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Ucho Ribeiro
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Ucho Ribeiro
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20/8/2010 16:10:13
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Meninos e meninas,
Agosto me traz a lembrança redemoinhos empoeirados, que bailavam pela cidade. Densas cirandas de ventos que eu pulava dentro, de um pé só, ressabiado, a procura do Saci Pererê e de suas estripulias. Era o mês dos ventos soprantes de araras, papagaios e pipas. Alísios que alçavam minha sureca (arara sem rabiola), vermelhamarela, losangular, saliente e atrevida. Raia que coroava o azul morno dos céus.
Os ventos chegavam sorrateiros, sem avisar, soprando devagarzinho, brisazinhas. Com o decorrer dos dias, iam engrossando, tomando corpo, e brotavam os redemoinhos. A meninada não tinha consciência cronológica dos ritos da natureza, agia instintivamente. Ventou, então estava na hora de soltar pipa.
Assim, a primeira semana de agosto era gasta no gosto de manufaturar araras e manivelas, de providenciar, no escondido, o pó de vidro e a cola de madeira para o cerol. De arranjar as taliscas de bambu no Pequi de Joani e descolar uns trocados para comprar os papéis de seda coloridos e os carretéis de linha 40 na lojinha do Seu Tamiro, na Travessa Cônego Marcos.
A chegada dos ventos levava a criançada para os finais das ruas, para os mangueiros, onde não havia postes de luz, nem os inimigos fios, ladrões dos artefatos de alegria. Ventanias que embicavam pelas ruas soprando catopés e embaralhando suas fitas de cores vivas. Poeira e brancura. Puras.
Nós, meninos, só queríamos olhar para os céus e ver nossas araras nas maiores alturas, sublimes, como um gavião reinante à caça de uma presa. Ficávamos de butuca a procura de outra pipa, içada por meninos de outros bairros. Os territórios e domínios da garotada eram demarcados pelos limites das ruas, mas o céu não era de ninguém. Lá em cima, no campo de batalha, valia tudo. Então, se víssemos uma arara empinada o desafio era certo e a conquista era resgatá-la com classe. A manha era dar fortes toques na linha, fazendo a pipa mergulhar lateralmente, em velocidade, até alcançar e laçar em 360º a outra linha descuidada. Fisgada, enlaçada, com ligeireza recolhíamos a presa na manivela e ficávamos no aguardo do envergonhado dono a procura da sua arara derrotada. O orgulho espirrava de satisfação. Aqui pra nós, pretéritos tantos anos, confesso: perdi a maioria das batalhas. Eu gostava mesmo era de “Cabaspará’, que meus primos de Belo Horizonte chamavam de ”Pentes Altas.”
Passados os ventos de agosto, a poeira, os catopês, os amarelos e roxos dos ipês, setembro surgia mais quente e trazia chuvas esporádicas. O pó sumia, a terra dura amolecia, os riscos das fincas e as bilóias apareciam. A meninada descalça, sem nem bem saber, esquecia as pipas, e furava o chão macio com o dedão. Estava na hora de desentocar as bolinhas de gude.
Dum dia para outro, não havia uma esquina que não tinha um bolo de meninos no “Gute please, todos”. Era assim mesmo, com essa mistura de inglês e português, que iniciava a partida de bolinha. Daí, um o garoto dizia: “bololô na minha, não dou nada e quero tudo”. Nada mais ditatorial. Quem gritasse primeiro esta frase, além de não poder ser alvejado, mesmo “estando no jeito”, tinha direito a todas regalias, mandingas e favorecimentos, tais como: mão quieta, mãos nos peitos, rondas... Cada um tinha sua bolinha sorteira (da sorte), o bolofofo (bolinha grande da cor de café com leite), a esfera minúscula e as “olho de gato” de matar de inveja.
E quem não brincou de “Guerau”, que traduzido ao Far West de outrora queria dizer “Get yours hands up”.
Bem, meninos e meninas de antigamente, deu saudade, né? Então, mate-a!
Neste sábado, dia 21/08, às 20 horas, no Skema Kent, estaremos reunidos para relembrar a nossa infância, quando “Éramos Felizes e Sabíamos”.
Apareça lá, e vamos reviver nossa Montes Claros Criança!
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Ucho Ribeiro
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1/7/2010 14:52:46
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MENINICES
Sentados na cozinha da nossa casa, Marcinha e eu, garotos, ouvíamos embevecidos a prosa do tempo do onça de nossa avó Eny com a antiga cozinheira Joana. Recordavam conhecidos, distantes a muito: comadres, sinhás, agregados... Joana coava um cafezinho e vigiava os biscoitos no forno. Vovó, aposentada a pouco do Dnocs, balançava a perna, pitava e soltava a fumaça em rodopios. Volta e meia entrelaçava os dedos e rodava os polegares em círculo. Para frente e para trás. Pressa? Nenhuma. A conversa ia maneira, parecia uma pescaria. Silêncio, silêncio, até que uma fisgava na memória um relembramento: “Ih, e Sá Joaquina? Passava roupa que era uma beleza. Tudo engomadinho, limpinho, alvim, alvim... Ouvi falar que uma neta dela, uma dos olhos gateados, amigou com um policial e mudou lá pros lados do batalhão. Mas num tá gostando não, dizem que o homem bate nela.” Papo vai, papo vem, volta e meia pintava um pedinte para receber sua concha de feijão, que meus pais costumavam doar aos necessitados. Na cozinha, ficava um saco de mantimento, no seco e verde, que era distribuído no decorrer dos dias, ordeiramente, sem atropelos. Quando acabava, Benjamin, um empregado amigo, repunha um novo saco ao pé da porta. Os mendicantes chegavam a nossa casa, que não tinha os altos muros de hoje, entravam pela garagem, punham a cara na porta da cozinha, davam um “bôoa”, estendiam seu embornal, ganhavam uma porção de feijão, deixavam um “Deus lhes abençoe” e iam embora providos. Uns, mais íntimos da cozinheira, eram adulados com café, pão e até prato de comida. Retribuíam o donativo com as novas da cidade, o disse-me-disse, um fuxico: “O menino de Leonel Beirão brigou lá nos Morrinhos, teve facada e tudo mais”. Conversa vai, conversa vem, de súbito, surgiu um tipo horrendo, sujo, esfarrapado. A feiúra e o rompante foram tais que nos deram um grande susto. A pequena Marcinha, assombrada, abriu a boca. Num átimo, eu disparei: “tira a máscara, homem, tira a máscara, que ela pára de chorar”. Foi uma gargalhada só. Passado o susto, os risos, as desculpas e a falta de graça, logo que o feioso foi embora, vovó Eny consolou minha mancada contando uma outra de sua filha Maria Jacy, minha mãe, quando menina. Relembrou que outrora os viajantes a cavalo pousavam nas fazendas de conhecidos que ficavam nas ermas travessias. Normalmente, um cavalariano vinha na frente, avisando que fulano ou fulana com mais sicrano e beltrano iriam chegar ao final da tarde e solicitava pouso. O aviso evitava que o proprietário fosse pego desprevenido, dava tempo para lustrar a casa, esticar as roupas de cama, preparar uma comidinha e providenciar água quente para o banho tcheco. Ou melhor, tcheco, tcheco. Pois bem, Vovó avisada da vinda da Sinhá Tiana, deixou escapulir, na frente da filha Jacy, a seguinte observação: “Oh, gente, a comadre Sebastiana é tão boa, tão prendada, mas dá pena a feiúra dela.” Cici, pois, pequetita, ouviu aquilo e ficou esperando a chegada do estrupício. Lá pelas tantas, já entardecendo, foram para porta da fazenda aguardar o cortejo. Chegaram, desapearam. A menina Cici observava tudo, tanta gente nova, o cumprimenteiro geral, e não tirava os olhos da Sinhá Tiana, até que destramelou: “Uê, mãe, a comadre é feia, mas não é tão hor-ro-ro-sa assim como a senhora falô!”
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Ucho Ribeiro
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26/6/2010 20:14:46
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Cansado, fugi hoje pela zona rural para tomar umas e saborear um franguinho, se possível, com abóbora e quiabo. Nem tão distante da cidade, encontrei um boteco com as portas viradas para o nascente, ventilado, debaixo de um frondoso pau-d`óleo. O céu estava azul junho, os cavalos amarrados ao redor e o povo curtindo o solzinho fresco. Entrei, cumprimentei apoucado uns e outros, pedi uma cerveja, encomendei o frango, avisei a falta de pressa e sentei numa mesa de madeira, ao canto. No princípio, fiquei assuntando a pouca conversa que girava sobre temas locais. Na parede do fundo, a copa era transmitida pela TV. O som baixinho. Depois de ter tomado umas duas, desinibi, enturmei e caí aos poucos numa prosa amistosa e descompromissada com os moradores. Lá pelas tantas do segundo tempo, um deles me argüiu: “Oh, moço, esta Coréia e Uruguai são times de São Paulo ou do Rio de Janeiro?”. Senti até alma que estava no lugar certo.
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Ucho Ribeiro
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12/6/2010 09:21:06
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MONTES CLAROS LHE DEVIA PAIXÃO.
Ray Colares, que o consagrado Helio Oiticica vaticinou, na década de 70, ser “o grande jovem gênio brasileiro”, ressentia profundamente não ser reconhecido pelos montesclarenses. Lembro-me, no Rio de Janeiro, Baixo Gávea, Ray inconsolável, em pranto, lamentoso por seus conterrâneos não o conhecerem e nem valorizarem seu trabalho. Entre um chopp e uma lamúria, sofejava: “E mês que vem eu vou de trem pra Montes Claros...”. Para logo em seguida, retrucar: “Não tenho nada com isso nem vem falar. Eu não consigo entender sua lógica..”. “Cara, eu não entendo a lógica deles! Querem que eu seja artista e careta? Não dá! O Hélio é que dizia: Seja marginal, seja herói... Bicho, eles acham que eu aspiro é o abismo?” Já com um chopp na mesa, levantava, pedia alto ao garçom outro e mais um uísque. Ao sentar, com os olhos brilhando, jurava que ainda iria pintar o teto de sua imaginável Igreja de Nossa Senhora de Montes Claros, onde dançaria fitado com os catopés e marujos. Pensativo, silenciava por um tempo e questionava: “Será que os riscos dos meus ônibus, dos meus quadros, são inspirados nas fitas dos catopês?” Nisso batucava na mesa o som dos tambores e dava um sorriso de criança. Felicíssimo Colares. Ciclotímico, alternava momentos de depressão e excitação. Cantava “Amo Te Muito” para nossa Moczinha e em auto-reverse se dirigia aos desconhecíveis comensais das mesas ao lado, lamentando que ele não era querido em na sua cidade. “Lá, gente, imagine, eu só sou marginal, não sou artista”. Daí, num susto, abria o JB na mesa do bar e repudiava os elogios do jornal às suas exposições nas galerias Paulo Klabin e Sarramenha no Shopping da Gávea. “Olha, Ucho, o Morais - referindo-se ao crítico Frederico Morais - ao invés de se conter em comentar apenas meus trabalhos, está dizendo que a minha vida é trágica. TRÁGICA? Trágica é a fome! Trágico é operário cair de andaime! Trágico é office boy morrer eletrocutado em trilho de metrô! Minha vida não é trágica porra nenhuma!. Eu não entendo a lógica deles! Ray só queria ser amado, ser reconhecido. Era puro amor... não correspondido. Pois bem, passados 24 anos do encantamento de Ray, enfim Montes Claros, tutorada por Viviane, Feli, Caíco, Fabiola e Andréa, resgatará a dívida de reconhecimento com o homem e o artista Colares. Cem criativos montesclarenses foram convidados e se dispuseram a prestar um tributo ao nosso gênio das artes. Receberam um guarda-chuva, como um substrato, para interferirem artisticamente em homenagem a Ray Colares e sua obra. Os trabalhos de alta qualidade, estão divertidíssimos, bonitos de se ver numa exposição que acontecerá do dia 14 a 20 de junho, no Montes Claros Shopping Center. É bom lembrar que a mostra tem caráter filantrópico. Portanto, nesta segunda feira, dia 14, Ray receberá a maior demonstração de amor da sua cidade Montes Claros. Ele, agora, com certeza, estará encantado e em paz. RAYMUNDO ETERNAMENTE FELICÍSSIMO COLARES.
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Ucho Ribeiro
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24/5/2010 17:10:21
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Existe uma pequena fábula conhecida e transmitida pelos apaixonados por cachorros, que é sobre a fidelidade do cão de Mozart. É a seguinte: Wolfgang Amadeus Mozart, o grande compositor, nasceu em 1756, em Salzburgo, na Áustria. Foi compositor do século XVIII e considerado um dos maiores músicos do mundo. Foi em Paris que suas primeiras obras publicadas apareceram, quando Wolfgang tinha apenas sete anos. Mozart foi reconhecido por reinados de toda Europa. Entretanto, nunca soube lidar com dinheiro. A exploração de sua bondade e genialidade musical logo surgiu por parte de grandes oportunistas. Com poucos anos de casado, começou a ver sua vida desabar. A mulher abandonou-o. A mãe, que adorava, adoeceu gravemente. Mozart, sem dinheiro, vendia composições em troca de remédios para sua genitora, que morreu após alguns meses. Abatido e desesperançoso, Mozart caiu enfermo. O seu fiel cachorro, o único amigo, foi quem ficou ao seu lado até o dia do seu falecimento, em 5 de Dezembro de 1791. Mozart foi enterrado numa vala comum, em Viena. Sua mulher, Constanze Weber, que residia em Paris, ao saber da morte de Mozart, voltou a Viena a fim de visitar o túmulo do marido. Ao chegar, entrou em desespero ao saber que Mozart havia sido enterrado como indigente, sem que lhe dessem nem uma placa com seu nome como lápide. Era dezembro, em pleno inverno europeu, fazia frio e chovia em Viena. Constanze resolveu vasculhar o cemitério à procura de alguma pista que pudesse dizer onde Mozart fora enterrado. Procurando entre os túmulos, viu um pequeno corpo, congelado pelo frio, em cima da terra batida. Chegando perto reconheceu o fiel cachorro de Mozart. Hoje, quem visitar Viena, verá um grande mausoléu, onde está o corpo de Mozart e de seu cachorro. Foi por causa do amor desse animal de estimação que Mozart pode ser achado e removido da vala comum onde fora enterrado. Ele permaneceu com seu dono até depois do final. Morreu junto ao tumulo de seu dono porque, sem ele, não poderia mais viver.
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Ucho Ribeiro
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20/8/2009 17:08:05
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SER CATOPÊ
Ucho Ribeiro
Desde muito as cores das fitas e os sons das caixas dos Catopês me entorpecem. Quando criança, ao final da aula do Grupo D. João Pimenta, segui atordoado aquele tum-trum-tum estonteante, ouvindo encantado o espocar dos foguetes e o bem-vindo sininho da antiga Igreja do Rosário. Fiquei ali horas, boquiaberto, me deliciando com o enlevo dos movimentos e das saudações ao São Benedito. Estava em transe com tanta glória e encanto quando fui puxado pelas orelhas e esculhambado pelo meu sumiço. Vexado por ter causado preocupações aos mais velhos - e com receio de uma sova - careci de coragem para inquirir o que era aquilo tão alegre e tão comovente. Cresci desejando pular para dentro daquela roda, daquele cordão de contentamento, mas as voltas da vida me afastaram para longe. Do distante só restou saudade dos matizes vivos das fitas arco-íricas e o pesar de não ter-me misturado em meia-luas com os Catopês. Ao voltar à terra, a carranquice e o cotidiano sintonizaram-me às coisas menos importantes. O rito do dia a dia baixou a chama do menino, censurou seu fascínio e desejo catopêico. Vivi durante muito tempo um torpor para as coisas intangíveis, uma impassibilidade às ocorrências habituais, na busca peregrina do amplo acontecimento e da grande mudança. Entretanto, os trancos e arrancos da vida, aos solavancos, me ensinaram que o ritmo tem que ser outro. O segredo está na simplicidade. Temos que perceber que tudo é um milagre e nosso maior poder é a capacidade de sempre agradecer a Deus. É a gratidão. Resolvi, então, afrouxar. Frouxar a vida, as rédeas, os quereres e as rigidezes. Deixar estar. Procurar a humildade, que é a fé na sua expressão mais sublime. Este desaperto do espírito somado aos incitamentos do Paulo Narciso, de Raquel e do meu padrinho Paulo Estevão, foram terminantes para tornar-me um Catopê. Paulo levou-me até Mestre João Faria, e o seu filho, o veterano PA, abençoou minha calorice. Raquel cuidou das minhas alegorias, emoldurando afetuosamente meu cocar com lantejoulas, miçangas e plumas de pavão. Na quarta-feira a noite, estava pronto para altear o mastro de Nossa Senhora do Rosário e misturar o tum-tum-tum do meu coração com o tum-trum-tum das caixas, surdos, tamborins e pandeiros dos Catopês. A emoção transbordava por todo lado, por todos os poros, e mais ainda porque Tavinho, meu filho, sairia também no terno. Iria viver o que não pude viver na minha infância. Ao chegar, Rubim e eu ouvimos o meu Mestre João Faria dizer: “Oh, os meninos, a alma precisa de festa.” E retrupicar : “Onde tem alegria não tem pecado”. Aquelas palavras bateram forte e de forma sagrada. Naquele momento decidi exercitar-me na fé e na alegria. Catopecizar na fé. Lembrar que a fé é o poder mágico. Isto não é uma coisa fácil, exatamente porque é muito simples. Procurei, então, esvaziar-me, deixar espaço para ela entrar. A alegria viria junto. Como veio. Ali, mais uma vez, aprendi que jamais devemos subestimar a simplicidade. Chegou a hora. Concentramo-nos em uma rua quieta e escura. Os Catopês, para mim anônimos e desconhecidos, fizeram uma fogueira para afinar seus instrumentos de batuque. Aproximaram os tamborins e as caixas de folia junto do fogo para esticar o couro e apurar o som. Eu a tudo observava, sem entender bem o sentido das coisas. Receava também não dar conta de acompanhar o ritmo. Virgínia, filha do historiador Hermes de Paula, dissera-me que acreditava que a palavra “Catopê” era um vocábulo africano que significava batuque e eu, pobre de mim, jamais soubera batucar. Partimos. Os dançantes me receberam como um deles e riram do meu desajeito. Ensinaram-me a batida de um toque lento e dois rapidinhos. Tum-trum-tum. Percebi que, além da fé, o riso é a única coisa que levam realmente a sério. Creio que é por isso que eles falam “brincar o Catopê”. Frouxei-me ao ver Tavo ao meu lado, saltitando e batendo seu pandeirinho. A respiração ficou ofegante. Os olhos marearam. A face deixou escapar um sorriso longo e verdadeiro – como todos os sorrisos deveriam ser. Daí em diante, relaxei de vez, mergulhei inteiro nas festas, a gosto, passei a quinta e sexta-feiras; o sábado e o domingo em desatino, em desvario. Voltei à minha menina Montes Claros, senti sua poeira e o seu calor, sua alegria. Experimentei o frescor da noite e o luar. Percebi, a cada passo, o lusco-fusco das luzes entrelaçar nas minhas fitas coloridas; senti o cheiro de manga rosa e do pequi. Ouvi os gritos alegres das crianças; o silêncio quieto das missas de Padre Quirino; vi em passeata as castas beatas irmãs imaculadas; o murmurejar dos mantras das novenas e dos terços. Relembrei o medo dos pecados e as pernas nas soltas camisolas das meretrizes da Rua de Baixo, prostitutas miúdas expulsas de casa pelo descuido no amor. Vesti-me dos redemoinhos poeirentos e voei alto em cor com as pipas e papagaios nos ventos do meio do ano. Senti o gosto dos infinitos biscoitos de Fininha, dos cocos e dos melados dos quebra-queixos de Mazaropi, dos tintos pirulitos em cone enfiados simetricamente na tábua pendurada ao pescoço de Pacífica. Ouvi em oração a sublime lamúria “Dê uma esmola a pobre cega que não pode caminhar...” Dilui-me em gostosos delírios. Andei fitado, colorido, em rodopios pelas antigas ruas de Montes Claros, ao lado da alegria de Leonel e sua boneca; da singeleza e inocência de Tuia e seu bico alvo; dos faniquitos de Requebra que Eu Te Dou Um Doce; da obsessão de João Doido com “Terezinha é minha”; da solidão do nômade Galinheiro e sua enorme tralha em mudança; da beleza e jovialidade de Lena, quando era doida; dos invertidos Olhos Dessa Muquiça e o seu caminhão paramentado; e de Manoel Quatrocentos com Gina Lolobrigida e seus “Ô Lalaica” – toquei minha caixa de folia carinhosamente para cada um deles. Eu os vi e os ouvi, graças ao transe que vivi nestes dias. Viver Catopê não passa despercebido, não deixa ninguém incólume. Ninguém que foi tocado por aquelas tentáculas fitas continua o mesmo. Dentro daquele turbilhão de emoção, percebi que além de fé e alegria, o que havia era solidariedade, generosidade e a mais terna amizade. Só consigo me lembrar dos brilhos dos nossos olhos e da frouxura dos nossos risos. Assim aconteceu comigo. E nada mais posso fazer agora do que agradecer por ter tido tamanha oportunidade de ser Catopê. Ser Catopê é para mim um doce que derrete lentamente na boca e que não se gasta nunca. Cada vez que os meus pés tocaram a calçada da Igrejinha do Rosário, ao lado de onde o sininho saúda a chegada dos Catopês, Marujos e Caboclinhos, e depois de testemunhar pelas ruas de Montes Claros as lágrimas, sorrisos e promessas dos meus conterrâneos, reafirmei o compromisso de devoção ao Divino, para sempre.
Para o ano eu voltarei para cumprir nova missão.
Viva os presentes. Viva os ausentes. O Catopê não tem fim...
Aúi!
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Ucho Ribeiro
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13/5/2009 15:23:14
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As recentes pesquisas geológicas realizadas no entorno da Lapa Grande foram recomendadas por Auguste De Saint-Hilaire, em 1817, quando em andanças pelo sertão mineiro pediu, em seu livro “Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais” (p. 312), que geólogos pesquisassem as cavernas desta região a procura de ossadas de animais pré- históricos. Vejam sua solicitação transcrita abaixo e a respectiva nota de rodapé 486, na qual cita a passagem dos sábios viajantes Spix e Martins pela gruta : “Seria para desejar que algum geólogo visitasse com cuidado as grotas do deserto. Encontraria aí provavelmente ossos fósseis, pois que me deram em Vila do Fanado um dente de mastodonte, que está atualmente no Museu de Paris, e me disseram ter sido encontrado em um terreno salitrado do sertão. Não sei bem mesmo se não me falaram de ossadas descobertas nessa região”. “486 - Depois que esse capitulo foi redigido vi, pelo livro dos Srs. Spix e Martins, que eles realizaram o voto que eu exprimira. Os geólogos provavelmente não lerão sem interesse a descrição que esses sábios deram da caverna vizinha de Formigas que chamaram de Lapa Grande, e onde encontraram ossadas de tapires, coatis, onças e megalonyx. Parece, aliás, que a Lapa Grande já não era mais explorada quando foi visitada pelos Srs. Spix e Martins –.”
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Ucho Ribeiro
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8/5/2009 11:44:33
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CURIMATAÍ/CURUMATAÍ
Relendo mensagens passadas do Mural defrontei-me com a nº 44.689, de 23/03/2009, encaminhada pelo conhecido colunista Haroldo Lívio, levantando a questão sobre os nomes Curimataí e Curumataí. Tempos atrás, por curiosidade, já me questionava sobre os nomes dos rios Jequitaí, Pacuí e Curumataí, muito parecidos, todos com o sufixo (í). Passei, então, a pesquisar e percebi que os topônimos - nome próprio de lugar - têm normalmente uma de duas origens lingüísticas: a nativa, em língua tupi-guarani, ou a européia, em língua portuguesa. Igualmente, os hidrônimos - nomes de rios - obedecem ao mesmo padrão e, no caso específico destes nossos rios, a origem está na língua tupi guarani. Falar em tupi guarani não é fácil, pois é uma fala gutural, que vem da garganta. Por exemplo: ( i ) é pequeno e ( í ) é água (se pronuncia com a língua no céu da boca). Porém, em tupi (í) , (i), (y) e (yy), normalmente significam água, rio.
Vejam bem, pela língua tupi-guarani: Pacuí é rio do Pacu; Jequitaí é rio do jequitá, que na língua nativa quer dizer palmeira (Desmoncus rudentum); e Curumataí é o rio do peixe Curumatá. Mas voltando ao nome do distrito de Buenópolis, cabe destacar que nos relatos de viagens pelo sertão de Minas, Auguste De Saint-Hilaire, o observador e naturista, faz o seguinte registro: “ao deixar o Deserto, subi a serra do CURMATAÍ, para entrar no Distrito dos Diamantes, (...) em 22 de setembro de 1817(...)”. CURMATAÍ era a passagem do caminho real que, nos tempos do Brasil colônia, ligava Diamantina ao norte do país. Ainda hoje se pode ver e percorrer este histórico caminho, que se inicia ao pé da serra, no sítio de Valeriano Braga e, logo em seguida, no primeiro pouso da subida, tem-se um curral de pedra que funcionava como um posto de fiscalização da coroa, e de onde se avista a amplitude do sertão. Portanto, em seus escritos, Saint-Hilaire identifica a antiga passagem dos vales do Jequitinhonha para o São Francisco como CURMATAÍ. Grafia que, intencionalmente ou não, omitiu uma das vogais em questão, (U) ou (I). De acordo com o Aurélio: Curumatá, de origem tupi, é a designação de diversas espécies de peixes do Amazonas e do Rio São Francisco e Curimatá é nome dado à zona das Caatingas, apropriada a criação de gado. Podemos deduzir, então, em concordância com o Sr. Haroldo Lívio, que o rio chama-se Curumataí - Rio do peixe Curumatá. Já a localidade, Curimataí. Topônimo provavelmente procedente de caatinga. De sobra, fuçando os dicionários tupi-guarani, acabei aprendendo que: Acarai é rio do acará ou cará; Anhangay: rio do diabo; Camboi: rio das vespas; Canguari: rio do extremo; Capivari: rio da capivara; Iguaçu: água grande, lago grande, rio grande; Iguatemi: rio verde escuro, rio sinuoso; Imerim: rio pequeno; Ipanema: rio, água ruim, imprestável, lugar fedorento; Ipiranga: rio vermelho; Irani: rio do mel; Iririu: rio da ostra; Itacorubi: rio das pedras esparsas; Itai-guaçu: rio da pedra grande; Itai-mirim: rio da pedra pequena; Itaipu: barulho do rio das pedras; Itajai: rio do taiá; Itinga: rio branco, água clara; Piauí: rios dos piaus; Pirai mirim : rio de peixe pequeno; Pirai piranga: rio do peixe vermelho; Pirai: rio do peixe; Sapucaí: rio das sapucaias; Tamanduatey: rio que faz muitas voltas, rio torto; Uruguai: rio dos caramujos; Guaíba: gua (grande) + y (água, rio)+ ba (lugar) = "lugar de água grande"; Açaí: fruta que chora, fruta de onde sai líquido. E aí, quem conhece outros rios no norte de Minas que tenham nomes com sufixo e prefixo em (i)?
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Ucho Ribeiro
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2/4/2009 17:02:09
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VERITAS QUAE SERA TAMEN
Até quando chamaremos o maior feito dos mineiros de Inconfidência Mineira? Como podemos aceitar, ainda hoje, uma identificação tão desapropriada para o maior movimento patriótico de libertação do Brasil?
O que significa inconfidência? De acordo com o Dicionário Aurélio:“Falta de fidelidade para com alguém, particularmente para com o soberano ou o Estado. Abuso de confiança, deslealdade, infidelidade. Revelação de segredo confiado.”
Portanto, inconfidência é quebra de segredo, alcaguetagem. Nome escolhido estrategicamente por Portugal para batizar e homenagear a deduragem do, de fato, “inconfidente” Cel. Joaquim Silvério dos Reis.
A tirania portuguesa não só extinguiu a conspiração mineira como obrigou todos os brasileiros, desde então, a comemorar civicamente a vergonhosa delação.
Como a história é sempre contada pelos vencedores, por quem perpetua no poder e tem o controle político e ideológico da situação, restou a nós, brasileiros, há quase 200 anos, feriar o dia 21 de abril, impatrioticamente, reverenciando a interesseira deduragem feita por um coronel, a época, grande devedor do erário português.
O pior foi a propagação de inverdades, como a divulgação que Joaquim José da Silva Xavier era um traidor, um simples tirador de dentes, um reles soldadinho... Tiradentes era, na realidade, um homem do povo, de origem humilde, um alferes, fazia parte do regimento militar dos Dragões de Minas Gerais e exercia com dignidade diversos outros trabalhos, dentre eles minerador e tropeiro.
Ultimamente, pesquisadores, catedráticos e historiadores desvendaram e reconheceram a vida e as obras de Tiradentes. O revisionismo histórico iniciado com a publicação dos Autos da Devassa (1936/38) e a liberdade de pensamentos iniciada a partir de 1945 revelaram o verdadeiro Tiradentes: Um brasileiro visionário, estadista, um líder de homens influentes e letrados, que tinha um projeto para o Brasil e até uma utopia republicana de um país livre, soberano e próspero.
A atual Ouro Preto, na segunda metade do século XVIII, era a urbis mais importante, rica, populosa e culta de toda a América, inclusive a do Norte.
Apenas a simples pujança da impetuosidade não seria suficiente para um pueril alferes se destacar na efervescente vida comercial do Rio de Janeiro e na aristocrática sociedade de Vila Rica, a ponto de alavancar uma promissora revolução ou instigar a burguesia a um levante.
Tiradentes detinha também carisma, liderança e prestígio consolidados, do Rio de Janeiro a Vila Rica. Ao contrário do que foi propagado por Portugal, era instruído, articulado, orador eloquente e um homem viajado. Havia estado na Europa, em companhia do Padre Rolim, para imergir-se nos ideais de liberdade da Revolução Francesa, ocorrida em 1789. No sul da França, encontrou-se com Thomas Jefferson, a procura do apoio dos já libertos Estados Unidos (1776), para a projetada guerra de libertação do Brasil.
Destemido e lúcido, Tiradentes sonhou e lutou para criar uma nação brasileira fraterna, livre e soberana.
Ainda que tarde, é hora de nos levantarmos em defesa da nossa história de liberdade. Como escreveu Mauro Santayana, redator dos discursos de Tancredo: “Liberdade é o outro nome de Minas”.
Precisamos mobilizar as lideranças mineiras para mudar o nome dado ao nosso maior episódio da história pátria.
É premente que seja abolido dos nossos livros escolares e das nossas comemorações cívicas a ultrajante titularidade “Inconfidência Mineira”, que blasfema a heroica trajetória de Tiradentes, nosso mártir da libertação Nacional.
O próximo 21 de abril é o momento ideal, ainda que tardio, para o nosso governador sancionar uma lei corrigindo esta inverdade e batizar o maior feito dos mineiros, o maior movimento patriótico de libertação do Brasil de “A Conjuração Mineira”, ou então, “A Libertação Mineira”.
Que Minas aproveite o Dia de Tiradentes e dê o seu grito de independência, reafirmando a sua importância na história brasileira e no cenário político nacional.
Eis aí, Governador Aécio Neves, a oportunidade de decolar sua candidatura à Presidência da República. Em Ouro Preto, o palanque estará montado, os holofotes acesos, a mídia e a atenção nacional presentes, só falta lapidar o discurso.
Santo Santayana, faça de São Paulo o nosso Portugal!
Ps: Lembre-se Governador, no ano que vem, no dia 21 de abril, o senhor estará afastado do cargo para se candidatar e não terá o palco para se lançar nacionalmente.
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Ucho Ribeiro
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25/3/2009 17:03:22
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INCUBAÇÃO
Apartado da política, agora com tempo para circular, conviver e trocar idéias com as pessoas, testemunho como os tempos mudaram. Ninguém tem mais paciência para discurso político, estômago para reuniões partidárias e disposição para levantar bandeiras contra isso e contra aquilo. O desdém para a coisa política é assombroso. Nem mesmo quem está envolvido na vida partidária ousa, como antigamente, defender altos ideais: “Reforma Agrária, Anistia, Educação para Todos, Demarcação das Terras Indígenas...”. Afinal, há quanto tempo não vemos uma arregimentação reivindicatória? Uma mobilização política? Um protesto? Quando ocorreu a ultima grande passeata - sem ser paradas gay? Pelo visto, cada um está querendo é cuidar de si, sobreviver, se virar, dar asas a seus sonhos, sustentar sua família. As favas com a militância, a atuação política e os demagógicos estandartes. Fui me dando conta de que as pessoas cansaram de ser carneirinhos e maria-vai-com-as-outras, descobriram com o tempo que o jeito de melhorar o mundo é sentar, conversar e cada um fazer um pedacinho, em vez dessa baboseira de fazer barricadas e odiar quem pensa diferente. A geração das passeatas, dos protestos, das décadas de sessenta e setenta, hoje no poder, traiu seus ideais, rasgou os cartazes, recolheu as faixas, silenciou os microfones, esqueceu os valores éticos e, de través, prega agora a governabilidade, a política de resultados. Acabou-se o sonho! O onírico foi substituído pelo pragmatismo. Muitos largaram a política, mas a maioria que permanece militante sustenta que, de certa maneira, neste meio, tem que sujar um “pouquito las manos”. Triste, né? Uma coisa é fazer alianças, acordos políticos em função do bem público. Outra, é exceder os limites, extrapolar, se locupletar. É intolerável tanta falta de ética. Sem ética, sem ideais, não há política decente, digna. Paralelo a este esmorecimento político tenho percebido que está surgindo em Montes Claros, Japonvar, São Paulo, China e Conchinchina, no mundo todo, um movimento silencioso, um novo jeito de pensar, agir e comunicar. Uma mobilização individual, livre, autônoma, crescente, imensa, que numa velocidade devastadora se espalha por todos os cantos do planeta. A bandeira maior do movimento é a independência. As pessoas, principalmente os jovens, querem viver por conta própria, donos de seus narizes e negócios, sem chefe e horários, sem dar satisfação ao estado e a igreja. Não estão à procura de altos salários, nem segurança no emprego, buscam a liberdade, a autonomia. O alvedrio. Hoje não há uma geração. Há tribos, galeras, turmas, cúmplices. A grande simbiose está sendo feita pela internet. Ela tornou possível que pessoas de interesses comuns se agrupem, conheçam, troquem idéias, tracem planos, projetos e fecundem coisas grandiosas. Neste momento, neste exato segundo, milhões de conexões, entendimentos, sugestões e alquimias estão sendo realizadas. Tudo misturado numa panela, sem censura, sem termo, sem medida. São agrupamentos informais de cérebros, delírios e descobertas, sem que cada um perca sua individualidade e não deixe de perseguir seu objetivo pessoal, seu sonho, e mais, sem ter que prestar satisfação a seu ninguém. Servem-se da conexão internética para trocar idéias e ficar mais fortes e mais independentes. São milhões de pessoas inquietas, irreverentes, céleres, que mesmo sem coordenação e consciência, mas numa rede colaborativa, mudarão intuitivamente o mundo - ralearão a burocracia, estremecerão os governos antiéticos e sabotarão os poluidores do meio ambiente. Não podemos ter má vontade com esta nova gênese, pois nem eles, nem nós sabemos onde vamos parar. Uma coisa é certa, melhor interagir na internet do que ficar passivo na frente da televisão. Hoje, todos têm o direito a informação e a expressão. Acabou a época em que uns poucos privilegiados criavam e pensavam para quase totalidade e passiva assistência. Todo mundo pode criar, brincar, sugerir, expressar, produzir. Vejam o You Tube, os infinitos blogs na net, vejam o formigueiro de informações que é o mural do montesclaros.com! Estamos vivendo em tempos exponenciais. O que não encontramos no Google? Segundo pesquisa, “existem mais de 330 bilhões de procuras no Google todo mês: 11 bilhões por dia”. A quem essas perguntas eram feitas antes? E as respostas, as informações captadas, a que se destinam? Atualmente, um mundaréu de jovens já desconfiou que estuda para se preparar para empregos que ainda não existem, para usar tecnologias que ainda não foram inventadas, a fim de resolver problemas que nem sequer sabem se realmente existirão. Estamos preparados para perder nossos empregos? Para o desaparecimento de nossas profissões? Para buscarmos uma nova e inimaginável fonte de renda? Alertem-se, a queda entre as fronteiras do conhecimento será cada vez mais veloz. Tratem de aprender a aprender, de pensar com a própria cabeça, passem a agir estrategicamente com originalidade. Procure a evolução por conta própria, com base no emergente e no futuro. Pode ser um delírio internético, mas tudo isto me instiga e me provoca, pois embora o mundo esteja mais complicado e vulnerável, está mais vibrante e interessante. Afinal, a velocidade das mudanças e o questionamento de toda e qualquer premissa acabam colocando as coisas de cabeça para baixo, que não deixa de ser uma maneira diferente de ver o mundo. E a percepção do mundo de vários pontos de vistas só tende a acelerar o processo criativo, que, por sua vez, é o dínamo desta nova estufa incubadora. Já dizia Gandhi: “Seja a mudança que você quer no mundo”.
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Ucho ribeiro
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9/12/2008 14:25:45
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Depois de dias de chuva, o sol surgiu, trouxe luz e sombras claras. Tudo está admirável, radiante, resplandecente. As plantas aprumaram-se, sacudiram as gotículas das folhas, empinaram-se altivas, vaidosas, em flerte com o sol, loucas para agradecer e exibir contentamento pela estiagem. A exultação é tamanha que alegra os passantes, os passarinhos, os andantes, os insetos e todo o entorno se multiplica em deslumbramento. Defronte, de tanto espetáculo, de tamanha imensidão de detalhes, me amiúdo. Percebo minha pequenez e, só em olhos, mergulho nas minúcias da natureza. Desplumo da minha razão, sou êxtase, levado pelo prazer dos pormenores. A beira do lago, não vejo água, miro apenas no seu, meu reflexo. Espelho do céu azul reflete pássaros que riscam a lâmina inerte e lisa. Bolas de nuvens, tufos de algodão, branqueiam o espelho que está a quarar ao sol. Na margem, o seco cisco sem bolor, embola cascas de besouros e asas de mariposas. Aparto formigas do carreiro e me divirto com o seu universo bidimensional. Viajo no sobe e desce das suas escaladas acrobáticas, sem noção de estarem em cima, embaixo, de lado ou na vertical. Fico a contar e a observar as pernas dos insetos e suas serventias, as nervuras e dobradiças dos seus corpos. Submerso-me nos detalhes e transparências dos tênues tecidos das asas, desenhos de filó e crochê. Embasbaco-me com a fartura da natureza, com a multiplicidade do universo. Porque nos prendemos a tão pouco e não nos rendemos a diversidade da vida? Tropeço os olhos em sementes diversas em feitios, texturas e desenhos, infinitas em tamanhos - de minúsculos a descomunais - células da vida, multiplicadoras das existências. Diante de tanto fascínio e deslumbre, ressuscito a consciência e comprometo-me a montar o meu museu da semente, o germe da vida. Passarei a colecioná-las, considerando tamanho, formato, função, cor e textura. Pesquisarei seus contornos, silhuetas e aerodinâmicas, a fim de saber como suas formas as ajudam a reproduzirem-se. Algumas planam, outras voam, outras tantas explodem e saltam em busca do sol, da luz, para germinar, crescer e proliferar. Além de matizes variados, dos calibres diversos, elas têm os mais espantosos invólucros: uns são como uma bola, outros como uma espada, uma granada, uma hélice, uma espuma ou pluma, cápsulas que as ajudam na travessia da sombra para a luz, no pouso e no adubo do novo grão. Espantosa engrenagem ininterrupta, ensinando que podemos nascer sempre, sempre que quisermos!
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Ucho Ribeiro
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22/10/2008 17:16:29
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O Rio Preto, santuário das águas - onde reside a beleza - ameaçado de assoreamento! Uma truculenta estrada pavimentada, nos moldes de uma BR, está programada para ser construída nas margens do Rio Preto, em direção ao parque estadual. Segundo os engenheiros entendidos em auto-pistas, a rodovia foi planejada para dar fluxo aos veículos dos turistas. Por conseguinte, o projeto prevê uma estrada ampla, com reduzidas curvas e sem os acentuados aclives e declives, hoje existentes, para que os automóveis dos visitantes desloquem rápidos, em velocidade razoável e constante. Há muito o povo riopretano reivindica um caminho decente até o parque, um corredor adequado para escoar seus excedentes da lavoura, uma passagem segura para trafegar a pé, a cavalo e de carroça, pois estes são os seus usuais meios de transportes. O desejo é antigo, até histórico, pois trata-se de uma estrada centenária, caminho de tropas, que integra o circuito da Estrada Real. A comunidade local aspira uma estrada calçada e segura, mas singela e discreta, com o revestimento implantado no estável piso atual e com uma pista acessória para os caminhantes e cavaleiros trafegarem seguros, sem apreensões. Pleiteiam que o projeto preveja baias, mirantes e preocupe mais com as contenções das encostas, os assoreamentos, as erosões e o reflorestamento das margens do rio Preto. Todos querem a estrada calçada, é verdade, se possível com calçamento poliédrico, mas desde que mantenha o seu trajeto atual, com suas sinuosas e belas curvas que margeiam o despoluído e majestoso Rio Preto. Reivindicam também retentores de velocidades, para que os motorizados trafeguem devagar e contemplem a beleza das matas e das alvas praias. Provável é que a implantação do Projeto do DER, já com Edital de Licitação da Obra, venha causar o assoreamento do Rio Preto, pois extensos cortes de terra e aterros serão realizados em quase toda a extensão das margens do rio. Serão atingidos os córregos afluentes, várzeas, brejos, matas ciliares e outras reservas florestais, o que, inevitavelmente, provocará a obstrução e o comprometimento do curso perene do Rio. Contamos com a ajuda e empenho de todos na defesa do Rio Preto.
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Ucho Ribeiro
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29/8/2008 15:46:11
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Conheço há muito a escondida e singela Igrejinha de São Marcos. De tão pequena, parece infantil. Fica ligeiramente oculta, um pouco além da mata rala que beira a estrada rural em cima da Serra do Ibituruna.
Na verdade, está nas cercanias do antigo atalho que ligava pelo alto o distante Bairro Todos os Santos - antigo Pequi de Joani - ao velho caminho que ia para Coração de Jesus, hoje, uma pequena estrada que passa ao lado das torres de televisão e que, nos finais de semana e feriados, é uma gostosa e oxigenada trilha para andarilhos e ciclistas.
Lá de cima, na brisa, vemos e ouvimos o barulho turro e surdo de Montes Claros. No período das chuvas, que começa daqui a algumas semanas, o caminho vira um quiabo, é quando os motoqueiros e jipeiros se divertem em escorregas, deslizes e atoleiros.
Neste mesmo período do ano, em campanha eleitoral passada, a Igrejinha, já a época, abandonada, mas não tão depredada, foi cenário de um clip musical, quando uma linda criança cantou um hino a Montes Claros. Entretanto, o abandono, somado a ação de vândalos, quase a destruíram. Nos últimos tempos, aquele santo lugar era utilizado até para culto ao satanismo. As paredes estavam pintadas de vermelho sangue, desenhadas e grafitadas com figuras demoníacas e frases indizíveis.
Estou feliz com as boas novas! Ditoso em saber que montesclarenses de coração, como o presidente Adair do Trail Club, o Janjão Santiago e seus companheiros trilheiros, bem como o arquiteto Leo Assis estão recuperando aquele pequeno grande santuário. Parabéns!
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Ucho Ribeiro
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25/8/2008 18:29:46
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VER PARA CRER
Em São Gonçalo do Rio Preto, no alto Jequitinhonha, tem uma única borracharia e um cego borracheiro. Isto mesmo, um único e cego borracheiro! Curiosamente os riopretanos consideram a coisa mais natural do mundo ter um borracheiro privado das vistas. Acreditam até que remendar pneus é habilidade exclusiva para quem é cego. Afinal, sempre foi assim! Sua vida é doação, seu ofício é um sacerdócio a serenidade, um regozijo no servir. Não é de muitos risos, mas expande simpatia e gratidão. Ninguém passa incólume pela experiência do convívio - por mais breve que seja - com o Eli. É inevitável uma chamada a nossa consciência em repúdio aos nossos corriqueiros orgulhos e ambições. Esta introspecção providencial leva-nos a percepção da falta de sentido das nossas correrias, insatisfações e infortúnios e a observância do verdadeiro significado da vida. Eli é um exemplo de paz neste mundo alucinado, célere e cobiçoso. De origem humilde, nasceu e viveu no vale Jequitinhonha. Até os 12 anos, quando sua visão apagou de vez, enxergou pouco e diminutamente. Hoje, no breu, ilumina-se em admirável luz pessoal. Resplandecente! Antes, ainda rapaz, dentro de suas limitações, tentou alguns tratamentos, mas desenganou-se. As expectativas eram muitas para nenhum resultado. Como a medicina evoluiu muito, principalmente a oftalmológica, procurei Fred e contei-lhe a situação. O Mano – oftalmologista – inteirou-se do fato dispondo-se a fazer os exames necessários e operá-lo, se fosse o caso. A mim caberia a preciosa incumbência de trazê-lo de Rio Preto para Montes Claros e, aqui internado, faria exames modernos obtendo um diagnóstico preciso do caso. Feito isso, ele poderia, quem sabe, recuperar alguma, ou toda, visão. Surpreendentemente, Eli, sem desdenho ou revolta, agradeceu-me humildemente, negando se submeter a tais intervenções. Não queria criar expectativas para o desconhecido. Receava desiludir-se novamente. “Sou feliz desse jeito e grato pelo que tenho: profissão, família e ... reconhecimento”, arrematou. Além de ser o único borracheiro num raio de 30 kms, Eli improvisa, também, como mecânico, arruma correntes, coloca raios em motos e bicicletas e faz outros pequenos consertos. É um verdadeiro encanto vê-lo desmontar um pneu de trator ou de carreta que chegam, algumas vezes, a ter o tamanho dele. Encara a empreitada, singelamente, aos apalpos – tateando o veículo, as rodas e suas ferramentas. Estar em frente da sua borracharia, num sábado de manhã, assistindo o rito dos seus trabalhos, apreciando aquele monumento de simplicidade exercer dignamente o seu ofício é, antes de um privilégio, um culto ao milagre da vida. Quando, pela primeira vez, vi o Eli trabalhar, mareei os olhos e agradeci a Deus por mim e por ele. Na calçada, em frente sua borracharia, tem uma linha amarela para demarcar o local que ele pode e precisa andar livremente. Neste perímetro, Eli é o único protagonista, não se pode parar, estacionar, nem colocar pneus furados ou quaisquer outros objetos em seu espaço de movimentação, senão ele pode tropeçar e cair. Os meninos da cidade utilizam seu calibrador para encher os pneus de suas bicicletas e, em respeito, o recolocam no local. A seqüência dos fazeres de Eli é a execução detalhada de um planejamento minucioso e preciso. Ele retira a roda do carro, do trator ou, seja lá do que for, limpa o pneu com uma vassoura, independente de estar sujo ou não, remove a câmara de ar, enche e a coloca numa descascada banheira esmaltada cheia d’água, para escutar o borbotar das borbolhas. Apalpa pacientemente a superfície à procura do furo - quando o buraco é minúsculo passa a câmara no rosto - pelo tato facial sente o ventinho saindo de algum orifício. Descoberto o furo, marca o local, raspa ao redor do buraco, cola o remendo, coloca na velha máquina de pressão e aí sim, na espera, proseia: “Conheço essa câmara de ar! O concerto anterior ficou bom?” E continua recomendando um manchão e minuciando sobre o diversificado e encantado mundo dos remendos. Findo o tempo de colagem, confere o serviço e volta com a câmara para dentro do pneu e da roda. Se o pneu é grande, a última etapa exige um trabalho árduo, e o Eli faz tudo sem pedir ajuda, na maior resignação e ciência. Todo o trabalho é feito no seu comodozinho, na penumbra, lumiado apenas pela rubra luz da máquina coladora de remendos. Prá que lâmpada para quem enxerga tão bem? Imagino que Eli não tem concorrentes porque ninguém ousa se posicionar como tal, mas o que nos deixa descalibrados e instigados a simplificar e agradecer a vida é ouvi-lo perguntar: - Quantas libras?
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Ucho Ribeiro
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6/9/2007 09:56:46
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Memórias da Minha Infância Parte VII
VOVÔ PACÍFICO
Vovô mergulhou minha infância na natureza. Mostrou-me a semente, o plantio, o cultivo e o fruto. O doce e o amargo. O bicho e a goiaba. Vovô me fez terra, minhoca, ovo e galinha. Ele me fez abelha, pólen e mel. Ensinou-me agasalhar enxames, formar colméias, colher o mel e a cera, conhecer o zangão e a rainha. Mostrou-me a vida operária. Fez-me sentir o orvalho e a luzes matinais. Perceber o frio na entrada do sol. Ensinou-me fazer fogo e apagar fogueiras. Achar água limpa, o remanso, o sossego, as sombras e os frescores. Apontou-me o beija-flor sedutor e a flor seduzida. Despertou-me para o vôo gaguejado das borboletas, para os dribles das andorinhas, para os trinados dos chapinhas, para o pedreiro João de Barro, para a reza dos sabiás. Mostrou-me como ensinar o assobiático hino ao sofrê, cuidar do guatis e dos mãos-lisas, descascar cana e colher amoras, roer pequi e encontrar sua castanha, juntar tanajuras e colocá-las para brigar, focar no piscar do tiché das éguas quando estas urinam, tratar dos arreios e o arriar, trotar cavalos e bicicletas, construir bilboquês e manivelas, criar e soltar pipas, deduar bilóias e olhos de boi na terra molhada, diferenciar cobras domésticas das peçonhentas, retirar o veneno e brincar com a serpente em bolsos e chapéus, gostar de lanternas, facas e canivetes, construir aratacas, armadilhas, ceveiros, visgos, bodoques, arapucas e estilingues. Lembro-me do dia em que vi pela primeira vez um passarim canário ser pego numa armadilha. Cedo vi Vovô colher o bambu e o arame. Com o alicate, mediu, moldou e edificou o alçapão. Percebi ali o desejo, o afinco, a concepção, o planejamento, o foco, a construção, a espera e o desfecho. A materialização do sonhado. Vi Vovô preparar o laço, a armadilha e a canjica. Transformar o canário em vítima da própria fome. Isto tudo aconteceu no decorrer de um dia. Assisti e ajudei com os olhos toda aquela operação. Menino de quatro a cinco anos, calado, atento - aprendiz. Quando vi e ouvi o plá do desarme do alçapão, não acreditei, explodi, gritei, gritei, corri, corri por todos os lados e ao redor do amarelim armadilhado. Estava em descontrole, excitado, desparafusado. Vovô me pegou, me levantou e me sacudiu por um par de vezes, dizendo: Menino! Menino!!! Calei-me estatelado. Cai na real. Ali, Vovô ensinou-me que eu poderia interferir na vida, no mundo. Percebi, garoto, que não deveria ser apenas platéia, mas coadjuvante e protagonista da vida. Meu Avô tinha todo o tempo do mundo com a gente. Vivíamos em torno dele. Educou-me em pessoas. Mostrou-me quem é vagabundo, ativo, ladino, preguiçoso e trabalhador. - Este aí, Ave Maria, você pode desistir, olha o jeito de caminhar, parece que está escorando; - Presta não, sinta a mão lisa. Este tem ojeriza de serviço pesado; - Quem muito mostra os dentes quer morder; - Todo criador de canário de briga é boa gente. Pode confiar; - Cabo de enxada para aquele ali, só serve para dar de mamar; - Olha no meu olho, seu merda, tá escondendo o quê?; _ Não arrodeia não, vá direto ao assunto!; Além de instruir-me em conhecer gente, ensinou-me a viver, perceber e apreciar o longo do dia: o espreguiçar, o acordar, o vermelhar do horizonte, o desamarelar do sol, os cantos dos bichinhos, o pru-ru-ru-ru ti-ti-ti às galinhas, o colher dos ovos, o choco e o chocar, a tratar das gaiolas dos passarinhos, o apartar dos camaradas na distribuição dos serviços, o leite e a espuma no curral, o cheiro de estrume e das tortas, o pear e o despear do rabo e do bezerro na vaca, a cura das bicheiras, a mansidão em devolver em aboio o gado para o pasto, a prosa com os peões escorados nas enxadas, o percorrer a cavalo os cantos e as cercas, a conversa séria dos porquês de tudo, e também dos “é porque é”, o lavar as mãos para a refeição quentinha e sustançosa, o melado com farinha e mandioca, o repouso depois do almoço, o despertar do cafezinho, a vistoria vespertina nos serviços, a colheita das frutas para dar e acarinhar as pessoas, o bater do feijão e o debulhar do milho, os ensinamentos e as brincadeiras com os cachorros, a espera terna da vinda de Vovó do Dnocs, a prosa dos dois, sem compromissos e cobranças, o poente entardecer, o recolher e o empoleirar dos bichos, a temperança dos jogos de paciência, na espera de Titavo e Dindinha chegarem para o buraco, a moleza e o cansaço tomando conta do corpo, o sono de mansinho amolecendo a gente, e o “tá na hora de ir pra cama.” Boa noite, cambada!”
Bença Vô,
Bença Vó...
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Ucho Ribeiro
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24/8/2007 17:41:54
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Memórias da Minha Infância Parte V
VOVÔ PACÍFICO
Ucho Ribeiro
Uma das vezes que Vovô veio passear nas “nossas” férias, ao chegar na estação sentenciou: “Desta vez, vou transformá-los em cabras-machos. Pronto, estabeleceu-se a escravidão de mala e cuia na Rua Cel. Luis Pires, 80. a tirania imperava. O tempo era regido por suas ordens e contra ordens. Éramos servos das suas vontades e de seus horários. Ele passava a ser o algoz de nossos dias. A sessão de tormento iniciava-se ao despertar, de Vovô. O pacífico acordava-nos com todo tipo de perversidade: mosquitinhos no nosso rosto, água gelada no ouvido, algodão pegando fogo entre os dedos do pé, caminhos de rato em nossos cabelos, derrubando a gente da cama, quando não entrava batendo panelas aos gritos: ”acorda, bando de frouxos!” Daí, tocava-nos para o jardim e açoitava-nos, com berros, para correr, saltar, flexionar, contorcer, exercitar, além da exaustão. Tudo isto aos urros, ao lado do quarto de Mamãe e Papai: - Fred, seu maricas, trate de correr com vontade, parece que você tem o cu pregado nas pernas...; - Ucho, seu bosta rala, você tá é querendo uns cascudos, né? - Paulinho ... não empurre Marquinhos; - Fiquem sabendo, é mais fácil eu ir pro céu do que vocês ficarem frouxos! Papai e Mamãe dormiam. Nunca consegui entender como eles podiam ter o sono tão pesado. Depois daquela ordem do dia, que continha até sessão de musculação com a mão do pilão e com um imenso osso de baleia, ambos servindo de alteres, era a vez das as aulas de jiu-jitsu. Segundo o mestre Pacífico, ele teve que aprender esta arte para se vingar de uma surra que levou do Gedeão, no Grambery. Passou 10 meses exercitando nas barras paralelas e treinando a luta marcial para, no final do ano, desafiar o Gedeão diante de todo o colégio. Briga bruta, mas ao final espancou, arrebentou, arregaçou o grandalhão. E para suprema humilhação, baixou a calça do derrotado e cuspiu na bunda dele. Foi a glória, exultou-se! A sede de vingança de Vovô foi a força motriz que o manteve no colégio. O objetivo de derrotar o Gedeão o fez agüentar aquele ambiente de “almofadinhas”, caso contrário teria voltado para Fortaleza, para sua fazenda, para a vida de vaqueiro, para cima do seu cavalo, para correr rês. Bem, mas, voltando às nossas aulas de jiu-jitsu, lembro-me da tensão que ficávamos. Vovô nos irritava e nos incentivava a degladiar, eu com Fred e Marquim com Paulim. As lutas eram diárias e vinham após os exercícios que nos deixavam o sangue quente, à flor da pele. Eram brigas, arranca-tocos sérios, enraivados, porrada mesmo. E Vovô tacando lenha na fogueira: _ Reaja Ucho, não deixa este merda rala bater em você. _ Dá um telefone nele, Fred! _ Solta o braço nele, Marquim! Nós nos engalfinhávamos, rolávamos no chão, embolados um no outro, com toda raiva do mundo. Não podíamos galinhar, fazer feio na frente de Vovô. Era sopapo pra lá, sopapo pra cá. Briga de gente grande. Cacete. Quando um engravatava o outro e este ficava por baixo, imobilizado, o mestre Pacífico nos rodeava como numa rinha de galos e gritava para quem estava por baixo: ”Ô seu frouxo, se vira. Olha, para você se livrar desse alicate só lhe resta furar o olho, rasgar o nariz dele com o dedo, ou então apertar os bagos dele com força!”. Esta rinha durava uma eternidade. Raiva e choro espirravam para todos os lados. Quando sopitavam o último grau de tensão, o nervosismo, o sangue quente, ele, maldosamente, levava seus galinhos de briga para o banheiro e lhes dava uma ducha fria. A água gelada, ao bater nos nossos corpos quentes, repelia instantaneamente nosso choro, deixava-nos sem ar, sem fala. Engasgados, parecia que íamos explodir. O choro voltava mais baixo, mais brando, mais calmo, até nos aquietarmos calados. Iniciava aí a pior etapa, a xaroparia. Vovô, então, ruminava a mesma ladainha de sempre. “Vocês têm que aprender: irmãos não brigam. Edgar, Clemente, Sebastião e eu nunca brigamos. Passamos a infância juntos e nunca encostamos a mão um no outro. Vocês jamais podem esquecer isto: Irmãos não brigam. Ir–mã-os –não– bri-gam”.
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Ucho Ribeiro
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26/7/2007 12:46:37
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Memórias da Minha Infância Parte IV
VOVÔ PACÍFICO
Meninos, Fred e eu fomos, com vovô e vovó, visitar a carinhosa, alegre e pia Tia Nini. O Banco do Brasil havia transferido Tio Ruy para uma casa amarelo-creme, incrustada alta num barranco na beira do Rio Doce, pertinho de uma ponte da mesma furta-cor. Foi a minha primeira viagem de ônibus. Na verdade, de jardineira, com escadinha para subir ao teto e tudo mais. Sentados nas poltronas da frente, seguimos viagem tranqüila, até assistirmos de camarote as cenas de um atropelamento de uma vaca. Começou com o zig-zag do ônibus, na tentativa do motorista em desviar da bitela. Em seguida, o grunhido da freada e a pancada. O animal foi lançado à frente do carro e só ficou o desmantelo no meio da pista. Foi um alvoroço, um berreiro doido. Passados alguns minutos, veio o silêncio e o esmorecimento. Ninguém tomava nenhuma atitude, nenhuma iniciativa. Aí, o Seu Pacífico, meu avô, falou alto: “ô cambada, vamos seguir viagem, ou não vamos? Ocês aí, ó, ajudem-me a arrastar a vaca pra fora da pista e os outros desempenem a frente da jardineira”. Vovô tomou a dianteira, grudou com mais quatro passageiros a vaca e a arrastou para fora da estrada. A viagem seguiu e eu fiquei todo orgulhoso, todo inchado, do velho. Em cima da ponte nova, vovô ensinou-me a pescar, a manusear minhocas, lançar o anzol, fisgar e tirar o peixe para fora dágua. Foi lá também que vi pela primeira vez uma cobra. Ganhei-a de presente. Tinha duas cabeças, era feia, branqüela e enrugada. Rememoro, também, quando despenquei da mangueira do quintal da Timbiras e morri de medo de que Vovô soubesse. Ele havia me proibido de trepar na alta arvore. Fiquei pulando em um pé só durante dias, como se fosse um saci, com o intuito de despistar o velho e escapulir de imaginária surra. Foi Tio Márcio que, em visita habitual à casa dos sogros, estranhando aquele pula-pula, desconfiou e detectou a fratura no meu pé. Foi a salvação, engessei a perna, ganhei um tóten, e me safei de uma sova.
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Por
Ucho Ribeiro
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19/07/2007
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Memórias da Minha Infância Parte III
VOVÔ PACÍFICO
Vovô era agridoce. Mesclava estouvamento com pacificidades. Tinha a crueldade das crianças. Era manteiga para os seus e fratura exposta numa briga. Um burro xucro domado sutilmente pelas sábias rédeas de Dona Eni. Lembro-me de Vovô antes mesmo de me tornar gente. Em uma viagem a Belo Horizonte, para o casamento de Tia Zezé, fiquei em sua casa na Rua Timbiras, entre Rua da Bahia e Avenida João Pinheiro. O que mais me impressionou foi o cordão de carros pretos, limpos e brilhosos desfilando como num enterro pelas ruas sem poeira. Fiquei boboquiaberto com o chiar do bonde e o faiscar robótico do trolebus. Eu vi o futuro. Em cada esquina ansiava esbarrar com Flash Gordon ou com Superman em sua Metrópole. A Sloper era um despropósito, um despautério, tinha tudo que eu não sabia para que servia. O passeio e as vitrines da Rua da Bahia desassossegavam-me com seus cheiros anti-sépticos e naftálicos. A Afonso Pena era sem fim, as perspectivas dos prédios e dos verdes densos e longos das suas árvores a esticavam e me amiudavam. Creio que foi lá que conheci os pardais. Estes estavam por todos os muros, galhos, fios e telhados. Nunca os tinha visto em Montes Claros. Mas o que vem mais forte é a casa da Timbiras. Na entrada, um muro baixo com uma meia escada seguida de um alpendre. A porta grossa, com sua janelinha de espia, dava para uma sala ampla com piso de tábuas, com mesa, cadeiras e sofás; à esquerda, um janelão desmedido escancarava-se para as costas de uma casa lisa, nova, cinza, de dois andares; à direita, dois quartos, um onde eu dormia com Bisa, com suas caixas de madeira de goiabada, matéria prima para a confecção dos seus palitos a canivete, e o outro, era de Dora, irmã solteira de minha avó. Na passagem para a copa, bem acima da minha pequena altura, o telefone preto, imenso, pregado à parede. Quando tocava, o papagaio estalava seco: ”Alô, é Dora”. Ao fundo, antes do quarto de Vovô e Vovó, mergulhava uma escada de madeira em caracol parecendo peça de nau pirata, que nos levava para o andar de baixo, onde se escondiam o bolorento convés e seus mistérios. Lá, nos porões, descobri uma esquecida arca que, ao invés de tesouros, guardava carcaças - esqueletos humanos desmontados e amontoados. Eram fêmures, crânios, costelas, omoplatas, dedos e tochas de cabelo. Todos os ossos estavam amarelados, encardidos, alguns revestidos de pele murcha, ressecada. Urgh! Só poderia ser ossada dos ladrões e criminosos que o delegado de Pedra Azul havia exterminado. Aquilo me arrepiava todo, me fazia tremer de medo e me levava a pesadelos terríveis, mórbidos. Pior era a falta de coragem e ousadia para perguntar como sucedeu aquele holocausto, aquele extermínio. Imaginava, elaborava em minúcias a crueldade de cada morte. Calado eu vi, calado permaneci. Até hoje não sei de quem eram aquelas ossadas. Contam que em Pedra Azul, nas antigas, uma professora ao lecionar nossa língua pátria disse a classe: ”Pedro matou João” – onde está o sujeito da frase? Ao que lhe responderam: “oh, só pode estar escondido na Aldeia ou na Cabeça Torta”. Fazendas do Pacifiquim.
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Por
Ucho Ribeiro
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10/7/2007 14:50:25
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Memórias da Minha Infância Parte II
VOVÔ PACÍFICO
_ Fale que foi briga, viu, moleque! _ Mas, vô... _ Num tem nada de “mas vô”, nem “menos vô!” Diga a sua avó que foi briga, pronto “acabô”.
Vovô Pacífico, de olho roxo, estava pronto, procurando desafeto. Era o efeito das maluquinhas que tomara no caminho da Lagoa do Peixe, onde tínhamos ido buscar uma nelorinha que Tio João presenteara seu afilhado Marquinhos.
Saímos de Montes Claros tarde, no meio da manhã. A viagem sem pressa e a prosa boa do motorista fizeram meu avô abrir o bico e ressuscitar uns causos de vaqueiros e de caçadas na sua Fortaleza.
À medida que a estrada passava debaixo da boleia do caminhão, Vovô se animava e destramelava atrozes e apimentadas histórias de um delegado de polícia.
Em Toledo, já pertinho da fazenda, paramos numa venda para comprar seu Beverly Ovais. O velho quebrou uma e em seguida duas amargosas, com a barriga vazia. A hora do almoço havia sido deixada para trás, há muito. Foi a conta.
Desapiou no terreiro da fazenda, agitado, ciscando como um garnisé desafiando o galinheiro. Arreliou um peão, provocou outro que estava apartando o gado. Esbarrou na cancela para assustar o mais manso deles. O velho estava com a macaca. Logo fez roda e começou a debulhar, com falsa modéstia, vantagens e coragens.
Depois de se glorificar em maldades, resolveu mostrar ao vaqueiro como pear a novilhinha esquentada, que bufava em cima do caminhão. De arranco, nos seus quase 70 anos, saltou na carroceria, pulou para dentro do caminhão e estouvadamente segurou o animal pelo chifre. Sacolejou-o e gritou: “Cê tá doida, bicha besta”. Incontinente, girou seu corpo em direção ao pescoço do animal como se fosse quebrá-lo e se jogou em cima do vacum. A novilha desabou e ele gritou, pedindo uma peia. Ao aparar a corda no ar, aprumou-se e de joelhos iniciou a peação.
Eu, exaltado e curioso, pulei e me agarrei na lateral do caminhão. Este movimento distraiu Vovô e o fez descuidar das amarras. Não deu outra. A nelore alva, num risco de agilidade, soltou uma das patas das cordas e a pregou com força na cara do meu avô. Foi um solavanco que o jogou a uns 2 corpos dela. O velho se amontoou no canto do caminhão e quietou. Pensei com meus botões: morreu!
Aos poucos, começou a se mexer, ficou de quatro, ajoelhou-se, pôs a mão na cara, em cima do olho esquerdo e bradou: ”É ... porrada igual a esta só levei do Gedeão, lá no Grambery. Só que esta tá doendo pra encardir. Se eu não ficar cego ou zarolho pelo menos perco mais um parafuso da moringa”.
Aí ministrou: “Olha Ucho, homem que é homem tem que ficar com o olho roxo. Pra bater tem que apanhar. Só maricas pensa que olho inchado é surra apanhada. Pra você bater em homem macho, você tem que levar umas também. Quem só bate é covarde!”. E fique sabendo: “briga é tudo rápido. Rara é a briga de mais de um minuto. É pá-pá, pá-pá... tum. Acabou. Quem der o primeiro surdão entra com muita vantagem. Tem que dar um pra valer. Você não viu a vaca?”.
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Por
UCHO RIBEIRO
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9/7/2007 14:36:56
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MÉMORIAS DA MINHA INFÂNCIA - PARTE I VOVÔ, SUAS CAÇADAS E SEUS CACHORROS.
Ao buscar minha infância, rememoro o Sítio Tira-Teima, onde nós, os netos, passávamos os finais de semana junto à natureza e no convívio dos nossos avós. Nos feriados longos e nas férias escolares, éramos entregues ao mundo encantado do Vovô Pacífico e da Vovó Eni. Durante o dia brincávamos e ajudávamos nas tarefas do sítio, sempre ladeados pelos cães Faísca, Medalha e “Seu Nome”. Todos mestiços, amigos e travessos. À noite, deitados, embolados com os cachorros e espalhados pela varanda, ficávamos ao redor da cadeira do Vovô, ouvindo seus hipnotizantes causos de caçadas. Começava sempre contando os preparativos, o estilo dos cachorros, a arrumação da tralha, a forma de agrupar e transportar os perdigueiros e os americanos. Aproveitava nossa inicial atenção, para ensinar-nos o tipo, a função e a habilidade de cada raça. Falava da destreza, da agilidade, do caráter e da coragem dos cães da matilha, dando o nome e a descendência de cada um. Vez ou outra, frizava um ascendente e a este derramava glórias e lealdades. Distinguia os cachorros pelo faro, pelo latido, pelo rastro firme, pela esperteza e ligeireza em acompanhar a presa. Mas, meninos, queríamos mesmo era saber do calor da perseguição, do coração disparado, da tocaia dos caititus, do levante da onça, da corrida dos veados, dos tiros, do abate final. Vovô preambulava a caçada descrevendo o relevo, a vegetação do terreno e o posicionamento de cada arma, de cada companheiro caçador. Montava o cenário, estabelecia as esperas e dava uma pausa... Nós, os netos, em total suspense, em silêncio, incorporávamos, cada um, um caçador, sua solidão e espreita. Aguardávamos. Num rompante, Vovô estalava um latido, ladrava alto, ruruivava o levante, que denunciava o animal acossado, longe. Pelo uivo dado, revelava o nome do cachorro mestre que levantou o bicho, e qual bicho: veado, onça, caititu ou outro bitelo qualquer. Ato contínuo, podíamos sentir o desespero da presa e enxergar a direção tomada: o boqueirão, a picada, a encruzilhada ou o barranco do rio, postos onde os caçadores estavam aninhados com suas armas. Vovô continuava sonorizando o trote, os sopros da fuga, o alcance dos outros cachorros, os uivos e os apuros, o ziguezague do despiste, o açoite, o amoito... a quietude, o silêncio... o embaraço dos cachorros, a fungação crescente e desenfreada, a busca minuciosa. A netaiada, só ouvidos, firme em suas posições, resistia aos coices do coração. Meu avô recobrava o faro firme, e destramelava o estouro do desamoito, o latido da cachorrada, a retomada da correria, os galhos quebrando, o bicho chegando, o évem-évem, o virgemaria. O Velho não abandonava a marcação pausada do latido do cão mestre, agregando a cada passagem os quarteados, rugidos, roncos e ruídos dos demais perdigueiros e dos americanos, que se compunham cadenciadamente na perseguição desenfreada. Vovô guturava cada um dos latidos da canzoeira e nomeava os cachorros, enunciando qual tomou a frente, qual tinha atalhado, qual tinha retomado o piso. Boquiabertos e com os olhos esbugalhados, ficávamos inebriados com os ladridos, com a tensão e a agonia, na espera do animal acuado sair em cima da gente. A sinfonia rouca dos latidos, cada vez mais alta, cada vez mais próxima, o medo e a vontade, só findavam com o estampido apoteótico: Táaa! O tiro certeiro atingia o bicho em cheio, que cambaleante vinha tombar a nossa frente, nos pés de Vovô. Ufa! Enlevados e extasiados, ficávamos sujeitos a inevitável e imperiosa ordem: “Tá na hora de ir para cama, cambada!”.
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Por
Ucho Ribeiro
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13/6/2007 17:17:51
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A dor que não tem fim.
Estamos todos de luto. Cabisbaixos, desamparados, sem lugar. Vemos as lágrimas das mães, o desalento nas ruas, a indignação das famílias. A cidade está triste, indefesa. Todos se sentem vulneráveis, ameaçados, atemorizados.
Uma criança foi sacrificada. Um filho que podia ser um dos nossos. Não consigo imaginar a dor dos pais do pequeno Sidney. Que Deus os console e abençoe.
Nossa família também está enlutada. Hoje, estaremos na passeata e amanhã usaremos uma tarja preta em nossas roupas.
Kênia, Ucho, Otávio e Bebel,
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