagens, o famoso terço, de folhas de pagamento? Assim, infelizmente muitos educadores com vocação de educadores acabam tornando-se simplesmente professores, como eucaliptos. Sem fidelidade, sem compromisso de vivência total. Sem desenvolvimento da capacidade de ternura, do refinamento, do interesse pessoal pelo que faz.
Feliz do professor que ainda é um educador que ainda consegue guardar a fidelidade e a vocação do tropeiro e do antigo boticário. Esse merecerá, sem dúvida, um cantinho nos jardins celestes!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


41851
Por Wanderlino Arruda - 22/12/2008 11:28:58
AVENTURA ANTES DO NATAL

Wanderlino Arruda

Eu havia chegado de uma viagem de férias, começada em meados de dezembro, quando me entregaram aviso e um convite para receber um prêmio em Goiânia. A Segunda Semana de Artes de Goiás tinha escolhido um quadro meu - "Estrada em Movimento" - com premiação em dinheiro e diploma, e queria a comissão que eu fosse pessoalmente participar da festa. Como não estava em período de serviço ainda, nem pensei duas vezes e tomei o primeiro ônibus para Brasília, aonde cheguei numa manhã linda, com um sol de rara beleza nascendo multicolorido no meio dos dois blocos do Congresso Nacional, coisa de muito agradar a quem pinte ou escreva qualquer pedacinho de vida ou de natureza. E foi aí em Brasília que descobri o aperto em que me metera, um sério envolvimento de dificuldades em véspera de Natal. Não havia passagem para voltar a Montes Claros, a tempo de participar das festas da família. Tudo, além de difícil, impossível.
Quando as coisas não ficam fáceis, o pior que pode acontecer é esquentar o juízo, porque um pouco de calma será sempre o melhor caminho, já que cautela não faz mal a ninguém. Não ir para Goiânia, naquela hora, seria colocar a alegria e o sacrifício em total prejuízo. Ficar na capital não era bem o meu destino. Ir para outra cidade também não tinha graça. E o que fazer? Examinar todas as possibilidades, uai! E foi aí que achei a solução melhor. Rapidamente, vi que um velho sonho poderia ser concretizado, já que conhecer o grande sertão era meu mais velho desejo, principalmente se pudesse passar pela Serra das Araras e ver todas as matarias descritas por Guimarães Rosa nos seus livros. Comprei a última passagem, do dia 23, para São Francisco, previsão de saída às 7 e chegada às 5 da tarde, e nem mais pensei em prêmio de pintura, muitíssimo mais interessado em torno da nova aventura.
De volta de Goiânia, pouco antes das 7, em Brasília, uma multidão diante da tabuleta de nosso ônibus, gente que dava para quase três viagens. Faltando cinco minutos, o motorista avisou ao pessoal sem passagens que todos deveriam ir, a pé, até a W-3, aguardando lá por um tempinho, pois, só poderia sair da Rodoviária com viajantes sentados. Ficou na fila pouco mais de um terço, e uns sessenta saíram para obedecer à ordem.
O que vimos, em seguida, debaixo do primeiro viaduto, era para qualquer pessoa normal duvidar, pois não seria possível aquele carro suportar nem peso nem o volume de tão numerosa clientela. Foram seis longos minutos de acomodação, ajeito aqui, ajeito ali, gente mais nova sentada no colo de gente mais velha, namorados e recém-casados bem juntinhos, os mais afoitos sentados no encosto dos braços, uma verdadeira lata de sardinha humana.
Antes de Unaí, umas duas paradas para mais passageiros. Não adianta dizer que não dava, não podia, porque sempre era encontrado um recurso, um aperto mais e tudo bem! No ponto de café onde o motorista disse que era apenas um minutinho, só para sair gastamos um quarto de hora. Para entrar todo mundo de novo, aí já com mais seis passageiros, pelo relógio não foi menos de quarenta minutos. Houve horário de almoço, mais três companheiros de aventura e mais demora de entrar e sair, porque estômago cheio dá sempre preguiça. Quando paramos à tarde para o café, não precisou ninguém descer, porque as laranjas, bananas, melancias, pastéis e brevidades, assim como rodelas de cana tudo foi comprado pelas janelas. Uma grande novidade e um milagre de salvação foi o aparecimento de água mineral, creio nada mais importante num dia de tanto calor.
Na Serra das Araras, um lugarzinho bem bonito, arborizado, com praça toda verdinha de grama, apareceu uma senhora para viajar, com três meninos lourinhos e um engradado com dois perus fazendo glu-glu-glu. De início, o motorista não concordou, dizendo ser impossível, pois, se houvesse lugar para ela e para os garotos, onde é que iria colocar os perus? Foi uma curiosidade geral, gente e mais gente botando a cabeça para fora da janela, querendo dar palpites e ajudar na situação. Realmente, onde colocar os perus? Problema para nós e para o condutor, porque, para ela, tudo normal. A dona chamou o trocador, mandou-o tirar três ou quatro malas e alguns sacos e embrulhos, olhou e reolhou o bagageiro e, como velha viajante, enfiou seu caixote no meio dos tarecos do povo. Foi um alívio geral. De cabeça erguida, importante, ela pegou os meninos, sorriu, limpou o suor da testa, e com eles ocupou o primeiro degrau depois da entrada.
Quando chegamos a São Francisco, não às 5 da tarde, mas às 8 da noite, o ambiente interno estava tão carregado e tão cheio que a porta só podia ser fechada ou aberta por alguém do lado de fora. Ninguém precisava ter medo de cair ou escorregar, porque para isso não havia nenhum espaço vago. Embora não fosse minha obrigação, julguei importante fazer estatística para o DER ou para quem interessar possa. Com motorista, ajudante e todos nós, cento e vinte e três passageiros desceram: 121 humanos e 2 perus. Só nós sobrevivemos até o Natal. Os perus devem ter sido argumento de bom apetite durante as festas. Ou antes, porque sabemos que peru morre na véspera...

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


41748
Por Wanderlino Arruda - 18/12/2008 11:57:13
AUTO DE NATAL

(Adaptação e dramatização dos textos de Lucas 1 e 2)

Wanderlino Arruda

NARRADOR - Nos dias de Herodes, rei da Judéia, houve um sacerdote chamado Zacarias, do turno de Abias. Sua mulher era das filhas de Arão, e se chamava Isabel.
Ambos eram justos diante de Deus, vivendo irrepreensivelmente em todos os preceitos e mandamentos do Senhor. E não tinham filho, porque Isabel era estéril, sendo eles avançados em dias.
Ora, aconteceu que, exercendo ele diante de Deus o sacerdócio na ordem do seu turno, coube-lhe por sorte, segundo o costume sacerdotal, entrar no santuário do Senhor para queimar o incenso: e, durante esse tempo, toda a multidão do povo permanecia da parte de fora, orando. E eis que lhe apareceu um anjo do Senhor, em pé, à direita do altar do incenso.
Vendo-o, Zacarias turbou-se, e apoderou-se dele o temor.
ANJO GABRIEL - Zacarias, não temas, porque a tua oração foi ouvida; e Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho a quem darás o nome de João. Em ti haverá prazer e alegria, e muitos se regozijarão com o seu nascimento. Pois ele será grande diante do Senhor, não beberá vinho nem bebida forte, será cheio do Espírito Santo, já do ventre materno. E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus. E irá adiante dele no espírito e poder de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos, converter os desobedientes à prudência dos justos e habilitar para o Senhor um povo preparado.
ZACARIAS - Como saberei isto ? pois eu sou velho e minha mulher avançada em dias.
ANJO GABRIEL - Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado para falar-te e trazer-te estas boas novas. Todavia, ficarás mudo, e não poderás falar até ao dia em que estas cousas venham a realizar-se; porquanto não acreditaste nas minhas palavras, as quais a seu tempo se cumprirão.
NARRADOR - O povo estava esperando a Zacarias e admirava-se de que tanto se demorasse no santuário. Mas saindo ele, não lhes podia falar; então entenderam que tivera uma visão no santuário. E expressava-se por acenos, e permanecia mudo.
Sucedeu que, terminados os dias de seu ministério, voltou para casa.
Passados esses dias, Isabel, sua mulher, concebeu, e ocultou-se por cinco meses, dizendo:
ISABEL - Assim me fez o Senhor, contemplando-me, para anular o meu opróbio perante os homens.
NARRADOR - No sexto mês foi o anjo Gabriel enviado da parte de Deus, para uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com certo homem da casa de Davi, cujo nome era José; a virgem chamava-se Maria.
ANJO GABRIEL - Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é contigo. Bendita és tu entre as mulheres !
NARRADOR - Ela, porém, ao ouvir estas palavra, perturbou-se muito e pôs-se a pensar no que significaria esta saudação.
ANJO GABRIEL - Maria, não temas; porque achaste a graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho a quem chamarás pelo nome de Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai. Ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim.
MARIA - Como será isto, pois não tenho relação com homem algum ?
ANJO GABRIEL - Descerá sobre ti o Espírito Santo e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso também o ente santo que há de nascer, será chamado Filho de Deus.
E Isabel, tua parenta, igualmente concebeu um filho na sua velhice, sendo este já o sexto mês para aquela que diziam ser estéril. Porque para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas.
MARIA - Aqui está a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra.
NARRADOR - Naqueles dias, dispondo-se Maria, foi apressadamente à região montanhosa, a uma cidade de Judá; e entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel.
MARIA - Como estás, Isabel, prima querida ? Fico muito contente em poder visitar-te. Estás esperando um filho ?
NARRADOR - Ouvindo esta saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre; então Isabel ficou possuída do Espírito Santo.
ISABEL - Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre.
E de onde me provém que me venha visitar a mãe do meu Senhor ? Pois logo que me chegou aos ouvidos a voz da tua saudação, a criança estremeceu de alegria dentro de mim.
NARRADOR - Bem-aventurada a que creu, porque serão cumpridas as palavras que lhe foram ditas da parte do Senhor.
MARIA - A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador, porque contemplou na humildade da sua serva. Pois desde agora todas as gerações me considerarão bem-aventurada. Porque o Poderoso me fez grandes coisas. Santo é o seu nome. A sua misericórdia vai de geração em geração sobre os que temem. Agiu com o seu braço valorosamente; dispersou os que no coração alimentavam pensamentos soberbos. Derrubou dos seus tronos os poderosos e exaltou os humildes.
NARRADOR - Maria permaneceu cerca de três meses com Isabel e voltou para casa. A Isabel cumpriu-se o tempo de dar à luz, e teve um filho. Ouviram os seus vizinhos e parentes que o Senhor usara de grande misericórdia para com ela, e participaram do seu regozijo. Zacarias, que continuava mudo desde a visita do Anjo Gabriel, na hora da circuncisão, pediu uma tabuinha e escreveu: João é o seu nome. E todos se admiraram. Imediatamente a boca se lhe abriu e, desimpedida a língua, falava louvando a Deus.
ZACARIAS - Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo !
Tu menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque precederá o Senhor, preparando-lhe os caminhos, para dar ao seu povo conhecimento da salvação.
NARRADOR - Naqueles dias foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império para recensear-se. Todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade. José também subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, para a Judéia, à cidade de David, chamada Belém, por ser ele da casa e família de David, a fim de alistara-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Estando eles ali, aconteceu completarem-se-lhe os dias, e ela deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou-o e o deitou numa manjedoura porque não havia lugar para eles na hospedaria.
ANJO GABRIEL - Nasceu na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor. Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens a quem ele quer bem.
NARRADOR - E ausentando-se deles os anjos para ao céu, diziam os pastores uns aos outros: Vamos até Belém e vejamos os acontecimentos que o Senhor nos deu a conhecer. Foram apressadamente e acharam Maria, José e a criança deitada na manjedoura.


41683
Por Wanderlino Arruda - 16/12/2008 09:49:55
CHEGOU O FILHO DE MARIA
Wanderlino Arruda

Há dois mil anos,
em humilde manjedoura,
e confraternização de paz,
chegou o filho de Maria,
um menino chamado Jesus:
pão da vida, luz do mundo.

Linda manhã, intenso clarear,
tudo de poder divino.

Clareiras abertas na fé,
novas veredas no espírito,
novo pensamento em tudo.

Ele veio para ficar,
eterna permanência,
novo ensino para novos corações.
Caminho, verdade e vida,
agora a noite tem mais estrelas,
tudo está iluminado.

Porque Ele veio,
obrigado, Senhor Deus,
obrigado, hoje e sempre,
de todo o nosso coração.

Que bom nos ter enviado Jesus,
trazendo-nos a sua paz!

Academia Montesclarense de Letras


41261
Por Wanderlino Arruda - 3/12/2008 10:47:02
CÂNDIDO CANELA
Wanderlino Arruda

Grande poeta, de nome nacional, pois vencedor de muitos e muitos concursos em Minas e em outros estados, mesmo à revelia, sem ser candidato. Era homem de sensibilidade, coração à flor da pele, todo o tempo voltado às atividades intelectuais, coisas do espírito. Cândido, mais do que montes-clarense, foi um sertanejo autêntico, amante de tudo que era do povo simples – gente da cidade e da roça – em todos os momentos verdadeiro.
Conheceu as minúcias do falar e do viver da gente norte-mineira, vivendo e convivendo com sua poesia, suas manias, tudo! Nada havia de oculto para ele. Era um desnudador de consciências, fosse através da observação pessoal, fosse por meio do diálogo direto e franco, ou até na vida profissional, atrás de sua mesa no Cartório da Rua Camilo Prates. Sabia sempre aproveitar cada minuto precioso do saber e sentir, principalmente quando se referia à natureza, sua maior paixão.
Conheci Cândido Canela desde que cheguei para viver em Montes Claros há quase seis décadas. Sempre tive dele como homem público, político, poeta, escritor, leitor, a melhor das impressões. Fui e sou eterno admirador da inteligência, de sua capacidade de absorver o lado interessante de tudo. Lírico, sagaz, irônico, irreverente, é às vezes, um santo, um puro de coração, era um casuístico crítico das falsidades humanas.
Uma situação nunca foi encontrada em Cândido Canela: a neutralidade. Ele estava sempre contra ou a favor dos acontecimentos, das pessoas ou das coisas. Parece que nunca aprendeu as lições do silêncio, em tudo tinha de emitir sua opinião. Teve e soube ter sempre o seu lado da verdade.
Cândido grande montes-clarense, foi membro das academias Montesclarense de Letras e Municipalista de Letras de Minas Gerais. Foi radialista, cronista, colaborador constante de vários jornais. Mereceu e merece o bom nome que teve e que tem. Um verdadeiro imortal!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


41052
Por Wanderlino Arruda - 26/11/2008 09:35:04
CALENDÁRIOS

Wanderlino Arruda

Contei um caso, há algum tempo, sobre alguns exemplares antigos de Seleções do Reader`s Digest que Nathércio França havia me dado de presente. Falei da minha espera em recebê‑las e da alegria com que as tive em minhas mãos, e do prazer que tenho até hoje em lê‑las, tanto em Montes Claros como aqui em Belo Horizonte, de onde escrevo depois de uma cirurgia. Ainda bem cedo e bem agasalhado, tiro proveito de uma delas, a de novembro de 1945, pesquisando infor­mações para transmitir algumas curiosidades sobre o calendário, um pouco de história e uma proposta de mudança para tornar nos­sa vida mais arrumadinha em termos de meses e semanas. Não fi­que preocupado/a, leitor/a, porque, no momento, parece-me, nenhum governo está preocupado com essas coisas. Todos estão às voltas só com as dificuldades internacionais das empresas e das pessoas, com as dívidas ou com o aumento da arrecadação que poderão tirar de dentro da cartola.
O nome calendário vem de calendas, o primeiro dia de cada mês, na antigüidade romana. Já houve muitas formas de contar o tempo, modos com que cada povo praticamente tinha a sua forma de organizar semanas, meses e anos. Assim, houve o calendário hebraico, o chinês, o maia, o armênio, o egípcio, o hindu, o maometano, o de Roma, o asteca e, quem sabe, até o brasileiro, de quando os nos­sos tupis‑guaranis contavam o tempo pelas fases da lua. Foi sem­pre uma absurda mistura de critérios, de tal forma, que um avião que partiu de Londres em 5 de janeiro de 1939 chegou a Belgrado, na Iugoslávia, no mesmo dia, mas numa data designada como 23 de dezembro de 1933. Se um avião voar muito ligeiro e chegar ao Japão dentro de umas cinco horas, acaba saindo hoje e chegando ontem! É tão doidão que ninguém entende, por exemplo, porque a páscoa pode cair em qualquer data entre 22 de março a 25 de abril e o Natal sempre numa data fixa, o 25 de dezembro. Repare que a sexta‑feira da paixão é sempre uma sexta‑feira, mas nunca num mesmo dia do mês.
Os contadores que façam as contas e vejam que não existem dois trimestres no ano com o mesmo número de dias. Têm exata­mente 90, 91, 92 e 93, porque trinta dias têm setembro, abril, ju­nho e novembro; 28 terá um, e os outros trinta e um". Difícil tirar médias e fazer cálculos nas estatísticas. Os judeus ortodoxos, até hoje, ainda empregam um calendário lunar e sincronizam suas es­tações intercalando um mês extra de dois em dois ou de três em três anos. Os primeiros romanos viveram com um ano de dez me­ses, com 304 dias, até que Numa Pompílio, no Século Vll A.C., acrescentou janeiro e fevereiro. Mas era tudo tão incerto, que os altos sacerdotes habitualmente ainda os encurtavam mais quando seus adversários estavam no poder, e os ampliavam para agradar seus favoritos... Os egípcios, estudando as sombras das pirâmides, fizeram um ano de 365 dias e um quarto, com 12 meses de 30 dias e 5 dias extras para comemorações, um bissexto de 5 em 5 anos. Os astecas tinham o ano com 18 meses de 20 dias e mais as sobras para as festas ou dias chamados nefastos.
Para uma tentativa de uniformização, tal sistema foi adaptado ao mundo romano, quando Júlio César decretou que o ano 46 antes de Cristo fosse aumentado para 445 dias, a fim de ajustar‑se com o sol. Devido às superstições relativas aos números ímpares, os cinco dias de festas foram distribuídos entre os meses. Um dia foi tirado de Februarius e dado a Quintilis, que mais tarde mudou de nome, passando a chamar‑se Julius, em homenagem ao autor do calendário. Uma segunda amputação foi mais tarde perpetrada contra Februarius, por Augusto, que deu o referido dia ao mês do seu nascimento, isto é, agosto. Foi só em 325 depois de Cristo que o Concílio de Nicéia estabeleceu a semana de sete dias, indepen­dente dos meses e dos anos, ou seja, andando com as próprias pernas, se é que semana tem perna.
Foi em 1852 que o Papa Gregório corrigiu a astronomia de Cé­sar, ordenando que três dias bissextos fossem retirados de quatro em quatro séculos. Uma novidade: se for aprovado o calendário mundial, teremos trimestres iguais, cada um com 13 semanas a começar por um domingo e terminar num sábado. O 365º dia será extra e chamará Dia do Fim do Ano. Haverá uma grande desvanta­gem para nós brasileiros: o Natal e o Ano Bom cairão sempre em fim de semana. Vamos perder os feriadões...

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


40874
Por Wanderlino Arruda - 19/11/2008 09:25:05
A VOZ GOSTOSA DE EDITE PIAF
Wanderlino Arruda
É preciso saber descobrir sempre o lado gostoso e nobre de cada momento de nossa vida. Buscar a felicidade é uma obrigação e a própria busca deve ser um motivo de ser feliz. É o que acontece comigo todas as vezes que entro no foyer do Teatro Nacional de Brasília, que desço a rampa aveludada e bonita e vejo aquela majestade de auditório, aquele conjunto monumental que só Niemeyer poderia imaginar e realizar. Ir ao Teatro Nacional de Brasília me oferece um gratificante prazer, um bom motivo de alegria. Foi assim a sensação que tive quando Dagmar, Anderson e eu tomamos o primeiro contato com a nossa turma, antes e durante a apresentação de Bibi Ferreira, na peça Piaf, um sonho de interpretação. Foi assim quando nos sentamos, bem em frente, ao palco, num bom grupo composto por lasbek, Riza, Carlos Hetch, e Carmen, vendo do outro lado bons colegas de trabalho, tendo como destaque em mais de meio auditório o charme de Ângela Momm. Curioso que tenha prevalecido em grande parte a cor vermelha, um vermelho forte, vivo, flamejante. Entre nós, e muito feliz, de vestido, bolsa e sapatos vermelhos, a Ivone. Íria, mais feliz ainda, com um rosa-choque que, à luz da noite, ninguém diria que não era vermelho. Valquíria, Daniel, Eduardo, Roberto, Cardenas, todos de camisas vermelhas. O Carlos, não sei se menos ou mais, também com vários detalhes de vermelho. Quando acende a iluminação do palco, o fundo espoca em vermelhidão intensa, vivíssima como um campo de luta, formando conjunto com o foco avermelhado que iluminou Bibi durante todo o tempo.
Em contraste, como num romance francês, o negro das roupas do luxo e da pobreza que, de início, apavoram a consciência e a visão do espectador. Para compor, de nosso lado, a negritude da camisa do muito mineiro Moacir. De lá e de cá sempre o negro e o vermelho. A voz de Bibi Ferreira, a presença, os gestos, o pessimismo, o lado difícil da vida que ela faz explodir a todo instante, o minúsculo físico sem nenhum traço de beleza, tudo marca a alma de Edite Piaf. É Piaf purinha com a visão de contemporaneidade, é realmente como se estivéssemos em presença dela. Aliás, mais do que isso: as duas se parecem - quase uma mesma pessoa - todas duas famosas, marcadas visivelmente pela muita idade, com desgaste que a própria vida artística impõe e provoca. A voz, a principio, miudinha, pedindo desculpas por existir, de repente enche e preenche o ambiente e vai tomando volume, ganhando corpo, envolvendo, límpida, num crescendo admirável como se representasse toda a força da sonoridade da eterna França. É como se estivesse no espírito dos cabarés de Paris, no Olímpia, o máximo da glória de toda a arte, muito mais do que o Carnegie Hall ou qualquer outro teatro do mundo, inclusive o Nacional de Brasília, em que estamos presentes. Ouço e vejo Piaf e me transporto numa doce saudade para as ruas parisienses, as praças, os monumentos, os boulevards, os museus. Sinto no acordeom, na harmonia do fundo musical, e atmosfera de cultura, do gosto de sensibilidade que os franceses sabem cultivar com tanto amor. Vejo me no alto da Torre Eiffel, no Arco do Triunfo, na Place de la Concorde na Pigalle, no Sena, dentro de um bateau mouche, na Nôtre Dame, nos teatros de revistas, no Louvre, no meu modesto hotel de viajante solitário e muito feliz. Vejo-me correndo do frio, embevecido com o colorido das luzes, das bancas de jornais e revistas, das bancas de frutas vermelhinhas, com os brilhos dos restaurantes e cafés, ah! os cafés! Vejo-me envolvido com a alegria das crianças e a beleza magra das mulheres, com a diversidade de tipos, com as roupas que estrangeiros e franceses desfilam nos passeios e jardins.
Sonho e vejo! E depois de tudo, emocionado, agradeço à arte de Bibi e a oportunidade de estar em Brasília. Nada melhor do que matar uma saudosa saudade!
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


40650
Por Wanderlino Arruda - 12/11/2008 07:42:14
SAUDAÇÃO AO ACADÊMICO PETRÔNIO BRAZ
Wanderlino Arruda

É sempre no emotivo-racional que o meu amigo, irmão, colega, companheiro e confrade Petrônio Braz encontra a razão de ser e a razão de viver. Exatamente isso: Petrônio tem um coração inteligente e um cérebro afetivo com incríveis nuances de amor – amor a Deus, amor à pátria, amor à família, amor aos amigos, até o amor que povoa o mundo e as vidas do mundo. Desde os dias do seu curso primário no Grupo Coelho Neto até este momento de posse na Academia Montesclarense de Letras, cérebro e coração de Petrônio andam mais do que juntos. Até na hora da escrita de tratados de Direito - território de exigências de precisão acadêmica – ele pluraliza teorias e conceitua humana gestualidade. Homem de trilhas, de veredas, de caminhos, jamais adotou a paralelística dos trilhos. Nunca as formalidades fatalistas de destinos imutáveis, como se existências fossem semelhantes a traçados de estradas de ferro. Petrônio é um ser de livre arbítrio acima de tudo, ser de liberdade, alma em constante evolução, eternamente aluno na escola do viver e progredir. Determinado, nunca abriu mão de construir o próprio destino e arquitetar a própria vida. Ser social, mesmo estando só, trabalha para construir e reconstruir a história e a geografia onde acontecimentos se impõem.
Difícil para mim o compor a estrutura desta fala, porque há muito pouco tempo , aqui mesmo na Academia Montesclarense de Letras – na apresentação do livro Serrano de Pilão Arcado – delineei traços completos da biografia de Petrônio Braz, dizendo dos seus sólidos saberes, floreando sobre seus feitos políticos, jurídicos, históricos e literários, aplicando-me em dialética sobre suas vivências, convivências e conveniências. Não quero, não devo, não posso duplicar ou multiplicar informações, muitas das quais este público já conhece à exaustão. Naquele momento, falei da multidão de seus títulos em rica escolaridade no Brasil e no exterior, da participação continuada de inúmeras instituições em Belo Horizonte, São Paulo, Brasília e outras capitais, da elogiável plataforma de publicações no Direito e na Literatura, até com razoável riqueza em direitos autorais. Falei também da sua constante atuação política, a partir dos 23 anos de verde juventude, quando foi prefeito de São Francisco, cidade natal, onde também exerceu vários mandatos como legislador. Disse também de sua atuação como administrador e professor em Belo Horizonte, Montes Claros, Várzea da Palma, Coração de Jesus e João Pinheiro. Citei quase um mapa da região norte-mineira, onde atuou como conselheiro político e consultor jurídico, vasto currículo em municípios como Espinosa, Ibiaí, Ibiracatu, Indaiabira, Matias Cardoso, Montezuma, Novorizonte, Patis, Riachinho, Rio Pardo de Minas, Santo Antônio do Retiro, Taiobeiras, Ubaí, Urucuia. Vargem Grande, Chapada Gaúcha, Jaíba, Mirabela, Monte Azul, Pirapora, Santa Fé de Minas, São João da Ponte, São Romão, Fruta de Leite e por último, mas não por derradeiro, a cidade de Montes Claros, capital da região. Preciso aumentar latitudes e longitudes nesta geografia.
Fundador e presidente da Aclecia – Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco, fundador e Diretor-secretário do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, fundador e membro da Aclav – Academia de Ciências e Letras de Várzea da Palma, Petrônio Braz atua diligentemente no Instituto Brasileiro de Estudos Monárquicos, na Associação Brasileira de Escritores, na União Brasileira de Escritores, na Academia Petropolitana de Poesia, na Academia de Letras de Uruguaiana, na Casa do Poeta Brasileiro e na Sociedade de Escritores Lationoamericanos y Europeos, esta na Itália. Muitos os prêmios literários, títulos de cidadania, muitas as medalhas e comendas recebidas por Petrônio, incluindo aí a Medalha Santos Dumont, do Governo de Minas Gerais. São tantos os certificados, tantos os diplomas, que muitas paredes seriam necessárias para uma exposição justa e meritória.
Treze obras jurídicas, algumas em coleção, sete obras literárias e participação em dezenas de antologias e revistas, publicação quase diária em jornais, Petrônio é realmente um homem de letras mais do que presente ao agrado de milhares de leitores. Trabalha agora em precioso livro sobre a Conjuração do São Francisco, primeiro momento na tentativa de independência, revisão histórica importante para o prestígio de Minas Gerais, esta Minas sempre incentivadora da autonomia pátria e da liberdade. Petrônio Braz, nos seus oitenta anos de vida, também hoje comemorados, é homem que muito realizou e que muito ainda tem a realizar. Sempre prático, trabalha por prazer e sabe que pode tornar reais metas traçadas ou sonhadas. Nunca temendo mudanças, tem coragem para abrir caminhos, enfrentar desafios, criar soluções, correr riscos. Intelectual completo, de cultura multifacetada, bom de serviço, sabe que tudo que faz sempre dá certo, principalmente quando conta com a ajuda da esposa Fátima, ainda mais determinada do que ele. Muito bom tudo isso, porque, no final, o lucro é nosso.
Neste momento de glória em que trinta e nove componentes da Academia Montesclarense de Letras abrem braços e corações para receber Petrônio Braz, agradecemos a Deus por tê-lo a completar o nosso quadro social. Juntos – ombreando academicamente – agora que somos quarenta como na velha Academia Francesa, muito mais poderemos realizar.
O nosso mais fraterno abraço, meu jovem oitentão, Petrônio Braz. Os que vão viver e continuar contigo, te saúdam. Calorosamente, sim Senhor!
Academia Montesclarense de Letras



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Por Wanderlino Arruda - 10/11/2008 10:38:50
LISBOA E OS BRASILEIROS
Wanderlino Arruda

Wladênia completa já os seus quarenta e dois anos, põe na moldura dois títulos universitários, freqüenta pela segunda vez uma escola de motorista e fica imensamente alegre com a beleza e a inteligência dos seus três filhos. Suas alegrias, que são também a minha e a de Olímpia, têm em mim um outro efeito – o da saudade, o de boas lembranças da viagem que fiz a Portugal, logo depois do seu nascimento em 1962, juntamente com Antônio Ramos, D. Flora, Dulce Sarmento, Correia e José Almeida. É que, quando viajamos, Wladênia mui pequenina, era a primeira mocinha da família, tanto contentamento que Olímpia nem esboçou o menor desejo de fazer uma viagem à Europa. Eu que fosse sozinho, ela ficaria para curtir o encantamento da filha mulher. Agora, tanto tempo depois, a viagem volta-me à memória verdadeira multidão de boas lembranças.
Vôo de dezoito horas, primeira escala em Recife, onde encontramos D. Fina e Dr. Hermes, que nos esperavam no aeroporto. Segunda descida na Ilha do Sal, pertinho da Costa d`África, onde encontramos outros brasileiros. Chegamos a Lisboa já bem à tardinha, saindo do avião com um envolvente frio do início da primavera. O primeiro impacto é quando a caravana brasileira dos Elos Clubes se reúne, ainda na pista para uma fotografia de chegada ao lado do DC4 da TAP. Sorrisos em todas a faces, com as boas vindas dos elistas portugueses, companheiros, irmãos e amigos. Logo depois o burburinho dos salões internacionais e da alfândega do Portela de Sacavém, o Aeroporto mais ocidental do velho continente. Mais fotografias, mais abraços, mais voto de feliz estada.
No caminho para o centro de Lisboa, os táxis deslizam por bairros moderníssimos como o de Moscavide e por avenidas de encantar as vistas, como o da Liberdade e a do Brasil; por praças realmente lindas como a do Teatro, o Rocio, o Terreiro do Paço; ruas como a do Ouro e da Prata. De longe, a visão sentimental do Tejo, da antiga fortaleza de São João, do Largo do Comércio, da Ladeira do Chiado, da velha Alfama. Quando o motorista passa próximo às fontes luminosas dos Restauradores mostra-nos a estátua de D. Pedro, e diz-nos, orgulhosamente, que ali está "o nosso D. Pedro quarto, vosso Primeiro", um dos grandes heróis da história portuguesa.
D. Flora e Antônio Ramos reviam as mesmas cenas depois de pouco tempo. José Almeida, natural do Norte, tinha estado em Lisboa apenas de passagem, quando veio para o Brasil. Joaquim F. Rodrigues Correia, que estudou em Coimbra quando menino, vira Lisboa fazia mais de quarent`anos, na sua própria linguagem. Dulce Sarmento e eu nos deslumbrávamos com a beleza pela primeira vez ou quando muito por saudades atávicas. Ninguém pode imaginar como é doce e gostosa a sensação de pisar no solo da pátria-mãe, sentir ali o berço da raça, origem da maioria de nossas tradições, um lugar que de modo algum para nós é estrangeiro. E como nós brasileiros somos bem recebidos em Portugal, em Lisboa, em Santarém, em Belmonte, no Porto em qualquer parte!
À noite, o primeiro passeio a pé, a visita ao interessante mundo da Praça da Alegria, de Sé, dos cafés do Chiado, o trajeto de metrô, a subida das ladeiras, o olhar curioso nas vitrinas de ourivesarias e de lojas, a aproximação das fontes de todas as cores e todos os sons, mais bonitas do que as de qualquer outra parte do mundo. Por aquelas ruas e praças haviam passado também D. Dinis, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Luís de Camões, Eça de Queirós, Alexandre Herculano, Antero de Quental, Florbela Espanca, Fernando Pessoa! Por aqueles lugares havia passado também o brasileiro mais famoso em Lisboa, o nosso também sempre lembrado presidente Juscelino Kubitschek. Ele era tão querido lá, que quando chegava a qualquer lugar, teatro, cinema, restaurante ou café, todas as pessoas se levantavam em sinal de amizade, respeito admiração. Para nós, é claro, os portugueses não chegavam a tanto, mas sempre nos recebia com grande atenção e muito carinho.

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 4/11/2008 09:40:17
GODOFREDO GUEDES, NOSSO MIGUEL ÂNGELO
Wanderlino Arruda

Mesmo pintando por prazer, a exemplo de Miguel Ângelo, Godofredo Guedes pintava por profissão. Genial, perfeito, verdadeiro, amado-amante das tintas e das cores, em quase toda a sua vida foi um importante e reconhecido pintor. Suas aventuras e venturas com os pincéis tiveram início na adolescência, aos quinze anos, em 1923, na cidade em que nasceu, Riacho de Santana, Bahia, onde estudou francês e foi prático de farmácia. Primeiro trabalho, já com toque de mestre, óleo e pincéis, foi na Gruta da Igreja de Nosso Senhor Bom Jesus da Lapa, barrancas do São Francisco. Até hoje lá estão para a glória de Deus e do autor, os doze quadros bíblicos da Via Sacra. Têm sido um momento de místicas contemplações para muitos dos romeiros e visitantes de quase um século. Sempre, uma religiosa admiração.
Depois da Bahia, depois dos dias ensolarados do sertão interiorano, depois de encher a alma dos tons ricos das águas do São Francisco, Godofredo Guedes veio para Montes Claros, cidade bem pequena em 1935, mas com uma admirável generosidade de muito sol e muito azul: azul no céu, azul nos montes, azul nos tubos de tinta azul da sua paleta de artista fogoso. O homem chegou pintando. Pintava tudo. Pintava placas, pintava letreiros, pintava fachadas, pintava quadros. Quando pintou o retrato de grande Prefeito Dr. Santos, recebeu dele um bruto elogio: "como poderia assim de modo tão fácil e artístico captar tão seguramente a personalidade de uma pessoa?". Muitas mudanças na cidade, muitos anos são passados e o retrato ainda aí está para quem quiser ver. É um sucesso até hoje.
Quantos quadros deve ter Godofredo pintado em sua venturosa vida? Difícil saber, porque ele pintava todos os dias, todas as horas... Uns quatro ou cinco mil, Ou muito mais... Quantos amigos teve Godofredo? Ninguém sabe, tantos são eles, em toda parte. Quantos filhos, frutos de um feliz casamento com D. Júlia? Isso os montes-clarenses sabem: foram oito – Terezinha, Dolores, Neusa, José, Hélio, Maristela, Alberto e Lúcia. Hélio é o conhecido Patão, do folclore e também das tintas. Alberto, o genial Beto Guedes, um dos construtores da moderna música brasileira. Lúcia graduou-se como médica na Argentina e é doutora há um bom tempo. Os outros, com exceção de nosso sempre saudoso Hélio, todos de alguma forma ligados à pintura, aí estão, solteiros, casados, felizes sempre. Zeca – já não mais tão jovem como em nossos tempos de Colégio Diocesano, segue a trajetória dos pincéis do pai, mas até hoje não quis pintar quadros. D. Júlia de Castro Guedes, que sempre teve nas mãos e no grito, o comando da família, cuidou de tudo e de todos. Foi diretora e gerente ao mesmo tempo. Mulher e mãe que mandou um bocado e com razão, diante de família tão grande e de marido artista, que só se via obrigado a enxergar as belezas da vida. D. Júlia foi, sem qualquer dúvida, uma admiradora do marido. Falou dele sempre com grande carinho, mesmo quando estava de cara fechada ou precisando brigar. A ela, concordo, devemos grande parte da firmeza de GG, da sua produção.
A maior tela de Godofredo está em Belo Horizonte, no Instituto de Educação. Tem grande dimensão, quatro metros por três. Trata-se de um busto do inesquecível João Pinheiro, que provocou lágrimas do filho, Governador Israel, quando o viu pela primeira vez, diante de tanta emoção face à beleza do quadro.
Para o artista Godofredo Guedes o seu melhor trabalho foi realizado para outro grande artista, o pintor Konstantin Christoff: um retrato do velho e robusto Christo Raeff, em cores marcantes, um perfeição de relevo de luzes e sombras, de coloridos e matizes. Trabalho bonito, vivo, audacioso. Uma verdadeira obra de arte alimentada pelo calor da amizade de dois grandes gênios do pincel.
A maior glória de Godofredo Guedes, no seu próprio ponto de vista era ter quadros e telas em grande parte dos lares de Montes Claros e do Brasil, tantos como os seus dias de alegria. Mas nem só de tinta viveu ele. De vez em quando deixava de ser mestre do pincel para ser mestre na harmonia dos sons, compositor que é de quase cinqüenta belas músicas, muitas delas inseridas em cadernos de modinhas e de dobrados e de livros de grande destaque como o lançado pela historiadora Milene Coutinho Maurício. Muitas não são por aqui conhecidas, porque ficaram com as bandas de música da velha Bahia, guardando a saudade do autor.
Nota interessante é que Godofredo começou a compor música em 1931, no mesmo ano em que se casou com D. Júlia, ao que tudo parece, um amor mais sonoro que colorido ou tão sonoro como colorido, como as duas artes poderão explicar, pelo menos por algum tempo, pois, afinal, prevaleceu a pintura. Como compositor, Godofredo foi laureado com o Primeiro Prêmio num concurso de músicas juninas da Rádio Inconfidência de Minas Gerais. O título: "VAI, MEU BALÃOZINHO". Construiu também, para variar de arte, inúmeros instrumentos de cordas: violinos, violões e até um piano. Isso mesmo, um PIANO! Com cauda e tudo!
Em Montes Claros, Godofredo recebeu cinco prêmios como melhor pintor. Em Belo Horizonte, oito anos que participando da Feira da Praça da Liberdade, vendendo quadros todas as semanas, foi várias vezes homenageado.
Sua maior emoção além do casamento com D. Júlia: o ato do recebimento do título de cidadão Honorário de Montes Claros, em 1957, ano do centenário da cidade, aprovado por unanimidade da Câmara, a pedido do saudoso prefeito Geraldo Athayde.
Outro grande momento foi a noite de comemoração dos seus 46 anos de pintura , quando todos os artistas de Montes Claros, sinceros amigos, admiradores conscientes, companheiros leais, juntamente com autoridades, esposa, filhos, genro, estiveram no Centro Cultural Hermes de Paula para abraçá-lo e louvá-lo. As solenidades, o encontro, marcava quase meio século de Arte que o alegrou e fez crescer seus sonhos pelas belezas da vida. Foi um momento interessantíssimo, de máxima emoção, uma descoberta do verdadeiro sentido da importância de viver. Para Godô e para todos nós.
Grande Godofredo, grande GG, grande amigo, companheiro e mestre, nossa mais sincera gratidão pelo tempo em que você viveu e conviveu com a arte. E conosco!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 29/10/2008 12:14:36
REIVALDO, A REALIDADE DOS SONHOS

Wanderlino Arruda

A maior e mais verdadeira prova de seu amor, Reivaldo, esteve sempre delineada e aplicada no ato diário de seu viver e conviver. Uma linda viagem terrena em que você doou, recebeu, compreendeu, compartilhou, apoiou, aceitou e foi aceito, olhou em torno e dentro de si mesmo. Sua existência, Reivaldo, foi uma lembrança sempre presente da infinitude do amor de Deus perante cada manifestação da natureza: nas flores, nas águas, na dança das folhas, nos vôos e nos cantos dos passarinhos, nas presenças e nas manifestações de carinho dentro de casa e no brilho dos olhos de seus amigos. Sua vida, Reivaldo, foi uma colheita de esperanças e alegrias, tudo positivo, ambição só a necessária para as despesas de cada dia. Sua vida, Reivaldo foi construída nos sonhos e concretizada no amor. Afinal, a fé sem obras é morta. Qual o proveito em dizer que tem fé, mas não tem obras? Seu pensamento, religiosamente ou não, foi o mesmo do apóstolo Tiago. Não bastava crer, era preciso realizar.
Você nem imagina como foi sempre a minha alegria e o sentimento da riqueza do amor sempre que visitei você em manhãs de domingo, casa cheia de olhares vibrantes de toda a sua família, às vezes do Reinine e até de um ou outro amigo mais próximo. Todos, mesmo parecendo com os pés na terra, tinham as cabeças nos sonhos. Quanta dignidade, quanta coerência no exercício de amor e na certeza de que a vida só é válida quando vem condimentada com os sabores da felicidade. Sabe o que foi sempre o mais bonito em você? Nunca se empolgou com o próprio brilho, nunca se envaideceu da maravilhosa inteligência que lhe dourou palavras e idéias, ações e realizações. Ser humano justo, em todas as horas você inspirou, estimulou, energizou, pessoas e coisas, proporcionou conforto a tudo que a natureza o rodeou e pôs no seu contato.
Pensando em você com saudade, lembro-me da Parábola do Bom Samaritano, daquele viajante que tendo saído de Jerusalém para Jericó, fora assaltado por ladrões no meio do caminho, ficando ferido e desfalecido, à beira da estrada, o que não sensibilizou os dois religiosos que, mesmo vendo a cena, desfilaram pela outra margem, sem preocupação ou vocação para o bem servir ou para a fraternidade. O atendimento foi feito por um passante originário da Samaria, uma região pobre e nunca considerada pelos importantes da época. O samaritano limpou-lhe as feridas, aplicou os remédios de que dispunha, colocou na alimária e seguiu viagem com ele até um ponto de apoio. Lá, hospedou-o, pagando as despesas, deu o atendimento complementar e, tendo de logo viajar, recomendou ao estalajadeiro bem cuidasse dele, prometendo, caso houvesse novas despesas, pagar-lhe na volta. Neste episódio há três filosofias: para os ladrões (partidários da distribuição social), a idéia é de que "o que é seu é meu"; para os religiosos (não responsáveis diretos pela violência ocorrida), "o que é meu é meu e o que é seu é seu", o problema é do dono do problema; para o samaritano, entretanto, sofredor do dia-a-dia, só vale uma decisão de amor, "o que é meu é seu". Cito este relato bíblico, Reivaldo, para lhe dizer que a sua vida foi efetivamente a de bom samaritano, três quartos de século de eterna doação. Sua alegria, sua gentileza, seu conhecimento, seu amor, todos os seus sentimentos de cidadania e de fraternidade sempre pertenceram às outras pessoas.
Nobre Reivaldo Canela, os que viveram próximo a você e todos nós, companheiros e amigos, continuaremos por aqui vivendo e saudando-o mais do que calorosamente. Você foi sempre amado e admirado. E árvore plantada com amor nenhum vento derruba. Nem mesmo num grave momento de despedida.
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 23/10/2008 17:40:11
A ALEGRIA DE MONSENHOR

Wanderlino Arruda

Não me canso de ter saudades do tempo bom e gostoso das aulas do Colégio Diocesano, de quando podíamos, todos os dias, sentir e ouvir a alegria do Monsenhor Osmar, a braveza do Padre Agostinho e a terna amizade do Monsenhor Gustavo. É de fato um momento inesquecível, de quando cada gesto era uma lição, cada atitude uma experiência de seres em luta e em paz com a vida. Os três juntos, ou cada um em particular, eram para nós, meninos-rapazes, o grau mais alto da sabedoria, a fonte inesgotável de conhecimento, os degraus por onde alcançar a segurança do futuro. É claro que, particularmente, um por um tinha o seu séqüito de seguidores, dependendo da esperteza ou do grau de inteligência de cada aluno, ou mesmo da maturidade ou falta de juízo, encontradas nos mais sérios como Geraldo Miranda e Nivaldo Neves, ou nos mais afoitos como Pai da Mata e João Doido. Em órbita havia gente de todo jeito, tipo Tereziano Dupin, Renato Pobre, Renato Almeida, Dezinho Dias, Ivan Guedes, Lazinho Pimenta, Raimundo Santana, José Maravilha, personalidades marcantes que iam do folclore à poesia, do trabalho sério à justa compenetração.
Cada dia era um novo esquema de novidades, de surpresas, uma sensação de estarmos construindo o mundo, preparando-o para a nossa geração e para todas as outras que poderiam vir depois de nós. Ninguém fugia da luta, tirar o corpo de banda, em qualquer tarefa, era um sacrilégio. Matar aulas era pecado capital. Durante a semana não valia nem cinema nem namoro. A ordem era estudar! Uma única transgressão era permitida e só ao Miranda, porque ele havia inovado o sistema, inventado uma saída, ao namorar com a professora Lourdes, inteligentão que era. O Dezinho Dias, já mais velho um pouco, falava de fazendas, de vez em quando. O Raimundo Santana era um importante, pois tinha bicicleta e tomava uísque Cavalo Branco antes das provas de matemática. Ivan Guedes impunha grande respeito: de vem em quando jantava em restaurante, sábado à noite depois do grêmio. A maioria, como eu, não tinha dinheiro nem para picolé ou quebra-queixo, e quando muito, bebíamos caldo de cana. Cafezinho era luxo!
Professor bom mesmo era o Pedro Santana, vibrante, grã-fino, dominante nas cadeiras de História, Ciências e Inglês, um terror para quem não tivesse as matérias na ponta da língua, a capacidade de responder, falando ou escrevendo, sem gírias. Pedro era tão imponente, que não repetia ternos e gravatas durante um mês, cada dia uma nova cor, hoje um três-botões, amanhã um jaquetão, tudo dentro do melhor figurino de Vavá ou Wilson Drumond. O cabelo, ah! O cabelo era que merecia o maior cuidado! A barba, de um barbear diário na barbearia de Antônio Guedes, com massagem facial, na mesma hora em que também estavam sentados os praticamente nobres Júlio de Melo Franco e Nelson Vianna, fregueses de todas as manhãs, bem cedinho. Errar com Pedro ou com o Padre Agostinho – outro elegante – era imperdoável. A nota menor que um bom aluno podia tirar era nove e meio. O oito era um (de)feito vergonhoso!
Havia muitos outros professores famosos, entre eles o Tabajara, a Terezinha Pimenta, Doutor Carlyle, A Maria Inês, D. Rosita Aquino e o Belizário, que falava latim e tinha o cabelo parecido com o de Castro Alves. Em certas ocasiões, o Bispo D. Antônio Almeida chegava a assistir a algumas aulas, sentado conosco, perguntando e participando, como se não soubesse de tudo! D. Antônio foi a maior inteligência que conheci, uma cultura universal, um poder oratório que Montes Claros nunca teve igual. Era um admirável mundo novo, principalmente para mim, que sem ternos e sem paletós – o primeiro foi o Vadiolando Moreira que me deu - achava tudo aquilo um sonho em realização.
Maravilhosamente encantado, sedento de aprender, nunca cedendo o primeiro lugar a ninguém, uma coisa marcou-me profundamente a diretiva na vida e me tem servido constantemente de bom exemplo: a alegria de viver de Monsenhor Osmar Novais de Lima, nosso diretor!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 13/10/2008 10:14:59
CONSUL FERNANDA RAMOS
Wanderlino Arruda

Segundo Aristóteles, a grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las. E conforme Edith Wharton, há duas maneiras de irradiar a luz: ser a própria fonte de brilho ou o espelho que a reflete. Grandeza, honra, luz, fonte, espelho, reflexo, um universo de palavras indicativas de valor e mérito. Em todas estas idéias e seus significados posso emoldurar a mulher corajosa e cheia de ideais, que é D. Maria Fernanda Reis de Brito Ramos , Cônsul Honorária de Portugal no Norte de Minas, minha amiga e mestra de longo tempo em vários setores da vida. A mesma D. Fernanda que é capaz de elogiar sem rodeios ou demonstrar uma inconformidade sem indecisões.
É para esta mulher guerreira, que fazemos uma festa espiritual em comemoração aos seus oitenta anos, mais do que bem vividos. Multipliquemos os seus janeiros por meses e dias ou por horas e minutos, e podemos estar certos de que qualquer medida de sua existência vem gravada de proveitoso construir, do muito amar, de um esforço incrível para melhorar a vida e o viver. Dela mesma e de muitos. Dona Fernanda é um dínamo sem medida de voltagem, uma criatura sem limites na busca da perfeição, exigência própria, exigência com quem estiver à sua frente ou seu lado. Sempre chuva, nunca neblina, nada em D. Fernanda é calmaria, nada. Para ela, a vida é busca incessante do que fazer, do como agir, do assinalar exemplos, uma corrida olímpica de pistas e de pódios. É vencer ou vencer!
A Montes Claros já chegou D. Fernanda, jovem esposa de Artur Loureiro Ramos, para ser grandeza do comércio e da indústria, vivência e trabalho na Casa Luso Brasileira, centro e coração da cidade. Forte acento no caprichado falar da Universidade de Coimbra, onde a Faculdade de Engenharia lhe permitiu belíssima formação intelectual e liderança. Aqui o seu maior contato com a realidade regional e brasileira, a sua consolidação no trato de tudo e com todos. Atitudes fortes, cada atuação mais do que definida: a família, os amigos, as companheiras e os companheiros de intelectualidade, o trato social mais do que valorizado. Mínima a distância entre o ser e o atuar. Até no dia-a-dia foi moça de sorte, porque a Casa Ramos ficava exatamente na única esquina das duas ruas calçadas, a Rua Quinze e a Rua Simeão Ribeiro, quando toda inteireza urbana era vermelhidão de poeira.
Dona Fernanda esteve sempre de bem com a vida, Algum descanso na Fazenda Vista Alegre, algum tempo em reuniões do Clube Montes Claros, do Automóvel Clube, da Associação Comercial e Industrial. Importante na fundação do Elos de Montes Claros, na Sociedade das Amigas da Cultura, na Associação de Dirigentes Cristãos de Empresas, no Instituto Histórico e Geográfico. Importantíssimas as atividades de D. Fernanda como líder elista: conselheira, diretora, presidente internacional. Sempre presente em encontros regionais e inter-países, principalmente em convenções. Como presidente internacional tomou várias iniciativas de elevada repercussão, valorizando grandemente o Brasil e Portugal, além de benefícios aos países irmãos de fala lusitana. Um valioso exemplo de solidariedade e amor!
Três fatos marcam definitivamente o seu prestígio: a vinda do Cônsul Sá Coutinho e esposa na fundação do Elos de Montes Claros, a homenagem que a dra. Manuela Aguiar, deputada federal em Lisboa, veio trazer-lhe pessoalmente na Sociedade das Amigas da Cultura de Minas Gerais e a sua escolha pelo governo português para o cargo de Cônsul Honorária no Norte de Minas. Quantos e quantos dirigentes do Elos Internacional vieram a Montes Claros a seu convite, por força do seu valor! Lembro-me como se fosse hoje da grande festa de inauguração do Consulado, na sua antiga residência da Avenida Cel. Prates, agora Praça Portugal. Muito difícil repetir o sucesso de D. Fernanda Ramos como o da sua presidência na ADCE, dias realmente dourados para o prestígio da instituição. Com que entusiasmo D. Fernanda planejou, construiu e vem mantendo o Hotel Fazenda Vista Alegre, local aprazível não só para hospedagens, como também para realização de eventos.
Léon Denis, o sábio pensador francês, sempre achou que não basta crer e saber. É sempre necessário viver e fazer praticar na vida princípios superiores. Nossa existência tem que ser alegre, harmoniosa, plena de bênçãos de paz e de amor, sempre e sempre despertando esperanças. Não há como negar ser o amor a realidade mais pujante, porque o amar é o grande desafio. O amor deve ser causa, meio e fim. É por isso e por muito mais que Maria Fernanda Reis de Brito Ramos, nossa querida Cônsul, Companheira e Amiga, vive e sobrevive em razão dos seus muitos sonhos. Agora nos seus bem norteados oitenta anos e ainda por muito tempo mais. Bem haja!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 12/9/2008 09:15:56
MEU AMIGO PADRE MURTA
Wanderlino Arruda

A primeira vez que vi o Padre Murta foi no sobradão da Rua Coronel Celestino, corredores da Faculdade de Filosofia, em noite de muita movimentação e barulho por ser início de ano letivo. Ele andava e conversava, olhava diretamente nos olhos dos colegas e batia-lhes nas costas, nos ombros e nas cabeças, em carinhosos gestos de coleguismo e amizade. Com os professores, um sorriso amigo, cumprimentos e até abraços. Parecia que conhecia a todos, de todos fosse um velho camarada, um companheiro de anos e anos de lealdade. O Padre Adherbal Murta estava chegando para ser aluno do curso de Pedagogia, mais um calouro da nossa querida Fafil. Um dos melhores ou o melhor que passou por lá.

Alguns anos mais tarde, tenho a honra de receber Padre Murta como confrade da Academia Montesclarense de Letras. Foram momentos de inusitado deleite intelectual, com discurso erudito e importante, pleno de sabedoria de um dos homens mais cultos deste País e do mundo. De formação humanística da maior e melhor qualidade, ele foi sempre um clássico por excelência, conhecedor de pleno domínio do latim e do grego como poucos ainda podem saber. A Eneida, de Vergílio, para ele, era texto do dia-a-dia, pronto para recitá-lo a quem pudesse interessar, na mais perfeita memória, de cor e na ponta da língua, fosse num salão, fosse durante uma viagem. Padre Murta dominava a lógica, a teologia, a história, a filosofia, a pedagogia, o mais vasto universo de cultura e conhecimentos. Não foi sem motivo que passou brilhantemente por tão importantes centros de cultura no Brasil e na Europa.

Mais tarde, vejo-me seu padrinho no Rotary Club de Montes Claros-Norte, noite de muita emoção para todos os mais de cinqüenta companheiros. Tive a honra de colocar em sua lapela o distintivo de uma das mais importantes organizações do mundo atual, com certeza a mais prestigiada pelo trabalho internacional de erradicação da pólio, pelos intercâmbios de cultura, pelos serviços comunitários em 185 países. Em dezembro de 2006, foi Padre Murta um dos primeiros que convidei para participar da fundação do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros quando, pela nossa mútua confiança, aceitou na hora, escolhendo como patrono Waldemar Versiani dos Anjos. Na noite de inauguração, era ele um dos mais entusiasmados e conscientes do dever de fazer e registrar a história.

Onde estivesse – no púlpito, na cátedra universitária ou de qualquer escola, na tribuna acadêmica, em qualquer encontro de amigos – Padre Murta sempre mostrava a que veio em passagem pela vida: sua oratória era realmente brilhante, com uma capacidade de amar o próximo em verdadeiro marco de grandeza. Seu dinamismo e capacidade de trabalho sempre encantaram a todos. O Criador concedeu ao Padre Murta qualidades – que eu creio ele nem pediu tantas. Sobrou-lhe, acima de tudo, talento e simpatia, fé nos destinos da humanidade.

Agradeço muitíssimo a Deus por ter sido contemporâneo dele, por ter convivido muito com ele. Sinto, porém, por demais, estar escrevendo esta crônica com os verbos no passado. São muitas as lágrimas, muitas, fruto de uma imensa e amiga saudade!
Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais


38377
Por Wanderlino Arruda - 7/9/2008 08:35:26
ONDE O AMOR É MAIOR

Wanderlino Arruda

Permita-me, leitor, continuar com mais alguns comentários sobre o Livro "Montes Claros, Sua História, Sua Gente e Seus Costumes", do nosso companheiro Hermes de Paula, o maior amado-amante da cidade, um dos melhores montes-clarenses de todos os tempos. Foi, aliás, outro bom montes-clarense, Newton Prates que, prefaciando a obra na primeira edição, afirmara ser o relato histórico de Hermes de Paula um trabalho valioso, um modelo de honestidade. "Do alvorecer aos dias atuais, o livro é um quadro colorido, cheio de vida, um testemunho palpitante da força criadora de gerações". Para ele, "o livro não é apenas de interesse regional, é uma contribuição para o estudo do folclore, dos usos e costumes, da marcha da civilização no interior do Brasil", pois, "Montes Claros é o milagre do sertão". "Quem nela viveu nunca a esquecerá. Se está distante, a lembrança da cidade querida permanecerá sempre, ao seu lado, carinhosa e fiel".
Como Newton, também o seu parente Juca Prates, famoso pelo amor a Montes Claros, é personagem de Hermes de Paula. Também estão no livro Gonçalves Chaves, Honorato e João Alves, Celestino Soares da Cruz, o Cel. Antônio dos Anjos, José Correia Machado, Honor Sarmento, os três xarás Simeão Ribeiro dos Santos, Simeão Ribeiro da Silva e Simeão Ribeiro Pires, nome de uma importante rua de Montes Claros. Homens e mulheres foram um contínuo desfile de trabalho e de saudade e Hermes os traz para o nosso convívio em ameno bate-papo, lembrando velhos tempos, quando a televisão ainda não ocupava o lugar principal em nossas horas antes de dormir.
Com Hermes de Paula, vemos chegar a Montes Claros o primeiro "bicho caminhão", em 1920; ouvimos os tiros de pré-revolução de 6 de fevereiro de 1930; vemos acender as luzes dos lampiões de querosene, de 1912, e da usina hidrelétrica do Cel. Francisco Ribeiro, em 1917. Aparamos águas nas bicas do século passado e nas torneiras do século presente, no sonho finalmente concretizado depois de 82 anos. Com ele, assentamos os primeiros paralelepípedos, na Rua Quinze e os primeiros blockrets na Rua Rui Barbosa e na Praça Doutor Chaves; em 1950, com o dr. Alpheu; em 1955, com João F. Pimenta; e em 1957, com Geraldo Athayde. Com Hermes de Paula, pavimentamos até o pavimento a que ele não quis se referir, as muitas ruas calçadas pelo Capitão Enéas Mineiro de Souza, seu adversário político na campanha para prefeito de 1950.
Com Hermes, ficamos sabendo de velhos nomes de logradouros públicos: Rua do Pedregulho, atual Gonçalves Figueira, ex Joaquim Nabuco; Rua da Assembléia, atual Afonso Pena; do Bate-Couro, a Governador Valadares; do Pequizeiro, a Cel. Antônio dos Anjos; Largo da Caridade, a nossa Praça Dr. Carlos; do Urubu, a ainda velha Floriano Peixoto. É ele quem afirma ser o esdrúxulo nome do Roxo Verde proveniente de personagem de Alexandre Dumas, da literatura francesa, etimologicamente Rochefert. É Hermes que põe o nosso saudoso Pedro Mendonça fundando a Malhada, o Santos Reis e hoje, dividindo as terras em lotes para evitar a solidão. É Hermes que faz funcionar uma liga contra o alcoolismo e a faz acabar com as licenças dos associados de goelas secas. É ele quem põe o povo entregando um relógio de ouro ao Dr. João Alves, depois de uma terrível epidemia.
É por isso que ninguém sabe onde é maior o amor, se em Hermes de Paula, se em Montes Claros, uma vez que o autor se mistura com as personagens, numa paixão de nunca acabar.

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros





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Por Wanderlino Arruda - 3/9/2008 09:19:11
BB MONTES CLAROS, QUASE SETENTA ANOS

Wanderlino Arruda

Há uns vinte anos um fazendeiro já idoso, magrinho, alegre, radiante de simpatia, sóbrio no vestir e elegante, entrou na Agência de Montes Claros, do Banco do Brasil, e fez uma oferta ao gerente, que deu muito o que pensar e, parece, mudou temporariamente os destinos de muitos funcionários. Rápido e preciso, muito prático, o homem chegou e foi logo ao assunto: fora um dos primeiros clientes da Agência, no início de 1940, quando precisou de um empréstimo, e recebera tratamento excelente e imediato, o que lhe resolvera um grave problema de família e de negócios.

- Nunca me esqueci da confiança que o Banco do Brasil teve em mim, naquela época em que eu era apenas remediado. Foi uma bênção! É por isso que eu venho oferecer-me para ajudar na festa de comemoração dos cinqüenta anos. Os senhores podem dispor do que precisar e estiver ao meu alcance!

A visita do antigo cliente, amigo agradecido de meio século foi o sinal de partida para a preparação do programa de aniversário Dos cinqüenta anos do BB de Montes Claros. Administração e funcionários ficaram conscientes de que a festa teria que ser um grande evento, uma marca inesquecível na história da cidade e da região. Afinal, sempre fora o Banco do Brasil, em todos esses anos, a grande locomotiva a puxar os carros do progresso nos trilhos deste sertão, ajudando e orientando na formação de milhares de propriedades e de negócios em todos os ramos da economia. Na verdade, ninguém poderia prever o que seria de Montes Claros e do Norte de Minas não fosse o Banco do Brasil, a maior instituição brasileira desde D. João VI, como temos costume de dizer, 200 anos de honestidade legítima, um das empresas mais respeitadas do mundo.

As primeiras providências para a grande festa foram agendadas pelo gerente Itaumary Teles de Oliveira. Antigos clientes e funcionários foram convocados para a tarefa de organização, coleta de documentos, levantamento da história e das estórias, relatos de alegria e gratidão de tudo que o Banco proporcionou e recebeu. Uma história rica de detalhes e muito dinheiro de lutas ingentes cronometradas pelo rigor das horas e dos minutos, numa contabilidade que nunca falhou. Podia até existir alguma instituição tão séria quanto o Banco do Brasil, mas mais responsável e correta nunca foi possível. O Banco tem sido o padrão, tem sido um modelo maior do que permanece de nobreza neste País.

Como era eu o detentor dos primeiros documentos da primeira semana de funcionamento da Agência de Montes Claros, salvos há uns trinta anos de um processo de incineração de arquivo, emprestei-os para uma exposição. São até hoje papéis preciosos também à história da cidade, com assinaturas de Sebastião Sobreira, Hélio Thompson (o primeiro gerente). Daniel da Fonseca Júnior (Danielzinho de Jequitaí, foi uma das principais personagens de Guimarães Rosa), Mário Versiane Veloso, Godofredo Guedes, Geraldo Lourenço de Oliveira (o primeiro recibo de salário), Levindo Dias, José Dayrel, Genésio Tolentino e Cândido Canela. São documentos de ordens de pagamento, cheques, tomadas de empréstimos, depósitos (eram selados), compra de cerveja para os operários da reforma do prédio (Rua Governador Valadares, ao tempo, ainda Coração de Jesus) e reconhecimento de firmas. Tinha eu também carta do amigo Necésio de Morais, uma memória privilegiada, que muito esclareceu pormenores do início de funcionamento da agência.

Em janeiro de 1990, quando foi realizada a grande comemoração do primeiro centenário do BB, das personagens do primeiro mês da agência só duas estavam ainda em circulação: José Pereira de Souza e Cândido Canela. Souza (tio do Samuel Figueira e cunhado de Efigênia Parrela), de cabelos mais que branquinhos, visita Montes Claros com grande alegria. Veio rever parentes e amigos.

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Por Wanderlino Arruda - 30/8/2008 07:48:10
MONTES CLAROS, VOVÓ CENTENÁRIA

MONTES CLAROS, VOVÓ CENTENÁRIA é a canção do primeiro século de independência da cidade. É o marco da inteligência, de fé e de amor, cadinho da ternura de Luiz de Paula, fruto de importante momento da nossa história. É a síntese sentimental de um moderno trovador, menestrel da cultura, doação vida à nossa realidade e aos nossos sonhos. A força desta canção é entrelaçamento de duas existências, de Luiz de Paula e da cidade, ambos sensíveis ao eterno e ao efêmero, misticamente voltados para tudo que inspira e cheira saudade e afeição. Mais do que uma prece à meiguice do sangue, MONTES CLAROS, VOVÓ CENTENÁRIA é um grito de sagrada paixão pela terra e pelo povo.
Decorridos hoje, mais de cinqüenta anos do Centenário, impossível descrever o entusiasmo, o afeto e o carinho com que a cidade comemorou os duzentos e cinqüenta anos de sua fundação e os cem anos de criação do município. Foram sete dias de festas, em que praticamente todas as famílias abriram suas casas para receber montes-clarenses saudosos vindos de todos os quadrantes da pátria. Em cada praça, em cada rua ou avenida, em cada lar, a alegria do reencontro, o abraço emocionado de velhas lembranças, o eclodir sincero da mais pura devoção a um local abençoado por Deus. As pessoas se abraçavam, dançavam e cantavam, cultuando o passado e extravasando esperanças. Era a transformação de cortejos em alegorias de amenas certezas, uma doce e gostosa gratidão ao berço natal. Feliz de quem teve a sorte de viver naqueles dias neste santificado Arraial de Nossa Senhora da Conceição e São José das Formigas, tudo tão Montes Claros.
A canção MONTES CLAROS, VOVÓ CENTENÁRIA, que a inspiração de Luiz de Paula transformou em hino de lirismo e vibração para velhos e jovens, foi o elo emocional necessário para tornar o momento inesquecível, iluminando recordações e fazendo cintilar o porvir. A gravação de setenta e oito rotações feita na época, hoje guardada como relíquia, incrustação material no espaço afetivo, depois, em nova técnica, se fez presente e reativou nova onda de sentimentos bons, principalmente quando comemoramos o sesquicentenário, ano passado. Atualizada, cantada com o encanto da voz de Carlos Galhardo e do Quarteto em Cy, bem orquestrada, foi a garantia de perenização de um dos mais altos instantes de nossa tão querida Montes Claros, ontem e hoje idolatrada.

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 17/8/2008 08:47:22
DOUTOR SANTOS VISTA DE PERTO
Wanderlino Arruda


A Rua Dr. Santos começava no Bar de Manoel Cândido e Hotel São Luiz (agora Copasa) e no Banco Crédito Real de Minas Gerais (hoje Farmácia Real). Depois era o barzinho de Adail Sarmento, mais café do que qualquer outra coisa, pois, lugar pacato, sério, onde nem viajante hospedado no Hotel podia fazer barulho e conversar alto. Tudo ali era de muito respeito, principalmente no mini-restaurante em que alguns estudantes mais bem postos na vida – Ivan Guedes e Raimundo Sant`Ana, por exemplo – podiam tomar semanalmente um pequeno lanche, com gorjeta para o garçom. Pensando bem, o bar ou café de Adail Sarmento era um quase sucesso, com tiras de bilhetes de loteria e açúcar refinado, tudo bem ao olho do dono reclamador dos exageros. Quando um dia um viajante encheu a xícara todinha de açúcar, Adail perguntou, ironicamente, a ele por que gostava de café tão amargo... De lá saíam muitas estórias para a portaria do hotel no outro lado, onde muitos anos depois, ainda falavam de saudades do bom Sebastião Sobreira, que de tão bom, no dia em que morrera, os pobres choraram nas ruas no meio de muitos lamentos pela perda do amigo e protetor.
Era no Hotel São Luiz, nas quintas-feiras, à noite, a reunião do Rotary Clube, a mais fina nata da aristocracia montes-clarense, lugar em que pontificavam inteligências e interesse pelo bem público, como João Souto, Nozinho Figueiredo, Moreira César, Niquinho Teixeira , Cel. Coelho, Gentil Gonzaga, Chico Tófani, Nathércio França, Antônio Augusto Athayde, João Valle Maurício, Lezinho, Fontes, Levy Peres, Baendel, Gerardo Guerra entre os que se foram, e Luiz Pires, Luiz de Paula, Hélio de Morais e Josias Loyola entre os poucos que ainda estão muito vivos. Luiz de Paula, no meu acompanhamento de jovem repórter, foi o melhor presidente que conheci, quando uma noite no Rotary dava tanto assunto que, no dia seguinte, eu escrevia todo o JMC, com exceção da página de polícia. Até para crônica social do A. R. Peixoto, e, mais tarde, dos J. e J., eu fornecia dados para fazer sucesso. Era uma festa e tanto, e nenhum assunto importante poderia ser sugerido ou resolvido sem passar por lá.
Um pouco acima ficava a farmácia de Juca de Chichico, ele muito falante, bem vestido, alegre fazendo trocadilhos, mexendo com um e com outro que passava, já não muito novo, mas bastante saudável para viver intensamente como gostava. Dele me lembro muito bem nos dois extremos da rua, porque encontrávamos também várias vezes por dia no Hotel São José (praça Cel. Ribeiro), onde eu era hóspede. A farmácia São José (agora, Minas Brasil), era a única da Rua Doutor Santos antes de Montes Claros ser o maior paraíso de farmácias da face do planeta. À frente, o Banco Hypothecário e Agrícola, de Mauro Moreira e Lidehir, com placa ainda escrita com "y" e com "th", contrastando já com a modernidade do Bancomércio, onde trabalhava o jovem alto e elegante Theodomiro Paulino.
O barulho ficava por conta da loja de rádios, eletrolas, geladeiras e discos 78, de Dizinho Bessa, precursora das modernas lojas de muita propaganda, aonde muitas vezes fui buscar anúncios para o Jornal. Era um contraste com a linha de elegância e silêncio da "Renner", loja de camisas com colarinhos trubenizados e ternos vindos de Porto Alegre. Lá, a gente conversava com João Leopoldo, jovem cantor da jovem D-7, testes na Rádio Nacional do Rio, e com Nathércio França, o melhor e mais ponderado papo de tudo que cheirava ao atual da cidade e do país. Lá, além de ternos e passagens de avião, a gente comprava coletes, lenços e gravatas. E cuecas samba-canção, em grande evidência naquele tempo.
Como vêem, não chegamos ainda nem ao JMC (agora, Caixa Econômica Federal), que ficava em frente à Padaria Santo Antônio, onde o cheirinho de pão quente era uma gostosura...

Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais


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Por Wanderlino Arruda - 11/8/2008 12:22:20
O REGIONALISTA NELSON VIANNA

Wanderlino Arruda
Tenho, como patrono da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, um notável homem de letras da nossa região, um regionalista e sério pesquisador de costumes, literato de fôlego, um sentimental homem do sertão, sempre vestido com roupagens de sério trato: Nelson Washington Vianna, o curvelano montes‑clarense.
Escolhi‑o com o desejo de marcar de modo definido minha admiração pela obra diretamente ligada às gentes do grande sertão do Norte, ao agricultor, ao caboclo, ao vaqueiro, ao freqüentador de feiras, ao fazendeiro, ao contador de "causos", ao tocador de viola, ao solitário das madrugadas e das bocas de noites e aos que, cansados das tarefas do dia, sentavam‑se ou se sentam nos calca­nhares para ouvir ou falar com a maior sabedoria do mundo. Nel­son Vianna, com a sinceridade do cientista, contou muito da esper­teza do interiorano de Minas, homo rusticus ou homo urbanus, sempre com a alma aberta à criação de tipos, caracteres e personalidades de rara beleza para nossa literatura. Ele despertou um sentido novo de humor, uma figuração de inteligência e perspicá­cia, um savoir‑vivre e savoir‑faire difíceis de se encontrar em outra literatura.
Perscrutador impenitente, incansável olheiro da fraqueza humana, quase libidinoso no modo de ver e interpretar, Nelson Vianna foi imaculadamente o grande repórter de uma vasta reportagem do homem sertanejo desse lado de cá do mundo mineiro, que vem de Curvelo até os Montes Claros. Ele sempre viveu acompanhando vertentes e serrarias, capões de mato e serrados, veredas e gerais, cenários de vida e de literatura tão gratos aos nossos corações. E pena que eu não tenha conhecido tão bem Nelson Vianna como o conheceu Cândido Canela, Olyntho da Silveira, Vianna de Góes, como o estudou Haroldo Lívio. Homem distante, severo, de poucos amigos, não dava muita oportunidade aos mais novos para conversas e troca de idéias.
Lembro‑me de ter conversado com Nelson Vianna apenas uma vez, no vestíbulo da casa de Osmani Barbosa. Estava eu na­quela ocasião interessado em fazer uma pesquisa sobre a literatura do Grande Sertão, exatamente no pedaço de terra que fica entre o centro de Minas, a Serra das Araras e o Carinhanha. Precisava de dados comparativos de dois estilos que dissessem diretamente sobre o elemento humano, fruto teórico da paisagem sofrida, ponto de ligação entre a natureza e a vida do passado e do presente. Propus, então, a ele uma entrevista, do homem e do literato, para que eu pudesse, depois, compará‑lo com Guimarães Rosa, o outro lado do trato com o comportamento sertanejo. Nelson Vianna espantou‑se, olhou‑me de frente, franziu o semblante, parece até que tremeu— e, considerou minha atitude uma audácia: fazer comparação dele com Guima­rães Rosa não tinha propósito, não havia paralelos; Guimarães, o grande escritor, ele um joão‑ninguém. É isso o que pensava. Não, não era possível, era um absurdo, não me daria entrevista alguma. Insisti, mostrei que a diferença de estilos não desmanchava a beleza nem a precisão des­critivas da relação humana e humanística do tema e que, embora divergentes, eram um só. De nada adiantou, foi irredutível, iria pensar, poderia ser ou não ser... mais para o não ser.
O encontro de frente e direto na casa de Osmani Barbosa com Nelson Vianna foi o último, como também estava sendo o primei­ro. Mudou‑se o escritor, logo em seguida, para Belo Horizonte. Quando o vi de novo, foi andando lá pelo quarteirão montes‑clarense das ruas Tupis e Rio de Janeiro, mas aparentemente distraído e, senhor ou não da vida, nunca me reconheceu. E até parece que a Montes Claros nunca mais voltou. Coisas que só o Haroldo Lívio deve entender...

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 7/8/2008 11:59:41
LABOR CLUBE DE MONTES CLAROS
Wanderlino Arruda

Na opinião de Andrés Segovia, a beleza estética consiste essencialmente em um ato de amor entre o artista e seu meio de criação. E é esse sentimento que se comunica ao público quando nos momentos de contato, este se vê diante de uma obra de arte, seja esta um filme, uma peça teatral, uma pintura, ou texto em livro ou na Internet. Um simples flirt ou uma concentração profunda estabelecerá a interação entre os dois, da qual surgirão os mais inusitados ou diferenciados sentimentos. Na maioria das vezes, é aceitar ou não aceitar, absorver ou não absorver, prazer ou felicidade. Em linguagem menos nobre, é pegar ou largar...
Juventude, companheirismo e serviço; notável exercício de cidadania, ideal de servir; ontem e hoje, muitas as lembranças por traz dos altos e baixos dos casarios de Montes Claros. Gratas memórias de Geralda Magela de Sena Almeida e Sousa em que a música da jovialidade coloria um tempo de sadios prazeres, tudo sonhos, tudo interesses no viver e conviver gostosamente. Arquitetura de história e estórias urdidas e bordadas em liderança inesquecível, moças e rapazes até hoje reconhecidos por dotes de inteligência e talento. Belezas deixadas e continuadas pelos cantos e recantos da vida, neste século espalhadas por infinidade de territórios da entidade chamada Brasil, quando dá gosto reviver os tempos do Labor Clube de Montes Claros.
Foi o Labor, ao lado de outros clubes similares – Orbis, Rotary, Lions – que deram força e coragem para o engajamento na construção e transformação de vários segmentos da sociedade montes-clarense, uma passagem linda do individual para o coletivo. Parece-me, a primeira vez, que jovens de lares abastados descobriram que nem todas as famílias faziam feira ou iam aos armazéns, nem todas as crianças dispunham de livros e materiais escolares, nem todos os idosos podiam ir às farmácias. De uma hora para outra, apareceu-lhe um novo mundo de necessidades e carências, que com um pouco de esforça pessoal e coletivo, poderiam ser remediadas. Pela primeira vez, o gesto solidário deixava de ser basicamente religioso, passando para a área institucional de serviços à comunidade. A solidariedade como dever maior, gente conhecendo gente, gente ajudando gente. A responsabilidade passou a ser coletiva com o novo espírito do Labor.
As ricas pesquisas feitas por Geralda Magela De Sena Almeida e Sousa vêm realmente atender o chamamento histórico dos 150 anos de Montes Claros, que não podiam ficar restritos a 2007, mas ter uma seqüência natural falada e escrita por todos que viveram ou estudaram a última metade do Século XX. É assim que ocorre um importante resgate de duas décadas, quando foram destaques além da própria Magela, Julinha Lafetá, Rosália Gomes, Fátima Mendes, Branca Dias Neto, Carmem Lúcia Antunes, Marinilza Mourão, Wanda Carvalho, Lídia e Lúcia Teixeira, Josefina Pereira, Felicidade Patrocínio, Mabel Morais, Márcia Melo Franco, Magna Casasanta, Almerinda Tolentino, Iranildes Cardoso, Wilma Sanches, Miriam Veloso Milo, Zulma Ribeiro, Maninha Cardoso, Lúcia e Laice Arruda, Beatriz Maia, Lúcia Lopes, Beatriz Santos, Elizabeth Brant, Marilda Veloso, Neusa Linda e Verônica de Paula, Regina Malveira. Como não lembrar carinhosamente das presenças de Selda Cabral, Regina Malveira, Márcia Valadares, Ceres Pimenta, Aparecida Costa, Alda Nogueira, Carmem Tupinambá, Dorinha Mendes, Iolanda Fróes Eugênia Brito, Joelita Leão, Laurita Ruas, Maninha Cardoso, Maria Augusta, Evangelina Miranda, Renata Brito, Raquel e Cristina Peres, Renata Brito, Luíza Freire? E por que não registrar também os nomes dos rapazes Giovane Santa Rosa, Paulo de Paula, Ildemar Mendes, Antônio Carlos Amaral?
Mesmo longe das atividades do Labor e do Orbis, porque já casado e no meu tempo de Câmara Municipal, como jornalista sempre acompanhei as atividades dessa moçada importante no tempo de entusiasmo que seguiu o primeiro centenário de Montes Claros. Louvo de alma e coração o trabalho perfeito da professora Geralda Magela, minha ilustre companheira no Instituto Histórico e Geográfico. Sinceros aplausos por sua minuciosa e bem feita pesquisa, pelo registro realmente bem redigido, importante subsídio para os que também vierem estudar e historiar os sucessos montes-clarenses. O livro LABOR CLUBE DE MONTES CLAROS é e será um ícone luminoso de uma época mais do que luminosa.

Os que vão viver saberão disso!
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 1/8/2008 17:41:30
JOSÉ COMISSÁRIO FONTES

Wanderlino Arruda

Fontes, o companheiro, o irmão, o amigo, já não se encontra materialmente entre nós. Há alguns anos, em uma grande viagem pela eternidade, deixou este agitado vale de dificuldades, que está sendo o nosso mundo do primeiro quartel do Século XXI. Uma viagem de ida ou de retorno, não importa, mas uma saída que marca saudades em todos que lhe queriam muito bem, que no total, são milhares de corações, aqui, em Montes Claros, em Ervália, onde nasceu, em Belo Horizonte... Alhures... Fontes era homem
de muitos amigos, de admiração séria, devotada, carinhosa. Criatura de reconhecimento e respeito, pois, mesmo no centro de revolto mundo de armadilhas e problemas, foi sempre pessoa de bem, espírito de escol.
Bom brasileiro, bom mineiro, antes e depois de bom montes-clarense. Um devotado à causa do trabalho silencioso, do trabalho constante, mais direcionado para o seu semelhante do que a si mesmo. De esforços multipluralistas, viveu sem descansos, impregnado do melhor sentido da vida, sem abatimentos desnecessários por tristeza que não podia evitar, sem alegrias desmedidas fora do seu feitio de sisudez. Acredito sinceramente que Fontes, sem ter nascido em Montes Claros, foi um dos melhores representantes desta terra, comedidamente amado e desmesuradamente amante de tudo que é nosso. Fontes, o trabalhador, o operário do bom serviço, sempre membro ativo da comunidade.
Fontes veio para Montes Claros em 1942, algum tempo depois de ter feito do curso ginasial em Juiz de Fora, na Academia de Comércio. Chegou já na profissão que adotaria por toda a vida, a atividade comercial no ramo dos calçados. Antes, havia passado por Ponte Nova, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, num caminho do autodidatismo da vida, aprendendo e praticando, tornando mais rica a cultura, construindo a sabedoria das grandes almas, aprendendo a agir e servir, elegendo como norma o amor, o verdadeiro amor cristão, voltado para a felicidade. Aqui chegou, aqui venceu.
Rotariano, a partir de 1951, ainda em companhia de João Souto, nos bons tempos de Niquinho Teixeira, de Nozinho Figueiredo, de Moreira César, pouco tempo depois de Sebastião Sobreira. Um rotariano consciente de lema `dar de si antes de pensar em si`, compenetrado nos direitos e obrigações da sociedade. Cursilhista dedicado, organizador de primeira hora, líder, fraternalmente irmão, entusiasta, sindicalista, sempre ligado ao Sindicato do Comércio Varejista, à Federação do Comércio, foi ele o grande herói do SESC, conseguindo trazer para Montes Claros esse trabalho maravilhoso de que todos somos reconhecidos. Foi colaborador direto na criação de empresas e entidades de interesse público, como a Companhia Telefônica, a Companhia de Águas e Esgotos, a Associação Comercial e Industrial. Incentivador do Mobral em nossa região, provedor da Santa Casa, Presidente do Rotary Club de Montes Claros – Norte e muitas outras atividades de inteligência e do coração.
Fontes, um jorrar de trabalho e de esforços para o bem comum, não será esquecido. Cumprindo bem sua missão, em passagem não muito longa pela vida, gravou indelevelmente o bom exemplo. Merece a nossa saudade e o melhor do nosso reconhecimento.
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 28/7/2008 22:29:35
O ROMÂNTICO MANOEL QUATROCENTOS
Wanderlino Arruda

Eu estava no décimo-quarto andar do edifício do Banco do Brasil, no centro de Fortaleza. Dentro, a temperatura era de dezoito graus, cortinas fechadas em quase todas as janelas, menos em uma que dava visão direta para o mar. Lá fora, calor intenso, um sol que daria gosto se estivesse na praia. O céu de brigadeiro, de um azul que indicava não haver igual em nenhuma parte do mundo. Fazendo moldura, abaixo da linha do horizonte, o Oceano Atlântico que parecia mais clorofila que água salgada: o verde era intenso, quase um verde de esmeralda ou de turquesa, daquele verde tão lindo como a cor dos olhos de uma bonita mulher de olhos verdes. Era o mar de Iracema, a virgem criada por José de Alencar, de lábios de mel e cabelos mais negros do que a asa de graúna e de pele mais macia que a pe1úcia de um pêssego maduro em manhã de chuva. Meu momento de professor de Lingüística num curso para palestrantes era a capital do Ceará.
Foi lá naquela festa urbana, onde trabalhava uns dias e vivia cada minuto, que recebi um telefonema de Olímpia, com notícias de casa, de Montes Claros e da região baiana de Minas. Sorvi, com atentos ouvidos, cada detalhe, cada ângulo de comentários. Misturava tudo com uma profunda saudade dela e das coisas com sabor mineiro. Quem nasceu? Quem vivia ainda? Morreu alguém conhecido? Ela me falou das mortes de dois prefeitos, das passagens súbitas de Caetana Meira, de Afrânio Tempone e da viagem eterna de Manoel Quatrocentos. Senti profundamente a ausência da Caetana, tão nossa amiga, quase nossa vizinha, companheira da Casa da Amizade, do Rotary, do Elos Clube. Ninguém nasceu para viver definitivamente. Haverá sempre um último dia. Mas acostumar-se com a ausência física de pessoas amigas, mesmo que não estejam sempre próximas de nós, é sempre uma angústia. Não existe alegria na morte. Mesmo de longe, senti muito a falta dos bons amigos. Importante pensar espiritualmente em cada um. Via méritos em todos: da alegria de viver de Tempone, por exemplo. Poucos dias antes, eu tinha convencido Caetana a ir com Meira a uma conferência do Rotary em Caxambu. Fiz propaganda de maravilhas do encontro rotário, e ela aceitou.
Do verde do mar, da imensidão do oceano, da fantasia do céu do Ceará, voltei-me inteiramente para todas as idéias que materializo hoje nesta crônica, focalizando na memória as muitas vezes que vi e admirei a figura nostálgica e cavalheiresca de Manoel Quatrocentos, um misto romântico de Dom Quixote e de Carlitos, último dos distantes conquistadores da beleza e do charme de mulheres famosas do velho cinema hollywoodiano. O verde do mar cearense seria como um foco dos sonhos do nosso romântico Manoel? De tudo que ele tinha na vida – e quase não tinha nada além do machado de cortar lenha – o de que mais se orgulhava era do verde dos olhos que herdara da mãe. Pode ser que fosse isso, porque nos olhos do Manoel Quatrocentos estavam quase todas as suas maiores qualidades: a gentileza, a alegria, o humanismo, o desejo de conquista, a admiração por Montes Claros, a cerimônia com as mulheres, a ironia com os orgulhosos, a malícia com os amigos, a simpatia com os jovens. Grande Manoel!
Lembrei-me perfeitamente dos meus primeiros tempos de estudante, lá pelos idos de 1951, quando íamos ouvir, aplaudir e anarquizar o jovem Manoel Quatrocentos, o "maior" cantor de boleros da Rádio Sociedade nos programas de auditório, no Cine Montes Claros e Cine Ipiranga. Chupando cana, comendo pipocas, fazendo bolinhas de papel de caramelos para jogar no animador e nos artistas, que grande alegria era cada manhã de domingo! Manoel Quatrocentos, mais romântico que o eterno romântico Adauto Freire, meu amigo, fazia poses de Gregório Barros, lançava beijos para as belezas invisíveis de Ingrid Bergman, Vivien Leigh e Lauren Bacall. Era como se ele estivesse vivendo cenas de Casablanca e de E o Vento Levou, só possíveis de serem descritas pelo companheiro Ângelo Soares Neto, outro fã incondicional do Manoel, que a esta hora também no mundo espiritual, deve estar sorrindo com ele, ou desfiando saudades como até hoje faz Haroldo Lívio. Quantas vezes pedíamos bis, bis só para sentir as impostações de voz de quem se acreditava, Tyrone Power, Charles Boyer, Errol Flynn, ou, nas horas de maior coragem, o próprio Charles Starett ou o Flash Gordon.
Lembro-me, agora, também da mania do Manoel Quatrocentos em falar línguas estrangeiras, no enrolado dialeto dos gringos: s`il vous plâit, merci beaucoup, yes, thank you, buenas noches, oh muchachas, take it ease, shut up, tão comuns aos artistas franceses, mexicanos ou de Hollywood. Era um tal de falar em footings e flirts que dava gosto! Lembro-me dos amores de Manoel Quatrocentos com o que parece ter sido seu único amor materializado – a Maria Tostão, lá no alto dos Morrinhos, quem sabe a sua alegria legítima. Perfumado sempre nas horas de folga, nunca sem gravata, castelhano gravado no sotaque, Manoel Quatrocentos foi um homem despojado de orgulho nas horas de trabalho braçal, dono de pouco, mas sempre sagrado dinheirinho para as próprias necessidades.
Do Ceará, mandei mentalmente meu último aplauso a Manoel Quatrocentos, o maior candidato ao noivado com as mais lindas mulheres do mundo. Que a manhã daquele sábado, 23 de abril de 1988, tenha sido para ele – Manoel Nunes da Silva – um fantástico momento de glória, uma contemplação maravilhosa do infinito azul do olhar de todas as belezas femininas da história. Ele muito fez por merecer!
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 15/7/2008 11:03:07
GY REIS, POETA

Wanderlino Arruda

O homem bom tira coisas boas do tesouro do seu coração. O homem útil é feito de sonho e realidade, com palavras sempre traduzindo o que imagina e o que pode fazer. Algo muito parecido com o sábio que sonha realizando e realiza no viver todos os seus sonhos. Compreende a vida olhando-se para trás, mas vê esta mesma vida vivida, olhando-se para a frente. O homem bom existe e sobre-existe como muito bem expressou Thiago de Melo: "Não tenho um caminho novo. O que eu tenho de novo é um jeito de caminhar." Vejo com bons olhos o olhar poético do companheiro e amigo, professor Gy Reis Gomes Brito, autor de PARADOXO, Poemas e Contos, de feitura gráfica da Editora Unimontes, de apresentações inteligentes e bonitas dos professores Osmar Oliva e Anelito de Oliveira. PARADOXO que vem como leitura fluente, vívida e vivida, um amar no aprender amando, das palavras e versos de Carlos Drummond de Andrade, esta que é a nossa oportunidade de poetar, poetando na poesia do amigo Gy Reis. Bonita, lúcida, inteligente, moderna, atual, esta é a poesia que encanta e vai encantar-nos sempre e sempre. PARADOXO é, no dizer do próprio poeta, um amor como um rio em época de chuvas e um tempo em temporada de tempestades, versos em forma de gente, penhor de luz, passeio largo em frente de um boteco. Ele escolhe a poesia como redesenha a religião que liga e religa, liga e desliga para o bem de todos os mortais. É assim no antes e no depois do grande Tagore: "A noite abre as flores em segredo, e deixa que o dia receba os agradecimentos." É assim antes e depois de Goethe, o mais lembrado poeta alemão: "Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma... Todo o universo conspira a seu favor!" Valho-me agora das palavras do autor de PARADOXO, o grande Gy Reis: "Os frutos novos me velejam, me mordem e me desejam, pois são os meus reflexos, e isto os alimenta, porque agora, sou eu em cor e pele. Agarro a vida e seus objetivos como um tamanduá-bandeira agarra a presa. O homem não nasceu para si mesmo, nasceu para a comunhão. Se não fosse, cada um seria seu próprio rei. Vivendo a vida, construiremos o mundo. Tudo porque, além da atmosfera terrestre, há uma escuridão a ser desvendada. Se um colibri passa por aqui, Lembro-me de você beijando o néctar de uma flor nas praças, escolas e ruas , quando tudo está colorido e é Natal. No meio do caminho há uma flor, apalpando o novo, requerendo equilíbrios. O desconhecido é como um pássaro voando na noite e garimpando no alto Amazonas, onde serra ficou pelada, onde o tempo nos incentiva, mas o momento nos cobra o futuro. Esta minha mulher é tudo aquilo que sonhei. Esta minha mulher é minha noite, é o meu dia, é a minha dor e minha alegria. Não quero sair do meu chão, nem sair tão doido como peão que cai o potro alazão. Estrela da manhã, vem me fazer criança, vem cantar comigo, vem me fazer sorrir. Amo-te, pois és a minha pressão arterial. Nada pode ser tão doce assim... Termino com uma confortante prece irlandesa, que o Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros dedica ao grande Gy Reis: "Que a estrada se abra à sua frente, Que o vento sopre levemente às suas costas Que o sol brilhe morno e suave em sua face, Que a chuva caia de mansinho em seus campos... E, até que nos encontremos de novo, Que Deus lhe guarde na palma de Suas mãos."

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 10/7/2008 11:57:01
DE MANHÃ, NA JANELA

Wanderlino Arruda

Não concordo com os que vivem para a noite, os noctívagos ou seja lá como se denominam os que varam as madrugadas, ou como dizia o meu amigo Claudionor Lima, que "matam o sol no peito". Sou muito mais de levantar cedo, pouco antes ou pouco depois das seis, quando o dia já está claro, sem exagero de luz. Naquela horinha de ver senhoras idosas indo para a missa, pedreiros e serventes pedalando de bicicleta para as construções, empregada doméstica dirigindo-se às padarias e botecos para comprar pão e café em pó. É claro que para a gente ver tudo isso é preciso ficar na porta da rua ou na janela, com aquele ar de quem se interessa em participar da vida.
Não concordo com os que se levantam tarde, depois das oito, depois das nove. Os que se levantam depois das dez, eu os condeno pura e simplesmente, porque estes não conhecem a melhor parte do dia, não vivem a hora de plenitude e beleza. Pela manhã, tudo é melhor e mais saudável e não há dúvida de que outra é a nossa disposição para o trabalho, para o estudo da vida, para observação da natureza, para a própria necessidade de meditação, parte integrante do nosso viver. Para se levantar um pouquinho mais tarde, tem os domingos e feriados, tem o período de férias. Aí está certo, porque também ninguém é de ferro.
Gosto de gente que participa da vida, que gosta de gente, que se interessa pela alegria dos outros, que se sente feliz com a felicidade alheia ou que respeita a tristeza dos que não podem ser alegres. Acho que é por isso que gosto de pessoas que olham pela janela, diletantes observadores do dia-a-dia, seguidores da eterna Glorinha, de Jorge Amado, por sinal viva até poucos anos atrás, moradora que era da praça principal de Olivença, na Bahia, onde a vi e observei muitas vezes. Não se deve viver no isolamento, pois a gente nasce é para viver em comunidade, no meio da luz, nunca na escuridão, na claustromania. E por falar em gente, lembro-me da satisfação do sempre bem disposto baiano-mineiro Ernesto Rodrigues Neves, sincero amante de Montes Claros, que ia, em velhos tempos, duas vezes por dia à estação da Central, nos horários de chegada dos trens de Belo Horizonte e de Monte Azul, jamais faltando a esse compromisso, chovesse ou fizesse sol. Era caso pessoal e intransferível. E o que ia "seu" Ernesto fazer na estação da Central, na chegada do trem? Ver gente, uai! Simplesmente ver gente que chegava e gente que saía, gente que ia lá receber ou despedir-se de parentes e amigos. Dizia ele que não havia nada melhor no mundo do que ver aquelas fisionomias sinceramente felizes ou saudosas, num real acontecimento de participação humana, um espetáculo de grandeza e de sensibilidade. E existe realmente alguma coisa melhor do que ser feliz? Pois "seu" Ernesto era, sempre foi, porque gostava de gente.
E viver por viver – dizia ele - deve ser ao lado da felicidade...


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Por Wanderlino Arruda - 1/7/2008 16:33:06
Loja Maçônica Deus e Liberdade

Wanderlino Arruda

O último dos fundadores da Loja Maçônica Deus e Liberdade a viver entre nós foi o bom amigo e mestre Professor Athos Braga. Todos os seus companheiros de fundação já haviam gozado do direito de uma nova iniciação no Oriente Eterno, deixando para os que vieram depois apenas a lembrança do bom exemplo, da coragem e da fé no trabalho e no estudo. Um a um, como tinha de acontecer, foi deixando a vida e entrando para a história, cada qual marcando a sua participação, assinalando uma hora importante do progresso da oficina. José Esteves Rodrigues, Sebastião Sobreira, Álvaro Marcílio, todos, cada um ao seu modo e com a força e prestígio que tinham, foram acrescentando o "algo mais" que tanto valor tem somado à instituição em Montes Claros nestes setenta e seis anos de tantas lutas e louvores da Maçonaria. Que poderia eu dizer de setembro de mil novecentos e trinta e dois? Quem dos leitores poderá dizer, com conhecimento de causa e com testemunho ocular, do que acontecia naqueles tempos bons e difíceis? Não acredito que seja possível falar muito de Maçonaria sem ser maçom, uma vez que a ordem nem sempre divulga os seus feitos ou anuncia a sua realização, ficando na maioria das vezes, a mão esquerda sem saber o que realiza a direita, como bem manda o figurino evangélico desde os tempos apostólicos. Avessa à publicidade, a maçonaria é pouco vista do lado de fora, só aparecendo o trabalho que, de forma alguma, pode ficar escondido. Assim, muita coisa dos setenta e seis anos de Deus e Liberdade permanece apenas na memória dos seus protagonistas, dos que tomaram parte direta nos próprios acontecimentos. Houve tempo, é certo, que nada poderia ser feito sem passar antes pela Loja e pelo Rotary, reuniões semanais que reuniam a maior parcela de liderança de Montes Claros. Do Rotary eu sei que cada reunião me dava quase totalidade da matéria de um jornal, nos meus tempos de repórter convidado por João Souto e Luiz de Paula, no salão dos jantares do velho Hotel São Luiz. Muitos e muitos - maçons e rotarianos - entrecruzavam-se nas duas organizações, entre eles Nozinho Figueiredo, Henrique Baendel, , Gentil Gonzaga, Sebastião Sobreira, João e Luiz de Paula. Quase nada teria realização segura, nenhum progresso poderia ser sonhado sem que uma palavra de ordem fosse comandada pelo movimentar deles e de suas duas entidades. A tradição local de maçons continua ainda apoiada na memória de Athos Braga, de José Gomes, de João de Paula, de Almerindo Alves de Brito Faria, de João Murça Júnior, os mais antigos, de iniciações mais remotas, na década de quarenta. Toninho Rebello, Júlio Pereira, Hélio Athayde, Geraldo Novais, Walter Suzart, Vadiolano Moreira, Cesário Rocha, Marcelo Furtado, José Geraldo Drumond, João e Terezo Xavier e mais um punhado de outros vieram depois de cinqüenta e sessenta, bem depois da longa administração de Chico Tófani e de Sobreira. Poucos ainda estão aí, vindos de antes. Como eu olhava com respeito aquele pessoal de avental vermelho, do grau dezoito, que se assentavam mais perto do Venerável! Os graus trinta e três só vieram tempos mais tarde, quando José Gomes foi ao Rio de Janeiro a chamado urgente e foi depois um sucesso! O tempo de irmo-nos igualando - alguns de nós - aos mais velhos veio nos idos de setenta e oito, quando pudemos nos postar ao lado de grandes amigos, entre eles o Georgino Jorge de Souza, de saudosa memória. Muito teremos ainda de escrever sobre a história de Deus e Liberdade. Espero que o futuro não nos negue tempo e memória. Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 25/6/2008 10:31:31
NOVELAS, SONHO E REALIDADE

Wanderlino Arruda

Não sei se você já parou um pouquinho para pensar sobre o que as novelas vêm representando para a sua família e para o povo em geral, o que elas trazem de realidade e o que elas podem oferecer de sonhos ou de ilusões. Alguém dizer, hoje, que não assiste a novelas, que não dá confiança a elas, que não tem tempo para acompanhá-las, nem sempre representa uma verdade verdadeira. De um ou outro capítulo, ou mesmo de uma seqüência deles, ninguém escapa, pois a tevê, queira ou não queira alguém, ocupa sempre um lugar importante na casa, seja na sala, seja no quarto de dormir. Em algumas classes mais bem situadas, existem até muitos aparelhos em diferentes partes da moradia, incluindo aí, o já indispensável DVD ou o home theater. Assim, o cidadão pode escapar do imposto de renda, da praga da política, do telefonema de cobrança, mas nunca da influência da televisão.
E qual é mesmo a função social da novela? Tem ou não tem ela alguma utilidade prática, além do divertimento e da simples ocupação do tempo ocioso? É a novela uma mídia didática, isto é, contribui para alguma aprendizagem, aumento de cultura? Que tipo de expectativas decorre do acompanhamento de uma novela, do convívio diário com as personagens, do amor e do desamor que elas provocam, das simpatias e das ojerizas, da beleza e da feiúra, das carências e dos requintes? Muitas são as interrogações, mas não sei quantas poderá o leitor dar em termos de sua própria experiência. Quem sabe talvez seja esse um trabalho para sociólogos e psicólogos, para outros os cientistas do comportamento humano. O certo é que elas têm de ser notáveis por alguma coisa, pois, do contrário, não poderiam trazem tanta preferência por parte de gente de todas as idades, aqui, neste alegre e sofrido Brasil, assim como em muitos outros países, inclusive em cultura diferente como a da China.
Até certo ponto, as personagens das novelas são pessoas do nosso dia-a-dia, as mesmas que convivem conosco ou são alvos de nossa atenção nas notícias dos jornais e das revistas, ou nos noticiários da própria televisão. Vejamos o exemplo da estratificação social, praticamente tudo em termos de oposição, aparecendo os embates emocionais entre ricos e pobres, educados e mal-educados, finos e grosseirões, bons e maus, virtuosos e pecadores, novos e velhos, desprendidos e ambiciosos, grã-finos e bregas.
Há também os paralelos e as diferenças nas profissões, perfilando ao mesmo tempo, o industrial, o comerciante, o banqueiro e seus empregados de trabalho leve e trabalho pesado, todo mundo ao lado do médico, do padre, do advogado, do motorista, da secretária, do jagunço urbano ou rural, da empregada doméstica, da mãe bondosa e conselheira, da dona de casa sobrecarregada, tudo dentro de determinadas normas, centrado por valores, situações e costumes mais diversos.
Destaquem-se ainda o deslumbramento dos ricos, a problemática dos pobres, a luta homérica para a sobrevivência da classe-média, esta espremida entre o pólo da ostentação da riqueza e o sofrimento marcante da miséria dos pobres. O rico sempre com uma montanha de bens supérfluos, buscando cada vez mais a ascensão social. Os pobres mergulhados na crendice (mal também dos ricos), no jogo do bicho, nas escolas de samba, nos botecos, nas barracas das feiras, no futebol, nas profissões de baixa renda, morando sempre em favelas, cortiços, ruas antigas e afastadas, vivendo em locais barulhentos e de grande densidade populacional. A felicidade raramente está desligada do dinheiro e do poder, do luxo e da boa vida, principalmente das lindas casas bem decoradas, cheias de móveis vistosos e ornamentadas, por fora, com carros do último ano. A felicidade sem dinheiro só aparece de vez em quando e, assim mesmo, com alguma obsessão de amor, com tentativas de casamentos impossíveis ou impraticáveis, pois casar exige quase sempre o mesmo "status" social, uma proximidade de classes.
Assistir a uma novela, de princípio ao fim, é candidatar-se para muito sofrimento, muita angústia, um convívio diário com toda espécie de paixão, embora algumas vezes gratificante pelos toques de humorismo, de esperança, de romantismo, de sabedoria, em proporções que só o drama ou a comédia podem oferecer. Mas como há vocação para tudo, gosto para todas as situações, sejamos telespectadores assumidos, porque a vida é breve, e a dos outros é sempre mais emocionante do que a nossa!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 11/5/2008 07:57:31
MINHA MÃE, MEU TESOURO

Amarás e servirás incessantemente,
todos os dias da tua vida,
eis o teu poder, a tua convicção,
o teu trabalho santificado.

Teus gestos serão movimentos de encanto,
busca de paz, homenagens sinceras a Deus
por ter permitido a vida a ti mesma
e a teu filho, a tua filha, a todos os teus filhos,
pedaços ou amplitudes do teu corpo e da tua alma...

Amarás, mãe, os minutos e os segundos
e tempo não te faltará para os mais santos carinhos
com que envolverás o fruto do teu amor.

E maternidade, mãe,
não precisa que seja do teu próprio ventre,
célula da tua célula,
porque ser mãe é passar pelo caminho da vida,
oferecendo dádivas do amor e da fé,
o melhor que exista no coração.

Ser mãe é passar com rastro fulgurante
em cendal de estrelas,
envolvendo em luz as trajetórias
dos seres que lhes são entregues
para cuidado e burilamento.

Ser mãe é sofrer amorosamente,
é sorrir na complacência,
é sonhar com a esperança.
Nenhuma tarefa é mais dignificante
do que a de mãe,
pois, em sua vida, dificuldade é ensino,
problema é lição, sofrimento é bênção,
tudo é alicerce divino na construção do bem.

Ser mãe é transmudar-se em bálsamo
e bom entendimento.
É ter a vida dos anjos,
é esparzir misericórdia
em nome do que há de mais sagrado no amor.
Ser mãe é curar o cansaço,
é amenizar a própria existência.

Filhos de todo o mundo, reverenciai as vossas mães.
Elas são seres insubstituíveis,
tesouros inestimáveis, maravilhas da criação.
A elas, jóias do mais fino labor de Deus,
o nosso amor!


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Por Wanderlino Arruda - 8/5/2008 15:58:53
GODOFREDO GUEDES

Godofredo Guedes, em várias décadas, foi o artista mais completo de Montes Claros: na pintura e no desenho publicitário. Na pintura, com figuras humanas fictícias e reais, paisagens urbanas e campestres, marinhas; no desenho publicitário, em portas, carrocerias de caminhões e paredes de estabelecimentos comerciais. Sua maior produção era a de letreiros em muros, placas, faixas e cartazes.
Um bom exemplo de qualidade. Tudo que Godofredo fez foi com a busca de um acabamento perfeito, principalmente nas cores, que ele não admitia não fossem reais. Enquanto não achava a cor exata de cada detalhe, não descansava. Vi-o muitas vezes gastando horas preciosas na busca de uma tonalidade, seja nas cores primárias ou nas secundárias. Ele produzia as suas próprias tintas, com exceção do verde. Seus azuis eram realmente maravilhosos, principalmente o celeste e o turquesa.
Creio que foi a pintura e o desenho o foco real de toda a sua vida. O estúdio ao lado de sua casa de morada, na Rua Rui Barbosa, tinha um vendaval de tintas que iam do chão ao teto. Praticamente todo o seu tempo era empregado na produção de telas e molduras para os quadros, assim como dos suportes para a confecção das placas.
A música – composição e execução – era mais uma forma de diletantismo a que o intelectual Godofredo Guedes se via ligado nos momentos de ócio. Foi músico profissional somente nos tempos de juventude, no Clube Minas Gerais, famoso cassino que ficava na esquina das ruas Carlos Gomes com Visconde de Ouro Preto, no centro de Montes Claros. Muitas das músicas cantadas pelo filho Beto Guedes eram composições antigas, acredito criadas ainda quando morava na Bahia.
Meu convívio com Godofredo foi a partir de 1974, quando de meu início na pintura. Era raro o dia que eu deixava de ir à sua casa para ficar sentado numa banqueta ao lado da sua. Passava longas horas, ouvindo-o e vendo o seu trabalho, suas explicações sobre cores e luzes, sobre a importância dos reflexos e das sombras. Ele gostava muito de mim e eu gostava muito dele, sendo grande a nossa afinidade em assuntos históricos e geográficos, principalmente na geografia humana. Godô era um homem culto, interessado em tudo que representasse conhecimento e marcasse progresso. Conhecedor profundo de formas e perspectivas, seus modelos – pessoas e coisas – faziam parte do seu próprio sentido de vida.
Dizia-me sempre que fui o seu único aluno de pintura, pois nem aos seus filhos e netos ensinava sua arte e seu ofício. Para ele a vida de artista era muito triste, economicamente pouco valorizada, sem sentido para quem precisasse vencer na vida. Dava muito prestígio, muita fantasia num sentido cultural, mas pouquíssimo dinheiro para a feira semanal de D. Júlia, sua mulher. Ele só não era infeliz, porque adorava ser um criador de belezas, vibrava com a própria habilidade nas tintas e nos pincéis. A mim me ensinava porque sabia que eu era independente financeiramente, e não precisava do dinheiro que a pintura pudesse me proporcionar, assim como acontecia também com Konstantin Christoff e com Samuel Figueira.
Muitas e muitas vezes contava-me sobre suas experiências como pintor em Belo Horizonte, expositor na Feira de Artes dos domingos, principalmente da alegria dos montes-clarenses quando viam seus quadros das igrejinhas dos Morrinhos e da Avenida Cel. Prates. Outro quatro seu que fazia o maior sucesso era o Palhacinho, que todo mundo achava ser o único comprador, mas que ele já havia pintado mais de novecentos. O êxito maior dos quadros da igrejinha do início da Cel. Prates era por dois motivos: primeiro porque ela não existia mais; segundo porque fora o local de batismo e de casamento de uma grande maioria. Uma lembrança mais grata a todos os corações.
Em verdade, foi Godofredo Guedes – cidadão e artista – um homem de admirável mérito, uma figura histórica exemplar, um ser realmente inesquecível. Dou graças a Deus por ter, de perto e por muito tempo, convivido com ele.

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 29/4/2008 18:31:15
TRIBUTO A REIVALDO CANELA

Menino Pescador, menino dos passarinhos, menino que lê e escreve muito bem há mais de quarenta anos. Um sucesso de leitura das edições de domingo dos nossos jornais. Tenho certeza de que todos os leitores, desde as noites de sábado, já ficam esperando pela bem traçadas linhas do Reivaldo. Sempre falando de coisas da terra, dos peixes de debaixo d`água até às aves de cima dos pés de pau e da beirada dos céus. Reivaldo é doido com tudo que tem vida, do vegetal ao animal, incluindo aí o bicho homem. Este quando ama a natureza, é claro. Recebo com muita alegria os originais do primeiro livro de Reivaldo, com uma linha nas explicações iniciais que me põe muito triste: o autor se diz no ocaso, só porque tem 72 anos, ou seja, nasceu em 1934, logo no em que eu também nasci. Ocaso que nada, ocaso uma figa, que esta hoje é uma idade das mais interessantes, principalmente para nós que adoramos tudo que é sertão e gente sertaneja, como o foi também Cândido Canela, um dos melhores poetas de toda uma vasta região, que até pode ser a do Brasil. Muito importante ler com atenção essa primeira página do livro, pois é aí que o escritor faz confissão e muitas promessas do que vem adiante. Um depoimento de escrivão! Mesmo sendo resumo de um vasto repertório de três mil textos publicados - em grande parte conhecido dos leitores - vale a pena mergulhar nos relatos, nas estórias, nas crônicas, nos tratados de leis naturais, nos poemas, muitos dos quais sonetos de perfeição. Ler Reivaldo Canela é desdobrar fibra por fibra o amor à vida, à simplicidade, aos feitos multifeitos da gente nossa dessas bandas das Minas Gerais. Ler Reivaldo é saber das espertezas telúricas de muitos dos seus saudosas companheiros de aventuras de beira-rio e de mato. Lá estão - entre muitos - Reinilson, seu irmão, Penalva, Dino de Campo Azul, Tunico de Caititu, Afonso lê Zezito Salgado, Joanir Maurício, Zé Figueiredo, Fino, Luiz Procópio, Waldir Macedo. Só gente boa de pá virada. Ler Reivaldo é buscar memórias, lavar a alma, reviver sonoridades de nomes tão gratos ao que viveram mais para o verde dos campos: maritacas, jandaias, priquitinho asas-de-ouro, mama-cadela, tatu canastra, jaratataca, saruê, guará, curimatá, lampreia, corvina, unhas-de-gato, sanhaços, juá-de-boi, surumbim-pintado, piaba-oião. Um universo de palavras-música para que tem mais de cinqüenta, já que os meninos e meninas de hoje são mais das piscinas, dos barzinhos, da televisão, da internet, dos vídeo-games, sem qualquer obrigação de saber dessas nossas bobagens. Em verdade, MENINO PESCADOR, o livro de Reivaldo Canela, é mais do que tudo um suspiro saudoso de velhos tempos de criança, tempos em que meninos ainda banhavam nus em qualquer poço, incluindo mesmo os que tinham, nas margens e nas pedras, honradas senhoras lavando, quarando e enxugando roupas. Em tempo, quero dizer que Montes Claros, em praticamente um século, na opinião de críticos literários, só teve um quarto de dúzia de sonetistas realmente bons: Olyntho Silveira, Benjamim Moura e Reivaldo Canela, este que ainda dá um bom caldo em escritos para jornais e, agora, para um bom livro. Que Deus o conserve!


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Por Wanderlino Arruda - 30/8/2007 10:31:23
JOÃO MORAIS,MEU AVÔ
De todas as pessoas que tenho conhecido mais de perto, o velho João Morais, meu avô, parece ter sido o único homem a viver oitenta e muitos anos de alegria em tempo integral. Era assim como se tivesse carteira assinada numa firma de felicidade, com todos os direitos, menos o de ficar triste e de deixar de ser alegre. Era, não tenho dúvida, como um papai noel de ano inteiro, a distribuir presentes de fraternidade a todas as criaturas. Fazia ele da convivência de todos os dias um painel harmonioso e de rica sabedoria. Conheci-o desde os meus primeiros anos, em sua fazenda perto de Salinas,numa casa-sede que ficava rodeada de pomar e jardim,entre "Ribeirão", de águas cristalinas, e a estrada principal, onde ninguém tinha direito de passar sem uma visita ainda que ligeira. Ali, cada visitante era recebido prazerosamente e, depois dos cumprimentos de praxe, levado para lavar a poeira dos rosto, tomar café-com-leite e biscoitos de tapioca e participar de uma gostosa conversa. Sabendo dividir bem as horas de trabalho nas pastagens e na lavoura, vivia animadamente para o trato com as pessoas, contando estórias, relatando casos, recriando-os com enternecedora vontade transmitir felicidade. Vovô foi, acima de tudo, um homem bom, o leme para muita gente neste mundo, que aprendeu com ele a andar no caminho certo, pois conselheiro melhor não havia naquele pequeno grande sertão entre Rio Pardo e Salinas. Era um velho forte e musculoso, vermelho como um europeu, e tinha os cabelos brancos e fartos, que lhe davam um ar de juventude bem conservada e um enorme halo de simpatia. Quando eu era pequeno, pensava que sua cabeça havia embranquecido pelo rigor do sol dos canaviais, onde trabalhou até poucos dias antes de morrer. Eu achava que ele tinha vindo aprimorar o mundo e as criaturas, num esforço de nunca parar, pois nem a doença que o acompanhou anos a fio o modificou em seus hábitos de homem feliz. Vi-o, muitas vezes, voltando à tardinha, enxada ao ombro, embornal pendurado no pescoço, sorriso de ponta a ponta, a cantarolar algumas de nossas modinhas prediletas. Todas as noites, após o jantar com toda a amília - ninguém podia faltar - deitava-se numa rede amarelecida de tanto uso, e o antigo violão passava a centralizar as atenções, numa suave evocação de lembranças e saudades, que só terminava bem tarde, quando o cansaço vencia e todos iam dormir. João Morais, meu avô, nasceu bem longe, na velha Bahia, pelas bandas de Caiteté, creio, num dia de festa até da natureza. Desde rapaz, tropeiro de profissão, viveu a vida dos campos e das estradas, dormindo ao relento, comendo feijoadas com rapadura e farinha de mandioca, e respirando o sereno de todas as madrugadas. Ele mesmo contava que foi naquele tempo que conheceu uma moça morena e bonita chamada Ritinha, neta de índios, de quem, seis meses depois do primeiro encontro, ficou noivo, e com quem, um ano mais tarde, se casou. E foi vendo a casa cada vez mais cheia de filhos e netos, fazendo e refazendo festas, que viveram mais de meio século em harmonia muito perfeita. Não assisti , mas dizem que ele morreu conversando e sorrindo, como costumava fazer durante todos os dias da vida, pedindo a todos para não chorar ou sentir tristeza. Embora sertanejo e de poucas letras, foi um romancista verbal, narrador inigualável desenhista de perfeitos quadrinhos existenciais de humanismo puro e sincero. Na verdade, meu avô tinha uma experiência de vida, uma habilidade diplomática, uma riqueza de inteligência e bondade, dignas de muita admiração. Ninguém que o conheceu deixa de dizer que ele era um velho alegre e agradável, verdadeiro construtor de amizade, sempre ouvido com interesse e prazer.


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Por Wanderlino Arruda - 6/8/2007 08:08:29
KARLA CELENE CAMPOS E `HIBISCOS MOLHADOS"

Vejo-me, na apresentação de "Hibiscos Molhados", como um acendedor de madrugadas, um libertador de belezas, um otimizador de primaveras, a um tempo só cronista e poeta, lúcido e em êxtase, muito espiritualmente acordado para dizer que esta é uma hora marcante de dourada e acadêmica alegria. E que bom para mim, porque assim desempenho um papel de introdutor e de testemunha num dos mais destacados momentos, ato de muito agradecer a Deus esta Karla que, desde a infância, sabe desnudar e vestir cores e sons, prismas e músicas, ritmos e tempos, mundos de visões e de sonhos, tudo nem sempre permitidos à normalidade de humanos mortais. Karla antevê e vê deslumbrantes rasgos de vidas, panoramas lúdicos só possíveis a quem, de cima dos horizontes poéticos, vislumbra matizes e sabe muito de ventos e brisas. Missionária, predestinada e mágica, é arquiteta e operária de mais do que dizem dicionários e textos. Graduada em Letras pela Unimontes, jornalista pela UNI-BH, pós-graduada em Língua e Literaturas Brasileira e Espanhola pela PUC-Minas, cursos em Salamanca, mestra de muitos magistérios, poeta e cronista vencedora de dezenas de concursos, mereceu, com todo louvor, o destaque 2004 do Salão Nacional Psiu Poético. No dizer de Maria Luíza Silveira Teles, que também viveu infância e adolescência no Brejo das Almas, Karla - quem sabe pelos ares brejeiros tocados por tempestades de inspiração - edifica poemas desde que aprendeu a escrever. Inteligente, profética, conspiradora de belezas, é e tem a majestade do imprevisível na tessitura moderna do mundo da comunicação e da expressão lingüística. Menina sempre, tem a simplicidade vocabular dos que entendem das coisas. Sabe, como mestra, registrar costumes, repintar entusiasmos, dignificar gestos e jeitos, musicalizar todas as energias que a Criação Divina colocou no mineiríssimo gosto de nossa gente. Karla é uma geminiana mais do que versátil e exerce suas atividades sempre com muito prazer. Faz várias coisas ao mesmo tempo, principalmente quando estas coincidem com a sua filosofia e cultura. Insaciável para saber, de tudo saber, tem na fala e na leitura constantes perguntas. Fascinante no dom da palavra, sua conversa é ágil e estimulante, tanta eloqüência que deixa a impressão de domínio completo em muitos campos do conhecimento. Intelectual sempre, acomodada nunca! Importantíssimo que Karla tenha tirado da gaveta as páginas que lá envelheciam e ali trancado a própria modéstia, para nada impedir a publicação dos seus livros. Sabe que a vida tem prosseguimentos e que, para ser interessante, nem precisa de históricos acontecimentos, grandes glórias ou tragédias grandes. Basta ser como é, aura pura de amizades e considerações. Mesmo passando depressa demais, a vida é sempre ótima, ponta de partida e ponto de chegada. Melhor ainda quando em cada manhã um poema novo, cada hora como fruta madura ao alcance das mãos. Mais do que tudo, os versos lindos de Karla são sentimentos de amor à vida: Orquestra de insetos do mato "Sou o cio! Agora sou caminho Chegadas e partidas. Sou estrela. Sou abismos, precipícios, sou meio, sou inteira. Sou metade. Sou avesso Sou tarde e Amanheço".
E-mail: arrud@wanderlino.com.br


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Por Wanderlino Arruda - 23/7/2007 07:35:24
AH! OS HORÓSCOPOS

Wanderlino Arruda

Confesso que entre as minhas muitas leituras quase não posso passar sem as dos horóscopos. Por exemplo, não ponho um jornal de lado enquanto não estiver lida a coluna que fala da sorte no dia ou na semana. Não me importa se vai ou não vai acontecer coisa alguma, se devo ou não acreditar. Interessa-me, porque acho gostosa a combinação de idéias, o tom otimista dos autores, a sensação de mistério, o número de probabilidades fantásticas. E sei que não estou só nessa empreitada, porque senão os jornais e as revistas não falavam tanto do assunto. Deve haver até muitos leitores muito mais apaixonados do que eu e do que você. Será? Conheço mais o que diz respeito aos nascidos no signo de Virgem, um povo leal e dedicado, afeito às letras, ao jornalismo, à contabilidade, a tudo que concerne a papel e que é nele escrito. Práticos, homem e mulher virginianos, são organizados e gostam de tudo certinho, arrumado como um relógio de hora certa, previsí¬vel, a ponto de sustentar uma eterna crítica deles mesmos. Quando um virginiano casa-se com uma virginiana, fazem mais do que um casamento: fundam uma organização com Características inte¬ressantíssimas, incluindo nessa organização os devaneios e as fantasias, desde que obedeçam a esquema traçado. Ponho como testemunhas disso meus bons irmãos e colegas Míriam e Dárcio, meus vizinhos de aniversário. A mulher de libra não tem nenhum critério na escolha do com¬panheiro? Tudo o que ela quer é unir-se a alguém muito elegante, inteligente e que decida por ela, a quem ela possa dedicar-se e que satisfaça seus caprichos sofisticados. É cheia de etiquetas e está sempre comprometida com as normas sociais. A libriana sem¬pre se preocupa com a opinião das pessoas. Já a mulher de Escor¬pião traz dentro de si o grito da liberdade instintiva. Inconformada, não sabe reprimir sua exuberância afetiva e sensorial, sempre cheia de empatia e intuição. De grande força de trabalho, assume tudo com garra. Outra mulher que adora a liberdade de movimen¬tar-se é a aquariana. Para ela, o ir e vir, conforme lhe convier, é o essencial, assim como o relacionamento e a participação na vida das pessoas. Já a canceriana é uma mulher sensível, dotada de grande capacidade de emocionar-se, permeável ao meio ambiente, misto de mãe e mulher, quase nem sabendo separar essas duas funções. As leoninas são protegidas pelos deuses, segundo a mitologia, parentes do fogo e, por isso, fáceis de incendiar-se. Brilhan¬tes, intransigentes e dominadoras, pensam como bem entendem. As mulheres de Gêmeos expressam com suas fantasias através do amor, ao contrário das taurinas, que são bastante realistas a ponto de recusar as ilusões e só ver a segurança e o que é real. Sem compromisso, variada, leve, não sei se pode haver leitura melhor do que as dos horóscopos. Pelo menos mais gostosa não há! Nem a de poesia bem feita!


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Por Wanderlino Arruda - 4/7/2007 11:56:25
RUAS E PRAÇAS DE MONTES CLAROS

Wanderlino Arruda
arrud@wanderlino.com.br

Há vários caminhos para a gente saber os nomes de ruas e praças de Montes Claros: percorrer a cidade de ponta a ponta ou folhear o catálogo telefônico na parte dos endereços, lendo e anotando os destaques em negrito. Primeiramente, logradouros sem nomes, ou seja somente com números, Rua 1, Rua 2, etc., até começar pela Rua Abel Sena e terminar pela Rua Zulma Antunes Pereira, bem no finzinho do alfabeto. Uma delícia a viagem, a pé, de pé, assentado, dependendo do percurso escolhido e de como fazê-lo. Na prática, não adianta você ter pressa, porque o gostoso mesmo é ver e sonhar frente a cada denominação, seja nome de gente, de santos, seja de palavras que indicam pedras, metais, flores, cidades, províncias, países e até continentes. Há ruas e praças com títulos de coronéis, padres, engenheiros, príncipes, deputados, donas, irmãs, doutores. Trinta infinitos doutores, onze donas, cinco engenheiros. Viúvas somente duas: Viúva Francisco Ribeiro e Viúva Paculdino, a primeira no centro, a segunda no Jaraguá II, coisa de incrível machismo, porque, merecendo a homenagem, deveriam ter nas placas os próprios nomes e não os dos maridos. Dou um doce a quem encontrar os nomes delas nas famosas listas dos 150 x 2, da Prefeitura, e dos 300 da acadêmica Milene. Apesar de ser normal que nomes de vias públicas sejam de pessoas já do outro lado da vida, pelo menos três montes-clarenses receberam homenagem em vida: Mestra Fininha, Teófilo Pires e Hermes de Paula. Hermes chegou a ter três ruas, mas tendo reclamado o excesso, ficou com apenas uma. A Rua Simão Ribeiro, quarteirão fechado, ao contrário do que muita gente pensa, não é de Simeão Ribeiro Pires, mas de Simeão Ribeiro dos Santos, o tio. Bem curiosos os casos de algumas praças com nomes e apelidos: a Doutor Chaves é praça da Matriz; a da Santa Casa é Honorato Alves; a da Catedral é Pio XII; a da Estação é Raul Soares; a do Automóvel Clube é a Doutor João Alves; a Doutor Carlos que era praça do Mercado, hoje é Doutor Carlos mesmo. Wanderley Fagundes nunca poderia ter seu nome na praça onde está e acabou tendo por teimosia do seu amigo e prefeito Toninho Rebello. Ela está no centro do bairro Todos os Santos, local de somente destacados apóstolos e famosos figurantes do calendário da Igreja. De nada adiantaram as reclamações à época, porque Wanderley acabou, com justiça, canonizado por Toninho. O Brasil tem seis ruas, Brasília e as Guianas três. Bélgica, Bolívia, Argentina e Colômbia, duas cada uma, além de mais algumas antecedidas pela palavra República. A capital de estado com mais ruas é Porto Alegre, com três, mesmo tanto que tem Lázaro Pimenta. A flor mais homenageada é a violeta, com quatro. Há ruas da Boa Esperança e da Boa Vista, da Sorte e da Felicidade. Ruas com os nomes de João, José, Maria, Nosso Senhor e Nossa Senhora, Santo e Santa são muitas e muitas. São muitas também as começando por Lagoa, inclusive Lagoa do Bagre e Lagoas Cabalana e Canacari, que nem Haroldo Lívio deve saber o que significa. Quatro ruas Esmeralda, quatro Pedra Azul, três de Coração de Jesus, cinco dos barões. Uma de Tu Peixoto, uma de Janete Clair, uma de Ivete Vargas e duas de Urbino Viana. Duas do Cruzeiro, nenhuma do Atlético. Daniel Costa já mudou duas vezes: era praça, onde está o Shopping Mário Ribeiro (Shopping popular), passou para o lado da Santa Casa e depois, para ceder lugar para o Cel. Luiz Pires, foi para o Jardim São Luiz. Dezenas de ruas têm o nome de Francisco, Geraldo e Geralda; cinco dos índios Guaranis, sete do governador Magalhães Pinto. Nota final, realmente triste: Antônio Lafetá Rebello poderia ter ficado no centro, mas foi para o Santa Lúcia II; pior para os admirados doutores Alfeu Gonçalves de Quadros e Pedro Santos, até o momento, zerados na lembrança cívica. Uma pena!


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Por Wanderlino Arruda - 5/6/2007 09:23:52

HAROLDO, BARÃO DE GRÃO-MOGOL

Wanderlino Arruda
arrud@wanderlino.com.br

A história é bem normal de tudo de conformidade com os cânones do comércio de nossos dias, fruto dos princípios da oferta e da procura. Negócio de toma-lá-e-dá-cá, envolvendo naturalmente valores e moedas comuns de qualquer ato comercial. Só põe romantismo numa operação dessas quem pode vê-la com olhos de poesia, com traços românticos de filosofia literária. Em tudo, não resta dúvida, mesmo nos atos de pura barganha e interesses outros, a gente consegue dar um colorido de fantasia, bem própria dos que vivem do trato das artes de das letras. É que a verdade é bem interessante, amigos. Haroldo Lívio, cidadão brasileiro, brasilminense de nascimento, montes-clarense de coração, agora assina um atestado de amor à terra de Grão Mogol. Assina e paga. Paga com toda a força que o dinheiro põe e dispõe no mundo moderno, mesmo em se tratando de coisas antigas. Haroldo Lívio - é bom dizer logo - acaba de efetuar uma transação comercial de alto coturno na cidade de Grão Mogol. Comprou e pagou e tomou posse, com registro em Cartório, mediante todas a cláusulas, inclusive a de evicção. Haroldo Lívio, ou melhor, Doutor Haroldo Lívio de Oliveira, brasileiro, advogado, casado com a socióloga, D. Maria do Carmo, é hoje senhor de um solar antigo e sensorial na cidade de Grão Mogol. Senhor legítimo de uma antiga casa, grande e imponente, construída possivelmente por mãos escravas, de paredes de pesadas pedras, escavadas com o suor do século passado. Caso de amor à primeira vista, Haroldo embeiçou-se pela nobre vivenda e sentiu-se imediatamente na pele de um poderoso grão-proprietário, dono da segurança de uma fortaleza ao mesmo tempo urbana e histórica. Viu e gostou. Gostou e comprou. Comprou e pagou. Pagou por ser o incontestável possuidor da possuída posse. A casa de Haroldo, amigos, não é uma casa comum, que a escritura diz construída de alvenaria, de simples e perecíveis tijolos. É obra granítica, com paredes de meia braça, a sustentar janelas coloniais, portas imensas, de duas bandas, com pesadíssimas traves e ferrolhos, frutos, não só da segurança mineira como da senhorial competência de suados ferreiros de antanho. A casa de Haroldo, de telhado de aroeira lavrada a golpes de enxó por mãos competentes, tem repetidas ripas de jacarandá! As paredes das salas mais nobres são revestidas com lambris e o piso é digno das passadas de um comandante-centurião. Na frente, o arquitetônico ornato de uma resistente cimalha dá o toque do poderio e da força de uma escolha consciente do construtor e mestre-de-obra, orgulho da arte de cantaria. O fundo do nobre solar, após generoso quintal de frutos opimos, divisa com as mais cristalinas águas do rio de areias brancas, leito de pedras polidas, barrancas atapetados de grama verdinha e capim gordura. Ao longe, mas não muito distante, o perfil elegante de centenárias árvores a formar moldura com o azul de ferrugem das serras e a linha cinzento-celeste do horizonte. Tudo uma graça, um encanto para os olhos e um prazer para o coração... Por tudo isso, pelo amor, pelo romantismo da decisão comercial, pela poesia, pelo gosto, pela nobre humildade e pela humilde nobreza de sã consciência, prevalecendo-me não sei de que autoridade, não tenho dúvida de atribuir a Haroldo Lívio, culto e intelectual senhor das Minas Gerais, o Título de Barão de Grão-Mogol.


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Por Wanderlino Arruda - 22/5/2007 22:27:39

AGOSTO DE CINQÜENTA E TRÊS

Wanderlino Arruda
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Quando Celso Brant dedicou toda a revista "Acaiaca" de agosto de 53 a Montes Claros, comandavam esta cidade o Capitão Enéas Mineiro de Souza e o Coronel João Lopes Martins, duas patentes ainda bem vivas na lembrança de leitores mais velhos, cada uma delas com personalidade bem forte, à moda da época, revolucionários e conservadores, marcantes de paixão, um tanto próximos do caudilhismo com feição regional. A Câmara Municipal, dirigida pelo flegmático João F. Pimenta, tinha a respeitabilidade da década, uma saudosa coerência de bom comportamento, fato que dos quinze cidadãos com acento na casa, oito ainda estão aí para servirem de testemunhas. Mas já não temos o juiz Ariosto Guarinello, o bispo Luiz Victor Sartori, o delegado José Coelho de Araújo, nem os colaboradores da revista padre Agostinho Beckhauser, Nelson Viana, Alfred Hannemann, José Monteiro Fonseca, Neném Barbosa, Pedro Sant`Ana, Irmã Rudolfa e os poetas Geraldo Freire e Dulce Sarmento. Deste time, já ninguém mais para contar a história. Todos na longa viagem da eternidade... Com trinta e três anos passados, é bom que ainda reste a lembrança de amigos como o professor Belisário Gonçalves, figura e estilo tão próximos de Castro Alves, e o reporte José Prates, o primeiro jornalista de rua e de redação deste O JORNAL DE MONTES CLAROS. Felizmente, bem vivos ainda, temos Felicidade Tupinambá, João Vale Maurício, Konstantin Christoff, Flora Pires Ramos, Luiz de Paula, Cândido Canela, Irmã de Lourdes, Yvone Silveira, Orestes Barbosa e Lourdes Martins. Também, embora distantes, mas em lugares certos e sabidos, Áflio Mendes de Aguiar, Afonso Pimenta e Feliciano Oliveira. Todos juntos, formaram um belo corpo editorial, de prosa e poesia e desenho, agradáveis, bem feitos, até com um lindo toque de romantismo pelo muito amor a terra montes-clarense. Confesso que o mais gostoso na velha revista "Acaiaca" é o conjunto de anúncios, alguns até de página inteira, muitos com ilustrações interessantíssimas. Os leitores mais vividos que me digam se estou ou não falando a verdade, se é ou não salutar o direito de ter saudades. Quem não lembra, por exemplo, do Big-Bar, do Salão Rex, do Assombro da Pirotécnica de Marcianinho Fogueteiro, da Turmalina, do Instituto de Beleza Gilda, da Casa Paulino, da Alfaiataria Ribeiro, do Macarrão Iracema, do Bar de Tito Versiani? Quem não tem ainda gravados na memória nomes tão conhecidos como Hotel São Luiz, Casa Para Todos, construtora, Ayres Alfaiate, Joalheria Cyma, Transportadora Armênio Veloso, Farmácia Americana, Maternidade Santa Helena? São gratificantes pedaços de lembranças, coloridos no tempo e nos sonhos... Tudo na revista é interessante, mas o sensacional mesmo são as fotografias feitas pela mão de mestre de José Figueiredo Pinto, também inesquecível. Na página infantil, retratos dos garotos Jorge Enéas e Catarina. Nas páginas de esportes, flagrantes de momentos históricos das atletas do Montes Claros Tênis Clube, Moema, Zembla, Glória, Eunice, Ilza, Marlene, Shirley, Wilma, Norma Maria, Stela, Zenaide, Clarissa, Consolação. No bloco da educação, fotos de alunas e professoras, do Colégio Imaculada. Como fechamento de ilustração, bonitos exemplares das raças gir e indubrasil das fazendas de Dominguinhos Braga, Augusto Otávio Barbosa, Antônio e Geraldo Ataíde. Naquele tempo, o Banco do Estado de Minas Gerais ainda era chamado de Banco Mineiro de Produção.


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Por Wanderlino Arruda - 17/4/2007 07:47:21

MESTRE KONSTANTIN CHRISTOFF

Wanderlino Arruda
arrud@wanderlino.com.br

Foi em 1974 que, numa das conversas com Konstantin, surgiu a idéia de uma feira de arte em Montes Claros. Feira ou exposição ao ar livre, numa praça, em dia de sol, todos os artistas juntos, arte e artesanato. Uma associação organizada, mas sem estatuto, sem presidente, sem secretário, sem tesoureiro, sem diretoria. Todos iguais, um ao lado do outro, sem escolha de lugares. Claro que com disciplina, mas a disciplina da amizade, do companheirismo, da consideração, ninguém mandando em ninguém. O que mais Konstantin pediu foi que nunca pensássemos em registro. Tinha que ser uma sociedade livre, para que os artistas pudessem entrar e sair sem pedir licença. Quer expor ? Apareça no local e no horário, e tudo bem. Para que inscrição ? Um único cargo, nada mais do que um, apenas o coordenador, porque pelo menos para dar informações, precisava de alguém. Discutidos os nomes, acabei sendo este alguém. Mas sem votação. Ele indicou-me. Não é a feira de arte a lembrança mais antiga que tenho de Konstantin, pois amigo ele foi sempre desde os meus tempos de estudante no Instituto Norte Mineiro, estudantes passando na frente da casa dele, na Rua D. João Pimenta, e ele dando conselhos, falando como irmão, uma consideração muito carinhosa com os jovens. Lembro-me dele fazendo ilustrações para revistas de Montes Claros e de Belo Horizonte, lá de vez em quando colaborando com edições comemorativas de alguma coisa pelos jornais da cidade. Lembro-me dele médico sério e famoso na Santa Casa, cirurgião do maior respeito. Lembro-me muito da muita admiração que as moças casadoiras tinham por ele, um rapagão louro, de cabelos compridos sem ser demais, barba européia ariana, olhos claros, perfil de um possível marinheiro viking, financeiramente já bem posto na vida, tipo de genro que toda futura sogra desejaria para a sua filha. A vida continua e Konstantin Christoff também continua na história de Montes Claros. Sempre admirado, sempre amado, um ícone da nossas artes maiores, pintura, escultura, desenho, a cada dia mais competente, a cada temporada com mais estudos teóricos, sabedor de tudo, estimulando jovens, criticando velhos, sugerindo sempre. Uma enciclopédia das artes e dos seus valores. Como era gostoso estar vendo ao mesmo tempo Konstantin e Godofredo Guedes, no estúdio de Godô, na Rua Rui Barbosa. Um completava o outro. Godofredo, um clássico, põe todo academicismo que ainda é pouco, escolha rigorosa de cores, pintura no mesmo movimento da escrita, da esquerda para a direita, de cima para baixo, se hoje como uma moderna impressora colorida de computador. Godô nunca abria mão dos detalhes, mínimos que fosse. Konstantin, não, um revolucionário, um iconoclasta, nada de academicismo, nada de cores obedientes, traço rápido, um quase simplismo brincalhão, às vezes até puxado para a caricatura. Para Godofredo, Konstantin era um louco genial, um anarquista. Mas quanto o admirava ! O tempo passa e sempre Konstantin é um vencedor. Alguém mais do que um mestre. Uma assinatura sua é capaz de fazer uma folha de cartolina, uma tela vazia serem consideradas obras de arte. Um mágico fenomenal. Ontem e hoje bem aceito. Com exposições nas cidades maiores deste e de outros países, tornou-se um bem-visto pela imprensa especializada. Nosso orgulho!


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Por Wanderlino Arruda - 11/4/2007 10:28:43

MONTES CLAROS, CIDADE DA ARTE E DA CULTURA

Wanderlino Arruda
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Enquanto muitos cuidam do viver e outros cuidam do sonhar, Montes Claros cumpre, como vem cumprindo há muitos anos, a função de cidade da arte e da cultura, epíteto que Reginauro Silva criou lá pelos idos de 1978, quando escreveu - parece-me - a sua primeira peça de teatro. Isso mesmo: Montes Claros, Cidade da Arte e da Cultura, com todos os substantivos com iniciais maiúsculas, destaque mais do que merecido, principalmente agora que iniciamos as comemorações do sesquicentenário, exatamente cinqüenta anos depois do grito histórico de Hermes de Paula, quando tudo mudou para melhor em termos de reconhecimento e progresso. Terra de muito trabalho, de múltiplas iniciativas, marcada a cada dia pela independência e pela ousadia, Montes Claros é realmente uma cidade de vida e de sonhos, já com escola para a formação de professores em fins do Século XIX. Em 1926 teve em funcionamento a estação ferroviária e inaugurou, com toques internacionais, o terceiro Rotary Clube fundado no país. Pouco tempo depois, bancos particulares, Banco do Brasil, aeroporto, telefone, difusora de rádio, postes de luz elétrica, redes de água e de esgotos na parte de baixo e na parte de cima, ou melhor da Avenida Cel. Prates até o Roxo Verde, da Rua Dona Eva até a Rua Bocaiúva, onde ensaiava e tocava a Euterpe Montes-clarense. Daí para a criação do Clube Montes Claros, na Rua Doutor Veloso com a Presidente Vargas, foi um pulo. Progresso para fazer muita inveja! Insaciável no encontro do real e do fantástico, Montes Claros foi sempre fonte de trabalho e estúdio de criação artística, principalmente na poesia. Em qualquer encontro valia um discurso, escrito ou de improviso. Faceira, romântica, apaixonada, o suor do ganha-pão nunca foi menor que as serenatas, o aboio dos vaqueiros, o cantarolar de viajantes ou o sapatear do lundu. Ano após ano, muito de coroações nas igrejas, muito de catopês, muito de pastorinhas. Todas as cores que o folclore e a saudade marcam direto. Quem quiser saber mais, melhor perguntar ao meu amigo Nivaldo Maciel, que no alto dos seus oitenta e tantos, ainda canta e abóia como ninguém. Vale todo o progresso que chegou a partir de cinqüenta. Sudene, batalhões da Polícia e do Exército, Companhia Telefônica, escolas de francês e de inglês, associações e sindicatos, Corpo de Bombeiros, Lions, Elos Clube, Academia de Letras, Parque de Exposições, jornais diários, revistas quase mensais. De duas ruas calçadas em 1951, o prefeito Enéas Mineiro espalhou paralelepípedos do centro comercial até a Praça da Estação. Depois de 1955, com a vinda da Cemig, energia elétrica em tempo contínuo. Por esse mesmo tempo, Banco do Nordeste para ampliação de financiamentos, curso científico do Colégio São José para que rapazes e moças tivessem permanência com suas famílias, não precisando sair para estudar em outras cidades. A partir da década de sessenta, com a fundação do da Fafil, Fadir, Famed e Fadec e a criação do Conservatório de Artes Lorenzo Fernandez, do Automóvel Clube, nada mais segura Montes Claros, porque o desenvolvimento tem garantia, principalmente depois da Unimontes e mais seis conjuntos de escolas superiores, que hoje fazem da capital do Norte de Minas uma verdadeira cidade universitária. Que o Instituto Histórico e Geográfico - que acabamos de fundar - seja a fonte de todos os registros e a marca da evolução física e humana de tudo que deveria ter sido sonhado pelo bandeirante Antônio Gonçalves Figueira nos idos de 1707.


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Por Wanderlino Arruda - 18/1/2007 22:25:04

MONTE AZUL DE MARIA DA GLÓRIA

Wanderlino Arruda
arrud@wanderlino.com.br

Depois do amor e da fome, prevalecem nas boas cabeças e nos justos corações - mais do que tudo - a vontade estética e o interesse de ser imortal. É o ideal do artista, como pessoa e como construtor do mundo e das existências do mundo. Proust, o autor de “La recherche du temps perdu”, saudosista de costumes e pragmático em acontecências, ressaltou que não haverá - na arte ou em qualquer outro setor intelectual - realidade mais profunda que aquela onde personalidades procuram encontrar expressões e ações da vida. Nada mais exato, porque a função da arte é principalmente a de descobrir verdades e reconstituir valores da consciência coletiva. Assim, querida amiga, “Monte Azul, Retrato e Relatos do Tremedal”, seu primeiro livro sobre a cidade do seu amor, chega no tempo certo e rodeado de belezas nas lembranças e nas idéias, mesmo não contando com os modernos recursos da fotografia digital. É um encantador celeiro de informações sobre coisas, lugares e pessoas. Um maravilhoso conjunto de ilustrações de um compreensível carinho por tudo que a história de Monte Azul registra em tempo de antanho e em tempos modernos, muitos deles da minha geração, pois tendo chegado à sua região em 1945 - melhor dizendo a Mato Verde - assisti a todas as mudanças políticas, à inauguração da estrada de ferro, à consolidação dos hábitos de cultura, e principalmente ao incremento da leitura de livros pelos jovens. Lembro-me dos longos e bem feitos discursos do Cel. Levy, da valentia de Arabel, das campanhas políticas de Sinhô Teles, da elogiada elegância de Lamartine. Continua tudo muito vivo em minha memória. É importante também saber que entre Mato Verde e Monte Azul, dois meses depois das chuvas, estão os cenários mais bonitos do mundo, formados pelo contrastado colorido das serras azul-cinzas e das árvores e lavouras verde-vermelho-amarelas. Podem – sem qualquer dúvida – competir com montanhas e lagos próximos a San Francisco, Estados Unidos; gramados de Montreal, Canadá; e a relevos do Rio de Janeiro e planícies do Pantanal de Corumbá. Você, Maria da Glória, é uma pesquisadora com elevada capacidade de registrar fatos, levantar tendências e reconstruir caracteres, tudo muito importante para a valorização histórica das gentes e dos costumes. Sem desfalecimento, você abriu baús, leu alfarrábios, colecionou retratos, ouviu histórias e causos, trabalho de quem sabe de responsabilidades e de valores cívicos, únicos caminhos para construção da verdadeira cultura. Parabéns, querida aluna do curso de Letras da nossa montes-clarense FAFIL, tempo romântico do maior amor às artes, fruto do ouro de privilegiadas inteligências.


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Por Wanderlino Arruda - 29/12/2006 15:32:55

POR QUE SÃO TOMÉ?

Wanderlino Arruda
arrud@wanderlino.com.br

Se o assunto está espichando muito, a culpa pode ser debitada ao leitor. A culpa ou o mérito, porque o leitor, em primeira e última análise é quem determina o caminho que deve ser seguido pelo cronista. Quando escrevemos em jornal, nosso maior prêmio é a leitura imediata, a apreciação do conteúdo, os comentários que fazem amigos e adversários, conhecedores, doutores ou simplesmente curiosos. Não adianta escrever para não ser lido. Quem escreve para si mesmo não deve publicar o que produz e os escritos poderão continuar guardados, em gavetas ou dentro de folha de livros, embora esse ato possa prejudicar a um virtual leitor, muitas vezes necessitando de uma talvez preciosa informação. Mas qual é mesmo o assunto que eu estou espichando? Nomes de ruas, uai!... Esse manancial que Montes Claros oferece a mancheias, rico, quase folclórico, divertido, de certo modo até com características históricas, o que poderá ser útil, no futuro, a alguém que deseje inventariar ou associar fatos da vida da cidade. Combinei com Haroldo Lívio para ele escrever o que sabia, já que ele foi o puxador do samba, mas o meu caro amigo e colega, num terrível silêncio, bateu asas e voou para um congresso de oficiais de cartórios em plena realização na bela Fortaleza do Ceará. Pode ser que, de lá, o Haroldo mande pelo menos um postal para o Lazinho, dizendo não ter se esquecido dos tão saudosos Montes Claros dessa iniciante primavera. Minha história é ainda do bairro Todos os Santos, pedaço de terra que o Simeão Ribeiro Pires santificou desde o papel vegetal do projeto-piloto, quando ele tinha escritório ao lado do Colégio Imaculada, naquele velho prédio da fábrica de tecidos de sua família. Digo minha história, porque nesta eu tomei parte, parte ativa. Foi uma pacata sessão de nossa Câmara Municipal, com todos os senhores vereadores presentes, num dia em que alguém disse não poder o bairro Todos os Santos ter uma rua com o nome de Antônio Narciso, não sendo ele santo de papel passado, embora membro de uma tradicional e respeitável família, a mesma do colega Paulo Narciso, o homem da FM. Haveríamos, então, de achar um nome de santo, para a rua que hoje é chamada de São Tomé. A primeira sugestão de projeto partiu de Jonas Almeida, que propôs o nome de São Judas Tadeu. Neco Santamaría não gostou da idéia e protestou na hora: São Judas não podia ser, porque é nome de traidor, que tinha vendido o chefe para os judeus. Não sei se foi o Humberto Souto que tentou um conserto de situação, indicando o nome de São João Nepomuceno. Ainda aí, Neco não concordou, dizendo que esse nome também era suspeito, muito complicado. Explicado tudo muito bem explica, que S. Judas Tadeu era outro que não os Iscariotes, que São João Nepomuceno era até nome de cidade, tão bom que era, o Neco continuou irredutível. Além disso, havia muita rua com o nome de São João, inclusive no bairro. Que arranjássemos um outro. Foi nessa hora que me lembrei de um velho amigo que, antes da abertura da rua, já morava naquele local, atrás do campo do Cassimiro de Abreu. Era um servente de pedreiro muito bom, alegre, trabalhador, casado com uma senhora muito distinta, boa lavadeira, boa doceira, prestativa, D. Pedrelina. Nunca ninguém jamais havia ouvido falar mal dele, era bom companheiro e bom vizinho, e tinha um nome muito sugestivo, de santo muito conhecido: chamava-se Tomé. Tomé de que, não sei. Tomé nome de santo. Neco protestou, ainda, dizendo que esse santo não tinha fé, e precisou de colocar o dedo na ferida de Jesus Cristo para acreditar na verdade. Não teve jeito, a Câmara estava decidida. Convencemos o Neco, que esse São Tomé era muito bom, tinha até os méritos das ciências exatas, porque queria ver e tocar para crer. A decisão não demorou e foi unânime. Hoje a rua chama-se RUA SÃO TOMÉ, e tem moradores muito importantes...


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Por Wanderlino Arruda - 27/12/2006 10:50:48

RUA DOUTOR SANTOS

Wanderlino Arruda
arrud@wanderlino.com.br

Há cerca de dois anos, venho percorrendo, aos poucos, a rua Doutor Santos, a pedido do colega Elton Jackson e em obediência a um esquema tempo/espaço traçado desde a primeira crônica sobre o assunto. O meu objetivo é chegar à Rua Bocaiúva e, aí, em atendimento a um sonho de minha amiga Nailê, fiel cobradora de minhas lembranças de vizinho, falar de quando ela era criança, quase menina-moça, dos tempos de nascimento de João Wlader e de Danilo. Passo a passo, saí do Hotel São Luiz, de D. Nazareth Sobreira, e do Bar de Adail Sarmento, no início da rua, e, hoje, chego ao Hotel São José, de D. Laura e, depois, de D. Emília e do inesquecível Juca de Chichico e do eterno gerente Geraldo. São lembranças agradáveis, grandemente gratificantes de um jovem que alcançava a idade adulta, já hóspede em hotel, com uma individualidade e uma privacidade nunca antes imaginadas como morador de pensões. No Hotel São José, cuja placa dizia o maior e o melhor, ser hóspede já era um grande privilégio, marcava, quer queira quer não, um status de matar de inveja os estudantes de repúblicas, ou aqueles que viviam desprezados nas casas de parentes, muitos em barracões de fundo de quintal. Foi lá que tive, pela primeira vez, um quarto só meu, com pia e guarda-roupa, inicialmente, no térreo, do lado de dentro do pátio, na ala da praça Cel. Ribeiro, e, depois, no primeiro andar, quase de frente para os dois mais importantes endereços: os apartamentos de Ademar Leal Fagundes e do diretor do DNOCS, de quem não me lembro mais o nome. Foi uma melhoria de situação social que quase não tinha limites, quando comprei, duas calças de tropical, uma meia dúzia de camisas, novas meias e... realização de velho sonho, um rádio de segunda mão, rabo­quente, que tocava músicas e dava notícias todas as manhãs. O Hotel São José era um mundo à parte, bom, alegre, importante, chique, principalmente depois que "seu" Juca assumiu a direção e realizou uma grande reforma. A saudade marcada com a ausência de D. Laura foi compensada com a elegância de D. Emília e a descontraída presença dos filhos, principalmente de uma menina que era a mais bonita da rua Doutor Santos, a Mercesinha, já quase em início de namoro com o João Walter Godoy. Zé de Juca, Lauro, Bernadete, todos eram também bastante simpáticos com os hospedes. A hora do jantar era quase sempre uma festa, exigindo­se a melhor roupa de cada participante do banquete diário, uma etiqueta fiscalizada de perto pelos garçons, principalmente pelo Fernando, que, até hoje, nos setenta e cinco,trabalha na profissão. Poucos foram os estudantes que conseguiram a permanência no quadro de hóspedes. Um a um ia saindo, pedindo ou recebendo as contas, depois de uma brincadeira mais forte, ou do não respeito à posição da gente importante e seria como era o sisudo e culto fazendeiro Ademar Leal, o milionário Manoel Rocha, a mais graduada figura do Exército na região, o sargento Moura, o advogado José Carlos Antunes, que falava inglês corretamente, Lagoeiro, músico-chefe da Regional da Rádio Sociedade, o diretor do IBGE, e o próprio dono, seu Juca, o único montes-clarense, na época, a ter feito uma viagem internacional de muitos meses pela Terra Santa e pelo Mundo Antigo. Pode ser exagero de minha parte, mas, para nós, lá era o centro de Montes Claros e sua da cultura. Bons tempos aqueles, justamente quando iniciava atividades, já com os pés no chão, o nosso O JORNAL DE MONTES CLAROS, não sei bem certo, parece já com a direção do Oswaldo Antunes, pois o ano era o de 1955, quando recebi das mãos do Waldyr Senna a presidência do Diretório dos Estudantes e quando foi eleita a nossa rainha mais bonita de todos os tempos, nenhuma outra igualada em nobrezas nem antes nem depois: Cibele Veloso Milo!


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Por Wanderlino Arruda - 26/12/2006 12:01:22

RETRATO DE JESUS

Wanderlino Arruda
arrud@wanderlino.com.br

Dizem que foi, partindo de uma carta que o senador Publius Lentulus, pró-consul da Judéia, teria endereçado a Tibério César, em Roma, que os pintores do Renascimento se basearam para pintar o retrato de Jesus. Essa carta estaria, até hoje, arquivada em museu da cidade eterna, mas prova provada disso ninguém pôde fazer, o que é lamentável, pois seria um documento notável de descrição de traços pessoais e psicológicos feito por um homem inteligente e muito observador. Ao longo do tempo, apareceram várias versões desse escrito, sucintas, completas, mas todas bastante coerentes entre si, de modo a conservar a validade e uma possível origem verdadeira. O mais interessante texto veio inserido em velho livro da literatura portuguesa, em que o autor diz haver copiado da obra medieval, Vita Cristi, editado em língua arcaica, o que Ihe dá um sabor todo especial, curioso e riquíssimo em valores semânticos. "Existe atualmente na Judéía um homem de uma virtude singular, a quem chamam de Jesus Cristo; os bárbaros têm-no como profeta; os seus sectários o adoram como sendo descendido dos deuses imortais. Ele ressuscita os mortos e cura os doentes, com a palavra ou com o toque; é de estatura alta e bem proporcionada; tem semblante plácido e admirável; seus cabelos são de uma cor que quase se não pode definia caem-lhe em anéis até abaixo das orelhas e derramam-se-lhe pelos ombros, com muita graça, separados no alto da cabeça à maneira dos nazarenos." "Sua fronte é lisa e larga e suas faces são marcadas de admirável rubor. O nariz e a boca são formado com admirável simetria; a barba, densa e de uma cor que corresponde à dos cabelos, desce-lhe uma polegada abaixo do queixo e, dividindo-se pelo meio, forma mais ou menos a figura de um forcado". "Seus olhos são brilhantes, claros e serenos, e o que surpreende é que resplandecem no seu rosto como os raios do sol, porém ninguém pode olhar fixo o seu semblante, porque quando resplende, apavora e quando ameniza, chora, faz-se amar e é alegre com gravidade. Tem os braços e as mãos muito belos". "Ele censura com majestade, exorta com brandura; quer fale, quer chore, fá-lo com elegância e com gravidade. De letras, faz-se admirar de toda a cidade de Jerusalém; sabe todas as ciências e nunca estudou nada. Ele caminha descalço e sem coisa alguma na cabeça. Muitos se riem, vendo-o assim, porém em sua presença, falando com ele, tremem e maravilham. Nunca o viram rir têm-no, porém, visto chorar muitas vezes. É sóbrio, muito modesto e muito casto. Enfim, é um homem que, por sua beleza e perfeição, excede os outros filhos dos homens". No texto medieval, porém, há mais explicações, definindo cores e situações. Por exemplo: "os seus cabelos era de avelhaã madura e chegavã aas orelhas yguaes e chaãos e dally ao fundo quanto quer crispos e duros e cobria e avanavã sobre os ombros. A testa chãa e muy clara e a face sem enverrugadura nem magoa: a qual aformosentava a vermelhidon temperada". Pelos dados, não é difícil concluir que os desenhistas e pintores do final da Idade Média ou já do pleno Renascimento não tiveram muita dificuldade em traçar o que, em termos modernos, poderíamos chamar de o primeiro retrato falado da história de uma personalidade realmente universal. E eterna!


18097
Por Wanderlino Arruda - 2/11/2006 15:10:27

HERMES DE PAULA, DOUTOR HONORIS CAUSA

Wanderlino Arruda
arrud@wanderlino.com.br

Foi com morosidade que as quase trezentas vozes, que pareciam mais de mil, pausadamente, atenderam o pedido de silêncio do diretor José Nildo e Silva para o início dos trabalhos da segunda Sefam", o seminário dos professores e alunos da Faculdade de Medicina. Era uma quarta-feira, meio de semana, com suspensão de aulas para a maior avaliação até hoje feita pela nossa Faculdade, um cuidado necessário para enfrentar o presente de dificuldades e o futuro de incertezas. O diretor chama para dirigir os trabalhos, o patrono do D. A. e primeiro dirigente e organizador da es­cola, Mário Ribeiro. Caberá a ele, Mário, a formação da mesa, o anúncio maior da finalidade do encontro. Poucos nomes são declinados e, quando se levantam, caminham sob aplausos de alunos que sabem admirar seus professores. Apenas dois professores de fora são nomeados, fora da mesa, com permanência no auditório: o professor Álvaro de Azevedo Ávila, diretor da Fadir e representante da FUMN, e eu, representante da Fafil. Olho, ao lado, e vejo, triste uma grande omissão; Hermes de Paula fica esquecido, não é lembrado, muito embora o Cláudio Pereira, também ex-diretor, esteja mais atrás, também sem menção. Iniciados os trabalhos, com apresentações objetivas, curtas como devem ser, o diretor fala da Fundação da escola, de sua finalidade, anuncia uma palestra sobre a história de todas as lutas e sofrimentos nestes anos iniciais. Volta a palavra ao mestre Mário Ribeiro (nessa noite, de Cerimônias) e, este faz o anúncio maior: "No auditório está o idealizador da Faculdade de Medicina do Norte de Minas, o homem que tomou os primeiros passos para a sua criação, o homem que me convidou para primeiro diretor. Convido-o para tomar o lugar que lhe compete, que é seu por direito; que é seu pelo desejo maior de todos nós. Recebamos Hermes de Paula, o nosso maior nome nesta Escola. A sua cadeira o espera, Hermes. Venha nos dar a honra". E com dificuldade que o doutor Hermes de Paula se levanta e encaminha-se para o estrado da mesa diretora. Para subir, é necessário o amparo de uma mão amiga. Nunca se presenciou tantos e tão demorados aplausos. A turma, de pé, bateu palmas como se estivesse batendo pela última vez, numa gratidão que só se tributa a um grande herói, herói e amigo. É nessa hora que vem a verdadeira declaração do primeiro dia de trabalho da Sefam. O diretor José Nildo lê a resolução; Hermes de Paula é declarado o primeiro Doutor Honoris Causa da Faculdade de Medicina, uma honra que lhe é deferida pela capacidade e por um milhão de méritos como o maior de todos os montes-clarenses. Nova ovação. Alegria e sentimentalismo. Existe algo no ar que ninguém sabe o que é. Aquele não é o momento qualquer nas estórias da vida. Existem minutos que valem por um século. Ou mais... Hermes de Paula toma a palavra. Não vai falar muito, que não é de discursos. "Senhores, formei-me em Medicina em 1937, em Niterói. Vital Brasil, um dos homens mais famosos na Medicina brasileira, convidou-me para trabalhar com ele, no seu Instituto ganhando um dos melhores salários que um profissional poderia desejar ou sonhar, Cr$ 1.800. Além de ganhar tanto dinheiro, muito para a época, eu teria a oportunidade de ser também muito famoso. Mas, a saudade de Montes Claros, a lembrança dos meus amigos, não deixaram que eu ficasse lá. vim para cá. Em todos estes anos, questionei-me se eu não havia cometido um grande erro, escolhendo a minha terra, numa vida humilde e trabalhosa. Às vezes, eu achava que tinha feito o certo.. Hoje, porém, sei que não poderia ter tomado uma resolução melhor. Eu fiz bem em vir para Montes Claros. Senhores, muita coisa me tem acontecido, todas gratas e muito tenho agradecido a Deus, por elas. Mas, se nada tivesse ocorrido, só esta noite, só esta cerimônia, só fato de estar recebendo este diploma das mãos e dos corações de vocês, eu posso dizer com toda a minha convicção: valeu a pena. Valeu. Muito obrigado a todos". Dois dias depois, Hermes de Paula se despediu de Montes Claros, para a viagem eterna. Para nos também, valeu a pena a vinda dele. Valeu!


18016
Por Wanderlino Arruda - 30/10/2006 10:41:21

A DEVOÇÃO DO POVÃO

Wanderlino Arruda
arrud@wanderlino.com.br

Na cidade muito. Na roça, ainda mais. Em todas as partes, no sertão ou na beira do mar, na planície ou no alto das serras, o povo, o povão sempre buscou o amparo amigo dos santos. A devoção simples, mística, ingenuamente bem intencionada, foi sempre dirigida na busca de uma ajudazinha nas horas de aperto, porque ninguém é de ferro! Afinal, o próprio folclore, com sua repetição de boca-em-boca, o doce mistério das coisas de origem obscura, o maravilhoso tempero com gosto de sagrado, tudo leva a alma e o desejo do simples a uma situação de busca e sofreguidão. É a ordem natural das coisas, principalmente para os que aprendem, de ouvido, a sabedoria popular. E quem não tem, neste nosso mundo de alma portuguesa, pelo menos resquícios de misticismo? Pelo sim, pelo não... São José é patrono do lar, da família e dos carpinteiros. Quem crê em São José têm o trabalho garantido e nunca lhe faltará o pão. Quem crê em São José pode pressentir o dia da morte e tem o poder de livrar-nos da dor de dente.Santo Onofre é guardião da despensa, guarda-comida, onde que haja mantimentos. É padroeiro da fartura. São Lázaro é afastador de feridas bravas, doenças da pele, protege quem trata de cachorros abandonados, sem dono. "São Bento, água benta, / Jesus Cristo no altar. / Bicho bravo, baixe a cabeça, / deixe um filho de Deus passar". Santa Bárbara e São Jerônimo são protetores contra raios, coriscos e chuvas forte. Quando acontece uma tempestade, reza a gente boa e simples: "São Jerônimo, Santa Bárbara, levem essas trovoadas, que sobre nós estão armadas, para bem longe, onde não existem eira nem beira nem pau de figueira, nem galo de cantá!". "Santa Bárbara bendita, / no céu está escrito: / Com papel e água benta, / aplacai esta tormenta". Santa Luzia é protetora da vista. Quando a gente quer tirar um cisco do olho, a gente pede: "Corre, corre, cavaleiro, / vai à porta de São Pedro / dizer a Santa Luzia / que me dê uma pontinha de lenço / para tirar este argueiro". São Longuinho está incumbido de encontrar objetos perdidos. Quando a gente perde um objeto, a gente dá um nó cego num pedaço de palha e o coloca debaixo de uma pedra: "São Longuinho, você vai ficar por aqui e só vai ser solto, quando eu encontrar um canivete que perdi". São Gonçalo do Amarante é o padroeiro das meninas que querem casar. As mocinhas devem suplicar assim: "São Gonçalo do Amarante, / casamenteiro das moças, / casai-me a mim primeiro, / São Gonçalo do Amarante, / feito de pau de alfavaca, / que não tem rede e nem cama, / dorme em couro de vaca". Santa Clara é dissipadora de nevoeiro. São Lucas é o padroeiro dos médicos. Santa Cecília é a padroeira dos músicos. São Cosme e São Damião simbolizam a amizade. São Raimundo Nonato é o amigo das parturientes. Santa Helena responde pelo sono perguntas ao futuro. São Marcos protege o gado e amansa o mau gênio de crianças rebeldes. São Miguel é o guerreiro de Deus. São Pedro é santo chaveiro, protetor dos pescadores e dos marinheiros. É o porteiro do céu. Quando ele está arrumando e lavando a casa, lá em cima, ocorrem os trovões e as chuvas. Santa Rita de Cássia resolve as causas impossíveis. A pessoa que consegue dela uma graça, publica num jornal a sua oração: "Santa Rita dos impossíveis, / de Jesus sempre estimada, / sede minha protetora. / Rita, minha advogada / valei-me pelas coroas / a primeira de solteira, / com que fostes coroada. / A segunda de casada. / A terceira de freira, / tocada de divindade". E o que faz Santo Antônio? "Aplaca a fúria do mar, / tira os presos da prisão, / o doente torna são, / o perdido faz achar". Ou então, pedido de moça casadoira: "Meu Santo Antônio querido, / eu vos peço por quem sois. / Dai-me o primeiro marido, / que o outro arranjo depois". Ou "Meu Santo Antônio querido, / meu santo de carne e osso, / se você não me der um marido, / não tiro você do poço". São Cristóvão é o andarilho pelas estradas, protetor dos motoristas e dos caminhoneiros. São Judas... Tadeu é advogado das causas desesperadas e dos supremos momentos de angústia...
Cidade: M. Claros


17982
Por Wanderlino Arruda - 27/10/2006 18:56:44

A VOZ DO ESTUDANTE

Wanderlino Arruda
arrud@wanderlino.com.br

Sob a orientação do nosso saudoso Monsenhor Osmar de Novais Lima, órgão do Grêmio Lítero - Esportivo "D. João Antônio Pimenta", circulava em agosto de 42 no antigo Ginásio Municipal de M. Claros, direção de Antônio Augusto Athayde, redação de Luiz G. Prates, o jornal A VOZ DO ESTUDANTE, número 17 ano III, nova fase. Seis alentadas páginas, bem impressas, feitas pelas Oficinas Gráficas Simões, constituem, hoje, uma gostosura de passado histórico, interessante registro de uma época de patriótico respeito por instituições e costumes, uma como que quase revelação de pureza d`álma de jovens estudantes, ciosos e compenetrados na luta por um futuro melhor. A colaboração farta contava também com o professor Alfredo Coutinho e, segundo me parece, com alguma cousa do dr. João Antônio Pimenta, tal a seriedade de conceitos, que só o velho mestre sabia imprimir. Outros nomes, alguns ainda bem lembrados, outros esquecidos, representam, hoje, curiosidade: Barulas Alves Reis, Vivaldo Macedo, Ione Feitosa, Eunice Fialho, Zilca Miranda, Adelaide Barbosa, Manoel J. G. Calaça, Antônio Franco Henriques, Célia A. Neto, além de Geraldo G. Prates e de um misterioso A., tudo indica ser o mesmo Antônio Augusto Athayde, autor de outro artigo vazado em idêntico estilo e entusiasmo. Interessante é a coluna de aniversários. Vejam os nomes de quem naquela época já andava freqüentando ginásio: Aristides B. Braga, 1ª série; Péricles A. Andrade, José A. Guimarães, José Braga, 2ª série; os terceiranistas eram Rosália Pinto, José Romualdo Torres, Carlúcio Athayde; ainda do segundo ano, Élton Rocha e Artur Fagundes Oliveira. "A todos, principalmente ao Padre Gustavo F. de Souza, os votos de felicidades de "A VOZ DO ESTUDANTE" - dizia a nota. A colaboração principal parece que era mesmo a do diretor Antônio Augusto Athayde, que ainda escrevia o sobrenome sem o "h" e o "y", como o fazia também o Carlúcio, seu parente. Coisas de garotos... Antônio Augusto tinha boa redação e muita riqueza de adjetivos e verbos no gerúndio. Os períodos eram longos, cheios de subordinação, bem temperados à moda de Rui Barbosa, Castro Alves e Padre Antônio Vieira. Seria influência de muitas leituras? Por exemplo: "Em nossa memória tenra ainda, períodos como os que agora atravessamos ficarão gravados para jamais esquecermos dos tempos bons de nossa florida adolescência - tempos que não voltam mais..." Outro trecho: "Enquanto do alto dos céus, os raios fulgentes do sol sertanejo banham os vastos pátios do Ginásio..." etc. Tempo bom, tempo ótimo, coisa linda de tempo, Antônio Augusto! Nada mais coerente que a voz da juventude - espontânea, pura, colorida, limpa de coração... É pena que a realidade da vida nos tire tanta poesia e beleza. É pena que a crueza do dia-a-dia nos tire tanto da jovialidade dos primeiros anos de vida... Mas, afinal, é bom ter motivo de saudades...


11351
Por Wanderlino Arruda - 4/3/2006 11:48:07

Wanderlino Arruda

Deus te salve, Montes Claros,
Deus te ajude
no progresso,
no crescimento,
na poesia,
na seresta,
na alegria da hospitalidade,
que é a tua maior virtude.
És humana,
tens beleza,
sabes amar,
sabes sofrer, sabes esperar
por um futuro melhor.
Querida, admirada
e nunca esquecida,
és um lugar que marca saudade
no mais duro coração.
A tua luz, Montes Claros,
é vigor e é ternura,
como terno é o entardecer.
Na verdade, Montes Claros,
na verdade,
tu não és apenas uma cidade,
és uma declaração de amor!


38930
Por Wanderlino Arruda -
PAI NOSSO

Wanderlino Arruda

A ti, Senhor, que és
pleno de luz e de amor,
e estás nos céus e em toda parte,
seja teu nome sempre bendito e santificado,
em constante e eterna bondade.

A ti, Senhor, apresentamos nosso pedido:
dá-nos o teu reino
de alegria, de compreensão;
a tua vontade e não a nossa seja feita,
aqui, onde estamos, aí onde estás e estaremos um dia.

O pão da saúde, da disposição ao trabalho,
do entender e ser entendido,
do amar e ser amado,
dá-nos hoje, dá-nos sempre, Senhor.

Ainda caminhantes no erro,
dá-nos o teu perdão e o ensinamento
de como devemos perdoar.
À criança que existe ainda em cada um
dá, Senhor, a tua proteção.

Liberta-nos do mal,
ampara-nos no caminho do bem,
pois teu, Senhor, somente teu,
é o poder, o reino e a glória
para sempre,para todo o sempre!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros




Selecione o Cronista abaixo:
Luiz de Paula
Alberto Sena
Augusto Vieira
Carmen Netto
Dário Cotrim
Enoque Alves
Flavio Pinto
Genival Tourinho
Haroldo Lívio
Haroldo Tourinho Filho
Iara Tribuzzi
Isaias Caldeira
Jorge Silveira
José Prates
Luiz de Paula
Manoel Hygino
Marden Carvalho
Oswaldo Antunes
Paulo Braga
Paulo Narciso
Petronio Braz
Raphael Reys
Raquel Chaves
Ruth Tupinambá
Saulo
Ucho Ribeiro
Waldyr Senna
Wanderlino Arruda
Web - Chorografia
Web Outros
Yvonne Silveira
 



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02/09/10 - 17h
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02/09/10 - 16h
Segundo tipo do vírus da Aids é detectado em 15 pessoas no Brasil; origem é o Senegal

02/09/10 - 15h
Brasil mantém o maior juro real do mundo, à frente da África do Sul, Rússia e China

02/09/10 - 14h
“Advogado mineiro é primeiro mensaleiro condenado à prisão“ - “Importação do país cresce mais que a da China” - “Sigilo fiscal da filha de Serra foi violado com procuração falsa”

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02/09/10 - 13h
Taxista é atraído por 6 ladrões ao bairro Ibituruna, uma semana depois da morte de outro, durante assalto

02/09/10 - 12h
Previsão é de temperatura de 29 graus e ventos de 11 km, hoje, em M. Claros

02/09/10 - 11h
Liberada no Brasil a cirurgia de mudança de sexo para mulheres transexuais

02/09/10 - 10h38
"Revolucionou minha vida e espero e desejo que faça isto com as de milhares de brasileiros, especialmente os de menor poder aquisitivo, porque internet, diferentemente do que eu imaginava, é também cultura"

02/09/10 - 10h25
"Na prática, um estorvo, pois refletirá negativamente no dia a dia das pessoas. Vejamos:"

02/09/10 - 10h06
"...a transgressão deste compromisso implicará na suspensão do alvará municipal de funcionamento, apesar do licenciamento concedido pelo Conselho de Política Ambiental do Norte de Minas"

02/09/10 - 10h
Vitória sobre o Goiás foi a primeira do Atlético fora de casa neste Brasileirão



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