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           Raphael Reys    reaphaelreysmoc@yahoo.com.br

61039
Por Raphael Reys - 4/9/2010 10:16:34
FICÇÕES... E UM RESTO DE NOITE...

Encostado á parede do restaurante de luxo, marco com o pé, o ritmo quente e assovio “Greem With Envy Blues”. Recebo a última réstia de luz da tarde na Avenida Sanitária que já entra no lusco-fusco. Assume o céu, um tom cinzento.
Uma excitação quase mórbida, e no dizer do poeta um frenesi de dar bananas. O Garden-Party retoca o seu smoking. A dama de azul turquesa toma o rumo do ao Automóvel Clube. E o garçom, usa um Summer de S 120 branco.
Um fascínio, um desencanto, um aroma de perfume. E no dizer portenho: um resto de tango e um assovio.
Ela comprou um pequeno e famigerado vidro de perfume Francês/Paraguai. Agora passa pela avenida pisando a trilha dos seus próprios pensamentos. Na via da sua imaginação, buscando fugir do momento objetivo da realidade presente. Concreto, e determinante. Apanha um táxi!
Ernesto Van transita lentamente assoviando “Doralice”, Virgínia de Paula copia do seu livro de bruxa irlandesa, uma receita com infusão de folhas e ervas e a poetiza Dóris Araujo faz mais uma composição, cheia de amor para dar. A escritora Maria Luiza se encanta com o meu Alento e sublima a poesia da sua alma em comunhão.
A acadêmica Karle Celene e a sua alma gêmea Roberto tomam um scoth, under the rocs no restaurante Quintal. Um galo de Campina canta numa gaiola de arame. São milhões de trinados! Uma vitrine isolada e desgastada reflete os lumens da luminária,e o espelho francês mostra a beleza clássica do rosto de Conceição Melo.
No banco da frente, um manequim de plástico, estático. Surrealista! No tórax está escrito em letras grifais Sou do Tico Lopes. No banco de trás, Amiguinho, com seu sorriso amarelo e gelado, a Boneca de Leonel, vestida de chita, a pirata cabo de prata, de Virgínio Preto, e os óculos modelo Ronaldo de Neco Santa Maria.
Ruas transversais e, por toda noite a luz brilhante de lâmpadas de néon. Vejo as linhas da palma de minha mão. Nelas estão registradas as rotas do meu destino carmico! Boquiaberto, peco um café espumoso na birosca moderna.
Há um incesto, uma tentativa de homicídio e um streeking, na orla fluvial do Rio Vieira. Uma cama giratória com Baco e Vênus. Um triunvirato, trivial simples. Uma velha senhora pede uma fubuia no boteco. O menino degusta um picolé saia curta.
A dama de azul passa por mim, discreta, entretanto, o seu decote mostra um par de seios siliconados. Os seus olhos são de Vaca Pidona. Na esquina próxima, uma cena de Felline. Corações juvenis cheiram cola de sapateiro e vagam pelos tortuosos caminhos do inconsciente pavloviano pediátrico.
O mundo gira e a lusitana roda. Há um íncubus no quarto daquela viúva macumbeira. Felippe Prates declama Fromm Glicose após a sexta dose de Jack Daniels no Restaurante do Armand`os.
Elthomar Santoro solfejando Rapariga do Bonfim e rescendendo “oroma” de curraleira!
Há um To be or not to be, numa esquina próxima. Um compositor conclui que os instrumentos da felicidade são: uma escalera grande, otra chiquita. Um literato sentado à janela rococó do sobrado colonial; lê “Éramos Felizes e Sabíamos” e me acena. Uma dama da noite passa gingado sensualidade e cheirando a mistério e Madeiras do Oriente.
Ela veste uma calca jeans cocote, já formando um culote, anda balançando o seu Bumbum Pratibumbum Burugundum. Um veículo moderno circula pela via e através da janela sai um bolero de Benvenido Granda. Um pederasta ativo e passivo arranja uma briga com um cáften na esquina! Um sapato branco e marrom fica no meio fio. Um filete vermelho interliga o calçado, o piso do passeio, o meio fio e a pista de asfalto.
Há um sofrer sem compreender, e um dar de si, sem conta.


60935
Por Raphael Reys - 1/9/2010 08:03:06
CATOPEZADAS

Rolim, que era rolinha só no apelido, um dançante de catopé de antanho, motorista de caminhão Dodge caixa seca, morador da baixada, tomador de fubuia no bar de Tiano e habitual prevaricador nos anos 50, foi curtir uma tarde de alcova tropical com uma mariposa do Beco do Marimbondo.
No dizer do escudeiro Zé Paraíso: “ele, o Rolim, tem a torneira muito grande!” Aí, satisfeito terminado a função genésica o nosso herói tirou da algibeira uma boa nota de um cruzeiro – estávamos no tempo da Tabela Price – e pagou a dama da noite.
A filha de Eros e Afrodite, indignada, retrucou em cima da fatura: “serviço de cama para ferramenta do tamanho da sua é negócio para cinco cruzeiros, no mínimo, seu Rolim”!
Já Maneco de Dona Gregória, antigo dançante dos Caboclinhos, andava variado pelo centro da urbe. Foi parado por Tico Lopes, que lhe perguntou: “Cê tá andando variado, Maneco?” O interlocutor responde: “Tô aqui pensando no tempo antigo em que tudo era bom! Na época atual, tá tudo de cabeça para baixo! Moço, tô que nem arara sem cordão...”
Já Rui Queiroz, conhecido no trecho musical como Zé Rui, ou mesmo Rui do Bongô, foi ao Shopping e levou como seu acompanhante, para assuntos aleatórios, o também mestre do tambor Tico Lopes, que no dizer de Eduardo Lima, o Goiabão, só anda como um dândi.
Foram comprar um supimpa vaso de plástico para um arranjo com plantas artificiais. Escolhida a peça, Rui pede à atendente que preencha o vazio do interior do vaso com aquelas aparas próprias. Bota uma, tira. Bota areia, palha, tira. Bota pedrinhas e isopor, tira. Bota arranjos vegetais, tira. Bota o escambal, tira!
Extenuada, com expressão cansada, a moça lembrou o dito do escritor Lampedusa: “desenha-lhe no rosto emaciado uma melancolia metafísica...” Pergunta, então, ao Rui: “por que o senhor não gostou de nenhuma das arrumações que fiz?” Rui do Bongô responde, no ato: “Porque está tudo catopezado!”
A balconista que era de outra região do estado, desconhecedora da nossa linguagem, pergunta: “E o que é que é catopezado?” Rui apontando para o Tico diz: “Ele entende mais do que eu de folclore!” Tico dá as solicitadas explicações e a balconista, meneando a cabeça, fala: “Bestage, moço. Ele quer é que eu dê um tcham no vaso!
Como é um cidadão cheio de detalhes, minúcias e quizongas, próprios de artistas e de músicos, Rui conclui o diálogo com uma pergunta bastante pertinente, endereçada ao companheiro: “E você sabe o que é que é tcham, chefe?”
Esclarecimento aos meus caros leitores: o montesclarino é um ser com alma e estigma próprios. Um capiau diferenciado, pois bota panca de rico viajado, mas, a bem da verdade, nada mais é senão um chapadeiro “fiduna”. Domina-lhe a semântica libidinosa do pequi, o “rusarô” da cachaça, a subserviência religiosa. Nós andamos com um terço no bolso, mas, para garantir, também com uma fita benta de catopé na carteira de notas e, ainda, por via das dúvidas, um patuá de macumba na algibeira...
Para nós, o gado mija pra trás, mas nos põe para frente.
Na avaliação do saudoso Deca Rocha, “nós somos caboclos curraleiros, cheios de truques e alguma falsidade...”


60841
Por Raphael Reys - 26/8/2010 16:03:37
NOITE QUENTE NO KENTURA KENTE

Sábado 21 últimos, área reservada do Restaurante Kentura Kente, point da noite e oráculo dos tomadores de loura gelada. Chego às 19: hs e encontro, já instalado no átrio o jornalista Paulo Narciso, paramentado de discípulo do mestre Zanza e acompanhado de sua alma gêmea, a escritora Raquel Souto.
Logo, Nenzão Maurício adentrou a nave de Baco com sua alegre Patrícia. Trazia armas e bagagens e os exemplares do nosso livro “Éramos Felizes e Sabíamos”. Joselito, o secretário executivo de Virgínia de Paula comandou a venda.
Um a um foram chegando os componentes da galera de escritores tupiniquins, filhos diretos ou adotados de Figueira, com seus familiares e convidados. Nilo Pinto e Amália Drumond felizes com a organização nos trinques.
Virgínia de Paula com um penteado chique arrasou com seu charme, vestida de preto para matar. Segundo o cabeceira tupiniquim Eduardo Lima, ela parecia uma debutante.
A noite era de acadêmicos, jornalistas, músicos, escritores, convidados.
Yvonne Silveira, a presidenta da Academia Montesclarense de Letras foi ovacionado ao chegar. Presentes os escritores Petrônio Braz, presidente da Aclesia (Academia de Ciência e Artes do São Francisco) e Dário Cotrin, presidente do IHGMC (Instituo Histórico e Geográfico de Montes Claros).
A imprensa marcou comparecimento em massa, atendendo ao nosso apelo e engrandecendo o evento. Luiz Carlos Novaes, editor do Jornal de Notícias e sua esposa, Hermano Konstantino, editor do Gazeta do Norte de Minas, Paulo Narciso e Raquel, da rádios 98 AM e FM e do site www.montesclaros.com, Angelina Antunes, editora do Caderno Mulher, do Jornal de Notícias, Márcia Yellow fazendo a cobertura fotográfica para o seu Dzai, Felicidade Tupinambá, coordenando a equipe da TV Canal 20 e muitos outros que logo se misturaram a alegria da festa.
Ambiente naturalmente descontraído de almas afins.
Amália Drumond abriu a solenidade e foi seguido pelo sociólogo e líder da trupe, Geraldo Maurício que discursou sobre a obra e saudou a todos. A acadêmica Yvonne Silveira falou de improviso e como sempre abrilhantou o evento. Efusivamente aplaudida.
Velhos amigos, velhos amores, conhecidos que se reencontraram entre muitas lágrimas, amplexos e ósculos.
Ucho Ribeiro, o pai da idéia literária, leu uma recente crônica publicada com a alma cheia de contentamento. Seu irmão Fred e familiares eram só alegria e animação. Presença maciça das famílias: Deusdará, Narciso, a acadêmica Milene Coutinho, capitaneando os Maurício.
Juquita Queiroz e seu Grupo de Chorinho Geraldo Paulista (Tião, Wanderdayk, Raphael, Jonathan e Kollek) com um repertório de bossa nova e balanço violaram nossos corações com recordações do puro som do Beco das Garrafadas. Instrumentistas, cantores, performances se sucederam, solo, dupla e trio. Pura magia curraleira!
Haroldo Cabaret com Tiupas, lembrando Os Brucutus, Nenzão, Geraldo Carne Preta, um show popular e luxuriento mostrou panca de artista. Cantaram bossa nova, Valéria Mascarenhas e Juliana Peres. O músico Yuri Popoff fechou a noite com chave de ouro.
A animação tomou conta dos corações e Antonieta Fernandes que alem de cantar em dupla com Nenzão Maurício, dançou um pá de deux tropical com Ademir Fialho (sempre de fogo e penducando o equilíbrio). Outros casais animaram a pista.
Numa mesa só de capa de revista, o reflexo da luz dos spots nos cabelos louros de quatro beldades de fechar quarteirão. A charmosa jornalista Angelina Antunes, a beleza grega da artista plástica Conceição Melo, o charme quase fatal de Márcia Yellow e a graça da socialite Mirian.
Em virtude das festas de agosto e com a cidade cheia de turistas, visitas e parentes vindos de fora, muitos telefonaram e passaram e-mail comunicando a impossibilidade de estarem presentes fisicamente.
Aviso aos navegantes. O livro será lançado brevemente no Rio de Janeiro, sob a coordenação do cineasta Paulo Henrique Souto. Logo estaremos editando o segundo livro da turma. Vem coisa por aí!


60770
Por Raphael Reys - 24/8/2010 07:52:54
CADEADO

“Os cronistas escrevem o caráter oculto da sociedade.”

Conhecido comerciante do centro, biótipo mignone, alegre, divertido, embora do tipo tampa de binga é tirado a conquistador de suburbanas. Sua carreira de abatedor de lebres sempre termina em fechadura e cadeado. Quando ele nasceu era tão pequeno que os pais só o registraram aos dez anos esperando que o mesmo tomasse corpo. Daí ele já ter sessenta e cinco, mas aparenta ter só quarenta anos. Como ele tem muitos amigos de papo, copo e cruz, volta e meia enche o quengo de gole, fica estabanado e sai para paquerar na noite. Dia desses, levou uma gatíssima para o motel e como tem a ferramenta pequena, costuma compensar a arte de alcova com um bom e erótico papo ao pé do ouvido da parceira. Como é pão duro, estava em um quarto de motel de péssima qualidade e baixo preço. Ao lado da janela, um pequeno matagal, do qual, sem que eles vissem, saiu uma pequena jaracuçu que entrou pela janela e atraída pelo calor dos corpos dos amantes foi parar no meio do ato libidinoso. Certa altura da via de fato, a parceira levou a mão para engarguelar e acabou pegando mesmo na cabeça da cobra verdadeira, ou seja, o ofídio intruso. Assustada, acesa a luz para checar de quem era aquela coisa grande roliça e cabeçuda a suburbana deu o maior pití. O bafafá foi tamanho, que teve até que ser chamado os bombeiros para aparar o cavaco.
Como é costume nos Montes Claros, os amigos correram e abafaram o caso, evitando que a matriz, cobra de outro gênero, cortasse a cabeça dele enquanto dormia, conforme já prometido. Outra noite ele saiu novamente. Na ocasião telefonou para a ‘Zinha’ e a encomendou arrumar uma profissional do seu tamanho, pois queria curtir uma tarde de similaridades, além de fazer uma junção de côncavos e convexos compatíveis (ele é cheio de detalhes...)
Estava na alcova tropical na maior aplicação de Kama Sutra, quando a gatinha mignone deu o maior estrimilique. Se contorceu toda, revirou os olhos e ficou babando. Convencido como ele só, ficou pensando ter provocado aquele suposto apogeu genésico com efeito neurológico!
Ledo engano. A profissional estava tendo mesmo era um ataque epilético!
Como ele não sabia identificar o distúrbio, ficou grilado temendo que a profissional batesse a caçoleta e ele fosse acusado de “homicídio por indução de apogeu genésico múltiplo sem intenção de matar!”
Deu Samu na parada e os amigos, todos comerciantes e profissionais liberais barrufados, mais uma vez acorreram, aparando o novo pepino. Quem tem amigo, não morre pagão!
Um conhecido profissional liberal que lida com escrita na nossa city, deu conselho a ele de agora em diante para acertar a escrita com a patroa em casa, que é mais seguro. Afinal, está provado que o bicho não nasceu para prevaricar...
Esse mesmo bem sucedido profissional chegou a filosofar, citando: “Se um carroceiro, estando perto da carroça, ler a história da vida desse frustrado mini Dom Juan, dinâmico e alegre comerciante, o burro cai no choro...”
Haja cadeado e tranca.


60702
Por Raphael Reys - 20/8/2010 08:27:41
MONTESCLAREADAS XVII

Cidade pólo da região Norte de Minas, Montes Claros conta entre seus tipos folclóricos com os banqueiros informais, também conhecidos popularmente como agiotas. A sabedoria popular relata de forma hilária a atuação dos mesmos no exercício da profissão. Chamam os mesmos de coração de pedra, carrascos, unha de fome, fuinhas, medonhos e outros adjetivos desagradáveis.
Um deles ia diariamente à casa de um devedor para cobrar os juros, em pequenas parcelas, já que o principal houvera sido resgatado. O devedor se desfizera de todos os móveis e utensílios da casa para fazer jus a esse ressarcimento diário. Como chegou ao auge da penúria, a sua cachorrinha de estimação era só o couro e o osso, de pura inanição!
O “cash man” chegou, como de costume, para a cobrantina, dessa vez exigindo o pagamento total do atrasado. O devedor abriu as portas da casa para mostrar que só havia sobrado a cachorrinha amarrada no quintal do barraco. Ofereceu a mesma como pagamento do débito.
O agiota entrou e constatou a veracidade dos argumentos e ao ver a cadela magérrima, recusou-a e exigiu outros bens quaisquer, como paga. O devedor argumentou que só tinha a sua mulher, que estava deitada numa esteira, no chão do quarto. O banqueiro popular foi até o quarto, verificou a oferta e voltou cabisbaixo com o que viu.
E para concluir em definitivo o ressarcimento, sentenciou: vou levar a cachorra mesmo!
Douta feita, o homem estava no Bar do Edson, na Praça Doutor Carlos, no centro. Um invejoso o vendo como sempre mal vestido e com roupas rasgadas, falou: Você, um homem milionário e vestindo roupa rasgada! Tome jeito e compre roupas novas! Os seus filhos andam todos no maior luxo!
O financista tupiniquim, todo relax, respondeu sem mudar a inflexão da voz: eles andam bem vestidos porque têm pai rico! Não é o meu caso, pois nasci pobre, de pai e mãe pobres e não tenho privilégios.
Abordado certa feita na Galeria Ciosa, por um devedor executado e do qual tomara a casa, o mesmo estando descontrolado, pois fora abandonado pela mulher após o infausto acontecimento, aos gritos avançou sobre o agiota, agredindo-o e rasgando a sua camisa. Foi contido por populares.
O irado executado gritava a todos os pulmões: “rasguei a camisa dele!” Tranqüilo, numa “nice”, respondeu a vítima: “rasgou minha camisa, mas perdeu a sua casa de morada...”
Outro agiota, em 1962, com atuação em bairros pobres, buscava receber vinte cruzeiros de um seu compadre também morador e vizinho, nos ermos dos matos entre a Vila Brasília e o bairro Santos Reis. O devedor vivia de pequenas criações e da cata de mangas e pequis.
Como estava sem arranjar serviço, sabedor que o compadre credor era caído por sua mulher, uma bela morena roliça, propôs dá-la em pagamento, com aquiescência da mesma, para saldar o débito. O negócio foi feito por acordo das partes e o devedor ficou com a mulher do credor, na catira batida.
Recebeu ainda, como volta, cinqüenta cruzeiros, uma porca parida e um canivete Corneta na bainha, dado à plena satisfação do credor com a dupla transação: no bolso e na cama...... O delegado Miguel Abdo tomou conhecimento da catira batida, por denúncia de um vizinho das partes, que ficara invejoso.
Infelizmente, uma negociação tão original deu para trás, pois, em diligência, a autoridade foi até o local e anulou tudo, alegando “moralidade pública”...


60547
Por Raphael Reys - 12/8/2010 08:11:16
MONTESCLAREADAS XVI

“ essa crônica é dedicada a nossa leitora a Dra.Fabla Vasconcelos,
Filha do nosso grande amigo Gerinha Português”

Refletindo o dito de Lê Carré, em fazer excursões acadêmicas pelo ministério do conhecimento humano, veio à minha memória algumas curraleiragens próprias de montes-clarenses saudosos.
Zé Amorim no bar de Edson Barrão conversava com o próprio quando viu dele se aproximar um conhecido fazendeiro todo posudo. Vestido nos trinques, sapato de pelica, relógio e pulseira de ouro, anel de brilhante no dedo. Zé aponta para o recém chegado e diz maliciosamente: “Aí tem coisa!”.
O Zé conversava com o delegado Guedes quando passa um conhecido. Esse, bastante pálido e apresentando sinais de decrepitude. O homem das “Amorincianas” fala, na bucha: “Nesse ponto em que o traseiro murcha é sinal seguro que logo vai dar cemitério”.
O arquiteto Cascão, por telefone, solicita um encontro com o Zé no Café Galo. O motivo é pedir autorização para preparar um livro contando os causos e verve do Zé. Cascão chega, um gigante de tamanho e dado à fria aragem de junho vestido com uma camisa de lã, manga comprida, listras ao estilo rural americano.
Do outro lado da rua o Zé vendo o candidato a escritor fala: "pode atravessar a rua lenhador canadense F.D.P. O livro sobre minha vida, só depois de morto. Já imaginou a patroa lendo histórias das minhas estripulias”.
Logo chega o Dácio Cabeludo e o nosso herói, vendo o ex-bancário João Lima ao longe pergunta ao Dácio: “Você conhece esse sujeito barrigudo com a sacolinha de frutas?” Cabeludo retruca: “Esse “fiduma” me fez passar a maior vergonha recentemente! Acontece que fui ao Banco da Lavoura pagar uma conta com urgência! Como a fila estava dobrando o quarteirão e ao ver o João chegando à boca do caixa, fui de mansinho e falei aos seus ouvidos: “Paga esse pepino para mim que é uma urgência”. O último prazo é às quinze horas de hoje!”.
Prosseguiu relatando: “O homem deu o maior esparro! Gesticulou, como um louco e disse: Você está doido! O pessoal da fila vai me crucificar!” Entregou-me de bandeja!
Em uma crônica publicada em jornal local, o saudoso médico, seresteiro e poeta João Vale Maurício fala de um diálogo que teve com alguém sobre o vetor do Mal de Chagas. No diálogo, o popular disse: “Fui picado por um barbeiro!” Maurício, esclarecendo, responde: “Barbeiro não pica. Barbeiro chupa!” Foi o bastante para que os oficiais barbeiros da cidade dessem o maior chilique!


60418
Por Raphael Reys - 2/8/2010 08:30:31
A Turma do Gibi
Nos bons anos 60 e 70, o bar do Haroldo, fincado na esquina das ruas Corrêa Machado e Melo Viana era o “point” da rapaziada. Muita cachaça curraleira, cerveja casco verde e os famosos PFs e tira gostos de galinha caipira. Além do caprichado tempero, o “molho” e as mandingas do mestre cuca, sempre atraíram muitos clientes.
Lá no bar, a galera pulava e se assanhava como uma farândola de diabretes, quando havia jogo de futebol entre Cruzeiro e Atlético. As turmas de torcedores rivais se peiteavam, mostrando faixas e cartazes com “slogans” alusivos à contenda, cantando refrões provocativos. Era o maior auê!
Dentre os personagens mais animados, se destacava o Tipuka. Tipo exótico, conversa arrastada, mãos tortas, corpo torto, parecendo cavalo de umbanda incorporado na "Escora". A bem da verdade, era cobra criada, um servente de pedreiro da turma do mestre de obras Roberto Pimenta, o maior 171 do pedaço. Esse criou fama como o mais esperto de Moc City. Dava uma de menino de creche para poder sobreviver.
Bem próximo dali e no passeio em frente ao Cine Ypiranga, trabalhava uma grande turma de engraxates com suas caixas características. Dentre muitos, Geraldo dos Beiços, Nego Tó, Luiz Pinguelo, João Finin, Artur Cegão, Carlai, e o memorável Nau Faquir, morto tragicamente no mundo do crime.
Como ferramentas de trabalho, pastas Nugett, escovas, flanelas e a tinta Fenomenal, usada para mudar a cor dos sapatos.
Por qualquer alegria ou fraco motivo baixava o santo na galera. Aí todos enchiam a cara, engrossando a turma dos torcedores do Atlético, no Bar Destak da carnavalesca Dona Linda e dos cruzeirenses, no Bar do Haroldo.
A galera daqui sempre foi muito criativa, unida, e como a alfabetização não chegou para todos os moradores da comunidade, apesar do progresso da nossa urbe, nasceu entre os freqüentadores dos bares e do cinema, uma escola sui gêneris.
A “alfabetização” era feita através do manuseio de revistas em quadrinhos e pela leitura dos que eram alfabetizados, com a memorização das falas dos personagens, textos e imagens pelos demais, surgindo, então, entre os aficionados por revistas em quadrinhos, a Turma do Gibi.
Clubes idênticos funcionavam também à porta dos cines Fátima, Lafetá e Coronel Ribeiro.
Como a didática ministrada à porta do cinema se dava com os participantes em pé na calçada, desenvolveu-se somente a leitura e não a escrita. Nessa galera, figuravam alfaiates, aprendizes, serventes de pedreiro, operários, mestres de obra e serviço, artesões.
Nessa fase a bela professora Estelita Cardoso moradora da rua Melo Viana, matriculou uma boa parte da galera na distante Escola Vila Telma. Funcionava numa tapera com paredes de adobe, coberta de folhas de coqueiro a luz de gás e o sacrifício era irem a pé à noite com quase uma hora de percurso. Conseguiu alfabetizar centenas de jovens do Bairro Morrinhos e adjacências. A diretora do educandário coberto de palha era Maria da Glória Xavier.
Todo sacrifício em prol da educação dos jovens!
Dentre muitos, Pacuí, Pipiu, Lika Alfaiate, Cláudio, Aroldin, Lianão, Marquinho Kiko, Zé Maria, Eustáquio Perneta, Padeça, Hildebrando de Zefira, Zeca de Dona Linda, carregando o botijão na bicicleta cargueira. Lá estavam, além de muitos outros não citados, traídos pela memória e a nossa lembrança.


60405
Por Raphael Reys - 31/7/2010 09:24:32
Pradinho da Serra

Mirinha Maciel, essa adorável filha de Figueira, é ariana acelerada e de uma figa. Pura energia cabeça, intelecto e memória privilegiados, coração universal e solto. Platônica, por aderência filosófica e a Simone de Boveauoir, por opção doutrinária.
Inovadora como ela só, construiu a sua Pasárgada tropical e a chamou de Pradinho da Serra. Logo se chamará Agrovila Uka Uka.
Montou esse oráculo na Chapada da Lagoinha, onde, surgindo do acaso, abelhas arapuás que irão se enrolar nos fios do cabelo, silvestres e embriagadoras cagaitas, “oromas” de panãs maduros, marmelada de cachorro enramado nas cercas, colônias de carrapatos ruduleros, grudados nas folhas do araçá e que se alimentarão do sangue de um pequeno ginete cor de burro fugido, que servirá para dar voltas em torno de um eixo.
Lá se acorda com o sopro do vento frio vindo da Chapada dos Pimenta, escutando miríades de trinados dos canários da terra, umas notas como as de um prelúdio de valsa, outras tão altas com tons na escala acima do dó central. Aqui, nesse Éden porreta e curraleiro, ela e os amigos, curtirão, numa boa, a sua merecida aposentadoria. E como a vida é bipolar, há de ser do jeito que Deus pediu e da maneira que o diabo gosta. Será um viver de rédeas soltas nesse mundo doido e sem cancelas...
Dividiu a sua terra em algumas chácaras e chamou os melhores amigos para fazerem parte da egrégora tropical. Alexandre e Maria, Miguel e Tânia, Buteco e Danusa, Virgínia de Paula e Tico Lopes, o artista benzefala da terra do pequi, entre os privilegiados. Virgínia já teve uma revelação mística no local e a sua parte vai se chamar Por (ou Esplendor) do Sol. Tico batizou a sua de Chácara do Tico Tico e foi justo e frouxo ali que recentemente caiu um meteorito!
O objeto cósmico veio com um rasto de fogo do Canadá até Moc City. A NASA diz que o fragmento é oriundo do planeta Capela, da Constelação do Cocheiro.
A galera da “Nova Era” já pintou no pedaço e já taxou o” lance da transação” de Altas Energias.
A dita Agência Nacional de Aviação em sua sapiência e malandragem ofertou (para quando for desenterrado o meteorito) ao Tico Lopes a bagatela de 200 mil dólares pelo “barato estrelar”. O nobre Tico e para desencargo de consciência, pensa em passar 20 por cento da bufunfa para sua protetora Mirinha Maciel, a matriarca do pedaço.
Com o restante da grana que veio na maior moleza irá montar uma trupe de músicos, tocadores, cantores, sapateadores de lundu. Será a “Tico Tico Lundu Company”. Farão uma turnê pelas cidades similares do mundo. Entre armas levarão na bagagem várias caixas de cachaça Viritatinha, requeijão de Salinas, farinha do Morro Alto, carne de sol dois pelos de Mirabela, pequi de Coração de Jesus e de Bocaiúva, levarão raiz de carapiá para dar cheiro no cigarro de palha.
Como proteção astral levarão patuás de Oxossi pendurados em cordão feito na Roda de Aruanda.
Começarão a excursão pelas cidades similares: de París - Patís. Londres - Lontras. New York - Nova Iorque. Japon - Japonvar.
Farei parte da trupe como cronista, conselheiro, consultor e como sou pedólatra (admirador de pés femininos), farei um estudo libidinoso comparando os pés alvos e delicados das filhas da Rainha com os pés rachados e escolados das "tomadeiras" de água do rio de Lontras.
No repertório musical da companhia e como atração maior, a música Rapariga do Bonfim, do excêntrico roqueiro Eltomar Santoro, o único artista montes-clarense que já foi abduzido (e devolvido) por extraterrestres!
Motivo: Eles não agüentaram a fubuia que o homem toma!


60251
Por Raphael Reys - 18/7/2010 09:46:50
Dois Ursos

Aqui na nossa romântica e preconceituosa Montes Claros, acontecem coisas de que até a Divindade duvida. Luiz Carlos Novaes, o Peré, editor do competente Jornal de Notícias, em sua sapiência jornalística afirma que faço parte da turma da Mocmenia. Ou seja, dos apaixonados pela história da nossa aldeia.
João Montes Claros, um fiel leitor, envia por e-mail a lembrança de um causo de Zé Mário, ou Zé Amaro e que era contado pelo gordo bancário Quitú Rosa.
Certa feita, em 1955, chegou a nossa urbe, uma parte desmembrada do internacional Circo Burney, o mesmo em que fora filmado “O Maior Espetáculo da Terra”, tendo Burt Lancaster como ator. Trazia como atração principal um dócil urso pardo de terceira geração circense. Ficou instalado na Praça Coronel Ribeiro, na época um descampado sem urbanização.
Fez a alegria da garotada e da população em geral, pois eram tiradas como lembrança, fotos de conterrâneos abraçados ao gigante bípede. Virou o chamego da ordeira população local e passou a ser chamado de “Papa Mel”. A chapa fotográfica, obtida como lembrança, era batida pelo nosso fotógrafo Coriolano Guedes.
Zé Amaro, como era "entrão" e próprio do seu feitio, rompante e agitado, furou a fila.
O momento único, clicado por uma Kodak visor plano, captava o cidadão abraçado à enorme barriga do colossal urso. Zé era tampa de binga, igualmente pançudo, extremamente agitado, falava gesticulando, gritando com voz metálica, gutural e cheio de interjeições e grunhidos. Acabou que o animal o confundiu com uma possível fêmea na versão tupiniquim e lhe sapecou um abraço acochado, dando-lhe um bafo quente no cangote...
Ficando a boca escura, o nosso barulhento herói comerciante de secos e molhados pulou fora. O urso, preso por uma enorme corrente de aço, fez um sinal com a mão chamando o Zé de volta aos seus braços peludos... Zé respondeu com os braços num gesto de “banana descascada” e pronunciou a frase que acabou virando moda na época:
“É Bebé! Mamar na gata você não quer, não é?...”
Já o internacional artista, nosso querido globetroter Tico Lopes, conta que o comerciante corjesuense Pedrim de Araujo, estava participando de uma pescaria às margens do rio Pacuí e comia uma feijoada original, daquelas que tem até prego de tábua de chiqueiro dentro, enquanto o seu folclórico cavalo Fenomenal pastava um bom colonião.
Pedrim tomava como guia uma boa cachaça......, quando surge em cena um enorme urso guarado, solto na larga da chapada. Corajoso e resoluto, Pedrim orelhou o gigante e falou grosso no seu pé de ouvido:
“Aqui não é sua região, seu bichão besta! Portanto dê o fora antes que eu te pele o saco e encha essa bocona de chumbo quente!...”




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Por Raphael Reys - 14/7/2010 13:27:44
ZÉ SARUÊ

Notório dono de boteco desta terra de Figueira nos anos 50 e 60. Construiu a sua história e fama em uma espelunca fincada no antigo prédio rococó do Mercado Municipal, onde hoje se encontra instalado o Shopping Popular. Tipo caucasiano, barriga proeminente, nariz de turco, andar apressado, afobado, galegado, glutão, destemido, olhar de gavião. Esperto que nem coelho, dormia com um olho fechado e outro aberto. Não despachava para o bispo e a sua filosofia de vida era trabalho, dinheiro no bolso e estamos conversados...
A casa era, ao mesmo tempo, bar, restaurante popular, guarda volumes, ponto de jogo do bicho, catira de objetos e jóias e no estrado de madeira posto acima do piso, como mezanino, um depósito, além de um quarto de aluguel para casais inflamados pela semântica libidinosa da roça. Ele jogava nas dez e batia com pau de dois bicos!
O PF servido em suas mesas era famoso pela suculência em gordura e temperos. Pimenta malagueta à vontade. Como o fogão era de lenha, sempre caia algum “picumã” do teto nas panelas. O que potencializava a rusticidade do prato!
Na área havia sempre uma morena popozuda por perto para fazer companhia a freguês nas mesas de bebidas e distrair o passante que sorvia uma cerveja Teutônia ou mesmo uma Pilsem casco verde. A cachaça, servida na garrafa arrolhada, era curraleira e deixava o usuário com as parietais pegando fogo. Quase sempre algum desavisado estando chumbado pelo álcool ingerido, caia ao solo quando descia os quatro degraus íngremes da porta de entrada. O Zé carregava o bebum para dentro, molhava sua cabeça com água fria, dava um copo de consomê e o botava para descansar em um canto. Ele era despachado. O negócio era prestar serviços, ganhar dinheiro e pronto. Não tinha coré coré!
Era comum ter em estoque e para vender, balas de todos os calibres, uma boa carabina Papo Amarelo, uma espingarda polveira para matar mateiro ou mesmo um treisoitão que o cliente comprava para pipocar algum desafeto por perto. Tinha uma visão apurada do futuro e como sabia das coisas da vida e conhecia o mundo e o submundo, tornou-se um conselheiro nato. Arranjava, sob encomenda, um advogado dos bons, um macumbeiro supimpa e mesmo um parrudo guarda costas...
Num sábado de sorte em 1965, joguei na sua banca do bicho e acertei a milhar 2376 na cabeça. Me ingrupiu no papo e como o montante ganho era bastante expressivo, alegou pouco capital de giro e levou quinze dias me pagando em parcelas até completar o total do prêmio.
Zé Saruê, a bem da verdade, aproveitou a minha grana e ganhou juros em cima, trocando cheques de pequenos valores e prazo curto dos comerciantes do logradouro.
Tudo o que caia na rede, para ele, era peixe, pois não dava murro em ponta de faca!


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Por Raphael Reys - 10/7/2010 11:17:55
A BANDA ROLÔ

No nosso Morrinhos tem de tudo! No mínino uma versão diferenciada de quase tudo. Tem coisas por aqui que até o próprio Criador duvida! Embora eu tenha o meu imóvel residencial a trinta e seis anos por aqui, só neste dezembro é que fiquei sabendo que aqui rola a Banda Rolô!
Para o cidadão afeito ao seu cotidiano de trabalho, vendo novelas na TV, falando mal do vizinho, tomando fubúia desdobrada e gritando Galo e Cruzeiro, a tal banda é um estigma. Um verdadeiro estado de espírito da galera local. Para fazer parte da banda o cidadão tem que fazer de tudo, ou quase tudo em matéria de conjunção carnal. Tem que traçar o que aparecer (como um condenado) tem que comer homem, mulher, fruta e às vezes até trocar. Esse é a temática dominante dos participantes. Afora a banda rolô e sua fuleiragem tropical, tem os personagens que vivem criando situações exóticas e aprontando presepadas. O notável Gasta Bala dava uma de lutador Shaolin na esquina da Melo Viana e encarava o saudoso percursionista Cí Baixim. Vacilou e levou uma porrada tão doida que veio a perder todos os dentes! A galera do Destak Bar se cotizou e pagou um par de dentaduras para ele. Aí o Gasta Bala de boca nova encheu o "toba" de fubuia, comemorando um gol do Atlético e gritava na porta de dona Linda: Galo... galo...! As próteses caíram no chão e um cachorro vadio abocanhou as mesmas e gramou o beco pela rua Melo Viana abaixo!
Doutra feita, o mesmo Gasta Bala indo para uma pescaria com a turma e estando liso, leso e louco surrupiou uma garrafada da sua vizinha. A toda hora mostrava a garrafa para a turma e dizia: essa é minha, vou beber sozinho! Não deu outra! Pegou uma disenteria braba acompanhada de expurgo de lombrigas tênia que saiam pelo nariz, boca, canal da urina e pelo anûs! A garrafada era um abortivo!
Zeca do Destak cozinhava uma panela de pressão de bucho e joelho de porco no seu bar, atendendo a sugesta de um jerico palpiteiro fechou a válvula da dita panela com cadeado para apressar o tempo de cozimento. Estourou tudo e os tira-gostos ficaram pregados no teto da espelunca! Aí a galera chegava pedia uma desdobrada e ficava olhando para cima esperando cair um naco de bucho...
Cí Baixim, que era flor que não se cheira, aplicou o 171 no capilé da Raimunda Paraibana com quem namorava. Alisou a valentona e caiu na gandaia gastando a bufunfa! A paraibana botou um revolver de brinquedo dentro da blusa para fazer o agá e cercou o Cí, no Beco dos Carijós. Batia no peito e gritava: sou mulher paraibana... Sou mulher macho.. Devolve-me o meu dinheiro... De tanto bater no peito intimidando, cabo do revolver saiu para fora e Cí sacando a sugesta aplicou na mesma um telefonema internacional nas orelhas!
Aí o Zeca foi para o desfile de carnaval na avenida com o quengo cheio de goró. O repórter que fazia a cobertura do evento televisivo o entrevistou: Zeca! Qual é o tema da Escola Destak para esse ano? Zeca em cima do pedido respondeu: O teimoso aqui é o Marquinho! Como esse ano ele não desfila está tudo calmo! Já o Vivi Peixe pirulitava na esquina da Melo Viana com Correia Machado altas horas bagunçando com um grupo e cheio de mé. Uma patrulha policial chegou e desmanchou a rodinha mandando todos irem para suas casas. Vivi fez que foi, entrou no Bar do Paixão, tomou outra e mostrando o dedo em riste para os policiais falou: aqui pró cês, óia! O comandante da patrulha bateu o coturno com força no chão gritando: pega ele!
Vivi ficou uma semana desaparecido! Gramou o beco e se escondeu no Alto Severo!


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Por Raphael Reys - 4/7/2010 15:49:13
O VALENTE E O CANÁRIO CHAPINHA

Nos anos 50, Montes Claros era uma urbe dominada pelo preconceito, boçalidade, subserviência religiosa e o coronelismo. A métrica dominante na psicologia dos habitantes era o critério subjetivo. Qualquer roupagem ou padrão desconhecido era imediatamente condenado.
Numa manhã, o lendário investigador de polícia Zé Idálio, fazia campana de rotina no pátio da Rede Ferroviária Federal. Passava a vista em possíveis passageiros desconhecidos que desembarcavam no terminal. Logo viu um cidadão bem vestido, sapato de pelica, chapéu de feltro e vestindo um colete de veludo sobre a camisa de linho.
Como essa peça de vestuário não era habitual por aqui, o chegante foi interceptado. Preso e conduzido à Delegacia de Polícia, que à época situava-se na rua Camilo Prates onde hoje se ergue o Fórum de Pequenas Causas. O cidadão ficou uma semana trancafiado com marginais. O motivo da detenção era o indefectível colete.
Viera de São Paulo para regularizar os documentos de um veículo adquirido inicialmente em nossa cidade.
Em 1955, o então governador de Minas JK veio à nossa cidade para campanha política. Hospedou-se no Hotel São José de Juca de Chichico. Logo irrompeu na praça Coronel Ribeiro uma passeata de estudantes do Instituto Norte Mineiro de Educação, fazendo o enterro simbólico do governador em represália pelo mesmo não ter cumprido anteriores promessas de campanha. Reivindicavam a instalação de geradores móveis para fornecimento de energia elétrica a nossa urbe. Ameaçavam entrar com a urna funerária simbólica porta adentro do hotel.
A passeata era capitaneada por Lazinho Pimenta, João Luiz de Almeida Filho e tendo como porta voz de desaforadas palavras de ordem o gordo bancário Quitú Rosa. O cabo Zé Idálio, valente e destemido como sempre, peitou a turba, manobrou o fuzil Mauser e fez disparos por cima da cabeça da galera, impedindo a invasão do hotel.
O capitão Coelho, comandante do Destacamento Policial local, em seguida e como complemento, efetuou uma rajada de metralhadora Iná 45 contra a parede de adobe do imóvel dos Pereira, numa demonstração de força, assustando o jovem político Edgar Pereira o mais agitado e empolgado da turma.
Em pânico, na correria que houve, Quitú Rosa gramou o beco e foi se esconder dentro de um grande forno de assar biscoitos. Como era gordo, ficou entalado e com o traseiro de fora e só a muito custo o livraram da incômoda situação, puxado pelo cabo Zé Idálio e mais quatro soldados. Uma cena digna de Fellini!
O lendário policial, hoje com seus 88 anos, firme que nem aroeira preta na queimada é morador da rua Melo Viana e meu vizinho aqui no bairro Morrinhos. Volta e meia sentamos à sua porta para relembrar histórias e causos dos nossos Montes Claros. Ele é um arquivo vivo, pois participou da maioria das tragédias de antanho acompanhando tudo como chefe de investigação.
No seu currículo policial consta ter feito papel, entre outros, de delegado de polícia e chegou mesmo a chefiar equipe de investigação da Polícia Federal em Belo Horizonte, dado à sua competência e destemor como profissional.
Certa feita, o meu ex cunhado o jornalista Leonardo Campos ofertou dez mil pratas por um conhecido e cobiçado canário chapinha do criatório do Zé. O dito pássaro brigador e campeão era originário da Bolívia. Fora adquirido em Araçuaí onde tinha status de cabeceira e cantador.
O Zé não vendeu o espécime ao jornalista, emboramente a vultosa oferta, alegando que estando a gaiola do canário colocada no corredor ao lado do seu quarto de dormir, nas cálidas manhãs era acordado por miríades de decibéis do trinado. O maravilhoso som entrava casa adentro, repercutia pelas paredes, fazendo elevar a alma e o espírito, num enlevo de pura poesia... Portanto, não o vendeu, pois o exemplar que inspirava e propiciava tanto encantamento não tinha preço, alegou, com toda razão!
Comentou, em seguida, que nenhum dinheiro do mundo compraria aquela pássaro que ensejava, diáriamente, um momento único de puro romantismo em contato com a natureza...
Não vale a pena deixarmos pelo caminho pedaços de nós mesmos. Afinal, o dinheiro paga mas não apaga a enorme falta que nos faz, além da angustiante saudade que nos deixa, tantas coisas simples, partes da nossa vida e que, eternas, são infinitamente mais importantes do que alguns trocados a mais...


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Por Raphael Reys - 30/6/2010 07:53:26
MONTESCLAREADAS XV

Montes Claros, terra de Figueira, cidade pólo, com seu centro comercial, educacional e referência em atendimento médico hospitalar. Por aqui se encontram representados e refletidos, ao vivo, todos os tipos humanos característicos da região Norte Mineira.
Nesta nossa semi-urbanidade, o campesino que chega veste as primeiras roupagens psicológicas no seu ego da roça.
Ao garimpá-los e retratá-los eles se tornam universais, pois, por aqui, no dizer do saudoso Deca Rocha, encontram o murrão da roça e a nossa curraleiragem.
Este nosso universo em microcosmo, tem desde o jurão até o capiau com cara (somente a cara) de besta. Do Loqui de chapéu, ao malandro vendedor de relógio micha. O fumador de cigarro de palha, que nada mais faz do que ficar imaginado um golpe no vizinho.
E como relata o atleticano doente Evandro Canzil, “tem contra-agá e agá-do-contra-agá”!
Tem até um clube de Pedólatras, ou seja, admiradores, aficionados e apaixonados por pés femininos, do qual tenho a honra de participar como “hors concours”.
Seguindo, pois, o dito de Gabriel Garcia Marques: “procuro na escuridão daquele baú sem fundo suas miudezas dispersas”, num garimpo dos tipos todos eles imprescindíveis que por aqui afluem.
Informa-nos o indefectível galã e conquistador do Quarteirão do Povo, Paulinho Relojoeiro (que recentemente retornou a Moc City vindo do Maranhão onde está montando empresa), que nas cercanias da sua terra natal, Mato Verde, tem um político folclórico.
Discípulo da Escola Georgiana Curraleira e sendo candidato a um cargo eletivo, foi fazer um comício politiqueiro no povoado de nome Bonito. Lá chegando, não encontrou como era de se esperar o palanque armado, pois a oposição sabotara.
Seguindo linhas traçadas que levam ao uso do alheio, uma praxe na classe, apanhou na moral dois tambores metal de 200 litros que se encontravam em uma carroça de carregar água e sob a guarda de um filiado da Santa Federação dos Carroceiros Mato-verdenses.
Armou o seu palanque atravessando sobre os tambores uma tábua de bom tamanho servindo como piso e iniciou o seu discurso sofístico, cheio de Agamenon e picaretagem tropical. Não deu outra! A galera curiosa que havia chegado foi saindo de fininho. À francesa.
Ao terminar o seu papo furado coletivo, a platéia estava reduzida a uma só pessoa. Chateado com o ocorrido, o discípulo de Górgias comentou com esse paciente e único assistente “que aquele povo não sabia prestigiar quem merecia”.
Ato seguinte, agradeceu a “vítima” pela presença. Para sua surpresa, o recém elogiado ouvinte respondeu, calmamente: “eu estava era esperando terminar o seu papo furado para levar de volta os meus tambores de apanhar água que o senhor apanhou e usou sem pedir permissão.
E temos dito!


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Por Raphael Reys - 22/6/2010 07:59:15
MONTESCLAREADAS XIV

“Depois de escrita a história, vale pelo que parece e não pelo que foi...” - Rachel de Queiroz.

Falando ainda de mandingas, ebós e macumbarias, me vem à recordação certo sargento de milícias aposentado da nossa urbe, meu amigo. Filho de santo mal resolvido aproveita o que aprendeu de magia para aplicar o 171.
Ele faz as suas rezas bravas e engana de Raimunda a todo mundo, principalmente os comerciantes locais. Como sou conhecedor da malandragem no trecho e para provocá-lo, perguntei se ele ainda estava na ativa com as forças escusas do além.
Fingindo não ter me escutado convidou-me a lhe fazer companhia até um açougue próximo à Praça de Esportes. Lá chegando, instruiu-me a prestar atenção enquanto ele entrava e com rezas iria sumir da vista. Cegaria o açougueiro e daria o cano na casa. Abri bem os olhos e pude ver quando ele desaparecia como se houvera entrado por trás de uma porta invisível.
Levei o maior susto e me arrependi em ter feito a brincadeira de mau gosto. Suei frio pelo impacto em mim produzido. Passaram-se cinco longos minutos e ele, da mesma maneira como desapareceu, voltou ao meu campo visual dando uma risada de ironia e môfa!
Trazia nas mãos duas sacolas contendo carne bovina e algum dinheiro em espécie. Ato seguinte, falou: “Você duvidou de minhas rezas. Aí está uma sacola com cinco quilos de carne para você. De quebra, tomei do açougueiro zuretado cem reais. Vou te dar cinqüenta”.
Fiquei perplexo e constrangido ao mesmo tempo e pedi desculpas por minha ironia. Devolvi a carne e o dinheiro, já que aquilo contrariava os meus princípios cristãos. Em seguida, perguntou-me “se estava de bom tamanho”.
O Romãozinho tem os seus protegidos e afilhados. Não se pode confiar em nenhum marmanjo hoje em dia
Não demorou tempo e nos encontramos, dessa vez na Praça Doutor Carlos, quando ele me apresentou outro seu igual, que com ele andava. Um baiano que está sempre por aqui fazendo mandingas e sustentando “demandas” para políticos.
O dito para se divertir faz filtros de encantamento, ou filtros de amor como são chamados para conquistar e levar para a alcova beldades suburbanas da nossa cidade.
Daí o meu aviso de advertência aos maridos, namorados e amantes, vítimas dos Ricardões amigos do além. Antes de culpar a sua amada pela triangulação, procure averiguar se ela não é mais uma das vítimas dos encantamentos e filtros de amor do “pé de pano” macumbeiro.
Para encerrar a crônica com chave de ouro, vai aí o meu conselho de conhecedor e iniciado, pois sou mestre em ciências ocultas e letras mal traçadas: Sei de um feiticeiro que atende nas proximidades da Rocinha e que vende Flamalial a quem interessar possa.
Os pequenos e diminúsculos entes, usados para fazer magia, são fornecidos aos compradores acondicionados dentro de um pequeno vidrinho com tampa de borracha. Daqueles encontrados antigamente em farmácias contendo penicilina. Lembram-se deles?
Aviso aos meus fieis leitores: Se alguém chiar na rampa e botar em dúvidas a minha informação e dicas é só me falar que abrirei a caixa de segredos e darei nome aos bois, ou seja, os seus habituais compradores. A missão do cronista é ver e relatar.
Para se livrar da ação desses mandingueiros tupiniquins, faça preces de esconjuro e se apegue ao seu santo de estimação. Cruze os dedos e diga: “Signo de São Salomão três vezes me livre dos catimbozeiros”!


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Por Raphael Reys - 18/6/2010 07:47:21
OS BEM LANÇADOS

“ Em homenagem ao figuraça Márcio Milo que nos deixou e deixou saudades”

No tempo da linha dura, de 1964 o point noturno da sociedade jovem montes-clarense era o footing da Praça Coronel Ribeiro. Relatei os fatos numa crônica publicada em dezembro último, na imprensa local.
Os rapazes bem dotados tinham o fã clube feminino, que era composto pelas bem lançadas moças da época; por levarem vida sedentária, resolveram jogar futebol de salão diariamente no Montes Claros Tênis Clube, a nossa Praça de Esportes.
Como a quadra era freqüentada por outros grupos de jovens e equipes de bancários e comerciários, logo se estabeleceram rivalidades. O fã clube das garotas sempre presente aos treinos, para aplaudir os rapazes componentes do time Showciete, apelidado de Os Bem Lançados.
Dentre muitas, hoje já avós, As irmãs Marly e Marci, que foram miss Montes Claros, Tetê Santa Maria, Valéria, Zione Drumonnd e outras beldades.
Moças usavam a fragrância de Chashemere Bouquet e os rapazes o romântico perfume Gardênia. Elas vestiam saia, anágua, blusa buclê, ou banlon, diadema na cabeça. Eles, calça jeans Roebuck, camisas Prist, ou Mac Gregor, sapatos Clark, Samelo, relógios Mido, cabelos cheios, isqueiros Ronsons Typon e cigarro Capri.
Bebia-se Martini Dry, Cinzano Rossi, Cuba Libre, Hi fi, vodka Smirnof, gim tônica, acompanhados com tira-gosto de canapés.
Comia-se baião de dois no Restaurante Mangueirão, tomava-se Vaca Preta e Vaca amarela no Bar do Cambuí, dançavam-se na Juventude em Brasa do Automóvel Clube, nas horas dançantes do Clube Montes Claros, da boate da Praça de Esportes além dos clubes volantes e na festa junina da Fazenda Quebradas, de Pedro Veloso.
Na equipe do Showciete, os bem lançados: José Eustáquio, Piondoba, que fechava o gol, Geraldo Renã, Fernando Etiene, Mimí, Márcio Milo,o galã do bairro São José dentre outros, atraiam a atenção da moçada da jovem guarda.
Alguns passeavam pelas ruas com modernos carrões Aero Willes, Simca Chambord, Dauphine, usando perfume Gardênia.
A tragédia levou alguns jovens da época. Tony Boy, no acidente da ponte da Cowan e Paulinho de dona Emília, no seu Chevete 74.
Lá pelas tantas da noite a galera caia na gandaia e ia farrear nos lupanares, que pululavam nas nossas noites tupiniquins. Românticos cabarés de luxo, onde se podia apreciar a beleza das estrelas de Vênus.
Verdadeiras deusas da beleza, a Aurora e seu sex appeal estonteante, Etelvina, Eliana e o desempenho de Maria da Lapa, uma potranca curraleira de longo fôlego, que pulava tanto que jogava o parceiro fora da cama!
Para encerrar a farra e já no lusco-fusco da manhã, era hábito degustar um bom baião de dois no Restaurante Mangueirinha, acompanhado de uma cerveja Malzbier, para produzir o efeito descarborizante.
Nós temos história, somos da roça, mas somos chiques!


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Por Raphael Reys - 13/6/2010 09:47:37
MONTESCLAREADAS XIII

1962, um nobre rebento figueirense, o Tico Lopes já era tirado a posudo e cabeceira. Como fora convidado para a festa de casamento de Dedé Lopes e dona Fiinha, esperava isso sim, em lá chegando, ser visto e admirado com destaque entre os curumins presentes.
Foi todo arrumado como gente. Cabelo cortado à moda Príncipe Danilo, topete grudado no Gumex, jardineira segura por um suspensório com presilhas douradas, lencinho de organdi no bolso superior, usando um moderno quedes e calçado com meias Lupo da melhor cepa.
Para sua surpresa e seu carma, o menino João roubou a cena. Como já sabia recitar uma pequena poesia o guri virou destaque principal. Posto em cima das mesas, carregado nos braços, pra lá e prá cá, a recitar... ”eu ganhei uma pêra/prá casá com Rany de Alcides Ferreira”.
Como se tornou a atração maior recebeu todos os cuidados e comeu do bem bom e do melhor. O nosso Tico Lopes relegado ao plano terciário, nem foi notado no ambiente! Ficou amarelo e babando de inveja enquanto o já desafeto, deitava e rolava atraindo os gemidos das meninas presentes.
Por esse pequeno verso o dito recitador gesticulava e fazia pose exagerada como se fosse o maior artista da paróquia.
Tico Lopes tinha em seu currículo já ter participado de uma encenação de batizado de boneca, no papel de padre oficiante e devidamente “batinado” em papel crepom. Julgava-se gabaritado e merecedor de um destaque na festa e não foi o que aconteceu, por ironia do destino.
No dito batizado de boneca a mestra Carlota Prates havia escrito e ensinado o Tico a declamar um verso alusivo: “Eu te batizo com água pura porque você é uma criatura.”.
Ao retornar da insidiosa festa e já no Jardim de Infância Presidente Bernardes onde estudava, Tico procurou o Crisógono e lhe relatou o seu infortúnio. Empático e enquanto escutava o relato do sucedido, Crisógono escreveu no selim da bicicleta sueca um verso para o invejoso mirim declamar na próxima oportunidade.
Textualmente, o verso dizia: “Eu batizei a boneca, com água benta e batina. Vou casar com a Vicentina”. A Vicentina, musa do rebento invejoso era, a bem da verdade, Clarete Gomes.
Agora diga meu caro leitor, se nós não temos poesia. Nós somos curraleiros, campesinos, preconceituosos, praticantes do murrão da roça, pitadores de cigarro de palha, degustadores de farinha Morro Alto, tomadores de cachaça Viriatinha, mas somos cabeceira!
Nós somos chiquérrimos!..


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Por Raphael Reys - 9/6/2010 07:43:51
O ANIVERSÁRIO DE CRISTINA TRINDADE EM BELÔ.

Quinta-feira, 03/06/2010, em Belô e Augustão me convida para o aniversário da bela geminiana no Godofredo Bar, o “point” da moda, em Santa Tereza, integrado à alma do Clube da Esquina.
Noite bastante fria nas Alterosas, todo mundo usando lã, cachecol e um desfile de lindas mulheres com botas elegantes, saltos Luiz XV. Cristina radiante e alegre como sempre, nos recebeu amável e gentilmente, com sua família presente nesse novo ambiente decorado ao estilo estúdio musical.
Gabriel Guedes dando uma de garçom, Iam Guedes com sua lindíssima Bianca, uma loira monumental estilo “Deutschland” (filha de minha amiga, a inteligente Mirinha Maciel). Silvana, esposo de Beto Guedes, com sua alma alegre e livre abraçando, contando piadas e se relacionando com todos os presentes.
Nas paredes, muitas fotos do Clube da Esquina e da família GG, de músicos, compositores e cantores. Uma sacada com vista privilegiada aos morros próximos, um piano, órgão e um ambiente onde está sendo instalado o museu Godofredo Guedes. Gabriel, Iam e Bala Doce deram performance ao piano acompanhado também por outros profissionais presentes.
Rolou muito som ao estilo Vinícius, João Gilberto e a mística do Beco das Garrafadas.
Uma noite memorável de pura bossa nova, gente famosa do mundo musical de Belô e as luzes dos morros de Santa Tereza fazendo pano de fundo. Para que a comemoração fosse perfeita, faltou a jornalista Marcinha Yellow, com os seus cliques e sua sensualidade estonteante.
Um evento de puro glamour com a comemoração do aniversário de Cristina, o desempenho artístico de muitos dos presentes com os corações transbordando de alegria.
À meia noite se formou um coro de vozes, todos com os corações em repique, quengos inflamados pelo ótimo “scotch”. Muita mulher bonita e um desfile de roupas de inverno ao bom estilo belo-horizontino. Hamilton Trindade, irmão da aniversariante, informou que voltará a residir em Moc City.
Fui à festa levado pelo enorme coração catrumano do Augustão Bala Doce e voltei de carona com a levíssima Mirian Souza. Mais uma amizade nova e uma alegria para meu sofrido coração biônico. Adoro librianas!
E viva nós, os dá roça, viva a bela Cristina, viva a galera dos Guedes, viva Patão e Godô no céu, viva a nossa curraleiragem!
Nós somos “très” chiques!


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Por Raphael Reys - 30/5/2010 09:30:46
A ALMA DA CADELA

Raphael Reys

- Esta crônica é dedicada ao notável jornalista Américo Martins Filho, em louvor de sua dedicação estremada aos cães.
Em uma crônica recente relatei a história da cadela Madona. Foi para o nosso convívio desde o primeiro mês de vida até a sua morte prematura. Todos em casa a consideravam tanto quanto a um membro da família.
Quando a encontramos na via pública bem pequena, estava sendo escorraçada por cães maiores que vadiavam ao deus-dará. Corpo esguio, pelo curto e amarelo, cintura delgada, focinho longo, olhar quase humano.
Temperamento dócil, embora assustasse pelo porte.
Chegava a ser meio indolente e contemplativa. Parecia estar sempre aguardando algo a acontecer. Observava as pessoas no ambiente doméstico e pela expressão do olhar parecia analisar suas reações.
Era tratada com muito carinho e à pão de ló, pois vivia deitada no colo das pessoas da casa, como se fosse gente. De temperamento recluso, na única vez que saiu porta afora, se perdeu. Quando a vislumbrei estava sendo levada pela carrocinha de cachorros do Serviço de Zoonose Municipal. Sob grande emoção de toda a família a resgatamos e houve festa na volta de Madona ao lar.
Mas o que quero relatar mesmo é um sonho, ou seria uma projeção astral, que tive após a sua morte física. No cenário da ação onírica, ou astral, cheguei ao local onde Madona se encontrava: Uma casa simples, cercada de jardins e muitas flores habitada por seres de aparência angelical.
Ao me avistar, veio correndo e me abraçou. Fui recebido pelas pessoas num cenário quase diáfano e logo se deu uma reunião em uma sala bastante formal e clássica na parte interna. Só que nessa oportunidade a cadela falava!
A conversa entre aqueles seres, a cadela e eu teve como tema a alma dos seres que vivem no nosso planeta Terra. Falaram da egrégora da alma de cada animal por espécie (uma grande alma), da subdivisão em alma bando e do animal que é tirado do bando e levado ao ambiente doméstico.
Assim, ao viver em cativeiro, o animal passa a fazer parte da história e do carma e darma da família que o acolheu, ou da pessoa que o levou para criar, tornando-se responsável pela alma individualizada do animal, que passa a ter uma personalidade própria.
A própria alma da cadela Madona e em separado, em outro diálogo, versou sobre a metafísica dos seres vivos na terra, falou dos animais que estão na fase perespiritual próxima aos seres humanos, tais como o cavalo, o elefante, o gato e o boi carreiro. Segundo o relato, a alma desses animais está no último estágio e quando reencarnarem novamente já serão seres humanos.
Em seguida, revelou-me que a Centelha que anima a egrégora da alma grupal dos animais é de origem divina e que eles, os animais, estão nesse mundo de provas em missão de renúncia. Vieram para ajudar a lapidar a personalidade distorcida dos humanos encarnados através das suas presenças.
Daí a importância da troca de afetos entre seres humanos e animais.
Consultem os seus sentimentos e tirem suas próprias conclusões. Somos seres encarnados em missão evolutiva e de aprendizado.


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Por Raphael Reys - 25/5/2010 15:44:29
Já que todos estão falando do cachorro de estimação, abaixo a minha crônica sobre MADONA a cadela de estimação da minha neta! O fato ocorreu em 2006.

MADONA

Só agora posso lhes contar sobre os meus temores, sobre a minha alma ferida, pela perda do cão da minha neta, a cadela Madona em 08/01/2006. Foram onze anos de convívio com todos aqui em casa.
A sua ida para o mundo superior nos trouxe uma dor irreparável!
E aí é que bate o ponto! Fui escolhido para levar a cadela para o final. Aí aconteceu, não queira, mas aconteceu:. Como nossos olhares se cruzaram numa despedida derradeira estava relatando, não devia, mas aconteceu.
Pelo seu olhar, ela me disse que sabia de tudo, da tentativa de lhe poupar de dores atrozes na sua condição terminal, da eutanásia (esta palavra, agora, me magoa).
Nossos olhares se cruzaram e as nossas almas se tocaram, numa apreciação final. Medimos um ao outro, num enlace. Foi tudo muito rápido!
Aquilo me marcou profundamente! Imaginei que, aos 58 anos, já tivesse estrutura para tanto, respaldado no meu suposto conhecimento esotérico, filosófico, e de convivências fraternais adquiridas prematuramente, desde os meus nove anos de idade, em escolas iniciáticas.
São 49 anos de iniciações, de aprendizado, de provas, de aplicações de leis em ações. Foram centenas de noites usadas, sem dormir, me submetendo aos testes insólitos, viagens de milhares de quilômetros para atravessar portais físicos e metafísicos, sociedades secretas, nos arredores do Recife, nos Lençóis Maranhenses, nas praias desertas do Ceará, nas caatingas de Pernambuco, no Himalaia. Pensei que havia aprendido a compreender a dor de uma perda.
Erro crasso! Usando as palavras do profeta Davi: A minha alma voltou-se para o chão! Caiu o meu aprendizado como mestre e prevaleceu a minha plástica e emocional alma písciana, feita, conforme dizeres do psicanalista e astrólogo Shullman: para reunir todas as dores do mundo.
Só agora, sem ninguém a me observar, covardemente embaço as lentes dos óculos. Não consigo mais definir os caracteres na tela do computador.
As lágrimas me dominaram! A minha alma está no chão!
Cedeu-se ao ingente peso do lastro emocional. Um amor de uma cadela.
Finalmente compreendi que os animais têm alma, são seres em evolução. Ou estão encarnado, em missão de renúncia, para ajudar a lapidar a nossa brutalidade instintiva, o nosso atavismo, o nosso alter ego cambaleante.
Confesso que Madona, em vida, conseguiu angariar a dedicação, o carinho e a dedicação de todos em casa.
Veja bem como são as missões de cada ser vivente encarnado. Como diz um trecho de uma canção portenha: Cada qual com o seu cada qual.
Foram necessários 58 anos de vida difícil, de privações, de provas, de missões, para que então eu chegasse ao olhar último de Madona, com o que caiu por terra o meu utópico conhecimento adquirido.
Fiquei planificado! Uma cadela de estimação e um olhar final! Tudo bem dentro da minha alma plástica.
Agora, no chão, sei (e que ótima sensação estou tendo) que sou apenas mais uma alma em descompasso... Em desalinho, um errante andejo neste mundo grande e bobo de expiações... De aprendizado, de sonhos!
Tudo, tudo mesmo no conhecimento (só agora sei) se resume ao que vai pelo coração... Pelas vias emocionais.
Bem razão tem os poetas quando choram!
Somos almas-instrumentos. Eles, os cães, o nosso melhor amigos, também o são.
Não existe o acaso. Todos os encontros são transcendentais! Agora, e por intermédio da cadela Madona, posso dizer: sou um ser emocional, sou uma peteca com coração, muito embora o mesmo já apresente distúrbios de F.A.
Não sei se, dado ao fato de ser eu portador de uma patologia crônica, tenha ficado sensível e fino ou se tudo foi uma grande iniciação no universo do meu interior! O tempo me dirá.
Dia seguinte à morte de madona e a escrever essa crônica e, em viagem de carro à Brasília-DF, onde mensalmente faço um retiro espiritual, um caminhão desgovernado na pista, me levou a uma manobra evasiva de urgência. Engavetei o veículo na lateral de uma carreta, fugindo do impacto frontal com o caminhão a 180 quilômetros por hora.
O carro entrou no efeito sanfona e o motor rachando absorveu o impacto. Rodopiamos engavetados na pista e paramos Saí sem um arranhão. A morte de Madona foi o mata borrão que sujou o Karma daquela minha Nona Hora.
Os animais são seres em missão de renúncia!


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Por Raphael Reys - 21/5/2010 09:49:28
MONTESCLAREADAS XI

Hoje ainda falaremos dos valentões da terra de Figueira, um verdadeiro ninho de cobras. No centro comercial e como amostragem da raça curraleira, havia quatro chapas de caminhão (carregadores) que bagunçavam o coreto. Mão de Onça e Leonel Estrelinha eram os cabeceiras.
Era só tomar umas e outras e o pau cantava na casa de Noca! O terceiro e ainda vivo é o nosso Brigadeiro. Impunha medo pelo seu físico avantajado e sua cara de mau. O Tiaozão era o quarto exemplar dessa amostragem e para se divertir metia o bofete em contendores ou em quem mais fosse, bastando não ir com a cara da “vítima”.
Já Leopoldo Cozinheiro, o primeiro gay assumido da cidade e falecido recentemente aos noventa e três anos de idade, era filho de santo em Umbanda. Quando estava “atuado” vestia roupa de Pomba Gira e rodava a baiana. Consta que chegou a enfrentar na mão limpa o efetivo de quatro viaturas policiais!
Para animar festas populares em bairro contratava-se o Fôfo. Emérito tocador de pandeiro, olhos esbugalhados, topete de galã. A festa sempre terminava em pancadaria. Já o “bookmaker” João Pena andava trabucado e para compensar aplicação de malandros na jogatina, volta e meia metia o Smith Wesson na boca de algum vagabundo.
No futebol de várzea também havia quatro valentões afamados. Efigênio Preto, treinador do Vasquinho que incentivava os seus pupilos gritando “baixa o pau”. Júlio Rabada, que por qualquer questãozinha metia o murrão da roça e o Godofredo, defesa do Tiradentes, que dava cabeçada dentro e fora do campo. O último bravo da várzea era o Ronaldo Troção.
Dêma Côco jogava baralho e freqüentava a rinha de galo de Zé Côco. Quando estava bronqueado botava fogo no circo. Benjamim do Otani era um gigante de tamanho e de presepadas. Vivia trocando lingüiça Maria Rosa por pinga. Puxava o dono do boteco pela gola da camisa e o obrigava a fazer a barganha, na marra!
Dentre os militares que atuavam no policiamento ostensivo, que ficou conhecido como SWAT, havia o Geraldo do Rapa, Wilson Fróes e o Luiz Batom. Não despachavam para o bispo e resolviam tudo na bordoada.
Dentre os brabos de antanho, destacavam-se os Mió, os mecânicos Vovô e Pau de Sebo e os gêmeos Sarará dos Morrinhos. Gavião e Nilo Carioca toda vez que se encontravam saiam na tapa, para deleite da galera de aficionados.
Diz a sabedoria popular que todo homem, na vida, tem direito pelo menos a quinze minutos de fama. Leonel Estrelinha acordou tocado pelo glamour do Romãozinho e resolvido a provocar um incidente que o colocasse em definitivo na história da valentia montes-clarense.
De pronto e por sorte do mau destino encontrou o Coronel Georgino, na lanchonete do Zimbolão. Oportunidade melhor não havia! Entrou na cara dura no recinto e cutucou a Fera falando grosso ao pé do seu ouvido: “Tem fogo aí, Negão!” Para sua sorte, ou azar da sua fama, emboramente um homem destemido e conhecido também pela sua incomum coragem, que jamais levou desaforo para casa.O nosso herói da revolução de 64 nesse dia não reagiu, pois se encontrava em estado de graça, saboreava uma caçarola italiana, feita por Duca e Nazareth Prates e sorvia um suco de laranja curraleira. Certamente o que deve ter acontecido uma única vez na sua vida.
Provocado, o valente militar, com britânica fleuma, apenas respondeu com um sorriso: “Desculpe, mas eu não fumo, cavalheiro!”
Depois de escrita a história vira História com “agá” maiúsculo e se torna universal. Relato, portanto, este conhecido incidente, que, no seu bojo, encerra o sonho de todo valente de Montes Claros de antanho.


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Por Raphael Reys - 17/5/2010 08:32:41
MONTESCLAREADAS X

O “Aedes Aegypty”, popularmente conhecido como mosquito da dengue, vem aterrorizando e sacaneando a humanidade desde tempos imemoriais. Papiros oriundos do Ministério da Saúde da 18ª. Dinastia do Egito, dão conta de que a rainha Nefertiti e o faraó Akhenaton foram picados.
Em seu costumeiro vôo rasteiro aqui nos Montes Claros o mosquito pica desde cruzeirenses, atleticanos até os Alvianil do saudoso Ateneu de Dona Albertina, que só não foi picada por beber muita cerveja, deixando qualquer inseto no maior porre...
A bem da verdade, muito se comenta sobre a tal picadura do mosquito. Nas mesas dos boêmios e notívagos da terra de Figueira, garante-se que todo macho (homem) que for picado fica com intumescimento permanente.
Afinal, quem pica mesmo? O mosquito macho, a fêmea ou os dois picam? Muitos indagam se a tal picadura produzida mosquito dói no começo, meio ou no final do procedimento. Se a mesma acontece na pele, poros, glândulas sebáceas ou se o “veneno” é diretamente inoculado na corrente sanguínea.
Comenta-se que o nosso estilista Jerry Alfaiate, que já foi picado (várias vezes), capturou recentemente em seu “atelier” um exemplar do Aedes macho, o pintou de vermelho e soltou janela afora. O resto da colônia, deu no pé.
O inusitado fato ficou conhecido como “Operação Mosquito Vermelho”. “Alguém chegou a intitular de “Mosquito Frufru” ou mesmo "Mosquito Jerry”.
Cauteloso, dado à sua formação investigativa, o biomédico Edmilson Carneiro fez pesquisa na área, objetivando a prevenção e nos sugere a seguinte receita de repelente: 1 litro de Álcool Etílico (92,8) – 2 pedras de Cânfora – 10 cravos da Índia – Deixar em infusão por 8 (oito) dias e usar com cautela dado à presença do álcool. Crianças deverão ser borrifadas pelos pais ou responsáveis.
Borrifa-se nos pés, pernas e braços. Tal repelente é fartamente usado em acampamentos militares e de escoteiros.
Falando em biomédico nos vem a lembrança o saudoso figuraça Virgílio de Paula. Folclorista e batizado mestre do tambor, era caprichoso e gostava de bebericar uma vodka russa da melhor cepa. Estando de fogo em uma festa, foi mordido por um escorpião urutu preto. Não deu a mínima!
Como o seu teor hematológico era mais vodca, o escorpião se deu mal e bateu a caçoleta.
Nas rodinhas que se formam no Café Galo e no Kentura Kente, se pergunta: “Quem tem medo de picadura de mosquito?”... E se ele, assim como a abelha, deixa o ferrão no local.
Fique atento!


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Por Raphael Reys - 13/5/2010 08:20:04
MONTESCLAREADAS IX

Montes Claros tem suas histórias de magia e mistério. Recentemente, aqui no “site” falei do Bode Zebedeu. Cabeceira do Vodu do gongá do saudoso babalorixá Chico Preto.
Desmamado em um catimbó do Maranhão, o citado caprino foi trazido como encomenda a nossa urbe, para servir aos ritos afros da casa de santo já mencionada.
Criado a pão de ló e com todo dengo que compete o seu “status”, tem a cama em que dorme dentro de uma camarinha. Como já participou de muitos e tantos ritos de Ebó, adquiriu a “subjugação” do ente chefe da casa.
Volta e meia e estando fora da função ritualística, apronta e faz bagunças na circunvizinhança do Bairro doutor João Alves. Quando está na baixa veia libidinosa caprina, bota gente prá correr!
Certa feita, carente de mimos degustativos e melindres, o bode de Chico Preto, como é também chamado, foi parar em uma frutaria localizada na Ponte Preta. Não sendo ente humano e como não carrega dinheiro de qualquer espécie, chegou na maior cara dura subiu na banca e devorou maçãs, peras e outras gostosuras.
O proprietário, sabedor das artes da além fronteira de onde o invasor é originário, tomou cuidado. Defendeu-se, colocando uma cesta de frutas em definitivo à entrada. Nela afixou uma placa: “Repasto do Zebedeu!” Ficava assim posta e em definitivo, para quando bem o aprouvesse e a sua disposição, a refeição “light” do respeitado personagem de chifres citado...
O fato mais notório, entretanto, se deu em uma boca de noite de um “Sabatto” na casa. O gongá preparado para a função, a hierarquia a postos, filhos e filhas de santo na roda quando entra um evangélico bramindo uma bíblia e ameaçando parar com tudo.
Desafiou o chefe do culto a lhe provar que aquelas almas invocadas existissem, produzindo uma manifestação. Uma via de fato!
O babalorixá exigiu respeito à casa, ao culto, ao livre arbítrio religioso, aos símbolos autorizados e registrados, o que eles representavam, aos presentes e convidados da noite.
O invasor, entretanto, estava possuído da macaca urbana, coceira no “fiofó” e não deu bola para o que disse o xerife da casa.
Seu Chico acabou aceitando o desafio. Mandou buscar o Bode Zebedeu na camarinha e o colocou em frente ao desafiante. Ato seguinte iniciou o diálogo:
- Se o bode conversar racionalmente, o senhor se dá por satisfeito e vai embora, evitando até que eu perca a paciência e lhe dê uma vassourada na cabeça?
O enfeitado invasor, fazendo boca de muxoxo e ar de môfa replicou, em resposta: “Prá mim, está de bom tamanho!”
Ato seguinte, o caprino, atuado pela entidade do Ebó, ficou em pé sobre as patas traseiras, tomou uma postura arrogante e disse rilhando os dentes: “Se você demorar mais um minuto aqui, vou comer o seu terno engomado como sobremesa, seu palhaço enfeitado!”
O mijo quente e ácido, aliados a dejetos líquidos jorrou pernas abaixo do invasor, numa cena grotesca e laxativa!


58160
Por Raphael Reys - 9/5/2010 10:06:48
MONTESCLAREADAS VII

Deba de Freitas, notável líder político de antanho, andava pelas ruas trupicando em seus próprios passos ligeiros. Arqueado sob o peso da sua incomensurável pança, um verdadeiro cemitério de galinha caipira.
Quando encontrava algum menino seu afilhado e eles eram muitos, tirava uma moeda de dois tões do bolso e dizia: “Toma para comprar bala Toffe no bar de Adail Sarmento, meu afilhado”.
O hoteleiro Juca de Chichico contava histórias da sua viagem a Transjordânia durante a Segunda Grande Guerra Mundial. Relatava também o causo da garrafa cheia de diamantes que afanara de um garimpeiro que nele confiara. Quando algum passante perguntava: “Como vai seu Juca?” Ele respondia, ao mesmo tempo em que fazia o gesto de trazer para si o interlocutor:” O que aperta não machuca...”
Já o emérito pecuarista João Athayde era circunspecto e de poucas palavras. Andava elegantemente vestido com ternos modelo Scaraveli, confeccionados em cazimira Aurora. Como seu xará, o também elegante João Chaves, usava gravatas borboletas feitas de seda francesa. Pouco aparecia em locais públicos e quando fazia presença, passava a passos largos, pisando de maneira determinada. O olhar sempre fixado à frente e para o alto.
Padre Agostinho Becaussen, pároco da Catedral no tempo em que um cemitério circundava a igreja, falava gritando impropérios. Quando alguém ou alguma coisa incomodava os seus botões, incorporava o bicho da cólera urbana e pulava e gritava como se estivesse numa farândola de diabretes. O seu olhar era impiedoso, o humor inflamado e a sua alma de répobro!
O babalaorixá Zé Fernandes, tinha um flamalial preso dentro de uma pequena cabaça que quedava pendurada no seu altar de santo por uma embira. Quando precisava de algum favor especial, soltava o ente com expressas ordens de só voltar após cumprir a missão.
Como bem relata o jornalista Tião Martins: “Minas tem coisas de que até Deus duvida”, haja vista o bode Zebedeu, folclórica figura caprina que faz parte do corpo ritualístico e do ofício religioso do vodu do Terreiro de Chico Preto. Inspira respeito e medo e quando vagueia pelas ruas do bairro Doutor João Alves a galera lhe abre caminho...
Dia desses, ao passar por um lote vago onde transcorria uma pelada, um morador desavisado apanhou uma pedra no chão com a intenção de arremessá-la no dito. O bode o encarou e disse entre dentes: “Joga se você é homem, seu xibunge!”.
O otário amarelou de susto e medo enquanto vertia água salgada pernas abaixo...


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Por Raphael Reys - 4/5/2010 08:01:36
SONHOS, DESAMORES E A LENDA DE ALBANY

- Esta crônica é dedicada a Albany Chaves, com seu ar de mistério!

30/04/2010, Amelina Chaves levou-me, novamente à tiracolo, ao encantado povoado de Boa Sorte. Como condutor e guia: Altair Fonseca. Fomos ao lançamento do livro sobre a saga de Baltazar Duarte, o desbravador do Éden tropical.
No Barreirinho, onde inicia o córrego Bandeira, com o outono já mostrando a sua face monótona, um festival aéreo de folhas em queda sincronizada caiam sobre nossas cabeças. Tocada pela aura poética do momento, Amelina solfejou... “Enquanto o vento dava/as folhas caiam/Siriri cantava/siriri caía...”
Um sofrê amarelo ouro com suas miríades de notas tão altas, encantou-nos com seu canto bem acima da escala do dó normal. Os temidos xinhêns voavam em formação desencontrada próprias de predadores a caçar calangos, teiús e coelhos nas áreas ainda não reflorestadas.
Ao longe, um expressivo matraquear de tucanos nas locas da serra e o leve estrepitar do burrico “Pequeno” sobre o caminho de pedras.
Com um “quantum” de sentimentos eriçados, as nossas almas epidérmicas ansiavam pelas flechas de Cúpido. Aí, nos veio a recordação do poetinha, quando dizia que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro nesta vida...
Estancamos o carro para observar o paredão de calcário onde Jacó, um quilombola, ousou alçar vôo com asas de palha catulé buscando a liberdade dos pássaros.
Já à frente da casa de Baltazar e Isabel saboreamos biscoitos de queijo, polvilho e formamos uma roda de dois dedos de prosa. Falamos de sonhos, premonições, fase REM, volitação da alma em sua condição perispiritual, duendes, ondinas e elfos. Comentamos a mania de dar nós de Albany, uma filha de Amelina, Marte noturno, afilhada de Plutão.
Baltazar, o guerreiro branco falou da história do poço da Barra do São Joaquim, o poço do côco da noite! Uma fábula relatada originalmente por Joaquim Rodrigues, que a recebeu de seu avô, que a recebeu de seu bisavô que por sua vez relata a ter recebido do seu tetravô na era do século XVII.
O côco do poço guardava em seu bojo a “noite”, com seus mistérios e magias acorrentadas. Um dia chega a Boa Sorte um estranho e curioso personagem. Talvez um elfo disfarçado e usando chapéu jaberrou, vindo não se sabe de onde e quebrou o tal côco.
Aí o tempo ficou bipartido. Dia e noite, cada qual no seu cada qual!
Durante esse tempo que durou sete dias e sete noites, o dia ficou em cima da Serra do Marimbondo e a noite sobre a Serra dos Caetanos.
Consta que Joaquim Rodrigues, o relator dessa lenda era catimbozeiro. Benzia até mordedura de serpente peçonhenta.
Albany, a filha do meio de Amelina, que nasceu entre sete rebentos acima e sete abaixo, falou do mito da Sereia Do Pente De Ouro, que ofusca com seus raios a visão dos campesinos moradores próximo à lagoa do Riachão. Falou também da grande Jibóia Da Cabeça De Boi, que é a guardiã daquele portal de mutantes e mistérios.
Logo mais as festividades de cultura do município, teatro infantil, ludoterapias, jogos, arrasta pé, discursos e muita emoção com os corações molhados pela chuva fina que caia e inflamados pela aragem que vinha da curva do rio.


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Por Raphael Reys - 2/5/2010 10:03:46
O ANIVERSÁRIO DE LOLA CHAVES

Comemorado no luxuoso anexo do Bufê Duca e Nazareth, como bem compete ao gosto requintado da aniversariante seresteira, tudo decorado ao alegre estilo havaiano, contentamento, música, congraçamento e dança sob o céu de outono, resultaram numa festa memorável.
Um verdadeiro festival de energia trocada entre velhos e novos amigos da musa acadêmica, valorizado pelo colorido das roupas, a beleza da decoração e o ambiente logo ficou lotado de gente amiga.
Silvana Mameluque estava linda, pois a sua roupa combinava com a cor do seu cabelo e o talhe europeu do rosto.
Lola, como sempre elegantemente vestida, postada na mesa de frente, atenciosa e divertida como de habito, recebia a todos com abraços. Refletia a sombra intermitente das lamparinas havaianas que saudava os deuses da noite.
A Seresta Lola Chaves encheu o ar de emoções e encantou os nossos corações com a magia nostálgica do seu famoso “pout pourri”. Deu de Chiquinha Gonzaga com a monumental Lua Branca, até o clima boêmio e romântico de Boate Azul.
O momento mais aguardado da festividade aconteceu: Lígia Chaves, um rouxinol campesino, irmã da aniversariante, cantou e encantou com “Guadalupe”. Foi demoradamente ovacionada e logo o palco se encheu de velhas amigas em afinado coro bastante uníssonas. Quem viu, encantou-se!
Entre os componentes da seresta, mestre Jesuíno, um "Lauzinho da Guitarra sem pecado”. O extenso muro caiado, posto lá no alto da elevação das laterais, conferia um clima de privacidade ao evento.
O colorido das roupas dos presentes aliado aos tons da luxuosa decoração, criavam um plano de contrastes com a cor prateada dos cabelos dos incontáveis amigos de Lola que iluminavam a festa.
Dentre muitos e tantos ilustres convidados, que o tempo e a exigüidade deste espaço não me permitem relatar, aconteceu à simpática presença do poeta e agora apresentador de televisão, o amigo Giovanni Santa Rosa e foi um prazer revê-lo.
Fiquei confortavelmente instalado tendo à mesa o casal escritor Haroldo Lívio (Maria do Carmo), meu mestre de letras e para que nossa felicidade fosse completa, ao nosso lado, a musa de todos nós, a admirável e queridíssima acadêmica Yvonne Silveira, presidente da Academia Montesclarense de Letras.
Na ocasião, dona Yvonne relatou que há oitenta anos, quando conheceu o seu marido, o saudoso escritor Olinto Silveira, compôs um poema intitulado “A Noite da Novena”.
O compositor Maya, também presente à mesa, foi quem musicou a obra:
“Cidadezinha nascente/ruas claras de luar/aonde os tristes seresteiros/ louvam ternos amores/nas modinhas a cantar...”.
Carinhosos parabéns e muitos anos de vida, querida Lola Chaves!
Poucas pessoas, como você, recebem com tanta classe, que lhe é congênita, bom gosto e naturalidade, bem à altura de sua nobre linhagem: os requintados e tão admirados Chaves.


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Por Raphael Reys - 28/4/2010 07:46:03
MONTESCLAREADAS VI

(Leia na minha pasta de colunista deste site a crônica intitulada “I Almoço Curraleiro de BH)” e JAZZ.)

O emérito guarda costas modelo anos 50 e homem de sociedade, Zé Paraíso, notívago de primeira água, companheiro de copo e de cruz, rodava com amigos diletantes pela noite carregando no coldre um inseparável Schmit and Wesson 38, sempre lubrificado e, por baixo do paletó uma tira de lingüiça fina servindo de currião.
Sapecava os pedaços da iguaria com cachaça queimada e degustava-a como tira-gosto.
Já o saudoso médico e folclorista Walmor de Paula, na mesa do bar Cristal bebia gim tônica, abotoava e desabotoava a pulseira do relógio Tissot, colocando o mostrador para baixo. Fazia palavras cruzadas enquanto solfejava Noel Rosa... ”seu garçom, faça o favor de me trazer depressa/uma boa média que não seja requentada...”
Juninho, o homem espoleta, em 1964 sorvia doses de cachaça Dominante com Jurubeba Leão do Norte no Destak Bar. Afetado pela mosca do amor fez um disparo de treisoitão no próprio ouvido, transfixiando-o.
O projétil, em sua trajetória acertou ainda uma radiola RCA VICTOR que na hora tocava um bolachão de acetato com Nelson Gonçalves cantando... “Violão eu estou muito triste/sem amor sem carinho/solitário na dor...” O cirurgião Crisantino Borém o operou no Hospital Santa Terezinha deixando tudo como dantes!
O pintor de faixas e conquistador de cozinheiras de bar Sales Preto, bebia uísque “cowboy”, escutava “Devaneios” cantado por Júlio Yglésias e quando o bico estava melado só falava em inglês...
Onofre Carne Preta, pai de Fernandinho Boca de Louvor e ex meio de campo do Flamengo, tomava fubúia desdobrada, penteava o cabelo molhado, discutia com os postes de iluminação e ao ver um “de cujus” no caixão dizia: “não falei malandro, que você ia primeiro do que eu!”.
O mestre de obras Adail quando saia para farrear só trajava linho S120 branco. Tomava banho de perfume Mistral e passava a noite batendo as cordas do seu pinho e cantando músicas de serestas.
O fazendeiro Biô Maia colocava uma caixa de fósforos atrás da lente esquerda dos óculos. Impedia, com isso, que os raios solares da manhã ofuscassem a sua visão. Passava o expediente do dia sentado em uma mesma mesa do Bar Sibéria. Ao lado da geladeira com os picolés de água com groselha e com o braço direito amparado na janela. O espaldar da cadeira lhe servia de “bureau”. Pelo vão, atendia e despachava os negócios da sua fazenda, determinava o manejo do gado, acertava expedientes financeiros e tratava até das incursões noturnas nos bares e lupanares com amigos diletantes e companheiros de copo e de cruz.
Na mesa ao lado, bebia o notável fazendeiro Afonso Salgado e vez por outra o seu cavalo de estimação e escudeiro que o aguardava do lado de fora, passava a cabeça para dentro do bar para se certificar que estava tudo Ok com o seu patrão...
Nós somos da roça, mas somos chiques!


57725
Por Raphael Reys - 27/4/2010 08:09:53
JAZZ

13: h sábado de pouco tráfego de veículos produzindo um monótono ir e vir chegamos ao apê do Chico Ornelas no Funcionários, em BH. Fomos recebidos pelo charme ligth da Dona Rachel e pelo metal de Miles Davis. Logo começamos a bebericar, a dois dedos de prosa.
Confortavelmente instalados, deu para escutar um velho álbum de Chet Baker, estrategicamente principiando com ”So what”.
Com a alma já assimilada pela egrégora da casa e enquanto se ultimava o regabofe, escutamos a mística de The Trumpet Player. Foi servida uma mandioquinha no capricho e fomos comentar o novo cd de José Eymard ‘Clássicos em Ritmo de Bolero”.
Apanhamos o coronel Tininho em seu apê no Baixo Santo Antônio e a lua foi acordada pelo blues de John Coltrane com “Slowtrain”. Apreciamos as gravuras de Georgino Junior, com a influência do forte traço do seu mestre Konstantin Kristof.
Em uma das gravuras, disfarçada pela genialidade do artista e embotada pela malícia de quem encomendou a obra, uma musa da nossa geração, com o seu cabelo de bruxa irlandesa. Não falo o nome nem que a vaca tussa! Muito embora Lê Caré tenha afirmado que o segredo é algo que é revelado para uma pessoa de cada vez.
Aproveitei o clima de magia “in blues” e junto com Dona Raquel discutimos o efeito iniciático, o tubo para o inconsciente de quem lê ’Alice no Pais das Maravilhas”. Tinin tomava scotch, Chico degustava o “rusarô” da boa cachaça “Canarinha” de Salinas e esse cronista tupiniquim, afastado dos prazeres de Baco, sorvia refrigerante com sofreguidão.
O delicioso almoço ultra ligth foi servido ao estilo clássico e eu e o coronel Tinin Silva repetimos a parada gastronômica. Fechamos com um café servido em conjunto de xícaras com gravuras de Miró.
Com a pança cheia, a alma diletante e com sintonas de coração partido pela já chegante saudade tomamos rumo ao apê de Tininho, para a segunda fase do encontro. Ao abrir a porta do oráculo deu pra sentir os duendes do coronel. Aí as nossas almas tomaram um rumo de cavalo manso...
Uma bem montada sala/estúdio onde dá para sentir a banda distribuída pelo ambiente (arte maior do Chico Ornelas). Após alguns experimentos, Chico nos colocou em posições estratégicas para melhor curtirmos a unificação do jazz na nossa alma plástica.
Tinin, como o dito de Kafka; como quem avança sobre a face da água, colocou o seu místico chapéu panamá para sacarmos os contornos distintos do jazz de Diana Kroll em Temptation. Deu para escutar numa boa o blues rondo de David Brubeck em Kathys Waltz.
Eis o traço, eis o laço! O jazz, o grande unificador transformando ralhas de arado em pontas de aço e ferindo os nossos corações, formando a junção das nossas almas suscetíveis. As reentrâncias do meu Eu foram preenchidas na plenitude.
Falamos ainda sobre a bruxa de Figueira. Falei de um amor que não consegui realizar e Tinin me passou uma citação de Willian Blake: “Aquele que deseja, mas não age, exala pestilência.”
Assistimos o especial de um ano da morte de George Harrison.
Com a epiderme eriçada pelo frisson causado pela alma de metal da clarineta, as emoções em desalinho pela presença imprescindível e inevitável do outono, ouvimos Al Green – “How can you mend a broken heart” - e marcamos o próximo encontro para junho.


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Por Raphael Reys - 26/4/2010 19:02:59
NINFAS ENCANTADAS NA PASSARELA DE LEY LOPES

Sexta 23/09, desfile da coleção Outono/Inverno de Ley Lopes, em parceria com a Secretaria de Cultura. Como sou cronista “voyeur”, no “make off” já estava e flagrei a (doce) jornalista Márcia Yelow ensaiando as 28 beldades de Figueira.
A socialite Rita Maluf, charmosa como sempre, dava os últimos retoques no evento de cores, alegria e moda. Sentei e assumi um clima de cavalo manso, para absorver com o mata borrão das emoções o “frisson” da coleção chiquérrima e das modelos que desfilavam sob as ondas encorpadas do rap.
Peças modernas, “teens”, manequins esguias, saltos Luiz XV estrepitando na frágil passarela em tom vermelho esmaecido. De repente, um rosto e um corpo de deusa. Camila! Duas Yasmins em tons diferentes, a beleza de Ana Luiza e as formas perfeitas e o estilo equilibrado de Carla. Deus quando quer, realmente exagera ao construir certas criaturas... Muitas outras beldades desfilaram.
Um corpete negro passa ante os meus olhos sugerindo as artes diletantes de Eros e Vênus. O charme das peças, trilhas de rap, pastilhas que brilham e refletem a luz insistente dos “spots”.
Saia de moderno bufo multicolorido, vestidos com estampas de folhas tropicais estilizadas e, de repente, sinto um frêmito em minha alma plástica e esmaecida: Izabelle! A beleza pura. Um anjo adolescente com os seus chacras umerais.
Estou sentado em triângulo literal artístico com duas musas acadêmicas: a escritora Amelina Chaves e Lola Chaves, a seresteira, que logo é saudada por Marcos Paracatu solando “Amo-te Muito”, composição imortal do seu pai, João Chaves. Igor Silveira, o Cartier Besson curraleiro, apaixonado por mulheres meninas, fotografou tudo para a posteridade.
Sentada em quadro cênico com as colunas rococó do Palácio Episcopal e tocada pelo azul de um “lad”, uma loura sugere uma cena cinematográfica de Feline. Garotas desfilam com tez das modelos de Modigliani, umas quase nórdicas, e passa uma gordinha com um vermelho e negro. A modelo de Stendhal. Outra pintadinha como a garota de Moscou desfila sob o solo frenético do pinho de Paracatu e o ritmo imprimido pelo “crooner” que deu “show” e engrandeceu a beleza da coleção.
“Mamas” atentas e presentes ao evento observam entre severas e estupefatas o glamour das suas crias que enchem de encanto a passarela. Umas modelos tão pequenas e tão frágeis que lembram bonecas de fractais em holograma 3 d.
Márcia Yellow, muito aguardada e aplaudida, “arrasa” na pista de moda com sua beleza natural, seu estilo solto e impactante. Encheu o meu pobre coração eletrônico de esperanças...
Figuras bruxuleantes, móveis e inconstantes na parede azul da Igreja Matriz em uma alegoria ao Mito da Caverna de Platão, que queda na eternidade, ou mesmo no “panteón” sem saber do fulgurante desfile!
Parabéns a Ley Lopes e a Secretaria de Cultura pelo evento.



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Por Raphael Reys - 22/4/2010 09:35:43
O IMPERADOR DAS ALTEROSAS

Relata Eustáquio Tolentino que: “Não existe em BH ninguém melhor cicerone e anfitrião do que Augusto José Vieira Neto, herói tupiniquim, filho de Mercúrio e Vênus e afilhado de Baco. Que me perdoe Dona Maria Helena, sua mãe biológica!”
Foi meu mestre e guia em uma empreitada litero-etílica-luxurienta pelos portais diletantes de magia noturna da capital de todos os mineiros. Percorreremos em missão literal, trilhas de sofreguidão dos filhos da noite.
Iniciamos o maravilhoso périplo às 8 e meia no Restaurante Linha D’Água, recebidos pelo garçom Vantuil, personagem das crônicas do Bala. Fomos servidos por dois garçons: Carlinho, de Porteirinha, e Raul, galã argentino oriundo do bairro La Boca, da Buenos Aires de Perón e Evita.
Curtimos o piano de Vicente e a bossa de Lívia que nos brindou com “As Time Goes Bye” e “Close to You”. As passarelas da casa já fervilhavam com a presença de executivos e o desfile de manequins e modelos. Predominavam as louras e blondes, além de algumas morenas de arrasar quarteirão. Só em nossa mesa de abertura havia quatro louras aquarianas estilo madame Chanel e bocas de volúpia.
Augustão, por onde passa deixa uma multidão de admiradores e amigos. Na casa já imperava a lei antifumo para desespero dos aficionados. Dali, rumamos para o Primo Prima Prime, há mais de quarenta anos sob a batuta do mineiríssimo Otávio Clementino, o “Rei da Noite”. Na casa, muitas celebridades do mundo das finanças com seus bolsos barrufados. Em destaque, Wanderley Luxemburgo, técnico do Galo e amigo do Bala. Abafou, sendo paparicado pelos inúmeros admiradores e admiradoras, que flechavam em cima. Deu o maior “frisson” e a boate fervilhou como um “night club da Broadway”. O “scotch” Buckanas correu solto, as luzes vestiram roupagens de penumbras e os desejos se manifestaram explícitos.
O Grupo Retro, com Eustáquio Augusto e o suingueiro Gilson Cruz encheu a noite de bossa e balanço.
As emoções subiram e as feras do Eu, contidas pelo social, se manifestaram. Ficou tudo planificado, a galera cantou, dançou e rolou na pista sintecada. Foram dados amplexos entre côncavos e convexos. Ósculos úmidos, selados ou sugados entre lábios que se buscavam na amplitude inusitada da noite de magia.
Às cinco da matina Augustão deu uma canja num moderno piano de cauda, tocando músicas de Noel Rosa e tendo como “crooners” Otávio Clementino e Wanderley Luxemburgo. As almas se tornaram afins e o embriagado coro dançou e cantou uníssono.
Estava aberta a porta que nos separava do vazio opressor da metrópole. Ao longe, as formas simétricas e desencontradas dos espigões de concreto armado, a fuga esmaecida das cores desgastadas, o baticum frenético dos veículos destramelados que ferem o vão entre os sólidos edificados. Os tentáculos da sobrevivência já nos abraçavam, sentia-se um clima de outono ainda imprevisível.
Na face, uma mancha “rouge” de baton, um fio de cabelo feminino entre os dentes e o palato, uma fragrância de perfume embriagador no cangote moreno, o sabor da epiderme dela, com um leve traço de “scotch”. A alma refletida no olhar embriagado...
A porta do carro é aberta, surge uma mão com os dedos entrelaçados apoiados em uma na coxa quente. Há um beijo sugado, uma promessa de orgasmos múltiplos, uma entrega, uma súplica de amor bandido!
Do rádio portátil do segurança da boate ouvimos um resto de tango, um fundo musical embasando a saudade do momento perpetuado nesta crônica.


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Por Raphael Reys - 20/4/2010 07:40:14
I ALMOÇO CURRALEIRO DE BH
(Relatório de Viagem)
Sexta, 16/04/2010, l4 horas, Mercado Central de Belô, Restaurante “Casa Cheia”, considerado um dos três melhores da cidade. Tão lotado que, mesmo tendo sido feita a reserva antecipada pelo figuraça Felippe Prates, habituê, amigo diletante e figura muito querida da casa, ficamos por algum tempo acomodados nos corredores do excelente local, muito paparicados e bem tratados e só às 3 e meia nos instalamos à mesa e iniciamos, por sugestão do “gourmet” Felippe, a degustação do tão desejado “Mexido Chapado”, campeão da Comida de Boteco. Uma delícia e sua fama é justíssima!
O ar da festividade ainda não transparecia e nós, os escritores da roça, Felippe, Augustão Bala Doce, o notável, o “coronel” Juventino Silva, o galã, conquistador e degustador de louras de duas pernas, meu ex-cunhado Leonardo Campos, com seu sorriso de gato que comeu o canário do vizinho, já viviamos ótimos momentos.
Integravam, ainda, nossa emérita patota o jornalista Alberto Sena Batista, detentor do Prêmio Esso de Reportagem, em sua discreta alegria, Chico Ornellas, o célebre, sempre polido, um mestre anfitrião e este cronista curraleiro, autor destas mal traçadas.... Tomaz Capiau, ausente, foi chamado para depor urgente na Cidade Maravilhosa. Coisas da vida.
Uma aura de encantamento e recordações entre esses sessentões e setentões filhos de Figueira, portadores da semântica libidinosa do homem da roça. Felippe nos recebeu calorosamente e surpreendeu pela sua elegante barba estilo lorde inglês. Eufórico, pois em outubro irá para Stratford-on-Avon, terra natal de Shakespeare,na Inglaterra, a ilha da Rainha, a convite e estará sob a direção da primeiríssima especialista no genial dramaturgo inglês em toda América Latina, Bárbara Helidora, hoje com 88 anos, também famosa e rigorosa crítica de teatro no Rio de Janeiro, que há quarenta anos comanda um grupo do qual Felippe faz parte, de “estudiosos e admiradores da obra de Shakespeare”. Anualmente, o “Imperial Department of Art” do Reino Unido, seleciona e convida grupos semelhantes do mundo inteiro para encenarem peças de Skakespeare na terra do autor inglês, tudo por conta da Rainha e com polpudos prêmios em libras esterlinas para os melhores. Felippe lá estará, interpretando o papel título da peça “King Lear” com barba natural e na certa brilhará como rei, esbanjando talento e muita competência! Ele já incorporou o personagem e está a cara e o jeito do puro rei inglês!
A pedidos, deu uma “palinha” e brindou-nos, no original, com uma fala do seu personagem: “A bebida trás três coisas: Nariz pintado, sono e urina. Ela provoca e “desprovoca”, porque dá apetite, mas prejudica o desempenho...” Leonardo Campos empolgou-se com a pose e o inglês cristalino do nosso artista e retrucou teatralmente, em cima do pedido: “To be, or not to be, this is the question!”
O jornalista Joaquim Maurício, o Nenzão, participou emocionado do encontro em espirais metálicas, pela telefonia móvel. Falou um pouco com cada um e pediu empenho na divulgação do nosso livro “Eramos Felizes e Sabíamos”, escrito pelos sessentões montes-clarenses que participaram da festa de congraçamento ”Dois Pra Lá, Dois Pra cá”, em 2008.
O lançamento ocorrerá no próximo dia 04/06, no Bar Viena, em BH. Apresentei dois livros eróticos da escritora brejeira Amelina Chaves, Leonardo autografou seu excelente último livro “A Inacabada Família Humana”, para vários leitores. Segundo o renomado crítico literário Felippe Prates, o livro do Leonardo é uma obra prima! Evento curraleiro da mais pura emoção entre aplicadores do murrão da roça.
Felippe, Augustão e eu roubamos a cena contando causos do maior escudeiro de Moc, Zé Paraíso e do cabeceira Zé Amorim. Alberto e Ornellas quase não degustaram o petisco, pois riam às bandeiras despregadas... Desopilaram o fígado “opilados” pelo natural estresse da metrópole.
Foram comentados vários livros dos presentes que estão no prelo, e outros sendo escritos e Chico cobrou o lançamento dos meus, versando sobre a história e personagens da nossa terra e que estão de molho, aguardando patrocínio ou dinheiro “cash”.
Alberto falou do seu jornalismo nas Alterosas e da campanha que faz, para devolver à nossa Praça Coronel Ribeiro o ar romântico e rococó dos anos 60. Tinin aproveitou e perguntou se eu, aos 62 anos, ainda mantinha o mesmo sempre invejado e notável intumescimento dos corpos cavernosos!...
Combinamos reeditar, duas vezes ao ano, outros encontros “lítero-etílico-libidinoso-gastronômico-tupiniquins” e, inicialmente, ficou marcada a próxima edição para outubro vindouro, em data a ser definida.
Vida longa aos inimigos, para assistirem de pé, a nossa glória!
Nós somos da roça, porém “très” chiques. Quem viver, verá!


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Por Raphael Reys - 13/4/2010 07:49:25
Almoço curraleiro, dia 16/04 sexta-feira 14h, restaurante Casa Cheia, Mercado Municipal, BH
Estaremos reunidos para o “Primeiro Almoço Curraleiro”. São saudosistas a recordar, com um exercício de dois dedos de prosa, a nossa Montes Claros de antanho. Estarão presentes, dentre muitos sessentões, setentões e oitentões, as TRÊS GERAÇÕES DE OURO da nossa urbe romântica, que democraticamente pagarão cada qual a sua conta. Lá estarão os montes-clarenses:
Augusto Viera Neto, acadêmico, escritor. Felippe Mattos Prates, jornalista, escritor. Raphael Reys, jornalista, cronista. Alberto Sena Batista, escritor, jornalista. Leonardo Álvares da Silva Campos, jornalista, escritor. Francisco (Chico) Ornellas, executivo, músico, intelectual. Thomaz Maia, intelectual, o famoso Thomaz, personagem referido nos filmes de Carlos Alberto Prates e que levará alguns janaubenses, ex moradores da nossa terra de Figueira, também saudosistas e que residem nas Alterosas. Aguardamos as participações dos jornalistas Carlos Linderberg, editor do Hoje Em Dia e Tião Martins, emérito escritor e cronista mineiro.
Falaremos dos bons tempos em que às três gerações freqüentavam as boates Maracanghália e a Casa de Roxa. Dançávamos tango a meia noite tomando White Horse cowboy extasiados ante a beleza das mariposas Ceci, Aurora, escutando Dincanga cantando “Marta/campolita del rosa/Marta, campolita flor/ Marta...”.


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Por Raphael Reys - 11/4/2010 14:52:18
MONTESCLAREADAS V

(“dedicada ao nosso querido Gerinha Português que recentemente retornou das Alterosas onde foi submetido a intervenções cirúrgicas com absoluto sucesso” - receba, pois a homenagem do cronista e do www.montesclaros.com.)

Biótipo mignoni, caucasiano, olhar atento, desconfiado e devastador. Andar rápido balançando os braços que nem pistoleiro da máfia. Para de repente e se volta para trás buscando surpreender alguém que o observe. Aí dá uma esculhambação no dito cujo. Sua missa é de corpo presente. Não despacha para o bispo.
Fez história em nossa urbe como valentão arrochado. Com ele é assim: treitou relou, incorpora o bicho e bota pra quebrar. Não tem coré coré. O murrão da roça come em cima do pedido. Afinal estamos falando do “chas and hand” Gerinha Português, que embora não aparente ser é um executivo das finanças.
Engana a todos por ser baixinho, tipo “tampa de binga” não tem porte de financista. Nos anos 60 era um verdadeiro romãozinho nas noites e dias dos Montes Claros. Líder da famigerada Trinca que levava o seu nome e bagunçava o coreto. Aonde ele chegava era sinônimo de quebra-pau.
No auge das suas "altas presopopéias" chegou a pegar garupa em traseira de teco-teco e foi vítima de vários disparos de arma de fogo, entre outros, do famoso valentão Walter Zorro. Estava carregando seu patuá e as balas desviaram do alvo, muito embora os disparos fossem à queima roupa.
Como tinha pinta de membro da Camorra Siciliana, alguém chegou a dizer que ele era um “capo”. Não se sabe bem se um “capo”, um “capo di capo” ou um “capo de tutti capi”. Ele tem o corpo fechado e faz da vida a métrica platônica: tragédias e comédias.
Quando jovem chegou a se cogitar atuar numa longa metragem chamado “O Chefão da Chapada”. Uma lenda viva!
Já sofreu uma boa dúzia de atentados. Bala comum, dum dum, faca, facão, foice e macumba feita em Nazaré das Farinhas. Foi mordido e rasgado por um valente cão policial, picado por escorpião urutu preto e por um casal de cobras jaracuçú-malha-de-cascavel, as famosas queixo-de-burro. Levou pancada com barra de ferro e soqueira.
Ele é blindado por fora e por dentro.
É um pequeno “capo” da terra de Figueira. Um chefão tupiniquim e, como leva a vida na maior ironia, mantêm sempre na face um sorriso de gato que comeu o bicudo de estimação.
Pai extremado e avô coruja anuncia-se para quando completar os setenta anos de vida receberá os amigos e a galera de admiradores numa festa de arromba que, segundo o escritor Augustão Bala Doce, vai balançar o Automóvel Clube. Para o evento, vem gente do país e das estranjas. Dos Mesquita, “entramiando” com aos Rocha, até os Wanderley.
Ele é o Capo do Pequi!


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Por Raphael Reys - 7/4/2010 15:25:48
MONTESCLAREADAS IV

Como até as pedras se encontram, estive no Quarteirão do Povo para dois dedos de prosa com a dupla dos setentões antagônicos de Moc City. Um, o lobo urbano Ronaldo Toffani, cobra mais do que criada na escola da vida. O outro, um exemplo de cidadania, o pecuarista e cinéfolo Gegê Gomes.
Ronaldo, o mestre da ironia, cuca leve, “dolce far niente” , pé de pano estilo canastrão de Roliude. Emérito dom Juan de alcovas tropicais, herdeiro natural e adepto da Lei de Gerson. Sempre vestido elegantemente. Como todo bom filho de Figueira, católico de dia, macumbeiro à noite.
Quando interage com algum interlocutor deixa transparecer na expressão, uma môfa!
Carrega no pescoço um patuá feito em Nazaré das Farinhas na Bahia e no bolso das calças bem talhadas uma reza de São Cipriano, fechando o corpo contra bala de namorado, noivo ou marido ciumento.
O outro, criador de gado da mais alta supimpitude, filho de família tradicional, mui digno executivo da Fazenda Larga onde a fartura é tanta que colonião dá mais alto que telhado de casa e caititus anda em bando e são abatidos de porrete. Mantém sempre na face um sorriso dócil e conciliador, que é a sua marca registrada.
Embora tenha nascido em berço de ouro se comporta e se veste com parcimônia. Polido, discreto, cortez, profundamente religioso. Um exemplo de cidadão. Chega a ser um simplista.
Tete a tete comigo, esses dois ilustres montes-clarenses, tão diferentes em personalidade o que reforça o dito da canção portenha: “cada qual com o seu cada qual” Ou, cada alma com a sua missão.
Se algum dia, as companhias cinematográficas Metro Goldwin Mayer ou mesmo, como bem diria o saudoso Lezinho Lafetá, a “Vinte Tê Agâ Centuri Fé Ô Xis”, viessem a Moc City fazer uma longa metragem sobre a nossa verve campesina teriam dificuldades estruturais para compor o elenco, tal o farturão de artistas...
Acontece que aqui só tem estrela, galã de primeira e para fazer papel de bandidos e demais coadjuvante teria que vir gente das cidades vizinhas. Exceção do Brejo das Almas que, como em nossa urbe, só tem cabeceira.
E para concluir a crônica ao bom estilo Withimiano, uma história da mais pura poesia interiorana. Conta o nosso Gegê Gomes, que no início dos bons anos 50, quando ele ainda era um galalau, dona Yolanda, sua vizinha na rua Doutor Veloso lhe narrou à história do menino “Pelau”.
Acontece que o infante tinha um passarinho de estimação que veio a morrer de morte morrida. A cena final do filme tupiniquim é o garoto com o pássaro em ”de cujus” na mão e no maior chororó. Outro menino, seu vizinho empático, para consolá-lo teria dito: “Chora não “Pelau” que ele foi para o céu!”.
O apelido “Pelau” dado pelo pai do curumim fora copiado de um personagem extraído das páginas de Camões.
E como diria o saudoso montes-clarense Deca Rocha:
- Nós aqui da roça, somos curraleiros, mas somos chiques!


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Por Raphael Reys - 1/4/2010 13:53:54
MONTESCLAREADAS III

O saudoso José Carlos Priquitim afiançava que o músico e “show man” Tico Lopes era um dos poucos montes-clarenses que conhecia as cidades similares do mundo: Paris e Patís, Londres e Lontras, Japon e Japonvar.
Os companheiros, Tico e Didú Tourinho com o quengo cheio de cachaça Viriatinha, antes de embarcar na última excursão a cidade luz combinaram que chegando ao destino iriam esvaziar as bexigas na estrutura metálica da Torre Eiffel. Dois berros dàgua tupiniquins!
Já o saudoso Ernesto, escudeiro de Zim Bolão encontrou no Quarteirão do Povo um grande prego caibral e o guardou na caixa registradora do bar. Chega Florisvaldo Kroger (Piloto), encarregado de serviços da Fábrica de Cimento e informa que fora capturada uma lagartixa gigante que vivia nos filtros Portland da companhia.
De tanto tempo estava lá que adquirira de tamanho de um jacaré.
Ernesto apanhou o prego caibral, deu ao Florisvaldo avisando: Leva o troféu que o primeiro lugar é seu!
Já o notável nervosinho Onofre Baixim, ou Onofre Bocaiúva atravessava distraidamente a avenida Coronel Prates, próximo a Santa Casa. Por um triz quase foi atropelado por uma bicicleta. Em cima da via de fato o ciclista descarregou a verborréia nervosa: sai da frente seu capiau. Decidido, Onofre deu um pulo e sugigou o paspalhão pelo pescoço, o esganando.
Evandro Alcântara, o popular Canzil Atleticano, vestido à caráter com as cores do clube, adentrou na Igreja Matriz quando o Padre Dudu iniciava o sermão na missa dominical. Foi ao altar e fazendo um sinal de OK! Falou: Tcham...
O reverendo mudou a retórica do sermão exortando a excomunhão dos ébrios e, clamando ao poderes celestiais a os enviar, na pós-morte, aos umbrais do Inferno de Dante. Terminado o esculacho doutrinário, Canzil virou-se para a patética assistência e sintetizou: dancei...
João Samba, em seu gabinete dentário, ministrou anestesia em uma paciente. Enquanto aguardava completar o competente bloqueio sensório, e para aliviar o estresse apanhou uma vassoura e saiu dançando um pas-de-deux pelo corredor ao som do rádio do vizinho que tocava Besame Mucho...
A paciente viu a cena e gramou o beco na carreira!

Nós somos assim, mas somos chiques!



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Por Raphael Reys - 26/3/2010 15:00:08
MONTESCLAREADAS II

Alguém chegou a dizer que o amor é o princípio de todas as virtudes e de todos os vícios. A sabedoria popular, em sua costumeira verve, nos adverte de que a teoria na prática é diferente.
Aqui na curraleira terra do pequi, Zé da Lagoinha era considerado o maior boca de mentira. Certa feito estando em uma mesa de boteco, próximo ao Clube Pentáurea, tomava uma salutar cachaça Viriantinha e jogava conversa fora relatando uma visita que fizera à cova em que estava enterrado um amigo, no Cemitério Santo Antônio.
Contou que da primeira visita encontrou a cabeça do “de cujus” aflorada na tumba! Seis meses após, na segunda visita, já aparecia o umbigo do amigo que batera a caçoleta. Na terceira, feita um ano depois, o dito morto estava sentado na terra fofa.
Quando ele, o mentiroso, veio a falecer, ao saber da notícia do passamento, disse a mãe do recém finado: “Já vai tarde esse mentiroso!”.
Já o competente e saudoso Miltinho Pintor, notório morador do Beco do Marimbondo, emérito tomador de gim tônica, amigo de Dim Lampião e funcionário da Oficina 212 que era gerenciada por Wanderley Leitão na Dulce Sarmento, pintava a porta do caminhão G 700 do valente Bolívar Batista, quando foi açulado por alguém.
Como a sua missa era de corpo presente, respondeu em cima da bucha provocativa: “Eu não sou da lagoa e não perco para sapo. Além do mais, estou acordado para mais de seiscentas nações!”.
O povo da nossa vizinha Chico Sá, vive dizendo que a sua urbe é, à bem da verdade, o bairro mais elegante de Montes Claros. Como são eméritos tomadores de cachaça, jogadores de baralho e sempre tem uma quenga por conta, nós, os filhos de Figueira, os consideramos irmãos da roça e cidadãos montes-clarenses.
Dia desses, conversava com um ilustre brejeiro, afamado fazedor de vida com as cartas e cavaleiro do pano verde e da campista, tecíamos reflexões filosóficas sobre o tempo e a eternidade.
Como essas, são questões metafísicas, não muito apropriadas a quem vive do expediente da noite e suas artes, respondi com uma tirada do portenho Jorge Luiz Borges: “A eternidade é um jogo, ou uma corrida de esperança!”.
E para não sair do “pisadô” borgiano, arrematei dizendo que o jogador de baralho é um ser isolado em sua abstraída concentração do alheio desenrolar da vida.
À bem da verdade, a nossa conversa era uma tremenda fidumaeguagem...
Nós somos assim, mas somos chiques!


56461
Por Raphael Reys - 23/3/2010 08:50:02
MONTESCLAREADAS

Refletindo o dito de Lê Carré, em fazer excursões acadêmicas pelo ministério do conhecimento humano, veio à minha memória algumas curraleiragens próprias de montes-clarenses saudosos.
Zé Amorim no bar de Edson Barrão conversava com o próprio quando viu dele se aproximar um conhecido fazendeiro todo posudo. Vestido nos trinques, sapato de pelica, relógio e pulseira de ouro, anel de brilhante no dedo. Zé aponta para o recém chegado e diz maliciosamente: “Aí tem coisa!”.
Conversava com o delegado Guedes quando passa um conhecido. Esse, bastante pálido e apresentando sinais de decrepitude. Zé fala, na bucha: “Nesse ponto em que o traseiro murcha é sinal seguro que logo vai dar cemitério”.
O arquiteto Cascão, por telefone, solicita um encontro com o Zé no Café Galo. O motivo é pedir autorização para preparar um livro contando os causos e verve do Zé. Cascão chega, um gigante de tamanho e dado à fria aragem de junho vestido com uma camisa de lã, manga comprida, listras ao estilo rural americano.
Do outro lado da rua o Zé vendo o candidato a escritor fala: "pode atravessar a rua lenhador canadense F.D.P. O livro sobre minha vida, só depois de morto. Já imaginou a patroa lendo histórias das minhas estripulias”.
Logo chega o Dácio Cabeludo e o Zé, vendo o ex-bancário João Lima ao longe pergunta ao Dácio: “Você conhece esse sujeito barrigudo com a sacolinha de frutas?” Cabeludo retruca: “Esse “fiduma” me fez passar a maior vergonha recentemente! Acontece que fui ao Banco da Lavoura pagar uma conta com urgência! Como a fila estava dobrando o quarteirão e ao ver o João chegando à boca do caixa, fui de mansinho e falei aos seus ouvidos: “Paga esse pepino para mim que é uma urgência”. O último prazo é às quinze horas de hoje!”.
Prosseguiu relatando: “O homem deu o maior esparro! Gesticulou, como um louco e disse: Você está doido! O pessoal da fila vai me crucificar!” Entregou-me de bandeja!
Em uma crônica publicada em jornal local, o médico, seresteiro e poeta João Vale Maurício fala de um diálogo que teve com alguém sobre o vetor do Mal de Chagas. No diálogo, o popular disse: “Fui picado por um barbeiro!” Maurício, esclarecendo, responde: “Barbeiro não pica. Barbeiro chupa!” Foi o bastante para que os oficiais barbeiros da cidade dessem o maior chilique!

(Crônica dedicada ao ilustre montes-clarense TETOR MAIA. Nosso leitor em Campo Grande!)


56257
Por Raphael Reys - 18/3/2010 07:41:12
CLIQUE CHARMOSO

Nos românticos anos 60 o charme do homem era ter flar play. Assumir um ar blasé, cigarro Columbia pendurado no lado esquerdo da boca, à moda francesa. Acendê-lo com o estalido de um isqueiro Monopol, que refletia a chama na superfície metálica e lisa.
Numa rodinha de amigos ou na mesa de um bar da moda, acendia-se o Lyberty Ovais com um moderno isqueiro Ronsom. Lançavam-se as baforadas em espirais para o ar, um caracol encaixando no aro do espiral anterior, à moda Humphrey Bougart. Provocava charme clicar um metálico Zippo no escuro da festinha e ver o brilho da chama nos olhos daquela gata linda de blusa banlon.
Tempo da figura clássica do velho garçom que tentava acender o cigarro da madame com a chama diminuta de um Cartier. Detetives ao bom estilo Ellery Quenn, mordendo o bocal da cigarrilha e acendendo-a com um Dupont folheado.
Ricos usavam Dupont de ouro maciço para acender os charutos Habanas puro!
Diplomatas internacionais e gangsteres de Chicago ou mesmo do cais de Marselha, usavam um colibri metálico com a imagem de uma Madona incrustada a ouro em baixo relevo. Aventureiros e escroques internacionais, jogadores e cupiers em cassinos de luxo, usavam um Zippo Saint Seiga, quando fumavam o seu cigarro turco do fumo adocicado.
Intelectuais, pintores e artistas famosos acendiam as cigarrilhas com um bom isqueiro Tibúrcio tendo na tampa gravado um motivo de Kama Sutra. Algum metódico acendia o seu cigarrinho com fósforo e devolvia o palito queimado para dentro da caixa. Puro detalhe.
Os aventureiros Don Juans, casanovas, lascavam o palito de fósforo russo no meio e lançavam a banda no cinzeiro com o impulso do dedo médio.
Criminosos usavam um isqueiro Zippo, que era municiado com uma bala calibre 22. Aptos a díspar um besouro sem asa na face da vítima quando estavam em algum beco.
Intelectuais dos Montes Claros, aqui no Norte de Minas, barranqueiros das margens do Velho Chico, foiceiros, vaqueiros, capatazes, personagens e leitores de Petrônio Braz, com sua magnífica obra “Pilão do Serrano Arcado” acendem o paieiro feito com fumo sergipano com um bom isqueiro “binga” ou mesmo um boque, com a “cornicha” com a faísca tirada de uma lasca de pedra atritada contra um pedaço de metal.
Produzia-se fogo com a binga, o pendente um longo cordão âmbar e a isca de pedra provocavam a queima do pavio de algodão.
Modernos executivos da Avenida Paulista, da Wall Street usam um Zippo modelo BLU a gás butano, ou mesmo um Silver Matcth-sm, com bico de lança chamas. Intelectuais modernos e leitores de Jorge Luiz Borges tinham um isqueiro Can-Pacific, modelo rococó.
Big Mam, Capos e mafiosos diversos, tuto bona gente, usavam um Calto Maltese quando não inventavam moda e acendiam o charuto com um palito de fósforo francês.
Não nos esqueçamos dos cow-boys da nossa infância, que riscavam o palito de fósforo na sola da bota Texana ou no traseiro da calça jeans, muitas vezes dos outros...
Cada qual com o seu cada qual!


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Por Raphael Reys - 12/3/2010 14:54:30
BOCA DE MENTIRA

Segundo o poeta Ferreira Gullar, não se devem desmentir histórias inventadas, pois a fantasia excita bem mais do que a realidade. E o que é a verdade? Neste mundo grande e bobo de ilusões efêmeras a própria realidade é um engodo. Um jogo de fractais!
No pórtico da pirâmide de Guizé encontra-se gravado em baixo relevo o axioma: Decifra-me, ou devoro-te! E o escritor espanhol Calderon de La Barca pergunta: a vida, sonhos são? A vida é, portanto, um enigma. A mente humana é atraída pelo mágico, pelo transcendente e as nossas emoções são um joguete do nosso atávico e do que foi indevidamente codificado no subconsciente.
Sidney Miller relata que: metade de minha vida eu vivo, a outra metade me contam! A mentira e a fantasia produzem uma ação tão intensa que chega a criar e destruir mitos. Tenório Cavalcanti, notável político da baixada Fluminense de antanho, conta em suas memórias que: tudo o que fez para construir a sua aura de valentão e destemido foi projetado por ele mesmo, por antecipação, com intencionalidade.
Carregava o seu revólver com balas reais e de festim, alternadamente. Para dar o seu show e dizer que tinha corpo fechado na Bahia, apontava para um obstáculo e disparava acertando-o. Ato seguinte apontava e disparava com a bala de festim para a sua própria mão. Todo mundo acreditava! Gente é bicho besta. Diz um estudo que em cada 10 mil pessoas, uma só tem inteligência emocional e capacidade de pleno discernimento.
Dentre os boca de mentira da nossa terra, começando pelo cronista que escreve este texto tem de todo tipo. Alguns ouvindo de outro saem falando, outros dizem terem ouvido contar e vendem pelo mesmo preço que compraram, uns dizem terem ouvido e visto e por isso contam. Há os que ouviram no Café Galo no Kentura Kente ou na sauna do AC e só por isso saem contando.
Aqui na terra de Figueira tem local que só dá boca de mentira. A barraca do Ceará, na Praça da Matriz é freqüentada pelos mentirosos que têm a testa enfeitada. Na porta do Shoping Popular, encontramos pacientes geriátricos que tomam comprimido azul, sem efeito, e mostram os pacotes de preservativos. São os falsos roedores de pequi!
O antigo pátio da REFFESA tinha um Pedro que era campeão. De tanto mentir os seus lábios engrossaram e a sua boca ficou levemente torta. Os freqüentadores da porta da galeria gay no quarteirão fechado da rua Simeão Ribeiro, ouvem Jerry Alfaiate contar uma mentira e Zezão Relojoeiro desmentir e contar outra, ao mesmo tempo em que falam da vida de Paulinho Relojoeiro. Enquanto isso, Nenga Ourives rola de tanto rir.
Quase nos esquecemos de citar o próprio Paulinho Relojoeiro. Esse já desceu rio nas costas de jacaré, pilotou avião em parafuso e conversou com extra-terrestes no alto dos Morrinhos. O maior de todos, entretanto, é um moto taxista vendedor de lanches, da cabeça branca que tem apelido de fruta tropical e mora na Vila Guilhermina. Ele viaja de helicóptero com o governador, é assessor de Lula no Norte de Minas e supervisor do SINDACTA 1!
Nós temos história, somos da roça, mas, somos chiques!


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Por Raphael Reys - 8/3/2010 18:53:46
A MÚSICA TEMA

Entre os anos 70 e 80, a nossa urbe não tinha uma rede de hotéis à altura de receber executivos, homens de negócios que por aqui aportavam. A nossa população flutuante sofria até com falta de água que na cidade era trocada por votos.
Aí, a Casa de Edna, conhecida empresária da noite, atendia a todos com sua natural elegância e colocava o visitante à vontade. Farta cozinha e diversão diuturna. Um portal de Baco e Vênus.
Na noite, os notívagos e visitantes tinham como opções o restaurante da Rodoviária e o Bandeira Dois, onde se encontrava os políticos, os comerciantes, os empresários e as autoridades da cidade, que ali estava por prazer e outros a serviço.
Funcionava de forma precária o restaurante Espeto de Ouro, O Mineirão e o tradicional espetinho de Bruno, servido à porta da casa de Edna.
Os nossos visitantes sofriam com as estradas esburacadas, com a falta de água, a pouca quantidade de ônibus a serviço das linhas que interligavam o norte de Minas a nossa cidade, que eram administradas pela subjetividade dos proprietários, nem sempre aptas à modernidade.
A casa der Edna, com seu bom atendimento, diversão garantida, fervilhava como um nigth club. A sua orquestra era composta por: Tião no baixo, Piuruleta na bateria, Tone Barroca no pandeiro e Lauzinho na guitarra.
Como o pianista Saches fazia em sua boate no Rio de Janeiro, ao chegar algum freqüentador ou freguês importante, Lauzinho solava na guitarra a música preferida do recém chegado. Era um código da noite, assim todos ficavam sabendo da presença do famoso.
Edna quando chegava, solava-se Menino da Porteira, os nordestinos João Nariz de Cachorro e Casimiro eram saudados com Asa Branca. Manoel do Bandeira 2, namorado de Edna, era recebido com a música A Distância, Geraldo Rego com Boemia de Adelino Moreira e João Pena com O Menino da Gaita.
Muito habitue e notívagos eram saudados com música internacional o que dava um colorido especial ao salão da casa. Outras músicas, quando tocadas funcionavam no código da noite, alertando sobre perigo da presença de algum presepeiro que adentrasse no recinto, assim como os otários abarrufados e os alcagüetes de polícia.


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Por Raphael Reys - 3/3/2010 08:31:50
O LIVRO “OS BARES NUNCA FECHAM”

Li a boneca do livro ‘Os Bares Nunca Fecham” da acadêmica Karla Celene Campos. Como uma câmera e a inspiração de Fellini, faz um longa metragem literário por botecos e espeluncas deste mundo doido e globalizado. Mostra-nos um universo encantado entre mesas, garçons, notívagos e o sabor horrível da cerveja “Nostradamus”, servida em Barcelona, na Espanha.
Trafega desde o Coxixo com dois “X”, dos bares geração Elite, onde se sorve o hidromel dos Orixás até um chope em Salamandra, terra de Sancho Pança. Passa mesmo por botecos em Januária, rincão onde muitos garantem se produz a melhor cachaça do mundo e no dizer do notívago Genival Tourinho, habitam as melhores raparigas do planeta.
Chega a encontrar o fluir das sensações de Leopold, um personagem da “Stream of Consciousness”, de Joyce, em seu paredão de granito “Ulísses”. Fala de Almeida, um tio boêmio e de escudeiros como Black. Cita as almas de bêbados que fogem dos Hades e retornam ao bar para sugar ectoplasma no “duplo-etérico”, que recende do “oroma” do álcool.
Faz-me lembrar o Bar do Toin, no Mercado do Cajueiro em Teresina (PI), onde a alma do professor Lamartine do Monte, antigo freqüentador, aparecia nas manhãs de domingo vindo do nada e dando gritos na galera que bebia cachaça Mangueira. Botava todos para gramar o beco, na carreira!
Comenta da vivência dos que freqüentavam a Cristal nos anos 70 com o seu globo transparente cheio de bombom Sonhos de Valsa, sonho de toda criança e o movimento estudantil nos tempos da opressão. Caminha desde os ambientes mais luxuosos até o caleidoscópio de arte da Cahaçaria do Durães, com gravuras de Frida Kalo e Diogo Rivera. Entre os freqüentadores circula o galo Flávio e a galinha Marieta.
Relata-nos os instantâneos fotográficos (momento único) pelos bares do mundo. Papo de boteco, viagens, amores, solidão, surpresas, confidências e novas amizades. Revela-nos a roupagem extrovertida da sua personalidade, o seu gosto pelas artes e vê o lado humano e epidérmico dos tantos personagens encontrados em mesas, entre bafos de cerveja, corações partidos e garçons de “summer” e gravatas borboleta.
Desperta em mim a memória do “bodum” que exalava do WC do bar Sibéria, onde Biô Maia bebia com uma caixa de fósforos presa à lente esquerda dos óculos, impedindo que os raios de sol da manhã ofuscassem a sua visão.
O livro está no prelo. Logo ocorrerá o lançamento.


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Por Raphael Reys - 26/2/2010 14:45:44
DUAS CURRALEIRAGENS.

1968. Em execução o tão sonhado asfaltamento da BR 135, ligando Montes Claros e outras cidades do norte de Minas a Belo Horizonte, e dali ao resto do país, seguia de vento em popa sob a coordenação do competente DER e, o topógrafo mor dessa terra de Figueira, Paulo Moreno, contratado para gerenciar o projeto de sinalização.
Próximo ao Restaurante da Cearense, enfincado na exata divisa da nossa cidade com a vizinha Bocaiúva, Moreno, tomou acento na caderneta de campo que ali se colocariam a placa de divisa dos municípios. Com base nesse indicativo, a palhoça de Geraldo Pezão ficaria localizada em Bocaiúva.
O Geraldo tinha o apelido de “Pezão” por calçar botinas 50, para ele fabricadas especialmente em Itu. Quando visitava amigos nas cercanias do clube deixava pegadas que mais pareciam rastros do Abominável Homem do Pentáurea...
Fazendo valer os seus direitos de cidadão chapadeiro, veio a Montes Claros, dirigiu-se ao escritório local do DER e solicitou uma audiência com o bom Paulo Moreno.
O diálogo foi curto e grosso! ”Seu Paulo! Aquela placa de divisa botou o meu barraco em Bocaiúva. Como não me dou com o clima dessa cidade, peço-lhe que bote a tal placa após a Cearense. Assim, fico nos Montes Claros mesmo!” Sempre sensível à voz do povo, Moreno atendeu ao pedido.
Já no Brejo das Almas, o “bairro” mais chique de Montes Claros, o notável Mário Isaac, filho do farmacêutico Valdevino Ruas era gamado por uma mariposa, a Rita Doida, que fazia parte do rol das estrelas noturnas do cabaré de Dona Loura.
Certa noite, tocado pela mosca da semântica libidinosa do homem da roça, encheu o quengo da malvada branquinha e arrebatou a Rita e a levou para dormir com ele no armazém do pai e que servia de comércio. Curtiram a maior alcova tropical sob as estrelas do Brejo e o efeito da Gameleira.
Bem cedinho, Valdevino preocupado com o não retorno do filho à casa paterna, saiu na campana e ao adentrar no armazém deparou-se com a inevitável cena: Rita Doida, nua em pêlo, toda descomposta com as pernas excessivamente abertas e ao Deus-dará.
Andando na ponta dos pés, acordou o filho e sussurrou ao seu ouvido: "Veja se cobre a Rita que ela esta toda arreganhada”.
E estamos conversados!


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Por Raphael Reys - 22/2/2010 07:42:53
HAROLDO CABARET

Dezesseis horas e a Festa dos Sessentões transcorria em alto astral no salão de eventos do Parque João Alencar Atayde. Degustávamos uma saborosa comida de boteco preparada pela equipe de Marilúcia Bufê, regada a muita cana, “scotch” 12 anos, caipirinha rolando a vontade e eis que entra no salão o último dos convidados, o indefectível Haroldo Cabaret. Atrasado, como sempre!
Para os leitores que não conhecem a história da nossa urbe nos anos 60, esclareço que esse garoto com pinta de artista da bossa nova, com seu boné ao estilo Jovem Guarda, descontraído, libertário mesmo, calça de moletom folgada, com a cabeça na lua, todo “relax”, para lá de Maraquesch e até de Bagdá. Um “ reaça”!
Ele foi o personagem jovem da sociedade nos fins daquela década, que, enquanto os seus pais viajavam promoveu a Festa do Cabide, aquela muito falada e que muita gente boa gostaria de ter participado. Na entrada, os convidados, todos, eles e elas, tiravam a roupa, penduravam num cabide e, em pêlo, completamente nus, entravam festa adentro, na base do vale tudo e do tomara que dure.
O maravilhoso festim baquiano Tupiniquim, infelizmente terminou mal, com a denúncia de invejosos não convidados, que, às escondidas, ninguém soube como, chegaram a filmar tudo, levaram a fita para o conhecimento da autoridade policial, com a lista de nomes dos alegres participantes, identificados, inclusive, de mão na massa! Como era de se esperar, deu o maior rebú!
Haroldo adentrou no salão da festa dos sessentões, foi recebido com beijos e abraços, falou com todo mundo e como o gole era 0800, tudo de primeira e ninguém é de ferro, encheu o pandú. Pegou um fogo de leve e ficou estabanado!Apanhou o microfone do Juquitinha, que dava o seu “show” e incorporou a alma dos românticos!
Fez o maior sucesso com vozes latinas e bossa nova e toda a galera o aplaudiu de pé! Em seguida, o cineasta Paulo Henrique Souto soltou a sua voz educada e cantou bossa nova do tempo do Beco das Garrafas, quando o saudosismo tomou conta dos que dançavam na pista e de todos os presentes. Haroldo, impagável, ficou fazendo fundo declamando e relatando pormenores da vida dos participantes, principalmente dos casais dançando e a galera adorou, ouvindo-se gostosas gargalhadas.
Haroldo revelou-se um verdadeiro “show man”, improvisando, imitando voz de cantores. Sob o foco do holofote, incorporou um artista do “Actors Stúdio” e colocou uma cadeira vazia ao seu lado e passou a dialogar com um personagem invisível. Enquanto muitos dos participantes bebiam e dançavam, os demais, atentos, curtiam o incrível “show” e foram observadas cenas de ciúmes de cônjuges presentes, incomodados com o reencontro de ex-namorados que viveram eternos amores enquanto durou, como diria o nosso querido Vinícius. Aí, tome choro, abraços, velhos conhecidos recordando velhos tempos, amores e desamores lembrados e suspirados, amigos de infância e adolescência matando as saudades e prometendo de pedra e cal novos reencontros.
E ninguém segurava o Haroldo Cabaret! Como estava incorporado, na medida em que se abastecia de bebidas a língua se soltava mais ainda. Contou até segredos de alcova e farras de boate dos presentes, com gente dançando nu nos anos 70!
Tudo numa boa, num ótimo clima e só então deu para perceber que a alma que incorporou nele foi de um dos sessentões já falecidos, que voltou dos Hades para fazer uma vingança, contando tudo, mas, vencido pela alegria e o entusiasmo presentes à maldade virou piada.
Não deu em nada e, muito ao contrário, ensejou muita gozação, muita curtição, que consagraram uma bela e inesquecível festa.


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Por Raphael Reys - 16/2/2010 09:50:57
ZÉ PAI DA MATA

Zé Pai da Mata, ou Zé da Mata como era chamado nos anos 50, foi um galante namorador da terra de Figueira. Montes Claros vivia no romantismo dos seus cabarés e do Cassino Minas Gerais, que atraiam jogadores e notívagos de toda América Latina. Nesse ambiente, cresceu e viveu Zé da Mata.
Era um galã ao estilo Marcelo Mastroiani, sempre bem vestido em tropical inglês ou linho S120 branco. Sapato de verniz em cromo alemão, cabelo penteado com Gumex e recendendo a Royal Briar. Oriundo do Brejo das Almas assim como o seu irmão Vicente Alves, ambos possuíam um talento natural.
Os cabarés e “dancings” das noites montes-clarenses, fervilhavam como um “night club” da Broadway. A Boate Alhambra, exibia dançarinas vindas da Espanha e Zé da Mata provocava suspiros nas damas da noite. Causava um autêntico “frisson”, quando chegava. A sua cara de mau, aliado ao seu charme e elegância, provocava suspiros e arrasava corações!
Como todo herói ou ícone tinha muitos amigos, mas, também, havia os invejosos que mordiam os lábios quando o viam passar. Com a chegada dos eletrodomésticos ao mercado em 1954, inclusive os modernos fogões a gás (até então só se usava fogão à lenha) e as geladeiras elétricas (as raras existentes eram movidas a querosene), Zé da Mata se tornou o maior vendedor dessas novidades eletrodomésticas.
De acordo com a tese balzaquiana: as mulheres amam por excelência as contradições, as incoerências e os maus sujeitos. Assim, o mulherio só comprava com ele intermediando e indo pessoalmente supervisionar a instalação dos eletrodomésticos. Como estava enchendo os bolsos de dinheiro e botando o seu patrão rico, a concorrência resolveu jogar pesado.
Contratou no submundo da cidade o pistoleiro João Tijolo, que passou a monitorar os movimentos da futura vítima. Aproveitando uma manhã em que Zé saiu do cabaré de ressaca e foi lavar o rosto na pia do bar de Nonda Lopes, o pistoleiro apoiou na calçada alta a mão armada e descarregou chumbo no nosso herói, matando-o.
Eu estava passando pelo passeio na hora e me aproximei para ver de perto ao vivo e em cores o atentado. Biô Maia, que também estava presente no ambiente, antevendo um possível tiroteio me jogou no chão e deitou por cima do meu corpo me protegendo, pois eu era uma criança.
Zé era considerado um valente e como atleta de ciclismo juntamente com o seu melhor amigo Budim Reis (atleta nadador de longa distância do Flamengo), eram contratados por um fabricante de bicicletas para fazerem demonstrações da marca e viagens de Montes Claros até Bom Jesus da Lapa.
O nosso herói era raçudo aceitava desafios. As lâmpadas que iluminam a cruz da torre da nossa Catedral eram trocadas por ele. A praça se enchia de meninos para ver o ato de coragem. Fazia o serviço sem nenhuma proteção, para ele uma demonstração de machismo!
O patrão do Zé, como era de personalidade forte, exibia pose de rico e era dado a encrencas, e sendo detestado por muitos foi acusado e julgado como culpado da morte do galã. A história, entretanto, na boca do povo sempre apresentou outra versão dos fatos. Alega a sabedoria popular que o condenado fora envolvido em uma trama urdida a poder do dinheiro pelo verdadeiro mandante, outro comerciante local.
Nosso Zé morreu e o verdadeiro contratante de sua morte nunca foi condenado. Um inocente pagou por um crime que não cometeu fazendo a sua família sofrer com essa desdita.
Há certas justiças que só acontecerão nos mundos espirituais. Lá se encontra o inocente que padeceu ao pagar pelo crime que não cometeu!


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Por Raphael Reys - 8/2/2010 08:38:00
A ROUPA DE JAMES BOND

Nos bons anos 60 e 70, os industriais Diu Colares e Walduck Wanderley eram sócios “fifty-fifty” na empresa COWAN. Sigla obtida da junção dos sobrenomes Colares e Wanderley. Zé Amorim era o gerente comercial.
Zé tratava carinhosamente a Walduck como “Carroceiro”, seu antigo apelido, dado ao seu aspecto severo, aparentando rudeza, rosto quadrado e corpulento. Ajumentado!
Diu Colares, sempre que viajava a serviço, levava consigo como carona o Zé Amorim. Em uma dessas viagens foram ao encontro urgente de Walduck, que chefiava o escritório e o “lobby” da empresa nas Alterosas. Diu levava o Zé como carona, para aproveitar da sua verve alegrando a viagem na rodagem cheia de poeira e buracos. Um horror!
Caladão, como era o seu estilo, durante o trecho inicial Diu escutava as queixas e sugestões curraleiras do Zé, sem responder. Zé falava: “Desamarra a cara Diu! Sua cara é muito amarrada! Deixa de preocupação demasiada e desanuvia a cabeça. Vâmo conversando besteira que é melhor...”.
Já próximo à cidade de Bocaiúva, à uma hora de percurso, Diu já limpava a garganta, pigarreando e procurando responder ao seu gerente comercial e companheiro de jornada. Em Sete Lagoas o empresário já conversava animadamente e a dupla ria às bandeiras despregadas.
O diálogo prosseguia com Zé Amorim realçando as diferenças flagrantes de personalidade entre os empresários seus patrões. Dizia o Zé: “Um, todo fechado. O outro aberto que nem mala de mascate!” E, asseverando, concluía o raciocínio fatídico: “Você vai morrer cedo, Diu! Não demora e estará nas mãos da funerária dos Beirões”!
Logo mais, completava: “Waldukão, aquele carroceiro, vai chegar aos oitenta, sadio, trabalhando e gozando a vida!”.
Chegando à Capital, mesmo sendo domingo e como o assunto era urgente, foram até o Iate Clube na Pampulha, onde Walduck praticava esportes aquáticos.
Ao chegarem ao píer do clube, o luxuoso iate do empresário já estava ancorado e ele trajava um macacão “Aqualung”, todo de borracha, propício à pesca submarina. Ao ver os dois empresários já conversando, o Zé sentenciou em alto e bom som:
“Êita diá! Um com uma preocupação F.D.P., o outro, nada! Ô responsabilidade fidumaégua!” Isso dito na bucha e em cima do pedido...
Posteriormente a esse fato, consta ter o Zé comentado com alguém: “O homem estava vestido com roupa de James Bond”, numa alusão ao macacão de borracha usado pelo ator Sean Connery em um filme da série 007, de Yan Fleming.


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Por Raphael Reys - 4/2/2010 14:00:10
NENÉN DE PAIN.

Haroldo Santos, também chamado pelos íntimos de Neném de Pain, ou Haroldo da Escola de Samba, era gerente do bar Destak na rua Melo Viana, aqui nos Montes Claros interior das Minas Gerais. Solteirão convicto e, fiel devoto de São Jorge Guerreiro.
Portava sempre na carteira ou no bolso do paletó, um santinho do seu protetor, na sua imagem lunar, entre crateras e a chuchar o feroz dragão com sua lança pontiaguda. Realizava as suas obrigações com o santo, acendendo as suas velas, e executando os rituais no seu sanctorum doméstico. Sarava! Meu santo Orixá.
Como e afro descendente, desde a tenra infância estava ligado aos mandingueiros, terreiros, candomblés, amolôcôs, terecôs e bocas de cabaça que abundam neste Norte de Minas. Recebeu o seu Exé em um terreiro de Umbanda de Mainha de Biriba em Livramento, na Bahia.
Lá não se dava importância à decisão Papal em se deletar o santo guerreiro da hierarquia celestial, atitude tomada pelo Vaticano em represália ao aumento de fé nas raízes afro, pelo Brasil de meu Deus!
Certa feita, juntamente com colegas de serviço e seus respectivos familiares, fretaram a baixo custo um velho caminhão Doge Cara Chata usado para carregar toros de madeira. O veículo os levaria morro acima. Iam para uma tradicional festa de santo na roça.
A dita elevação, só era vencida de Toyota com chassi modificado e caminhão modelo “toco” com correntes de aço nas rodas dianteiras, isso dado ao aclive e respectivo declive íngreme e constante que se fazia até o platô e vice-versa, alem do solo arenoso e escorregadio. Era uma via dantesca!
Às três da tarde terminada as festanças de roça, retornaram as origens. “Desciam morro abaixo no Cara Chata quando o motorista sentindo o frio provocado pelo óleo do burrinho mestre do freio que escorria no seu pé direito botou a cabeça para fora da boleia e gritou a pleno pulmão:” pula todo mundo que o caminhão está sem freio!”“
Todos pularam menos o Neném de Pain que permaneceu com os braços apoiados no Santo Antonio da carroceria. Entre os que saltaram para o chão, braços e pernas quebrados, pescoços torcidos, mortos e feridos.
O caminhão tendo só o nosso “Neném de Pain” como viajante se enganchou no primeiro barranco à direita do morro, levantando poeira. Nosso herói desceu da carroceria sem qualquer arranhão, e, ato seguinte, sacudiu o pó da roupa.
“Seguindo o dito de Shakespeare: cada terceiro pensamento passa a ser sobre nossa sepultura, um colega de viagem, irritado com o braço quebrado gritou para ele em represália:” você não pulou por que sua lesma?”No que ele retrucou: “sou devoto de São Jorge Guerreiro”!” O outro rebateu: “que F.D.P. de santo é esse que seguro caminhão Cara Chata sem freio, ladeira abaixo?”.
Neném de Pain tranquilamente tirou o santinho de papel do bolso do paletó mostrando-o ao interlocutor, identificando, assim, São Jorge Guerreiro, o protetor da sua devoção.
Acontece que na gravura exibida estava só o pesado dragão soltando fogo pela boca. O cavalo e o popular São Jorge, já haviam caído no bengo desde o grito de alerta do motorista, por via de dúvidas...
A boca era por demais quente, até para santo guerreiro!


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Por Raphael Reys - 27/1/2010 07:39:18
A CIA MONTES-CLARENSE.

Os “States” tem a CIA, os súditos da rainha o M -16, Israel tem a MOSAD, a Rússia a extinta KGB, nós, os filhos de Figueira, temos o Café Galo. “Point” central do comércio, política, políticos, jornalistas, lambões que escrevem e pagam para publicar, o “chas and hand” na hora, vendedores de rifas falsas e verdadeiras, olheiros, informantes, X9, lobistas. O lugar ideal para se soltar um balão de ensaio.
Dali se ajuda eleger ou derrubar algum candidato a cargo público. Tem também a turma do “pm” que já urina no sapato. Álbum e painel exposto com fotos dos que estão perto de bater a caçoleta, dos que bateram recentemente e foram, no dizer do notável jornalista Teodomiro Paulino, para o andar de cima.
Por aqui, se sabe em primeira mão, quem matou e quem morreu, como foi, onde, que arma foi usada, quem deu a fuga, quem organizou a via de fato, quem mandou e por que. Na fazenda de quem o criminoso está escondido, o celular deles. Quem deu o cano na praça e quem fugiu deixando o rombo em entidades, autarquias e empresas diversas. Quem é, e quem deixou de ser espada. E até quem virou o fio.
As notícias vêm em espirais metálicas pelo telefone do Jadir Rodriques, o dono do pedaço, ou trazidas por profissionais que saem do plantão e passam por lá para comer o delicioso pastel curraleiro, o carro chefe da casa. No Café Galo, você fica sabendo quem está na tábua da beirada, na malha fina da receita. Comenta-se desde a beleza das fotos de Márcia Yellow, do Cruzeiro do saudoso Lazinho ou do Galo de Zimbolão e Zé Carlos Priquitim.
Rolam diversos assuntos, desde política internacional, bacanais de Berlusconi, viadagens de Gugú, frescuras de Jerry Alfaiate, até a produção cinematográfica “in love” de conhecido relojoeiro do quarteirão. Comenta-se o vocabulário explícito e direto do escritor Augustão Bala Doce, a voz nervosa e “trés rapide” de Jorge Silveira, dos chapéus panamá do autor Haroldo Lívio e do boa praça Nonato Pampa. Fala-se até das feijoadas comidas por Zezão.
Cita-se da tapa na parede e do assovio do executivo primeiríssima Eustáquio Repórter, dos Aspones, do cheiro de Patchuli de Luiz Carlos, o Peré, da chatura e da baba do chamado “Assessor de prefeitos” e do falso jornalista que toma grana dos políticos para fazer matérias no canal de TV que ainda está supostamente a caminho.
Toda manhã bem cedo, a voz escandalosa de Arnaldo Maravilha que acorda, no prédio próximo, o bom Márcio Milo que dormia sonhando com a Romy Schneyder...


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Por Raphael Reys - 22/1/2010 08:20:08
MERCEDÃO!

Bastante alto, corpulento, agigantado, ajumentado e pesadão. Braços longos, musculosos e descomunais terminados em mãos que pareciam um aríete. Os nós dos dedos se assemelhavam a gomos de martelo. Borracheiro da empresa Tyresoles, ao lado da Praça de Esportes. Seu nome: Mercedão.
Vivia se exibindo no cotidiano do seu labor escorraçando os seus colegas de trabalho, disputando a comissão por serviço prestado, apanhando um pneu montado de carreta com uma só mão. Era um Golias atrapalhado e teatral. Um valentão exibido e bazofista.
Diariamente, após o fim do trabalho como borracheiro enchia a cara da “maldita” nos botecos e lupanares da baixada e no Beco do Marimbondo onde era o rei da noite. Falava em alto e bom som de suas “brabezas” e feitos para um sempre presente e fiel galera de psicóticos e defasados sociais, fãs que o acompanhavam na noite e o observavam durante o dia e o aplaudiam.
Em uma manhã de cão e já estando bastante alcoolizado e de ressaca da noite anterior, se exibia em um bar para o deleite de uma dama da noite que fazia ponto na boate Maracangalha. Por qualquer motivo distribuía "catiripapo" a torto e a direito, nos freqüentadores da casa.
Como lá ninguém reagia, ele passou para a via pública e dando prosseguimento à sua bazófia escorraçava pedestres, um dos quais chamou o sargento Bonfim que, a paisano e estando desarmado, fazia compras em uma casa de peças próxima.
O policial militar antes da abordagem, conhecedor da potencialidade agressora do meliante, solicitou ao comerciante telefonar para a Polícia buscando reforço à sua ação, pois previa confusão pesada, já que a platéia de curiosos aplaudia a iminente ação retaliadora, visando um final cinematográfico e sangrento.
Maliciosamente, os comerciantes solicitados não moveram uma palha visando proporcionar um possível final trágico para o Mercedão, já que a sua presença não era desejada naquela área comercial. O valentão estava agredindo um passante, quando o sargento lhe deu voz de prisão.
O militar estava no lugar e na hora errados. Mercedão vendo ali a sua maior glória, como destemido que era empurrava o militar e o lançava contra as paredes, tudo sob os aplausos da galera que se deliciava com o cheiro de morte anunciada!
O meliante tomou a Avenida Armênio Veloso rumo à sua moradia na Malhada Santos Reis, na época, um reduto inexpugnável de valentes. Dado à péssima fama do bairro, ninguém de sã consciência ousaria entrar ali sem ser convidado. Lá, o buraco era mais embaixo, de uma tribo com regras e leis próprias.
A todo o momento Mercedão batia os pés no chão e ameaçava correr rumo ao militar o que provocava um verdadeiro “frisson” na galera de curiosos aumentada a cada quarteirão. Quando percebeu que o valentão cruzaria a ponte de madeira entrando para o seu reduto maldito, o militar entrou "nos finalmente" e tomou a iniciativa conclusiva.
Mandou o bazofista parar e se engalfinhou com o mesmo. No princípio da luta, Mercedão dava murros teatrais, ainda gozando da vítima graças à sua superioridade física. Logo os dois corpos bateram no corrimão da ponte e foram parar na areia do leito quase seco do riacho com seu xirirí de água.
Silencio sepulcral caiu sobre a multidão! O anjo da sorte girou a roda da fatalidade e o sargento Bonfim, ao cair juntamente com o provocador dentro do riacho, deu com a mão direita em uma pedra de bom tamanho e, empunhando-a, acertou uma "traulitada" na testa do gigante.
Minha gente, “foi pá e bosta!”
Mercedão, o valentão desmaiado, agora "peiado" com cordas foi conduzido arrastado pela avenida até a chegada de uma viatura policial, que o trancafiou na cadeia.



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Por Raphael Reys - 17/1/2010 10:32:14
CONVERSA DE BOTEQUIM

10 da matina de uma quinta feira, fim de mês asilado, todo mundo sem grana nos Montes Claros. Acabara de postar na Internet, no portal Overmundo uma crônica intitulada “Os Olhos” onde falo dos meus males de amor. Dou conta ao mundo virtual do nome da mulher desejada. Uma escorpiana olhos de naja tropical.
Com as emoções em desalinho passo, em frente à lanchonete Cimentão Lanches na rua Coronel Antonio dos Anjos, ao lado do Shoping Popular, no centro. Minha atenção é atraída para a mesa de entrada do salão do bar-lanchonete-restaurante embora faça uma manhã de sol meio dengoso, a cena que vejo à mesa é romântica. Dois notívagos bebem sob forte comoção.
Saltam da mesa ao me verem passar e já me puxam pelo braço obrigando-me a tomar assento com eles. A súbita reação é motivada pela reciprocidade de pensamentos. Eles, assim como nós, estavam tocados pela mosca do amor! Por pura intuição ou sincronicidade de almas afins, me conduzem ao seu oráculo.
Naquele momento, um lugar sagrado e de padecimento etílico-emocional! As suas desditas!
Logo caem na real, ao se recordarem que não tomo bebidas alcoólicas e me ofertam um refrigerante para sacramentar a parceria. Para consolá-los falo da matéria que postei na Internet. Eles, por empatia emocional induzida pedem que eu volte a beber, apenas para estar com eles naquele momento mágico.
Expressam mesmo os seus descontentamentos em ter á mesa um adulto que não entorpece os sentidos nesse mundo de desilusões. Pode alguém viver sem se embriagar? Justifico que faço meditação há trinta anos. Esse é o meu vício, a minha fuga. Tenho o meu Sanctun onde supostamente atravesso portais diáfanos.
Informo-lhes que corro o risco de ao invés de um porto seguro encontrar o que disse Calderon de La Barca: Sonhos! Nos mundos onde transito volitando com o perispírito seres súperos me falam das Estâncias de Dziam e do Nicho de Nodim. Seriam metafísicas sem ancora da realidade?
Abrem à caixa de ferramentas e um depois do outro contam a sua desventura de amor. Após o expurgo e já consolados, estamos abraçados sobre a mesa. Os dois são velhos conhecidos.
Um cantor por profissão, o Edson Luiz, cobra mais do que criada no Butantã das ruas e quebradas do Rio de Janeiro, de tão malandro que é já virou bicho! Bebe por muitas fumaças de amor bandido. Bebe por beber, a sua alma inebriada navega no Rio Átropos.
O outro, um jovem e talentoso advogado criminalista, meu digno leitor, solicita fazer a crônica daquele momento em homenagem ao encontro de almas em padecimento de amor. Ele sofrendo ainda de uma recente separação, está comovido às lágrimas.
Prometo fazer à crônica, pois todos os encontros são transcendentais e aquele momento deverá ser eternizado pela escrita, mas eles já notam a minha pressa em sair. Justifico, pois, tenho que apanhar a neta na aula de inglês, no CCAA às 10 e meia.
Movidos pela mosca do amor ainda me seguram pelo braço. Sendo ambos compositores enquanto juntos fazem uma letra em homenagem ao momento etílico:
Eu sei desse grito amarrado na garganta/ Um dilema sem futuro/ Um amor inseguro/ Sem saber para onde vou/ Eu sou a metamorfose das palavras perdidas/ Nas noites e nas brigas/ Nas desilusões de um eterno amor/ Sou uma data vênia/ Sem caneta e sem alma/ Sou a palavra sincera/ Sou um crepúsculo dentro de você/...
Já me vou e, na despedida estando abraçado para selarmos, o comum infortúnio canto para eles de Noel Rosa “Conversa de Botequim,” sob o olhar estupefato dos clientes habituais que nos observam espantados:
Seu garçom,faça o favor de me trazer depressa/ Uma boa média que não seja requentada/ Um pão bem quente com manteiga à beça/ traga guardanapo e um copo dágua bem gelada/ Fecha a porta da direita com muito cuidado/ Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol/ Vá perguntar ao seu freguês do lado/ Qual foi o resultado do futebol/ Se você ficar limpando a mesa/ Não me levanto nem pago a despesa/ Vá pedir ao seu patrão uma caneta, um tinteiro/ Um envelope e um cartão/ Não se esqueça de me dar palitos/ E um cigarro pra espantar mosquitos/ Vá dizer ao charuteiro que me empreste umas revistas/ Um isqueiro e um cinzeiro/ Telefone ao menos uma vez para 34-4333/ E ordene ao Seu Osório/ Que me mande um guarda-chuva/ Aqui pro nosso escritório/ Seu garçom, me empreste algum dinheiro/ Que eu deixei o meu com o bicheiro/ Vá dizer ao seu gerente/ Que pendure essa despesa no cabide ali na frente/
Saio e os deixo às lágrimas!


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Por Raphael Reys - 13/1/2010 07:32:46
CACHORRO BONITO

Pulucena era uma espécie de madrinha das lavadeiras, no pequeno povoado de Santo Antônio, próximo ao Pentáurea Clube. Todas as terças e quintas-feiras reuniam-se bem cedo na praça da igrejinha e pelos caminhos que conduziam até o Poço Bonito e à medida que elas passavam, companheiras do ofício iam engrossando a fila indiana.
Era um festival de trouxas de todos os tipos e tamanhos enroladas em lençóis de todos os matizes e usos. Tinha trouxa de rico e de pobre, destes últimos com peças remendadas, originalmente compradas nas cercanias dos mercados, e em dias de feira e festa de santo. Algumas foram mesmo presentes dos patrões.
No poço, um ambiente exótico, cheio de pedras e flores silvestres de múltiplas colorações e tipos, uma pinguela feita de um tronco de árvore, completavam o cenário.
A confraternização entre elas, já havia rendido um repertório de músicas rurais de rara beleza, muitas das quais, vararam fronteiras e eram cantadas nos estados vizinhos. Esta harmonia estava prestes a ser quebrada.
No dia do fato, Pulucena como as demais lavadeiras, já se aproximavam do poço. Tinquin um pequeno cachorro mestiço que sempre as acompanhava, ia á frente. Era o guardião das comadres lavadeiras, diziam. De repente, Antera parou estupefata e chamando a atenção das demais, apontou para a pinguela dizendo: comadres olhem aquele cachorro bonito no tronco tão preto e tão bonito, como o poço.
Tinquin o pequeno guardião, já tremia, dando gemidos de cortar coração enrolado às pernas da Marialva. Logo repararam que ele havia se mijado todo. Pulucena replicou: vejam este cachorro na pinguela tem os dentes muito grandes! E completou: olhe que pêlo brilhante. Antera, já entendendo tudo, gritou: Isto é uma onça preta gente! É uma suçuarana, eu já vi uma foto na revista.
Foi um tremendo corre-corre e as trouxas ficaram para trás! Posteriormente, se deduziu que a espécie não sendo natural na região estava de passagem e parara para beber das águas cristalinas do poço.
Este incidente marcou para sempre a rotina daquelas campesinas. Perderam os clientes locais a disponibilidade da lavagem e a mística aura do pego, jamais foi a mesma, sem as canções que encantavam as participantes e tornavam vibrante aquele sítio.
As amigas nunca mais ali lavaram quaisquer outras roupas. Afinal, seguro morreu de velho...


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Por Raphael Reys - 6/1/2010 08:14:23
DUAS PROSAS COM PROFESSOR DÃO

O notável e saudoso intelectual tupiniquim, o professor Pedro Santana, sempre que podia marcava dois dedos de prosa com o seu colega, o professor Dão. Desses encontros, tocados pela marca da alegria, saiam sempre alguns trocadilhos.
Certa feita, Santana convida Dão para tomar assento à mesa do Bar do Nelson Vilas Boas, seu quartel general, ponto de apoio, convidando-o para degustarem uma cerveja Pilsen casco verde.
Professor Dão sempre muito espirituoso pergunta a Santana já respondendo indiretamente: quem tem bunda alugada, pode tomar assento? Santana o convida, então, para a festa a ser realizada, comemorativa do seu suposto noivado.
Dão agradece e fala: você pode fazer a festa do jeito que você quiser. Para mim, peço reservar uma gamela de capim. Demonstrando, assim, a sua certeza de que noivado daquele seu colega de profissão jamais aconteceria...
O notável engenheiro e historiador Simeão Ribeiro Pires, de certa feita partiu em missão juntamente com o professor Dão, para uma viagem de estudos em Barra do Guaicuí. Visavam pesquizar e localizar a sepultura do bandeirante Borba Gato.
Era a noite da passagem de ano de 1970 e estando eles na cidade de Pirapora hospedaram-se no luxuoso hotel Internacional, localizado na Praça Cariri, no centro. Na época, de propriedade de Pedro e dona Odália.
Tarde da noite, Simeão acorda com ruídos vindos da rua. Pela janela, constata que um grupo de jovens empurrava a sua caminhonete Rural Willys que estava estacionada em frente ao hotel.
A dupla de estudiosos desceu para a rua em trajes menores empunhando revólveres e botaram para correr a turma de notívagos que, na verdade, executava uma tradição daquela cidade.
Por falta de criatividade e de outras atividades festivas e culturais, aqueles jovens apanhavam tudo que podiam encontrar pela frente naquela noite e, em seguida amontoavam no pirulito da praça.
Executavam a brincadeira com tal arte que a pilha de objetos, incluindo veículos sobreposta e trançada, às vezes, levava de um a dois dias para ser desmontada.
Certa feita, Simeão Ribeiro e o professor Dão foram ao município de Joaquim Felício, onde empreenderam uma busca mato adentro, no lombo de burros, em busca de encontrar indícios da antiga fazenda de Manoel Nunes Viana. O tempo era chuvoso e estavam todos os dois cobertos de lama até os chapéus.
Foram até à cidade para adquirir mantimentos e continuar a busca. Era o dia sete de setembro, e ao passarem pela praça principal de Joaquim Felício, o prefeito discursava no palanque quando avistou e reconheceu os dois pesquisadores.
Chamados ao palanque em lugar de destaque permaneceram como dois espantalhos ao lado do prefeito e das demais autoridades presentes à solenidade, já que estava besuntada de lama dos pés a cabeça.


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Por Raphael Reys - 31/12/2009 15:02:13
UMA NOITE DE SERESTAS E MAGIA

Uma noite de serestas sob a batuta de Lola Chaves e o coro de lindas vozes do seu notável grupo de seresteiros! Uma beleza! O convite me veio em espirais metálicas pelo telefone celular que estava displicentemente desligado...
Lola com toda a sua elegância e simpatia, congênitas características dos Chaves, honrou-me com um convite pessoal. Ela carrega no sangue a nobreza, a elegância, religiosidade cristã, franqueza, talento artístico, traços peculiares e inerentes ao notável bardo, poeta, músico, advogado e cronista João Chaves, seu pai, emérito patriarca dessa família ilustre.
A imortal e brejeira escritora Amelina Chaves me fez companhia, forrozeira de primeira água e tiete de serestas e saraus. O encontro aconteceu no antigo chatô de Lola, na rua Doutor Veloso. Presentes vários membros da família Chaves, como sempre grandes anfitriões. Puro calor humano!
Logo, animados grupos se formaram emboramente as chuvas miúdas que caia sobre a terra de Figueira e, nos intervalos, rolaram muitos dedos de prosa sobre a história dos Montes-Claros, suas músicas e seu folclore. Na conversação foram lembrados os saudosos irmãos de Lola: Sidney, Raimundo e Henrique.
Em intervalos regulares os músicos do grupo de serestas acompanhavam alguns outros bardos que abriam o peito rompante e enchiam o espaço de beleza sonora. A noite transcorreu sob a égide da festejada curraleira cachaça Viriatinha, “scotchs”, louras geladas e salgadinhos supimpas bem temperados. O pastel estava divino!
Vestindo a camisa do Galoucura, Sisí rasgou o peito e brindou os convidados vindos do Recife com as nossas músicas. Um CD com a voz de Raimundo Chaves cantando a pérola composta pelo seu pai, João Chaves, “Amo-te Muito”, música considerada o verdadeiro hino da cidade, emocionou a todos. A galera presente fechou com um harmonioso coro de vozes e, emocionada, houve muitas lágrimas...
O Grupo de Serestas Lola Chaves, estava formado pelos seguintes integrantes: Sisí, Vitor, Zenaide, Manoel, Carmem, Pedro, Milton, Lucia, Belmiro, Zuino, Haroldo, Terezinha. Ausentes, Carlos e Lurdes.
Cláudio, o anfitrião, brindou-nos com o som do seu mavioso pinho e cantou acompanhado pela voz e solo de Zezé, composições românticas de Adelino Moreira. A noite era de graça e Vitor, com seu vozeirão nos trouxe antigos sucessos de Nelson Gonçalves, fazendo tremer as paredes.
Às 11 e meia foi servido um lauto jantar, no capricho, e, logo após, fomos todos nos maravilharmos com a linda voz de Lígia Chaves, que cantou “Sertanejo” com o coro dos anjos.
Aí, as nossas almas que já estavam sublimadas de contentamento, puderam sentir a fineza de sentimentos dos Chaves: Juntos, formaram uma egrégora ao espírito dos saudosos familiares da anfitriã, presentes ao refinado sarau de Lola.
E viva a nossa musicalidade, nossas tradições, serestas, canções e nossos afinados e imbatíveis cancioneiros!
Vida longa e mil vivas à inigualável e brilhantíssima Lola Chaves e ao seu não menos brilhante Grupo de Serestas!


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Por Raphael Reys - 26/12/2009 08:46:26
BREJEIROS.

Valdevino, negociante e o farmacêutico França eram eméritos moradores do Brejo das Almas. Compadre de festa de santo como manda a tradição local, molhavam os beiços com uma boa cachaça Parati. Às vezes tomavam uma Gameleira com “rusarô”, lambiscadas por Lincoln Silveira.
Estávamos em 1940 e as únicas novidades que chegavam eram notícias sobre a Segunda Grande Guerra Mundial, via Repórter Esso, na bela voz de Erón Domingues. Cansados do marasmo campesino, os dois compadres combinaram uma viagem à Canabrava. Rever amigos comuns, tomar uma branquinha, trocar dois dedos de prosa, essas coisas...
Matutaram a empreitada, arrumaram a matula, com uma boa farofa de carne de sol, cabaça de água, palha tenra para o cigarrinho, um pedaço de fumo goiano com raiz de carapiá. Pendente na cabeceira da sela, embornal de milho para as montarias e na cinta os Shimitão 38 Torre.
Logo estrepitava estrada afora os alazões pelos 17 quilômetros rumo ao destino projetado.
Chegando ao Riachinho, onde hoje fica a Penitenciária Federal, “apiaram” para tomar um gole de água cristalina, comer um punhado de farofa e, em seguida, pitar o cigarro de palha.
Rompendo pela estrada a uma boa hora de cavalgada, França deu por falta da sua pirata de estimação. Valdivino retornou, queixando-se e resmungando da distração do compadre França. Afirmou que ao retornarem ao Brejo, sendo ele farmacêutico, faria uma manipulação com fosfato para corrigir a falta de memória do compadre.
Ao se aproximarem do Riachinho, onde há pouco haviam feito a ponga, o França apontando disse: “Veja compadre! Tem uma pessoa sentada no lugar que apiamos. Vai ver, já apanhou a minha pirata!” O suposto personagem nada mais era do que o paletó amarelo de Triunfador que o Valdevino também esquecera no local. Deixara pendurado a um galho servindo de cabide...
Já Manoel da Vovó perdeu uma das mãos em acidente e para mudar o destino foi trabalhar na terra da garoa. Alguns anos após, já abarrufado de grana e com o quengo desanuviado, retornou à sua urbe vestindo terno de casemira Aurora.
Chegou pisando em solo pátrio calçado com sapato Faggione de duas cores e falando arrastado que nem paulista. Vendo um garoto na parada de ônibus foi logo perguntando: “Onde é a casa da Vovó?” Obtida a resposta, em seguida contratou o menor para carregar a sua mala de couro.
Chegando a casa e vendo as partes de um grande porco pendentes ao teto por fios de arame, foi batendo palmas e perguntando: “A casa virou açougue Vovó?” Ato seguinte virou-se para o carregador, sacou do bolso uma moeda e arrematou: “Toma dez tons!”
Logo logo montou uma espelunca na saída da cidade vendendo cachaça, fumo de rolo, farofa de carne, prato feito.
Chegou uma turma grande de peões Vacarianos vindos de Paraopeba e contratados por empreitada para derrubar matas em fazendas locais. Um deles bebeu uma dose de Gameleira e logo reclamou que a farofa estava azeda.
Manoel respondeu em cima do pedido: “É porque vocês não estão acostumados a comer carne bem temperada no vinagre!”.


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Por Raphael Reys - 22/12/2009 09:50:00
O QUARTO OTÁRIO
(série Melo Viana)

Na minha visão globalizada, culturalmente curtida nos becos, vielas e quebradas da vida, quase todo macho é otário. A mulher, essa criação divina, metade anjo, metade demônio, ainda é a maior mala sem alça. Do universo masculino a única exceção é o malandro. Este Deus fez no capricho. Para ajudar a mulher a castigar o mundo.
O ser macho, chamado indevidamente de homem, morre de inveja da mulher, pois a mesma tem apogeu genésico múltiplo. A mulher olha para o homem e sabe o que ele é, o que tem e o que vale (se vale). Não precisa farol alto na grana para manjar, basta à intuição natural. Ela é o protótipo da própria malandragem.
O malandro sobrevive e escapa, pois sendo vacinado, não tem dó de nada e de ninguém. Ele sabe que o dia em que cair na mão da autoridade vai cantar no coro e gemerá tal qual roda de carro de boi. Sendo carma do mundo ele é o agulhão da mulher. Chega de fogo em casa, não trás nada, quer comer de tudo. E ainda bagunça...
Estando a porta da casa fechada, ele a quebra e se a polícia vier ele encara na mão limpa. Vai preso, logo estará solto e quebrará tudo novamente. Se levar pau grosso vai para a CTI. Logo em alguns dias, estará de voltar e armará todo o presépio, novamente. Dará mais tapas na Maria Joana Pernambucana e bagunçará o coreto.
Ele não paga conta, cega os cobradores que o perseguem. Canta a mulher do vizinho joga nas dez e bate com pau de dois bicos. A mulher por ser mais sutil, inteligente e intuitiva do que o bicho macho aplica a sua malandragem só na “sugesta”. Basta um olhar 53, um sorriso, um movimento de corpo, uma contração facial e ela controla e domina o trouxa.
Esse ser diáfano aparenta ser passiva, mas é ativa! Aqui no bairro Morrinhos onde moro tem uma morena quarentona, estilo índia dos cabelos negros, que já mandou três maridos para o andar de cima. A arma que usou foi tão somente o prazer prolongado. Matou com arma limpa, sem derramamento de sangue, com o “de cujus” sorrindo, satisfeito, feliz da vida, qual “Belos Antonios”. No ato!
Sedução, provocação excessiva no ambiente doméstico. Exaustão. Todas as três felizes vítimas foram necessariamente para o céu. Aleluia! A quarta vítima já está sendo trabalhada e seduzida. Trata-se de um feliz aposentado siligristido. Metido a bom de sela. Anda dando uma de quem não quer nada com ela.
Não dura seis meses e ela estará faturando a quarta pensão, graças ao quarto otário...
No meu canto de cronista “voyeur”, bem que fico morrendo de inveja dele, por não ter sido o escolhido para bater a caçoleta encharcado de prazer...


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Por Raphael Reys - 12/12/2009 14:44:36
SANDRINHA CARPIDEIRA
(série Melo Viana)
Segundo relatos de Marquinhos e do carnavalesco Nivaldo Feijão, os bons tempos que o bar Destak pontificava como a atração da rua Melo Viana, uma freqüentadora das rodadas de cerveja, era Sandrinha Carpideira. Mestra do agá era assessorada por duas secretárias, formando, assim, uma trinca de velhacas.
Ela, com a sua equipe, tão logo tinham conhecimento de algum velório no bairro Morrinhos, caiam dentro do maior luto. Mudavam-se literalmente para a casa onde transcorria as exéquias do falecido e lá, comoviam e assombravam os presentes exercendo o oficio de carpir o ”de cujus”.
Choravam, gritavam, enfim davam o maior show!
Enquanto a Sandrinha carpia, as duas secretárias corriam os olhos pela casa para sacar onde havia coisas pequenas e jóias. Eram peritas em avaliação e localização. Levavam duas grandes sacolas cheias de flores, que voltavam barrufadas de valores!
Relógios, jóias, rádios portáteis, equipamentos de uso médico, cartões de crédito, talões de cheques, armas de fogo, de tudo um pouco.
Enquanto os acompanhantes do cortejo se emocionavam e choravam junto com a Sandrinha Carpideira, que dava o maior pití à beira da cova, as duas que ficavam olhando e tomando conta da casa, faziam à festa e passavam o rodo no bem bom.
Durante o enterro de Técio, morador local do bairro, morto por ter comido muito tira-gosto de sarapatel quente no Bar Destak, Sandrinha aprontou na beira da cova, pedindo para ser enterrada junto com o falecido. Puro teatro!
Gritava: eu quero ir com ele! Enterra-me junto dele! Deixem-me ir! Deixem-me que eu vou!
Estando o caixão em repouso no fundo da cova, no exato momento de se lançar as primeiras pazadas de terra por cima, a vigarista agitada, escorregou nos torrões de terra seca à beira do túmulo e caiu lá dentro, para o espanto de toda a platéia.
Aí, a cantiga mudou! Quando recebeu as primeiras pazadas de terra na cara, balançou os braços em exagerada gesticulação e gritou: tira-me daqui!. Eu não quero ir mais não!
Foi o seu canto do cisne! Pegou mal e a galera manjou a jogada. Foi este o fim da trinca de carpideiras da rua Melo Viana...
Outro falecido que morreu em conseqüência de comer tira-gosto muito quente em pedaços grandes demais, nas vitrines do Bar Destak, foi seu Asídro. Botava quatro grandes pedaços de bucho fervendo no palito e mandava para dentro, direto na garganta, sem mastigá-los.
Não deu outra. De tanto ir à fonte, um dia o cântaro quebrou e ele bateu a caçoleta!
Aviso aos navegantes: bucho, sarapatel, fígado, pedaço grande de galinha botadeira de ovos em granja, é rabo de foguete!
Puro colesterol, gordura saturada e outras coisitas mais. Tomem cuidado!
O cardápio e os produtos das cozinhas dos point da Melo Viana, são batizados. Olho vivo, pois só enfrenta quem agüenta...


52714
Por Raphael Reys - 8/12/2009 14:47:13
DETALHES DA NOITE
(série Bandeira 2)

O Bandeira 2 tinha como atração gastronômica o bufê itálico feito no capricho pelo cozinheiro João Suçuarana, um gay assumido que volta e meia aprontava com os malandros do morro, que o procuravam, atrás de grana. O garçom das unhas grandes e tortas era o Bola.
Havia um conhecido segurança, que prestava plantão regular no Terminal Rodoviário e usava uma dispensa da casa para ficar, com os parceiros masculinos.
Estando a serviço, pendurava o cassetete e o coldre com o revólver, em um cabide móvel, junto à cama, que balançava no ritmo quente da dupla. Era a atração nos finais de tarde.
Voyers observavam tudo por um buraco na divisória de duratex. O militar foi denunciado por um colega sendo flagrado, e expulso da corporação.
Como a noite tem suas fatalidades, Branquinho, um malandro sarará, quase albino, fintão por excelência, deu o cano em conhecida profissional da noite. Foi abatido por ela com uma lâmina fria. Seu irmão gêmeo, como ele, chamado Branquinho II, uma semana após o feito e, estando embriagado, “caiu da bicicleta” na passagem do viaduto da Melo Viana tendo morte (misteriosa) instantânea.
A casa contava com seu pai de santo de plantão. Em um dos quartos, o gongá de Alfredo, falso babalorixá, que usava uma bata colorida, dava descarrego de pólvora e prescrevia medicamentos de agá para os patos trazidos do terminal pela malandragem comissionada: Osvaldo, Pancho Vila, Dão.
A mulher mais bela que freqüentava o pedaço era a Gatinha, um primor de beleza. A que mais faturava era Saluzinha, meio doida, mas, boa de bico e habilidosa, saia sempre barrufada de grana. Criava porcos amarrados com corda, no quintal do seu barraco no alto do Morrinhos.
O malandro mais esperto que se hospedou na casa foi o mágico Oriet Bey (hoje está na Itália aplicando 1.7.1. de adivinho na TV), que deu shows no AC e no Colégio Imaculada. Depenou a alta sociedade local. Já o conhecido basofista Jason Gato, um valente, foi desmistificado depois que levou uma sova.
Wal Kariba era um maluco que freqüentava a casa quando a polícia montava campana na circunvizinhança ele vestia-se de mulher, com peruca blondi, corria pela Rua Melo Viana acima, atraindo a meninada e gritando: Pega a doída! Pega a doida! Assim desviava a atenção da patrulha que estava de campana em seu encalço.
O episódio mais notável desse lugar se deu em um mês de junho, com a comemoração das festas da Serra das Araras. Fretou-se um caminhão de paus de arara cheio de damas da noite e malandros, que iam faturar nas famosas festas de santo.
Numa curva acentuada, conhecida como curva da morte, em Brasília de Minas, o veículo desgovernado, bateu numa grande pedra. Com os passageiros sendo jogados para fora, morreram quarenta filhas de Vênus. O local ficou conhecido como Curva das Raparigas.
Borrola, conhecido notívago e mecânico de motos, viajava a bordo, dentro de um tambor de metal, curtindo a sua costumeira ressaca. Estando desmaiado e ao ter seu corpo recolhido por voluntários recrutados entre os bêbados dos bares próximos, pelo prefeito local, ao ser apanhado para ser jogado na caçamba que recolhia os mortos, acordou.
Disse para o bêbado voluntário: Estou vivo ainda! O voluntário, já de saco cheio respondeu: Cale a boca! Quem disse que você está morto foi doutor Chiquinho, portanto vamos para a caçamba, pois você não sabe mais do que ele que é médico...



52607
Por Raphael Reys - 4/12/2009 07:41:57
VIVI PEIXE GALO

(Crônica dedicada ao nosso leitor NAZA, balconista da Freiopeças).

Emérito morador do bairro Morrinhos, personagem de histórias em seus becos e vielas. Um cafuzo com biótipo de zulu. À bem da verdade uma mistura de índio, afros e expurgados portugueses de antanho. Magérrimo, ossudo, cabelo grande.
Já aos 65 anos anda balançando que nem pato na favela. Penducando o equilíbrio com seus braços longos gingando entre os obstáculos da rua e as fubiuas desdobradas que atazanam o seu quengo tropical. Unhas grandes como as de Perséfone. Olhar de vaca pidona. Puro agá.
Foi ele quem inventou a história do João Sem Braço!
Não o compre pela aparência. Ele é cobra mais do que criada em laboratório da vida e da malandragem. Mestre do agapanto e do agapito. Passou e passa a sua vida no maior “dolce far niente”, ou seja, na ociosidade.
Ele é pai e mãe da sugesta e, na sua adaptabilidade de vida, já bebeu absinto com tira-gosto de torrão de parede e picumã. Joga nas dez e bate com pau de dois bicos!
Quando adolescente, juntamente com Duílio, João Batatinha, Marquinho do Destak e Pedro Emiliano iam tomar banho no rio Pai João. No caminho e como estavam todos lisos distraiam o vigia noturno do Matadouro Otani aplicando o golpe do distraído e surrupiavam bolas de salame.
Ao passar pelos Bois, engambelava o bom Flávio Maurício fabricante da excelente cachaça lambicada. Para tal, dizendo portador de recado de vizinho próximo levavam a suposta encomenda fiado. Duas boas garrafas da mais pura com ‘rusaro”, para molhar a palavra na beira do rio.
Já adulto, aplicavam no bar do Miltão, no tempo em que as portas do estabelecimento eram do estilo faroeste. Estando com o estômago roendo chegavam com um pão já aberto; Vivi pedia ao Pidoca para molhá-lo, de graça, com caldo de galinha caipira. O petisco galináceo ficava ao alcance da mão em uma panela no fogão próximo ao balcão. Enquanto Pidoca distraia, eles, ágeis, surrupiavam e engoliam com o seu bocão “de conforça” uma ou duas coxas da penosa. Pidoca desconfiado fazia perguntas e Vivi, de boca cheia, não podendo responder balançava a cabeça como resposta. Aplicava em Deus e todo mundo.
Quando questionado no ambiente imediato, batia no peito e dizia ser ”a maior potência do mundo”. Contestado por ser muito magro, tez amarelada e olhar macambúzio, Vivi respondia: ”Sou magro, mas é tudo saúde!”.
Só enfrenta quem agüenta!


52410
Por Raphael Reys - 26/11/2009 14:31:31
FERRIM E AS FORMIGUINHAS

Padeirinho, sacramentado na pia batismal como Lourenço do Carmo, vendedor de relógios michas e mestre do agá, entrou pesado no carteado do Bandeira 2, já sob o controle do conhecido João Pena, bookmaker dono do antigo Clube Minas Gerais, o cassino.
Com a cuca cheia de gole, bolso abarrufado, ele tinha também seu dia de pato. Lá pelas tantas da noite e estando liso propôs maliciosamente ao bookmaker descontar um seu cheque, para continuar no jogo. Como era conhecido na noite, foi aceito como bom. O cheque, entretanto, era um tremendo171.
Padeirinho, sabendo que estava sendo depenado, reagiu, recuperou o perdido e ganhou mais um bom vento. No acerto, pela manhã, João Pena devolveu-lhe o seu cheque, como parte do ganho acrescido de dinheiro. Ele se recusou a receber o próprio cheque alegando que o mesmo não tinha fundos. Problema da casa com o banco e com a justiça!
No cheque estava assinado Lourenço Cano. João Pena sacou o revólver para corrigir a aplicação e moralizar sua banca de jogo, junto à malandragem. Manoel do Bandeira 2 entrou e conciliou as partes.
Três da madrugada chega um estranho com quatro mulheres da noite. Sob sua pedida, comeu-se, bebeu-se e farreou-se consumindo o bom e o melhor da casa. De repente, o homem sumiu. Foi o maior corre-corre e nada. Desapareceu dentro da casa, evaporou-se, o que passou a ser tratado como mistério. Deixou o maior grilo.
Pela manhã, dona Mariinha, a lavadeira, notou um ronco proveniente de um velho congelador abandonado no depósito. Chamou Zé do Burro, o segurança, que verificou e constatou o fato. O malandro da farra se escondera lá e como já estava bebum, dormira dentro da peça. Passou-se por fora uma corrente com cadeado deixando-o trancafiado.
Era feriado nacional, Manoel e os funcionários foram comer carne de sol no restaurante da velha Cearense, fora da cidade. Tomaram banho de rio, só retornando às 17 horas. Soltaram o malandro, que pagou dobrado pela farra. Estava todo urinado e lambrecado. Uma cena laxativa e grotesca.
Apos uma noitada no Bandeira 2, Padeirinho retornou à sua casa, no alto dos Morrinhos. Ao abrir a porta, deparou-se com um pequeno caixão de defunto anjinho, cheio de flores, posto em cima da sua mesa de sala. Desceu o morro de cabelo em pé e às carreiras. Chegou ao Bandeira 2 e pediu auxílio a Geraldo da Rapa.
Lá chegando à polícia, a vizinha explicou que botara o caixão da criança morta ali no vizinho, pois no seu barraco não tinha lugar e precisava sair e providenciar a grana para o enterro. Padeirinho, como era medroso, mudou-se e nunca mais subiu o morro.
Conhecido político em evidência, solicitou a Manoel do Bandeira 2 arrumar um laranja, na noite, para comprar uma fábrica de confecções em Belo Horizonte e depois repassá-la para um parente próximo. Os laranjas escolhidos, Ferrim e Joaquim Vermelho, bem vestidos para a ocasião, fizeram-se passar por empresários. Compraram a pequena fábrica pagando com cheques pré-datados desprovidos de fundos e a vendeu, em seguida, para o familiar do político, contratante do golpe.
Na hora da transferência da documentação, o contratante tentou passar um cheque frio na dupla de laranjas contratada. Ferrim, esperto que nem coelho sentenciou: Só assino depois de a formiguinha passar! A parte pediu esclarecimento e ele arrematou: É uma depois da outra, nota após nota, tudo na minha mão. Caso contrário, vendo a aplicação para outro malandro.


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Por Raphael Reys - 21/11/2009 08:39:45
A BANDA DOS LARGOS
(série Melo Viana)

Um fato exótico, digno de nota na rua Melo Viana é o fator sorte grande na loteria. Tomando a via em sua extensão de extremo a extremo, do lado direito de quem sobe vindo do centro são sete quadras até o vértice do morrote que confere nome ao bairro onde está localizada a sede do montesclaros.com.
A coincidência de ganhar em loterias só acontece com os moradores do lado direito da rua, como bem observou Manoel do Bandeira 2. As quatro primeiras quadras é a banda dos largos, onde a sorte passa e fica. Deixa os felizardos abarrufados de grana alta!
Senão vejamos: O primeiro a ficar rico por aqui, e por obra da buena dicha, foi o Timbira, balconista da extinta Farmácia Droganorte, que funcionava onde hoje é a sinuca gerenciada por Ferrim das Formiguinhas. Encheu o bolso e gramou o beco, para São Paulo. Vazou fora evitando os falsos amigos.
Logo mais alguns metros a sorte achou Gêga Barbeiro, sócio de Milton no salão. Esse deu no pé com o bolso cheio de grana e foi curtir praia e muita mulherada no Rio de Janeiro. Uma porta à frente e o bem lançado Valdir Aguiar, filho de Virgílio do Restaurante Bandeirante teve o seu dia de sortudo. Apanhou um primeiro prêmio da federal e correndo dos meletes vazou da cidade.
Manoel do Bandeira 2, que comprou o restaurante do Virgílio, o sucedendo no ponto, adquiriu um bilhete e fui abarrufado pela loteria Federal. Hoje próspero pecuarista e hoteleiro. Aplicou e se deu bem.
Logo na primeira esquina, da primeira quadra, o comerciante Antônio Condeúba foi visitado pela sorte grande. Seu vizinho Jason do Caldo de Cana, após a linha férrea, ganhou na Federal e aplicou em imóveis. A coisa rendeu e, ao falecer, quase centenário deixou cento e vinte imóveis residenciais e comerciais para os herdeiros.
Mais alguns metros e dona Yolanda que vendia verduras no quilo, comprou um bilhete inteiro e ganhou na sorte grande. Deu no pé. A sorte continuou e mais a frente achou o serralheiro Levi Pimenta. Acertou sozinho uma quadra da loteria federal e entrou para o ramo da pecuária e da construção civil.
A sorte ficou na sua casa e posteriormente sua saudosa esposa veio a ganhar duas vezes na Loteria Federal.
Uma farsa. Manoel Quatrocentos espalhou que havia ganhado e não ganhou. Foi vítima de vizinhos encapuzados que invadiram o barraco atrás de grana. Quase bateu a caçoleta!
Enquanto tocava o seu saxofone fazendo comerciais como bico, o alfaiate João Tintureiro ganhou o primeiro prêmio da Federal em dois bilhetes inteiros. Como os outros, limpou o beco. Macaco é 17!
Jorge do cafezinho, cochilando e pescando piabas, como sempre, no balcão, foi acordado pelo cambista e acertou na cabeça da Loteria Federal. O fato repetiu-se por duas vezes.
Haroldo do Destak, trabalhando no Bar por cinqüenta anos e cumprindo as suas obrigações como pai de santo abocanhou um prêmio da Azulzinha do Trenzinho e montou o seu próprio bar e restaurante. Bolso cheio de vento, amigos foram ajudados. Molhou a mão dos mais próximos.
Haroldo recebeu o seu Exé em Livramento na Bahia e vai montar um gongá de magia. Vai se chamar “Pain de Biriba”. Já que ele corre ”gira” vamos fazer uma firmação junto ao mesmo, visando à mega-sena acumulada!
Um dos ganhadores citado na crônica está na tábua da beirada. A esposa fez tantas e muitas viagens a sua cidade natal, nos últimos trinta e cinco anos para mostrar grana e “fobar” com a cara de conterrâneos pobres que gastou todo o dinheiro. Ele deixou correr frouxo e agora está urrando. Afora a casa de morada está no maior “miserê” e a um passo da eternidade!
E para terminar a crônica sem encerrar o fator sorte do lado direito da rua, o lado dos largos, um genro de Hélio Carneiro acertou a quina. Os demais moradores desse lado da rua aguardam a sua vez. Esse cronista inclusive! Os cambistas quando sobem o morro, vão pelo lado direito. É o lado onde tem os botecos, as fubuias desdobradas e a sorte grande. Axé!


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Por Raphael Reys - 17/11/2009 09:57:06
MALANDRAGEM TROPICAL
( Série Bandeira 2)

Atento a tudo o que passava pela portaria, assim como os trâmites no interior do salão, do bar e das alcovas rotativas, Manoel do Bandeira 2, o proprietário, cobra criada nesse mundão de Meu Deus, notou quando dois furgões C- 14, carregado de PMs deram cerco à sua porta.
Cumprindo mandato judicial, os homens da lei chegaram com gosto de gás para capturar o bookmaker conhecido como “terror”. Quando o detido já estava para ser posto na traseira da viatura, Seu Manoel aplicou um agamenon na força tarefa.
Gritou: “Tem um telefonema urgente para você Terror. Parece que é problema grave com a sua família”.
Tendo o preso mostrado apreensão, os policiais permitiram que ele fosse atender na parte interna do bar ao telefonema 1.7.1. Ao passar pela entrada, escutou Manoel abaixado atrás do balcão falando baixinho: o portão do fundo está aberto!
O preso iniciou o falso diálogo, baixou o fone e gramou o beco fugindo através do alto capim vermelho do quintal, escapando pela saída de emergência.
Pulou fora da bronca que era pesada!
De outra feita, um conhecido travesti carioca, clone da mais bela mulher e especialista em idle rich ficou hospedado no Bandeira 2. Preparava golpes para faturar em cima de milionários, sua especialidade. Dado à sua beleza, teve acesso imediato à uma hora dançante que rolava no Automóvel Clube.
Fazendo se passar por mulher e estando no tipo de ambiente que era costumada a operar, causou o maior frisson na noite, foi capturada por conhecido médico local, freqüentador de lupanares, que encharcado de scotch, com a libido potencializada e pensando estar com uma tremenda gata, se dobrou de paixão pela boneca. Ficou tão emocionado que não ligou para o ambiente.
Foi dançar no salão, ao som de Patatí Patatá, de Myriam Makeba e dando gostosos e suculentos beijos na boca da bichona linda, se esfregando no maior pacote inflável, o que fez os sabedores das coisas da noite a murcharem as orelhas de vergonha e como ninguém falou nada, ele levou a lebre para seu carro, do lado de fora. Crente que estava abafando!
Foi barrado pelos familiares e amigos, que avisados por bajuladores, vieram às pressas e tentaram linchar a indefesa boneca tropical, tendo a mesma se evadido, por estar armado. Efetuou dois disparos no chão, os puxa gramaram o beco e ela se refugiou na garagem do Bandeira 2.
Os paus mandados ao invés de dar uma pala para o médico embriagado vieram para linchar a desprotegida boneca charmosa.
Seu Manoel temendo pela vida do seu hóspede, escondeu o mesmo no fundo da sua caminhonete, cobriu com lona e mandou o seu motorista de confiança deixar à linda e explosiva encomenda gay em BH. Sã e salva da fúria homicida dos amarra-cahorros!
O problema, típico comportamento de cidades campesinas foi contornado.



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Por Raphael Reys - 13/11/2009 08:14:28
O CABARÉ DE ZÉ COCO
(série MeloViana)

Em 1968, a autoridade municipal de Montes Claros desencadeou uma campanha repressiva, social, político e policial, proibindo a presença das damas da noite que há sessenta anos faziam ponto em casas de encontro e dancing no centro comercial da nossa urbe. De 1910, o Marimbondinho de Ana Capivara até 1968 à Roxa, Niama e a elegante Teresinha Bombril.
As profissionais da noite foram removidas na marra e levadas em caminhões e caçambas da prefeitura local, como gado bovino, até o conjunto de casas que ficou conhecido como Cabaré de Zé Coco, ocupando parte das ruas Corrêa Machado, Risério Leite, General Carneiro, Bahia e Beco Carijó, no bairro Morrinhos.
O point era o galpão conhecido como Cabaré de Zé Coco. Bar, restaurante, salão de dança e quartos alugados para as damas das camélias, que naquele tempo, residiam no local de trabalho.
Ao todo, uns cinqüenta imóveis foram locados, acomodando um efetivo de seiscentas profissionais da noite, remanescentes do trotoir do centro da cidade e da sua história de becos românticos, tangos e boleros em pista sintecada.
As beldades que mais se destacavam eram a Eliana, a mais bela de todas, a Bilisquete, uma baixinha que dançava os ritmos da moda, a Tarzan e a Sérgia, duas tomba-homem. Encarava qualquer parada e derrubavam o fintão no chão pisando no seu pescoço.
A profissional mais requisitada era a Maria Bocaiúva, uma mestra em Kama-sutra tupiniquim e técnicas francesas de alcova. Tinha quarto privativo e em separado do conjunto, dado ao seu status. Morreu no acidente automobilístico que ficou conhecido como A Curva das Raparigas em1970.
O conjunto musical que animava a casa maior era composto por Lauzinho da Guitarra, Cí Baixinho na percussão e Piruleta. Som brega ao estilo jovem guarda Wanderley Cardoso, Wanderleia, Roberto Carlos e Wilson Simonal.
O malandro mais esperto que circulava no pedaço chamava-se Vivi Peixe Galo, que cegava os otários na hora do golpe. Pelas ruas e becos circulam, a bicicleta de Canão, Eustáquio Perneta,
João Sexta Feira e Padeço.
Os mais valentes eram os policiais Geraldo da Rapa e Wilson Fróes. Branquinho Sarará, que terminou estrepado numa lâmina fria, e o mecânico Vovô que levou seis besouros sem asa de 38 na caixa torácica e está vivo até hoje.
Em 1977, com a liberação dos costumes, o ócio tomou conta do conjunto e a mística do cabaré perdeu status. Chegou ao fim! As damas da noite foram adoecendo por falta de recursos e má alimentação as doenças infecto-contagiosas, venéreas e a tuberculose e a depressão fizeram o resto do serviço.
Os responsáveis pelo serviço social do município, espalharam um boato, na pura guerra psicológica, dando conta de uma nova e terrível doença venérea, chamada Cai, Cai, estava grassando no conjunto. Foi o fim do movimento local.
Não deram a menor chance para aquelas que dedicaram sua juventude ao prazer de terceiros, acolhendo e aplacando as taras da população masculina. Aplacando a semântica libidinosa do homem da roça.
Desumana, arbitrariamente, negaram-lhes quaisquer tipos de socorro ou ajuda e se quer lhes prestaram a menor assistência financeira ou social. Numa atitude preconceituosa e anticristã. Confirmando a terrível e heróica saga da vida de prostituta.


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Por Raphael Reys - 7/11/2009 09:08:45
O APURADO DA MALANDRAGEM

(série Bandeira 2)
Dos tipos exóticos que circulavam nos salões do Bandeira 2, consta um militar que, expulso da corporação por excesso de malandragem e sendo solteiro, partiu para o golpe do baú. Noivou com uma viúva abarrufada de grana de herança, conduzindo-a ao altar.
Como padrinhos de casamento foram convidados Manoel do Bandeira 2 e um Alívio (advogado porta de cadeia). O padre (Pássaro Preto) contratado, para seu azar, era também malandro. Um fugitivo das capitais que entrou na batina para se dar bem. Ministrava e fazia os crédulos de uma cidade campesina próxima.
O Pássaro Preto sacou o noivo malandro e aplicou o contra-agá na hora da cerimônia. Perguntou: Seu casório é vento, ou é bandeira? O noivo respondeu: Ventolino! O pássaro preto prosseguiu: É fechamento (matar a noiva após o casamento) ou lavatório (deixar a esposa após o casamento)? O noivo respondeu: Lavatório!
Definido o tipo da aplicação na noiva o Pássaro Preto faz a conclusão: É brancolino? (uma parte come a grana sozinho) ou rachulino (o Pássaro Preto leva uma boa parte)? O noivo respondeu: É rachulino!
Nessa altura, o padre pergunta sobre sua garantia em receber sua parte depois do ofício realizado: Qual é a minha garantia? O golpista retrucou: Meus padrinhos, o Alívio aqui e Seu Manoel do Bandeira 2, que são meus amigos!
Selado o acordo dos dois malandros da vida, o Picão ganhou de presente de casamento uma grande empresa, e o Pássaro Preto ficou barrufado de vento. Tudo resolvido segundo o código 171 da malandragem!
Como a convivência com a clientela, maioria de malas com e sem alças, seu Manoel do Bandeira 2 numa ocasião, viajou de carona com o famoso Joaquim Vermelho (famoso vendedor de carteira falsa para motorista e intermediário em contratos de pistolagem) para Belo Horizonte.
Joaquim, cobra mais do que criada na noite, mestre da chaveta e do contra-agá, pisava fundo no acelerador a 140 por hora. Mal sabia o carona que o homem estava trincado de tanto mandar fumaça baiana para o cabeçote.
Olhar inflamado, vermelho que nem um pimentão perguntou:- Manoel, aquele carro lá na frente esta vindo ou indo? Percebendo o rabo de foguete no qual entrara, Manoel respondeu:- Encosta a direita e para, que ele tá doido e vai passar raspando!
Parado o veículo, Manoel tirou a chave do painel e convenceu o homem a ir dormindo no banco de trás. Ele estava tão trincado que não sabia que estava dirigindo.
A noite tem o seu tom exótico e Branquinho, um malandro sarará novo no pedaço, queria fazer fama de valente, e como já tinha aleijado um assaltante a tiros, resolveu copiar Saluzinho e saiu à procura de um confronto com os da lei. Estava a fim de ir para a capa da revista!
No Caldo de Mocotó próximo encontrou Robertão, policial militar, o maior valente da cidade. Deu um coro no homem, o cortou de faca e só não matou, porque foi imobilizado pelo Negão Torresmo, professor de artes marciais.
Dias depois, estando embriagado foi morto a facadas por uma dama da noite na qual aplicara uma finta.
À noite as ruas têm seus prazeres e seus castigos! Quando o malandro cai e o castigo pega, urra sozinho e apanha que nem cachorro sem dono. A noite não tem revertério, caiu para dentro está batizado.
Malandro é malandro, e macaco é 17. De tudo o que Deus fez, o malandro é a cria pior. Só dá prijú!


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Por Raphael Reys - 26/10/2009 14:10:23
PASTORES DA NOITE (série Bandeira 2)

Vindo originalmente do Bar Bandeirantes, montado pelo empresário Virgílio para fazer concorrência ao restaurante do Terminal Rodoviário, em que perdera a concorrência fraudulenta, o Bandeira 2 fez história nas noites montes-clarenses.
Funcionou diuturnamente entre 1968 e 1990. Duas décadas!
O bar tinha como vizinhos de atividade noturna o Hotel de Pedro Nu, e o exótico “Bardonato”, onde só trabalhavam malandros escolados. Comia-se o melhor tira-gosto e a melhor comida típica de então. Carioca, um garçom pintou a placa da entrada: “Bardonato! Onde se come e se bebe barato”.
“Nato” era o maior agiota do pedaço. Emprestava dinheiro para os ferroviários e cobrava juros de até trinta por cento.
Na rua de baixo, o bar do valente João da Hora, local de gente destemida, de murrão da roça, e onde a coroa da Santa padroeira da Catedral, operada por Neneco, cobra criada da noite, e que fez o leilão da peça sacra. O maior sacrilégio do pedaço!
A noite tem seus códigos, os becos com seus Big Men, quando tipos vestem roupagens e colegas de copo e de cruz buscam a sofreguidão a Baco, mergulhando no álcool e na ilusão da fumaça do amor bandido.
Na noite, um resto de tango e um assovio, uma chave de quarto rotativo, um lençol cheirando a pó de arroz, rouge e Royal Briar. Um corpo suado exalando sabonete Eucalol, um cheiro de Alfazema Suíça, um lenço manchado de batom vermelho.
Um fio de cabelo de mulher embaraçado à língua entorpecida, um elástico enrolado à coxa de nácar de uma Dama das Camélias.
Na mesa de sinuca o taco de Lucídio Cutelo, a presença de Lapinha, do Bola, de Quincota e Nivaldo com seus anéis de brilhantes e o seu chapéu siciliano, com pena de papagaio.
Na pista verde, trilha das fichas, da roleta e das ilusões geométricas, das mandalas do pôquer, do chemim de fér e figuras mágicas que traçam destinos de otários, de malandros e de patos barrufados.
Na pista sintecada, Paulo Bocão dança bolero e a sua calça de linho S120 branco tremeluzia a luz vermelha do reclame e, o bico do seu sapato de verniz alemão refletia as sombras dos corpos atormentados rolando em fortes amplexos e juras de amor.
Tião chega trazendo Doutor Jason para comer um lauto baião de dois. Ocultos pelo capim vermelho que encobria a saída dos fundos, Ló, Padeirinho, Chiquinho e suas caixas de ferramentas cheias de chaves, agás e de bobos michas.
Nas mesas do bar e do dancing no piso superior, apaixonados se embriagavam escutando Lindomar Castilho cantando Andorinha e os notívagos, Pedra Azul, Moacir e Saint Clair preparavam mais um aplicação para otários.
As estrelas da noite eram Vera Baiana e Maiza, dona de uma beleza estonteante e a mulher que mais faturava era a Galo Bravo, que quando estava estressada tirava a roupa e corria pela Rua Melo Viana. Principal via de acesso para o Bairro Morrinhos.
Uma dama de negro, uma tremenda loira vinda da terra de Odim em busca de aventuras e apogeu múltiplo se encharcava de Jack Daniels, à mesa do fundo e, escutava o solo do piston de Chet Baker tocando Stella By Starlight. Com sua beleza estonteante provocava um frenesi no ambiente.


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Por Raphael Reys - 22/10/2009 14:21:48
RUA MELO VIANA E SEUS ARTIFÍCIOS

( primeira da série- Será publicada juntamente com a série Bandeira 2. Contando a história do bairro Morrinhos- Entre uma e outra, crônicas do cotidiano e personagens para não ficar cansativo)

A escola de samba mais famosa era a Destak, criada pela família de dona Linda. Começou como bloco caricato, evoluiu para escola alcançando o seu apogeu com o primeiro lugar no carnaval de 1982. A quadra da agremiação foi montada na esquina das ruas General Carneiro e Dona Tiburtina.
Dona Linda era a presidente, seu filho Wilson, mestre de bateria, na cabeça Betinho, como puxador o cantor Simonal Cor Morena que trazia os sambas enredos do Rio de Janeiro. A porta bandeira era a bela Jaciara e os mestres-sala Neguinho e Leco.
Iniciou como bloco, em 1974, foi campeã e encerrou suas atividades com o fim do incentivo da municipalidade ao carnaval de rua, em 1988. Havia também a Escola de Samba Vanguarda, que reunia passistas, capoeiristas e sambistas sob o comando de dona Vera de Peixinho.
O bloco caricato Feijão Maravilha, capitaneado pelo líder sindical Feijão, membros de sindicatos, e militantes do PT. Teve vida ativa de 1978 a 1988.
O bloco Hong Kong, liderado pelo lutador de artes marciais Negão Torresmo, capoeirista e comandante da famigerada Trinca do Desaba.
Faziam parte Marretinha, Lupinha, Kabila da Igrejinha do Santuário, Aberê, Paulinho Capoeira, Marão e outros.
A turma da capoeira de Gera Moleque, Nivaldo, Paulo Bocão, Dudu, e outros, autores do notório coro na turma de janotas que infernizava o centro da cidade. Foi o fim da gangue de Gerinha Portuguesa!
Com a falência do faturamento do conjunto de casas de tolerância conhecida como Cabaré de Zé Coco, vieram de São Paulo dois 1.7.1. que faziam agá de pastor evangélico. Montaram serviço de cura e desobssesão depenando os incautos que os procuravam em busca de alívio.
Um deles chegou escorraçado e liso. Como o barraco que alugou não tinha instalação elétrica, apanhou um chicote já com vários bocais instalados, emprestados por Feijão Pintor e só colocou uma lâmpada na sala de cura.
Ao atender a primeira paciente incauta levantou as mãos para cima, clamando pela força do astral superior, para expulsar um demônio que supostamente obsediava a otária. Sem notar, enfiou o dedo indicador dentro do bocal descoberto.
Desconhecendo a fonte de energia com a qual estava conectado, levou um choque e deu um grito: sai de mim capeta, eu tô te tirando dela e te mandando para as prefundas!
Foi o seu canto de cisne! Acabou escorraçado do barraco pela assistência.
O outro, para mostrar serviço, tentou fazer seu Ernesto Carpinteiro andar sem a bengala. Como o homem caiu ao solo, sem o apoio da prótese, o safado levou umas bengaladas na cabeça e gramou o beco de volta à sua terra natal...


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Por Raphael Reys - 18/10/2009 11:48:46
MILONGUEIRO.

Din Canga, ou Din Bolero, ou Din Paiacim, era um rouxinol perdido nas chapadas do Norte de Minas! Criado na “larga” da vida, cedo aprendeu a malandragem e a sobrevivência noturnas. Aliados a isso havia a sua verve natural, o bom humor, a malícia, a habilidade em jogos de salão. Cartas marcadas. Crooner de boleros e latinas. Milongueiro de pista de boate. Não foi feliz no amor, mas cultivou uma legião de amigos!
Toda alma que o Criador manda a esse mundo o faz em missão!
Como diz o trecho de uma canção portenha “cada qual com o seu cada qual” Cada um na sua!
Seattle, o grande cacique dos Cheyenes, chegou a dizer que: “não se deve julgar um homem antes de andar duas luas com as suas sandálias.” E segundo Descartes, “julgar é obsceno!”.
Din Canga varou a vida buscando conquistar o amor de Cecí, um esplendor de beleza feminina, uma distração do Criador, uma profissional da noite que não o aceitou como freguês e muito menos como amante.
Por ela ele bebeu rios de uísque Cavalo Branco e afinou as suas cordas vocais cantando para ela “Aurora de Flor”.
Presenciei uma mostra dessa paixão, na Boate Maracangalha em 1967. Bebíamos à noite, quando Ceci adentrou no salão do “dancing” devidamente acompanhada, num trepidante “tête a tête”!
A orquestra de Lauzinho sentiu o clima dando os acordes da música fatal. Por empatia e companheirismo, abraçado a ele, solidário com sua desdita, cantamos juntos no salão iluminado pela luz de um abajur lilás, o seu hino de paixão!
Nessa noite Din se embriagou e derramou rios de lágrimas enquanto os seus olhos orientais brilhavam na penumbra, a observar, através da cortina líquida e ácida do seu pranto, seu amor, Ceci, a dama da noite que numa mesa a um canto do salão tinha os seus lábios sugados demoradamente por um rico freguês!
Naquela noite tanto na pista, no bar ou no salão de dança estavam propositadamente quase vazios. Uma conspiração do destino carma. Era tempo de tomar um porre de “scotch”.
De lembranças e desabafos.
Hora de sorver o tom multicolorido das bandeirolas de papel crepom postas no teto como um bandô e que sugeriam um ambiente festivo.
No ar, o cheiro típico das casas noturnas. Um misto de fragrâncias de perfumes Lorigam, Nuit de Noel, Royal Briar, Myrurghia e o creme Antisardina que as damas usavam na pele para não ressecar. Aromas de comidas, fermentação de cerveja, sexo, fuligem e fumaça (os fogões eram à lenha) e o aroma dos uísques importados.
Uma corrente de ar canalizado através dos corredores longos e a umidade da água vinda dos tambores de metal duzentos litros, usada precariamente na limpeza genital dos amantes, servida em bacias e baldes de esmalte branco com friso azul pavão nas bordas.
Aromas de sabonetes Lifebuoy, Vale Quanto Pesa e odores de glicerina aliados ao mau cheiro das águas sujas jogadas no quintal com piso de terra.
Nessa mesma ocasião compreendi a falácia do homem em sua semântica libidinosa e pude, então, assistir ao vivo e em cores, o terrível massacre emocional de um apaixonado perante sua musa noutros braços.
E junto com ele, no mesmo diapasão, cantamos “Aurora de Flor”...


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Por Raphael Reys - 14/10/2009 08:03:37
CATARINO CATUREBA

Filho dos “Buia”, gente vinda do Claro dos Poções para o povoado de Boa Sorte. Da prole, Joaquim, Alfredo, Olimpim Búia. Catarino, como era especial, veio ao mundo mignone, quase um pigmeu branco. Com aparência de japonês. Magro, pernas e braços curtos ao bom estilo kata, andar vacilante, onduloso, arredio. Fala cansada, anasalada, chegada a um foêm.
Veio a esse mundo doido pelas mãos de Tianinha Parteira, que também era rezadeira e benzedeira, assim como Dona Dú, que ainda está na ativa. Deus Pai quando manda as almas ao mundo, o faz em missão!
Observador e cheio de truques. Tem a sua verve própria.
Trabalhador diuturno, pau para toda obra, Catarino mora com o seu irmão Alfredo. Toma umas fubuias lambicadas e vaga chumbado pelo povoado.
É um costumeiro alisador de banco da igreja de Nossa Senhora das Graças, padroeira local e cantante das festas do Sagrado Coração de Jesus, nessa terra de tucanos e jaracuçús-malha-de-cascavel. O jaracuçú queixo de burro.
Ao vê-lo na Praça Francisco Avelino, o posudo Daniel, que era dado a cartar marra, foi logo dizendo: “Cuidado Catarino, que tem capador de cachorro na entrada do povoado!” Espirituoso, Catarino retrucou em cima do pedido: “É por isso que você veio correndo de lá, né...”
Dentre os mentirosos que freqüentam o logradouro e o bar do Pedro Satírico, os campeões são: Dail Bandeira e Livim. Esse último,só perde em quantidade e qualidade para Osvaldo do Claro dos Poções e o finado Dilo Calango.
Um costume local adotado pelos que querem tomar uma boa cachaça da terra, ao chegarem ao bar e para despistar os curiosos que ficam de butuco observando a vida alheia, é pedir a dose da cachaça em código: “Dê-me uma caixa de fósforos aí!” A dose é servida camuflada e o bebedor vai degustá-la detrás da pilha de sacos de cereais...
Daí, o Satírico e grande gozador quando vê chegando o freguês, vai logo perguntando: “Vai tomar uma atrás do saco, compadre!?”
E estamos conversados!


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Por Raphael Reys - 7/10/2009 08:26:15
DUAS DO BREJO!

Em recente acontecimento festivo e literário na vizinha cidade de Francisco Sá, Mário Pena, digno alcaide daquela urbe, disse que o “Brejo” é, na verdade, o bairro mais chique de Montes Claros... A bem da verdade, o bom e festivo povo brejeiro ajudou e muito a construir a nossa história. As nossas letras, a vida literária e a arte, muito devem ao “savoir faire” da família Silveira, dentre muitas outras igualmente ilustres, que podem ser citadas.
O Brejo das Almas, e o seu povo, têm a sua mística própria, seu “modus vivendi”. Antigamente, no tempo do Romantismo, o bom brejeiro macho era tomador de cachaça, farrista, mestre nas cartas que rolam no pano verde da campista e tinha uma ou duas “quenga”, por conta, com casa alugada e montada, tudo o mais, de acordo com o figurino...
Nesse moderno mundo globalizado e flexível aos costumes, o brejeiro continua sendo cabeceira em tudo. Somente a sua “quenga”, quando a tem, hoje vive em casa da família, ou barracão alugado pelo amante. São as adequações da modernidade financeiramente opressora.
Nascer no Brejo é ser feliz longevo e viver na larga da vida, sem cancela e desprovido de preconceitos campesinos. O que me lembra o meu saudoso amigo Gera Capa de Revista. Um mestre do bem viver!
Conta-nos a história, que o bom brejeiro Zé Batoco tinha a sua quenga por conta. A mesma, cansada do bafo de cachaça e do ronco de bêbado, acordou com a pá virada, apanhou a cachorrinha e veio assentar praça na rua Lafaiete, o oráculo montes-clarense da lascívia. Cedo aprendeu as artes de alcova e o kama-sutra tropical, com as mariposas cariocas que por aqui faziam vida.
Confirmando o dito do sábio Hesíodo que afirma: “a natureza erótica das mulheres é a origem do seu caráter enganador”
Zé Batoco, com uma ponta de saudade e a testa coçando muito, inventou negócios em Moc City e veio ver de perto a sua ex-gata, que por aqui virou artigo de luxo. Enciumado, apanhou na marra a sua prenda e a levou de volta para o bom Brejo das Almas, para a sua alcova tropical, de onde ela nunca deveria ter saído.
Os amigos, invejosos da sua boa vida, zombavam do fato dele ter ido buscar a sua amante de volta na zona boêmia de Montes Claros. Zé Boteco retrucava afirmando que tinha “era lucrado”, pois que com o estágio no cabaré da terra de Figueira, ela, além da sempre disponibilidade, fizera um “curso de aperfeiçoamento e aprimoramento em certas coisas”, pois havia aprendido algumas novidades luxurientas especiais da modernidade, algumas até importadas da França, todas elas de fazer gosto...
Já Ataíde Silveira, emérito violeiro da Folia de Reis e que gostava de afirmar: “sou Siliveira Pimenta e só enfrenta quem agüenta andava com o seu facão guarani na bainha, um dia encheu o quengo de gole e foi dançar e prevaricar no Rancho Lua, onde passou a noite.
Acordou de ressaca e voltou para casa sendo barrado pela patroa, que o escorraçou. Irritado, apanhou a matula e disse que iria morar no Mato Grosso.
Na estação ferroviária daqui da terra de Figueira, o trem demorou tanto que o efeito da bebida passou e ele, arrependido, voltou para casa. Pediu perdão à cara-metade e retornou à sua vidinha de tomar gole de leve...
No dia da tradicional “Queima do Judas”, o leitor do conhecido “Testamento do Judas”, em versos, improvisando, perguntou ao compadre Ataíde “o que é que ele viu no Mato Grosso?” Irado com o agulhão recebido, Ataíde queimou no golpe e respondeu também em versos, por cima do pedido e numa rima rica: “No trem que partiu, o que eu vi foi a P.Q.o Pariu!”.


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Por Raphael Reys - 2/10/2009 08:05:57
O JARDIM SERTANEJO DE ACADEMO

Aqui estamos no mini salão do Automóvel Clube, onde outrora fora um jardim de arbustos, no fundo do quintal de doutor João Alves e dona Tiburtina. Nessa iluminada noite de festas, inaugura-se a Academia Feminina Montes-clarense de Letras. Relata o universo literal rosiano que: “O mineiro carrega o sertão dentro de si.” Essas musas, que integram a Academia, são, sem dúvida, flores silvestres colhidas no Jardim Sertanejo de Academo.
Mestras de artes e letras que carregam nas veias o sangue de Mercúrio. São romancistas, jornalistas, contistas, poetisas, ensaístas, pintoras, artesãs, mestras do ensino. Escrevem e contam pelas suas artes a alma do sertão com os seus amores e o cotidiano do mundo globalizado.
São quarenta musas filhas de Figueira, que escrevem sobre as comédias e tragédias da vida com sua bipolaridade, na sua maioria
mães, avós, bisavós. Algumas poucas com o coração ainda a ser conquistado por algum príncipe encantado roedor de pequi...
Muitas delas, oriundas de outras agremiações acadêmicas onde há muito vêm encantando com o seu talento. No salão, tudo muito bem organizado, respirava-se uma atmosfera de contentamento, onde as neo-acadêmicas aguardavam de coração pulsando acelerado o lilás do telerine nos seus ombros.
Na cadeira central, a ilustríssima acadêmica Yvonne Silveira, expressão maior da cultura da nossa terra, mentora e Presidente de Honra da nova academia. Logo empossou e passou o comando da nau mercuriana tupiniquim à presidente eleita por unanimidade, acadêmica Maria da Gloria Mameluque.
Discursos, performances poéticas, aplausos, muita alegria de amigos e familiares, glamour, senhoras e cavalheiros bem vestidos, inebriando-se com o evolar de um “bouquet” de fragrâncias francesas: Nuit de Noel, Fleur de Rocaille, Lê D e outras delícias.
Sentados à mesa de honra, representantes de autarquias, autoridades convidadas, representantes de agremiações de artes, letras e da Academia de Letras de Belo Horizonte, ACLESIA (Academia de Letras Ciências e Artes do São Francisco), Academia Feminina de Letras de Belo Horizonte, Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros e de Belo Horizonte e da Academia de Letras da nossa cidade.
E viva Montes Claros!


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Por Raphael Reys - 29/9/2009 08:57:07
SUSIN DA LAMBRETA

Ou mesmo Susin da Xispa, como é habitualmente chamado. Adquiriu a sua motocicleta Xispa em 1968, já de segunda mão e conserva até hoje sob cuidados. Atleticano doente, baixo, caucasiano, “pé pro mato”, ou seja, o direito ao andar marcando sempre doze e quinze, na posição contra-pedal.
Quando está no tráfego da nossa urbe cavalgando a sua relíquia sobre duas rodas, ao cruzar com algum carro em sentido contrário, tem que “tirar a diferença”, evitando acidente.
A Lambreta (Xispa) que só ele e Jaime sabem consertar (nem Borrola da Melo Viana conserta), quebrou o galho na sua locomoção na selva de concreto. Nasceu e foi batizado Wilson, emérito morador da Ponte Preta, onde ganha a vida consertando fogão e tanque de lavar roupa.
Quando moço, era assíduo freqüentador das sessões de faroeste do Cine Ypiranga, época em que Pedro Piteira, porteiro arrochado, barrava a sua entrada alegando que o seu pé 46, “pro mato”, derrubava a garotada que saía da sessão de cinema correndo feito égua de Joaquim Surubim.
Assistia às fitas com o Bobão de Rex Alen, o cavalo de Roy Rogers, a destreza de Roky Lane, o branco cádmio do cavalo Silver do Zorro e a eterna perseguição do sargento Garcia, sempre levando a pior. Às vezes assistia a saga de Zapata, Sancho Pancho, ouvia a voz de Miguel Aserves Mejia, ou mesmo se encantava com os olhos lindos de Sarita Montiel.
Certa feita, ganhou um blusão que estava com o zíper estragado, de presente do amigo eletricista Dirceu de Sansão.
Como a peça era um filé de beleza, vestia a roupa com a frente para trás, evitando tomar vento no tórax.
Em uma noite de luxúria, vestindo a dita jaqueta tupiniquim e, estando com o pandú cheio de gole e a caminho de uma noitada na boate “Redondo do Zarur”, foi abalroado por um casal que transitava de carro na BR.
Esparramado no chão com a frente do bendito blusão virado para trás, o seu pezão 46 de rosca, supostamente pendendo para o lado contrário, dava a impressão de ter torcido o pescoço e quebrado o pé. A senhora que estava no veículo atropelador ao vê-lo naquela posição em que “Bonaparte perdeu a guerra”, nervosa com o acidente, tentou socorrê-lo e pegou o pé torto e o estava virando para dentro, buscando corrigir a lesão, à medida que falava,dando uma de ortopedista curraleira: “Coitadinho, quebrou o pé e entortou o pescoço!”
No momento do acidente, gemendo de dar dó, nosso herói respondeu em cima da bucha: “Solta meu pé que ele é torto assim mesmo. É de nascença!”
E aos meus fieis leitores do “site” “montesclaros.com”, declaro que os fatos aqui citados, com os acidentes e incidentes, me foram relatadas pelo sindicalista Nivaldo Feijão e o aposentado Romeu, eméritos componentes da turma conhecida no morro como “G Quatro”.


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Por Raphael Reys - 25/9/2009 15:33:38
ALMAS EM BANDO

Relata-nos Kipling, em um dos seus contos fantásticos, que bandos de almas que pululavam, ou melhor, pirulitavam nos caminhos da Índia quando da ocupação inglesa, além da alma do ser humano, tinham a companhia das almas (os perispíritos) do cavalo, boi carreiro, gato, elefante e cachorro, vagando, pelos umbrais, após a morte.
Para se manterem nesse terreno insólito, se agrupavam por similaridade de raças ou por força do pensamento. Tal na vida, tal na morte! Foram bandos, legiões, hostes sempre sob algum comando. Para se manterem ligados à vida física que perderam sugavam o ectoplasma dos homens e animais encarnados. Nada menos que o “bafo animal”, dos vivos! Na verdade, algumas almas ficam até dois mil anos sem retornar ao mundo pela reencarnação! Presas a pensamentos de vingança, de preconceitos religiosos, ou clichês esquizofrênicos, formam no mundo astral vilas, cidades e metrópoles em busca de perpetuar as emoções vivenciadas durante suas vidas. Constituem verdadeiros exércitos de similares e se locomovem, pelas cidades, em veículos como se estivessem encarnadas e participam de cavalgadas, usando o perispírito de cavalos desencarnados. Os mais experimentados, volitam (viajam no astral) com o perispírito (corpo espiritual) como um pássaro!
Alguns relatos de populares no Norte de Minas nos dão conta de fatos considerados anormais. Pessoas vivas, em madorna, foram levadas ao mundo astral e fizeram viagens em missão assessoradas e conduzidas por guias diversos. O fato a seguir é relatado por Denço, um rurícola que prestava serviços na casa dos pais de nosso ilustre conterrâneo Haroldo Lívio, quando criança. Denço estava dormindo e foi levado por uma alma guia até a entrada dos umbrais. Lá, o apresentaram a um Exu gigante vestindo uma elegante capa vermelha, montado em um corcel negro e brilhante que o conduziu por uma jornada em missão, nos umbrais. A viagem durou três dias e três noites, segundo Denço. O Exu usava um chicote magnético para abrir caminho por entre os obstáculos naturais do percurso umbralino. A taca servia, também, para afugentar almas penadas que agrediam os passantes. Segundo Denço, nessa viagem passaram por três locais distintos: As Bananeiras, onde a vegetação era simétrica e as almas tinham aparência de encarnados, guardadas algumas pequenas distorções. As Mamoneiras, local enfumaçado e escuro, vegetação retorcida, capim tipo piaçava, habitado por seres bastante deformados, que vagavam aos gritos. As Paratecas, a terceira e mais profunda unidade dos Hades, com masmorras, correntes, fogo, desespero, ranger de dentes. Nessa última, identificou a finalidade da sua missão, o motivo da viagem, que era socorrer uma velha da cidade que passara a vida vendendo pinhas em uma cesta, de casa em casa, por mais de cinqüenta anos. Assustado, Denço perguntou qual era o motivo daquela velha senhora, de aparência tão distinta, estar ali naquele local tão tenebroso.
O encarregado dessa câmara de retificação informou, então, que durante os cinqüenta anos de trabalho vendendo pinhas, ela aproveitara para espalhar fuxicos que provocaram a desgraça de muitas famílias.


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Por Raphael Reys - 21/9/2009 07:57:48
SEGUNDA VIAGEM AO PURGATÓRIO


Nessa segunda viagem que fiz ao Purgatório fiquei sabendo que: quase todo mundo pensa em passar a eternidade “comendo molinho no paraíso!”
O guia me apresentou o próprio Gonçalves Figueira, nosso desbravador e pai e me mostrou uma turma que conversava animadamente em um jardim rococó. Meu padrinho de batismo Deba de Freitas balançando a sua pança cheia de franguinho caipira conversava com Artur da Geléia e o botequineiro Tiano Nunes que continua vendendo pastel recheado de vento quente e emprestando dinheiro a juros módicos.
Logo mais passa o comerciante Oscar Gabriel (sem o seu Cadilac Rabo-de-Peixe) e de braços dados com Analinha. Coronel Coelho ria da piada rouca e impune contada por Altininho e observavam Dimas e o Tenente Pimenta bancando jogo de bicho. Genaro Barreto vendia pacotes de cigarros Columbia e o Tenente Piloto passava com a sua charanga com o seu inconfundível toque marcial.
Escutei umas gaitadas e fui ver. Eram o cabeceira Walduck Wanderley (que me perguntou como ia passando o seu amigo Augustão Bala Doce aqui na terra) e Sinval Amorim se acabando de rir de mais uma tirada do cavaleiro da verve, Zé Amorim. De longe vi o bigode de Deca Rocha que conversava animadamente com seu amigo Dim Pimenta. Num canto, Rosalvo Lessa tremia e morria de medo de encontrar a alma de Carmem Miranda.
Nas margens do rio Estígio, lá estava Sabú ensinando natação às almas novas e preparando uma mesa de carteado para uns patos barrufados. Perguntei ao guardião por Hermes de Paula, pai da minha amiga Virgínia e, fui informado que o mesmo se encontrava no Quarto Céu, juntamente com outros historiadores dentre os quais, me disseram, estava Ciro dos Anjos, Nelson Viana e Olinto Silveira.
Vi Ducho Mendes tocando bandolim com algumas almas e Roque Barreto batendo o seu tambor ao ritmo de carnaval. Minha Tia Preta como sempre vestindo saia tipo Garota do Alceu, usando brincos de coco e ouro e dançando bolero com o barão Ururaí Filpi. No final da tarde fui a uma festa de santo na casa de Malaquias Pimenta, no Roxo Verde de lá.
Senti o aroma de fumo inglês e era o meu amigo Walter Lins que pitava cachimbo com Benjamin da Anglo. Negociavam uma boiada de primeira.
Jabur jogava uma partida de sinuca com Augustão da Sinuca, Lucídio Cutelo, Arnaldo Rocha, Criolo e a alma de Geraldo Monte Azul que fora trazida enquanto ele ainda dormia reafirmando assim o dito de que: “quem é do beco só aspira ao beco!” Salvador Rabib Perez aplicava ventosa quente no lombo de um caboclo que chiava que nem roda de carro de boi.
Apanhei o cavalo Fenomenal de Pedrim de Araujo para ir ao local onde ficava os barra pesadas. Faziam barulho como um poço de Kipling. Lá o maior auê de Negão da Titia, Zé do Bode, Janjo, Pererinha e Nobresa e outros mais que não decantarei os nomes. Se decantar as famílias enciumadas darão o maior pití curraleiro e podem até cometer o Haraquiri Baiano!
Em um canto alegre, Nilsinho, Jasmim, Requebra e Leopoldo Cozinheiro. Zé Saruê vendendo doses de amargosa e Joaquim Vermelho negociando carteiras de habilitação para a ida de otários aos céus (da boca da onça). E Emmanuel Pinto (171 e Pai de Santo) vendendo revólver 38 e encomendando uma firmação “a quem interessar possa”...
O encarregado do babado me mostrou vários conterrâneos que logo mais seriam mandados para baixo! Irão se estrepar no tridente de Dite, o maior ferrabrás do pedaço...


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Por Raphael Reys - 16/9/2009 08:06:13
PRIMEIRA VIAGEM AO PURGATÓRIO

Raphael Reys

Baseado na costumeira suposição de que toda alma mandada a este mundo doido o é em missão e que os erros de propósitos filosóficos e morais são inerentes ao homem em aprendizado, Dante relata que: “A alma por estar escravizada ao amor tende ao prazer.” Assim sendo, as almas masculinas quase na sua totalidade, ao baterem a caçoleta os seus donos vão de imediato para o purgatório. Antecâmara do Inferno ou escada para o céu (da boca da onça...)
E as mulheres quando chega a hora, vão para onde, pergunta o leitor. Elas não dão nem beira de caçapa! Vão direto para os Hades de Dante! Sendo as suas almas impregnadas de agá e de maldades mil, vão parar quase sempre nas Paratecas, ou seja, o sétimo círculo do Érebro. Conhecido como” Judeca” ou “Prefundas”.
Sempre ao dormir saio do corpo em perispírito (projeção astral) e volito pelo mundo espiritual imediato. Noite dessas projetei ir ao Inferno dantesco visitar a seção dos conterrâneos montes-clarenses. Relatei a minha vontade a um mui digno leitor de minhas crônicas, um competente juiz de Direito da nossa urbe e o mesmo me aconselhou fosse primeiro ao Purgatório. Assim, as famílias dos “de cujus” não dariam “pití” e ficariam mais consoladas ao lerem à crônica...
Chegando ao portão principal do átrio dei de cara com Manoel Quatrocentos e levei a primeira ferrada da noite. Ele é assessor do porteiro mor, Arlindo Tiririca, um valente de antanho. A segunda ferrada veio do hoteleiro Juca de Chichico.
Ao vê-lo, falei: “Como vai, seu Juca?” Ele respondeu fazendo o seu gesto característico de puxar para si o interlocutor:" que aperta e não machuca!” Logo ouvi uma cantoria vinda de um bando de saltimbancos que, supondo que eu houvera batido a caçoleta, após uma recente cirurgia cardio que fiz viera me receber e dar as boas vindas.
Antonio Augusto Soldado, irmão de Arnaldo Maravilha no solo do violão e Dincanga imitando Caubi Peixoto, precedido de uma trupe de conhecidos “de cujus montes-clarenses”.
Busquei ver no bando a presença da minha amiga Aline Mendonça e o executivo do átrio me informou que ela cantava agora no coro da Divina Beatriz, no Terceiro Céu de Odin. Aproveitando o ensejo perguntei pelo poeta Reivaldo Canela. Segundo me informaram poetava no Quinto Céu, com Tagore e Whitman.
Versavam e versejavam sobre a “sustentabilidade da alma” e o efêmero da existência dos humanos, papo “rafiné” só para quem é do ramo, como diria o poetinha Felippe Prates.
Mais no fundo, vi Zoca e Fernando Gontijo fazendo uma serenata na porta do lupanar de Analinha. Meu amigo Moisés Almeida tomando “Old Eight”, o uísque que matou doutor Fernando Oliveira e seu irmão, Felisberto, o Barão, bebendo uma vodka russa PO com Jaroslav Rosulek e Walmor, ao som de Virgílio de Paula cantando os temas de Noel. Coisa linda!... Todos aguardavam a hora de ir para a parte de cima do babado.
Um grande alarido e som de farra me chamaram a atenção, em um canto reservado aos filhos de Figueira. Só tinha cabeceiras! Na maior farra, Daço Cabeludo, Mauricim e Marão, Mamoeiro, Tião Coxé e Zé Paraíso com o seu inseparável “38 Schmidt and Wesson”. Zé Priquitim tomando uma gelada e Zé Carlos Priquitim com a bandeira do Atlético. Biô Maia e Carlúcio Atayde degustavam uma Viriatinha, no Bar Sibéria de lá.
Vi o notável professor Pedro Santana ensinando filosofia socrática para notívagos em recuperação e que se preparavam para serem enviados aos céus e, após, visitar todos os departamentos tupiniquins. Pedi para voltar pela região das escarpas até o portal de entrada e me mandaram como guia Virgínio Preto, montado no seu alazão negro com sua pirata cabo de prata.
No retorno, como não tinha pontes, atravessamos o Rio Letes a bordo do barco de Caronte e encontramos um exército de torcedores de Galo e do Cruzeiro, que desfilavam empunhando uma bandeira onde estava escrito: “E o estandarte do Inferno avança!”
Ao me afastar do portal e já volitando, escutei Dincanga cantando em despedida, muito melhor do que Caubi:
“Conceição, eu me membro muito bem... Vivia no morro a sonhar com coisas que o morro não tem... Foi então, que lá em cima apareceu, alguém que lhe disse a sorrir que descendo as escadas ela iria subir... Se subiu, ninguém sabe, ninguém viu, pois hoje o seu nome mudou e estranhos caminhos ela pisou...Só eu sei, que tentando a subida desceu e agora daria um milhão, para ser outra vez Conceição!...


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Por Raphael Reys - 11/9/2009 07:36:33
A CASA TORTA

Diz o dito do malandro que chapéu de otário é marreta. O homem da roça, ou o nosso “caboclo curraleiro”, como bem dizia o saudoso Deca Rocha, é um ser drumoniano, ou seja, movido pela semântica libidinosa do sertão. Treitou, relou, ele estava intumescido! Principalmente se o assunto era um rabo de saia ou uma alcova tropical.
No bom 1973, Otaviano, pequeno comerciante do bairro Major Prates, vivia nas quebradas dos Morrinhos tomando umas e outras e atrás de uma aventura amorosa com as mariposas do conjunto de Zé Côco. Vermelho como um pimentão, meio sarará, bigodão a Miguel Aseves Mejia e, para impressionar a galera, uma bota Agabê de cano alto.
Em uma tarde inusitada de muito 171, Otaviano vagava pela rua General Carneiro, entroncamento com Referiu Leite, como todo bom milongueiro assoviando... “O dia em que me queiras...” Cheirando a Royal Briar, brilhantina Glostora. Vestia calça de Pervinc 70, calçava sapato feito pelo mestre Penalva o “couro cheio de vento”.
Logo caiu vítima do olhar “Farol Alto” da esperta Josefa Loura, uma balzaquiana de cabelo fulvo e enrolado, boca meio torta (de rosca) cara de lua, muito ruge no rosto branco leitoso, vestido tomara-que-caia, bumbum ao estilo “meu Ceará”, boca e unhas em vermelho-carmesim, cobra criada pela larga das ruas, o “modus vivendi” de cavalgar sem arreio, amante de malandro “xincheiro” e destemido no pedaço.
Na época, os internacionais rapazes cabeludos da urbe, Paulinho Relojoeiro e Viana, (Tadeusista doente), conhecedores do trecho e de suas potencialidades, informaram a este cronista que até a esquadria da janela do barroco torto era torta, também.
Habituada a identificar otário de longe, deu um sorriso magnético no estilo 53, jogou um selinho com as pontas dos dedos e chamou o trouxa para dentro do seu barraco torto.
Para completar o quadro, havia um cachorro pequenez amarado à entrada dando segurança, enquanto a sua dona depenava o otário. Uma cena digna de Felline!
O “modus operandi” era o seguinte: Estando o otário já despido e devidamente intumescido no interior do quarto, o malandro (já na campana), amante da Josefa Loura,chutava a porta e bradava com uma peixiera 12 em riste ameaçando céus e terra! Cobrava dois meses de aluguel (supostamente) atrasados, ameaçando a todos de morte.
O negão tinha “phisique de role” de Sansão antes da gripe, pescoço taurino, sobrancelhas de sátiro e pendurado no pescoço um colar de Kimbanda. Usava um anel de aço com a imagem de São Jorge Guerreiro e calçava sapato branco.
Ela entrava quarto adentro em desespero, empurrava o otário vestido só de cueca Torre pela janela que dava para a rua lateral, já tendo antecipadamente aliviado a grana que estava na calça do “Loque”. Esse, na inocência, agradecia à divindade ter escapado com vida. Mesmo só de cuecas, mas com vida...
Dentro da Casa Torta a loura rachava a grana com o malandro e iam comemorar dançando na pista do Bandeira 2, enquanto Otaviano lá estava na Catedral, a rezar aos santos e anjos, em agradecimento.


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Por Raphael Reys - 7/9/2009 10:03:57
ERA UMA VEZ NO OESTE

Zé Amorim contava um “causo” com sua verve em dramatizar pequenas tragédias do cotidiano, quando Toninho Rebello que participava da conversa o interpelou: “Porque os Amorins são todos assim conversadores e espirituosos?” Zé respondeu, na bucha: “Porque somos cópia do nosso pai, Pedro Montes Claros.”.
A bem da verdade, os Amorins são como mala de mascate. Vivem de tampa aberta e se enquadram no dito de Maria Célia: o “modus vivendi” de cavalgar sem arreio.
Apaixonado por fitas de faroeste, Zé chegou ao cine Montes Claros trazendo na garupa da moto BSA Lazinho Pimenta, para assistirem ao longa metragem “Era Uma Vez no Oeste”. Silêncio na platéia, Jacó botou o rolo para correr.
Na cena de abertura, o “cowboy” chegou a San Juan de La Puente, no Novo México, como se não quisesses nada e tocando uma gaita harmônica de boca, no bom estilo romântico. Desceu na plataforma, consertou o chapéu e deu uma cubada nos “paus mandados” do chefão que traziam os embornais de milho 44.
Desceu atento com uma bruaca de couro sobre o seu tórax, ocultando o Colt 44, de olho nos três bandidos na plataforma que o esperavam montados em seus cavalos, para enviá-lo à cidade dos pés juntos a mando do bandidão local.
O pistoleiro quebra faca do chefão adiantou a montaria e foi logo aplicando o maior agá, temendo que a vítima desconfiasse de algo, pelo fato de não terem trazido um cavalo sobressalente para transportá-lo.
- Na pressa, nós esquecemos de trazer o seu cavalo, companheiro. Mais na frente tem um bom de sela.
Como todo artista, o “cowboy” foi logo respondendo: “Não precisava, pois já já vão sobrar dois!”.
Sacou o Colt e meteu um peteleco bem no meio da testa de cada um dos bandidos!
Nessa altura do filme, Zé Amorim já suando a gola da camisa Volta ao Mundo, deu um pulo da cadeira e cheio de alegria gritou com sua voz de trovão: “Êita caboclo”! Já vou embora, Lazinho. Com a morte desses três F.D. P., pra mim o filme já valeu o que paguei!...


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Por Raphael Reys - 31/8/2009 07:58:24
A MORTE DO CABO

Há vinte e cinco anos na corporação, Quirino se encontrava, por decisão própria, afastado do serviço. Não envergava mais a farda militar e ausentara-se, havia muito, do quartel. Os superiores fizeram vista grossa esperando que ele se recuperasse da depressão.
Alcoólatra inveterado, já se encontrava na fase de dormir em porta de boteco. A família o afastou de casa, pois era problemático e um tremendo pega mal.
Há tempos não trocava a roupa. Vestia os farrapos sujos. Os conhecidos quando o encontravam caído na sarjeta, o apanhavam e o colocavam debaixo de alguma marquise, para que ficasse protegido das intempéries.
Como a esposa recebia o seu soldo, não lhe repassando coisa alguma, não mais pagava as doses que tomava. Havia perdido o controle de tudo, e a família cansada de procurar socorro pra ele.
Amanheceu esticado na porta de um bar. Ao ser chamado, não respondeu. Levaram-no ao Pronto Socorro e, dado a sua gravidade, foi transferido para hospital militar na Capital.
Acometido de delírio alcoólico, informou ao médico que o atendera que há dias não dormia. Tudo fruto da sua imaginação. Recebeu medicação soporífica e apagou. Três dias após, com o entra e sai de plantonistas e residentes, uma enfermeira estranhou o fato da sua constante imobilidade. Solicitou uma verificação médica e recebeu como resposta que o paciente havia falecido.
A unidade militar de origem enviou uma viatura com a sua família para o enterro. Quirino vestido de terno barato, deitado em cima de uma pedra de mármore na capela. Como estava cataléptico, permanecera ativa a sua audição tendo passado a noite a escutar os dois recrutas que o velavam, a jogar palitinhos, bem perto dos seus ouvidos - lona... Dois!...Três do jeito que você vier!...Canta otário!...Marraia! Uma latomia.
Como permanecia vivo e, sendo Junho, estava já a morrer, isto sim, de frio. As suas costelas geladas pelo contato com o mármore... O seu corpo duro. Nada mais se movia.
Já pela manhã, a família chegou ao maior chororó, E ele escutando tudo!
Instalou-se o desespero! Rezou a Virgem Maria pedindo dar-lhe a voz, para avisar a todos da sua condição de vivo.
O sargento encarregado do enterro por telefone solicitou uma Kombi para conduzir o finado ao cemitério. Chegando a viatura, dirigida por um soldado ressacado, o superior, ao vistoriar o veículo, notou um pneu já murcho, e mandou fazer a troca. Foi informado que não tinha estepe.
Deu uma dura, no condutor, mandou-o retornar ao depósito e providenciar a troca urgente, assim como arranjar um sobressalente. Esta demora na logística salvou a vida de Quirino! Pelejou para gritar, mas os seus lábios não se moviam. Seria enterrado vivo! Jurou a Deus que, se retornasse, seria um cidadão exemplar, um missionário da palavra. Era a sua última chance o atraso da viatura.
Após dezenas de tentativas, conseguiu falar baixinho! – Fia... (apelido intimo da sua esposa), O silêncio que se segui foi sepulcral! Ninguém acreditou no ocorrido. Prestaram, entretanto atenção à sua boca. Ele sentiu o clima e tentou mais forte: FIA... Foi uma corredeira geral. Não ficou ninguém!
No Jardim do hospital, o sargento vinha em direção à capela, e vendo o estapafúrdio, imobilizou um fujão, quando obteve a informação que a alma do cabo morto os perseguia! Como era destemido, o militar, partiu para o confronto com o "de cujus".
O mesmo, amarelo, gélido, cambaleante, escorando-se na parede, com a calça do terno pega-franga, entrou na enfermaria ortopédica, em busca de uma manta de lã, para se aquecer. Os que lá estavam internos, vendo o morto, arrancaram o soro e deram no pé. Muitos desses aguardavam o laudo para se aposentar por invalidez. Foi um alívio para os bolsos do então INPS.
Conforme prometera, Quirino iniciou a vida de pregador, sendo visto sempre nas esquinas e portas de bar, contando a sua história. Como exemplo aos bebuns, que a tudo escutavam em desalento, pois só entenderiam se passassem pelo coador, que ele passou!


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Por Raphael Reys - 24/8/2009 08:27:00
O TIPO MINGAU

Cada local tem a sua alma própria, seus tipos humanos característicos, sutilezas, mazelas, pecados e seus portadores de “pontas”, como são conhecidos no fuxico popular.
Nas rodinhas indiscretas fala-se do chifrudo cururu, que volta para casa pulando. Tem o do tipo pediatra que fica cuidando das crianças, o vingativo do tipo I, que arranja outra mulher e o II que arranja um macho e bota na cara dela.
Na cidade de Parnaíba no extremo norte do Piauí, quando o casal de nubentes volta da lua de mel pendura na janela da casa um grande par de cifres bovino. Pendente ao mesmo, uma placa que diz: “esse é o nosso!” Já na cidade de Piripirí, bem próxima, corre uma lista com os cem tipos comuns e corriqueiros por lá.
No rol apresentado, há o Chifrudo Mingau. Por lá, o mingau das crianças é feito de araruta grossa. Como esse produto tende a embolar após o cozimento, habitualmente a mulher coloca o marido na janela para esfriar o mingau sem embolar, batendo com uma colher de madeira.
O certo é que se a mulher fizer o cozimento ela não esfria o mingau, sendo essa uma prerrogativa do marido, sendo a recíproca verdadeira. O tenebroso é quando a mulher prevarica, faz um cozimento demorado e quando o mingau está pegando fogo bota o chifrudo na janela e vai para os fundos da casa dar uma rapidinha com o pé de pano que já está de campana no local...
Quando avisado por algum fuxiquento de que a patroa está prevaricando naquele momento do resfriamento, o Chifrudo Mingau responde: “agora não posso ir ver se não o mingau embola!”
Já no interior do Maranhão tem o Chifrudo Tijolo. Como as casas usam na frente muro baixo feito de tijolo maciço, a pecadora folga um dos tijolos, destacando-o do conjunto e o usa como sinal convencionado para informar ao distinto Pé de Pano o paradeiro do marido dela.
Conforme a posição do tijolo no muro, o Ricardão fica sabendo a conveniência de entrar ou não para executar o ato carnal.
Aqui nos Montes Claros, o chifrudo tipo que mais se destaca na modernidade globalizada é o “Vingativo II”. Ele arranja um macho e o povo fica falando: “Gente! Eles estão comendo uns zon zoutros!


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Por Raphael Reys - 18/8/2009 13:59:35
OS BORÓS

Nem Boró, batizado Armando Quintino, hoje é comerciante na loja 17 no Shoping Popular, onde ficava o antigo Mercado Central de Montes Claros. Fala-nos de quando aqui chegou em 20 de Janeiro de 1950, com quatro dias de nascido.
Mal veio ao mundo e a mãe o levou para curar o umbigo na feira, trabalhando com a família!
O seu pai, Pedro Boró, sua mãe Maria e a sua avó Rosa comercializavam verduras na Pedra, local que ficava nos fundos do logradouro. O velho tinha um caminhão Ford e com ele buscava na cidade de Taiobeiras se abastecer de verduras, requeijões e carne de sol. Produtos procuravam na feira.
A viagem durava dezesseis dias em face da condição precária das estradas.
Os produtos trazidos eram postos em cima de uma lona que ficava estendida no chão da Pedra, ao lado da loja de Joel Stark, da casa Predileta de Elpídio Carneiro e tendo como fundo os açougues.
Tempos do empório de secos e molhados de Zé Amaro, das ferragens da Casa Teixeira, do PF caprichado e das fubuias dos bares de Tiano, Bebé e Zé Saruê, local que nunca foi lavado. Do Armazém Globo de Antonio Barreto, o nosso supermercado de então, da Loja Caçula de Jason Souza Lima, a Casa Boa Vontade de Mário Reis, a Loja Cinco Irmãos, a Casa Preferida que se encontra em atividades até hoje com direção de Sandrinha Madureira.
Dentro do mercado havia a atividade do jogo do bicho bancado pelo chefe do logradouro Dimas. A família de Gabilera animava e agitava a feira e Judelina, ainda era pobre, fazia a limpeza dos banheiros. Logo ficou milionária!
Do lado de fora e no passeio, as bravatas de Leônidas, comprador de pele de animais silvestres. Volta e meia arranjava uma baita confusão, quebrava o pau, sacava a garrucha Rabo de Égua e dava disparos a esmo.
Leonel Beirão tomando todas as cervejas casco verde da Antártica e a sua Boneca de Leonel, que fazendo propaganda das empresas locais passava fazendo o maior baticum e encantando a todos com o alarido dos reclames que se misturava aos gritos de Joaquim Piranha, escorraçando a sua mula chamada Piranha!
Em 1996, Nem e sua família mudaram-se para as novas instalações do mercado à Avenida Armênio Veloso, centro, ao lado da boate de Anália e da Praça de Esportes, no prédio da antiga fábrica de Licor de Pequi Corby.
Logo o Nem viajava com seu pai para o entroncamento de Salinas, onde o seu avô tinha uma pensão. A viagem era feita parte de trem, até Janaúba.
Tempos difíceis. Logo o mercado mudou-se para a rua Coronel Joaquim Costa, em prédio definitivo. Posteriormente o mesmo foi desativado e transferido em definitivo para a Rua Marechal Deodoro no centro.
Nem Boró, lembra com saudade do antigo mercado com sua feira, os seus reclames, os gritos dos feirantes, o relincho dos animais amarrados nas ruas ao lado. Tempos em que na cidade circulavam os filhos da lua: Requeijão, Maria Babona, Tuia e sua chupeta, Alalaô, João Doido, Geraldo Pascovira.
Os açougueiros do Bairro São João, tradicionalmente com suas valentias e suas bazófias. Volta e meia botavam um para correr! Assim como os da família dos “Miós”, faziam ou viravam presuntos que terminavam na funerária dos Beirões.
Tempos de preços fixos, da tabela Price. Não havia inflação e o cidadão chegava numa casa comercial, encomendava um produto e solicitava que o mesmo ficasse guardado até o ano seguinte, quando, então, era retirado e quitado pelo mesmo valor do dia da encomenda.
Tempo de Getulismo, de políticas trabalhistas e de salário mínimo equivalente a quatrocentos dólares.
Bons Tempos!


48955
Por Raphael Reys - 13/8/2009 13:26:33
JUCA DE EUGÊNIO

Alto, corpulento como um Hércules, emérito morador do Claro dos Poções-MG, alegre, cheio de truques, ágil no raciocínio. Tinha a resposta pronta para dar “em cima do pedido”. Quando alguém vinha com a mandioca, ele já estava com a farinha pronta.
Uma vaca de sua fazenda, acometida de complicações de prenhês e fortes dores de parto, foi parir o seu rebento em uma gruta isolada da serra São Domingos. Juca, que seguiu no “pisadô’ do animal, encontrou a vaca já morta. Enterrou-a em seguida e conduziu o bezerrinho no colo, de volta para casa.
Selou aí uma amizade duradoura do bovino com o humano!
No ir e vir da fazenda para o povoado passava por cima de uma bica de madeira que ligava dois barrancos e servia de duto à água vinda da serra por gravidade e que era usada pelos vizinhos de baixo para o consumo humano e animal. Nessa lida diária, o garrote crescia e ele o transportava no colo rompendo, assim, progressivamente, o duto da bica.
O garrote já adulto era conduzido como se fora um gato de madame.
Mesmo quando convidado para jogar gaspará (jogo de derrubar latas com uma bola feita de pano), ou mesmo para um jogo de truco, ou dois dedos de prosa com os vizinhos da cachoeira Rompe Dia, o boi de estimação ia junto.
Até mesmo para o namoro do seu boi com a vaca “Hermosa” moradora na propriedade de um compadre, o conduzia no colo, passando sempre por cima da bica com aquele enorme peso.
Os vizinhos por diversas vezes reclamavam do estrago contínuo feito no duto de madeira e ele, ao seu modo peculiar, respondia dizendo que não atrapalhava em nada, já que a água de tanto passar por ali adquirira “o jiro” e com ou sem o duto perpetuara a sua função de passar.
Doutra feita, retirou uma cerca que delimitava uma manga de capim com a manga de um vizinho. Reclamado, alegou que o seu gado era disciplinado e já havia se acostumado com o limite imposto pela cerca e em face disso não passaria para o outro lado.
Certa manhã, ao acordar, deu por falta do seu boi mascote. Arriou o cavalo pampa e partiu no “pisadô’ da criação. Chegando à fazenda de Baltazar Duarte, vislumbrou ao longe o seu boi que rodava sobre um eixo imaginário como se estivera puxando engenho de cana. Exercia essa função na casa do seu dono.
Ao chegar ao local da ação, Juca de Eugênio pode ver uma família de macacos guariba em cima de uma grande árvore próxima. Os ditos símios emitiam de maneira contínua o característico som tirado de suas gargantas.
“Uéummm... Uéummm... Êimmm... Êimmm...” O mesmo som emitido pelo atrito das peças de madeira do engenho quando em função. Em face de ter se acostumado com aquele ruído, como se estivesse a trabalhar em um engenho, o boi fazia o movimento circular sobre o eixo.



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Por Raphael Reys - 11/8/2009 08:07:01
Estamos publicando a pedido da mãe e da tia, noosas leitoras do site. Uma homenagem ao filho e sobrinho distante!


MÃE!

Maria das Dores, 23 anos, depois de trabalhar toda a noite volta fatigada para o barraco. Em pé, no ônibus sentindo doerem às varizes. Na barriga, imensa estava o filho Gilberto, o primogênito ou a filha Raquel, ainda por nascer.
Ônibus lotado, operários, punguistas, boêmios, mulheres da vida fácil, faziam dele uma pequena comunidade. Entre solavancos do ônibus, Maria sentia com felicidade os movimentos do feto, já com cinco meses e meio. Viajar trinta minutos em pé não é nada mole, principalmente para Maria que carrega consigo alguns quilos suplementares.
06h40min, mais dez longos minutos.
Um movimento brusco do ônibus, Maria sente uma pontada na barriga. Ela censura a criança que tem ansiedade de nascer: Que é isso Gilberto. Tenha modos Raquel!
Um semáforo mostra a luz vermelha à frente do motorista e ele afunda o pé no freio. Maria sente uma dor mais profunda, aguda, sente que Gilberto ou Raquel não quer esperar os dias que completam os nove meses.
Maria está suando frio, as dores aumentam e já são insuportáveis.
Um sujeito dá o alarme: “para o ônibus que uma mulher vai ter menino”. O motorista para o ônibus bruscamente, como sempre. Diz uma praga ara a droga do freio do carro.
Dois homens amparam Maria e a levam para uma cassa de frente e uma mulher que tem certo conhecimento do assunto realiza o parto. Precariamente, com dificuldade, com medo até.
Então eis que Gilberto vem ao mundo, um criolão de uns quaro quilos e meio. Que barra depois de sentir a dor no traseiro. Fora uma palmada trêmula, que mesmo assim machucara a carne tenra da criança.
Do rosto de Maria rolam duas lágrimas. Não mais a dor, mas de alegria, de realização. Ela pega a criança pesada para as suas forças, que agora estão débeis.
Luizão, o pai da criança, ao vê-la, arreganha a imensa boca mostrando os dentes perfeitos, brancos.
Maria se desculpa com os outros pela pressa do filho e diz como numa prece; “se Deus quiser, este criolo ainda vai ser centro-avante do Mengão”


O autor, João Carlos Neves de Paiva escreveu esse texto em 1974 aos 12 anos de idade enquanto cursava o ginásio no Colégio São José e presenteou a sua mãe Alice Neves no dia das mães. Quando estudava no Don João ganhou um estágio no Banco do Brasil. Foi gerente de banco aos 23 anos de idade e hoje trabalha em uma agência da instituição no Panamá.





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Por Raphael Reys - 6/8/2009 13:51:30
JOAQUIM SURUBIM E ADÃO CALANGO

As seriemas e jaçanãs cantavam no córrego Bandeira, os tucanos nos ocos de pau os passarãos voavam pela serra do São Domingos cantando tiau... tiau... e as jararacas espreitavam nos talhados de pedra no fundo do rio São Lamberto. O gado nelore cagava para trás nas mangas das fazendas da Boa Sorte e botava os donos para frente.
Corria uma aragem boa vinda da cachoeira Rompe Dia, do córrego Extrema Baltazar Duarte, Gera e Atair, entre risos e gargalhadas contavam os causos de Joaquim Surubim e Adão Calango. Virgílio, genro de Baltazar dava gaitada, gritava interjeições e sai rompendo para a praça montado em uma mula.
O fazendeiro Joaquim Surubim andava com uma coberta suja no ombro, que nem doido de asilo arrastando as suas alpercatas de couro com os dedos cheios de bicho de pé. Era meio surdo e, como não escutava direito respondia o que entendia e não concluía bem o diálogo com o interlocutor. À noite, soltava sua égua na larga deixando que a mesma resolvesse no homérico o que tinha de amor platônico pelo cavalo de um vizinho.
Pela manhã, saía à procura da égua levando o cabresto pela mão arrastando a sua “precata” na chapada. Um passante, ao vê-lo perguntou: “Como vai a comadre Belmira”, perguntando pela esposa de Joaquim.
- Tô caçando minha égua!
- Perguntei se ela está boa, insistia o passante, falando baixo.
- Passei creolina no rabo dela e soltei na chapada!...
Doutra feita molhava a minhoca nas águas do São Lamberto e um vaqueiro que passava falou: “Ei, seu Joaquim, está pescando?” – “Tô “pinicando”. “É surubim?” “Não sei se é bagre ou é mandim...”
A sua filha trouxe da cidade umas xícaras bastante pequenas e o convidou para tomar um café, estreando-as. Acostumado a grandes copos e canecas de esmalte, ao se sentar à mesa, falou: “Traga-me o café e um pedaço de cordão de um metro.” “Uai, para quê, pai?” “Para amarrar na asa da xícara. De tão pequena que é, se eu a engolir, puxo com o cordão!”
Já Adão Calango, da fazenda Quebra Ovo, gostava de levar a vida brincando e caçoando com todos. Alto, magro, bigodudo, um caboclo de bem com a vida e com a natureza.
Era sua verve caipira. Aonde chegava aprontava logo uma e deixava todo mundo de orelha em pé. Chegando um dia em Claro dos Poções, viu a praça cheia de conhecidos,compadres e comadres.
Sabedor que o amigo Cassiano não estava na cidade e como na roda havia parente e aderente do ausente, foi se aproximando e perguntando: “Compadre Cassiano morreu mesmo?” Logo a roda de pessoas pululava de perguntas e indagações sobre o falso “de cujus”. Os parentes vinham tomar satisfação, pedir detalhes e ele respondia, na troça: “Eu tava só perguntando se ele morreu! Ocês é que fizeram o baticum!...”
Certa feita passava pela praça do povoado Boa Sorte trotando no seu cavalo, quando um magote de gente que tomava uma cachaça no bar do Pedrinho ao vê-lo, provocou: “Conta uma mentira aí pra nós, Adão!”
Diminuindo o trote da montaria ele respondeu, em cima da bucha: “Agora não dá, pois vou até a casa do Altair para avisá-lo de que uma porcada invadiu o seu mandiocal e está comendo tudo!”
A galera munida de paus e pedras saiu na carreira em socorro da plantação do Altair para espantar a porcada invasora.

Era mentira pura.


48515
Por Raphael Reys - 3/8/2009 08:43:08
0S COLOMBOS

Na virada do século 19 para o século 20, exatamente em 1896 e fugindo da seca e de desmandos políticos na região do Gurutuba, Moisés, patriarca dos Colombos chegava próximo à cidade de Claro dos Poções.
Exatamente no talhado da serra São Domingos pararam para vislumbrar a paisagem e se encantaram com a fartura de frutos e frutas silvestres. Pequi, cagaita, cocos, panã, araçá, marmelada de cachorro e outras.
Moisés sentindo ser aquele local a Ágarta que procurava, arriou armas e bagagens no chão orvalhado. Como seu xará, o patriarca dos Hebreus, ajoelhou na boca da gruta agradecendo às potestades por aquele Édem tropical.
Na foto tirada em 1990, à boca da gruta do Andorinhão aonde os Colombos chegaram. À direita da foto o proprietário da fazenda Belgrado, o pecuarista Manoel do Bandeira 2, de chapelão. Ao seu lado, o fazendeiro e político Baltazar Silva que em 1954 fundou ali o povoado Boa Sorte.
Os Colombos, como ficaram sendo chamados têm o biótipo banto dos seus ancestrais africanos. Altos, corpulentos, lábios grossos e avermelhados, rosto cavado como o dos símios e nádegas pendentes em relação ao tronco ereto.
Dentre os “chegantes”, lá estavam Jacó e esposa, com uma escadinha de filhos. Um gigante pesadão de braços compridos cujas mãos passavam dos joelhos. Parecia um gigante zulu. Lento no andar e no pensar passou a vida deitado em uma rede trançada na “embira”.
O sustento seus e da família vinha dos frutos silvestres e da “adjutória” dos vizinhos, de sempre bom coração e do fabrico de pólvora, já que no interior há fartura de salitre. A pólvora era acondicionada em “ amarrados” de pano grosso ou em cornichas feitas das pontas dos chifres bovino e comercializados a caçadores da região.
Viveu em harmonia com os entes das grutas e os elementais da chapada.
Sendo longevos por constituição e aliados das condições calmas do local, a boa vizinhança, a fartura de comida, os Colombos fizeram história e passaram dos cem anos de idade.
A sede da fazenda Belgrado construída em 1900 era usada para reuniões de partido por políticos de Montes Claros. Alí, longe da cidade eram tramadas as sutilezas e mazelas!
Moisés, o patriarca, uma alma dada ao hilário e as artes cênicas, tinha como palco os pátios das casas dos demais habitantes daquele mágico local. Era costume acenderem fogueiras à noite para afugentar o frio e o orvalho da chapada e o exercício de dois dedos de prosa.
Para executar a sua arte, Moisés aproximava-se de uma fogueira, colocava pequenos seixos do rio, morangas, abóboras e batatas dentro das brasas. A certa altura, com os objetos já pelando de quente, ele os retirava rápido com um toco de madeira, aparava com as mãos e começava a brincadeira.
Jogava os objetos para os demais que estavam sentados a beira da fogueira agarrar.
O companheiro escolhido pulava para trás, espalmava a batata quente rumo ao mais próximo e assim sucessivamente, até o petardo cair no chão.
A brincadeira acabava, com todos os presentes se fartando de abóboras, morangas e batatas, tomando um café com leite e bastante nato previamente fervido na “chaula” posta dentro do braseiro.


48368
Por Raphael Reys - 29/7/2009 14:53:23

GERALDO MUNDIAL

Raphael Reys

Nascido nesses Montes Claros curraleiro, terra de Figueira em 21/01/1932 na época que os rebentos vinham ao mundo pelas santas mãos das parteiras da Central do Brasil. Tempos de bons costumes, de compadres e comadres contando “causos” à beira das fogueiras. Período de um viver campesino.
Veio para esse mundo puxando pela aparência da sua mãe Jardelina, uma galega de Urandi. Na pia batismal da Catedral de Nossa Senhora e tendo como padrinhos de batismo, dona Nina e Seu Nathércio França, filha e genro, respectivamente do médico João Alves e da notável líder política dona Tiburtina.
Na foto, aos nove anos de idade, biótipo europeu, cabelos louros, olhos azuis, pinta de artista de "roliude". Machucava os corações das moiçolas que naquela era usavam boinas de feltro, saía tipo Garota do Alceu e vestidos com florzinhas de tecido Bangu. Jóia coco e ouro!
Sempre nos trinques e calçando sapato Scatamachia, relógio Tissot Militar e rescendendo a Lorigam francês. Porte altaneiro, sombrançelhas de sátiro, conversa mole, coração ardente, olhar irônico e malicioso. Um Don Juan tupiniquim.
Logo que engrossou o pescoço, seu Nathércio que era concessionário da Nacional Linhas Aéreas, o levou para trabalhar no balcão de chek in da empresa no aeroporto local. Enquanto a ZYD7 transmitia a musica da moda... Errei sim/manchei o teu nome/mas, foste tu mesmo o culpado/deixavas-me em casa/me trocando pela orgia/faltando-me sempre com a tua companhia...
A mulherada já fazia fila para suspirar pelo galã. O saudoso filósofo de Figueira o nosso Zé Amorim dizia: os zói do homem parecem duas bolas de gude!
Como não havia transporte urbano regular pata o aeroporto Geraldo ia e vinha no dedão. Às vezes e por sorte, o Milton Areieiro dava uma carona de ida, já que trafegava no seu caminhão para apanhar areia no Rio Verde.
Alguns anos se passaram nessa lida e o nosso herói era chamado então de Geraldo Louro. Logo veio a trabalhar como representante de vendas da Cachaça Mundial. Oriunda de Brasília de Minas sob a batuta do empresário.
Como era bom de copo praticava o dito de Joyce: uma bebedeira maravilhosa de espantar druidas druídicos. Aí ficou conhecido pela grife de Geraldo Mundial. Conhecido de todos os comerciantes, fazendeiros e empresários de Montes Claros, Geraldo Laje o levou para gerenciar a sua imobiliária Lages.
Profissão que exerceu até a sua aposentadoria!
Hoje, aos 77 anos bem vividos e curtidos e já usando uma bengala de cabo de baquelita passa o dia entre o “tititi” do Café Galo e a agência lotérica, onde faz a sua fezinha. Cobra mais do que criada, nesse mundão de meu Deus, ainda arqueia as sobrancelhas e dilata os olhos azuis quando passa alguma suburbana rechonchuda.
Quando moço arrasou corações!


48237
Por Raphael Reys - 24/7/2009 08:27:05
NA ESQUINA DA MELO VIANA

Diariamente, sempre às 7 da noite na confluência das ruas Corrêa Machado com Melo Viana, Bairro Morrinhos, exatamente em frente à parada do ônibus urbano senta-se nas cadeiras plásticas, entre outros, o aposentado e carnavalesco Nivaldo Feijão. Mestre na narrativa hilária e na arte bufa, como adora dar boas risadas extrai da sua caixa de ferramentas poucas e boas. Senão, vejamos.
Um ilustre e corpulento morador dos Morrinhos é internado na Santa Casa local em estado calamitoso. As costas toda cheia de enormes hematomas e queimaduras de terceiro grau, além de algumas costelas quebradas. O médico que fez o atendimento do paciente na emergência o envia para a CTI.
Lamenta o profissional médico o estrago no paciente e pergunta o que causou o incidente. O paciente responde na bucha: foi um pesado lustre antigo, pendente no teto do quarto que caiu nas minhas costas, quando eu estava acertando a escrita com a minha esposa, na cama. Ainda com base no seu estado de ferimentos profundos e queimaduras, o médico avalia dizendo: nossa que estrago feio foi feito nas suas costas.
Sorrindo às bandeiras despregadas o irônico paciente responde, entre risadas: feio é se tivesse caído um minuto antes, doutor. Tinha partido a minha cabeça!
Outro morador do morro conta que tinha uma chácara nas adjacências da cidade e criava um pônei que atendia pelo nome de “Tronchim”. Era a alegria dos seus filhos e da garotada do vizinho, pois passavam as horas de laser a andar no “Tronchim” brincando pelos campos da chácara.
Premido pela súbita falta de dinheiro o morador botou o pônei à venda. Veio um cigano atraído pela fama do animal ser dócil, acostumado com crianças. Na hora de fechar o negócio os meninos abriram o maior berreiro. Davam um terrível pití choravam e descreviam as qualidades do “Tronchim”. E que eles perderiam com a venda do mascote.
O cigano pagou caro pela aquisição e o vendedor na posse do dinheiro pagou algumas dívidas imediatas e comprou uma vaquinha girolândia leiteira suprindo, assim, a falta do líquido precioso para o consumo das crianças. Um dia bem cedo, tirava o leite da vaca quando o dito cigano que comprou o pônei veio chegando.
Presumindo ser um pedido de devolução do negócio já que o comprador fora engambelado com o choro dos meninos foi logo falando que já havia gasto o dinheiro não podendo, pois desfazer o negócio.
O cigano explica que só queria os meninos emprestados por algumas horas, já que pretendia vender e bem vendido o “Tronchim” a um rico fazendeiro. Dando consistência a sua tese de ótimas qualidades do animal as crianças armariam o berreiro e citariam as virtudes do mesmo, potencializando, assim, a intenção do futuro comprador que, como ele, seria engambelado e pagaria alto pela compra.
A bem da verdade, o cigano queria era repassar o 171 de que fora vítima, empurrando o animal para frente aplicando no otário fazendeiro.
Outro morador, estando com uma temível dor de dentes, foi parar no posto de saúde. Ao chegar, viu duas filas. Numa só havia duas pessoas, na outra umas cinqüenta.
Pelo lógico relativo das coisas premido pelo pensamento seletivo da Lei Gerson, em só levar vantagem, desrespeitando o direito do semelhante entrou na fila de duas pessoas somente julgando-se inteligente.
Chiava e gemia de dar dó com a dor de dentes apertando como nunca. A fila em que entrou, entretanto era de um proctologista que fazia um atendimento preventivo em uma campanha de prevenção às hemorróidas.
Ao chegar sua vez gemendo e chiando e se contorcendo o médico observou com a enfermeira: Já vi todo tipo de dor no reto, mas dessa de chiar e assoviar é a primeira vez...
E estamos conversados! Por ora.


48118
Por Raphael Reys - 20/7/2009 13:56:35
DUAS DE RACHAR O CANO

Estamos em 1955, nos Montes Claros de muita poeira, lama e alguns paralelepípedos. A rua Doutor Santos atolava a Praça Coronel Ribeiro era um descampado ao Deus dará e o preconceito matava os pudicos de moral rígida, não havia quase novidades no ar nem revistas e o mui digno auxiliar de serviços de vidraceiro Sansão aprendia o ofício com Rosental Vidraceiro.
Para variar, apanhava, também, trouxas de roupa e as entregava na lavanderia da mãe do patrão. Rapazote esforçado, logo foi convidado para prestar serviços gerais no Hotel São José do hoteleiro Juca de Chichico. Seu Juca comprou o rapazote pela aparência e não pela reta justiça.
O meninote era um tremendo voyeur! Fazia pequenos buracos ou fissuras nas tábuas de pinho do forro do hotel, quase sempre pasto de cupins. Na calada da noite e após escolher um casal de hóspedes que a parceira fosse atraente montava campana no forro, de onde ao vivo e em cores dava vazão ao seu instinto atávico.
Certa tarde chegou ao hotel uma dupla de boazudas vindas das Alterosas. Uma tremenda loura poposuda e uma morena monumental. Sansão brilhou os olhos de contentamento imaginando assistir logo mais uma dupla cena de cinemascope em tecnicolor, do banho das duas hóspedes.
Às 22 horas deu uma de ir dormir, subiu para a campana no forro, palco de delícias eróticas de um rapaz tupiniquim. As duas gatonas se despiam mutuamente. Logo davam cheiros, se apalpavam rolando, aos abraços, beijos, gemidos de prazer. Dose cavalar para um menino naquela era de moralidade rígida e preconceituosa...
No calor do impacto psicológico Sansão esqueceu a sua posição delicada e cuidadosa no teto. Como não estava acreditando no que via e pensando ser aquilo obra do Romãozinho, chegou mais o corpo para frente para melhor observar no que não acreditava estar vendo!
O forro cedeu e Sansão caiu espalhafatosamente em cima do raro casal de lésbicas. Com a gritaria das pombinhas e a carreira dos três nus em pêlo pelos corredores do hotel, a gerência chamou o efetivo policial. Capitão Coelho, um cabo e quatro soldados. Sansão manhosamente gramou o beco e foi se esconder em Curvelo.
Já Tone Cabeludo era, na mesma época, motorista da funerária de Leonel Beirão. Logo, objetivando aumentar a renda, pois iria casar, montou nos fundos de sua casa um depósito de lenhas para fogão. Comercializava o produto em pequenas carroças, já que àquelas eras não existia o fogão a gás.
Como era controlado e metódico, trazia tudo anotado. Logo verificou que toda noite sumia umas três toras de lenha, notadamente as postas por cima da primeira pilha. Suspeitando de um seu vizinho muito matreiro montou uma campana com isca. Adquiriu para isso na fábrica do Marciano Fogueteiro uma bomba de parede de tamanho grande.
Camuflou o petardo explosivo no oco de uma tora de lenha de bom tamanho e atrativo aspecto. Na calada da noite viu o dito vizinho vindo em direção ao seu depósito, empurrando um carrinho de mão. Esperou o meliante entrar e colocou a tora com o explosivo no caminho de volta do mesmo.
Não deu outra! O larápio apanhou a boa e atraente tora e colocou em cima das outras.
Naquela manhã às dez horas em ponto, os almoços já no fogo das casas quando o fogo atingiu o petardo escondido na tora. Com o papoco, a trempe de ferro fundido foi lançada pelos ares e só foi encontrada no pátio da Santa Casa! O fogão partiu ao meio, abrindo uma banda para cada lado e o teto da cozinha foi pulverizado, levando a panela de arroz com pequi, para os lados da Malhada!
A esposa do larápio saiu sapecada com queimaduras de segundo grau na escala de Moá e a alma do gato que dormia no borralho apareceu na casa de Gabilera do Alto São João...


47971
Por Raphael Reys - 16/7/2009 07:48:45
CACHOEIRA DO PAGEÚ

Localizada no Médio Jequitinhonha, esse rincão de meu Deus, terra de Zé Maria Padre e na época dos fatos, tinha como delegado de polícia nomeado politicamente o nobre cabo eleitoral da situação Clemente de Carvalho.
Imperava pelas ruas, por força da proteção política e pelo poder da riqueza dos fazendeiros uma turba de rapazes notívagos, notáveis pela baderna que faziam na urbe. A autoridade policial de calça curta mandou confeccionar uma placa de advertência aos baderneiros, que foi posta em praça pública.
Sabedor do dito de Rudyac Kiplin que: os safados foram pares e trincas, na placa estava escrito: A partir de hoje, fica expressamente proibido a formação de grupo com mais de um.
Já Aderbal de Zenóbia, conhecido 171 da roça, procurava seu compadre Ozório, para conseguir mais um aval em um papagaio (nota promissória). Ficou sabendo que o mesmo se encontrava apanhando areia no rio Inhaúma em Pedra Azul. Para lá se dirigiu para aplicar o golpe.
Chegando ao rio e vendo o compadre otário desatolando o caminhão em um banco de areia, de longe gritou já fazendo o seu agá no meio do campo: Oi cumpadre! Está atolado! O compadre respondeu em cima da bucha: Me dê logo o papagaio prá assinar que eu vou me atolar é agora, seu F.D.P.!
Gino de Barros, notório e sinistro morador da Cachoeira, um brutamontes, trabalhador rural, conhecido nos comentários à boca pequena como ‘O Anjo das Mortes’, ignorante que nem uma égua parida, alcoólatra, manco da perna esquerda, tendo o joelho do mesmo atrofiado e agigantado, parecendo um aríete.
Para ganhar um bom dinheiro era contratado para praticar a eutanásia em pacientes terminais ou portadores de doenças incuráveis, o que não o impedia de fazer o serviço em pacientes ricos a pedidos de herdeiros, desde que o mesmo se encontrasse doente e acamado.
Ficava de vigília e na calada da madrugada da roça apertava o joelho no abdômen da vítima o sufocando com um travesseiro enquanto vociferava entre dentes: morre logo seu F.D.P. Quando a vítima batia a caçoleta ele comemorava baixinho: missão cumprida!
Já Delizão quando enchia o pandú de cachaça arrastava o traseiro no chão, quebrava o pau nas ruas do lugarejo, batia em velho e em quem lhe apetecesse. Prá prendê-lo telefonava-se para a vizinha cidade de Pedra Azul de onde vinha uma patrulha policial para poder conte-lo.
Numa dessas, a patrulha chamada conduzida em uma viatura veio entrando na cidade pela Pirambeira, a rua do fovôco e como não conheciam o Delizão, por se tratar de policiais recém-transferidos para o destacamento daquela cidade, pararam o próprio na via e perguntaram aonde encontrar o Delizão para prendê-lo.
Mão na roda! Delizão respondeu na bucha: O tal Deli, está deitado em uma espreguiçadeira na porta de sua casa na rua de baixo, virando à direita. Na dita rua, quem estava sentado era Deli Guimarães, seu homônimo e prefeito da cidade.
Enquanto se esclarecia o disse por não disse, o Delizão se escondeu na casa de Chico Tatu, marido de dona Dila do cuscuz.


47812
Por Raphael Reys - 10/7/2009 14:38:37
A NOIVA DE VESTIDO ROSA

Dia 18 passado às 05h30min acordei com a emoção enquadrada no dito de Joyce: cansado de andar ao léu, de puxar o diabo pelo rabo, de viver de intrigas e expedientes. Abro o email e recebo convite do notável Petrônio Brás para a missa comemorativa dos cem anos de nascimento da educadora Felicidade Tupinambá.
Foi à mão na roda, pois o tom de mistério da capela do Colégio Imaculada e o encorpado coro da orquestra da nossa gigante Unimontes elevaram a minha alma. Logo mais outro emai, esse da doce Virgínia de Paula dando conta do aniversário de 89 anos da sua mãe, dona Fina de Paula.
Passei o Nuit de Noel no cangote para ficar cheiroso e adentrei na “chacrinha” fazendo par com a soprano Terezinha Jardim que também chegava. Dona Fina com a costumeira tranqüilidade de alma a sua delicadeza de gestos. Uma anfitriã por excelência!
Como sou glutão, logo me fartava com os saborosos biscoitos feitos por “Lita”, a governanta da casa. Como a noite era de graça, música e sabores logo dona Terezinha Fróes chegou trazendo uma deliciosa bandeja de bombons que foram imediatamente degustados sem restrições.
Passei a noite de festa sentado ao lado de Terezinha Jardim na grande sala e em animado bate papo espiritualista. Na conversa fiquei sabendo que dona Idoleta, sua mãe, seguiu o exemplo de Dona Fina, casando-se usando um vestido de noiva cor de rosa. Dona Fina de cetim cristal, Dona Idoleta de Tuille.
Um assombro e um avanço para a época de preconceitos campesinos e moralidade religiosa tacanha e imposta.
Logo chegaram os virtuoses do Grupo de Serestas João Chaves. Mafalda e Marlene afinaram os bandolins, Newton o cavaquinho, Ney e Luiz, o violão e Toledo soltou o vozeirão e cantou “O Bardo”. A noite se encheu de graça e sintonia.
Lodo mais e Adélcio, com sua voz de peito dos verdadeiros seresteiros brindou a todos com “Amote-te.
A Viritarinha arrolhada na garrafa e vinda direto do alambique do saudoso Beto Viriato deu o “pulso” e os corações se animaram e foi à maior cantoria. O ar se encheu com as espirais sonoras da canção “Dona Fina” cantada por Rogério e composta pelo mesmo em outra ocasião, homenageando a aniversariante.
Estando todos no mesmo vibrátil, outras canções e pout purri folclóricos animaram a noite. Naquela casa rococó, santuário da Seresta João Chaves, símbolo da cultura histórica e folclórica dos nossos Montes Claros, lar de dona Fina e do saudoso Hermes que completará cem anos de nascimento no próximo 6 de dezembro.
Diz Guimarães Rosa que o mineiro carrega o sertão dentro de si. O montes-clarense carrega o Grupo de Serestas João Chaves no seu coração e “Amo-te muito” no âmago de sua alma!
Feliz Aniversário “dona Fina”!


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Por Raphael Reys - 6/7/2009 07:52:41
O VELÓRIO DO NOSSO VIZINHO

Mestre Tonicão, exímio armador de ferragens em construção civil foi tão bom de serviço que botava banca com mestres de obras e com engenheiros. Sua presença era requisitada nas maiores obras da construção civil em Montes Claros.
Tinha a sua própria equipe de serventes e operários que ajudavam a erguer os novos prédios na nossa urbe tupiniquim e, como ele vivia no maior porre. Dentre os melhores de serviço de copo e de cruz, Juvenal. Bebedor diuturno.
Bem casado, Juvenal desfilava com uma parceira morena tipo abre alas de escola de samba. Faceira, lábio grosso e sensual, bumbum proeminente, fechava o comércio quando passava. Como Juvenal era um galo valente, a galera só a devorava com os olhos de soslaio...
Morto o gato o rato toma conta. Após uma farra homérica, Juvenal elevou demais a pressão arterial e bateu as botas. Foi para a cidade dos pés juntos. A viúva recorreu ao Tonicão, solicitando providenciar as despesas do enterro, já que o “de cujus” gastava tudo que ganhava. Era um "Bartira"!
Tanto o patrão como o peão morava no alto do Bairro Morrinhos aqui nos Montes Claros, ao lado da 98 FM e sede do nosso “montesclaros.com” e, como a vida por aqui é em fraternidade de iguais, Tonicão, esperto, fez uma lista para angariar fundos para as despesas do enterro.
Arrecadou três vezes mais de que precisava, já que o caixão encomendado na funerária dos “Beirão” fora do tipo popular. Pano roxo e madeira extraída de caixote, o dito caixão baratinho e muito mixuruca. De quinta categoria.
O restante do capital empregou em uma homérica farra no barracão do falecido, durante o memorável velório. Muita comida, muita cachaça e muita cerveja. Enquanto a alma do morto vagava nos Hades dantescos, a galera enchia o “derriére”.
Enquanto a FM do nosso diretor, o jornalista Paulo Narciso transmitia música da mais alta qualidade, o pandeiro correu solto no barracão do “de cujus”, o cavaquinho chorou e logo um puto samba de fundo de quintal irrompeu na madrugada!
A viúva, corpão sarado, vestido coladinho, bumbum balançando que nem gelatina, toda vez que curvava pra beijar o rosto do falecido soluçava, fazendo tremer a sua apetitosa nave morena.
Já que o banquete era no maior 0800 tava todo mundo de cara cheia, o pandu arrastando no chão, quando um gostosão do pedaço, que vibrava de carência pela morena viu aquela doçura e, cheio de gás chegou de “com força” e foi logo passando a mão nos glúteos da viúva.
Deu o maior rebu! O cunhado do morto, irmão da gostosura cor de canela, um valente do pedaço, gigante de tamanho e de músculos, meteu a mão nas fuças do engraçadinho. Aplicou-lhe um “tortolho”, na tábua do queixo e um “jab” de esquerda no escutador de bobagens.
O “presepeiro” estava acompanhado de colegas de desdita que como ele veio beber e comer de graça. A reação veio à altura.
Ai o pau quebrou na casa de Noca! Logo o delegado de polícia chegou com a sua equipe e levou todo mundo em cana. Foram trancafiados na carceragem do cadeião.
O corpo do defunto ficou dependurado no paredão do morro e o inflamado cheio da libido foi de ambulância para Belo Horizonte, onde penou seis meses flertando com a morte dentre leito hospitalar e UTI. Nem Pitanguy deu jeito!
Aqui no alto do Bairro Morrinhos, circunvizinhança do nosso site e da nossa 98 FM é assim: escreveu não leu, o pau come na fuça!


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Por Raphael Reys - 29/6/2009 08:03:54
O PÉ DE ANJO

Também conhecido com a alcunha de Dilo Barbeiro, ou mesmo Dilo Conquistador. Calçava habitualmente um sapato branco esporte e andava sempre muito bem vestido e rescendendo a Lorigan francês.
Nos românticos 1960, tinha o seu salão de barbeiro enfincado no imóvel dos Dias à rua Simeão Ribeiro, em frente à ZYD7. Na parede do salão uma grande placa em letras garrafais onde se lia: ”LAVA-SE CABEÇA E TIRA-SE CASPA”.
A modernidade trouxe a telefonia automática e, com ela, o aparelho de baquelita preta da Siemens e Dilo Barbeiro, como era criterioso, chique e atendia a ricos fazendeiros e políticos em domicílio já instalara o seu telefone, embora na época só pessoas abastadas tivessem um aparelho em casa ou no trabalho.
Piau, um vendedor autômono e malandro do pedaço, morador da rua Santa Efigênia no afamado Bairro Morrinhos, em uma tarde de cão onde já havia tomado umas fubúias desdobradas, resolveu bagunçar o coreto do mundo e escolheu Dilo como vítima.
Sabedor de que o nosso herói tinha o temperamento explosivo e era emocionalmente epidérmico, ligou para o barbeiro Don Juan e vindo em espirais metálicas pelo telefone Dilo recebeu o provocador diálogo: “Quanto o senhor cobra para lavar só a cabeça?” – “Dez!” – “E para lavar o membro todo com a cabeça incluída?”
Ato seguinte e acometido da ira dos justos, Dilo arrancou os tentáculos e artérias daquele monstro grudado na parede. A fiação, como um polvo traiçoeiro foi enroscando em suas pernas, braços e mãos terminando por deixá-lo piado na sarjeta sob os olhares estupetafos dos transeunte!
Douta feita, ao passar por um relógio público posto em frente à Leiteria Celeste do saudoso Zé Priquitim, para oferecer as horas e a temperatura aos passantes, foi abordado por um gigante galalau vindo da roça que ao ver o elegante relógio de pulso do Dilo, perguntou: “Que horas é, seu moço?”
Acometido pelo estigma da razão localizada e explícita e imaginando estar sendo “gozado”, Dilo Pé de Anjo apontou para o relógio público e vociferou trincando os dentes: “Veja as horas aqui, seu besta!”
Em uma reação súbita o gigante roceiro pulou sobre o nosso barbeiro irritado e aplicou-lhe uma gravata, ao mesmo tempo em que os corpos engalfinhados rolavam pela sarjeta.
Dominado pela força bruta do agora opositor e, com receio de levar uma bruta sova, Dilo respondeu como pôde, estratégica e salvadoramente: “É oito horas, meu senhor!”
Deitado no chão, mas, já livre do abraço de tamanduá tupiniquim, Dilo bradou a grande voz conclamando a presença das hostes de capetas e demais entidades sombrias dos Hades de Dante que trouxessem tufões e tempestades para exterminar com aquele galalau hostil que, a essas horas já se ausentara do local da via de fato...


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Por Raphael Reys - 25/6/2009 07:53:13
MÁRCIA YELLOW IN BLUES

5 e meia da matina, com o frio da chapada entrando pelo basculante da janela. Saio do estado onírico, em que viajava em “blues” e entro na insustentável realidade da vigília. Retorno à manifestação explícita da vida e minha alma escrava da beleza e das nuances de Vênus, recusa-se a acreditar que foi apenas um sonho. Uma fantasia!
Minha alma em devaneio nos braços de Morfeu, viajava com a doce jornalista Márcia Yellow a bordo de um vapor, rococó e romântico, que singrava as águas do velho Mississipi. Berço dos “blues” e caminho da alma negra do “sowl”!
Eros, o deus alado e Pteros, com o seu poder de fornecer asas, traçaram a trajetória da nau em meu inconsciente.
Se pudesse, ou mesmo se soubesse, roubaria esse sonho e o traria contrabandeado para a realidade. Mesmo sabendo que a vida, no dizer de Calderon de La Barca: Sonhos são! Ironia dos deuses, que sabedores dos meus anseios se deliciavam com as minhas emoções, entrando em “fad-out”!
Com o lusco-fusco do final de tarde, a nau insensata e errante deslizava pelas marolas do velho rio, conduzindo a minha pobre alma padecendo em blues. Linhas tênues, curvas suaves, cabelos “blonde”, olhos verdes, um ar de mistério e a minha alma em frenesi!
Embriagado ante o feitiço daqueles olhos, pude ouvir quando o vento trouxe os acordes de um coral de Ondina e Ray Charles (em Almas Errantes), cantando o álbum “Alone In This City”.
Perambulavam em espírito pelas margens do Missisipi!
A nave seguiu conduzindo o meu espírito em “blues”, debruçado no corrimão do convés. Após uma curva do rio, eis que o vento trouxe aos meus ouvidos nada menos que “A Sentimental Blues”!
A dose foi tão forte que acordo assustado e corro para o PC para escrever esta crônica, enquanto no ar a alma negra dos “blues” cantava: “What Have I Done?”
Feliz aniversário!

Bom demais!


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Por Raphael Reys - 22/6/2009 08:31:36
A MOEDA ÁRABE

Só vim a conhecer o Cônego Murta de perto, recentemente. Aconteceu em uma reunião do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros. Após a alegria do contato mais próximo pude me deliciar com seu bom humor, a sua verve, sua alma doce, muito característica dos piscianos e dos Mahatmas.
Ao terminar a seção solene da Academia, o chamei à parte solicitando a sua grata atenção. Propus conversarmos sobre a Divina Comédia de Dante Alhigiere, esse livro de cabeceira da humanidade, tomando como referência uma sua recente palestra abordando o tema.
No seu relato, confidenciou-me o tempo em que era noviço, quando mergulhou no estudo da obra do mestre italiano. Para que melhor se apercebesse da alma do escritor, aprendeu a ler, escrever e falar em dialeto sarraceno, visando a autenticidade do estudo que tencionava fazer sobre os originais da obra.
Já ordenado como padre, continuou os estudos da métrica dantesca e chegou mesmo a decorar a obra no original e na versão em português. (Declamou, na ocasião, os versos da abertura do livro primeiro, “O Inferno”). Disse-me que caminhando pelos corredores do convento ia declamando à baixa voz o primoroso texto.
Passou a visualizar num exercício mental, na tela da memória, o agitado cotidiano medieval, religioso e político do século XIII, em Florença. A sua alma desatrelada do ego viajava no místico universo intelectual e iniciático de Dante. Do Inferno, passando pelo Purgatório rumo ao Céu da divina Beatriz.
No seu relato, confidenciou-me que ficou tão maravilhado com a genial obra literária, principalmente pelo crescimento intelectual e mesmo espiritual que a mesma proporcionava, que os seus superiores, de tanto vê-lo constantemente debruçado sobre o texto, julgaram que o então noviço Murta estava padecendo de um desequilíbrio mental e chegaram, até, em pensar numa internação para tratamento...
Nessa jornada intelectiva o nosso saudoso Cônego Murta atravessou o Rio Letes a bordo do barco de Caronte, andou no bosque escuro com Dante, trocou idéias com o divino poeta Virgílio e teve a graça de contemplar Beatriz no céu superior!
Convidei-o para fazermos um “tête à tête”, um debate privado em que me daria a sua opinião como intelectual e como espiritualista, especificamente sobre uma passagem do Livro II, (O Purgatório), em que se trata da parábola da Moeda Árabe que, caída na lama, ao ser lavada volta ao seu estado de pureza original.
Nessa passagem, numa difícil fase dos estudos iniciáticos, Dante trata da “instrumentalidade da alma” como veículo para se fazer cumprir a Vontade Divina. Aparentei inocência ao fazer tal proposta, procurando extrair dele sua opinião e as suas conclusões sobre os “mistérios” da monumental e eterna obra de Dante.
Cônego Murta se afastou um pouco para melhor me observar por sobre seus óculos, me olhou fundo dentro dos meus olhos e respondeu:
- Sei, perfeitamente, até onde o senhor quer me conduzir! Faremos o debate, mas o advirto que não sairei dos preceitos teológicos da Igreja. O senhor anseia me levar a um raciocínio esotérico e iniciático. Serei católico, sem prejuízo de ser um intelectual e filósofo!


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Por Raphael Reys - 17/6/2009 08:22:45
DUAS ONÇAS NO QUARTEIRÃO DO POVO

Dizem os supersticiosos que o mês de agosto é o mês do desgosto, da ventania, do sol a pino e dos grandes acidentes. Pareceu-me ser mês do viço dos caçadores de onça! Neófitos nas caçadas, garbosos tomadores de cachaça Viriatinha que vão para a mata nos fins de semana e quando voltam alardeiam as suas proezas em caçadas sempre aumentando.
Um dos pontos que vem se destacando na cidade é o Quarteirão do Povo, onde o mando de campo é do famoso contador de inverdades Paulinho Relojoeiro. Dia desses o nobre advogado Juvenal, notório caçador de fins de semana, relatou uma estória em que a caça o apanhou desarmado.
Transitava em direção ao curral com o bridão em mãos onde selaria um bom cavalo alazão ao passar em baixo de uma gameleira caíram folhas secas em sua cabeça. Assustado, pois não ventava em Salinas naquela tarde, olhou para cima e o que viu o deixou estupefato, num misto de medo e de excitação!
Atravessada em um galho da gameleira e a observá-lo atentamente, os dois grandes olhos de uma fera pintalgada! Juvenal, como é temente das coisas de Deus fez em voz baixa a citação do salmo 97 do Livro de David. Continuou o seu percurso rumo ao curral com as pernas bambas, pois nessa ocasião, não portava sequer um simples canivete Corneta para se defender.
O passo trôpego, como exigia a ocasião aterradora, andou em linha até à curralama. A onça, uma Maçaroca cara de velha confiante na sua superioridade em força, destreza e velocidade de ataque, continuou andando do outro lado da cerca, sempre emparelhada com o nosso Juvenal. Mais parecia gozar do desespero da sua possível e quase certa vítima!
A mão de Deus, entretanto, estava do lado de Juvenal! Logo à frente, um leitãozinho passou correndo cruzando a frente da pintada. Premida seletivamente pela lógica racional do melhor sabor, a maçaroca deu o pulo, abocanhou o pequeno quadrúpede e gramou o beco para a mata onde, decerto, fez uma lauta e deliciosa refeição tupiniquim…
Puro poder do salmo recitado, que ensejou tal milagre!
Já o Chaplim Ourives, que tem sala no mesmo quarteirão exatamente na galeria do Jerry, relata ter estado em uma caçada de onça na localidade denominada Boqueirão. Fez a sua espera, arriou a matula, cobriu tudo com folhas verdes camuflando a toca da espera e, já bastante cansado, relaxou para tomar um gole da branquinha.
À espera, um pequeno jumento estava previamente amarado a uma árvore pelos pés, por grossa cora em cima de um fosso, onde a pintada decerto cairia após dar o pulo, na isca. Apurou os sentidos e, de súbito, uma onça das grandes deu um esturro tão alto que mais parecia cardam rompidos de caixa de Opala!
O jumento deu um gemido de dar dó e verteu água pernas abaixo antevendo morte próxima.
A fera, como no relato anterior e sob a égide da coincidência, preferiu abocanhar o jumento deixando, assim, Chaplin de lado. Este que é cobra mais do que criada em caçadas de onça e similares, ficou na dele. Deixou a onça dar o bote no jumento, o que foi feito fora do buraco que servia de armadilha.
Quando a onça desalmada deu a primeira mordida na coxa do jumento, arrancando, assim, um bom naco de carne vermelha foi que Chaplin fez o primeiro disparo, usando, para a ocasião espingarda cartucheira espanhola, mocha 16. Uma tremenda pregaça de chumbo grosso no vazio do animal! Com o impacto produzido pelo disparo, a onça veio no rastro da pólvora em cima do Chaplim.
Ele que não é nada besta, deu o segundo disparo, dessa vez bem no meio da testa da caça. Foi urro de dor! A bicha (do mato) rolou, deu saltos, se ajumentou na casca de uma árvore e arrancou cavaco para todo lado!
Chaplim experiente que só e vendo a coisa ficar preta para o seu lado deu no pé ocasião em que borrou as calças na cena laxativa e grotesca.
Chegando a sede da fazenda onde estava hospedado um peão ao notar as suas calças sujas de dejeto gozou: Hei Chaplin… Parece que você sujou as calças de medo!
Chaplim, caboclo experiente vendo a coisa preta para o seu lado, deu no pé, ocasião em que borrou as calças numa cena laxativa e grotesca…
Chegando a sede da fazenda onde estava hospedado, um peão ao notar a sua calça suja de dejetos gozou: Hei Chaplim! Parece que você sujou as calças de medo!
Chaplim, irritado, respondeu em cima do pedido: com uma onça daquela em minha direção, você queria que eu agachasse no chão para fazer necessidades. Fiz o que pude..!


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Por Raphael Reys - 9/6/2009 13:52:20
O ATELIER DOS FAMOSOS

" Com especial agradecimento ao nosso montes-clarense Walter Vieira que reside em Montreal no Candá. É leitor do nosso site"
Em 1950, o point da moda masculina para abastados e elegantes cavalheiros, era o atelier do mestre alfaiate Desidério de Castro. O seu estúdio localizava-se na capital das Alterosas no Edifício Michel, à rua Caetés, 448, Centro.
Uma Belo Horizonte de linhas curvas, art decó, ruas simétricas, praças românticas, um glamour modernista, projetada por Aarão Reis e Carlos Prates.
Desidério só atendia celebridades, artistas, homens de sociedade, cafeicultores, criadores de gado do Paraguai e Argentina, políticos e milionários, que mesmo assim, tinham que aguardar seis meses de espera no agendamento. Entre os políticos Juscelino Kubistchek e Ademar de Barros.
Da equipe de alunos do mestre Desidério, havia o oficial aprendiz, o nosso Cantídio Couto, que era destaque, hoje, bacharel aqui na terra de Figueira. A lista dos montes-clarenses que lá freqüentavam os empresários Luiz de Paula Ferreira, João Ferreira Paculdino, Nelson Viana e Múcio Ataíde..
Outros cavalheiros elegantes dos nossos Montes Claros de antanho eram Píndaro Figueiredo que freqüentava os cassinos da Itália, o fazendeiro Dominguinhos Braga, e o poeta maior da terra de Figueira João Chaves.
Os mestres copiavam à moda da Paris de então, cidade luz e passarela dos elegantes e bem vestidos do mundo. Uma metrópole de glamour!
Três botões, dois botões, um botão, jaquetão, scaravelli, em linho Yorkestreet, tropical inglês, casimira Aurora, sargelim Aurora, super maré 1504 brilhante, super Pitex 1504, S 120, S 120 pele de ovo e o S 129.
Outros mestres, dentre os chamados Agulhas de Ouro que pontificavam a BH da época, Percí, Cursino e Português, entre os saudosos.
Esse último, de tão sistemático, se o cliente alegasse não ter gostado do terno confeccionado por ele, a peça era picotada com uma tesoura pequena. Deixava as tiras no chão da alfaiataria. Era o seu marketing de qualidade!
O industrial João Ferreira Paculdino, um ano antes de seu casamento, procurou o mestre Desidério para confeccionar o terno da cerimônia. Como o alfaiate estava com a agenda lotada por todo o ano em questão, o cliente pediu-lhe indicar um profissional competente para fazê-lo.
Desidério respondeu: lá em Montes Claros tem o Cantídio Couto, que foi formado sob minha orientação. Pode confiar a sua encomenda a ele.
E para dar uma pitada de humor ao relato, havia um bêbado, o Zé Metido, sempre vestido com ternos usados e ganhados dos elegantes clientes do atelier. Zé Metido usava ainda chapéu coco, gravata borboleta e bengala de cabo de marfim. Freqüentava a porta do Desidério, e de tanto ver o ir e vir de celebridades contaminou-se se inflava todo e dava "ombrada" em todo guarda civil que passasse à sua frente, conversando com muito pouca gente.
Buscava demonstrar impunidade! Coitado! Só andava em cana e de lombo quente!


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Por Raphael Reys - 3/6/2009 15:22:46

EM BUSCA DE PEQUENOS MOMENTOS

A minha primeira percepção completa de vida e consciência ocorreu aos três anos de idade. (Na foto, o autor, no dia da primeira comunhão). Lembro-me, como se fosse hoje. No desfile das recordações, fatos se fixaram indelevelmente na minha saudade e na minha lembrança. Então, caminhava com meu tio "Lero" pela Avenida Afonso Pena, em BH, puxando por um cordão um filtro velho de óleo de caminhão, na minha imaginação uma luzida “baratinha”, que rolava pelo passeio com grande estrépito.
Era uma Belo Horizonte de linhas curvas e bem traçadas, ruas calçadas com paralelepípedos cortados por uma teia de trilhos franceses em que trafegavam bondes românticos. O casario colonial, em “art decó”, com seus monumentais jardins repleto de flores, beija-flores, abelhas e deliciosos e inesquecíveis aromas.
Aos quatro anos, como eu curtia o passeio aos domingos com os avôs no Ford Bigode do meu pai! A "manica" de ferro que dava partida no motor contava com a nossa entusiasmada torcida, para não falhar nem quebrar o braço do seu “operador”, ao retornar à posição original, o que acontecia freqüentemente... Tinha o radiador que fervia e jogava para o alto a tampa do bujão, o tubo de chocolate Kauffman que grudava no céu da boca, muitas vezes de propósito, pois só era descolado com um saboroso gole de guaraná espumante tomado no canudinho...
Tinha a calça de linho S120 branco, a gravata borboleta e o suspensório colorido, compondo o “glamour” dos almofadinhas de ontem, valorizado pelo sapato “Scatamachia” de verniz polido com graxa “Nugget”. Tinha o vôo dos meninos com coqueluche, pelas asas da Panair, com direito, ao posar o “avião da tosse” a tirar fotos no Parque Municipal, por conta da empresa.
Tinha o calor da fantasia de mandarim confeccionada com cetim e a sacola pendente com confetes, serpentinas e o lança perfume Rodoro de metal, para dançar o carnaval cantando... “sa... sa... ricando/ todo mundo leva a vida no arame/ sa... sa... sacricando/ a viúva o brotinho e a madame/ o velho/ na porta da Colombo/ é um assombro/ sa... sa... ricando!
1954 e o primeiro dia de aula no Instituto Norte Mineiro, comendo o doce de manga verde de dona Albertina e vendo a beleza do paletó de veludo verde do professor Márcio. A meia espuma de nylon em cores berrantes, calçados o quedes, mascando o chiclete “bola” importado via Santos, a um dólar cada.
Tinha o cabelo cortado à Príncipe Danilo, a brincadeira de “estraque deixa”, o canivete Corneta no estojo, a caneta Parker 51 com pena folheada a ouro e as balas Toffee, compradas no bar de Adail Sarmento e a notícia da morte da imortal Carmen Miranda.
Junto à adolescência, chegaram, também, o canivete de molas ao estilo “West Side History”, a calça “Roebuck” e a botinha meio cano com o cinturão de couro e fivela “country”. Além dos épicos faroestes e o porre de Cinzano bebido às margens do rio do Melo.
Muitas são as saudades do cabelo longo introduzido pelos “Beatles” e da mística das suas músicas mais que eternas, que nos sufocavam de pura emoção, do “twist”, e o encanto da inauguração da “bossa nova”, ainda entre aspas, na voz de João Gilberto, do som do violão de Baden Powel. Da camisa “Prist”, do tango dançado na pista da boate de Anália, o perfume embriagador das damas da noite e o som do violão do virtuose instrumentista Antonio Augusto Soldado (irmão de Théo Azevedo), solando... “Corrientes/ trê quatro otcho/ tercero piso/ ascensor...”
Como tão bem diz o inspirado poetinha Felippe Prates:
- “Estou nú, dentro de mim!...”


46402
Por Raphael Reys - 26/5/2009 08:00:53
GÔDA PORRETA
Como a crônica é um gênero polimorfo e tem como matéria prima o tempo em que se busca o significado do efêmero e do fragmentário, como nos relata Antonio Maria, diante da tragédia da vida, o humor é a solução, vamos falar do notável Gôda Porreta.
Biótipo Mignone, branco caucasiano, cabelos fartos, nariz adunco, gestos calmos e andar compassado, um olhar entre contemplativo e levemente observador, às vezes chega a parecer um sensitivo em transe. Faz lembrar um tipo turco desses urbanizados das ruas e vielas de Ankara, na Turquia.
1961, prestes a inaugurar e iniciar as atividades do Hotel Nacional na Novacap, para fazer os testes de seleção como garçom do comentado cinco estrelas, partiram cinco candidatos de Montes Claros. Chegaram a recém-inaugurada Brasília, a Capital Federal: Gôda, Tone Gaiato, Belém, Bené e Vicente.
O teste exigia além da prática de salão o conhecimento de forno e fogão. Muito embora o único da turma que falava inglês fosse o Tone Gaiato, o Gôda foi o escolhido pelo seu conhecimento e prática de forno e fogão. É um mestre cuca de mão cheia!
Voltando à terra de Figueira, Gôda exerceu além da atividade de garçom, a de cupier, bookmaker e abriu o seu indefectível e famoso Velório´s Bar, localizado à rua Irmã Beata, centro, nos fundos da Santa Casa e estrategicamente em frente à à área de velórios da funerária do hospital, ao lado do Pronto Socorro.
Mestre do trocadilho e do raciocínio rápido, Gôda, mordido pela mosca do amor, uma tarde, encontrava-se bebendo uma vodka na mesa do seu próprio bar, para aplacar o estresse, quando entrou o ministro Walfrido dos Mares Guia que, vindo de um velório naquela tarde quente de agosto, solicitou um copo com água.
Gôda, embora solícito e agradecido pela presença da autoridade, continuou sentado à sua mesa e convidou o visitante ilustre para tomar uma vodka com ele. Walfrido, agradecido, informou ao Gôda que não bebia destilado. Gôda, na sua verve curraleira, respondeu na bucha: então passa para o lado de dentro do balcão!
Doutas feitas, menores bebiam cerveja na mesa do seu bar, quando Nonato Pampa chega e o chamando à parte adverte: Gôda, vender bebida para menores é crime! Dá cadeia!Eram adolescentes entre 16 e 18 anos de idade. Após um sorriso amarelo e já fazendo boca de muxoxo, detona: se eles podem votar e eleger o Presidente da República, podem também encher a cara!
Como bem relata Zezinha Cambista: Gôda é rasgado! Ele não manda para o bispo, nem para a lua ou a Ursa Maior Um dia, chega ao estabelecimento um cabo eleitoral e pergunta em quem o Gôda votaria na eleição da urbe. O mestre do trocadilho responde: Voto no Humberto. Prefiro Jairo preso e Humberto Solto...
Outra boa história do Gôda já contada na imprensa local, dá conta de que estando fechado o seu bar com uma placa por motivo luto, na porta, o seu irmão Tuca Porreta o procura para saber o motivo. Após encontrá-lo, indaga e o Gôda responde: Gente importante quando morre o comércio fecha as portas de luto. Estou de luto pelo aniversário da morte de papai.
Gôda conversa com um amigo quando o mesmo indaga: Gôda, quantos irmãos vivos você tem? Ele responde em cima do pedido: só Tuca Porreta! O amigo retruca: e os outros irmãos seus? Ele responde: são pobres. O único vivo é Tuca, pois está milionário...
Ildeu chega ao Velórios Bar e da conta para Gôda de um acidente ocorrido, no qual um menino, seu vizinho, quando brincava em cima de um muro, que arriou e caiu em cima do garoto e conforme relata Ildeu, não pediu nem água!
Gôda, na hora, responde: Talvez ele não estivesse com sede!


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Por Raphael Reys - 21/5/2009 08:47:35
COISAS MONTES-CLARENSES

Estando no palanque como mestre de cerimônias em uma festa popular, o radialista Gelson Dias chamou ao palco o popular edil Conrado. Este informou ao pé do ouvido do velho GD que não sabia falar de improviso, mas mesmo assim falou e deu conta do recado.
Terminada a fala e já conversando à parte com o radialista e sem perceberem que o microfone ainda estava ligado, Conrado confidenciou: Ô Gelso! Eu tô até ficando bom nessa joça de fala! Noutra cena, Dácio Cabeludo encontra o seu filho afoito e o mesmo pede dinheiro para pagar um taxi e se apresentar a tempo no quartel do Exército, já que tinha perdido o lotação.
Dácio não se fez de rogado e estando liso meteu a mão no bolso tirou uma moeda de vinte centavos colocando-a teatralmente em cima da mesa e sentenciando: Taí, vintão!
Numa noite de sábado, o halterofilista e lutador Leônidas Lino, a mãe de Tico Lopes e Tone Tijolo foram a um circo mambembe recém instalado na cidade. A atração principal era a Mulher-onça, que se apresentou vestida à caráter.
O mestre de cerimônias fez a leitura do “curriculum” da amazona e em seguida desafiou qualquer homem da platéia a enfrentá-la numa luta de vale tudo no ringue montado, informando, de antemão, pelo megafone, que o lutador que se apresentasse “levaria o maior cacête da história”. Mal sabia ele que aquela era a noite de desdita da sua guerreira de palco...
Como caldo de galinha e prudência não faz mal a ninguém, Leônidas, bom de briga, se encolheu atrás do Tone Tijolo evitando ser identificado e ficou “na dele”, já que tinha como filosofia não bater em mulher.
Enquanto isso o holofote era projetado sobre a multidão na platéia. Sorrateiro, Tone Tijolo sabedor de que o gigante Leônidas tinha cócegas nos vazios apertou dois dedos nas laterais do mesmo.
Leônidas deu um pulo de gato e gritou: Aiii! Tone aproveitou e gritou em seguida: Aquiii!! A platéia aplaudiu em delírio e o oficiante anunciou o nosso lutador como adversário para o enfrentamento.
Como não tinha mais jeito de voltar atrás, Leônidas, o lutador, ficou embromando no palco tirando a sua roupa lentamente até ficar só de calção e esperando que algum imprevisto viesse a livrá-lo daquela situação prálá de inusitada e cancelar a briga.
A indefectível mulher onça, que já tinha tomado umas pingas curraleiras e estava com o guengo mole, notando o acabrunhamento do nosso herói o cobriu de pesadas, bofetes, catiripapos e tabefes! Correu o rodo e aplicou chaves voadoras à vontade enquanto o nosso lutador apenas se defendia e dava tempo ao tempo esperando o término do “round” evitando, assim, que o pior acontecesse.
A inocente platéia em delírio aplaudia a mulher onça e vaiava o nosso halterofilista lutador. Leônidas com a cabeça fervendo de vergonha pulou como uma fera e agarrou a lutadora pelos meios. Ergueu-a e ato seguinte lançou-a como um saco de batatas para se estatelar bem no meio da platéia!
Foi aí que Tone Tijolo sentenciou: “Leônidas a levantou tão alto que os pés dela bateram no trapézio!”


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Por Raphael Reys - 15/5/2009 18:39:21
CURRALEIRAGEM MONTESCLARENSE

Virgílio de Paula, saudoso folclorista e historiador tinha como hábito tomar cachaça curraleira curtida na casca de barbatimão. Tudo misturado ao exótico licor de pequi Corby, formando um hidromel da roça, para que a vida ficasse mais doce e prazerosa...
Estando descalço no jardim da sua casa, Virgílio foi mordido no dedão do pé por um escorpião preto. Recusou a assistência do HU e a tomar o soro antiofídico, sob a alegação de que dado à cachaça ingerida em vários anos de fidelidade à branquinha, o seu sangue tinha leveduras, fungos, alcoóis, ácido cético e resíduos de furfural, um verdadeiro veneno. O aracnídeo foi encontrado fulminado, bateu a caçoleta...
Carlúcio Atayde, saudoso notívago, tomava diuturnamente cerveja casco verde não muito gelada e como guia uma fubuia desdobrada, fabricada nos alambiques do também campeão de copo, o saudoso Mundim de Altamira, emérito comerciante e fabricante da “marvada” em Brasília de Minas. No tronco de fermentação da dita cachaça era encontrado gambás, escorpião, cachorro do mato, insetos voadores, etc., mortos, sem que ninguém jamais tenha passado mal por isso...
Certa tarde, estando em Vista Alegre, Carlúcio deitou em uma relva para tirar uma soneca. Foi picado por uma jaracuçu que estava amoitada no tufo de capim. “Enraçado” nesse colostro etílico tupiniquim, o seu sangue estava tão contaminado que o pobre ofídio bateu as botas imediatamente após o ato!
Já Barba Azul, emérito meio de campo do time de Gabilera do Alto São João, chapa de caminhão no comércio atacadista local, amanhecia na porta da Casa Minas Gerais esperando abrir o estabelecimento para tomar um copo cheio da desdobrada pinga conhecida como “Sobejo”.
A cachaça era retirada de um pote de barro onde eram jogados os restos (deixado pelos bêbados para os santos), que ficavam nos copos e fermentavam o produto.
Diz o dito árabe que: “de tanto ir à fonte um dia o cântaro quebra!” Barba Azul teve um ataque cataléptico e caiu detrás de um coletor de lixo. Como havia sido expulso de casa por causa da cachaça e estava dormindo nas ruas, dado como morto seu corpo foi velado, sobre um estrado na entrada da galeria Lafetá, no Mercado Municipal velho.
O piedoso açougueiro Lírio Roxo fez uma coleta de dinheiro entre os comerciantes do logradouro, visando custear as despesas do enterro. Meu pai doou um terno novo de quinta categoria, alguém deu o banho e o defunto foi dignamente vestido e exposto à visitação dos conhecidos e da galera do Alto São João, que desceu para homenagear o “de cujus” e acompanhar as exéquias.
De repente, o ataque cataléptico cessou, Barba Azul sentou-se no estrado e vendo toda aquela armação de terno e vela acesa, falou em alto e bom som: “quem foi o F.D.P. que fez essa molecagem!”
Depois do corre-corre grotesco e laxativo da galera que se mandou mal cheirosa do velório sinistro, o terno completo com os calçados do quase defunto foi prudentemente guardado para, quem sabe, um próximo uso.
Não deu outra! Dois meses depois o homem foi mesmo descansar, agora para valer, e beijar a morte, na cidade dos pés juntos. Infelizmente, assim, o time de Gabilera perdeu o seu mais emérito e raçudo meio de campo...


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Por Raphael Reys - 10/5/2009 06:28:27
CONRADO!

Estatura baixa, moreno tropical, biótipo caboclo, comum das gentes do Norte de Minas, roupas simples, sapato popular como convinha a um temente da ira de Deus. Usava um chapéu de massa para dar o charme. Comerciante de secos e molhados na Malhada Santos Reis, hoje chamada Bairro Santos Reis, edil por opção doutrinária.
Sufragado nas urnas vereador pela terra de Figueira, “Conrado” brilhava na sua cadeira de homem público, com sua alma sertaneja, participante das festas de santo e barraquinhas dos janeiros da comunidade à qual, agora, representava. Como o bairro não tinha água encanada, estava a defender a aprovação de um projeto para resolver o problema.
Dirigindo-se aos seus colegas de plenário em sessão, fez uma prece e logo usou a sua fala emocional e epidérmica, como convinha a um homem do povo. Relatou haver sido feito um córrego que recebia água desviada do rio. Represada que servia, agora, para a lavagem de utensílios de cozinha além de trouxas de roupa doméstica.
Os edis e a assistência do bairro em plenário permaneciam mergulhados em silêncio. Dado à exigüidade de espaço no local da lavagem, que forçava às senhoras a aguardarem a vez, Conrado descreveu então o sofrimento da comunidade em tal mister doméstico:
“Elas levam a trouxa para o rego. Passam o dia com a trouxa no rego e, à noite passam no ferro”. Os vereadores e a assistência embora tenham entendido a forma de se expressar simplista e emocional da fala interiorana, optaram pelo hilário. Irrompeu uma gargalhada coletiva no plenário e na mesa.
Conforme o filósofo de vida, Jerry Alfaiate, gente é assim. É só falar em “rego” que o sorriso de felicidade vem à face!
Conrado discursava usando um caminhão como palanque na Rua Melo Viana, onde pedia votos às senhoras da comunidade e emocionado pela presença maciça das mulheres no comício, à esquerda e à direita, os homens no meio. Gesticulando ao bom estilo De Gaulle quase vencido pela emoção, falou tentando se referir às mulheres presentes, comparando-as às flores, falou:
Margaridas, gardênias e rosas à minha esquerda. Senhores cravos ao meio. E apontando a destra para a direita, balbuciou trêmulo de comoção: Senhoras trepadeiras.
A mulherada gramou o beco de volta para suas casas.
Numa noite quente de setembro, depois de acalorada discussão em plenário estando já bastante suado, um colega de partido o convidou: Conrado vamos tomar uma sauna após a seção? Tomando a proposta sugerida com o verbo tomar, e o nome pouco usual, sauna, Conrado responde: Obrigado, há anos que não bebo!
Boca da noite, como sempre fazia, Conrado assistia TV na sala de sua casa com o janelão aberto para a rua. Um popular que passava chegou até a janela e fazendo o gesto de ok, punho cerrado e dedo polegar para cima, falou: Firme! Conrado com a sua natural verve e a costumeira atenção dispensada a todos, respondeu na bucha já dando um sorriso Colgate: “Firme”, não, é a novela das sete “firme” só na Sessão das 10...
O que vale na linguagem é o “troppo”. Meia palavra basta.



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Por Raphael Reys - 5/5/2009 04:38:27
BARBEIROS ESQUECIDOS

O notável Tião de Ducho, na verdade Sebastião Mendes (filho), membro da nossa aldeia de Figueira, e que há muito não via, nos encontramos no Quarteirão do Povo, no centro, quando me lembrou do lapso de não ter incluído vários barbeiros na minha crônica Tesouras e Loção de Barba, publicada recentemente em conhecido jornal da urbe.
Nessa crônica falamos de Horácio, Agenor, Os Macaúbas, Tone Ruas, Abel Nordestino, Ivo Pescador, Nem, os Guedes (Deusdth, Pedro, Dilo) Caneca, Nelson, Bigode, Manoel, Geraldo, Antonio, Juvin, Totonho, Moisés, Zé Barbosa e Pedro Montes Claros, o patriarca da família Amorim. Esse usava uma bola de ping pong dentro da boca do freguês para melhor escanhoar os pelos da barba.
Citei na crônica sobre o Salão Rex que era considerado o mais elegante da nossa urbe, o Salão Ruas no bairro Morrinhos, o salão Azul e o salão Montes Claros no centro comercial.
Não citei o seu pai Sebastião (Ducho) Mendes, pois prevaleceu nas minhas lembranças à imagem dele tocando o seu bandolim na seresta (confidenciou-me que aprendeu a arte com as almas no Bonfim), ou a sua imagem quando trocávamos informações sobre filosofia oriental ou ritos iniciáticos, na sua Agência Thaís.
Aí Expedito Mendes, seu irmão, que estava presente ajudou-me a buscar na lembrança de Leonel Beirão como barbeiro. Por associação nos lembramos, também, de Leonel Lopes e Joaquim Barbeiro, seu tio e parceiro de Ducho no conjunto Os Irmãos Carajés.
Sebastião Mendes, o Ducho, chegou a ter dois salões de barbeiro, sendo um no interior do Hotel São José, gerenciado pelo saudoso Curió. Dentre os antigos mestres que usavam a Água Velva não citei Firmino Cambuy e Neném Macaúba da rua Melo Viana.
Lembramos também que alguns profissionais e casas do gênero tinham ligação com o jogo do bicho nos anos 50 e 60. Veio-me a mente a figura de um delegado de polícia civil que montou campana em um salão em que, nos fundos era feita à extração via globinho e servia de secretaria dos banqueiros do bicho.
O policial sentou na cadeira de frente para a entrada do salão e pediu serviço de cabelo e barba. Na verdade, montava campana para dar o flagrante! Para espantar a autoridade o barbeiro usou no ofício uma navalha Solingen pouco amolada. Quando sangrou, sapecou álcool e o homem gramou o beco com as faces pegando fogo!
Na tela da memória surgem os espelhos das antigas barbearias, chanfrados nas bordas à moda francesa. Zezinho e João Macaúba, cobras criadas da Melo Viana, ainda tem um conjunto desses datado de 1930. Herança deixada pelo velho Macaúba.
E encerrando as lembranças, citamos os saudosos Marquinhos e Cláudio cabeleireiros do Salão Vips. Ambos muito queridos na nossa sociedade e falecidos prematuramente. Outros tantos profissionais que por lapso de memória ou exigüidade de espaço, não foram citados, o nosso respeito!


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Por Raphael Reys - 29/4/2009 10:47:49
APOIO MORAL


Transcorria a Segunda Grande Guerra e a pacata população da nossa campesina Montes Claros contribuía doando utensílios de alumínio que eram arrecadados na Praça Coronel Ribeiro e enviados para fundição das Forças Armadas, por via férrea. A cidade recebeu a notícia do seu primeiro herói morto em combate, o cabo Santana, expedicionário abatido num fogo cruzado na tomada de Montese, na Itália.
O escritório local do DER, estava instalado no prédio dos Alves na Praça Doutor Carlos esquina com rua XV, hoje Presidente Vargas, point central da cidade onde à noite havia o footing de rapazes e moças além do cabaré de Sinval Amorim. No dizer do cronista Rubem Braga: fervilhava como um nigth club da Broadway.
Dentre as salas ocupadas pelo DER havia um almoxarifado. Na cidade ainda provinciana, os funcionários iam chegando desde muito cedo e se reuniam a passantes naquele logradouro, onde trocavam diariamente dois dedos de prosa até que todo o efetivo estivesse completo. O nosso notável José Romualdo liderava um grupo, toda manhã.
O último a chegar, sempre as nove da matina, era o Leônidas Mesquita, um jovem topógrafo, o mais elegante de todos os rapazes da cidade. Exageradamente bem vestido, calças de tusô, ou de tropical inglês, camisas de seda ou voil, gravatas berrantes, sapato italiano bico fino de duas cores, cabelo untado de brilhantinas Glostora. Grossa corrente no pescoço e pulseira de ouro, além de anéis de brilhantes em ambas as mãos. Um visual que sugeria a mítica figura de um cáften, um rufião, ou um malandro carioca.
Os colegas que se reuniam na praça viviam a lhe dar conselhos, muitos por pura inveja, que a qualquer hora ele poderia ser confundido com um malandro de passagem pela urbe e se dar mal. O vício do conselho. Fica aqui a reflexão do escritor Tião Martins: será que há especialistas nessa matéria fugidia que é o ser das gentes?
Certo dia, o capitão Coelho delegado de polícia recebeu um teletipo dando conta e descrevendo a figura de um elegante escroque oriundo de São Paulo, que estava na nossa cidade para aplicar um grande golpe. A missão da captura foi passada ao investigador Altinim que, inadvertidamente, respondeu: pela descrição já sei quem é. Deixa comigo!
Leônidas vai à noite com a namorada ao cine Montes Claros e à porta Altinim apareceu de repente sujigando-o pelo pescoço, o algemando, derrubando-o ao chão para espanto dos presentes e da namorada! Conduzido até à delegacia passou a noite algemado ao banco da entrada, pois o capitão Coelho viajara em uma diligência e só voltou no dia seguinte, pela manhã.
Exposto ao escracho da visitação pública, desmoralizado perante a população e sem receber a ajuda esperada da família da namorada, que se quer comunicou aos colegas de repartição onde trabalhava a desdita do Leônidas. Ficou à mercê da sorte. Às seis da manhã, com a chegada do delegado, foi dispensado com um formal pedido de desculpas.
Acabrunhado, cabisbaixo pela humilhação recebida á vista de todos à porta do cinema e na sala de espera da delegacia, Leônidas, desceu a rua no sentido da Praça Doutor Carlos, no centro, onde certamente estavam os colegas do DER, que, pensava lhe dariam o esperado apoio moral. Chegou e relatou o fato aos presentes, dando-lhes conta do seu infortúnio.
Ao invés do esperado apoio moral que necessitava naquele momento de dor, se deparou com colegas que novamente o espezinharam, cobrando dele o fato de não ter recebido e seguido os conselhos quanto a sua aparência excessivamente elegante e aberrativa.
Como estava sob a égide de um dia de cão, Leônidas, estupefato por não ter encontrado apoio com quem presumia encontrar, se sentiu o menor homem do mundo naquele instante e em seguida tomou um rumo ignorado.
Leônidas nunca mais foi visto em qualquer escritório do DER. Todas as buscas feitas em busca do seu paradeiro se revelaram infrutíferas.
José Romualdo, até os dias de hoje se emociona quando se lembra do companheiro desafortunado, que o destino levou para sempre o fazendo sumir do mapa sem ao menos receber o pagamento do mês...


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Por Raphael Reys - 23/4/2009 07:42:36
SEU TOTA!

Na pia batismal da campesina São José do Rio Preto-RJ, em 02/08/1883, nascia sob a égide do signo de Leão e sob as bênçãos dos anjos, Luis Alves de Medeiros, filho de João Jacinto e Ignácia Alves. Logo foi chamado carinhosamente de Tota. Desde a infância demonstrou firmeza de propósitos, virtuosidade e temperamento decidido.
Criou-se nas lidas da Fazenda Bom Gosto de propriedade dos pais. Habilidoso, aprendeu a fazer de tudo e sendo perfeccionista, deixava a sua marca de esmero. Logo foi para a mais carioca das cidades mineiras, Juiz de Fora, onde se matriculou no famoso Colégio Grambery.
Tornou-se um autodidata, homem culto. Falava o francês com fluência e
dotado de natural postura nobre, característico dos leoninos, desenvolveu a arte da oratória, em que sobressaia o seu belo timbre de voz, possante e resoluto. Em 1914, durante a Primeira Grande Guerra Mundial, mudou-se para a nossa vizinha Pirapora às margens do Velho Chico, onde juntamente com a esposa montou a padaria Flor do Sertão.
Desportista nato, atleta por convicção, dedicou-se às práticas esportivas, promovendo eventos. Dinâmico e empreendedor passou a criar gado de corte e plantio de hortifrutigranjeiros.
Com o advento da Segunda Grande Guerra Mundial, o engenheiro encarregado da construção do prolongamento da estrada de ferro convidou-o para montar uma filial da sua padaria aqui em Montes Claros, visando o fornecimento, de pão, biscoitos e leite para frente de trabalho do trecho Montes Claros-Janauba.
A cidade de Montes Claros era movimentada pelos quinze mil operários da construção da obra feita com interesse militar e financiada pelo Pentágono. A vida noturna era farta com dancing, boates, bares, cassinos e lupanares. Seu Tota fornecia fiado, em caderneta, às damas da noite, e as recebia condignamente na sua padaria. Nunca deixou de receber o devido.
Como era querido e respeitado, merecia a amizade de todos na comunidade. Tinha passagem livre em qualquer lugar ou evento que fosse. Durante a sua vivência prestou solidariedade a essas infelizes mulheres da noite. Nas suas doenças e nas suas mortes sempre se fez presente levando a sua palavra cristã e ajuda financeira.
Cada alma que Deus manda ao mundo, o faz em missão. Seu Tota alem da sua numerosa prole, criou doze filhos adotivos, recolhidos das ruas e recebidos das mãos de pais necessitados. Alma caridosa e carinhosa, Tota foi amado e respeitado por toda gente.
Quando criança, um dos momentos que me alegravam era ir até a Padaria Flor do Sertão para comprar pães e biscoitos para os meus pais. Escutar as sábias palavras de seu Tota, a sua alegria contando causos e receber das suas mãos petiscos de presente para experimentar. Biscoitos e pudins diversos. Sai sempre com o bolso cheio de guloseimas! Uma beleza!
Tota e dona Neném comemoraram 62 anos de casados com uma memorável festa que marcou época na cidade. Deus Pai o levou de volta aos 86 anos de vida dona Neném veio a falecer dez anos após, com a mesma idade.
Como homem deixou o belo exemplo de como viver com honestidade, severidade, competência profissional e com o coração aberto a todos. Tota sempre tratou o semelhante com fraternidade, pois todos somos filhos do mesmo Deus.
Tota é pai do notável jornalista Magnus Medeiros.


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Por Raphael Reys - 16/4/2009 08:03:20
ELOGIO AOS LOUCOS!

Não estou fazendo sátira e nem pilhéria; pois como diz a sabedoria popular: de palhaço, de rei, de médico e de louco, todos nós temos um pouco. Isto indica que a vida tem duas faces diversas.
Muitos são os autores e filósofos, mesmo os clássicos, que falaram do tema da loucura ao longo da história. Guerra dos ratos e das rãs, o Mosquito, Ulisses e Grilo. E um ilustre desconhecido que escreveu o diálogo de um porco chamado Grúnio Corocotta.
Os loucos, ou tantãs, como eram chamados e ainda o são, povoaram a minha infância. Barulhentos, apalermados ou agressivos, circulando no centro comercial, na Rodoviária e na Estação Férrea dos Montes Claros de antanho. Vieram trazidos de outras cidades, donde foram expulsos sem direitos e lançados nas nossas ruas. Sem piedade, como um lixo humano.
Muitos deles construíram, e mesmo fizeram parte da nossa história, alguns foram até eleitos como políticos, de paletó e gravata. Ajudaram a povoar de medos e temores as minhas emoções da infância. Pude compreendê-los ao ler o Elogio à Loucura, de Erasmo de Roterdã. Dei-me conta de que a insanidade mental pode ser sinal de genialidade, de coerência, e mesmo de sabedoria. Relata-nos Fromm: As vítimas de doenças mentais realmente arruinadas encontram-se entre os que parecem normais.
Os loucos vão da terra para a lua ao sabor das suas imaginações.
As janelas do meu inconsciente foram abertas ao ler as histórias fantásticas de Poe. Acompanhando a descrição da Atlântica, no Timeu de Platão. Lendo os sete volumes da Doutrina Secreta de Blavátsk, e dela também, a tradução do poema épico dos iniciados tibetanos; As Estâncias de Dziam, em que consta a loucura do Criador, ao fazer manifestar e nos legar este planeta insano, no qual habitamos em nome da evolução.
Eles, os chamados lelés da cuca, ficavam nas entradas das fazendas de antigamente enquanto transcorria a era do romantismo e eram considerados patrimônio da casa onde moravam. Podíamos vê-los desfibrando a tenra palha do milho para pitar o paieiro. Tomando café com rapadura no interior das cozinhas, onde escutavam, sem entender no racional das suas mentes, os relatos da vida íntima dos donos da casa, com suas loucuras e as máscaras de falsidade dos que se diziam normais.
Esses registros repassados em seus inconscientes de forma inconseqüente são como o relato de Panomina: retidos da mesma forma que a eternidade usa para registrar o sangue derramado por um mártir, ou o ato de um vil!
Na reflexão dos Estóicos, entretanto, ser louco é deixar-se levar pelas emoções.
Pela doideira da vida, tentando dominar os meus temores e medos, aprendi a decodificar as loucuras alheias, observando o semblante das pessoas. Erasmo diz que; tudo que o louco trás na alma está escrito no rosto.
Já adulto observo um mundo de loucos buscando um panegírico milagroso, Um planeta entupido de dependentes exógenos, que carregam dentro de si a Bela e a Fera. Uma geração entorpecida, inebriada, construindo verdades falsas, aparências, e sob o estupefaciente das emoções efêmeras e das roupagens multicoloridas do Ego-Cambaleante. Falsos moralistas atormentados pelo pecado da carne!
Dormimos, enquanto a química dos medicamentos hipnóticos ingeridos nos conduz a portais dantescos, a realidades oprimidas pelo pensamento seletivo, a mundos construídos de bolhas coloridas. Bem razão tinha Calderon de La Barca, ao se perguntar: a vida, sonhos são?
Romperam-se as fronteiras de uma tribo global, constituída quase na totalidade de covardes que recusam a se olharem com a cara limpa. Apega-se a tudo o que é ilusório. A loucura é o boom de nossa civilização moderna e atormentada.
Essa triste herança foi construída pela falta de amor fraternal, da negativa das simples razões que emanam do coração. Encerro a crônica com a observação de Erasmo: A loucura é que governa a seu bel-prazer o universo.


45283
Por Raphael Reys - 9/4/2009 11:46:02
DUAS DE MAÇARICO, UMA DE CATOPÊ

No bar Esquema Quente, em uma noite de calor a galera tomava uma geladinha e jogava conversa fora. Conforme hábito, falavam mal do nosso país grande e tolo e dos seus habitantes tupiniquins. No rol dos recordes negativos citados, o analfabetismo era o tema “cabeceira”, como diria o saudoso Daço Cabeludo.
Maçarico Santiago, nobre representante dos trabalhadores e promotor de tômbolas e rifas em folha de papel almaço e já quase no fim da prosa em uma rodinha entrou na conversa e deu a sua: Prá vocês verem! Nos Estados Unidos qualquer pobre e analfabeto fala inglês! Aí a roda se desfez e cada qual foi cuidar do seu cada qual!
Doutra feita, ele encontrava-se de férias no Rio de Janeiro. Foi convidado pelo seu anfitrião o empresário Paulo Cesar para um elegante coquetel em um atelier de arte onde transcorria uma mostra de pintura abstrata.
O “gran monde” das artes guanabarinas estava presente ao evento e a mediada que o marchand apresentava as telas expostas, Maçarico dava a sua opinião pessoal sobre cada uma. A certa altura Paulo Cesar o cutucou e falou entre dentes: Manéra o pé Marçal! Aqui só tem cobra criada em arte! Você está dando mancada!
Marçal retrucou na bucha: eu só estou dizendo é que tem que ter tom sobre tom!
Já Carlúcio Athayde era contumaz freqüentador do Bar Sibéria que ficava na confluência das ruas Doutor Veloso com Rua Presidente Vargas ao lado do Clube Montes Claros. Curtia o dia tomando uma geladinha, "beiçando" uma boa cachaça Santa Rosa com tira-gosto de parede com picumã...
No encanto molengo do bar e vez por outras dava um longo cochilo escorado na parede! Como quem mora no beco só aspira ao beco o mundo passava devagar e os habitués chegavam quando Deus era servido!
Acordava, pedia outra gelada, ia ao banheiro esvaziar a bexiga e voltava à mesa, a cerveja e a pescar piaba novamente. Como era prata da casa repetia essa rotina a mais de uma década. Certa tarde quente do mês de agosto deu uma “pescada de piaba grande” ocasião em que um bando de catopés entrou no bar e se assentaram nas mesas à sua frente sem que ele percebesse.
Tomavam umas doses de Cinzano e de cachaça com Carlúcio ainda dormindo as suas costas. Como na porta do WC do bar não havia a tradicional porta de madeira e sim uma cortina de fitas plásticas multicoloridas, Vicente acordou e estando ainda tonto e com a bexiga ardendo se dirigiu instintivamente ao banheiro.
Deparando-se com aquelas pendentes fitas multicoloridas dos chapéus dos catopés e supondo já ter atingido o WC afastou algumas fitas e verteu mijo na mesa dos foliões à sua frente.
Vazou catopé com os tamborins molhados para todos os lados e a meninada que comprava picolé de água com groselha ao verem aquele berro d’água tupiniquim em atividade gramaram o beco!


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Por Raphael Reys - 7/4/2009 10:03:31

JERRY ALFAIATE EM PARIS
Raphael Reys

A foto acima tirada em 1936 em Teófilo Otoni o nosso costureiro tupiniquim Jerry Zonaldo( Jerry Alfaiate) posando como garoto baby em grande estilo natural. Hoje aos 73 anos deixou as passarelas e se dedica apenas a agulha.
Falando de moda masculina, o leitor sabe que no terceiro milênio AC, um curioso apanhou um amuleto de concha lavrada, fez duas perfurações e inventou o botão? Os botões são mais antigos do que a escrita e os gregos há 4 mil anos o usavam confeccionados em ouro,
O seu nome vem do Francês antigo, bouton, derivado do verbo bouten erguer em relevo. No século XVIII, quando finalmente se adotou a roupa justa, o uso do botão tornou-se imprescindível. Um bom botão e um bom alfaiate, para conferir elegância aos janotas da Renascença.
O momento de glória na história dos botões aconteceu, porém, quando o rei George VI, da Inglaterra, um dia se esqueceu de abotoar o último botão do colete, assim comparecendo a uma festividade real. Virou moda e durante dezenas de anos o chic era deixar esse botão sempre desabotoado.
Vai daí que nos Montes Claros de 1989, Éderson Guimarães, o Edinho, foi para a Europa trabalhar como modelo fotográfico. Desfilou como profissional pela Itália, França, Grécia, Suécia e arrasou nas passarelas do Japão.
Sempre era convidado para abrir os grandes desfiles de moda masculina e no circuito internacional cogitava o nome do costureiro que confeccionava os modelos Scaraveli, que usava.
O segredo foi desvendado pela jornalista Oneide Torres, que na época assinava a coluna Vitrine, do Jornal do Norte. O nome do costureiro era nada mais nada menos do que o nosso Jerry Zonaldo (Jerry Alfaiate), que usa também, os burgueses sobrenomes de Cardoso Oliveira.
Nos intervalos dos desfiles, Edinho vinha a Montes Claros, ocasião em que confeccionava em segredo, os de ternos feitos pelo nosso Dedal de Ouro (instalado hoje no Quarteirão do Povo).
Edinho representava o aspirado modelo masculino da nova era. Um simpático galã de traços gregos e olhar espiritualizado. Simples e elegante!
Até hoje não se sabe o porquê do nosso alfaiate Jerry Zonaldo não ter aceitado o convite para, juntamente com o seu contramestre Baltazar, fosse lidar com os grandes nomes da moda masculina na Europa.
O nosso costureiro tupiniquim iria projetar e costurar moda masculina contatado por Pierre Cardin, Valentine, Jean Luc Luí, entre outros. Fosse, estaria estabelecido na Boulevard Saint Germain, em Paris, ou na Trafalquare Square, em Londres.
Por aqui, Jerry inventou o modelo de calça masculina “sem pregas”, que foi moda no início dos anos 90. Os direitos desse “invento tupiniquim” foram parar nas barras dos tribunais com outro alfaiate local que ficou indócil e alegou ser sua a autoria.
E ademain, que Jerry Zonaldo vai em frente! Cavalo não desce escada e cobra que não anda, não engole sapo! Morou!


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Por Raphael Reys - 30/3/2009 15:05:54

FIM DOS ANOS 60

Raphael Reys, Sindô, o coroinha e sacristão, o instrumentista e músico Waldemar Euzébio e o ator e estudante Agnaldo Rocha faziam teatro na casa paroquial do padre Tadeu, a galera sintonizava nas rádios piratas com o seu Disk Jockey, Rodrigo Lucas, dirigia Dreyfus e as meninas eram dondocas. Um francês argelino dono de um restaurante em Niterói matava Kennedy a serviço do FBI e da máfia, havia a fracassada guerra do Vietnã com soldados sendo drogados para agüentarem o tranco da guerrilha.
Aqui no Brasil, a CIA implantava o AI5 e Beto Guedes ainda garoto usava camiseta de vidrilhos e soltava papagaios na Praça da Catedral. O glamour era as moças usarem sapato salto plataforma alta e roqueiros pintavam o rosto ao bom estilo dos Mutantes e de Alice Cooper.
Apareciam as saias calças e os rapazes sarados eram chamados de Pães e as meninas de geração Pão com Cocada ou Doce de Leite... Tudo era bacana, bárbaro. A rapaziada aprendia Kama-Sutra tupiniquim com as revistas de Carlos Zéfiro.
Rapazes com cintos de couro com fivela de prata ou de alpaca estilo cowboy tomavam Urupol para limpar a bexiga após curarem a blenorragia tropical. O sonho ainda não havia acabado e aqui nos Montes Claros dançavam bolero na casa de Roxa sob as luzes do abajur lilás. Sob o manto da luxúria havia as tardes na casa de Leobina e dançávamos o Sirtaki nas praças.
Zoca Gontijo inaugurava o coquetel Teresa Cristina, Josias Loyola vendia blusas buclê importada e umas cabeças ocas cheiravam teracloretileno-etil (um vermífugo) e diziam que estavam doidos e flutuando...
Não mais havia as fitas de Roy Rogers de Roque Lane e nem o cavalo Silver do Zorro. Sarita Montiel e Miguel Acheves Mejia cantavam e usavam sombreros e disputava os palcos com Mário Moreno, o Cantinflas.
Fidel Castro fazia pose com o seu charuto Havana, Che ganhava o mundo com sua foto de artista romântico. Os nossos militares treinados pelo exército norte americano tomavam o poder, por absoluta falta de que fazer nos quartéis.
Na época, escrevia o maravilhoso e corajoso Rubem Braga, que: militar não faz nada, mas começa cedo prá burro: às 7 da manhã estão todos lá...
A máfia tirava Kennedy e impunha Jonshon, um cego moral.
Pelas ruas de Montes Claros, andavam Tuia, Maria Babona, Geraldo Pascovira, Seu Manoel Cego, Requeijão, João Doido, Galinheiro e Zarur montado na sua bicicleta sueca vestido num uniforme de combate. Didi bancava o jogo do bicho dentro do Mercado Municipal. Leonel Beirão promovia festas dançantes no logradouro regadas à fubuia muita animação e palavrões
A rapaziada fumava cigarros Capri com filtro, tomava Cuba Libre, comia canapés e usava camisa Macgregor abertas no sovaco. Os Condons não eram lubrificados e muito menos musicados. A tralha de pescaria era levada de Rural Willes. Havia as garruchas Rabo de Égua, calibres 320 e 380
Bala 44 para caçar de carabina Winchester era vendida livremente na porta do mercado, dentro de uma cesta de vine por Emanuel Pinto.
As meninas assistiam ao filme O Mágico de Oz e cantavam a música tema.


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Por Raphael Reys - 27/3/2009 08:13:36
OS ANOS DOURADOS

No dourados anos 60, enquanto comíamos arroz com pequí e beiçava uma boa cachaça Santa Rosa acontecia à literatura de Kerouac, o rock de garagem, os movimentos feministas, a viagem psicodélica e os movimentos civis em favor dos negros. Havia os hippies, o Concílio Vaticano II, o mito JK e a taça do bi no Campeonato Mundial de Futebol no Chile a raquete de Maria Ester Bueno e o Pagador de Promessas de Anselmo Duarte.
Surgiram os grandes festivais de música brasileira com composições de Torquato Neto, Vandré e Alciole Carlos. Carlos Imperial fundava no Rio o Clube do Rock e os mitos Roberto e Erasmo Carlos iniciavam a carreira. Aí vieram os Baianos e o Tropicalismo, a alegria, a vanguarda, a Pop Rock e o Brasil inteiro se deliciava com a batida ligth e o canto nasal da Bossa Nova.
Era moda demonstrar sinais de liberdade e Mary Quant incentivava a mini saia nas garotas de corpinho esbelto e de pernas bem torneadas. Logo mais vieram as estampas psicodélicas de Rucci, os tecidos com fibras sintéticas, o Volta ao Mundo, os Ban Lon, Buclê, Pervinc, a sensual meia calça, a moda Unisses. Veio a magreza de Twiggy, os batons claros em bocas tropicais, o cabelo Franjão e a velocidade do avião Concorde contra o calhambeque de Roberto Carlos. Vieram a Rita Lee o Retrô e o Pop!
A ‘ Dita Dura “com o intumescimento do ato inconstitucional número 5, a pílula anticoncepcional, a chegada à lua e o Woodstock. O filme Bem Hur enchia as salas de cinema e tínhamos Kennedy, Fidel, Jean-Luc Godard. O muro de Berlim e os blocos pré-moldados Dylan e a música Folk. O satélite Telstar e a CIA fechavam o paletó, ou melhor o corpete de Marilyn Monroe.
Os cantores brasileiros se apresentavam no Carnegie Hall, Kennedy era apagado em Dallas pelo próprio FBI e Sean Connery fazia o Dr. No. João Goulart era deposto e Martin Luther King recebia o Nobel da Paz, Gern Reich lançava a moda do topless, Guevara era visto doutrinando na Bolívia e os Roling Stones cantavam Satisfaction.
Mão-Tsé-Tung continuava com o seu livro vermelho e os Beatles lançavam o eterno álbum Sgt. Pepper`s. Aí vieram Hoffnan e Simon, Garfunkel, Luther King era morto em atentado e Jack Kennedy curtia um nudismo na ilha de Skorpios e depenava um milionário grego otário. Caetano cantava a Tropicália e popularizava a diamba.
A França nos legava à moda de Curréges e as mulheres chiques usavam prêt-à-porter. Brigite Barbot mostrava a sua boquinha sexy e veio à moda da gola rolê e da japona.Logo explodia o Women`s Lib, o Black Power e o Underground. Ser reaça era fino! O Pasquim tava na moda e aí pintou uma doideira de estilos. Rock, California Sound, Alice Cooper, Zappa, Joplin, Hendrix, Zeppelin, Blue Gees, Stones.
A IBM lançava o RAMAC 305, a África do Sul fazia transplante de coração. Nascia a Arpanet, o embrião da Internet, Kubrick lançava Uma Odisséia no Espaço e em Paris era conclamada a revolução estudantil. Surgia a lata de Spray, o anarquismo e o Flower-Power. Havia refletores de luz negra e o famigerado LSD. O julgamento de Regis Debray.
A onda do neo-realismo italiano, o Cinema Novo, a Roda Viva de Chico Buarque. Ainda deu para assistir O Mundo de Suzie Wong, Suave é a Noite, Os Pássaros, Bonequinha de Luxo, O Candelabro Italiano, Doutor Jivago, Midnigth Cowboy. Caminhava-se curtindo a liberalidade de Leila Dinis, o FEBEAPA, a voz rouca de Aznavour e o Amigo da Onça, na Revista O Cruzeiro.
Viajava-se pela Cometa escutando um radinho de pilas Mitsubitch e Rita Pavone andava de lambretta.
Só dava Simone de Bovoir, Hesse, os OVNIS já ameaçavam invadir este mundo doido e besta, o I Ching fazia as mutações, Lao Tse se popularizava com o seu Caminho do Meio e os habitantes do planeta andavam no campo de Kuruchetra com Arjuna nas rédeas do carro de combate e Krisna na condução!
Parece que foi ontem.


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Por Raphael Reys - 23/3/2009 07:22:34

AINDA ÉRAMOS FELIZES!

Montes Claros 1964. Início da transição do romantismo sentimental e denso, para a modernidade, tempos ainda de buscar emoções passionais de amores idem e de ambientes meia luz.
Roberto Carlos já cantava "O Rosa/ Rosinha/queria que você fosse minha"..., tabus eram quebrados e os Beatles brilhavam com A hard day nigth e a mística enlatada em Liverpool.
Os Românticos bebiam cuba libre, hi fi, Martini Dry, Cinzano Rossi, vodka Smirnof, gim tônica, acompanhados com tira-gosto de canapés dançando na boate da Praça de Esportes, e no Clube Montes Claros.
Rapazes ainda usavam terno e logo deixariam crescer os cabelos a calçar botinhas com solado New Life, a vestir camisas coloridas da Prist e da Mac gregor. Moças usavam a fragrância de Chashemere Bouquet e os rapazes o romântico perfume Gardênia
Acabara a moda de cabelos Príncipe Danilo e o boom era o blue jeans da Roebuck, cintos com fivelas alpaca, cigarros Columbia e isqueiros Ronsom. O point de gente nova, os bares, Redondo e Toco. A lanchonete Cristal de Josias Loyola, o sorvete com fatia de bolo do bar do Cambuí.
Eram beijos com sabor vaca preta, banana split, piqueniques nas fazendas, início da liberalidade. A rapaziada mais ouriçada bebia rabo de galo e tomava vodka Smirnoff pura ou gim tônica.
Dançar no trevo do Redondo, ver as festas de santo do terreiro de Zé Fernandes e assistir os clássicos de futebol de campo e de salão com a safra de craques como: Jomar, João Batista, Zé Gomes, Nicó, Gontijo era o must.
Nas telas, os clássicos enlatados importados Ben Hur, Quo Vadis, El Cid, época de ver o brilho dos olhos de Liz Taylor em Gata em Teto de Zinco Quente, observar o suspense pela Janela Indiscreta.
Tempos do cinema arte com Blow Up, Modesty Blayse, O Homem do Prego e de aplaudir a doideira beleza do maluco Glauber, pirando o cabeçote. A radiola de baquelita tocava Long-play de acetato: João Gilberto acompanhado pelo violão de Baden. Twist, Hully-Gully, Beatles, rock and rol, Papa Hum Mau Mau, e os apaixonados curtiam a voz de Nat King Cole.
Tempos ainda de ouvir romanticamente Jerry Adriane, Wanderléia, Erasmo, de falar sobre Oldstok da ditadura inconseqüente, do filósofo Jean Paul Sartre, de Herman Hesse, tempos em que o sonho estava acabando.
Ainda deu para ouvir Sgts. Pepers Lonely Hart Clube Band e Lucy a garota do diamante, ver a geração beatinik se encharcar com o fim dos sonhos utópicos de consumo, impostos pela mídia internacional.
Tempos de festejar no Automóvel Club e tomar uma piscinada no MCTC, dos festivais de música, de falar no Santos de Pelé, no Mengão e na busca da emoção fabricada da Copa do Mundo.
Tempos de se reunir com a galera na Rua Raio Chistof e jogar conversa fora. O sonho ainda existia!


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Por Raphael Reys - 19/3/2009 09:11:01
A CIDADE, O CAMPO E O NOVO HOMEM.

Dia desses, o jornalista e “websmaster” Paulo Narciso trouxe-me uma observação que colheu no cotidiano desta terra de Figueira. Aparecem novas selarias pela cidade. Lembranças de cheiros e formas dos anos 50 e 60, com arreios, selas, estribos e cordas de crina de rabo de cavalo.
Afiança o mestre jornalista ser esse um indício da migração ao contrário. O indivíduo que para aqui veio da vida rurícola, ora volta ao mundo campesino após a sua aposentadoria. Urge confeccionar duas selas. Uma para ele, outra para ela!
Fugindo do massacre da vida globalizada, da urbanidade opressora, que deixou profundas marcas no seu Imo. Viaja como um guerreiro em busca do seu merecido repouso no fim de vida. Esses heróis do cotidiano buscam sentir o calor da curva do rio molhar o anzol na água em plena quarta-feira brava!
Vão ver o vôo irregular do besouro e se assustar com o grito longínquo de algum animal noturno! O cocoricó dos galos teatrais no terreiro fazendo figura para as galinhas poedeiras. O assovio do soim no pé de jabuticaba, a pata e os patinhos em caminhar seqüencial e simétrico pelas trilhas do quintal.
Os anuns catando carrapato nos cavalos e o bando de fogo-pagôs saltando e comendo semente do capim bengo. Histórias de entes vivos e entes mortos. Um arrepio de medo e defluxos às carradas. A história daquela vaca que ficou ervada e o boi, cor de burro fugido, que desapareceu e só foi encontrado um ano depois.
A onça que arrancou a orelha da novilha de compadre Amâncio e a espingarda bate-bucha de seu Quelezinho!
O trinado do canário chapinha o mugir do touro Rosilho e o suave pastar da dupla de bois carreiros. Melado e Rochedo! A pancada súbita do machado na tora de lenha e os dois dedos de prosa com os “cumpadres” em volta do fogão de lenha, com a panela de ferro no fogo brando cozendo a pele de porco para o feijão do almoço.
O gato dormindo no borralho e a carne de sol dois pelos serenando na madrugada da roça. Um generoso gole de Viriatinha com tira-gosto de lingüiça com gosto de “picumã”. Um metro de mentira, meio de bazófia, um bem e um mal falar dos pecados que o vizinho chato trás quando vem...
A lembrança da comadre do compadre catando pequi com o vestido amarrado na cintura, andando zonza de tanto comer cagaita madura. “Aí nós comêmo cagaita... comêmo cagaita... E caimo no sono! Aí acordemo! Tornamo a comer cagaita... Comer cagaita e caimo de novo no sono!
Acordemo intumecido e lembrando da “prisiguida”!
Aí, pratiquemo o dizer drumonniano: “A semântica libidinosa do homem da roça!”


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Por Raphael Reys - 16/3/2009 08:16:21
ZÉ GAVIÃO

Zé Gavião já foi nosso personagem em recente crônica intitulada: Alcides Cowboy, Zé Gavião e a TV de Jerry. Aplicou o golpe do baú em Almenara, sua terra natal, casando-se com uma mulata, filha de rico criador de nelore.
Ganhou do sogro como presente de núpcias uma fazenda com 500 cabeças de gado.
Três anos após, estando barrufado, pediu o desquite. Abocanhou a fazenda e casou-se em segundas núpcias com uma tremenda loura, uma potranca!
Passaram-se três anos e estando em Salvador, passeando com a família, encontrou-se com o seu compadre Alcebíades.
Na prosa, apresentou a sua nova conquista e mostrando a filha, uma pequena lourinha com rosto de boneca com o seu jeitão acavalado, mão de quebrador de pedras e com sua voz gutural falou: Olha compadre, que cria bonita. Foi só encontrar uma forma de primeira e aí está o resultado.
Certa feita, juntamente com o mesmo Alcebíades foi a Salvador buscar apoio do governador Juracy Magalhães para os seus negócios na Bahia. Como foram bem recebidos e o resultado do encontro positivo, saíram para comemorar na noite.
Alcebíades, conhecedor do pedaço o levou a uma boate da moda a melhor da vida noturna da capital. Gavião era naturalmente entusiasmado e extrovertido botava para fora todas as suas emoções, não despachava para o bispo!Como era tram cham, mesmo estando entre políticos ou em alta sociedade mantinha o seu ajumentamento ao falar.
Zé Gavião, conhecido e admirado por pessoas importantes, era um bruto com costas largas e estando na boate e com o quengo cheio de uísque, a gerência, para agradá-lo mandou-lhe uma apetitosa loura, que fez um strip tease só para a sua mesa.
A gatona se rebolou toda, se remexeu, se insinuou. Zé Gavião, com a sua natural verve curraleira, já inflamado e intumescido estando com os bolsos barrufados de grana levantou-se abraçado com a potranca retirou os pacurús do bolso, chamou o gerente e mandou fechar a casa por aquela noite, tudo por sua conta.
Ficou ele com a loura e o compadre Alcebíades com uma morena de arrasar quarteirão!
De outra viagem, tendo como companheiro o mesmo compadre Alcebíades, foi de avião fretado até à cidade baiana de Belmonte, receber o pagamento de uma boiada. Com a maleta abarrotada de grana caíram na gandaia!
Num lupanar encheram a cara e foram dormir com duas garotas da casa em quartos vizinhos. Como o clima da região era bastante quente, a divisória dos quartos era de meia parede de alvenaria facilitando, assim, a ventilação, o que se falava em um quarto era ouvido no outro.
A quenga tropicana, depois de dar uma geral no nosso Zé Gavião, passou talco para refrescar e dar um cheiro bom no corpanzil ajumentado do parceiro.
Alcebíades no quarto ao lado tendo escutado todos os sons orgásticos e grunhidos da dupla, não conseguia dormir dado aos roncos do Zé que faziam tremer toda a estrutura. Subiu na parede para ver a cena e como imaginava, completamente hilária!
Lá estava o compadre Zé Gavião com a sua enorme pança tremendo, a garota dormindo no seu braço carnudo. Tava de primeira! O pó do talco levantava a cada roncada do luxuriante!


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Por Raphael Reys - 13/3/2009 14:24:51
CONTRACEPTIVO CURRALEIRO

O conhecido e saudoso Pedrim de Araújo, fazendeiro às margens do rio Pacuí, tinha um vaqueiro de confiança chamado Serapião, também conhecido como “Serapa”. Ilustre pai de quinze rebentos remelentos.
A prole, entretanto, sofreu solução de continuidade. O motivo foi um radinho portátil de pilha ganhado pelo peão como presente do patrão.
Era um daquele antigo tipo “tijolo”, um Mitsubitch maneiro capa de couro modelo 1956, lembra-se? Aquele que tinha duas presilhas para abotoar a orelha de couro.
A comadre Lia, esposa de “Serapa”, ficou mais descansada das investidas libidinosas do marido, já que o mesmo passava as noites a escutar o que corria pelo éter: Lio e Leo, Tonico e Tinoco, Pedro Bento e Zé da Estada, Vicente Celestino e a voz emocionante de Nelson Gonçalves.
Ouvia com prazer pelas ondas hertzianas, à beleza de programa dos radialistas o velho Gelson Dias e o romantismo de Teixeira Bastos, ambos na ZYD7. Escutava, também, o noticiário do “Repórter Esso”, na voz de Eron Domingues ficando a par das últimas notícias desse mundo grande e bêsta!
Final de noite, já cansado de tanta melodia, e de tanta novidade, Serapião se entregava todo nos braços de Morfeu, o deus do sono!
Sonhava cantado nos palcos do Quitandinha e do Municipal. Foi com esse mesmo “radinho” que se encantou com Cauby Peixoto interpretando” o amor é uma pérola rara... e tem a cor de um rubi... ”Acompanhou as transmissões da primeira exposição agropecuária de Montes Claros no Parque João Alencar Athayde, soltando gostosas gargalhadas quando o burro” Capeta’ dava tombos na peãozada.
Não passou dois meses de uso e o radinho portátil “engastou”. As pilhas se esgotaram.
Pedrim trouxe então mais quatro pilhas novas, das boas, compradas no armazém Globo de Antônio Barreto, no mercado velho dos Montes Claros, quando então instruiu ao Serapião usá-las duas de cada vez, mantendo o som em volume moderado, para não aumentar o consumo de energia.
Uma bucha de “Bombril” engastada no bico da antena melhorava a sintonia e diminuía o consumo.
Foi trancham! O dito rádio funcionou por dois anos consecutivos, tempo em que não nasceu mais menino na casa de Serapião.
Um alívio para a comadre Lia, que não agüentava mais!
Ficando assim provado, que na roça, rádio de pilha, quando bem usado é contraceptivo.



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Por Raphael Reys - 10/3/2009 08:32:09
Tadeu, Conrado e a defesa de Zé Carlos Priquitim

O prefeito Luiz Tadeu Leite, no bom ano de 1988, convidou para uma solenidade de inauguração de iluminação pública de um bairro da cidade, o seu aliado político Conrado, campeão de votos na região do grande Santos Reis, incumbindo-o de fazer o discurso solene.
Concedia, assim, o alcaide, mais espaço ao edil visando à reeleição do mesmo em pleito próximo. A solenidade fora marcada para 17 horas. Pontual como sempre, Tadeu chegou com uma hora de antecedência visando um corpo a corpo com os eleitores. Depois de muito esperar e com os moradores do bairro já impacientes, Conrado finalmente chegou às 19 horas.
Transcorrida a solenidade, o prefeito cobrou do seu vereador o não cumprimento do horário aprazado. Firme nos arreios, Conrado respondeu em cima do pedido: “Muito me admiro, Tadeu! Eu não sou tolo! Onde que já se viu inaugurar iluminação de dia?”.
Douta feita, Tadeu o convidou para se assentar ao seu lado em um jantar de gala no Automóvel Clube. Posudo, no seu terno de casimira Aurora feito pelo mestre alfaiate Vavá, Conrado estava com apetite e deixando de lado as formalidades, já que desconhecia etiquetas de salão e o jogo de cena dos socialites, comeu quatro guardanapos de papel.
Postos ali na mesa dentro de um pequeno e decorado prato de sobremesas, os guardanapos foram degustados como boquinha e tudo, acompanhando um “scotch” importado.
Terminado o rega bofe da elite de Figueira, Tadeu Leite pergunta ao edil da Malhada: “Que tal o jantar, Conrado? De primeiríssima, não?” Conrado rasgando um sorriso tupiniquim e inocente, típico dos puros de coração, respondeu na bucha: “Tava beleza! Só na abertura comi três beijuzinhos especiais, bem molinhos, daqueles ali...” Falou apontado para o prato de guardanapos.
Um grupo de “habitués” que freqüentava o Café Galo conversava amimadamente às seis e trinta da matina, ocasião em que se falava das mais belas mulheres montes-clarenses. Como sou distraído, citei como exemplo de beleza uma antiga dama da noite dos anos 50 que freqüentava o Cassino Minas Gerais e fazia sucesso pelas suas qualidades na alcova.
O irmão mais moço da beleza citada estava presente na rodinha, no lugar errado e na hora errada! Ficou indignado, pensado ser a minha observação uma retaliação à sua pessoa ali presente. Exigiu explicações.
Para meu alívio e conseqüente controle da situação bastante constrangedora, o advogado Zé Carlos Priquitim estava presente na rodinha e sentindo o peso da mancada tomou a palavra e fez a minha defesa. Alegou que o fato aconteceu em virtude da comparação às mais belas mulheres da terra de Figueira.
A condição de mulher da vida fora citada "apenasmente" para melhor identificar a personagem em tela.
Contornou, assim, inspirado e com brilho, o mal entendido, evitando um atrito entre as partes que poderia acarretar sérias conseqüências...!


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Por Raphael Reys - 6/3/2009 15:27:23
DUAS FEIJOADAS

O “bon vivant” Zezão Relojoeiro, ex-goleiro do Ipanema Futebol Clube e emérito praticante de halterocopismo, é conhecido no trecho onde mora como “cemitério de feijoada”.
Certa ocasião passava um feriado prolongado na fazenda do pecuarista Roberto Durante, onde batia uma pelada com amigos diletantes de copo e de cruz. Antes de entrar em campo, botou uma pequena panela de ferro no fogo de lenha, cozinhando uma feijoada nada “light” para saboreá-la, com tira-gostos, após a partida, sozinho, só no mocó.
Todos fervendo sob a tenda da amplidão de Deus, a galera chutava o couro com disposição, quando o competente juiz deu o apito final. Zezão levou a feijoada já pronta, um punhado de torresmos, uma boa garrafa de Insinuante e um isopor com uma dúzia de cervejas nas latinhas, geladinhas, tudo para a sombra de uma mangueira. Afinal, ninguém é de ferro!
Ao mexer o petisco tropical com uma colher de pau, notou um grande pedaço de pele embolado no fundo da panela. Chamou o garfo, espetou, e trouxe a “carne” para um prato já cheio de farinha Morro Alto. Correu a faca serrilhada buscando separar o primeiro naco e só aí é que notou tratar-se de um grande morcego que ali caíra acidentalmente!
Pendurou o dito vampiro em uma cerca, fez o nome do Padre e passou a feijoada para dentro do bucho, como manda o figurino!
Já o “restauranteur” Enio do Quintal, chamado também de Tiênio, reuniu a galera de notívagos que pululava no lusco fusco do seu bar e restaurante e os levou para comer uma lauta feijoada em sua fazenda.
Todos debaixo de um pé de goiaba, lá estavam os muito etílicos Zé Priquitim, Dácio, Waltin e companhia. Hoje, infelizmente, quase todos “de cujus”. Ou seja, já bateram a caçoleta e agora comem feijoada nos Hades de Dante, junto com o barqueiro Caronte!
Logo irrompeu uma disputa entre os participantes com cabeludos xingamentos à mesa, por um grande pedaço de, supostamente, uma pele de porco encontrada no fundo do indefectível caldeirão.
Enio controlou a situação botando ordem nos bebuns tupiniquins e ato seguinte espetou o petisco com um grande garfo, colocando-o em uma bandeja para ser destrinchado e distribuído equitativamente.
Mas, era um prosaico pano de prato que havia sido esquecido no fundo do caldeirão!
Doutra feita, um freguês sentado à mesa do Restaurante Quintal reclamou do garçom que o copo que bebia estava com cheiro de dejetos humanos! Após trocar e lavar o copo pela sexta vez, Enio foi ver do que ser tratava. Lavou pessoalmente, mais uma vez, o copo reclamado e o devolveu ao cliente queixoso.
Só então se descobriu que o cliente, entre um gole e outro, descansava a mão que segurava o bendito copo de cerveja na calça de Zé Priquitim, sentado ao seu lado.
O Zé, como estava de fogo, não havia notado que a sua calça estava lambuzada!
(Aviso aos notívagos e navegantes! O Quintal abriu novamente às portas)


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Por Raphael Reys - 3/3/2009 14:34:48
CANÁRIO CHAPINHA E OUTRAS CURRALEIRAGENS


Na sede de sua fazenda principal, às margens do Rio Pacuí e, pela janela do quarto de dormir, Pedrim de Araújo podia ver o branco leitoso da garrotada nelore! Puro êxtase para a vista e para o bolso! No terreiro, cocás e passarinhos ciscando. Nas paredes do casarão colonial construído ao bom estilo art decó, havia fissuras e trincas de todos os tamanhos.
Curioso, Pedrim constatou que todas as paredes apresentavam os mesmos rachões e passou a investigar a origem disso. Mais dia menos dia, o morador que cuidava da porcada e que apresentava problemas de surdez, lhe informou que o motivo das trincas era o mesmo que provocara o seu mal: dois casais bem grandes de canário chapinha, que fizeram os seus ninhos em um pé de aroeira em frente à janela do quarto de Pedrim, e, de tão alto e diferenciado era o seu trinado que, juntos, produziam o efeito conhecido no mundo do som como “SOROUND SOUND”!
Esse fortíssimo efeito se propagava pela estrutura da aroeira ficando, assim, potencializado e o resultado eram as fissuras, os rachões gigantes e a surdez do encarregado, tudo pelo extraordinário efeito destruidor, similar a “bomba de parede”!
Douta feita, Pedrim de Araujo adquiriu em uma feira de galináceos gigantes no Recife, seis casais dos maiores que havia. Eles só se alimentavam de milho mexicano do tipo “Titam gigante”, o que lhes conferia uma extraordinária força sobre-galinácea!
Como Pedrim era sistemático e não usava burros ou cavalo para puxar a sua carroça adestrou os seis machos da espécie gigante e os mesmos passaram a fazer o trabalho de tração da carroça. Puxavam qualquer peso tal quais os burros! O único animal quadrúpede que Paulim usava era o seu cavalo Fenomenal, um alazão de grande porte e marchador.
Fenomenal era tão treinado que adivinhava os desejos do dono, parando, sem comando, na venda para seu dono tomar umas branquinhas, conduzindo-o, após, até em casa são e salvo!
O Fenomenal, entretanto, era temido em toda a região e principalmente em Coração de Jesus, onde o seu lendário coice era conhecido. Certa feita, o cidadão conhecido com o nome de “Xéu” tomou umas cachaças e resolveu encher o saco do Paulim que bebia uma sossegado, em um canto da venda.
Fenomenal tomou as dores do dono e deu um tremendo coice no “Xéu”. Consta que a vítima foi lançada a uma distância de vinte metros do local do fato!
A bagaceira foi de tal ordem que o paciente teve de ser operado no famoso Pavilhão 10 da Santa Casa do Rio de Janeiro, pelo famoso cirurgião plástico Ivo Pitangui, que praticamente reconstituiu a carcaça do “Xéu”. Em seguida, foi novamente operado, agora por uma equipe de ortopedistas que, para fixar as costelas quebradas, lhe implantaram para mais de quarenta e duas peças de platina!


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Por Raphael Reys - 26/2/2009 11:52:39

A DONZELA BRANCA DE ARAPIRACA

Maio de 1965 nessa inusitada terra de Figueira, o galã Paulo Gomes Junior, o Paulinho Relojoeiro (hoje no Quarteirão do Povo) arrasava corações montado em sua bicicleta sueca aro 28 modelo Ahermes, 1954. Pneu fino, freio de mão, câmara de ar de borracha vermelha, campainha metálica, selim especial, um luxo só.
Caído de amores pela Verônica, também conhecida como Branca, uma pernambucana “mignon”, como bem convinha ao seu biótipo de rapaz simples e curraleiro de Mato Verde. A garota da cabeça chata era conhecida como a Donzela Branca de Arapiraca. O pai, um atávico, que por qualquer motivo enfiava uma peixeira no bucho do contendor.
Domingo cedinho e Paulinho Relojoeiro rumou para o Bairro Cintra visando levar a Branca para a missa das nove horas na Catedral, o que era considerado o “it” da época. Chegando a casa encontrou a donzela de vestido de renda branca e forro de cetim rosa claro. Diadema no cabelo, correntinha de Santa Luzia no pescoço e Alpargatas Roda nos pés.
O galã Paulinho (que se parecia com o ator Paul Newman), trajava calça de riscadão de algodão, camisa Volta Ao Mundo comprada na Loja "Boa Vontade", brilhantina no cabelo, relógio Seiko no pulso e sapato Vulcabrás. E como chovera bastante, calçava galochas brancas nos sapatos, a última moda das metrópoles.
A donzela morava perto da casa de Bilô, fiscal da Prefeitura e após apanhá-la o nosso herói de alcovas tropicais descia a rua Juramento rumo ao centro, quando na ladeira o freio de mão falhou! Como a bicicleta vinha em boa velocidade buscando chegar na hora da abertura da missa, evitando escândalo de padre Agostinho, a calanga então virou um bólido.
Ladeira abaixo e impossibilitado de praticar a frenagem naquelas circunstâncias inusitadas, Paulinho e a donzela começaram a gritar desesperadamente. A bicicleta se embrenhou para dentro de um bananal e com o impacto em um obstáculo, Paulinho ficou enganchado nas bananeiras preso ao guidom e a namorada, tão branquinha, dependurada de cabeça para baixo agarrada a um cacho de bananas!
A donzela de Arapiraca, ao se desprender caiu de ponta cabeça dentro de um grande monte de estrumes e atolou até a cintura! Rápido, Paulinho a puxou pelos pés, lavou o seu rosto e braços com as águas (então) límpidas do Córrego do Cintra e, temendo a possível retaliação que poderia ser praticada pelo pai da garota, gramou o beco e deixou a sua prenda chorando sozinha...
Desonradas as calças riscadas que vestia, o nosso vil herói passou seis meses escondido em uma fazenda de amigos em Mato Verde.
Findo o refúgio, a foto ilustrativa tirada à porta da casa do Tenente Esmeraldo na rua Bocaiúva, durante os tradicionais ensaios das festas juninas promovidas pelo oficial, mostra o nosso Paulinho já de bicicleta nova e cheio de lero para cima de uma garota...
Testemunhas do fato estão na foto: Carneirinho (com o olhar desconfiado e treiteiro, embora de aparência mansa) e o empresário Edson Bororó, já um galalau tupiniquim com o sapato Vulcabrás brilhando, muito bem engraxado pelo competente Zuza.
Os demais personagens, componentes do terno de quadrilha do tenente, poderão ser identificados por Carneirinho que tem memória fotográfica.


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Por Raphael Reys - 22/2/2009 18:56:20
A CAPA DA CACHAÇA

Bêbado sempre dá sorte! O bêbado, quando está liso e com vontade de tomar uma branquinha acha dinheiro na rua. Bebe fiado, dá o cano no botequineiro e continua bebendo no mesmo bar. Encontra outro colega de desdita que paga a sua e quando chega atrasado ao serviço em virtude da ressaca miserável é perdoado pelo patrão que não desconta a falta em folha.
Quando retorna ao lar, não cai em buracos, tem sempre um anjo da guarda de todo tamanho o amparando-o. Bernardo Bruno disse que: a criança e o burracho, Deus põe uma mão em cima e outra em baixo! Segundo a mística do bebum, o diabo também dá uma mãozinha ao afilhado.
As almas penadas que estão vagando nos Hades vêem para sugar o ectoplasma de quem bebe. Ficam grudados na aura do usuário etílico que não se agüenta de pressa para o dia terminar logo, para ele e os amigos marcarem presença no bar.
Aqui nos Montes Claros alguns apreciadores da caninha com "ruzáro" ficaram ricos em decorrência desse apego pela cruel. Encheram a cara dormiram de fogo e, acordaram milionários. Senão, vejamos.
O saudoso empresário e desportista Eunilson Preto, num sábado saíram cedo para tomar todas. Um cambista veio oferecer-lhe um bilhete da Federal e, não o encontrando, deixou o mesmo na gaveta da escrivaninha do rabudo. Eunilson acordou domingo com gosto de cabo de guarda-chuva na boca, com o cambista chamando à porta e avisando que o bilhete fora contemplado com o primeiro prêmio!
Um ilustre cidadão do Brejo das Almas, digno ex-empresário do ramo de transportes de cargas e atual comerciante de automotivos chegou aqui liso e em busca da sua sobrevivência. Arranjou um bico para vender bilhetes. Comercializava quadras inteiras! Num sábado tomado pela saudade pelos amigos que deixou no Brejo encheu o pandú com várias doses de branquinha no bar do Bébé dormiu e escornou no maior fogo.
Ao acordar, no domingo pela manhã lamentando o possível prejuízo dos bilhetes a serem pagos descobriu ter sido contemplado com o primeiro prêmio quatro vezes! Foi à capa da cruel branquinha que vestira na noite anterior a grande responsável por ele ter ficado podre de rico. Quem bebe tem amigos na terra e nos Hades!
Mário, na Pioneira dos Milhões, em 1962, tomou umas Viriatinhas dormiu com o tóba cheio de cachaça, não vendeu os bilhetes da Federal e como os anteriormente citados, ficou milionário. Se mandou da cidade para não emprestar dinheiro a parentes e falsos amigos. Outro cambista do mesmo revendedor vendeu o bilhete, recebeu o pagamento, antecipadamente foi buscar o bilhete para entregar e se esqueceu. Encheu a cara e foi dormir!O bilhete deu na cabeça e ele, milionário se mandou com a roupa do corpo levando o prêmio alheio.
Consta estar foragido morando no povoado de Andirobal dos Crentes, no interior do Maranhão e, usando identidade falsa comprada na Praça da Sé, em São Paulo..
Outro que não vendeu a quadra de bilhetes do elefante, que estava em sua posse tomou várias doses no bar do Rosental, próximo ao campo do Ateneu arriou o pandú e acordou rico foi o nordestino Abdias. Comprou fazendas e construiu imóveis na cidade. Deitou e rolou na sorte! Esnobou grana para todos os lados. O homem tinha o santo forte!
Com a veiculação da boa notícia de que cambista que escorna na cachaça acabava ficando rico, levou uma dúzia de eles a encharcar o bico na cruel crescendo a barriguinha, descascando as canelas, afinando o pescoço. Faleceram prematuramente com os bolsos vazios por terem tomado cana desdobrada ou curtida no álcool. A popular fubúia!
Aviso aos navegantes e leitores: A cachaça que traz boa sorte a quem a toma é a pinga pura por origem! Quem bebe cana tem que ter finesse. Tem que ter compostura e postura, pois o diabo tem uma capa e uma campa!
Olho vivo!


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Por Raphael Reys - 17/2/2009 08:52:17
SOB A LUZ LILÁS


Cinco e trinta da matina, cheguei cedo para ver a praça acordar ao luso-fusco. Céu carregado, nuvens vermelho-rosáceas se misturam ao lilás dos holofotes que iluminam a fachada da igreja Matriz e fazem brilhar as paredes do casarão colonial do saudoso Benjamim Rêgo. O ambiente desperta uma áurea mística, como pano de fundo.
Passam pelos passeios moradores em caminhada e aposentados já estão sentados à porta do ECT, esperando a abertura do Banco Postal. Logo chegarão distribuidoras de propaganda de bancos de empréstimos, vendedores da palavra do Senhor e fabricantes de salvação das câmaras do Inferno.
Nos anos 60, dormíamos ainda vestidos de terno, nos bancos dessa praça vindos das festas do AC e, cedinho, comíamos o pão quentinho da padaria de Antonio Brito, ali perto. Nestor, o vigia do posto de gasolina, ainda em pé com a sua capa colonial e o rádio portátil, ouvindo na ZYD7 música e até os noticiários internacionais. Uma fonte segura, para sabermos das notícias da noite e do mundo.
Jovens passam montados em bicicletas trafegando em velocidade pelo logradouro, colocando em risco a vida dos idosos em busca dos laboratórios de análises e clínicas próximos. O sino eletrônico toca imitando as badaladas do original, ferindo os nossos ouvidos e o nosso coração com essa desarmonia musico - sentimental, a evocar a saudade de velhos e saudosos sons, nos velhos e saudosos tempos...
Não mais vemos a missa vespertina do palácio do Bispo, com a sua decoração colonial. Não mais ouvimos os chilros dos beija-flores do viveiro doado pelo rei Chateaubriand. No seu lugar, ergueu-se um descorado coreto em que moram e dormem notívagos e moradores das ruas. À noite, os bancos da praça são palcos de preliminares da galera GLS, que pulula nos bares da moda próximos.
Afinal, a alma é escrava do amor!
Sete horas e o ponto negro das ruas Doutor Veloso e Santa Maria já fervilha com carros engarrafados. Frenagens súbitas, alaridos, cantar de pneus... Impropérios! Bem diferente dos anos 60, quando, de manhãzinha, por lá passávamos cantarolando as músicas fixadas nos nossos ouvidos e que restaram das serenatas...
Agora, vemos bestas humanas induzidas pela química exógena que voltam das noitadas de embalo e vociferam, gesticulam e urram. Buscam instintivamente o caminho dos seus lares. Veículos de panacas, com o som a toda, compensando a falta de masculinidade no desespero dos “raps”. São míseros flagelados sensoriais, de quem sentimos muita pena...
Felisberto Oliveira, Barão de Castruch, o morador mais emérito da praça, lá estava na sacada da sua mansão colonial. Hoje, não mais aparece com o copo de vodka na mão a gritar: “Oi Ceará, vem tomar uma comigo! Tá bem! Olha Ceará, eu só saio daqui com a metade da grana da venda da mansão em mãos! E aí, velho, não vai ter mulher pobre na paróquia! Ou melhor, na arquidiocese!...”.
Que grande figura! Uma pessoa queridíssima!
Voltou para os mundos súperos sem receber a esperada “bufunfa”, mas levando o seu coração de menino assustado, o sonho de erguer em Montes Claros uma “Cinecittá” tupiniquim, as eternas lembranças e as saudades dos amigos igualmente diletantes, o copo de vodka e o som das badaladas do seu imponente relógio carrilhão francês com vasto pêndulo dourado, grande e lindo. Que marcou, por toda uma vida, as horas felizes que Felisberto viveu e cismou na bela sala estilo rococó de seu bicentenário sobrado, palco da sua morte, com a pompa e a circunstância de um sangue azul.


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Por Raphael Reys - 12/2/2009 19:11:22
CALÇA RASGADA

Diz Homero na Oitava Ilíada que: “Os deuses tecem infortúnios para que às futuras gerações não falte o que contar!”
Para que os negócios da Cerâmica Cowan andassem nos conformes, a empresária dona Célia Machado nomeou o mui digno Zé Amorim gerente geral e deu-lhe a necessária carta branca para ele segurar as rédeas na cabeceira.
Mão de ferro, severo ao extremo embora de fino trato e até mesmo amável com as pessoas, o Zé não admitia nada fora dos eixos.
Certa tarde quente e com a baixada refrescada pelos ventos de agosto, uma forte rajada bateu abruptamente a porta do gabinete do Zé travando a fechadura, tendo a chave caída do lado de dentro da sala estando o Zé do lado de fora supervisionando a empresa.
Foi, nesta hora, chamado urgente pelo Tonim da Cowan, que informava estar à patroa já nervosa, querendo, insistente e impacientemente falar com ele.
Como o aparelho telefônico de baquelita ficava dentro da sala do Zé Amorim, Tonim, preocupado com o nervo da enfezadíssima patroa, açulou o nosso Amorim que aflito, esbaforido, inventou de saltar pela alta janela para resolver a situação emergencial. Desajeitado, como sempre, e com o esforço inusitado, rompeu a costura dos fundilhos da calça, tornando explicitamente visível a sua branca cueca da marca Torre.
Ao telefone, madame instruiu o Zé para esperá-la à porta principal da cerâmica, pois logo mais passaria apressadamente de carro pela avenida, rumo ao Parque de Exposições e precisa falar-lhe. Que o Zé a aguardasse de pronto, no ponto combinado como sem falta!
Estando com os fundilhos à mostra o Zé “pregou” o traseiro na cadeira do seu gabinete evitando o ridículo ao se levantar, e instruiu o Tonin receber e convencer a patroa a entrar, e diante do seu momentâneo impedimento se dirigir até o seu gabinete.
Zé Amorim sentadíssimo na cadeira, eis que chega dona Célia que se postou em pé, no centro da sala. Tonim e Fernando Cezar Amaral, de “voyeurs”, só assuntando, doidos para ver no que ia dar de hilário. Estranhando que o seu gerente, sempre educado e solicito não a recebesse condignamente, não oferecendo nem ao menos uma cadeira para sua chefa tomar assento, ela chamou o Zé no curé.
- Veja Zé! Você está estranho hoje! Pálido, suando em bicas e com o traseiro pregado direto nessa cadeira! Não me recebeu à porta, como de costume, não me convidou para tomar assento e nem ofereceu a água gelada e o cafezinho na bandeja de prata! Deu para ser mal educado, agora? Está andando com más companhias? Nem de longe demonstra um comportamento que se espera de um filho de Pedro Montes Claros, um saudoso cavalheiro!
Tonim e Fernando se deliciavam com sorrisos irônicos pelo sufoco do amigo, o Zé, mesmo com o traseiro desapetrechado. Suava frio, dona Célia não ia embora e o vento de agosto insistia em entrar pelos fundos da sua calça de linho S120 branco, feita pelo alfaiate J.Pandu (o Craque da Elegância), ameaçando expor à vista e à galhofa o cuecão botão de pressão!
Não houve jeito! O Zé teve que relatar o ocorrido e a patroa enviou o seu motorista até a casa do Zé na Rua Altino de Freitas, no centro, para trazer uma calça reserva.
Essa nova peça, mais adequada, pois de tropical inglês, confeccionada pelo famoso Jerry Ronaldo, o “Agulha de Ouro Frufru”.


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Por Raphael Reys - 4/2/2009 14:19:21
CASTIGO PEGA MALANDRO!

Diz Homero na Oitava Odisséia que: “Os deuses tecem infortúnios para que as gerações vindouras tenham o que contar.”
Muito embora Frei Beto tenha comentado que ao escrever falando das mazelas da urbe o cronista esteja “garimpando miudezas da vida alheia e se debruçando no próprio umbigo”, com licença de Sua Reverendíssima, eu vou lá conferir.
Em Montes Claros acontecem coisas de que até o Criador duvida! O competente e tradicional corretor de imóveis Flávio Lopes me informa que o seu colega Franciscão (nome fictício) de tão mala sem alça que é, além de aplicador de agapito e agapanto, já virou bicho urbano! E o bicho, cedo ou tarde, pega castigo grosso!
O citado colega foi convidado por amigos e vizinhos para uma pescaria às margens do Rio Verde. Como de costume, aplicou em todos que “não podia viajar, pois estava sem grana". Liso, leso e louco! Fez cara de coitadinho e conseguiu engambelar a bem intencionada turma do caniço e da cana.
Para não ser desmoralizado, flagrado na malandragem durante a pescaria, entrou em um banheiro próximo e colocou uma nota de cem reais dentro do seu fétido tênis, evitando ser revistado para checar a sua “dureza”, já que ninguém confiava mais nele! Não deu outra! Os colegas reviraram os seus pertences, mas não encontraram dinheiro algum, pois longe passaram do seu catinguento tênis.
Logo logo ele encheu o guengo de Viriatinha comendo uma lauta farofa de carne de sol dois pelos, tudo na base do 0800 e esqueceu que pisava na “merreca” de cem! Entrou dentro do rio para desenganchar rede, sapateou um samba de fundo de quintal e o castigo divino, que tarda, mas não falha, pegou o malandro. Passou todo o tempo pisando e esmagando a nota de cem reais e quando voltou para casa é que aconteceu o castigo. A esposa do fedorento, ao lavar o sujo tênis, encontrou a nota de cem (de fazer a feira) toda “desmilinguida.” Como ele é miserável, unha de fome e discípulo de Gepeto, por castigo a cara metade contou o lance para o competente Flávio Lopes. Este, que não é terra de cemitério para comer sozinho e nem é caixão para levar segredo para o túmulo, me contou. E daqui, para a boca pequena
A bem da moral e da ética profissional montes-clarense, solicitou-me passar o “link” para frente, visando prevenir futuros incautos que, lendo esta crônica, escapem da chaveta de pescaria. E, para concluir com chave de ouro, informo aos que pululam no mercado comercial da urbe tupiniquim, que o malandro citado tem pós-graduação nas grandes metrópoles do país, onde se formou na FAMATROS, Faculdade de Malandragem Tropical e Similares. O cara também sabe aplicar a chave do “Alô Agapito”. Ou seja, o cliente otário vê, além de ouvi-lo falando ao celular com o possível dono de um imóvel, tudo de mentira. E o comprador, conforme o caso, cai direitinho na sugesta! tran chan! O pato dança na hora e ainda vai embora feliz da vida por ter feito um “negoção”! Esta crônica tem por objetivo prevenir a galera contra os contra-agás que, porventura, tentem aplicar nos meus dignos leitores! Olho vivo! Cavalo não desce escada. Mas, sobe...


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Por Raphael Reys - 28/1/2009 10:18:46
O VELÓRIO DE PATÃO

Nem bem começamos o frio mês de julho último, e a cidade consternada chorava a morte do artista plástico e músico Hélio Guedes, o Patão. Há meses que se encontrava em convalescença, de insidiosa enfermidade entre seu lar e a Santa Casa. A residência de sua família era sede dos Estúdios GG, além do seu pai, Godofredo Guedes, ali trabalhavam, ele Patão e Zeca seu irmão. A casa e o estúdio eram visita obrigatória a todos os visitantes que afluíam à nossa cidade em busca de um bom quadro pintado sobre tela. Os amigos e conhecidos não pouparam esforços, visitando-o continuamente, levando-lhe solidariedade, apoio moral, psicológico e religioso ao artista, também oriundo de uma família cristã de músicos, luthiers, pintores, cantores e compositores. Lá se reuniam artistas em geral, marchands e aficionados de aeromodelismo. Com a notícia do falecimento de Patão, os companheiros e conhecidos do artista e da família dirigiram-se ao seu velório, conforme costume geral da terra de Figueira acontecido na área de velórios da Santa Casa. Localizada na rua Irmã Beata, onde, também, se velava uma senhora da sociedade, falecida no mesmo dia. Como os que lá se encontravam eram, na sua maioria os mesmos que por força do conhecimento participariam (o de Patão e da senhora da sociedade) foram chegando, com a característica entrada na sala do velório lançando a olhadinha medrosa e, em seguida, agasalhando-se pelos bancos dos corredores, no jardim do pátio e no caramanchão. À bem da verdade, a família Guedes havia transferido o velório de Patão para o salão nobre do Centro Cultural Hermes de Paula, na Praça da Matriz, local onde o artista houvera feito várias exposições de suas telas. Marise Nunes e o seu marido, o cantor Heitor Nunes estava presentes entre os que participavam do duplo velório. Após a indefectível entrada no salão do velório, tomaram acomodações no caramanchão, onde se encontravam muitos artistas e músicos conhecidos. Heitor iniciou a conversação com os presentes dizendo coloquialmente que o corpo de Patão estava com a aparência muito alterada (ao seu enganoso ver). Outros presentes concordaram e alguns chegaram a atribuir a (a suposta) expressiva alteração, ao tempo de convalescença do de cujus pouco antes do falecimento. Marise abriu comentário adicional em que dava conta do batom muito vermelho passado na boca do falecido (confundiram a senhora velada com Patão). Logo se formou um grupo que defendia a validade do artista estar usando batom vermelho-carmesim. Um artista presente comentou ser até normal, pois se tratava do enterro de um artista excêntrico e que deveria ter feito tal pedido em vida. Logo chegaram mais conhecidos vindos da sala do velório (trocado) e falavam textualmente: Virgem Santa! Como é que Patão ficou feio depois de morto. Outro que participava da rodinha falou: feio e com batom vermelho na boca! Estupefato, ante aquela possibilidade vir a lhe ocorrer Heitor fez a sua esposa Marise Nunes jurar que não passaria batom nele quando chegasse a sua hora de ir para o andar de cima. No debate, foi condenado por alguns o uso do batom, do ruge, pós de arroz e máscara facial. Segundo esses observadores essa prática não era apropriada para defuntos masculinos. O debate tomou corpo ficando o grupo dividido em duas facções. Logo a roda foi aumentando e outros mais contavam sobre as excentricidades de Patão quando vivo, das suas posições reacionárias, como um sempre contestador de sistemas, de governos. Um observador que estava no velório certo (da senhora da sociedade) descobriu o mico que estava sendo cometido e informou à galera que o velório de Patão estava transcorrendo no Centro Cultural. Ai caiu à ficha e a turma, acabrunhada, foi para casa e muitos não marcaram presença, como deviam, ao velório certo!


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Por Raphael Reys - 24/1/2009 11:15:53
O CACHORRO DO CORNO E A TAMPINHA DE GARRAFA
O homem moderno na sua urbanidade há muito trocou o prazer de rolar no cetim dos lençóis da sua cama com a matriz, pela espuma da cerveja no bigode. Não se sabe se mudou de fonte ou de espuma!
A mídia, com o seu consumismo provocado, escraviza o quengo dos coitados levando-os a trocar o prazer do sexo pela mesa do bar. Bebe uma loura gelada e encanta-se com as morenas peladas das tampinhas...
Busca na Internet o amor virtual, corre atrás de “sites” pornográficos e de troca de mensagens com louras gostosas em alas de bate papo. Logo se encontra com verdadeiros canhões do departamento de Apetrechos Pesados, enquanto a matriz suspira pelos atores das novelas.
Termina a sua vida sexual como um otário conjugal. Daí, não há psicanalista ou terapeuta que dê jeito no vício da cerveja. Otário é otário e se basta! Como a maioria faz exatamente as mesmas coisas, ele permanece no mesmo raciocínio, ou seja, de que a maioria é que está certa!
Não é de hoje nem de ontem que a sua matriz não sabe o que é um apogeu genésico múltiplo! Há anos ela não grita mais o famoso: “me mata meu bem!”
Foi-se o tempo em que o macho era romântico e sedutor, bom de cama, levando a sua parceira ao orgasmo amplo, à plena satisfação sexual. Agora, é só bronca pesada, ressaca e gosto de cabo de guarda chuva na boca! Só falta, por conveniência, valer-se dos argumentos de nossos avós, que apregoavam que somente às prostitutas é permitido o gozo!
Quanto mais se mexe para mudar ou ser ajudado, mais ele se chafurda no álcool, na Internet e na sexualidade das tampinhas de garrafa. Sai do serviço com o bando de amigos correndo para a mesa de bar e da mesa para o computador.
Para continuar bebendo a loura gelada e vendo as mulheres peladas das tampinhas, assina notinhas que não pagará, mente que o pagamento está atrasado, emite cheques sem fundos, fala que vai ao banheiro e grama o beco! Deixa o garçom na mão e a sua mulher na saudade.
O mal atinge a quase todos nesse mundo grande e bobo, do Oiapoque ao Chuí!
Em 1990, conheci no interior do Piauí um dono de boteco que perdeu a sua mulher para um caminhoneiro. Passou a curtir os seu chifre tomando uma cachaça de nome Mangueira. Como todo bom corno, fazia a si mesmo as cinco perguntas fatais:
“Onde será que ela está? Com quem? Fazendo o que? Por quanto tempo?” E a pior de todas as perguntas: “Será que ela vai voltar?”.
Essa última, levava-o a colocar no toca discos um vinil com a música “Lady Anne”. Com o tóba cheio de manguaça, o infeliz caia no choro! Por empatia, o seu cachorro de estimação que ficava ao seu lado dentro do bar, começava a uivar.
Cortava o coração de quem freqüentava a espelunca! O cão uivava como lobo e logo a mídia deu em cima e transformou a dupla em notícia de sucesso.
Alguns ricos, para se divertirem, o levaram para a capital e lhe arranjaram casa em um conjunto popular, na moleza.

O local tornou-se um ponto folclórico, oráculo dos portadores de enfeite na testa...


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Por Raphael Reys - 20/1/2009 08:33:34
UMA HOMENAGEM PARA SINVAL AMORIM

Todo povo tem os seus anjos e demônios. A saga de uma urbe é construída no ombro de seus criadores que, com coragem, iniciativa e desprendimento ensejam o seu progresso fazendo funcionar o circo da vida.
A história de Montes Claros, no tocante ao seu desenvolvimento comercial, escolas, comércio, rede hospitalar, urbanização muito deve à presença sempre constante dos forasteiros, que aqui aportam visando construir as suas vidas e das suas famílias.
Ao longo dos anos 30 até os anos 60 do último século, estabeleceu-se um enorme fluxo de migrantes em busca de trabalho, estudo para seus filhos e netos, tratamento médico para suas famílias, compra de produtos industrializados e diversão noturna, este o motor principal do nosso desenvolvimento.
Referido boom durou até o início dos anos 80. Havia o Bar Bandeira II, as casas de jogo e as boates de Edna, Anália, Leobina e Walmira, garantindo os prazeres da carne. Uma urbe da luxúria. O grande empresário incentivador e inovador desse mercado foi, sem dúvida, o nosso saudoso conterrâneo Sinval Amorim.
No princípio, nos anos 40, com o seu cabaré na rua Presidente Vargas, no centro, que funcionava onde hoje se encontra o prédio da família Jabbur. Diz o cronista Rubem Braga, que por aqui andou e prevaricou que, o cabaré de Sinval fervilhava como um “night club da Broadway”. Encorajado pelo sucesso, daí Sinval partiu para empreendimento maior, administrando e promovendo o Cassino Minas Gerais com seus shows.
Naquela época, para aqui vieram apostadores, aficionados do jogo de cartas e dos encantos da noite de todo o Brasil, patrocinados pelas vedetes do teatro rebolado oriundas dos grandes cassinos das metrópoles, dançarinas, algumas procedentes da Espanha e estrelas diversos matizes. Com a presença da Segunda Grande Guerra no cenário mundial, o Pentágono investiu na construção de uma estrada de ferro que ligasse a garganta estreita e estratégica do Norte de Minas à Bahia.
Temiam que as tropas do eixo (Alemanha, Itália e Japão), conquistada a Europa, viessem a atacar as Américas, tendo que, obrigatoriamente, passar por essa garganta. Assim, chegaram a Montes Claros quinze mil operários e técnicos para a execução da obra e, na sua esteira, atraídas pelo grande movimento e muito dinheiro rolando, a presença de três mil prostitutas do país e do exterior, cadastradas pela delegacia de polícia local, além das dezenas de outras “avulsas”. Nossa cidade, que contava com vinte mil habitantes, devido a esse inchaço teve sua população praticamente dobrada.
Em conseqüência disso, houve um extraordinário incremento da jogatina, da rede hoteleira, bares e restaurantes e lupanares. Sinval Amorim, atento aos novos tempos, adquiriu e passou a explorar uma pedreira visando fornecer matéria prima para o inusitado boom imobiliário, surgido. Logo após, construiu o edifício Pedro Montes Claros, que batizou com o nome de seu pai, hoje um remanescente da “art decó”, para abrigar no seu andar térreo a primeira agência do Banco do Brasil.
Com a presença da instituição financeira, então considerada o maior banco rural do mundo, aconteceu à oferta de financiamento, mola mestra do enorme desenvolvimento da nossa lavoura e da criação de gado de corte. Sinval é, portanto, um autêntico Mídas, pois em tudo que pôs a mão virou ouro, trazendo progresso para nossa querida urbe.
Portanto, como montes-clarenses, todos nós devemos a esse saudoso empresário-inovador uma justa homenagem à sua coragem e visão do futuro.
O mérito desta crônica pertence ao notável agrimensor Paulo Moreno, que teve a feliz idéia desta lembrança, incentivando-nos a escrevê-la.


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Por Raphael Reys - 15/1/2009 09:38:47
PODE FALAR ALTO!
Agosto, 1970. Vestindo terno xadrezinho, modelo inglês, colete, gravata borboleta, sapatos de verniz alemão, lencinho de organdi no bolso superior do paletó, abotoaduras de ouro, topete de artista francês e cheirando a fragrância de nuit de Noel. Este cartão de visitas dizia ser diretor presidente de uma fábrica de peças de reposição para fornos industrial em São Paulo. Gestos delicados, boquinha de fresco, movimentos faciais e labiais de finesse. Perguntou se havia muito engenheiro estrangeiro com sotaque (ele adorava ouvir) na empresa e queria ser recebido pelo gerente industrial João Bosco, já que o diretor presidente morava no Rio de Janeiro. Após a minha informação, João Bosco falou: estou muito ocupado e não vou receber esse cavalo de charrete. Manda-o cacarejar em outro terreiro. Encaminhei-o ao engenheiro chefe de manutenção e ele não aceitou alegando falta de status do mesmo para recebê-lo. O enfeitado saiu pisando em brasas por não ter sido recebido pelo nosso gerente industrial. Empurrei a bomba para a Cowan, lhe sugeri falar com o Zé Amorim, diretor da empresa citada. Lá usava forno industrial! Como o Zé era prático e explícito, além de adotar a funcionalidade nos seus afazeres de diretor da indústria cerâmica, atendia na entrada do prédio. Sem portas. Tudo aberto. Controlava tudo ao vivo e em cores. O dândi chegou, sentou e fez uma cara de muxoxo, com biquinho de boca, pois, imaginava um gabinete com poltronas de veludo e ar condicionado. Zé por trás dos óculos aro de tartaruga já sacara o enfeitado e a princípio não foi com a fachada daquele presidente de indústria de meia tigela e afrescalhado. Iniciado o diálogo o homem exagerou na gesticulação cuidadosa. Movimentos refinados, boquinha de finesse, falava baixinho e o semblante refletia meia gravidade. Com o natural calor dos fornos da indústria, aliado à temperatura escaldante de agosto e a frescura daquele almofadinha lhe enchendo o saco tupiniquim, a gola da camisa Volta ao Mundo do Zé ensopou. Não deu outra! Insuflado pela pressão tripla o Zé vociferou entre dentes: essa empresa aqui é nossa e não devemos nada a ninguém. Portanto, fique a vontade e pode falar alto seu F.D.P! Aqui não tem fresco e nem dama de alta sociedade! Portanto, pode abrir a sua caixa de ferramenta, e falar logo um “bom dia fidúma égua!”! O almofadinha, que estava no seu dia de cão, se sentindo escorraçado, escafedeu-se e gramou o beco de volta à terra da garoa.


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Por Raphael Reys - 9/1/2009 14:10:20
AJUDA-ME MEU SANTO ANTÔNIO!

Dio Colares, de viagem marcada para a Venezuela e, temeroso em deixar o seu escritório em BH entregue a qualquer um, convidou o nosso Zé Amorim para tomar conta dos seus negócios nas Alterosas!
Salientou ser por alguns poucos dias, uns três somente. Insistiu tanto que a enfezada patroa liberou o Zé debaixo de mil recomendações. Os negócios do Dio no estrangeiro demoraram por treze dias e, somados o ir e vir, perfez um total de dezesseis.
Na volta para os Montes Claros, Zé já vinha com o quengo quente! A toda hora lembrava temeroso a bronca que iria levar da patroa. Dio o consolava e informava que iria intervir a seu favor!
Ao longe e ao avistar a cara metade à porta olhando em sua direção, tomando por base o dito de Terêncio sobre o ser humano, lembrou que "Nada que é humano é estranho". Zé falou para o Dio: "Olha só a bolha de água na ponta do nariz dela, Dio! Vou já cair no tamanco, homem!"
Dio Colares chegou e foi logo justificando a demora dos dezesseis dias, dado à sua ida à Venezuela. Justificou e ato seguinte gramou o beco de volta para casa, deixando o desafortunado Zé por conta da sua própria e precária sorte. Mal virou as costas e o pau comeu nas costas do Zé Amorim.
Com a cara metade enfezadíssima para o seu lado, Zé correu à noite apara o quintal e, como era religioso que só ele, ajoelhou próximo as bananeiras, rogando: "Valha-me meu Santo Antonio! Ajuda-me, rapaz!"
Doutra feita quando foi construir a sua casa de moradia na rua Altino de Freitas, no centro, o Zé escolheu como mestre de obras o Robertão Pimenta dos Morrinhos. Justo e certo o único mestre de obras da cidade que conseguira roubar o nosso bispo emérito.
Deu o cano no coitado do Dom José!
Tomando por base a "ficha" do mestre de obras contratado, Zé o chamou no "curé" e foi logo sentenciando: "Não vem que não tem leão! Aqui não cabe chaveta! É tudo no tran chan..."
Ao receber as chaves do imóvel já pronto Zé correu tudo, observou, indagou e ao chegar ao WC falou: "É aqui que farei o teste final, caboclo!" Em seguida, mandou chamar o Manoel Baixinho, um servente de pedreiro que tinha fama de ter o bolo fecal mais grosso do pedaço, ao modelo Zacalex..
Após a ingestão de uma suculenta feijoada e de ter tomado dois copos de vitamina de mamão baiano, algum tempo depois o Manoel dirigiu-se para o vaso sanitário do Zé Amorim para submeter o mesmo ao teste de qualidade.
Caprichou na "largada" e ao acionar o cordão da descarga escoou tudo, numa boa, sem entupimentos...
Só aí que o Zé acabou de pagar ao Roberto o restante do combinado. Em cima da fatura!


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Por Raphael Reys - 4/1/2009 16:54:09
BAIANEIRO

Diz um popular chamado João Paulo que: o mineiro se tem barro, vai atrás; se tem poeira, vai à frente e, se tem porteira, vai ao meio. No entender do cronista Tião Martins, o mineiro termina com a realidade posta no seu devido lugar e faz coisas que até Deus duvida! A vida, entretanto, nos prega peças e o mineiro dos Montes Claros, assim como o argentino, é diferente.
O argentino embora tenha nascido na América do Sul é um europeu defasado e caótico, o montes-clarense um baiano disfarçado, comedor de pequis e bebedor de uma boa cachaça com rusâro. Não é mineiro, quem trabalha fazendo esparro e vive ostentando riqueza, mesmo sem a ter, ao contrário do baiano e do conterrâneo de outras regiões que esconde o jogo.
O baiano tem conversa mole, olhar de cascavel e quase sempre está aplicando. Já o montes-clarense diz que fala a meia verdade, quase sempre inventa para aparecer e é chegado a uma boa crioula e em atabaque de terreiro de macumba (de noite).
O montes-clarense vive dizendo que, como bom mineiro, dá um boi para não entrar e dá uma boiada para não sair da briga.
Pura bazofia sofística! Ele resolve as suas pendengas é no terreiro e com despacho pesado. Assim como o baiano, o povo de Figueira gosta de farinha Morro Alto, carne de sol, de dia aparece como católico praticante e amigo de padres e similares. De noite, cai nas quebradas e no vodu. É meio pedra, meio