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           Petrônio Braz    petroniobraz@jhotmail.com

61120
Por Petrônio Braz - 7/9/2010 07:41:07
Poetisa autêntica

A poesia como a flor das letras, a arte suprema, tem em Evany Cavalcante Brito Calábria uma legítima representante, incluída por Wanderlino Arruda entre as quatro maiores artífices femininas desta Arte no Norte de Minas.
Evany tem a capacidade de dar à linguagem uma conotação estética. Sua poesia é feita com arte, assimilando a imaterialidade dos sentidos. Ela, através de sua obra, como disse Jean-Paul Sartre, “sente as palavras como coisa e tem sua obra literária como um fim e arma de combate” às incertezas da vida. Ela, servindo-me de uma frase de Carlos Drummond de Andrade, “tem apenas duas mãos, mas tem o sentimento do mundo”. Em seu livro “Vestígios da última hora” ela nos ensina, como afirmou Karla Celene Campos, a “fazer do amor o sentido da vida”. Em sua poesia “todos os sentidos” estão presentes. A poesia de Evany pode muito bem ser adaptada, como se fazia na antiga Grécia, para ser cantada com acompanhamento de flauta e lira. Nela o amor se faz presente: o amor carne, o amor espírito. Em um momento é lírica, em outro dramática.
Numa “noite nua” de “lua nova”, ou até mesmo ao “brilho do sol” de cada dia, é possível encontrar-se, na “fantasia” da incerteza, um ”coração braseiro” capaz de afastar a “melancolia” da vida, trazendo-nos com “ternura” uma “brisa de amor”.
Tenho em Evany uma amiga, entre tantos amigos que enriqueceram a minha existência, encontrados pelos caminhos sinuosos da arte literária. Sua presença é fonte de estímulos. Alguém, algum dia, haverá de definir-lhe a figura humana.
Evany, como observa Yvonne Silveira, “expõe as emoções, com a simplicidade de uma confissão, revelando frustrações, desejos, esperanças, em versos espontâneos”.
“Talvez / uma vez na vida / eu tenha o direito / de embarcar no mesmo / sonho em que você está”.
Quem não vive de sonhos?
O sonho nos faz criar imagens, pensamentos ou fantasias, mas só o poeta é capaz de metamorfosear as imagens, os pensamentos e as fantasias em palavras sublimadas de sentimentos.
Esclarece Shelley que “a poesia é a recordação dos momentos melhores e mais felizes, vividos pelas mentes privilegiadas e ditosas”, mas, como nos ensina Fernando Pessoa, “O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente.”
Estas minhas observações são apenas um apoio solidário às palavras de Yvonne Silveira “esculpidas” nas orelhas do livro “Vestígios da última hora de amor... de vários outros amores” e de Karla Celene Campos nas palavras iniciais ditas como se fosse Prefácio.
Preso ao saudosismo dos tempos idos do ginásio, no esplendor da poesia parnasiana, que resistia ainda aos impulsos do modernismo, ao trabalho literário dos vanguardistas, sempre busco na poesia, como expressão artística do belo, a presença do pensamento que nos transmite emoções, que se deve ligar ao ritmo e à sonoridade da linguagem. Deve ter melodia e ser sensibilidade. Poesia sem musicalidade é prosa em verso. A poesia de Evany tem musicalidade, que se alinha à fortaleza de seus sentimentos.
A poesia é universal. Ela dirige-se ao sentimento e não ao saber. A poesia de Evany nos conduz ao conhecimento intuitivo de momentos de vida, sem atenção à razão. É imaginativa, é arte dirigida ao sentimento e tem por matéria, na lição multissecular de Vitor Hugo, “tudo e que há de íntimo em tudo”.
Karla Celene nos leva a meditar sobre a poesia de Evany, sobre seus sentimentos de amor: “A mulher que ama fica bem à vontade diante do amor que quer, como quer. É assim que, de um jeito bem natural e tranquilo, a voz feminina expõe, no poema “Destino”, toda a sua sensualidade, toda a sua disponibilidade para o jogo do amor”.
“Gosto de ver / Você me olhar com desejo / Meio sem jeito, mas encantado / Completamente disponível. / Gosto de ver / Você decidido a tirar / De mim mesma / a mulher que você quer”.
Mas Evany também fala, como lembra a mesma Karla Celene, “do amor aos pássaros e às flores, aos oprimidos e desvalidos, amor ao sol, à lua, às estrelas, aos amigos, ao momento presente, ao passado, este irrecuperável”.
Evany é uma poetisa autêntica.


60736
Por Petrônio Braz - 21/8/2010 21:36:36
Cabo que foi soldado não presta

Já concluída a necessária revisão para a 2ª edição de meu livro “Serrano de Pilão Arcado – A saga de Antônio Dó” recebo do sargento Raimundo de Oliveira, residente em Curvelo, um coleção de fotos de todos os militares que tiveram, de uma forma ou de outra, atuação nas perseguições a Antônio Dó.
Entre as fotos, uma do alferes João Baptista de Almeida oficial que faleceu no primeiro embate contra Antônio Dó e outra do alferes Octávio Campos do Amaral, o último oficial que comandou uma expedição contra Antônio Dó, que recebeu ordens do coronel Ornelas para desocupar o Estado de Goiás.
Também me foram mandadas, entre outras, fotos o tenente Raymundo de Mello Franco, do soldado Hermenegildo Francisco de Magalhães, do major Américo Ferreira Lima (delegado de polícia em São Francisco), do coronel Olimpio José Pimenta, do anspeçada Antônio Domingues Martins. Para minha surpresa, uma foto do Dr. Duque (Euclides Gonçalves de Mendonça, ilustre advogado são-franciscano que saudou o presidente Epitácio Pessoa, em 7 de outubro de 1922, quando da inauguração da ponte Marechal Hermes, em Pirapora) e outra do próprio Antônio Dó.
O sargento Raimundo de Oliveira, como informa o historiador Geraldo Tito Silveira, “fora soldado raso durante algum tempo, destacado em Curvelo, onde se casou e ganhou fama de valente, tanto que o apelidaram de “Felão”, o Alferes mais terrível da antiga Força Pública, que deixou seu nome ligado ao do bandoleiro Antônio Dó e de seu reduto em Várzea Bonita”.
Esclarece Geraldo Tito Silveira que o sargento Raimundo gostou de ser Cabo e valorizava essa patente militar, e descreve:
“O sgt. Raimundo estava sentado num bar, lendo a Histórica da Polícia Militar, exatamente sobre a Revolução de 5 de julho em São Paulo, no capítulo em que o autor mineiro encontrou no Hipódromo um carneiro ferido, levando-o para Belo Horizonte, depois de curá-lo, tornou-se o Mascote do 5º Batalhão. Ouviu da mesa vizinha o seguinte:
- Cabo que foi soldado não presta...
Seu orgulho de ter sido Cabo aflorou nele àquela hora, fazendo com que se levantasse e pegando o indivíduo pela gola da camisa e lhe dando uns muçungões, perguntou-lhe aos gritos:
- Por que Cabo que foi soldado não presta?
O sujeito espantado com a agressão, seguro pela gola da camisa, sem atinar com aquela atitude do sgt. Raimundo, respondeu-lhe:
- Porque não deixa passar a corrente para a bateria.
Gritando, perguntou:
- Que bateria?
- A bateria do carro – explicou o indivíduo. – Quando o cabo for soldado, a solda não deixa a corrente passar.
Os dois eram mecânicos e falavam no cabo da bateria que, recebendo solda, não dava passagem para a corrente elétrica.”
Meus agradecimentos ao sargento Raimundo pela valiosa contribuição fotográfica.


60461
Por Petrônio Braz - 6/8/2010 07:03:47
Lenda do Arco Íris

Quando se ouvi cantar a “Lenda do Arco Íris”, gravação-criação da dupla Pedro Boi e Ildeu Braúna, do Grupo Agreste, não se pode admitir que o autor da letra não seja um barranqueiro.
Barranqueiro não é aquele que mora junto à margem de um rio; é o que nasceu nas margens do rio São Francisco.
A letra da música fala ao coração de todo barranqueiro. Não existe nenhuma pessoa, que tenha nascido nas margens do grande rio, que não tenha o sincero desejo de ser enterrado, quando morrer, em uma cova rasa no meio de suas matas, em uma curva do grandioso rio.
O sertanejo Ildeu Braúna não é um barranqueiro, mas nenhum barranqueiro foi capaz de sentir a força na magia que do rio transcendente, magia que a metafísica diz ser um princípio divino que, em sua perfeição e poder absolutos, está situado além da realidade sensível.
“Veja morena que belo arco íris / bebendo água no meio do rio / chuva estiada, festival de cores / beleza aqui nunca se viu”
Fernando Pessoa afirmou: “O Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia...” Como barranqueiro posso afirmar que o Tejo não é mais belo que o São Francisco, porque o Tejo não passa pela minha aldeia, a bela cidade de São Francisco.
No reino do imaginário, existem muitas lendas, pelo mundo inteiro, que se referem ao arco-íris. Uma delas inspirou o filme musical “O feiticeiro de Oz”, com a lindíssima canção “Over the Rainbow”. Existe uma linda lenda anônima irlandesa sobre o “arco-íres”, mas nenhuma fala ao meu coração, pois só existe uma lenda do “arco-íris” é aquela que afirma: “Ôi canoeiro não saia pra pesca / não enfrente o rio / conta a lenda que virou mulher / todo o pescador que ele engoliu”.
O Antigo Testamento diz que o “arco-íris” é um símbolo da aliança entre Deus e os homens, uma promessa conciliadora ocorrida após o dilúvio universal, mas o “arco-íris”, embora seja universal, tem como morada o rio São Francisco. Quem sou eu para duvidar, pois foi o Caboclo d`água quem descobriu.
Seria o “arco-íres” uma ponte entre a Terra e o Céu? O folclorista Luis da Câmara Cascudo afirmou que “o sertanejo não gosta do arco-íris porque ele furta água”, mas o sertanejo, em verdade, gosta do “arco-íres” porque ela bebe água do rio e a transforma em chuva.
O “arco-íris” é, em verdade, um fenômeno ótico que separa a luz solar em suas cores naturais: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta, e por esta razão é lindo.
O “arco-íres” é belo durante os dias de verão, mas fica mais belo quando se ouvi, mas noites do sertão, a música da dupla Pedro Boi e Ildeu Braúna.


60343
Por Petrônio Braz - 25/7/2010 15:42:50
Há de gemer por ele o gaturamo

Faleceu sozinho, em um quarto qualquer, de uma casa qualquer, de uma rua qualquer, em Belo Horizonte, o causídico Charles Emerson Bispo. Faleceu sem a assistência de um amigo, de um parente, de uma mulher. Separado da esposa e dos filhos, vivia só. Nos dias finais de sua vida, desprovido de afetos pessoais, amargurado, não se maldizia do destino, embora vivesse recolhido dentro de uma roldana de magoas e dissabores.
Em seu fadário, a melancolia entremeada de amarguras como feridas abertas eram suas companheiras. A vida não lhe foi amena. No silêncio das noites, no idear da imaginação dos tempos vividos, nos últimos anos de sua vida esteve acorrentado como Prometeu à montanha de suas desilusões.
Faleceu sozinho, absolutamente só. Apenas um amigo distante, residente em Montes Claros, ao ter conhecimento do doloroso desenlace, chorou por ele: Antônio Gonçalves de Oliveira, nosso amigo Lieta. Chorou com emoção, com verdadeiro sentimento de perda. Em um cemitério qualquer, em Belo Horizonte, dorme ele o sono da eternidade. Piedosas e anônimas beatas haverão de orar por ele, ao pé da cruz abandonada que identifica a presença de seu sepultado corpo. Ele não estará só.
Esta realidade da cruz abandonada fez-me lembrar a poesia de Castro Alves: “Caminheiro que passa pela estrada, / Seguindo pelo rumo do sertão, / Quando vires a cruz abandonada, / Deixa-a em paz dormir na solidão. / Que vale o ramo do alecrim cheiroso / Que lhe atiras nos braços ao passar? / Vais espantar o bando buliçoso / Das borboletas, que lá vão pousar. / (...) Foi-lhe a vida o velar de insônia atroz. / Deixa-o dormir no leito de verdura, / Que o Senhor dentre as selvas lhe compôs. / Não precisa de ti. O gaturamo / Geme, por ele, à tarde, no sertão. / E a juriti, do taquaral no ramo. / Povoa, soluçando a solidão. / Dentre os braços da cruz, a parasita, / Num abraço de flores, se prendeu. / Chora orvalhos a grama, que palpita; / Lhe acende o vaga-lume o facho seu. / Quando, à noite, o silêncio habita as matas, / A sepultura fala a sós com Deus. / Prende-se a voz na boca das cascatas, / E as asas de ouro aos astros lá nos céus. (...) Não lhe toques no leito de noivado, / O sono agora mesmo começou!”
O profissional do Direito, Charles Emerson Bispo, teve os seus dias de glória. Brilhou por alguns anos na tribuna da defesa do Tribunal do Júri, em algumas Comarcas do Norte de Minas e em Belo Horizonte. Tendo Décio Fulgêncio na Tribuna de Acusação, ele atuou na Tribuna da Defesa, em júri no Fórum Lafayete, em Belo Horizonte. Orador brilhante, culto e destemido.
Enveredando-se pelo Direito Eleitoral, foi advogado do PDS de Minas Gerais, em Belo Horizonte, nos anos 80, o maior Partido Político do Ocidente naquela época. Advogado com poderes para requisitar avião para conduzi-lo a qualquer cidade de Minas Gerais, onde os interesses do Partido estivessem em jogo. A seu convite, estive com ele em Capelinha, naqueles tempos idos, para suspender a posse de um Prefeito, por decisão do presidente do Tribunal de Justiça do Estado.
Com o testemunho do professor Ivo das Chagas, posso atestar ter sido ele, no seu devido tempo, um dos maiores advogados mineiros.
O bacharel de invejável cultura, leitor assíduo dos clássicos, diplomado pela UFMG, deixou-se suplantar pelo homem. E o homem comum que nele existia foi capaz de destruir o advogado. Coisas da vida. Os desacertos, os despropósitos de seu final de vida não são tão fortes que possam apagar o seu efetivo valor cultural, que prevalece vivo em nossas mentes. Nesta hora de lembranças, prefiro esquecer-me do homem que jogou pelo ralo sua vida, para recordar-me do profissional, enquanto foi um verdadeiro advogado.
Lembro-me do jovem graduado pela faculdade de Direito da UFMG, que chegou a São Francisco com os arroubos da juventude, e fez carreira. Recordo-me do advogado que brilhou em Pirapora, Januária, Manga, Brasília de Minas, São Romão e Belo Horizonte, esquecendo-me do homem que ele foi e que dele nunca se afastou; que o destruiu, depois. No silêncio de sua sepultura ele descansa sem a presença de amigos e parentes, dormindo em seu leito de desventuras, que a vida dentre as selvas do asfalto lhe compôs. Ali, há de gemer por ele o passeriforme gaturamo.



59636
Por Petrônio Braz - 26/6/2010 11:27:51
Impondo o progresso

São Francisco, minha terra natal, nos idos de 1954 era um vila com foro de cidade, sede do município do mesmo nome. Por eleição, com 72,3% dos votos apurados, assumi em janeiro de 1955 o honroso cargo de Prefeito Municipal, com 23 anos de idade.
Era culturalmente aceita a criação de porcos nos quintais, em chiqueiros de lama e, quase que diariamente, eles saíam pelas ruas e, por força das disposições legais, eram recolhidos ao depósito da Prefeitura, mas devolvidos aos donos pelo liberalismo de meu pai, Brasiliano Braz, sem pagar tributos. Meu pai era o chefe político do Município. Egresso da Escola de Agronomia de Viçosa, na época ainda não era advogado, ali tinha aprendido que porcos não se criava na lama. O mau cheiro dos chiqueiros recendia pela vila (cidade) exalando odor forte e penetrante, que incomodava. Inicialmente assinei prazo para que os chiqueiros fossem cimentados. Esperei um ano. Mais de noventa por cento dos interessados atenderam ao meu edito. Ficaram alguns recalcitrante, entre eles o meu correligionário e amigo Chico Preto, morador na Rua Direita.
Preocupado com problemas outros da Administração, deixei que o tempo passasse. E passou. Através de convênio com o DNOCS, construi o Serviço Municipal de Abastecimejnto de Água da cidade, com Estação de Tratamento e rede de distribuição, o mesmo atualmente existente, doado pelo meu sucessor à COPASA; instalei no Município a energia da Usina Hidroelétrica de Pandeiros, com Estação Rebaixadora e rede de distribuição urbana, inaugurada no último dia de seu mandato; construí e instalei, com recursos da Comissão do Vale do São Francisco, o Hospital Regional (hoje Hospital Municipal); instalei o primeiro barco metálico a motor para travessia do rio São Francisco, que substituiu os antigos ajoujos; construí a primeira rodovia ligando a sede do Município ao distrito de Urucuia (hoje município de Urucuia); urbanizei a Rua Silva Jardim; construi a primeira rodovia ligando a sede do Município à vila de Logradouro, no distrito de Conceição da Vargem; mantive, durante o meu governo, uma linha aérea ligando São Francisco a Belo Horizonte, com voos regulares duas vezes por semana; criei, em 1955, o Ginásio Municipal (hoje Escola Estadual dona Alice Mendonça), que substituiu o falido Ginásio São Francisco (particular); instalei o primeiro serviço de coleta de lixo domiciliar (carroças); construi inúmeras pontes, entre elas a primeira sobre o rio Acari (madeira), sobre os córregos do Angical, das Lages, Riacho Fundo, Jacaúna, Mocambo; amplei o perímetro urbano da cidade; construi a caixa d’água do Alto Bandeirante; em meu governo foram instaladas no Município as Escolas “Caio Martins”; iniciei a construção da Praça de Esportes, concluída na administração Pedro Mameluque; construi prédios escolares na vila de Logradouro e nos povoados de Morrinhos; Angical, Riacho Fundo (hoje município de Pintópolis) e Tiririca (hoje município de Icarai de Minas); iniciei a construção do prédio escolar da vila de Serra das Araras; introduzi no Município os cinco primeiros reprodutores da raça Nelore (1956), doados pelo Ministério da Agricultura; incentivei e subvencionei o esporte e a cultura (escola de música); em meu governo foi construída, com recursos da Comissão do Vale, a rodovia São Francisco-Brasilia de Minas-Coração de Jesus (emenda do deputado Esteves Rodrigues) asfaltada quarenta anos depois. Não mais como Prefeito, criei e instalei a Companhia Telefônica de São Frrancisco, doada depois à TELEMIG; criei e instalei o curso normal (primeiro curso de 2º grau do Município), do qual foi diretor, diplomando a primeira turma (hoje Escola Estadual Brasiliano Braz).
No curso desse período, enquanto buscava transformar a vila numa cidade, os fiscais da Prefeitura continuavam sua labuta diária contra os recalcitantes criadores de porcos. Os porcos encontratos nas vias públicas eram presos e soltos em razão do liberalismo de meu pai. Aqui uma luta de duas gerações: eu manda prender, meu pai mandava soltar, por legítimos interesses políticos. Sem outra alternativa, em 1957, baixei um Decreto (estúpido e ilegal decreto) determinando que os porcos encontrados nas vias públicas fossem sacrificados (mortos). No dia seguinte, pela manhã (não deviam ser oito horas) chegando nas proximidades da Prefeitura lá estava o Chico Preto pastoreando três porcos na porta da Prefeitura, em verdadeiro acinte ao Decreto. Naqueles tempos, dizia o Capitão Enéas, quem não andasse armado não era homem. Eu não poderia mandar matar os porcos. Nenhum servidor seria obrigado a cumprir a ordem. Tirei meu revolver da cinta e atirei nos três, ali mesmo na porta da Prefeitura. Durante o restante de meu governo nem galinha era vista nas ruas. Para colonizar o Brasil os portugueses mataram índios. Para civilizar São Francisco eu matei porcos, e não me arrependo. Recebi uma vila e entreguei uma cidade. Elegi meu sucessor como candidato único. Fui o vereador mais votado do Município nas duas eleições seguintes que disputei.



58597
Por Petrônio Braz - 21/5/2010 09:06:24
Errar é humano

Não tinha prestado atenção na letra do meu soneto “Barqueiro do São Francisco”, musicado por Maia y Boavista, como está transcrito no CD. Itamaury Teles chamou-me a atenção. Verifiquei. Em lugar de “As águas morenas eles singraram”, está gravado “As águas morenas eles sugaram”. Uma pena.
Quem lê a crônica de Machado de Assis, publicada na Gazeta de Notícias de 8 de Janeiro de 1893, depara com a seguinte frase: “A imprensa diária dispensa a atenção”, Uma semana depois – as suas crônicas eram semanais – no dia 15 do mesmo mês e ano, ele vem a público, em outro escrito e esclarece: “Se sair errada alguma frase ou palavra, levem o erro à conta da letra apressada, não da redação. Na outra semana, saiu impresso que “a imprensa diária dispensa a atenção” – em vez de – “a imprensa diária dispersa a atenção”. Ideia muito diferente. A revisão é severa; eu é que sou desigual na escrita, mais inclinado ao pior que ao melhor”.
O imortal fundador da Academia Brasileira de Letras teve o cuidado de deixar marcada, para a posteridade, a indispensável correção de seu escrito. Verdade é que as palavras voam e os escritos permanecem.
Não muito preocupado com a posteridade, pela impossibilidade mesmo de chegar a ela, mas sentindo a responsabilidade de posicionar-me diante dos leitores de meus escritos, sou levado a prestar esclarecimentos sobre desacerto ocorrido por ocasião da publicação do artigo: “O Complexo de Édipo”, no título e em algumas partes do texto saiu “Complexo de Épido” em lugar de “Complexo de Édipo”. Erro de revisão, de minha exclusiva responsabilidade.
Não é a primeira vez que venho pedir clemência em razão de erros de revisão. No artigo “Um Provinciano em Londres II”, publicado pelo jornal O Parnaso nº 03, edição de outubro de 1999, saíram algumas incorreções. No número 05 do mesmo jornal prestei esclarecimentos, que volto a publicar.
Naquela edição saiu registrado “(...) numa subida de quarenta e cinco graus, em pouco tempo atingiu a altura do cruzeiro”, quando em verdade deveria ter saído: “(...) em pouco tempo atingiu a altura de cruzeiro”.
Não muito distante nos deparamos com outra incorreção, da mesma natureza: “pela costa brasileira até a altura do Natal, em um céu do brigadeiro”, quando nos originais estava escrito: “pela costa brasileira até a altura de Natal, em um céu de brigadeiro”.
Logo adiante saiu: “(...) com a ilha de Fernando do Noronha como ponto de referência”. Ocorreu uma troca da preposição de pelo da (preposição+artigo), que o leitor, na época, necessariamente deve ter entendido.
O leitor deve também ter notado a ausência de crase em: “A tarde em grupos diversos...”
Registro aqui as necessárias desculpas, tanto no caso do “Complexo de Édipo”, atual, quanto no anterior.
O erro é próprio do ser humano. Além de erros de revisão, na literatura são apontados inúmeros outros, de autores renomados.


58305
Por Petrônio Braz - 13/5/2010 06:05:32
Antônio e Geny

A historiadora Marta Verônica Vasconcelos Leite estará lançando, em espaço cultural do Colégio Padrão, Rua Monte Pascoal nº 284, no Ibituruna, às 20:00 horas, no próximo dia 12 de junho, o seu belo livro “Antônio e Geny – A saga do amor eterno”.
O livro, como procuro esclarecer no Prefácio que a Autora deu-me a honra de escrever, é uma é uma obra escrita para definir rumos e marcar o espaço de uma família no contexto de uma região, mas ela abre-se a uma infinidade de leitores diferentes. Isto porque ela pode ser analisada sobre diversos enfoques: familiar, sociológico, ecológico, literário e histórico. Marta Verônica Vasconcelos Leite busca fixar, para a glorificação atual e futura, a memória da Família Pereira de Vasconcelos.
Cada um fará a sua leitura dentro do contexto preferido, em razão de sua própria formação ou de seus objetivos. Aqui o texto individual se generaliza para integrar-se à história de uma comunidade, numa passagem abrangente do uno para o coletivo. O livro, assim, sai do contexto familiar para o universal, onde o leitor vive uma época, identificando-se com o cenário, que se torna familiar a todos.
Lembra Frank Brentano que “o amor da família é semente de amor à Pátria e de todas as virtudes sociais”.
Os vínculos familiares e a subjetividade que há no íntimo das relações existentes entre parentes, que integram um grupo familiar, têm sido assunto de alta relevância na sociedade contemporânea, discutidos em seminários universitários, nas rodadas de intelectuais, no viver cotidiano de todas as pessoas, que se preocupam com o acelerado enfraquecimento dos laços familiares.
No livro “Família, subjetividade, vínculos”, Lúcia Moreira e Ana M. A. Carvalho discutem e analisam, a título de debate, o importante tema “família”, visando compreender as razões de sua existência, as suas formas de organização, as mudanças que a influenciam, seus conflitos e tensões.
A família constitui-se em um grupo social criado por vínculos de parentesco. Ela proporciona a seus membros, além do resguardo vinculado ao “sangue”, uma projeção social. A família é a unidade básica de organização social da humanidade. Na vida nada é mais importante do que “honestidade, amizade, caridade, lealdade, sinceridade”, como observa Marta Verônica, ou o amor, o momento social familiar.
Marta Verônica inicialmente se dirige aos primos, relembrando a Estrada do Mel. Ao fazê-lo ela esclarece a origem histórica do “Melo”, importante bairro de Montes Claros, como o leitor verá. Com saudosismo ecológico, ela relembra o verde, as flores e os pássaros. Como será bom ao leitor saber que no início do século passado Montes Claros era uma cidade tranquila, que as pessoas circulavam a cavalo pelas ruas centrais, que um dos pontos relevantes da vida urbana era o antigo Mercado Central.
Tradição da família, a fé religiosa foi transmitida de geração a geração, como ela nos conta, fazendo-nos ver a eternidade do ser humano pela transferência da centelha da vida, não sendo necessário questionar de onde viemos ou para onde vamos.
O livro da professora Marta Verônica é uma peça literária, que se complementa com os depoimentos da própria Autora, de Felicidade Vasconcelos Tupinambá e de Edson Vasconcelos Silva.
Os livros de família são hoje muito comuns e contribuem para a preservação dos laços domésticos, mas de certa forma fornecem ou proporcionam elementos das bases fundamentais da própria história. Pretendendo-se estabelecer a conservação de civilizações passadas, não podemos nos separar das famílias que as constituíram. As famílias e seus membros participam de todas as atividades da vida comunitária. Fazem história.
A pesquisadora Marta Verônica Vasconcelos Leite, membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros e da Academia Feminina de Letras de Montes Claros, possui graduação em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e Mestrado em Educação pelo Instituto Superior Pedagógico José Enrique Varona - Havana/Cuba.
Atualmente ela é professora efetiva da Universidade Estadual de Montes Claros e das Faculdades Integradas Pitágoras de Montes Claros. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Ensino-Aprendizagem, atuando principalmente nos seguintes temas: história da arte, exposições, pintura, concursos fotográficos, educação artística e arte contemporânea.


58015
Por Petrônio Braz - 5/5/2010 07:50:48
Maia Y Boavista

Está circulando o CD “Sertão Geraes” de Maia y Boavista, oficialmente lançado ao público na noite de ontem, 4 de maio, no SESC de Montes Claros (Rua Viúva Francisco Ribeiro nº 200), com a presença de inúmeros convidados, em solenidade promovida pela Academia Montesclarense de Letras, Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco e Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros. A solenidade foi presidida pela professora Yvonne Silveira.
“Sertão Geraes” traz o que de mais belo, em termos de música sertaneja, já se produziu nos gerais de Minas, no coração do Sertão.
Maia y Boavista, compositores, músicos e cantores, que já marcaram presença no contexto cultural de Minas e do Brasil, autênticos representantes da música regional Norte Mineira, neste segundo CD, em seis anos de parceria, depois de alguns anos de carreira solo, priorizam a beleza do agreste, da vida simples e alegre do povo sertanejo.
O CD, com músicas de poetas regionais e da própria dupla, foi produzido por Carlos A. P. Maia – Produções e Eventos, tendo como assistente de produção Cristina Evangelista, e traz capa muito bem elaborada por Lauro Nascimento, com foto da contra-capa de Fabiano Lopes.
Integram o conjunto musical, além da dupla Maia y Boavista, os músicos Newton Borborema (guitarra), Eduardinho (acordeom), Batuta (baixo), Davi Seabra (guitarra, gaita e violão) e Nô Violeiro (rabeca). Foi gravado nos estúdios: WA (Montes Claros) e Digi Áudio (Belo Horizonte), tendo como técnicos de som Wanderson, Warleyson e Karel Prokop.
Integram o CD, que já havia anteriormente sido divulgado, as músicas: Barqueiro do São Francisco – lembrança de São Francisco (Petrônio Braz, Carlos Maia e Charles Boavista), Brejo das Almas – lembrança de Francisco Sá (Charles Boavista), Princesa Januária – lembrança de Januária (Carlos Maia e Charles Boavista), Montesclareou – lembrança de Montes Claros (Tino Gomes e Georgino Jr.), Romaria do Senhor do Bonfim – lembrança de Bocaiuva (Zé Vicente e Álvaro Vicente), De Trem pra Montes Claros – lembrança do Trem Baiano (Charles Boavista e Faiçal), Momentos de Saudade – lembrança do vale do Jequitinhonha (Luiz de Paula, Carlos Maia e Boavista), Altares – lembrança de Grão Mogol (Haroldo Lívio, Carlos Maia e Boavista), Passando Anel (Carlos Maia e João Evangelista Rodrigues), Pequi – O esteio do cerrado (Téo Azevedo, Carlos Maia e Boavista), Feira do Mercado (Waldir Pinho Veloso, Carlos Maia e Boavista) e Rasante (Ildeu Braúna e Sérgio Damasceno).
O acadêmico Napoleão Valadares, sertanejo do urucuia, residente em Brasília-DF, ex-presidente da Associação Nacional de Escritores, a quem encaminhei um convite, questionou-me por e-mail: Por que Geraes com “e”? Não tive como explicar. Em Montes Claros temos a “TV Geraes”.


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Por Petrônio Braz - 2/5/2010 04:57:11
Academia Montesclarense de Letras

Em 13 de setembro de 1966, uma plêiade de personalidades ilustres, intelectuais iluminados, que navegavam pelas águas claras e transparentes da literatura, entre eles Alfredo Vianna de Góes, Antônio Augusto Veloso, José Raimundo Neto, Padre Joaquim Cesário dos Santos Macedo, Geraldo Avelar, João Valle Maurício, Hermes de Paula, Maria Pires dos Santos, Orlando Ferreira Lima, Heloisa Neto Castro, Francisco José Pereira, Avay Miranda, fundaram e instalaram em Montes Claros a Academia Montesclarense de Letras, importante sodalício que conta com quarenta membros, a exemplo da Academia francesa.
Os fundadores da Academia Montesclarense de Letras, em um ato de fé, firmaram disposições iniciais vinculadas ao propósito de fixar neste Norte um espaço voltado para a intelectualidade. Por esta razão preocupa-me a aculturada visão do ser humano civilizado de nossos tempos com os bens materiais, em detrimento da busca racional do conhecimento de tudo que se encontra ao seu redor.
Sabe-se que o nome Academia teve origem na escola fundada por Platão, na Grécia clássica, que funcionava nos jardins da residência, que havia pertencido a Academus. Sabe-se, também, que ao contrário da Escola de Isócrates, onde o conhecimento se reduzia ao repassar do saber, na Escola de Platão, em presença da dialética socrática, os seus frequentadores iam ao encontro do conhecimento pelo questionamento, pela busca do esclarecimento, criando novos saberes, que geravam novas discussões. Dentro desse posicionamento, quando o Ocidente se debruçou sobre a cultura grega, teve origem na França, em 1620, a Académie de France, fundada por iniciativa do Cardeal Richelieu. Em 1897 é criada, no Brasil, a Academia Brasileira de Letras e, na sua esteira, inúmeras Academias foram sendo criadas pelo interior do País, nascendo, em 1909, a Academia Mineira de Letras.
Sócrates, na defesa apresentada em seu julgamento, afirmou que “enquanto tiver um sopro de vida, enquanto me restar um pouco de energia, não deixarei de filosofar e de vos advertir e aconselhar, a qualquer de vós que eu encontre. Dir-vos-ei, segundo o meu costume: Meu caro amigo, és ateniense, natural de uma cidade que é a maior e a mais afamada pela sabedoria e pelo poder, e não te envergonhas de só cuidares de riquezas e dos meios de as aumentares o mais que puderes, de só pensares em glória e honras, sem a mínima preocupação com o que há em ti de racional? E, se algum de vós me replicar que com tudo isso se preocupa, não o largarei imediatamente, não irei logo embora, mas interrogá-lo-ei, analisarei e refutarei as suas opiniões e, se chegar à conclusão de que não possui a virtude, embora o afirme, censurá-lo-ei de ter em tão pouca conta as coisas mais preciosas e prezar tanto as mais desprezíveis”.
Porque buscava a razão, a verdade de todas as coisas, a Academia de Platão foi fechada, novecentos anos depois de sua fundação, pelo imperador bizantino Justiniano I, por considerar que ela administrava ensinamentos pagãos.
Nos tempos atuais, as nossas escolas, as nossas faculdades, as nossas universidades, como ocorria com a Escola de Isócrates, reduzem os ensinamentos ao simples repassar do saber conhecido. Nelas não ocorre a perquirição, a busca de novos conhecimentos. Nossas escolas não chegam sequer a transmitir os conhecimentos existentes, pecam pela omissão construtiva de uma nova sociedade de homens. Não ensinam a pensar.
Na Era da Globalização, via Internet, as informações deixaram de ser um privilégio de poucos para se transformar em um direito de todos. Informar é hoje um direito universalizado e a comunicação está se individualizando através dos blogs e das redes sociais como Orkut, MySpace e Facebook. O computador transformou-se em uma importante ferramenta para estudantes e profissionais de todas as áreas. O e-mail está substituindo as cartas e o site está levando o estudante a desprezar os livros. Mas o computador não ensina a pensar.
É importante ser lembrado e ressaltado que a Academia de Platão não era apenas um grupo de membros de intelectualidade avançada. Ali ele não era o chefe, o sábio dos sábios, ao contrário, a Escola, como assim era chamada a Academia, era uma comunidade de iguais, de estudiosos, mesmo quando se tinha o grande mestre como o “primeiro entre iguais”.


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Por Petrônio Braz - 23/4/2010 06:10:04
O Chão de Minas

A Academia Montesclarense de Letras esteve reunida, em sessão solene, no salão nobre do Automóvel Clube, na noite de sexta-feira (16/4/2010) para o lançamento, em Montes Claros, do Livro “O Chão de Minas”, dos jornalistas Kao Martins, Paulino Assunção e Sebastião Martins, que retrata a vida e a obra do ex-governador Francelino Pereira.
O livro foi apresentado, em Montes Claros, pelo escritor Itamaury Teles de Oliveira, que enalteceu, merecidamente, os valores do homenageado.
Esclarecem os autores que planejado e produzido durante três anos de pesquisas, entrevistas e elaboração de textos, o livro relata a verdadeira epopéia vivida por Francelino Pereira, do agreste piauiense aos mais elevados cargos eletivos da República. O livro é uma biografia, um relato de vida.
Conheci Francelino Pereira na campanha eleitoral de 1962, em São Francisco. Estive com ele quando Governador e prestou-me um inesquecível favor quando vice-presidente do Banco do Brasil, não de natureza financeira, mas pessoal.
Ainda não li o livro, e é possível que não venha a lê-lo. É uma obra para pesquisa.
Hoje recebi convite da Academia de Letras de Brasília e do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal para a solenidade de lançamento, em Brasília/DF, do livro “Sem temer o ocaso - Luta em defesa de JK”, a realizar-se no dia 27 de abril em curso, no salão nobre do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, do escritor Dílson Ribeiro, como uma das solenidades de comemoração do cinquentenário da construção de Brasília.
Dois livros, duas histórias e duas vidas que se ligam ao chão mineiro, à terra das Alterosas.
Conheci Juscelino Kubitschek em 1950, na residência de meu pai, em São Francisco, como candidato a governador de Minas Gerais. Fui por ele recebido, em audiência, no Rio de Janeiro, no Palácio do Catete, em 1958, na presidência da República, quando ele autorizou a construção do Serviço de Abastecimento de Água de São Francisco, com Estação de Tratamento, que até os dias atuais serve à cidade e aos seus habitantes.
Francelino Pereira e Juscelino Kubitschek são dois valores do passado histórico que devem ser preservados, como exemplos à geração atual de jovens e às gerações futuras.
Bom seria, para o bem deste País, que os jovens se estribassem nos exemplos do passado honrado e glorioso da política nacional e, desprezando o presente maculado pela corrupção, formulassem um futuro político digno do respeito da Nação brasileira.
Tudo que se possa falar de bom desses dois homens públicos satisfaz a três objetividades, ao triplo filtro de Sócrates: É verdade, é bom e é útil às gerações futuras. Por esta razão recomendo a aquisição dos dois livros para aqueles que desejam ingressar na vida pública.
Na antiga Grécia, Sócrates foi famoso pela sua sabedoria e pelo grande respeito que tinha pelo seu semelhante. Um dia, encontrou-se com um conhecido seu que lhe disse:
- Sabe o que ouvi sobre o seu amigo?
- Espere um minuto. – suplicou Sócrates – Antes que me diga qualquer coisa, quero que passe por um pequeno exame. Eu chamo-o do triplo filtro.
- Triplo filtro? – perguntou o outro.
- Correto. – continuou Sócrates – Antes que me fale sobre meu amigo, pode ser uma boa ideia filtrar três vezes o que vai dizer. É por isso que chamo-o de “Exame do triplo filtro”. O primeiro filtro é a Verdade. Está absolutamente seguro de que o que vai dizer é certo?
- Não. – disse o homem – realmente só ouvi dizer isso e...
- Bem. – disse Sócrates – então realmente não sabe se é verdade ou não. Agora me permita aplicar o segundo filtro, o filtro da Bondade. É algo bom o que me vai dizer do meu amigo?
- Não, pelo contrário.
- Então, deseja-me dizer algo mau dele, mesmo sem saber se está a falar a verdade? Mesmo assim, ainda falta um filtro, o filtro da Utilidade. Serve-me para alguma coisa o que vai dizer do meu amigo?
- Não! Na verdade, não.
- Bem. – concluiu Sócrates – se o que deseja dizer-me não é verdade, nem é bom e tão-pouco me será útil, qual o meu interesse em saber?


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Por Petrônio Braz - 5/4/2010 12:02:30
Teatro Municipal

Montes Claros, cidade universitária, centro de cultural, princesa do Norte de Minas com quase quinhentos mil habitantes, a quinta cidade mais populosa do Estado, ainda não tem um Teatro Municipal. Montes Claros merece.
Em verdade temos o auditório do Centro Cultural, mas não é um Teatro. Temos outras salas, outros auditórios, mas não temos um Teatro.
Desde os tempos históricos da velha Grécia, os povos civilizados já edificavam Teatros.
O Teatro é uma casa de cultura, onde os atores interpretam histórias para o público, com o objetivo apresentar uma situação e despertar sentimentos, não um sentimento comum, mas sim ter uma experiência intensa, envolvente e inquiridora.
Não se diga que o Teatro é seletivo. Talvez seja, em localidades onde é baixo o nível cultural das pessoas, que não é o caso de Montes Claros, uma cidade universitária. Mas, mesmo seletivo, ele é indispensável ao desenvolvimento cultural de qualquer comunidade humana.
Cançado de cinema e de televisão, quando vou ao Rio de Janeiro, por qualquer motivo (sáude ou passeio) não deixo de assitir um espetáculo teatral.
O Teatro Municipal do Rio de Janeiro foi inaugurado no dia 14 de julho de 1909, há mais de um século, pelo presidente Nilo Peçanha, com capacidade para 1.739 espectadores. Com as modificações posteriores, chegou à capacidade de 2.361 lugares.
Em todas as grandes cidades do Mundo civilizado, os Teatros são referências culturais e arquitetônicas.
O Teatro Amazonas, em Manaus, foi inaugurado em 1896. É um belo teatro, uma das expressões mais significativas da riqueza criada na região, durante o ciclo da borracha.
Belo Horizonte possui vários Teatros, com destaque para o Palácio das Artes, que está entre os principais espaços culturais de Minas Gerais. Foi inaugurado em 1970 e possui um complexo de três teatros, três galerias de arte, cinema, livraria, café e espaço para exposições.
Juiz de Fora possui alguns Teatros e foi sede, em 2009, do 4º Festival Nacional de Teatro.
O Teatro Experimental de Uberaba “Augusto César Vanucci” está instalado em um prédio cuja arquitetura remonta ao início do Século XX. Há três anos foi adaptado para apresentações culturais, com instalação de moderna aparelhagem de som e iluminação.
Comentando o livro “Cemitério das loucas” de Dário Cotrim, lembrei que os rituais da humanidade começam por volta de 30.000 anos, mas a História registra que o primeiro evento com diálogos foi uma apresentação de peças sagradas, no Antigo Egito, do mito de Osiris e Isis, por volta de 2.500 a.C, que conta a história da morte e ressureição de Osiris. A palavra “teatro” e o conceito de teatro como algo independente da religião, só surgiram na Grécia de Psístrato e atingiu o seu esplendor maior com Shakespeare.


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Por Petrônio Braz - 28/3/2010 21:51:21
Olyntho Silveira

Está lá. Eu vi. Você também pode ver. Todos podem ver. A lembrança foi despertada ao ver no Painel Permanente de Poesia “Juca Silva Porto”, da Biblioteca Pública, no Centro Cultural, organizado por Doris Araújo, a presença de Olyntho Silveira, de saudosa memória. Foi ontem, mas ontem não é mais hoje, que ele nos deixou. Ontem é passado; hoje é presente. Mas ontem é um passado recente, ainda latente na memória, capaz de se revelar.
O grande mal da humanidade é o esquecimento, o Alzaimer social, que se estabelece muito mais rápido do que se possa pensar ou admitir. Foi ontem, mas pouco se fala, hoje, do padre filósofo Adherbal Murta, educador emérito, cultor das letras, como pouco, muito pouco se comenta sobre o contista, cronista e poeta montesclarense Cândido Canela.
Mas o esquecimento, muitas vezes é uma necessidade. Machado de Assis nos ensinou que "esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito." Todavia, prefiro as palavras sábias de Camilo Castelo Branco quando ele nos diz que "há uma coisa mais aviltadora do que o desprezo: é o esquecimento."
Pessoas há que integram a memória da cidade e não podem ser esquecidas. Com esse objetivo, buscando reativar o circuito da memória, o Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, como instituição viva e atuante, tem preservado esses valores.
O poeta, escritor, jornalista, fazendeiro, vice-prefeito de Montes Claros, servidor público, delegado de polícia e autodidata Olyntho Silveira nasceu em Brejo das Almas (Francisco Sá) e é autor de vários livros. Em vida, foi membro efetivo da Academia Montesclarense de Letras, da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais e do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros.
Do poeta Olyntho Silveira, que admirava e sempre hei de admirar, li por várias e várias vezes, já tendo quase decorado, o soneto parnasiano “Maria Luísa”: "É por você que ainda estou aqui / a padecer dos meus, incompreensões. / Antes, não a queria, e quando a vi, / joguei por terra as minhas convicções. / Você me trouxe novas ilusões / e, no seu nome, a Mãe eu revivi. / Entre nós dois não há nenhum senão / e, reforçado, o coração senti. / Você começa a sua Primavera, / enquanto o meu Outono está no fim / e aproveitá-la mais eu bem quisera. / Mas mesmo assim bendigo a sua vinda, / pois que você é o Universo em mim, na pouca vida que me resta ainda."
De sua autoria não tinha lido, ainda, o livro “O Filho da Enfermeira”, que estou lendo agora. Já nas primeiras páginas, a título de introdução/apresentação, o final de uma carta do trovador Cândido Canela: “... Bem, Olyntho, conversa vai, conversa vem, já me ia esquecendo do principal objetivo desta, que é o de falar do seu belo livro – O Filho da Enfermeira. Li-o em dois fôlegos. No primeiro, fui ao meio da obra, no segundo, cheguei ao fim, já com saudades do primeiro fôlego. Impressionaram-me, sobremaneira, as personagens: todas muito bem postas, obedecendo cegamente às ordens do Autor (...) Identifiquei-me, Olyntho, de tal forma com as personagens, que, muitas vezes, tive a impressão de estar convivendo com gente viva. O Filho da Enfermeira e, portanto, um livro que entusiasma, que comove. Foi assim, com a sinceridade de sertanejo, como você, que li a sua nona obra. E, aqui, meu caro Olyntho, ficam o abraço e a admiração do velho amigo”.
No Painel Permanente de Poesia “Juca Silva Porto”, da Biblioteca Pública, no Centro Cultural, algumas das belas poesias de Olyntho Silveira.


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Por Petrônio Braz - 16/3/2010 21:20:01
Rotilio Manduca

O coronelismo, como se extrai de Vitor Nunes Leal, foi a primeira obra importante da moderna sociologia política brasileira. O coronel Joaquim Gomes de Ornelas inspirou o personagem Josafá Jumiro Ornelas, de Guimarães Rosa, em “Grande Sertão: Veredas”. Por outra via, endossada pelo antropólogo Saul Martins, Zé Bebelo, personagem do mesmo livro, é a encarnação de Rotílio Manduca.
Mas, quem foi o personagem que no livro “Grande Sertão: Veredas” ganhou o nome de Zé Bebelo? Rotílio de Souza Manduca está a merecer maiores pesquisas e melhores estudos sobre sua vida nos sertões de Minas Gerais. Saul Martins, no seu livro “Antônio Dó”, nos oferta duas fotografias autênticas, que identificam o homem, mas não retratam sua personalidade. De uma das fotografias extrai-se, pelo uniforme, que ele foi oficial comissionado da Polícia Militar de Minas Gerais.
Ainda segundo Saul Martins, Rotílio Manduca nasceu em 1885, em Remanso, na Bahia, cidade hoje submersa pelas águas da represa de Sobradinho. Lá estudou e tornou-se um autodidata. Ele era filho do casal José Bertoldo Manduca e Inácia de Loiola Manduca.
Quando pesquisava sobre Antônio Dó, muitas vezes deparei-me com informações sobre Rotilio Manduca, posto que viveram na mesma época histórica.
A fama de Rotílio Manduca como "justiceiro" começou cedo, na sua juventude, e corre ainda pelo rio São Francisco e sua lenda mantém-se viva e sempre lembrada em São Francisco, Brasília de Minas, Januária, Manga, Coração de Jesus, Várzea da Palma e Pirapora, principalmente.
No livro “Outubro de 1930” Virgílio de Mello Franco informa que a conspiração revolucionária de 1930, no sertão baiano/mineiro do rio São Francisco, foi articulada por Rotílio Manduca e João Duque (Carinhanha). Daí se extrai a importância desse militar-jagunço, que segundo consta, teria duas personalidades.
Um dos pontos mais marcantes de sua vida consiste exatamente nessa dupla personalidade. Não raras vezes ele deixava o sertão, a vida de “justiceiro” e subia o rio até Pirapora com destino a Belo Horizonte ou Rio de Janeiro, onde circulava livremente entre os membros da alta sociedade.
Sobre ele escreveu Alberto Deodato: “Em 1919, uma tarde, eu estava na Folha, de Medeiros de Albuquerque, de que era redator. Procurou-me um senhor moreno fechado. Apresentou-se-me: - Sou o coronel Rocha, de Brasília, amigo de Rotílio. Ele soube de sua formatura e me pediu lhe entregasse esse presente... Era o anel de grau. Um lindo anel, que sempre usei. Três meses quem me entra pelo quarto a dentro? O Rotílio de carne e osso. Moreno queimado. De óculos pretos. Bem vestido. Magro e ágil. Eu morava, agora, na rua da Lapa, 56. Um quarto de fundo, com duas camas: a minha e a do Ciro Vieira da Cunha. Enfiou a mala no meu quarto. Vinha passar uns dias comigo” (...) Arranjou-se numa rede atravessada. Não podia ficar em hotel. Não por falta de dinheiro. Mas porque vinha de um tiroteio no São Francisco. Viajou léguas e léguas de batina e óculos pretos, a cavalo. Trazia enorme apetrecho de disfarce: batina, barba, bigode, o diabo. De noite para o dia desapareceu, levando tudo que era seu. Um ano depois volta. Vai para um bom hotel. Livre da perseguição. Vai me visitar. (...) Foi aí que conheceu Manoel Bandeira, Ciro e Ribeiro Couto. O fraco desse sertanejo era a admiração pelos intelectuais. De uma feita, passo pela Brahma. E quem vejo – Rotílio Manduca, almoçando com Medeiros e Albuquerque, a quem eu havia apresentado na véspera. Com mais de um mês no Rio de Janeiro, Rotílio ficou amigo do Ministro Ataulpho de Paiva. Não sei como.”
No vale do rio São Francisco Rotilio Manduca era um “jagunço”, no Rio de Janeiro convivia com intelectuais. Mas o sertão de Guimarães Rosa era isto mesmo: "Sertão é onde manda quem é forte com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!"
O vale do rio São Francisco, onde ainda se encontram presentes na memória tantos atos e numerosos fatos invulgares dignos de serem realçadas, está a reclamar de seus filhos, que tenham algum pendor pelas letras, que os façam conhecidos e exponham à vista os seus usos, costumes e tradições. É um vale com história, todavia, ainda não narrada. Ao se expor os anais do grande Vale é necessário ver, além do simples acidente geográfico, a alma do barranqueiro. Pesquisar e escrever sobre Rotilio Manduca é um desafio a todos os membros do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros.


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Por Petrônio Braz - 2/3/2010 05:50:12
Cemitério das loucas

Recebi de Dário Teixeira Cotrim um exemplar de seu livro “Cemitério das loucas” e, por uma mera coincidência, ele foi parar ao lado de “Hamlet” de Shakespeare, da Editora Martin Claret, que se encontrava casualmente sobre minha mesa de trabalhos. São duas obras teatrais.
Informa a Antropologia que os rituais da humanidade começam por volta de 30.000 anos, mas a História registra que o primeiro evento com diálogos foi uma apresentação de peças sagradas, no Antigo Egito, do mito de Osiris e Isis, por volta de 2.500 a.C, que conta a história da morte e ressureição de Osiris. A palavra “teatro” e o conceito de teatro como algo independente da religião, só surgiram na Grécia de Psístrato e atingiu o seu esplendor maior com Shakespeare.
No Prefácio de “Cemitério das loucas”, antes da abertura das cortinas, Eduardo Brasil, jornalista e teatrólogo, nos esclarece que o livro marca a estreia de Dário Cotrim nas letras cênicas, como criador teatral. O livro vem com o Apoio Cultural (não patrocínio) do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, que tem como finalidade a promoção de estudos e a difusão de conhecimentos de história e ciências afins, do município de Montes Claros e da região Norte de Minas, assim como fomento da cultura, a defesa e a conservação do patrimônio histórico, artístico e cultural.
Dário Cotrim já havia antes sido ilumiado no proscênio, pelas lâmpadas da ribalta, como ator, contracenando com Sindô (José Geraldo de Araújo Sindeaux) na peça “Casamento Suspeito” de Ariano Suassuna.
O cenário de “Cemitério das loucas”, onde os personagens desfilam, é um imaginário Campo Santo, que se identifica com o Cemitério Católico de Montes Claros, onde se localiza a sepultura do coronel Ribeiro Couto, que em vida percorreu todos os bares descritos por Karla Celene Campos em ”Os bares nunca fecham”. Mas o cemitério tem um banquinho de madeira e uma pequena mesa com um rádio de pilha. Como complemento, uma trempe com utensilios de cozinha.
Na primeira cena, um diálogo no interior do cemitério, entre o coveiro Alcides (sempre bêbado) e a bela prostituta Maria Tereza, uma frequentadora da zona boêmia da cidade (Belinha e Roxa). Aí aparecem outros personagens: Zé Cagão, Tião Prexeca, o dono da funerária e o cabo Horácio. Aqui uma dúvida. Não me recordei se já havia registrado o verbete “prexeca” no meu Dicionário Barranqueiro. Já tinha.
Ninguém melhor do que Alcides para nos apresentar a história, que “tem um pouco de tudo que as outras histórias têm. O alcoolismo, o homoxessualismo, a usura, a prostituição, o triângulo amoroso, a agiotagem, a violência e tem até um ladrãozinho de galinha”.
Estava a ler a parte inicial do livro quando me aparece à porta o cobrador da Academeia Montesclarense de Letras. Paguei a mensalidade de janeiro (dona Yvonne fez bem em dividir a anuidade em doze parcelas), mas não retornei à leitura. Melhor deixar que o leitor futuro se deleite e que os artista locais venham apresentar a peça nos palcos da cidade, com o apoio do Curso Oficinato, de Aldo Pereira.


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Por Petrônio Braz - 13/2/2010 16:21:55
O poeta Anfrísio Lima

Recebi de Jussara França Lima, via Sedex, uma coleção de livros de autoria do poeta Anfrísio Lima, sobre quem já falei nesta coluna.
O que mais me emocionou foi ter confirmado o que já era esperado: a prova exteriorizada do amor filial, do respeito à ancestralidade. Jussara é filha de Anfrísio Lima. Ele, em vida escreveu, mas não editou suas obras, porém ela o fez para que a posteridade se lembre eternamente do homem de cultura, de bem e do bem que foi Anfrísio Lima.
São sete livros, editados em uma só fornada. Livros que trazem comentários de Abgard Renault, Cândido Canela, Alberto Deodato, Elizabete Rodrigues Pereira Chaves, José Gonçalves, Manuel Xavier Paes Barreto, Manuel de Almeida, Ivan Lima e outros, com os direitos reservado à família do Autor, que eu chamarei “Obras completas de Anfrísio Lima”.
Em todos os livros, uma declaração: “Pai, não consigo encontrar palavras que definam o que eu sinto por você. É um sentimento que a tudo transcende. Pelo seu caráter, pela bondade do seu coração, pelos seus valores morais, você foi, é e sempre será um grande referencial na minha vida. Um dia, com certeza, iremos nos encontrar e então conversaremos muito... muito... irei “beber da sua fonte”. Como tudo na vida passa, seus livros também passarão: serão destruídos pela ação do tempo. Mas as suas ideias, estas morrerão jamais. Ficarão para sempre fazendo parte das correntes de pensamento que permeiam o nosso universo, que você tão maravilhosamente cantou em seus versos. Com amor, sua filha Jussara”. Lindo.
“Flagrantes da Vida”, o primeiro que abri, é um livro de poemas. Sobre ele disse Abgard Renault: “Volume de bela tessitura poética, Anfrísio Lima, homem de talento e de amor às letras, colocou num plano lírico a sua experiência vivida na área sanfranciscana. Convivendo com o barranqueiro, dá um testemunho poético autêntico da região e da psicologia de seu povo. Os seus poemas constituem um marco importante na literatura regional e significativo da permanência dos valores culturais em zonas geograficamente afastadas”.
Em “Vozes D’Alma”, livro de trovas, Anfrísio Lima desce a ladeira da vida à procura do Nirvana. Sobre ele informa José Gonçalves, poeta e pintor barranqueiro, patrono de uma das Cadeiras da Academia de Letras de Belo Horizonte: “Livro composto por 462 trovas filosóficas, românticas, introspectivas, individuais e de saudade. Algumas delas com um leve toque de ironia. Neste livro Anfrísio Lima escolheu o gênero mais difícil que existe nos domínios das musas. A trova é um poema enclausurado em quatro cadeias de ouro. O artista tem que espremer o assunto de tal modo que venha a caber inteirinho na medida dos quatro versos. Lendo “Vozes D’Alma”, sentirá o leitor arguto e mais avisado do que nós, uma doçura, uma poesia leve, diáfana, um quase bater de asas”.
“O Rio São Francisco” é um livro de poemas que cantam as belezas do grande rio, que o personificam e individualizam. Nos conduz ao “amanhecer”, nos leva ao “meio-dia”, deixa a “tarde” cair e nos fazer passar para a “noite”, mas também nos faz lembrar a “enchente” e a “vazante”.
Os dois livros “Sombras” e “Últimas sombras” se interligam. O primeiro, como observa Manoel Xavier Paes Barreto, é “composto por 51 poesias, escritas com muita ternura, onde o autor revela suas emoções e sentimentos mais íntimos (...) É um mimoso rosário cujas contas são peregrinos salmos de atraente naturalidade, nimbados de magos sonhos, diluídos na névoa tênue de esvaídas ilusões, matizadas de um queixume e agridoce a palpitar em cada estrofe, em lânguida volúpia, a gemerem cada verso em trenas de saudade!”. Em “Últimas sombras”, o imortal prefaciador Cândido Canela nos esclarece ser o livro “um grito de dor, lágrimas, sofrimentos!... É a reação contra a injustiça, esse terrível mal congênito da humanidade!”.
Não podiam faltar os contos. Eles estão presentes em “Pauta com o Diabo e outros contos”. Observa Ivan Lima que “os contos, belos e reflexivos, da simplicidade mineira da gente manguense, pintam com cores latejantes do dia-a-dia do boiadeiro, que sabe preencher as suas horas vagas, filosofando a vida na doçura dos “causos” vividos e cantados. Eu próprio testemunhei alguns”.
“Espinhos de mandacaru” é um romance regional, que narra a vida melancólica de uma moça do sertão. Informa Elizabete Rodrigues Pereira Chaves que “no desenrolar da história o autor retrata a situação social, política e econômica da 1ª metade do Século XX, além de fazer referência aos costumes, ao folclore e à linguagem da região”.


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Por Petrônio Braz - 8/2/2010 10:51:16
Extremos do sorrido

Repassando os diversos exemplares de escritores montesclarenses expostos na “Barraca do Livro”, na Praça da Matriz, no último domingo, deparei-me com o livro “Extremos do Sorriso” de Edson Ferreira Andrade. Ele é professor, escritor, poeta, teatrólogo (diretor e ator), membro da Academia Montesclarense de Letras. Em “Extremos do Sorriso”, edição autônoma, ele nos deleita com poemas, contos e crônicas. O professor Edson Andrade é autor de “Lidorio e o Papiá”, em literatura de cordel, “Versosvida”, páginas de poesias, e “O momento e eu”, crônicas de viagens.
Da biografia, apresentada por João Antônio Versiani Filho, extrai-se que o professor Edson Andrade é natural de Montes Claros, graduado pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da FUNM, tendo lecionado na Escola Estadual Prof. Plínio Ribeiro, no Colégio São Norberto, no Colégio Padrão e na Aliança Francesa, acumulando as funções de presidente da Associação dos Professores de Francês do Norte de Minas.
Do Prefácio, por ele mesmo escrito, datado de Recife/PE (05/07/1984), ele, na subjetividade do seu eu, nos diz que “o poeta de si mesmo nada pode dizer de real”. Todavia, ele mesmo afirma que os poetas e as musas são um misto de sonho e de realidade. A poesia, na visão de Sílvio Prado, é “um universo imaginário” e para Alphonsus de Guimaraens Filho a vida do poeta “é mais real que a realidade”. Observa Edson Andrade que “nos não vivemos da poesia, mas também não existiríamos sem ela. É a mulher ruim, infiel e ingrata, néctar porém do nosso corpo e do nosso espírito, amante sem igual, melodia suave a transportar-nos para fora de nós mesmos”. Mas, é ele mesmo quem afirma que “o amor é chama, mas as reminiscências perpetuam-no, na medida em que simbolizam feições e nomes...”
Suas poesias têm um “que” de Vinicius de Morais, todas são belas. Algumas foram escritas em Paris, outras em Recife, em Maceió, em Montes Claros. Quando se debruça sobre a “Fotografia” ele estava no Museu do Louvre, em Paris, com certeza.
Comungo com o professor Edson Andrade quando ele afirma que “o modesto é aquele que sofre de uma patologia crônica e incurável, denominada ausência absoluta de personalidade. Se não sou capaz de apreciar minha própria obra, quem o fará por mim? (...) Acredito que poucos leitores têm idéia das dificuldades existentes no campo editorial. Acham muitos que é fácil, levar a público um trabalho de criação própria. Enganam-se. Neste país, conseguir editar um livro, por menor que seja, torna-se hoje, feito heróico.”
Os contos “Casal Vinte”, “O Pioneira da Liberdade”, “Verdes Vidas”, “Um certo João Caveira”, “Amor Maior” e “Infernos Particulares” integram e complementam o livro. São narrativas que excitam e emocionam o leitor.
Suas crônicas são variadas, valendo transcrever parte de “O ato de escrever”. Observa o professor Edson Andrade que:
“Muito mais do que uma higiene mental, o ato de escrever é o que eu chamaria “pressão do impulso vocacional”. O escritor, o poeta, esses trabalhadores braçais da edificação de construções através e em consequência do signo, só se entregam ao duro labor, quando estão (e isso os diferencia dos demais trabalhadores braçais) inspirados. A inspiração, essa queda livre da vontade de extravasar o muitas vezes inefável e inútil, é a responsável pela insônia e pela agitação do poeta, quando vem trazer à tona de sua imaginação criativa, e por isso mesmo suspeita, alguns fios pendentes de uma meada ainda inexistente, real somente no futuro, caso o ato de escrever se concretize. Uma vez esvaziado o manancial vocabulário e temático, o escritor respira aliviado e enigmático, consciente e iludido da certeza de ter realizado proeza de valor insetimável, o que, por extensão de consequência, “o tornará imortal”, posto que legou ao mundo momentos de sublime e profunda introspecção. Completa-se pois o ato de escrever, que, a título de definição, é a extração ou a libertação de incômoda e ao mesmo tempo agradável tendência donativa. Não se nasce com a aurora harmoniosa do dia, se não se atende ao apelo irredutível da palavra”.
E complementa dizendo que:
“Para o escritor, vida significa puxar mistérios para o papel, ora exaltando, ora protestanto, ora fotografando para reportar, ora tomando partido de representação, ora chorando dores sociais, ou simplesmente, e sempre, em todos os minutos e segundos, significa perder-se no horizonte de sua criação, para legar ao mundo, em prosa ou em verso, toda a sua riqueza interior e todo o seu amor pelas causas nobres que perpetuam e justificam a eterna procura.”.


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Por Petronio Braz - 25/1/2010 07:11:35
Conversa pra boi dormir

Já há algum tempo Arnaldo Caldeira Rocha havia me informado que estava concluindo um livro e queria que eu fizesse o Prefácio, a sua apresentação aos leitores. Conheci Arnaldo Caldeira em Coração de Jesus, mas não sabia que ele escrevia. Aliás, escrever todos podem, é só querer e ter ideias.
Em conversa com José Luiz Rodrigues e Reynaldo Velloso Souto, relacionamos mais de trinta escritores novos na terra de Montes Claros, nos últimos dez anos.
O odontólogo Arnaldo Caldeira Rocha, graduado pela hoje Universidade de Diamantina - ex-FAFEOD e advogado diplomado pela UNIMONTES, atuou como ator algumas vezes, escreveu peças, que já foram montadas e exibidas em algumas cidades e tem experiência como diretor de teatro. Não é um iniciante na arte literária. Ele já escreveu e publicou crônicas em jornal de Diamantina, sendo autor de alguns poemas e contos e também compositor musical.
Arnaldo Caldeira pensou e criou “Conversa pra boi dormir”, um livro interessante e de fácil leitura. Assemelha-se a um diário.
Como autor-narrador, na primeira pessoa, sem recordar datas e rememorando o passado, a vida, no primeiro capítulo ele mostra a luta da infância contra a obrigação da aprendizagem na escola. Uma labuta de marcar lembrança. Vontade de fuga da escola. A criança não aceita as coisas como elas são: rebeldia.
Toda cidade, nos tempos narrados, tinha uma União Operária, onde a classe trabalhadora se divertia. Qual a cidade? Não sei. Com certeza do Norte de Minas Gerais, não muito distante do rio São Francisco e das divisas com a Bahia. Mas qual a cidade que não tem uma rua de baixo? Qual o povoamento humano interiorano que não teve a sua “jardineira” como meio de transporte?
O desaparecimento de duas crianças teria sido conversa-mole-pra-boi-dormir? Só lendo o livro para saber.
“Há tanta coisa nesse mundo, que metade basta”, mas feiticeira como a Miguelina nenhuma outra cidade teve, apesar de velha, feia e muito branca.
As personagens são pessoas simples, presentes no cotidiano da vida. O espaço, o ambiente urbano de uma cidadezinha qualquer. O tempo indefinido. O narrador, como protagonista consciente e personagem principal, conta a história e participa do enredo, tendo como foco narrativo a sua própria vida. Ele se equipara a Bentinho de ”Dom Casmurro”, romance de Machado de Assis.
Para o narrador, com foco narrativo na primeira pessoa, “a vida continua modorrenta, alheia às nossas elucubrações. A vida, na minha maquinação de pessoa simples, é um bolo de ilusões, cuja cobertura são os nossos sonhos. Que seria o choro bobo de uma criança descontente, diante desse mar eterno de ilusões? Nada. Nando... Absolutamente nada, pensei”.
Na Rua da Palha, das Formosas, ou simplesmente Formosa, no vazio mórbido do amor vendido, pululavam as messalinas, as cleópatras, as fedras, as impérias, as lucrécias, com roupas convidativas, exageradamente maquiadas, ruge carregado, batom insinuante, unhas de um vermelho escarlate, perfume enjoativo, mas não iam à igreja, nem passavam pela Praça, onde estava centrada a riqueza, a cultura e o governo. Os meninos perambulavam pela rua e se perdiam no jogo da aprendizagem.
Coroinha que ajudava missa em latim pode substituir o padre? Sei, não.
Estou concluindo o mister de escrever o Prefácio.


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Por Petronio Braz - 18/1/2010 06:44:44
Juízo falso em literatura

Em palestra no Quarteirão do Povo, próximo ao Café Galo, com José Luiz Rodrigues e Ronaldo José de Almeida, na última sexta-feira, por lá passou Mário Mendes de Queiroz, entusiasmado com a publicação de seu livro “Sobrevivência e Fé”, selo da Editora UNIMONTES, mas logo se retirou.
Na conversa, lembrei-me haver lido em Graciliano Ramos ou em Jorge Amado, que nos vapores do rio São Francisco, nos tempos da navegação, jogavam os mortos no rio, fato inverídico e do meu próprio conhecimento, uma vez que vivi os tempos áureos da navegação a vapor pelas águas do Velho Chico, além de injustificável.
Sabe-se que na Índia é costume jogar as cinzas e até mesmo os corpos dos mortos nas águas do Rio Ganges, rio por eles considerado sagrado, como também ocorria em alto mar, nos tempos da navegação a vela e princípios da navegação a vapor, por carência de meios de conservação dos cadáveres.
Estava quase certo não ter sido em Graciliano Ramos porque ele, em “Vidas Secas” não descreve viagem de flagelados pelo rio São Francisco. A dúvida foi afastada pelo José Luiz Rodrigues, que se lembrou ter sido em “Seara Vermelha”, de Jorge Amado.
Em “Seara Vermelha” Jorge Amado afirma que os corpos dos flagelados mortos, por diarreias e outras doenças, eram jogados no rio para as piranhas comerem. Afirmação inverídica. Todos os dias os vapores passavam por uma cidade e sempre ancoravam em um porto-de-lenha.
Em passagem outra ele afirma que a bordo dos vapores era servido peixe com abundância e muito gorduroso, que provocava diarreias. A bordo dos vapores as refeições eram sempre: arroz, feijão aguado, macarrão, carne cozida, batatinha e, muito raramente, peixe. Como sobremesa uma fatia transparente de goiabada. Durante as viagens não ocorriam pescarias e, nas cidades era sempre mais fácil comprar carne nos açougues, que forneciam recibos. Como os vapores navegavam pelo do rio, Jorge Amado pode ter deduzido ser mais fácil a alimentação com peixe. Ideia de quem não viajou pelo rio, mas não deve ter havido intenção de enganar.
Nas margens do São Francisco e nas próprias embarcações, os barcos a vapor são conhecidos como “vapor” ou “gaiola”, nunca como “navio”, mas Jorge Amado, em “Seara Vermelha”, fala sempre em “navio”, pelo que se conclui que ele não deve ter navegado pelo São Francisco antes de escrever o livro, nem teve o necessário cuidado de pesquisa, para bem informar. Navio é no mar, no rio é vapor ou gaiola.
Três juízos falsos de valores, que não deveria ocorrer, tendo em vista que o escritor é um formador de cultura.
Inverdades são ditas a todo instante. No dia-a-dia da vida ouvimos constantemente as mentiras institucionalizadas dos políticos em tempos de eleições ou das autoridades constituídas, que afirmam sempre que “toda corrupção será apurada” e outras tantas. Há pessoas que mentem descaradamente, até mesmo por hábito. Existem mentiras institucionalizadas, patológicas ou fisiológicas, cabendo ao psiquiatra a solução.
Sherazade inventava histórias para sobreviver. Mas convenhamos que Santo Agostinho declarou que “quem enuncia um fato que lhe parece digno de crença ou acerca do qual forma opinião de que é verdadeiro, não mente, mesmo que o fato seja falso”.
Em razão de suas convicções ideológicas, é possível que Jorge Amado tenha feito estas afirmações para reforçar a sua posição doutrinária ou como mecanismo de conveniência e de estratégia de sucesso, ou mesmo como planejamento político. Valeu a intencionalidade. O propósito dele pode ter sido reforçar a mostra das desigualdades sociais.
A literatura, a leitura de bons livros, tem fundamental importância no processo de aprendizagem. Ela se constitui no conjunto de produções literárias de um país ou de uma determinada época.
Independente dos conceitos ideológicos individualizados, como esclarece Graciliano Ramos, “o artista deve procurar dizer a verdade. Não a grande verdade, naturalmente. Pequenas verdades, essas que são nossas conhecidas.”


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Por Petronio Braz - 31/12/2009 07:43:05
O linguajar barranqueiro

O homem ribeirinho, das margens do rio São Francisco, isolado durante mais de um século do contato direto com o litoral, inteiramente divorciados do resto do País (da Conjuração do São Francisco de 1736 ao início da navegação a vapor ocorrido em 1852), manteve em seu vocabulário muitas palavras hoje em desuso no resto do País, porém, com seu preciso significado etimológico. Outras tantas padeceram de alterações morfológicas pelo uso.
Durante alguns anos, tenho estudado o linguajar são-franciscano nos meus contatos com o povo barranqueiro, quer como agrimensor, quer como advogado. São mais de 3.000 vocábulos catalogados, que registrei no meu “Dicionário Barranqueiro”, ainda inédito, e que tem Prefácio de José Luiz Rodrigues. Palavras há que conservam a forma do português arcaico, em desuso até mesmo em Portugal, como benção (oxítona) em lugar de bênção (paroxítona) e coresma, em lugar de quaresma, entre outras.
O barranqueiro diz menhã em vez de manhã, somana (sumana), em lugar de semana, guaiaba, em lugar de goiaba, vocábulos que guardam a grafia anterior ao metaplasmo por dissimilação vocálica. Ele usa a palavra gado, que significa um conjunto de rezes bovinas, para indicar um único animal: um gado. Por um processo hipocorístico de simplificação o barranqueiro diz cosca em lugar de cócegas, toá em vez de tauá e outras. É ingênito ao falar do homem ribeirinho o uso de aumentativos, como estradona, escurão, bandão, mundão, rião, etc. O ribeirinho diz pé de manga ou pé de laranja, em lugar de mangueira ou laranjeira. A hipértese é igualmente comum. Assim, o barranqueiro diz champrão em vez de pranchão.
É comum o uso do verbo procurar no sentido de perguntar. Usa-se como advérbio a terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo andar: andou que cai - quase cai. Em situações outras, as palavras mantêm a grafia, mas, por uma evolução semântica inconsciente, com significado diverso do de outras regiões, equivalência muitas vezes não registrada nos dicionários comuns, como, por exemplo: acesso, ingresso, chegada, aproximação, que tem no Vale a acepção de convulsão, síncope, ataque epiléptico; açoitar, que significa bater, fustigar, para o ribeirinho tem o sentido de tanger longe, arremessar; barrear, atravessar com barras, guarnecer com barras, traduz no Vale o romper do dia, a aurora; remeter, mandar, enviar, expedir, nas barrancas do rio das águas morenas é chifrar, agredir com os chifres; picarro, famoso, notável, no Vale é a trava fixa do cabeçalho do carro de bois; pensar, que tem o significado de fazer reflexões, refletir, raciocinar, para o barranqueiro é aplicação local de remédio em ferida; delatar, denunciar alguém como autor de um crime, no Vale é demorar, retardar.
O verbete coita, que significa desgraça, aflição, mágoa ou raiva, vem do português arcaico, encontrado nos cancioneiros do Século XII. O advérbio asinha, no sentido de abreviar, andar com pressa é ainda usado pelo ribeirinho do São Francisco. As palavras entonce e arribar e algumas outras vieram para o Vale como marca do espanhol, esbagaçar traz a influência açoriana, guardada no correr dos anos e cipó, tauá, tapera, entre outras, vieram do tupi.
O emprego de rudo ou ruda (biforme), como usado por Camões e outros quinhentistas, em lugar de rude (uniforme) está presente no Vale. Também usado por José de Alencar: “Iracema está apoiada no tronco rudo, que serve de esteio”. O Dicionário do mestre Aurélio Buarque de Hollanda, registra, a partir da 11ª edição, alguns arcaísmos e alguns brasileirismos (arcaísmos preservados).
Excluído o estudo do Dialeto Caipira, efetuado por Amadeu Amaral, publicado em 1920, nenhum estudo de vulto foi realizado com o objetivo de definir os falares brasileiros, apesar da divisão de Antenor Nascentes. O falar são-franciscano, pela sua cadência, se inscreveria no Grupo do Norte, mas suas características especiais o distingue do falar nordestino, não se encaixando nos falares do chamado Grupo do Sul.
Nas Instruções baixadas em 1943, a Academia Brasileira de Letras determinou a inclusão no Vocabulário Ortográfico dos brasileirismos, estrangeirismos e neologismos de uso corrente no Brasil, consagrados pelo uso. Contudo, estamos certos de que o enriquecimento léxico do português falado nas diversas regiões brasileiras, pelo contato com novas culturas e novas línguas, não se constitui numa evolução capaz de regionalizar o idioma.
Embora seja um admirador e um estudioso da obra de Guimarães Rosa, não aponto os neologismos criados pelo imortal acadêmico, apesar de o Grande Sertão ficar encravado no vale do Velho Chico, porque não são, à evidência, de uso do homem ribeirinho. Não foram canonizados pelo uso.


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Por Petronio Braz - 14/12/2009 09:32:00
O empresário, o escritor e o poeta

Leio em Manoel Hygino dos Santos (Hoje Em Dia, edição de 14/12/2009) que “à medida que o tempo escorre pelo mostrador do relógio, esmaecem as imagens das pessoas com as quais convivemos. Sempre há, porém, uma réstia de pretérito que não se apaga, a ausência física é substituída pela presença imaterial, que não se apaga enquanto persistirem os bons sentimentos”.
Em sua vida, que já é extensa, Luiz de Paula Ferreira marcou presença em todos os ramos da atividade humana. Conheci-o em 1963 como proprietário da Algodoeira “Luiz de Paula”, presidente da Fundação Educacional “Luiz de Paula” e político atuante. Um homem de ação.
No último dia 12 de dezembro em curso, em companhia de Dário Cotrim, estive em Várzea da Palma, terra natal de Luiz de Paula Ferreira, para uma reunião solene da Academia de Letras, Ciências e Artes de Várzea da Palma, comemorativa do primeiro ano de sua existência e também do centenário de fundação do povoado, do 56° aniversário de Emancipação Político-Administrativa e do dia da Padroeira Nossa Senhora Imaculada Conceição. Uma importante e festiva solenidade que se realizou no auditório do Colégio Cenecista - CNEC de Várzea da Palma. A reunião, como é tradição e até mesmo obrigação patriótica, teve início com o Hino Nacional brasileiro, seguido do Hino de Várzea da Palma, letra e música de Luiz de Paula Ferreira.
O processo inicial de transformação de Várzea da Palma em uma cidade industrial teve o apoio, a participação direta e o incentivo de Luiz de Paula Ferreira. Por telefone ele disse-me, ontem: “Da terra natal a gente nunca se esquece”.
O poeta Luiz de Paula, repentista e trovador, eu conhecia desde os nossos primeiros encontros. No correr dos anos, o contador Luiz de Paulo Ferreira fez-se advogado.
Acompanhei, em parte, o desenvolvimento de suas atividades empresariais e estava presente, com ele, em Ubá/MG, quando ele iniciou os entendimentos com José Alencar para a fundação da COTEMINAS, que ele havia idealizado e cujo projeto estava já concluído.
Apoiei a sua candidatura a deputado federal em 1966, tendo ele sido majoritário em São Francisco, com o meu apoio e, principalmente, de meu pai Brasiliano Braz.
Assessorei a Fundação Educacional “Luiz de Paula” e estava presente quando da instalação do primeiro curso de ensino superior em Montes Claros, por ela instalado e cheguei a matricular-me como integrante da primeira turma do Curso de Pedagogia. Ao encerrar suas atividades, a Fundação Educacional “Luiz de Paula” outorgou-me o diploma de “Benemérito do Ensino”.
Durante a sua permanência em Brasília/DF, como deputado federal, estive presente, em Montes Claros, como diretor da Algodoeira “Luiz de Paula”.
O escritor, historiador e poeta Luiz de Paula Ferreira, membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, presidente de Honra do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, membro efetivo da Academia Montesclarense de Letras, da Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco e da Academia de Letras, Ciências e Artes de Várzea da Palma, que todos conhecem e admiram, fez-me doação de todos os livros por ele editados.
À medida que o tempo escorre pelo mostrador do relógio, como lembra Manoel Hygino, esmaecem as imagens das pessoas com as quais convivemos, mas a imagem permanente de Luiz de Paula Ferreira está sempre viva e presente em nossos sentimentos e em nosso reconhecimento, como uma marca indelével do passado e do presente, com projeção de futuro. Sua ausência física, forçada pelas circunstâncias, é sempre substituída pela indelével marca de sua personalidade. Não se apaga.


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Por Petronio Braz - 9/12/2009 08:52:39
O Laço Húngaro

Com a força assoladora de um tsunami estão circulando pelos arredores do Café Galo comentários sobre o livro “O Laço Húngaro”, escrito por Fernando Benedito Júnior e lançado em 1991, “Prêmio BDMG Cultural de Literatura 1990”, que estaria se contrapondo ao livro “O Laço Húngaro” lançado por Dário Teixeira Cotrim, em 2009. Não conhecia o primeiro. Li agora. Por terem ambos o mesmo título denominativo, à primeira vista desponta uma elaboração mental de existência de reprodução de obra intelectual.
Vários historiadores fixaram a presença da “Coluna Prestes” nos anais de nossa História.
A Coluna Miguel Costa-Prestes, Coluna Prestes ou Isidorada foi um movimento revolucionário que se iniciou no Rio Grande do Sul. Informa a biografia de Luiz Carlos Prestas que os revolucionários que lutavam no Sul foram-se reunindo em São Luís Gonzaga (RS) em torno de Prestes, considerado por Cordeiro de Farias, Juarez Távora, Siqueira Campos, João Alberto e Ari Salgado Freire como o mais apto a liderar a revolução. Em São Luís, esse grupo analisou as opções que se lhes apresentavam para continuar a luta. Deveriam de início tentar receber armas, e munições de Isidoro, que continuava controlando a situação na região de Foz do Iguaçu.
Até ai nada a ver com os dois livros referidos. Eles cuidam da passagem da Coluna pelo Norte/Noroeste de Minas e Sul da Bahia.
Platão e Xenofonte escreveram sobre Sócrates. O primeiro na “Apologia de Sócrates”, vê o filósofo e o segundo, nas “Memórias de Sócrates”, nos oferta a vida cotidiana do imortal filósofo. Ambos escreverem sobre o mesmo assunto por enfoques diferentes.
Sobre o tema “Coluna Prestes” foram editados vários livros e outros tantos a ela se referem. Com o título “Coluna Prestes” foram editados cinco livros, ou talvez mais. O tema é palpitante e vasto. Como um diamante de várias superfícies limitantes, ele pode ser descrito de acordo com o ângulo de visão do escritor.
Desconheço a origem do nome “Laço Húngaro”, que foi dado a duas manobras da “Coluna Prestes” em território baiano/mineiro, para despistar as forças legalistas. Sei apenas que era um dos desenhos aplicados na platina dos uniformes de serviço dos oficiais de antigamente.
O livro “O Laço Húngaro”, escrito por Fernando Benedito Júnior é um romance com personagens reais e fictícias, com algum fundamento histórico, enquanto o livro “O Laço Húngaro” de Dário Cotrim é histórico, fundamentado em pesquisas, com apresentação de vasta biografia. Em comum apenas o nome, como tantos “Joãos”, “Marias” e “Antônios” que encontramos a todo instante. A obra literária de Fernando Benedito Júnior é de fácil leitura porque ele romanceando procurou retirar a aridez dos fatos históricos, enquanto a de Dário Cotrim é uma obra científica, nos trazendo a sobriedade do historiador consciente.
O livro da Dário Cotrim traz Prefácio de Daniel Antunes Júnior, do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais e Apresentação de Wanderlino Arruda, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, ambos literatos de longas caminhadas. O de Fernando Benedito Júnior foi premiado, por unanimidade dos julgadores, recebendo o “Prêmio BDMG Cultural de Literatura 1990”. Dois bons livros cuja leitura se recomenda.


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Por Petrônio Braz - 7/12/2009 11:42:37
Professor Ivo das Chagas

Não me foi possível ir a Uberlândia para lá estar no dia 3 de dezembro p. passado a fim de presenciar a justa homenagem que ali foi prestada ao professor emérito Ivo das Chagas, pela Universidade Federal daquele próspero município do Triângulo Mineiro.
A Universidade Federal de Uberlândia instituiu o “Prêmio Josué de Castro” para demonstrar gratidão e respeito a intelectuais ilustres que se destacarem no campo da Geografia Médica.
Aqui pelas bandas do Norte de Minas, o professor Ivo das Chagas, membro da Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco e do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, já havia sido homenageado pelo Conselho Universitário da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) com a outorga do título de “Professor Emérito”.
Agora, a Universidade Federal de Uberlândia, reconhecendo o seu superior talento, por ocasião da realização do II Congresso Internacional e do IV Simpósio Brasileiro de Geografia da Saúde, outorgou-lhe o “Prêmio Josué de Castro”, pela sua grande contribuição e pioneirismo entre os geógrafos brasileiros na Geografia Médica e da Saúde, antecedendo a todos.
O professor Ivo das Chagas nasceu em 1933 no município de São Romão, no Norte de Minas. É graduado em Geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-graduação em Geografia e Ecologia Vegetal Tropical pela Universidade de Bordeaux (França). Participou de diversos estudos internacionais sobre a Geografia Tropical, Ecologia Vegetal, Cartografia, Metodologia de Pesquisa e Organização do Espaço. Na Universidade Estadual de Montes Claros, além de docente dos cursos de Biologia e Geografia, Ivo das Chagas foi Pró-Reitor de Pesquisa (1991/1995) e coordenador do Campus de Pirapora (1995/1998).
Exerceu diversos outros cargos e funções públicas, como a coordenação do Programa de Educação Ambiental da Secretaria Especial do Meio Ambiente do Ministério do Interior (1982); conselheiro do Conselho Consultivo Interministerial de Ciência e Tecnologia do Grande Carajás (1982); secretário-adjunto de ecossistemas, da secretaria especial de Meio Ambiente do Ministério do Interior (1983/84) e conselheiro da Câmara de Bacias Hidrográficas do Conselho Estadual de Política Ambiental - Copam (1988/89).
O professor Ivo das Chagas, na sua conhecida simplicidade, declarou, em seu discurso de agradecimento, que ele me ofertou para constar dos anais da Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco, existir uma distância sideral a separar, no seu entendimento, o Premiado do Patrono do Prêmio. Não posso concordar. No campo do saber humano, das atividades culturais específicas, Patrono e Premiado encontram-se em um mesmo nível.
As minhas conversas com o professor Ivo da Chagas são constantes, quase diárias. Se eu não vou à sua casa, ele vem à minha. O barranqueiro Ivo das Chagas é geógrafo e ecólogo de renome nacional, cidadão do mundo. É, antes de tudo, um intelectual.
O pernambucano Josué Apolônio de Castro, Patrono do Prêmio, formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, dedicou-se aos problemas relacionados à alimentação e à saúde. Autor, entre outros, dos livros “Geografia da Fome” (1947) e “Geopolítica da Fome” (1951), obras que o projetaram no cenário internacional.
Observa Ivo das Chagas que nestas duas obras Josué de Castro “se utiliza largamente da transversalidade do método geográfico, permeando os aspectos naturais com as questões médicas, políticas, econômicas, sociais, culturais e filosóficas, interando-as numa síntese crítica que o incompatibilizou com grande parte dos donos do Poder de sua época”. E prossegue informando que “em 1957 vem a lume o “Livro Negro da Fome”, onde ele correlaciona a desnutrição com a problemática do subdesenvolvimento, tema amplamente debatido durante seus trabalhos na FAO”. Atenta o professor Ivo das Chagas para a relação “fome–superpopulação”, esclarecendo que Josué de Castro “reputa a teoria de Malthus e a inverte ao dizer que é a fome que desencadeia a explosão demográfica e não o crescimento da população que provoca a fome coletiva, levantando uma grande polêmica em torno da obra”.
Lembra o professor Ivo das Chagas que “Josué de Castro escreveu várias outras obras, todas em torno das questões sociais, o que o guindou aos mais altos patamares da Geografia Humana e do Humanismo, com suas obras reconhecidas mundialmente, de tal forma que, ao procurar asilo político durante o Regime Militar, nada menos de quatorze países desenvolvidos se apressaram em lhe oferecer guarida”.


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Por Petrônio Braz - 5/12/2009 10:10:51
Novas Sumulas vinculantes
JUROS DE MORA EM PRECATÓRIO
Verbete: “Durante o período previsto no parágrafo primeiro do artigo 100 da Constituição, não incidem juros de mora sobre os precatórios que nele sejam pagos”.
Por maioria, o Supremo aprovou verbete que consolida jurisprudência firmada no sentido de que não cabe o pagamento de juros de mora sobre os precatórios (pagamentos devidos pela Fazenda Federal, estadual e municipal em virtude de sentença judicial), no período compreendido entre a sua expedição – inclusão no orçamento das entidades de direito público – e o seu pagamento, quando realizado até o final do exercício seguinte, ou seja, dentro do prazo constitucional de 18 meses. Somente o ministro Marco Aurélio foi contra a aprovação do verbete.
INELEGIBILIDADE DE EX-CÔNJUGES
Verbete: “A dissolução da sociedade ou do vínculo conjugal, no curso do mandato, não afasta a inelegibilidade prevista no § 7º do artigo 14 da Constituição Federal”.
Também por maioria, o Supremo aprovou verbete que impede ex-cônjuges de concorrer a cargos eletivos caso a separação judicial ocorra no curso do mandato de um deles. O ministro Marco Aurélio ficou vencido por acreditar que eventual vício na dissolução do casamento deve ser “objeto de prova”.
TAXA DE COLETA DE LIXO
Verbete: “A taxa cobrada exclusivamente em razão dos serviços públicos de coleta, remoção e tratamento ou destinação de lixo ou resíduos provenientes de imóveis, não viola o art. 145, II, da CF.”
Por unanimidade, o Supremo aprovou verbete que confirma a constitucionalidade da cobrança de taxas de coleta, remoção e destinação de lixo tendo por base de cálculo a metragem dos imóveis.
GDATA
Verbete: “A Gratificação de Desempenho de Atividade Técnico-Administrativa – GDATA,instituída pela Lei 10.404/2002, deve ser deferida aos inativos nos valores correspondentes a 37,5 (trinta e sete vírgula cinco) pontos no período de fevereiro a maio de 2002 e, nos termos do art. 5º, parágrafo único, da Lei 10.404/2002, no período de junho de 2002 até a conclusão dos efeitos do último ciclo de avaliação a que se refere o art. 1º da Medida Provisória 198/2004, a partir da qual para a ser de 60 (sessenta) pontos.”
Por maioria, o Supremo aprovou súmula vinculante que reconhece o direito de servidores inativos de receberam a Gratificação de Desempenho de Atividade Técnico-Administrativa (GDATA). O ministro Marco Aurélio foi contra a aprovação do verbete. Para ele, a Constituição Federal permite tratamento diferenciado entre servidores da ativa e os inativos. Já o ministro Dias Toffoli afirmou que a súmula vai acabar com processos múltiplos sobre o tema. Ele registrou inclusive que quando era advogado-geral da União editou súmula para impedir que a advocacia pública continuasse recorrendo de decisões que autorizavam o pagamento da gratificação, após decisão do Supremo que aprovou a legalidade da GDATA. Dias Toffoli exerceu o cargo de advogado-geral da União antes ser empossado ministro do Supremo, no último dia 23.
DEPÓSITO PRÉVIO
Verbete: “É inconstitucional a exigência de depósito ou arrolamento prévios de dinheiro ou bens para admissibilidade de recurso administrativo”. Por unanimidade, o Supremo aprovou súmula vinculante que impede a exigência de depósito prévio ou de arrolamento de bens como condição para apresentar recurso perante a Administração Pública.


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Por Petrônio Braz - 1/12/2009 08:43:52
Vale a pena ser divulgado

Nada de subserviência, não se agradece com a toga. A declaração no dia 27 de novembro ministro do Supremo Tribunal Federal - STF e presidente do Tribunal Superior Eleitoral - TSE, Carlos Ayres Britto, ao proferir a palestra de encerramento do XVIII Congresso Nacional do Ministério Público, realizado pela Associação Nacional dos Membros do Ministério Público - CONAMP, em Florianópolis / SC.
O ministro defendeu a independência de atuação para os membros do Ministério Público e do Judiciário. "A independência é uma ferramenta essencial à boa prestação da Justiça. Independência técnica, funcional, administrativa e, principalmente, política. Nada de subserviência. Não se pode deixar que a gratidão se confunda com a curvatura da coluna. Não se agradece com a toga", afirmou, ao ressaltar que, apesar de chegarem aos tribunais superiores por indicação, os ministros não podem ser influenciados por questões políticas.
Destacando também a importância da independência do Ministério Público, mesmo com os constantes ataques à atuação de promotores e procuradores, Ayres Britto disse que a instituição é a grande responsável pela garantia da democracia no Brasil. "A democracia é a cláusula pétrea das cláusulas pétreas e o Ministério Público é o maior garantidor da democracia, é o curador da democracia".
Ainda segundo o ministro, o trabalho de promotores e procuradores garante que a Constituição Federal seja cumprida. "O Ministério Público talvez seja a instituição que mais `veste a camisa` da Constituição Federal. São os promotores e procuradores que impedem que ela seja um enorme `elefante branco`, ineficaz".
"Hoje, o Ministério Público é a instituição mais democrática desse país, é a que mais trás contribuições de ordem substancial quando se trata da Constituição Federal. Como o próprio ministro disse, não se pode julgar qualquer Ação Direta de Inconstitucionalidade ou uma Ação por Descumprimento Constitucional sem um parecer prévio do MP", complementou o presidente da CONAMP, José Carlos Cosenzo, após a palestra de Ayres Britto.
"As palavras do ministro Carlos Ayres Britto fecharam com chave de ouro nosso XVIII Congresso Nacional. Por seus pensamentos e opiniões, ele mostrou, mais uma vez, que era do MP e continua sendo, mesmo agora como ministro", avaliou Cosenzo.


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Por Petrônio Braz - 24/11/2009 08:52:17
PEC dos Precatórios

Está sendo votada, hoje, na Câmara Federal, a Emenda Constitucional nº 351/09, que dá nova redação ao Art. 100 da Constituição Federal, que regulamenta a execução dos créditos de natureza alimentícia, os pagamentos devidos pela Fazenda Federal, Estadual ou Municipal, em virtude de sentença judiciária.
Contra essa Emenda tem se posicionado a OAB ao fundamento de que ela desrespeita as decisões judiciais anteriores.
Ao meu pensar ela virá dar oportunidade aos Municípios de quitar os seus débitos em fase de execução judicial e atenderá também aos interesses dos credores. Os Municípios, assim como os Estados e até a União, têm “empurrado” por tempo indeterminado o cumprimento dos Precatórios.
Atualmente, a Constituição determina que os pagamentos de precatórios sigam a ordem cronológica de apresentação, mas os créditos de natureza alimentícia não entram nessa fila. A PEC 351/09 permite a Estados e Municípios limitarem o pagamento mensal de precatórios a percentuais de sua receita corrente líquida enquanto o valor total a pagar for superior aos recursos vinculados por meio desses índices. Alternativamente, poderão adotar, em base anual, para encontrar os valores a pagar segundo o total de precatórios devidos.
Segundo a OAB, a Proposta de Emenda à Constituição 351 representa o maior ataque perpetrado pelo Poder Legislativo contra o Poder Judiciário, e, conseqüentemente, à Constituição Federal. O presidente reeleito da Seccional da OAB do Rio de Janeiro, Wadih Damous, afirmou que "a proposta avilta o Poder Judiciário, leiloando suas decisões e modificando a coisa julgada formada durante décadas nas ações judiciais respectivas." E prossegue afirmando que ela "é incompatível com um verdadeiro Estado Democrático de Direito."


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Por Petrônio Braz - 21/11/2009 19:53:15
Vila Risonha

Por e-mail, a acadêmica Maria da Gloria Caxito Mameluque consultou-me sobre a possibilidade de prefaciar seu novo livro, agora sobre a história de São Romão, sua terra natal. Confirmada a viabilidade ela deixou os originais no Café Galo, no Quarteirão do Povo, com um agradecimento antecipado e uma explicação, que não seria necessária.
A ilustre presidente da Academia Feminina de Letras de Montes Claros em verdade honrou-me com o pedido. A satisfação em atendê-la também veio vinculada à minha dedicação àquela cidade ribeirinha. Assessorei a Câmara Municipal de São Romão, quando da elaboração da Lei Orgânica do Município e, por um ato de liberalidade dos ilustres vereadores constituintes, foi-me outorgado o título, que muito me enobrece, de Cidadão Honorário, pelo que me considero conterrâneo da insigne autora, e integrante da história contemporânea do Município.
Com acerto Maria da Gloria Caxito Mameluque define o ponto alto da história antiga de São Romão como sendo a Conjuração do São Francisco, que ela denomina de “Revolução do Sertão”.
Em artigo anteriormente publicado dei ciência que os barranqueiros do rio São Francisco, revoltados contra os pesados tributos, bem antes da Inconfidência Mineira, saíram da conspiração silenciosa para a ação militar. Com forte contingente de homens armados, Maria da Cruz, Domingos do Pardo e Oliveira, Pedro Cardoso, André Gonçalves de Figueira e outros chefes subiram o rio em barcas para o confronto armado com as forças da coroa portuguesa, em busca da liberdade. Relata Diogo de Vasconcelos que na Semana Santa de 1736, em abril, a família Cardoso reuniu-se em Morrinhos, onde foi idealizado o plano de invasão de Vila Rica, então capital da Capitania, para expulsar o governador Martinho de Mendonça.
Maria da Gloria Caxito Mameluque, como co-autora e organizadora, registra, na fala introdutória, uma realidade, que a todos nós, preocupados com a preservação da história, constrange: a perda gradativa da tradição oral, uma fonte fidedigna. Pela tradição oral, por ser ela um testemunho do que foi visto e ouvido, preservam-se as pequenas histórias, as lendas, os usos e costumes, que são passados de geração a geração. Ela transmite ao historiador a identidade cultural de um povo.
É sempre bom lembrar que História é a ciência que estuda o homem, o ser humano, no tempo e no espaço, tendo como precursores especialmente Heródoto, Tucídides e Hecateu de Mileto, historiadores da Grécia Antiga.
O livro “Vila Risonha – História, tradições e lendas” é, em verdade, uma antologia histórica. Como organizadora Maria da Gloria Caxito Mameluque traz à luz da publicidade trabalhos elaborados por ela, pelo frei Pedro Caxito e por José Natalício Palma.
Maria da Gloria Caxito Mameluque, criando a Introdução, esclarece que escrever um livro sobre a história de São Romão era um sonho acalentado “há muitos e muitos anos”. Ela relembra passagens de sua vida e de suas visitas à terra natal com este objetivo, em busca de subsídios. Cita Antônio Emílio Pereira, Brasiliano Braz e Diogo de Vasconcelos.
José Natalício Palma, o poeta Natinho, por mais de vinte anos preservou trabalho seu elaborado com “Cantos, Encantos e Recantos de Vila Risonha”, que traz apresentação do imortal João Torres e opinião de Benedito Caxito. Uma história poeticamente bem cantada, com detalhes que não poderiam faltar a um relato histórico. Adorei. No Prefácio vou ter oportunidade de comentar esta importante parte do livro.
Em “São Romão”, parte integrante da obra lítero-científica, frei Pedro Caxito, relembrar sua vinculação a São Romão e comprova a existência de seis santos com o nome de São Romão. Ele adentra de forma objetiva nos fundamentos da história, citando Urbino Viana, Carlos Ottoni, Nelson Viana, Teodoro Sampaio, Alfredo dos Anjos, Geraldo Rocha, M.Cavalcante Proença, engenheiro Halfeld, Richard Burton, Wilson Lima Bastos, Francisco Tavares de Brito Sevilha, sem se esquecer da ficção de Guimarães Rosa, que embora não seja história, integra o Sertão. A contribuição do frei Pedro Caxito é uma descrição histórica e uma apresentação geográfica da região.
É construtivo ler “Vila Risonha – História, tradições e lendas”, como forma de aprendizagem, por nos levar ao encontro dos elementos da existência regional, que se encontram nas realizações dos nossos antepassados, especialmente porque os três autores constroem o passado histórico de São Romão vinculados à concepção idealista de Friedrich Hegel.


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Por Petrônio Braz - 21/11/2009 02:15:21
Uma boa notícia - A Segunda Turma do STJ (Superior Tribunal de Justiça) manteve decisão do TJ (Tribunal de Justiça) de São Paulo, que condenou o ex-governador Orestes Quércia a devolver R$ 69 mil aos cofres públicos do Estado.
Quércia foi condenado em ação de improbidade movida pelo Ministério Público. Por unanimidade, o STJ não conheceu o recurso especial ajuizado pelo ex-governador, tendo em vista que o mesmo foi interposto em maio de 2003, portanto, quase um mês antes do julgamento dos embargos infringentes pelo tribunal de origem, realizado em junho, sem posterior ratificação dos seus termos.
No mesmo julgamento, o tribunal rejeitou recurso interposto pelo ex-superintendente do Departamento de Estradas de Rodagem Henrique Julio Valente da Cruz, que também foi condenado por responsabilidade na construção, com dinheiro público, de uma cerca de 10 km em fazenda de propriedade do ex-governador.Todos os brasileiros esperam que a moda pegue. Gostaríamos que todo dinheiro público desviado para os bolsos de políticos desonestos retornasse à sua origem.


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Por Petrônio Braz - 14/11/2009 18:25:12
Marido Traído

Recebi, pelo noticiário eletrônico do JusBrasil, uma decisão interessante do STJ. Decidiu o STJ que “marido traído não deve receber indenização do amante da ex-mulher”
“O STJ (Superior Tribunal de Justiça) negou o pedido de um marido traído que pediu indenização por danos morais ao amante da sua ex-mulher. Os ministros da 4º Turma do STJ disseram que o amante que teve um caso com a mulher durante o casamento não tem responsabilidade civil sobre a traição. A decisão foi tomada na última terça-feira. Para o ministro Luís Felipe Salomão, relator do recurso, não há como o Judiciário impor um "não fazer" ao amante, impossibilitando a indenização do ato por inexistência de norma posta legal e não moral determinada. O marido traído entrou com ação alegando que foi casado de janeiro de 1987 a março de 1996 e que, provavelmente, sua mulher passou a ter um relacionamento extraconjugal em setembro de 1990. A mulher teve uma filha em 1999, que o marido registrou, mas depois descobriu que era do amante. Diante da infidelidade e da falsa paternidade na qual acreditava, o marido alegou que "anda cabisbaixo, desconsolado e triste". O juiz da 2ª Vara Cível de Patos de Minas (MG) havia condenado o amante ao pagamento de R$ 3.500 ao ex-marido por danos morais. Porém, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais afirmou não houve "culpa jurídica" do amante, já que foi a ex-esposa quem descumpriu os deveres impostos pelo matrimônio. O marido recorreu ao STJ e alegou que o adultério resultou no nascimento da criança e o ato foi praticado por ambos. Segundo o ministro Salomão, o cúmplice de adultério é estranho à relação jurídica existente entre o casal”.
O resultado do julgamento vem atestar que, nos tempos atuais de liberação sexual e valorização da mulher, o adultério não é mais visto com os olhos da Idade Média.
A decisão do juiz monocrático da 2ª Vara da Comarca de Patos de Minas, todavia, deve ter sido fundamentada nos ensinamentos do Direito Romano. No Direito Romano apenas o adultério da esposa era passível de punição pelo Estado. Mas o homem com quem ela cometia adultério também poderia ser punido.
O adultério, como conceitua o Aurélio, é a infidelidade conjugal; amantismo, prevaricação.
O adultério implica na presença de uma terceira pessoa no relacionamento marido-mulher, e sempre foi tido, em todas as civilizações antigas, como uma grave violação dos deveres conjugais. Em algumas delas, a mulher adúltera e a terceira pessoa que com ela praticava o ato, eram condenados à morte.
Na Idade Média, na concepção do clero, a mulher era vista como o elo mais fraco da criação, mais sujeita à tentação que os homens. Visão que nos vem da Bíblia, quando remete a Eva e não a Adão a responsabilidade pelo pecado original. Para Aristóteles a mulher era um homem imperfeito.
A própria Igreja criou a imagem do adultério sempre ligado à mulher, por ser esta, segundo os representantes do clero, mais sujeita ao pecado da luxúria, “pecado feminino por excelência”. O nosso Código Civil, sancionado nos primeiros anos do Século XX, dava ao marido o direito de repudiar a esposa quando esta não era virgem e punia o adultério feminino.
Quando a mulher comete adultério ela trás para o interior do lar conjugal o resultado de seu ato (filho); quando o homem comete o adultério ele deixa lá fora o efeito de seu procedimento. Daí o entendimento que durante anos vigorou nas leis canônicas e mesmo nas leis civis.
Nos países mulçumanos ainda persistem as práticas medievas e o adultério (feminino) ainda é punível com a pena de morte. Nos tempos modernos, quando a sociedade atingiu o ponto alto de aceitar a prática do “swing”, a legislação ocidental resolveu a questão instituindo a anulação do casamento, a separação judicial e o divórcio. Até a própria Igreja já admite a anulação do casamento religioso.
No caso do julgamento final pelo STJ, em seu pedido, o marido traído havia alegado a presença de danos morais. Considerou ele ter havido uma ofensa moral à sua honra pela terceira pessoa, não por sua esposa, com repercusão na imagem de seu nome. Verdade que, com relação à esposa e ao filho adulterino a solução já estava dada: divórcio e negatória de paternidade. O que não tinha ficado objetivamente definido era o custo do adultério. Tudo leva a crer que ele – o Autor – considerava sua esposa uma propriedade sua e, por conseguinte, quem a usasse deveria pagar-lhe pelo uso.


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Por Petrônio Braz - 12/11/2009 15:26:20
Dever de registra a história

Em conversa com Itamauri Teles, informou-me ele que, por solicitação de Clêuber Carneiro, está coletando dados para escrever a história do Ginásio “São João”, de Januária.
Como ex-aluno do referido educandário, fiquei entusiasmado com a ideia. Muitos são os ex-alunos do Padre João, ainda presentes, que poderão contribuir para que a história seja fixada e não se perca na esteira do tempo.
Em casa, no mesmo dia, lendo a Coluna de Manoel Hygino no jornal “Hoje Em Dia”, sobre o tema “Fazenda História”, em que ele comenta obra de Ruth Tupinambá Graça, destaquei que “a história só se constrói mediante a reunião das pequenas histórias, nascidas da transmissão oral ou escrita através de sucessivas gerações. Não há povo sem pequenas histórias, daí não existir povo sem história”.
O dever de registrar o passado histórico não é saudosismo no sentido de superestimar o passado, é uma obrigação para com a geração presente e um respeito para com as gerações passadas.
O passado é a alma do presente. O saudosismo, no Século das Luzes, chegou a se constituir em uma doutrina filosófica, principalmente em Portugal.
A história da humanidade existe porque foi escrita.
Eça de Queirós nos lembra que “Leónidas ou Péricles não bastariam para que a velha Grécia ainda vivesse, nova e radiosa, nos nossos espíritos: foi-lhe preciso ter Aristófanes e Ésquilo”. Os grandes feitos dos grandes heróis, somente chegaram até nós porque alguém escreveu sobre eles.
Proust, como já tive oportunidade de lembrar em artigo outro, autor de “La recherche du temps perdu”, saudosista de costumes e pragmático em acontecências, ressaltou que “não haverá - na arte ou em qualquer outro setor intelectual - realidade mais profunda que aquela onde personalidades procuram encontrar expressões e ações da vida. Nada mais exato, porque a função da arte é principalmente a de descobrir verdades e reconstituir valores da consciência coletiva”.
Já era tempo de se registrar, em um livro, para preservação de valores, a história do Ginásio “São João”. Não basta que por ele tenham passado ilustres personalidades do presente, sem que a sua existência seja registrada. Meus aplausos a Clêuber Carneiro; minha confiança no talento comprovado de Itamauri Teles.
Por outra via, recebi e-mail da acadêmica Glorinha Mameluque, ilustre presidente da Academia Feminina de Letras de Montes Claros, comunicando-me haver concluído um livro sobre São Romão (Vila Risonha de Santo Antônio da Manga de São Romão), sua terra natal, pedindo-me para prefaciá-lo.
Em parte do meu poema “Gênese do São Francisco” eu retrato a conquista da Ilha de São Romão, habitada pelos Guaíbas, da grande nação Tapuia: “Cardoso, do São Francisco regente, / com o poder d’El Rei assaz cingido / de herói, em máscara revestido, / fez bramir sua espada ingente. / Impõe, pela força de sua gente, / o poder pela espada urdido, / para que seu nome fosse temido / no sertão todo como inclemente. / Pela força a região conquistou, / E a límpida areia da praia, / Que ao longo do rio se espraia, / com o sangue dos bravos se manchou. / O índio na mata se ocultou, / recuando com mostras de agonia / em busca da vingança, quase pia, / que o emboaba inepto provocou. / A vingança os índios proclamaram / no ritual que a todos desafia, / em fastidiosa coreografia / a dança da guerra eles dançaram. / Aos duendes celestes invocaram / ao som no maracá, em polirritmia, / com o pagé servindo-lhes de guia, / as forças p’ra vingança que clamaram. / Como turba valente, exortada, / do fundo do sertão eles desceram / e com todas as forças combateram / aos brancos em última emboscada. / Vencidos os caiapós n’ssa contenda, / Com perdas que as partes detiveram, / a sede de vingança contiveram / e a paz finalmente foi firmada. / Por Helena os gregos mais ousados / contra Troia em guerra pelejaram, / e os feitos das vitórias que tiveram / foram pelo Homero celebrados. / Na guerra aos guaíbas celerados / Catarina os bugres seqüestraram / e p’ra mata das origens a levaram / em desonra dos brancos revoltados. / Na glória de seus bélicos tambores / os gregos os seus feitos memoráveis, / em escritos e versos tão notáveis, / aos pósteros legaram seus valores. / Pela mão de seus clássicos autores, / em obras ‘inda hoje inesgotáveis, / em essências de vida formidáveis, / cultuaram seus imortais amores. / Ao alvedrio de dúplices temores, / De estranhos guelfos e gibelinos, / Sofreando os brancos libertinos / e suportando bárbaros horrores, / nutrindo de amor as suas dores, / Catarina sem versos cristalinos, / sem poetas p’ra cantar esses destinos, / ingressou na história sem louvores”.



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Por Petrônio Braz - 11/11/2009 16:51:24
Padre João Florisval Montalvão

No aguardo de uma sessão de radioterapia na Santa Casa, em conversa com a advogada Mafalta Madureira Mafra, que também aguardava a sua vez, tive conhecimento através de convite a ela enviado pela acadêmica Maura Moreira, presidente da Casa da Memória do Vale do São Francisco, de que nos dias 13, 14 e 15 de novembro em curso a cidade de Januária, no embalo da saudade e da gratidão, estará em festas comemorando os cem anos do nascimento do Monsenhor João Florisval Montalvão.
Sem sombra de dúvidas, o Padre João é o mais ilustre educador, expoente máximo da história da educação no Norte de Minas no Século XX, fundador e diretor do Ginásio “São João”. Orgulho-me de ter sido seu aluno.
Feliz a terra que reconhece e venera os seus valores.
Januarense, imortalizado como patrono da Cadeira nº 35 da Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco, o padre João Florisval Montalvão merece a nossa permanente lembrança. Ele é nome de uma escola pública em Januária, mas muitas vezes o nome se integra à instituição e não à pessoa homenageada.
Januária, ao tempo do eterno Padre João (Ginásio São João) foi um berço cultural de credibilidade reconhecida no setor da educação.
Em pronunciamento na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, em 28/6/95, o deputado Clêuber Carneiro requereu que fosse inserido nos anais daquela Casa Legislativa a comunicação do falecimento do padre João Florisval Montalvão, esclarecendo que “a sua passagem causou consternação a Januária e calou, num profundo sentimento de pesar, os seus familiares, amigos e ex-alunos”. Elucidou que o padre João “foi, sem dúvida, o mais proeminente dos januarenses de sua geração. Educador emérito, plasmou gerações, legando a Minas e ao Brasil homens bem preparados para o exercício da cidadania. A sua saga foi marcada por uma dedicação e um trabalho profundos na área da educação. Com o padre João, Januária foi o centro irradiador da cultura no Norte de Minas. Por toda sua obra e pela sua vida, nosso tributo de reconhecimento; uma dívida que jamais pagaremos sendo-lhe eternos devedores."
As solenidades terão início no dia 13, às 5:00h com Alvorada da Banda de Música Prof. Batistinha e terão sequência com um “city tour” promovido pela Secretaria Municipal de Turismo, com saída às 9:00h da Casa da Memória. Como podia deixar de acontecer, por ser o homenageado um Padre que honrou a sua batina, haverá Missa, às 19:00h na Cátedra Nossa Senhora das Dores.À noite haverá encontro de violeiros na Avenida São Francisco.
As solenidades terão prosseguimento nos dias 14, com a presença da Banda de Música da Polícia Militar de Minas Gerais e 15, com encerramento de escuna pelo rio São Francisco.


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Por Petrônio Braz - 8/11/2009 12:33:14
Os olhos tristes de Ulisses

As ideias são o fio condutor do pensamento e das ações do ser humano. Elas nascem simples e mesquinhas como um pequeno riacho ou uma insignificante enxurrada nos dias de chuva, mas vão crescendo, incorporam-se a outros cursos d’água, criam volume e terminam por formarem o oceano.
Lipa Xavier é um homem de ideologia formada, consciente. As ideais em sua mente são, em sua essência, um caudaloso rio que irriga as férteis manifestações dos sistemas dogmaticamente organizados por Karl Marx, Engels e Proudhon, vinculado que é ao PC do B, partido do qual é membro de direção estadual. Secretário-adjunto de Cultura do Município de Montes Claros, é sociólogo, como não podia deixar de ser, graduado pela UNIMONTES.
O Brejo das Almas é berço de literatos. Eu diria que a nata cultural de Montes Claros teve origem no Brejo. Lipa Xavier é mais um brejeiro-montesclarense que nos brinda com um livro que me surpreendeu positivamente.
Conhecia, e sempre admirei, o político Lipa Xavier, mas desconhecia o literato, que muitas vezes se manifestava nos seus pronunciamentos públicos, nas entrevistas. Mas Lipa Xavier havia já vencido concursos literários no contexto universitário. O literato já existia.
A escritora, educadora e consultora editorial Maria Luiza Silveira Teles, autora do Prefácio da primeira obra de Lipa Xavier, atesta que ele como estreante “tem a tarimba de um antigo profissional das letras”. Considera ela “o conto o gênero mais difícil da literatura. É preciso ser mestre de muita inspiração e habilidade para lidar com ele. No entanto, o autor, sertanejo de savoir-faire, nos encanta com histórias curtas que falam das coisas e da gente do sertão”.
Quem é sertanejo sabe que o sertão, como bem definiu Guimarães Rosa, é do tamanho do mundo; o sertão não tem fronteiras. Quem escreve sobre o sertão, redige para o mundo.
Integram o livro contos que individualmente já qualificam o autor. “O sublime princípio da loucura (ou o pispiar da lucidez)”, “Servano”, “Rosa das almas”, “Os olhos tristes de Ulisses” (que dá nome à obra), “Serenas chuvas nos Gerais”, “Anos, saudades e alumbramentos” e “Um sopro que me ventou aos ouvidos”.
Lipa Xavier abre o seu livro revelando-se, em comparação com Valodia Teitelboin, do país de Neruda, ser bígamo. Mas, depois de ler, verifico que ele é polígamo. Ele efetivamente ama a política, amante traiçoeira; revelou amar a literatura, companheira de espírito irrequieto; ama a si mesmo, amor indispensável à auto-afirmação; ama a natureza, amor universal; ama a vida.

O Bóia-fria

O Grupo Agreste, com Manoelito, Braúna, Sérgio, Pedro Boi, meu conterrâneo Tom Andrade, Chorró e Gútia, marcou presença na cultura Norte Mineira, com projeção nacional. Nome nascido da inspiração de Ildeu Braúna e fundamentado na literatura de Jorge Amado (Tiete do Agreste).
Não se pode lembrar do Grupo Agreste sem ler o artigo de Karla Celene Campos publicado no primeiro número da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros: “Saudades do Agreste”.
Saindo da música, mas vinculado à poesia, Manoelito Xavier e Dinamérico Xavier nos ofertam, em “O bóia-fria” um belo poema do gênero que poderíamos chamar lítero-cordelista, onde retratam a saga do “bóia-fria”.

Manhã de Arrebol

Maria Luiza Xavier Souto, outra integrante literária da família Xavier, em “Manhã do Arrebol” nos transmite a força lírica de sua poesia e, unindo palavra e canto, nos informa suas meditações, suas imaginações, suas lembranças e suas recordações, e nos conduz a um processo mental de reflexão.
“Hoje estou à margem do núcleo, / à margem da vida e do verbo, / incompreensível como o gelo seco. / Hoje nenhum olho de aquece, / nem mesmo aquele que, ébria, eu supus ser verde, / como a lembrar-me um mato, um musgo, um peixe. / Hoje até mesmo a lembrança do homem que freqüentou-me os sentidos / aparece-me fria de nariz adunco. / Na sua testa, hoje pequena, as tardes são mortas, crestas, / porque hoje, no rigor do inverno, / sou gelo, inexorável e seca”.




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Por Petrônio Braz - 24/10/2009 12:32:58
Retalhos de Vida

A sede do Elos Clube de Montes Claros esteve engalanada na última sexta-feira (23/10/2009) quando ali se realizou, no início da noite, uma reunião solene da Academia Montesclarense de Letras para o lançamento do esperado livro ”Retalhos de Minha Vida” de Afonso Prates Borba, membro honorário da Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco – ACLECIA. O livro veio a público com o respaldo de caráter cultural dos acadêmicos João Caetano Canela e Dário Teixeira Cotrim, recomendado por Cristina Santos Canela e Júlia Maria Lima Cotrim e foi exposto pela acadêmica Yvonne de Oliveira Silveira. A reunião foi marcada por apresentações de números de declamação e canto, com destaque para a fala repleta de amor filial de Elaine, filha do Autor.
No Antigo Testamento temos à mão o Livro da Sabedoria, de onde se extrai que “a sabedoria é mais estimável do que a força”, livro cujo autor é desconhecido e que se refere a Salomão, o mais sábio rei dos judeus. Afonso Prates Borba, como Salomão, é um ser que veio ao mundo do ventre de sua mãe e, tendo nascido, respirou o mesmo ar que todos respiramos e deu a conhecer a sua voz chorando. Teve a mesma entrada na vida, comum a todos os seres humanos, mas não terá a mesma saída, porque ele se distingue no meio de seus semelhantes. Ele possui a inteligência, que lhe foi dada e adquiriu a sabedoria, que conquistou. A sabedoria de Afonso Prates Borba está presente no correr de sua atribulada e profícua existência e se manifesta nas páginas de seu livro de memórias, que esta circulando entre os que estiveram presentes ao lançamento e deverá ser lido por centenas de pessoas porque é uma obra literária de experiência real de vida. Sabedoria que nos mostra o conhecimento de suas reminiscências com temperança e sensatez, e nos faz refletir sobre o passado, que nos leva a uma projeção de futuro.
Li o livro de Afonso Prates Borba de um só fôlego e, em muitas passagens de sua vida com ele me identifiquei, embora não tenha passado a minha infância em Montes Claros. Como toda criança, íamos à escola, jogávamos futebol e bolas de gude. Das figurinhas recordo-me das que lembravam a Segunda Grande Guerra. Todas as crianças sadias são malinas e moleques. Como criança ele viveu feliz e, como homem, realizou todos os seus sonhos.
Sempre me deleitei e muito aprendi com seus escritos nos jornais locais e já aguardava que viessem a lume, em forma de livro, para a fixação de sua presença no meio cultural do Norte de Minas. As páginas do seu livro, as inúmeras frases por ele escritas, me causaram muitos bens.
A orelha da capa extrai-se que ele já publicou algumas poesias de sua autoria e principalmente levou ao conhecimento público, através dos periódicos locais, suas críticas políticas e seus escritos diversos. Ele foi serventuário da justiça por longos anos e, por merecimento, foi-lhe outorgada a Medalha de Honra ao Mérito Desembargador Hélio Costa.
João Caetano Canela conclui a sua Apresentação informando que “escrito com a pena da leveza, e elaborado com delicadeza de sentimento e emoção aflorada, “Retalhos de Minha Vida”, antes de constituir-se num relato de interessantes episódios da existência do autor – um observador sensível e arguto -, é um desagravado depoimento de vida de um homem compassivo, reverente e humano, que aceita o mundo e se propõe a compreender a prodigiosa aventura que é viver.”
Como todos os brasileiros, Afonso Prates lamenta a derrota do Brasil para o Uruguai, em 1950, em pleno Maracanã. Amargura que não se apagou, apesar das conquistas futuras de tantas Copas. Mas 1950 foi o ano em que ele começou a trabalhar, como aprendiz, no Cartório do decantado e imortal poeta Cândido Canela. Mas, como nem só de pão vive o homem, Afonso Prates recorda-se das caçadas de perdizes, nas campinas do alto da Serra do Catuni, no Capão do Muquém, na Cabeceira do Pau-Furado, citando amigos. Caçadas que ele considerava esporte, o esporte dos nobres. Ele lembra-se também das pescarias.
Quem nunca chorou!... Qual o ser humano que pode afirmar de sã consciência nunca ter chorado? O severo Antônio Dó chorou. Afonso Prates Borba também chorou. Ele confessa: “Em estado de choque desci para o Cartório, tranquei-me em minha sala e chorei como nunca havia chorando antes; um choro convulsivo, de homem adulto, em total desalento com uma dor imensa no coração...”
Mas o livro não poderia terminar sem uma confissão de amor à sua esposa Wanda: “Querida, hoje, cinquenta anos depois, te amo com a força de todos os amores que te amei no passado...”


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Por Petrônio Braz - 15/10/2009 07:16:08
XXIII Salão Nacional de Poesia

Com uma justa lembrança, na orelha da capa, dos centenários de Hermes de Paula, Cândido Canela e Olyntho da Silveira, a antologia do XXIII Salão Nacional de Poesia - Psiu Poético deste ano de 2009, coordenada por Dário Cotrim, selo da Gráfica e Editora Millennium, foi lançada na Barraca do Livro, na Praça da Matriz, no último domingo.
O Secretário de Cultura, Ildeu Braúna, apresentando a Antologia declarou: “Entendemos que o livro é um veículo de divulgação de cultura e, sobre todos os aspectos, esclarecedor, pois contribui de forma inequívoca para os mais amplos conhecimentos da língua, da arte, das tradições, dos costumes. Por isso, a Secretaria Municipal de Cultura de Montes Claros, nesta oportunidade agradece aos que integram a Antologia Poética do XXIII Salão Nacional de Poesia – Psiu Poético, uma ideia criativa e solidária que encontramos para que os escritores possam trilhar o caminho certo para a publicação das suas obras”.
Neste ano, 37 poetas se fizeram presentes, especialmente convidados.
Doris Araújo é realmente impressionante, uma bas-bleu apesar de modesta, que se destaca em nosso meio cultural. Quando declama suas poesias ela, como afirmou Ovídio, se inflama e agita o deus que vive dentro do seu humano ser. Ela nos faz sentir quando chega e deixa um vazio quando parte. A sua presença nos faz lembrar Fernando Pessoa: “Basta pensar em sentir / Para sentir em pensar. / Meu coração faz sorrir / Meu coração a chorar. / Depois de parar de andar, / Depois de ficar e ir, / Hei de ser quem vai chegar / Para ser quem quer partir”.
Karla Celene reclamou, com razão, quando eu distraidamente a chamei de Dorislene. Mas sendo poetisa ela sabe que Karla Celene rima com Dorislene. As duas são minhas musas e interliga-las em um contexto único é uma forma de amalgamar valores correlatos. Uma coisa me consola quando vejo Karla Celene, a certeza de tê-la no rol de minhas amigas. Ela tem um visceral coração, no sentido figurado de profundo. Quando leio as suas poesias ou quando com ela converso, sinto-me engrandecido.
Aroldo Pereira apesar de enigmático, não é difícil de ser compreendido. Eterno modernista de vanguarda, como uma atuação brilhante, ele comanda o maior espetáculo cultural do Norte de Minas, que é o Psiu Poético. Agitador cultural, poeta e ator, ele certa vez reclamou-me quando, em um artigo, demonstrei restrições aos excessos liberatórios da poesia moderna. Na orelha da Antologia ele observa que “a intensidade da palavra poesia, impregnada de signos e invenções, e o desejo de escrever uma poesia faz muitos perder o sono. A gente vai se iludindo com uma prosa, algumas rimas, outras invenções... são diversas tentativas vãs. No muito, conseguimos de vez em quando escrever um poema. Mas o melhor de tudo é que ninguém desiste. Estamos há mais de vinte e três anos demonstrando com o nosso Salão Nacional de Poesia Psiu Poético essa busca que felizmente não tem fim”.
Dário Cotrim, baiano de Guanambi, no corpo da Antologia ele canta sua terra natal em uma quase epopéia, um hino de louvor. Como coordenador da Antologia ele nos faz cientes de que “a Antologia do Psiu Poético, do XXIII Salão Nacional de Poesia, certamente que será um livro cheio de belos poemas. Em cada um deles há de haver as mais belas mensagens de amor e de amigo”.
Sebastião Abiceu, esteio maior do Projeto “Livro na Praça”, que todos os domingos nos deleita com o mostruário de livros de autores montesclarenses na Praça da Matriz, não me surpreendeu com o seu “Segredos da Vida”. Tudo na vida começa frágil como os grandes rios.
Participam da Antologia os poetas: Albino José dos Santos, Amélia Prates Barbosa Souto, Ana Maria Simões Alkmim, Angelina Alves do Amaral, Ariele Rezende Costa, Arnaldo Leite Prates, Aroldo Pereira, Carlos Magno Tolentino Vieira, Charlanes Oliveira Santos, Dário Teixeira Cotrim, Deomício Macedo, Doris Araújo, Erisvaldo Ferreira Silva, Evany Cavalcante Brito, Expedito Veloso Barbosa, Gislene Rodrigues de Souza Campos, Gonzaga Medeiros, Jason de Morais, João Antônio Pimenta, Karla Celene Campos, Lurdinha Fonseca, Márcio Adriano Moraes, Marcos Gionanny Neves Almeida, Maria das Dores Cangussu Cunha, Maria Iêde Nunes Costa Zuba, Marlene Porto Bandeira, Marlon Cangussu, Miriam Magalhães Mendes, Natália Lopes de Paula Andrade, Olavo Ponciano, Olímpio Elton da Silva, Regina Célia Moreira Dourado, Renilson Durães, Sebastião Abiceu, Terezinha Campos, Túlio Lopes de Paula Andrade e Vera Veríssimo.


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Por Petrônio Braz - 13/10/2009 19:35:11
Nico Porreta

No último dia dez de outubro em curso, deste ano de 2009, Augusto José Vieira Neto, o Bala-Doce, lançou em Montes Claros os livros “Nico Porreta” e “Vou te contar...”, pela manhã no Café Galo e, logo depois, no Skema. Estive nos dois eventos. Faltaram livros para quem queria.
Já não sei em que atividade cultural e produtiva humana não encontro um descendente meu. Os filhos são onze e os netos somam já vinte e cinco. Para minha surpresa, no livro “Vou de contar...”, do Bala-Doce, deparo com meu neto Rodrigo Braz atuando como revisor. Porém, não é do “Vou te contar...” que quero falar, mas conversar acerca do “Nico Porreta”.
Com sua bondade, de todos conhecida, o escritor Augusto Bala-Doce, que se inscreve no rol de meus amigos, que já foi advogado atuante, professor universitário, juiz de direito e procurador-chefe de defensoria pública, autografou-me um exemplar do “Nico Porreta”: “Petrônio. O mestre da civilização do São Francisco. Receba o Nico com meu mais profundo respeito”. Sou grato ao Bala-Doce pela deferência.
Na orelha da capa, a título de Prefácio, Patrus Ananias observa que “Augusto Vieira é um grande contador de histórias, que na maioria das vezes tem a marca do humor e da alegria. “Nico Porreta”, novela forte e bem escrita, traz um registro diferente. É uma obra marcada pelo declínio e pela tristeza, mas profundamente brasileira, ora registrando momentos, ora integrando, na transcendência temporal, diferentes fases históricas”.
Manoel Hygino dos Santos, repetindo Oscar Wilde, afirmou que “não há bons ou maus livros, mas livros bem ou mal escritos”. “Nico Porreta” é um livro bem escrito.
Augusto Bala-Doce abre o livro com o conto “Origens e primeiros amores”, que retrata a vida amorosa de todos os jovens, que viveram no romântico período que antecedeu a liberação sexual da mulher. O amor de Nico Porreta e Sofia, o primeiro amor de todas as vidas, de todas as juventudes, evaporou-se da vida do garoto como uma “nuvem passageira, desfeita no calor da arrogante atmosfera familiar”, mas a chama de todo primeiro amor nunca desaparece, mesmo quando transformada em cinzas, pois “elas aquecem a alma” quando dele nos lembramos. “Meu primeiro amor / foi como uma flor / que desabrochou / e logo morreu”.
As narrativas têm como cenários a orla marítima da Bahia (Porto Belo e Belmontina), do antigo reino de Portugália e a turbulenta São Sebastião, a Cidade das Maravilhas (Rio de Janeiro), neste País que voltou a ser Vera Cruz, na identificação de Bala-Doce. Ouros Gerais seria Ouro Preto? Ele altera as denominações sem camuflar o reconhecimento, com certa dose de humor irônico, que Freud caracteriza como uma forma de enganar a censura e provocar o riso, fazendo-me lembrar o escritor português Mia Souto com o seu “Jesusalem”. “O humor é necessário para a vida humana.” (S. Tomás de Aquino).
Ele descreve com propriedade o drama inicial de Nico Porreta na cidade grande e nos leva a acompanhar a sua evolução adaptativa, com o ingresso no universo futebolístico, ou mais precisamente nas fileiras do Flamingo (se for Flamengo é mera coincidência).
Criado pelos avós, após anos de procura Nico finalmente se encontra com a mãe, a velha Angelina, e toma conhecimento do destino do pai. Em rápidas pinceladas de sua pena, ou melhor, em bem definidas premidas nas teclas de seu computador, ele relembra a euforia da Era JK, a bossa nova, o lançamento do Sputnik pelos russos, a Vera Cruz dos anos 50.
De sua aproximação com Puto Velho, o trotskista Putrior Iavelovsk, advém a sua doutrinação marxista.
Nico Porreta amou Larissa, amou Izadora, amou a prostituta Roberta que se parecia com Izadora, amou Elizabeth, mas rejeitou-a no altar, com um solene “não”. Sofreu incicatrizáveis dores de amor.
O que mais de marcante se apresenta na vida de Nico Porreta, além das glorias do futebol e dos amores traídos, é a sua atividade política numa época de restrições à liberdade, de triste lembrança. Ele viveu intensamente uma vida cheia de ideologia e sofreu as amarguras da repressão, da tortura. Aqui, o livro de Bala-Doce é uma denúncia.
Nem todo final é feliz.
Fico por aqui, e deixo aos futuros leitores a curiosidade de conhecerem o derradeiro ato da novela, o fechar do pano.


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Por Petrônio Braz - 22/8/2009 21:40:12
Conversar, ler e conviver

Não é segredo, porque está incorporado à sabedoria popular, que só teremos uma vida completa quando “plantamos uma árvore, escrevemos um livro e temos um filho”.
Alguns não plantaram uma árvore, mas derrubaram muitas. Ter um filho é o caminho natural da procriação, vinculado à essência da sensualidade do ser humano. Plantar árvore e ter filho não é uma exclusividade do homem. Os passarinhos plantam arvores e têm filhos. Eles disseminam as sementes. Todos os seres vivos têm filhos. As árvores produzem as sementes, que serão futuros vegetais de sua descendência. Mas, escrever um livro é próprio do ser humano; um sonho por muitos acalentado. Zélia Gattai começou a escrever aos 63 anos e é imortal. Outros iniciam cedo.
Quem já escreveu sabe que o importante é começar, experimentar pela primeira vez. Escrever o que sente e só depois burilar o texto escrito. É o que faz, por exemplo, Amelina Chaves. Esta última fase é que caracteriza o escritor, que dá forma e define o estilo. O importante é principiar. Escrever o que sente e cortar depois o desnecessário. Aqui a lição do filósofo francês Voltaire: “escrever é a arte de cortar palavras”.
Quem escreve para ser lido é diferente das demais pessoas. Não é um ser comum. Pode não possuir tesouros materiais, nada impede que os tenha, mas desfruta de uma deslumbrante existência. Ele vê os lírios do campo e a alma do ser humano; observa as luzes do dia e a escuridão da noite; sente o silêncio de um sorriso e a profundidade de um olhar; examina seus pensamentos e seus sentimentos. Ele vê, observa, sente e examina todas as coisas realmente fundamentais. Ele pensa e cria.
Adverte Ana Amélia Erthal, jornalista e mestre pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que “em grande parte, aprender a escrever é aprender a pensar, aprender a encontrar ideias e concatená-las, pois “assim como não é possível dar o que não se tem, não se pode transmitir o que a mente não criou ou aprovisionou”, diz Othon Garcia. Escreve realmente mal aquele que não tem o que dizer porque não aprendeu a pôr em ordem seu pensamento, e como não tem o que dizer, nada lhe servem as regras gramaticais, nem mesmo o melhor vocabulário de que possa dispor. Por mais que se conheça a Língua Portuguesa, sem a criação das ideias, a ortografia, a gramática e a sintaxe são apenas estruturas de palavras, que podem dizer nada. Mas onde e como encontrar as ideias? Como inventá-las, criá-las ou produzi-las? A fonte principal de nossas ideias é a nossa experiência. Tudo aquilo que conhecemos e guardamos forma nossa base de entendimento e serve para nutrir nossa criatividade. Se você acha que a sua experiência não é suficiente, valha-se da experiência alheia através de conversa, de leitura e de convívio”.
Mas, muitas vezes, a conversa nos irrita, especialmente quando palestramos com convencidos autodidatas. Nesta hora somos levados a nos lembrar de Mario Quintana quando ele afirma que “autodidata é um ignorante por conta própria”. Todavia, a conversa com pessoas realmente cultas é sempre edificante. Enriquece a mente e satisfaz o espírito. De uma simples frase se retira um ensinamento. O projeto “Livro na Praça”, da Secretaria Municipal de Cultura, abre a todos interessados uma grande oportunidade de conversar com escritores, como uma forma de incentivar o gosto pela leitura.
A leitura é a melhor maneira de se adquirir a desejada experiência para o mister de escrever. As pessoas que lêem, escrevem e falam como os escritores de suas preferências. Ocorre sempre uma interação. Poucos conseguem criar, como Guimarães Rosa, a sua própria estrutura linguística. Ler é muito importante. Todavia, pesquisas têm mostrado que a carência de leitura se inscreve, hoje, como uma das principais deficiências do brasileiro. Quem lê deve buscar identificar objetivamente o sentido das palavras e interpretar bem cada capítulo lido. É costume afirmar que não se diz nada que já não tenha sido dito, todavia, todos os dias, todas as horas, são criados novos valores e novos ensinamentos.
Por derradeiro, retornando a Ana Amélia Erthal, o convívio com pessoas intelectualizadas é muito útil. É costume popular afirmar-se: “Diga com quem andas e direi quem és”. A convivência, todavia, requer o respeito às diferenças individuais. Em todo bom relacionamento é importante saber a hora de falar, de calar, de ouvir, isto porque conviver é respeitar as diferenças, as convicções alheias, especialmente aquelas vinculadas às crenças de natureza espiritual. Aqui um ponto nevrálgico. Para um bom convívio é sempre salutar evitar discutir crenças religiosas e políticas.


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Por Petrônio Braz - 19/8/2009 22:27:34
Olyntho da Silveira

Este ano de 2009 está sendo marcado por uma série de comemorações de importantes centenários como o do nascimento de Felicidade Perpétua Tupinambá, da descoberta da Doença de Chagas, do nascimento do arcebispo Dom Hélder Câmara, do falecimento do escritor Euclides da Cunha, do nascimento de Carmen Miranda, do nascimento de Ataulfo Alves de Sousa, e outros mais.
Também neste ano comemoramos os duzentos anos do nascimento de Charles Darwin, autor do importante livro “A Origem das Espécies”.
A relação seria grande se o objetivo fosse enumerar os centenários que neste ano se comemoram. Mas, em verdade a importância maior, neste mês de Agosto de 2009, vincula-se à lembrança de ontem, de quase hoje, do escritor Olyntho da Silveira, cujo centenário de nascimento será objeto de homenagens da Academia Montesclarense de Letras, programadas para o dia 25 de agosto em curso, em solenidades no Automóvel Clube.
O acadêmico Olyntho da Silveira, escritor e poeta, por muito pouco deixou de estar presente nas festividades de seu centenário de nascimento. Nas comemorações de seus 99 anos estivemos em sua residência, a convite de sua esposa, escritora Yvonne Silveira. Como lembrou Itamaury Teles, “foi uma noite festiva”.
Olyntho da Silveira nasceu em Brejo das Almas, hoje Francisco Sá/MG. Foi fazendeiro, comerciante, funcionário público, delegado de polícia, vice-prefeito de Montes Claros. Membro da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais e da Academia Montesclarense de Letras, de que foi presidente. Ele publicou: “Cantos e Desencantos”, “Minha terra e a nossa história”, “Portais Versificados”, “Francisco Sá nas suas origens: O Velho Brejo das Almas, Cinquentão”, “Cantos Chorados” e, em parceria com sua esposa Yvonne de Oliveira Silveira, “Brejo das Almas”. Realista e amoroso, no seu soneto a Maria Luísa, em auto-realização, ele canta: “Você começa a sua Primavera, / enquanto o meu Outono está no fim / e aproveitá-la mais eu bem quisera. / Mas mesmo assim bendigo a sua vinda, / Pois que você é o Universo em mim, / na pouca vida que me resta ainda”.


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Por Petrônio Braz - 14/8/2009 19:58:53
Livro na Praça

Domingo, Dia dos Pais, dando espaço livre em casa para o que desejassem fazer, fiel à minha rotina domingueira, estive na barraca do livro, do projeto “Livro na Praça”, da Secretaria Municipal de Cultura, na Praça da Matriz.
Entre uma e outra laracha, como dizem os portugueses, ou um e outro bate-papo como dizemos nós que vivemos abaixo da linha do Equador, estive folheando alguns livros (são muitos).
Gostei e li, por algum tempo, “Vamos brincar de brincar” de Milene Antonieta Coutinho Maurício. “Você que nasceu na era espacial! Você que nasceu na cidade grande! Você que vive em apartamento! Você que vê televisão o dia todo! Não fique aí parado: Ainda há tempo de ser criança! Desligue a televisão! Corra!!! Salve-se!!! VAMOS BRINCAR DE BRINCAR?” Os tempos são outros, mesmo nas cidades menores. Era tão bom correr pelas ruas de forma irresponsável, sem qualquer compromisso. Brincar de esconde-esconde, jogar futebol com bola de meia ou de bexiga de boi, para os meninos, ou brincar de roda para as meninas. Ler Milene Coutinho Maurício, em “Vamos brincar de brincar” é rever um passado ainda presente em nossas lembranças de crianças amadurecidas pelo tempo. Milene Coutinho é companheira da Academia Montesclarense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros e da Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco.
O cordel de Jason de Morais “Caçador e Pescador em Desafio”, edição independente, tomou parte considerável de meu tempo. Nascido nas barrancas do rio São Francisco, não fui pescador, mas penitencio-me de ter sido caçador, na minha juventude. Folheando o livro lembrei-me de Téo Azevedo, o cantor do sertão. Jason de Morais, poeta repentista, compositor, nascido e criado no sertão, foi caçador e pescador. “Aqui em Montes Claros / Há muito tempo passado / Existiu o Zé Tibúrcio / Um caçador afamado / Mas era tão mentiroso / Que deixava o povo abismado. / Mentia com sinceridade / Sem direito a ser gozado, / E se alguém criticasse / Ele ficava zangado, / Lá, chegavam caravanas / Que levavam algumas granas / E eles mentiam sossegados”. Jason de Morais é natural de Juramento/MG, mas reside em Montes Claros há incontáveis anos. Autor de “Inspiração de um poeta”, “Depois da vida”, “Rancho Solitário”, “Desafio de Mentira”, “Caçador e Pescador”, “Êta Saudade”, “Pequizeiro” e “Alguém chorou por você”. Ele apresentou-se no “V Festival” da Rádio Record, de São Paulo, em 1982. Um nome conhecido.
Os escritores são muitos, os tipos de linguagem variados, os gêneros literários diversos. Abro, em momento outro, “O dia em que Chiquinho sumiu”, de Wanderlino Arruda, um livro de crônicas, com flagrantes de vida, apresentação de Haroldo Lívio. Na crônica que dá nome ao livro, instalada nas primeiras páginas, o sentimento de uma perda, o valor de uma afeição compartilhada pela força da amizade. Não houve tempo para ler mais. Wanderlino Arruda, mineiro de São João da Ponte é, antes de tudo, montesclarense. Sua biografia é das mais invejáveis deste sertão mineiro, não pelos bens materiais, mas pelo seu valor cultural. É difícil saber o que ele não é e do que ele não participou.Naquele domingo passei as vistas sobre outros livros, grande parte dos quais já tive oportunidade de ler. É agradável ver as pessoas passarem, pararem e manusearem os livros, com real interesse e efetiva aprovação, enquanto a música de João Chaves e de outros de igual valor deleitam os nossos ouvidos.
O projeto “Livro na Praça”, como já informei em outra oportunidade, é uma realização da Secretaria Municipal de Cultura, sob a direção de Ildeu Braúna e coordenação de Doris Araújo, Dário Cotrim, Sebastião Abiceu e Marcelo Tiago de Brito. Está buscando difundir as obras literárias dos escritores montesclarenses e da região Norte-Mineira. A mostra pública ocorre todos os domingos, na Praça da Matriz, no horário de 9:00 às 14:00 horas.
Os livros são expostos para conhecimento dos visitantes que comparecerem à barraca do Projeto. Todos os domingos alguns escritores se fazem presentes, em processo de revezamento, promovendo uma interação com os visitantes, num processo autor-livro-leitor.
Ainda na Praça da Matriz escrevi este artigo, em papel emprestado pelo Sebastião Abiceu, degustando, em uma das inúmeras barracas, uma meia porção de torresmos e tomando uma cervejinha gelada, aguardando a hora de rever os parentes, no horário de almoço, no dia que se definiu como de homenagem aos Pais.


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Por Petrônio Braz - 22/7/2009 08:37:48
Flor do Ipê Roxo

Nada é mais agradável do que dar asas ao espírito, desafogar a mente e sentir-se humanamente ligado à natureza, dentro do contexto urbano, em uma tarde qualquer na hora final do dia, assentado despreocupadamente em um banco da Praça da Matriz, aqui em Montes Claros, no aguardo do jorrar cronometrado da água da fonte central, que brota com precisão exatamente às dezoito horas. Ouvir, em seguida, o badalar do sino da Matriz na hora do ângelus, conclamando os fieis à oração vespertina. É um momento de paz, que se pode viver diariamente, a custo zero.
É salutar correr os olhos pelas grandes e nativas árvores ali preservadas, que formam um contraste entre o natural e o artificial; admirar os ipês roxos em plena inflorescência, embelezando a Praça com sua rústica presença, dentro de uma cidade embrutecida pelo concreto armado, pelo asfalto das ruas, pelo barulho dos carros, pela insensibilidade do ser humano.
Os ipês derramam sobre a grama centenas de flores que dão uma coloração roxa à área ao seu redor, fazendo-me lembrar entristecido de centenas de ipês outros, espalhados pelas matas, que ainda permanecem intocadas pela mão do homem, e que nesta mesma época de inflorescência servem de esperas favoráveis a caçadores irresponsáveis, nas noites de lua cheia.
O jorrar da água e o dobrar do sino na hora crepuscular, nos deslocam da violência urbana e das perturbações sociais para um instante de sublimação, que nos leva a um um momento de paz interior, a uma concentração meditativa, afastando-nos de todos os aspectos desagradáveis da vida.
Em uma dessas tardes, fui lavado a meditar sobre a cosmovisão budista e convencer-me de que “o universo é composto por vários sistemas mundiais, sendo que cada um destes possui um ciclo de nascimento, desenvolvimento e declínio que dura bilhões de anos.” Fui levado a ver que estamos no final de um desses sistemas, que se afirma nos males causados à natureza pelo próprio homem.
O planeta Terra chegou a um ponto de saturação pela destruição dos incontáveis ecossistemas, mas ainda existe a possibilidade de uma reversão, sem necessidade de se gastar bilhões de dólares para se pretender colonizar o distante planeta Marte, como opção preservacionista da espécie humana. Se esses bilhões, que se pretende gastar, forem aplicadas na preservação do meio ambiente terrestre e na diminuição da emissão de gazes poluentes, nosso Planeta continuará a acolher o ser humano, a permitir que ele aqui viva e se reproduza. E que ele possa assentar-se com tranquilidade em uma praça qualquer, em uma cidade qualquer, e sentir-se ligado à natureza, ao meio onde vive e considerar-se integrado a esse conjunto heterogêneo de rochas, de água e de ar que se chama Terra.


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Por Petronio Braz - 21/7/2009 01:19:37
Produção Literária

O vocábulo universo não tem apenas um sentido cosmológico, ele representa um todo, o conjunto totalizado de objetos ou de estudos. Dentro do Universo Lítero-cultural do Norte de Minas Gerais, tenho procurado destacar pessoas que se fazem ou se fizeram presentes no contextos regional.
Na série de artigos na Coluna Caleidoscópio, usando a oportunidade que me foi oferecida pelo jornal “O Norte de Minas”, faltando ainda muitos, já me referi, uma ou mais vezes a Adalberto Pereira da Silva, Aderbal Murta de Almeida (Padre), Afonso Lima, Ájax Amaral Tolentino, Alcione Araújo, Aldeci Xavier, Alexandre Nunes Silveira, Alfredo Vianna de Góes, Amélia Prates Barbosa Souto, Amelina Chaves, Andréa Maria Narciso R. de Paula, Anfrísio Lima, Angelina de Oliva Antunes, Aniel dos Santos, Antônio Augusto Souto, Antônio Augusto Veloso, Antônio Emílio Pereira, Antônio Felix da Silva, Antônio Ferreira Cabral, Antônio Gonçalves Chaves, Antônio Hatem, Antônio Montalvão, Argelce Mota, Aroldo Pereira, Arthur Fagundes, Artur Lobo, Ary Oliveira, Augusto José Vieira Neto (Bala-Doce), Avay Miranda, Beatriz Azevedo, Brasiliano Braz, Brenno Álvares da Silva, Caio Lafetá, Camilo Prates, Cândido Canela, Cantídio de Freitas, Carlos Alberto Alves Pereira, Carlos Chiacchio, Carlos Diamantino Alkmim, Carlos Lindenberg, Carlos Maia, Castelar de Carvalho Leite, Cilena Altair Joel, Clarice Sarmento, Claudia Maia, Conceição Melo, Corby Aquino, Cynthia Becattini Miranda de Sá, Cyro dos Anjos, Darci Ribeiro, Dário Teixeira Cotrim, Denise Magalhães, Dêniston Fernandes Diamantino, Djalma Alves Teixeira, Domingos Diniz, Dóris Araújo, Dulce Sarmento, Edgar Antunes Pereira, Edson Andrade, Elias Raposo, Emílio Cássio Veloso, Érika Karine Ramos Queiroz, Euclides Gonçalves de Mendonça (Dr. Duque), Expedito Veloso Barbosa, Felicidade Perpétua Tupinambá, Fernando da Matta Machado, Francisco José Pereira, Genival Tourinho, Georgino Jorge de Souza Júnior, Georgino Jorge de Souza, Geraldo Antônio Dias Guimarães, Geraldo Avelar, Geraldo Guimarães, Geraldo Majela de Castro (Dom), Geraldo Ribas, Geraldo Ribeiro, Geraldo Tito da Silveira, Godofredo Guedes, Grimaulde Gomes, Haroldo Lívio de Oliveira, Heloisa Neto Castro, Henrique de Oliva Brasil, Herbert Linhares Pimenta Frota, Herculano Teixeira de Souza, Hermando Baggio Filho, Hermenegildo Chaves, Hermes Augusto de Paula, Honorato Alves, Humberto Antunes Madureira, Ildeu Braúna, Inácio Quinaud, Itamaury Teles, Ivan Passos Bandeira da Mota, Ivana Ferronte Rebello e Almeida, Ivo das Chagas, Jackson Antunes, Jandira Braga do Rosário, Jason de Morais, Jerúsia Arruda, João Antônio Pimenta (Dom), João Balaio, João Caetano Mauricio Canela, João Chaves, João Cleps Júnior, João Duque Nunes de Oliveira, João Fernandes Torres, João Florisval Montalvão (Padre), João Jorge, João Luiz Lafetá, João Naves de Melo, João Vale Maurício, Joaquim Cesário (Padre), José Catarino Rodrigues, José Luiz Rodrigues, José Raimundo Neto, José Rodrigues dos Santos (Prof. Dão), Jove da Mata, Júlia Maria Lima Cotrim, Juvenal Caldeira Durães, Karla Celene Campos, Konstantin Cristoff, Leda Selma, Leonardo Álvares da Silva Campos, Lília de Andrade Câmara, Lúcia Gomes, Lúcia Nunes (Maria Lúcia Nunes da Rocha Leão), Luciene Rodrigues, Luiz Carlos Novaes, Luiz de Paula Ferreira, Luiz Ribeiro (jornalista), Lygia dos Anjos Braga, Manoel Ambrósio, Manoel Hygino dos Santos, Manoel Oliveira (Tio Manoel), Márcia (Yellow) Vieira, Maria Celestina de Almeida, Maria da Glória Caxito Mameluque, Maria de Lourdes Chaves, Maria Elizabeth Rocha Mendes (Betinha), Maria Eugênia Matos Silva (Lia de Jô), Maria Inês de Matos Gonçalves, Maria José do Carmo Rodrigues (Marijô), Maria Lúcia Becattini Miranda, Maria Luiza Coutinho, Maria Luiza Silveira Teles, Maria Olívia Mercadante Simões, Maria Ribeiro Pires, Maria Vieira Silva, Mariângela Diniz, Marta Verônica Vasconcelos Leite, Maurílio Arruda, Mauro Moreira, Milena Coutinho Mauricio, Miriam Carvalho, Moisés Vieira Neto, Napoleão Valadares, Nazinha Coutinho, Nelson Washington Vianna, Olyntho da Silveira, Orlando Ferreira Lima, Oswaldo Antunes, Paulo Emílio Pimenta, Paulo Gonçalves Pereira, Paulo Pardal, Paulo Sérgio Nascimento Lopes, Pedro de Oliveira, Rafael Freitas Reis, Reginauro Silva, Reivaldo Simões Canela, Reynaldo Veloso Souto, Roberto Carlos Santiago, Roberto Mendes Ramos Pereira, Roberto Sanguinette, Robson Rodrigues Costa, Ronaldo José de Almeida, Ruth Tupinambá Graça, Saul Martins, Simeão Ribeiro Pires, Sylo Costa, Téo Azevedo, Teófilo Ribeiro Pires, Theodomiro Paulino, Tobias Leal Tupinambá, Urbino de Sousa Viana, Vanessa M. Brasil, Waldir de Pinho Veloso (Farnôt), Wanderlino Arruda, Wandré Nunes de Pinho Veloso, Yvonne de Oliveira Silveira, Zanoni Eustáquio Roque Neves, Zé Coco do Riachão, Zezé Colares, Zino Oliva (Ambrósio Ferreira de Oliva), Zoraide Guerra David e Zulma Antunes Pereira.


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Por Petrônio Braz - 16/7/2009 10:42:41
Caleidoscópio

Zoraide Guerra

Zoraide Guerra David, baiana de Mortugaba, vinculada cultural e emotivamente a Montes Claros, companheira da Academia Montesclarense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, para meu aprazimento fez-me doação de seu novo livro “Documentário Mozart David”. Ela teve a delicadeza de entregar-me um exemplar em minha residência, em um final de semana, momento oportuno para a leitura. Mas foi no dia 02 de julho, dia comemorativo da independência da Bahia, que comecei a ler.
Georgina Silva dos Santos, professora do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense e doutora em História Social das Ideias, pela Universidade de São Paulo, observa que “escrito muitas vezes por jornalista, historiadores diletantes e personalidades de sucesso na mídia televisiva, o gênero biográfico migrou, nas últimas décadas da centúria passada, das salas de excelência acadêmica para as bancas de jornais, deixando, assim, as bibliotecas universitárias (...). Tornou-se um suporte para a reparação de calúnias, uma arma contra juízos maldosos ou, ainda, um instrumento para afirmação de celebridades em busca da notoriedade. A trajetória, porém, não transcorreu sem perdas e danos. O rigor antes imposto à biografia histórica, atenta à constituição de um “corpus” documental homogêneo e imbuída da preocupação de garantir ao dito e ao escrito o estatuto de “verdade”, deu lugar à satisfação narcisista. E, como tal, libertou-se das exigências impostas por um saber que se prende científico”.
Como um instrumento para afirmação da legítima notoriedade de Mozart David, cuja trajetória de vida estava a exigir registro nas páginas de um livro, a historiadora Zoraide Guerra David, autora de várias obras literárias, publicou, ao apagar das luzes de 2008, o “Documentário Mozart David”. Ela retrata com rigor a biografia histórica de Mozart David, atenta à constituição de um “corpus” documental homogêneo.
Zoraide Guerra é uma historiadora preocupada em resgatar lembranças, em fixar memórias, em preservar valores de pessoas e de comunidades humanas. Em “Documentário Mozart David” ela faz a justiça da História a um homem público de real valor, uma pessoa que acreditava na possibilidade de realizar sonhos e de mudar o mundo.
A Autora encantou-se “com o leque de qualidades que ornou a vida de Mozart David, e que veio a ser causa e consequência de seu prestígio como cidadão comum ou como político de escol, atuante e destemido, provocando são orgulho de sua família, amigos, correligionários, conterrâneos, enfim dos seus contemporâneos”.
Mozart David foi prefeito de Jacaraci/BA, tendo exercido o cargo, inicialmente durante a ditadura Vargas e, depois, por eleição, vinculado ao antigo Partido Social Democrático-PSD.
Mozart Davi seguia e proclamava a filosofia, creio eu que chinesa: “Eu passarei por este caminho uma só vez; qualquer bem, portanto, que eu possa fazer ou qualquer bondade que eu possa demonstrar a qualquer ser humano, deixe-me fazer logo. Não posso adiar, não posso esquecer, pois não passarei por este caminho outra vez.”
Maravilhosas palavras que se assentam à personalidade do biografado.
Homem culto, pelo que se extrai de seus discursos transcritos na obra de Zoraide Guerra, Mozart David marcou época não só em sua terra, mas em toda a região sul da Bahia. Em uma de suas inúmeras reflexões, importante para todo historiador, ele observou que: “É preciso falar do passado. O passado é o melhor documento comprobante do progresso, da hospitalidade e da cultura de um povo. O passado é a melhor garantia para o futuro. O despeito é impotente ante o passado, porque o passado é a verdade suprema, é o sol imperecível, é a luz máxima dos acontecimentos.”
São compositores literários como Zoraide Guerra David que preservam para a posteridade a lembrança da própria vida. O que seria da história da humanidade se não existissem escritores que, através de suas obras, nos fizessem lembrar e preservar na memória a vida dos grandes conquistadores, dos grandes construtores, dos grandes administradores, dos assírios, dos egípcios, dos gregos, dos celtas, dos mongóis, dos germânicos. Sem eles nós desconheceríamos a existência de Buda, de Confúcio, de Maomé e do próprio Cristo. Tais escritos, especialmente os gregos, são as fontes, os patrimônios documentais da humanidade, conservados pela tradição doxográfica.
O livro de Zoraide Guerra é também, em complemento a outra obra por ela anteriormente publicada, a história política de Jacaraci/BA, cidade serrana do sertão baiano.


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Por Petrônio Braz - 12/7/2009 05:38:16
Leonardo Álvares da Silva Campos

A Paleoantropologia, ciência que estuda o homem primitivo é o tema do primeiro livro de Leonardo Álvares da Silva Campos - "O Homem na Pré-história", constituindo-se o campo de estudos de sua preferência.
Leio na Resenha do Rê, de Reginauro Silva: “Lançado de mão em mão, faz sucesso intramuros, com tendência a ganhar o mundo, o livro ‘A Inacabada Família Humana’, do estudioso e pesquisador Leonardo Álvares da Silva Campos. Entre os temas abordados pelo advogado e paleontólogo estão filosofia, política, costumes, amor, história, atualidade... Nosso exemplar não sai da cabeceira, até que consigamos degustar todo o seu conteúdo”.
Das mãos de Leonardo Campos recebi um exemplar de seu livro “A Inacabada Família Humana” que veio a lume com selo do Armazém de Ideias, de Belo Horizonte. Como se extrata do Prefácio, trata-se de um livro diferente subdividido em dez atos. Mas não é essa necessariamente a dessemelhança, ela sobressai do texto, do conteúdo que nos faz serpear em sinuosos raciocínios de contradições espirituais. Em um ato primeiro, Leonardo Campos veleja em abstrações existentes no domínio das ideias, desenvolvendo informações em busca de uma afirmação ideológica. Devaneia destemido, e nos faz vaguear em análises de um racionalismo lógico entre o agnóstico e o ateu, buscando definir-se em espaço limitado entre a ciência e a fé. Ele, nessa linha, com intensidade de saber, nos conduz pela mão ao encontro de informações de fundamental importância, que nos levam da aurora da humanidade aos primeiros passos do cristianismo. Aprofunda-se em identificações renovadoras. Ele cuida da análise objetiva do cristianismo primitivo, com suas contradições bíblicas mercê do Concílio de Nicéia, enfocando muito o patriarca bíblico Enoque (autor de tantas colocações atribuídas, tempos depois, a Cristo) e os achados na Tumba de Talpot, na velha Jerusalém, dos restos mortais de Jesus, de um seu filho, de sua mãe Maria e outros seus familiares. Conclui o primeiro ato dizendo que se não fosse o ministério de Paulo de Tarso (São Paulo), o apóstolo da diáspora do cristianismo, este hoje provavelmente não existiria.
Através de diálogos entre interlocutores indefinidos, pertencentes à imperfeita família humana, em dias de torpor da vida modorrenta, somos levados a ver o mundo pelo prisma da Divina Comédia, a declamar o poema “Vou-me Embora pra Pasárgada” de Manoel Bandeira e reler “Minha Luta” de Adolf Hitler. Ou, ainda, identificarmos os males das relações entre os primatas evoluídos, o desvio de personalidades dos adoradores de Mamom e estabelecermos uma nova visão do mito teogônico sobre a origem das divindades femininas, na ambiguidade da psique humana. Homem de cultura, Leonardo Campos tece críticas à falsa cultura, à visão turva dos que julgam os outros como eles, os julgadores, efetivamente se apresentam.
Sempre assentados, ora em um bar, ora em uma praça, os interlocutores divagam entre verdades e inverdades, sobre “opressões do sistema em suas noites soturnas, sobre o homem funéreo travestido de cordeiro, sobre deuses nórdicos ou sobre a sabedoria eterna das nossas origens na poeira de estrelas”. Em um terceiro momento os colocutores analisam as relações entre o público e o privado, que eles identificam como um momento catártico pela necessidade de purificação e nos levam, por esta via, a Aristóteles em presença de um drama emocional. Estaríamos vivendo em um País de Tropicana, de mera ficção, tão bom quanto desejamos que fosse? É possível que sim, pois a cada período eleitoral, como lembra Leonardo Campos, “os políticos aparecem pedindo votos”. Eles nesse período conseguem ser convincentes, mas “somem após, como num passe de mágica, e nós só voltamos a vê-los no período eleitoral subsequente.”
Com objetividade, os indefinidos personagens analisam a eterna dicotomia entre o bem e o mal e, através deles, Leonardo Campos nos faz cientes de que a Inquisição suplantou os horrores perpetrados por Hitler. Observa ele que “se Hitler planejou o seu Terceiro Reich para durar mil anos, o mesmo se revelou afinal o mais curto de todos, desintegrando-se em apenas doze anos. A seu turno, a Inquisição triunfou por mil anos.” De ser apontado, por oportuno, que um dos interlocutores, cita palavras de Hitler, que ainda se fazem presentes no contexto da humanidade: “Logo que aparecer um homem que conheça profundamente as misérias do seu povo e que procure enxergar claramente a natureza dos seus males, tentando remediar tudo, logo que ele visar a um fim e traçar o caminho a seguir, imediatamente os espíritos mais mesquinhos ficam atentos, seguindo com ansiedade os passos desse homem que chamou para si a atenção geral.”


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Por Petrônio Braz - 5/7/2009 08:52:22
A dupla Carlos Maia e Charles Boavista (Maia y Boavista), esteve em noite de gala na homenagem a Amelina Chaves, no auditório do Centro Cultural, no dia 25 de junho passado. Foram fantásticos. Todavia, na noite de sábado passado, quando se apresentaram no Restaurante Quintal, decepcionaram os presentes em razão do estado etílico de Boavista. A apresentação teve como ponto positivo a persistência profissional de Carlos Maia. Gosto da dupla, mas fica aqui minha observação como uma crítica sincera e objetiva.


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Por Petrônio Braz - 1/7/2009 08:32:26
Amelina Chaves

Há pessoas que envelhecem com o passar dos anos e deixam que a mente se avelhente prematuramente; há as que perdem, com o tempo, a mocidade do corpo, mas a mente se mantém jovem.
Lembra Luiz de Paula Ferreira que “a madrugada que passou não volta mais”. Algumas madrugadas, alguns dias da vida, deixam saudades, misto de alegria; outras infundem tristeza, mescla de decepções. O tempo passa leve “como as asas do vento” e deixa marcas. Marcas que robustecem e demarcam a própria existência. Não sentimos o passar do tempo, mas ele sempre passa e no seu percurso delimita valores. Quando isto acontece, a vida alcança os seus objetivos, o seu próprio significado. Pedro J. Bandaczuk nos lembra que o fotógrafo norte-americano Edward Steichen, acostumado a flagrar as cenas mais chocantes e incompreensíveis do cotidiano, observou: "É possível compreender os estragos da bomba atômica. Mais difícil é entender o significado da vida".
No dia 25 de Junho passado, no Centro Cultural Hermes de Paula, o colunista social João Jorge, com o brilhantismo de sempre, conduziu uma merecida homenagem à escritora Amelina Chaves, com a participação ativa de Carlos Maia e Charles Boavista (Maia y Boavista), à qual se associou o secretário de cultura Ildeu Brauna, com os aplausos de todos nós. Escrevendo, Amelina Chaves encontra o sentido da vida.
Porque a “memória é uma construção do futuro, mais do que do passado”, como disse Murilo Mendes, é que vemos a homenagem a Amelina Chaves como uma preservação futura de sua glorificação no presente. Para a grande maioria dos escritores demoram-se anos para que seja dado valor às suas obras e, muitas vezes, por gerações que com eles não conviveram.
Nós, daqui deste Sertão, falarmos sobre Amelina Chaves não tem mais graça. É chover no molhado. Vejamos o que sobre ela disse Valdivino Pereira Ferreira, do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano e do Colégio Brasileiro de Genealogia, do Rio de Janeiro: “A escritora Amelina Chaves tem sido um baluarte das letras e das artes no chão norte-mineiro desde algum tempo. Tem no coração o amor pelas letras nas suas mais variadas formas e carrega nas mãos um cálamo deslizante, que entontece a tela do computador todas as vezes que ela se senta ao lado dele para compor seus livros regionais. A bela dama de Montes Claros, nascida num povoado perdido nas Minas Gerais — tão amplas, múltiplas e unas, como diria João Guimarães Rosa — e adotada com amor filial pela grande metrópole norte-mineira, tem se revelado mesmo um espírito inquieto e irrequieto. A prova disso está no passeio que faz por entre as diversas formas da escrita. Divide a sua arte na poesia, no conto, na crônica, no romance regional, na biografia, no folclore, no folclore. Até na composição já enveredou-se. Fico a imaginar o que seria desse Brasil e de nossas cidades sem essas sacerdotisas, diletantes em história e genealogia, para contar a sua história e para resgatar o seu passado. Foi o mestre João Capistrano de Abreu (*1850—†.1927), quem disse que a “História do Brasil é um pouco a história das famílias e dos municípios espalhados pelo seu território”. Recebi aqui em Turmalina a oferta generosa de vários títulos de sua produção literária: “O eclético Darcy Ribeiro”, sobre o maior de nossos sociólogos no campo da antropologia; “Um mineiro de Caratinga no Planalto”, sobre o vitorioso empresário mineiro José Romão Filho, que se radicou nas proximidades de Brasília; “João Chaves: eterna lembrança”, um preito de homenagem ao grande vate montesclarense, compositor de imortais modinhas seresteiras; “Jagunços e coronéis”, um saboroso romance regional que nada fica a dever a nenhum escritor de renome. Já tinha dela “O andarilho do São Francisco”, outro romance regional de ótima composição dramática, imaginativo e denso. Amelina, de fato, é uma trabalhadora incansável da palavra. Fez acordo com o tempo, pois gerou para o mundo e para a sociedade organizada, nada mais nada menos do que quinze filhos, que se estendem hoje numa plêiade de netos e bisnetos, noras e genros, que engrandecem e aquecem os belos “Montes Claros das Formigas”. Amelina enriquece e adorna qualquer lugar em que viva. Essa é a bela filha do povoado de Sapé, pelas fraldas da Serra Geral. A cultura montesclarense está em paz consigo e com o mundo: Amelina é um recanto, um remanso de paz cultural. Mas é um torpedo perigoso para aqueles que não amam nem defendem a bela cidade de Montes Claros “montes clareou”. Assim é Amelina, o romance de Tolstoi que anda: a “Guerra e Paz” na defesa cultural. Em se tratando da cultura gorutubana, norte-mineira e brasileira, é claro”.



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Por Petrônio Braz - 26/6/2009 21:40:15
Centenário de Euclides da Cunha

Em 15 de agosto de 1909 o escritor Euclides da Cunha, um dos maiores intelectuais de todos os tempos deste País, deixou a existência terrena, assassinado por Dilermando de Assis, amante de sua mulher Ana Emília Ribeiro. O homem, por um impulso natural, liga-se sempre a uma mulher, mas nem sempre essa mulher é a metade faltosa que completa a sua existência.
Lembrei, em artigo outro, transcrevendo Edyr Augusto, que “o momento de escrever é comparável ao de fazer amor”, mas escrever muitas vezes é doloroso, não a dor fingida do poeta Fernando Pessoa, mas a amargura de relembrar fatos ou pessoas, que nos levam a um sofrimento espiritual.
Neste ano de 2009 somos levados a lembrar, não diria comemorar, o centenário do desenlace terrestre do imortal Euclides da Cunha, e o fazemos com um elevado sentimento de absolvição das agruras dos minutos finais de sua existência.
Na maioria das vezes, ao escrever sinto, de forma prazerosa, o desenlace entre o pensado e o escrito. Neste momento, quando tenho que lembrar a passagem dos cem anos do falecimento de Euclides da Cunha, sinto como que uma dor aguda.
De sua biografia extrai-se que Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha, natural de Cantagalo/RJ, filho do poeta baiano Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha, foi escritor, professor, sociólogo, repórter e engenheiro, tendo se tornado famoso por sua obra-prima, “Os Sertões”, que retrata a Guerra dos Canudos. Diplomado pelo curso de artilharia da Escola Superior de Guerra, é promovido a tenente.
Como jornalista, representando o jornal “O Estado de S. Paulo”, presenciou as atividades bélicas da Guerra de Canudos, experiência que foi aproveitada para escrever “Os Sertões”, livro com mais de cinquenta reedições em português, e algumas em outros idiomas, que é o retrato vivo do Brasil interior, gente, terra e vida.
Evaristo de Moraes, advogado de defesa de Dilermando de Assis, o assassino de Euclides da Cunha, descreve o friamente os fatos, como argumento de defesa: “Era um domingo, 15 de agosto de 1909. Na casa de número 214 na Estrada Real de Santa Cruz, na Piedade, no Rio de Janeiro, entra um homem agitado e nervoso. Era Euclides da Cunha, o autor de Os Sertões. Bate palmas, é recebido pela jovem Dinorah de Assis, a quem manifesta o propósito de avistar o dono da casa, Dilermando de Assis, aspirante do Exército. Vai logo entrando na sala de visitas. Aí, saca de um revólver e diz: "Vim para matar ou morrer!". Entra no interior da casa e atira duas vezes em Dilermando que, atingido, cai. Dinorah, vendo o irmão ferido, tenta arrebatar a arma de Euclides. Ouvem-se mais dois disparos. Outro tiro e Dinorah é atingida na coluna vertebral, junto à nuca, inutilizada para o resto da vida. Dilermando, embora ferido, consegue apanhar o seu revólver, atira duas vezes sem atingir Euclides. Euclides aperta o gatilho de novo e recebe um tiro de Dilermando que lhe fere o pulso. Duelo de vida e morte. Tiros de ambos os lados e um projétil atinge o pulmão direito de Euclides, que cai morto ao solo. Assim foi o que se denominou "A Tragédia da Piedade".


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Por Petrônio Braz - 21/6/2009 07:09:56
Miriam Carvalho

Ivana Ferronte Rebello e Almeida, graduada em Letras pela Universidade Estadual de Montes Claros, mestra em Literatura Brasileira, centrada, principalmente, na obra de Guimarães Rosa, nos brindou com uma maravilhosa apresentação do livro “Eterno Instante” da acadêmica Miriam Carvalho, cujo lançamento ocorreu no dia 19 de junho passado (sexta-feira) no Bacco Buffet, em Montes Claros.
Ivana, professora que é, em oração improvisada, proferiu uma linda aula sobre poesia, que complementou a alocução de Yvonne Silveira, presidente da Academia Montesclarense de Letras, focada no significado da palavra, como centro de todo sistema linguístico.
Na apresentação que havia preparado, mas que ela deixou sobre a mesa sem ter sido lida, Ivana questiona: “Quem de nós não plantou sementes de sonhos? Quem de nós não guarda uma saudade no peito? Quem não traz a emoção de um abraço? De uma flor ganhada? De uma conversa partilhada?”
Falando sobre Miriam Carvalho, Ivana esclarece que ela “é desdobrável mestra, (...) cristã, cujos versos à Maria e ao divino são orações ritmadas. Mulher, nas emoções que se revelam e se escondem, num jogo de claro-escuro. Literata, dessas que dão a mão a Camões ou a Pessoa, trazendo aos seus leitores ecos das muitas leituras literárias. Humana, por confessar seus limites sem pudores. Corajosa, por colocar-se assim, ante o espelho das letras e desnudar-se em alma e palavras. Honesta por confessar-se, ante signos verbais. Cantora, por usar entonação e ritmo em sua voz.”
Falando sobre a poesia de Doris Araújo afirmei, em artigo outro, que a literatura, que se inscreve como a sexta arte, quando manifesta através da poesia deve integra-se também à música, a primeira arte, pois a leitura de um poema deve conter musicalidade, mesmo na chamada poesia livre. O belo, como nos ensinou Aristóteles (Arte Poética), “em um ser vivente ou num objeto composto de partes, deve não só apresentar ordem em suas partes como também comportar certas dimensões. Com efeito, o belo tem por condições uma certa grandeza e a ordem”. A ordem implica na presença do começo, do meio e do fim, que se interligam para transmitir um sentimento.
Os poemas de Miriam Carvalho, em presença da musicalidade, nos transmitem emoção; falam ao coração. Musicalidade, por ser sentimento e sensibilidade, não possui definição.
“Eterno Instante” é um livro de poesias. Da orelha da capa, da lavra de Lauro Meller, extrai-se a observação de que “a Autora não se prende a um só estilo”. No Prólogo, a Autora nos informa que “escrever poemas traz um sabor de festa. Primeiramente, a preparação que antecede o movimento natural e vivo, cheio de expectativa, próprio de qualquer festa. Ora, traçar essa expectativa, selecionando o melhor verso, a palavra que se aclara com prazer aos nossos olhos, faz parte de quem deseja celebrar com o leitor o ritmo da vida.”
O lirismo, que se extrai do poema “Por sua causa”, nos leva a Camões, mas fez-me lembrar do soneto de Alphonsus de Guimaraens “Hão de Chorar por Ela os Cinamomos”.
Montes Claros está presente na poesia de Miriam Carvalho. Do poema “Fotografia de uma cidade” ela é identificada: “Matriz, sobrados, estórias, / marujadas, catopés e pastorinhas, / cantigas de maio e mais novenas, / quimeras do que rompiam madrugadas / nos ritmos e as sinfonia da noite / e a lâmpada de carbureto de eras nevoentas / mais se escondia que mostrava / os claros montes em recuados tempos...”
A poesia traz em si mesma todo o sentido da vida, como nos lembra Cora Coralina. Ela é “colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.”
Miriam Carvalho tornar evidente o sentido da vida. No poema a “A Palavra de Maria” nos mostra o colo da mãe que acolhe o filho; “Esperança” é um braço que envolve; do poema “Aos ilustres ancestrais” extrai-se a palavra que conforta; “Chego à janela” nos aponta um silêncio reflexivo que respeita; “Um anjo visita a terra” é um olhar que acaricia; “Noite de gerânios” é uma lágrima que corre; “Para você” é um desejo de amor eterno que sacia; em “Amor cativo” a presença do amor que promove.
No poema “Eva” Miriam Carvalho nos indica os caminhos da criação: “Mulher, mostrai vossa figura / no jardim do Éden já andáveis / mulher, bela, porém sombria / à clara luz do dia então trazia / o fruto com as forças de Adão”.



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Por Petronio Braz - 8/6/2009 04:46:56
Canção do Amanhã

O sonho é, segundo Freud, “a realização dos desejos”, mas quando sonhamos acordados o sonho é uma projeção de futuro, muitas vezes vinculada a uma lembrança do passado. Dóris Araújo, em “Canção do Amanhã” sonha em suas “profundas melancolias abissais” e nos leva a fantasias e devaneios.
Yvonne Silveira, no Prefácio do livro, reconhece que Doris Araújo “é uma adesão à poesia, que ela sente e “vê”, e, como folhas cheias de viço, deixa derramar em fartura, nos versos livres, porém, de concentrada musicalidade, revelada em sentido amplo”.
A literatura, que se inscreve como a sexta arte, quando manifesta através da poesia deve integra-se também à música, a primeira arte, pois a leitura de um poema deve conter musicalidade, mesmo na chamada poesia livre. Sem musicalidade, que dá ritmo ao poema, a poesia não é mais do que prosa em foma de verso.
O belo, como nos ensinou Aristóteles (Arte Poética), “em um ser vivente ou num objeto composto de partes, deve não só apresentar ordem em suas partes como também comportar certas dimensões. Com efeito, o belo tem por condições uma certa grandeza e a ordem”.
A ordem implica na presença do começo, do meio e do fim, que se interligam para transmitir um sentimento.
A poesia de Doris Araújo é, antes de tudo, sentimento, com elevado grau da perfeição: “Mãe negra, mãe branca, / Robusta ou franzina, / Idosa ou menina, / São flores divinas, perfumes dos céus. / Mãe força, mãe garra, / Mãe mel de abelha, / Mãe nova, mãe velha, / São belas estrelas, estrelas dos céus. / Mãe pobre, mãe rica, / Do campo, ou cidade, / Mãe luz, mãe verdade, / Mãe triste e sofrida, / Mãe feliz da vida, / São filhas queridas, arautos de Deus. / Mãe loura ou morena, / Inquieta ou serena, / Mãe alta ou pequena, / Evas, Terezas ... Helenas / São todas poemas, são musas dos céus. / Mãe mar de alegria, / Mãe rio de aconchego, / Mãe doce sossego, / Cascata de amor. / Mãe sol do caminho, / Mãe flor sem espinhos, / Mães!... todos do mundo / São campos fecundos de grande esplendor”.
Na orelha da capa o professor Domingos Diniz identifica bem a poesia de Doris Araújo no livro “Canção do Amanhã” quando afirma que: “Abro-o e as palavras ganham vida, personificam-se. Saem das páginas do livro e se fazem íntimas de todos”.
Em seu livro “A dança das palavras” Doris Araújo afirma que “escrever é o meu deleite. Entro em comunhão com o Cosmos. Transcendo o material, irmano-me às estrelas. As palavras me encantam. Muitas vezes – como diáfanos anjos – evaporam-se, deixando em minha mente um sutil perfume. Delicadamente, com a essência das palavras, vou modelando meu poema”.
Doris Araújo inscreve-se no contexto dos amigos que a literatura, na terra de Montes Claros, incorporou ao número seleto das pessoas de meu convívio, companheira de “sonhos e letras”.


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Por Petrônio Braz - 4/6/2009 08:51:37
Maria da Cruz Porto Carreiro

Muito ainda se tem que pesquisar sobre a vida e a obra de Maria da Cruz, todavia, os fatos históricos precisam ser buscados na sua origem, vistos por olhos desprovidos de paixão ou interesse. Qualquer pesquisador menos avisado, por exemplo, que pretendesse reviver a saga de Antônio Dó pelos relatos oficiais da Polícia Militar, registrados nos arquivos em Belo Horizonte, iria considerar o massacre da Vargem Bonita, no município de Januária, de forma diversa da verdade. O oficial responsável pela diligência fez o seu relato para justificar sua barbárie e por sua informação, constante dos arquivos da Polícia Militar, ter-se-ia como verdade que “como acontecera em Canudos anos antes e tal como também sucedera no reduto de Germano Dias, os sertanejos de Vargem Bonita não se entregaram. Morreram como valentes, como homens. Combatendo e de armas nas mãos”. Não é verdade. Mais correta é a versão de Saul Martins: “Felão deu ordem para atearem fogo às casas, que eram cobertas de palha de buriti, a fim de escorraçar os “bandidos”, que se ocultavam nelas. (...) As casas eram ocupadas pelos respectivos donos e suas famílias, moradores do lugar, e não bandidos”. Não houve resistência por parte dos habitantes do lugar.
Assim também não se poderá ver a Conjuração do São Francisco de 1736 apenas pela ótica dos relatórios do governador Martinho de Mendonça, contra quem se rebelaram os são-franciscanos, porque ele não tinha, nem podia ter, conhecimento das razões subjetivas dos barranqueiros, nem com eles conviveu ou manteve entendimentos ou contatos anteriores aos fatos. Como também as atrocidades perpetradas durante a Santa Inquisição não poderão ser conhecidas pelos relatos oficiais da Igreja.
Escrevendo sobre Maria da Cruz, em artigo outro, afirmei que “a poesia de José Gonçalves de Souza marca sua vida; Augusta Figueiredo, em “Maria da Cruz e o Velho Chico”, fixa passagem de sua profícua existência, mas pouco, muito pouco, sobre ela se escreveu até agora. Diogo de Vasconcelos, em sua “Historia Média de Minas Gerais”, é quem melhor informa sobre sua vida. A ela dedicou Antônio Emílio Pereira pouco mais de uma página em seu livro “Memorial Januária – Terra, Rios e Gente”.
Agora, tenho em mãos o livro “Alvará de Perdão Concedido a Dona Maria da Cruz, Viúva”, obra de fôlego, de aprofundadas pesquisas, de autoria de Giselle Fagundes, com belas fotografias da região do São Francisco de Nahílson Martins. Com ele, com o livro de Giselle Fagundes, efetivamente podemos repetir, com Diogo de Vasconcelos, que Maria da Cruz foi retirada da fria e apagada cova do esquecimento.
Tinha dúvidas sobre o seu verdadeiro nome que seria Maria da Cruz Porto Carreiro ou Maria da Cruz Torre Prado de Almeida Oliveira Matias Toledo Cardoso. Para Giselle Fagundes, com fundamento em documentos de valor histórico por ela pesquisados, o nome correto da heroína sertaneja é Maria da Cruz Porto Carreiro.
O livro de Giselle Fagundes é rico pelo valor das pesquisas e relatos fundamentados em documentos, por ela coletados na fonte e as fotos não só dos lugares, mas também de alguns documentos, enriquecem o texto. A árvore genealógica de Maria da Cruz ficou bem definida, assim como a sua participação nos “Motins do Sertão”, que prefiro chamar “Conjuração do São Francisco”, mas o livro não nos apresenta o que ainda precisa ser pesquisado, para fixação efetiva da memória, a obra colonizadora de Maria da Cruz. Ninguém melhor do que Giselle Fagundes para, completando seu maravilhoso trabalho, resgatar tão importante passagem de nossa história.
Diogo de Vasconcelos, em sua “Historia Média de Minas Gerais”, esclarece que “em seus domínios ela possuía teares de algodão, curtumes e oficinas de couros, tenda de ferreiros e carapinas, escolas de leitura e de música, além de armazéns de fazenda”.




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Por Petrônio Braz - 3/6/2009 07:59:45
Célio Barroso
Estive vendo e admirando os quadros e as esculturas em pedra do pintor e escultor Célio Barroso, em exposição no Centro Cultural, ali na Praça da Matriz. Célio Barroso é diplomado pela Escola Nacional de Belas Artes da UFRJ e reside, atualmente, em Glaucilândia, desenvolvendo atividades voltadas para a divulgação de seu trabalho e educação artística de jovens.
Ele tem exposto seus trabalhos em várias outras cidades, inclusive no exterior. É também escritor, voltado para a literatura infantil, tendo publicado, entre outros: “O menino das brincadeiras”, livro que representou a literatura infantil nacional em amostra realizada em Atenas, na Grécia e “Mimosa a bezerrinha formosa”, livro que foi apresentado em Bolonha (Bologna), na Itália. “Caburé no Jardim Zoológico” e “Bruxa Gamburu” são outras produções literárias de Célio Barroso.
Todos os domingos, durante a Feira de Artesanato, que se realizada na Praça da Matriz, ele se faz presente expondo seus trabalhos e ministrando gratuitamente aulas de pintura.


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Por Petrônio Braz - 31/5/2009 08:24:05
Identidade cultural

A identidade é o conjunto de caracteres próprios e exclusivos de uma pessoa, de uma cidade ou de uma profissão. Não precisa ser, necessariamente, uma igualdade completa, quando referida a uma cidade ou profissão.
Passava, no início da noite de sábado, pela Rua Santa Maria quando um conjunto musical de samba de roda chamou a minha atenção. Eles se apresentavam em um barzinho. Parei para apreciar. Sou amante do samba. Eles tocavam e cantavam com marcante profissionalismo e natural satisfação, com os instrumentos básicos do samba de roda: pandeiro, atabaque, berimbau, viola e chocalho. Eles executavam músicas de Ataulfo Alves, Pixinguinha, Noel Rosa, Cartola, Nelson Cavaquinho, Carlos Jobim, João Gilberto, entre outros.
Pouco depois chegou à minha mesa o músico Cláudio Mineiro, competente profisional, que já esteve se apresentando em palcos da Europa. Em um dos pequenos intervalos ele perguntou-me o que eu considerava como identidade cultural de Montes Claros.
Lembre-me, naturalmente, do arroz com pequi e da carne-de-sol, os símbolos da culinária regional, sem me esquecer dos catopés. Mas lembrei-me de que o arroz com pequi está presente na culinária goiana e a carne-de-sol, a nossa carne serenada, é antes um símbolo de Mirabela, embora leve o nome de Montes Claros para o centro-sul do País. Assim, achei que Montes Claros se identifica melhor pelos Catopês, com sua concordância.
Rebuscando a origem dos catopés verifiquei ser muito antiga. Consta que em junho de 1760, no Rio de Janeiro, foi apresentada a dança por negros escravos, homenageando o casamento de D. Maria com D. Pedro. Folguedo afro-brasileiro que acompanhava, originariamente, as procissões de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.
Vemos anualmente, em Montes Claros, a sua apresentação em cortejo ao som de cantos, com o Mestre a conduzi-los. Embora seja visto em outras cidades ou regiões, como Serro/MG, os Grupos de Congado (Caboclinhos, Marujos e Catopés) identificam bem a cidade de Montes Claros.



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Por Petrônio Braz - 29/5/2009 08:26:54
João Botelho Neto

Existem pessoas que realizaram muito e pouco são lembradas, e as que fizeram pouco e são muito lembradas, tudo depende do que se costumou chamar de status, definido em geral pelas condições financeiras, pela maior ou menor influência com contexto social.
João Botelho Neto é uma pessoa que fez muito e tem sido pouco lembrado. Ele foi o primeiro ocupante da Cadeira nº 15 da Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco, que definiu a sua imortalidade terrestre. Foi membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, Cadeira nº 37. Ele foi antes de tudo um idealista. Indo além do pensamento, ele realizou muito dentro do seu conceito subjetivo de vida. Deu um sentido à vida como adepto talvez inconsciente do kantismo, colocando o valor de seu trabalho como o limite da própria razão. Situou a moral de seus atos na aplicação de uma razão prática de vida.
João Botelho nasceu em São Francisco, sendo filho de José Alves Botelho e de dona Emilia Neves Botelho. Técnico Agrícola diplomado pela Escola Média de Florestal, dedicou-se, como meio de vida, a atividades vinculadas à agropecuária.
Político atuante ele foi Vereador às Câmaras Municipais de Brasília de Minas e de São Francisco, mas sempre fez das atividades políticas uma forma de prestação efetiva de serviços às comunidades que serviu.
Ainda como político (a palavra político não cai bem em João Botelho) foi Chefe de Gabinete, em São Francisco, na administração do prefeito Aristomil Mendonça. Foi depois, em tempos alternados e administrações outras, Chefe do Departamento de Instrução, Saúde e Assistência Social, Chefe do Departamento de Obras Públicas, Secretário de Transporte, Secretário de Urbanismo e Meio Ambiente e Recursos Hídricos, mas ele foi, antes de tudo, um pesquisador da história, um ativista ecológico, um preservacionista.
Aposentado e conhecedor de que o meio ambiente em que vivemos afeta a vida, dedicou os anos finais de sua existência terrena em defesa de sua conservação.
Exerceu atividades jornalísticas, atuando na imprensa local onde tratou de temas de cunho social e ambiental.
João Botelho faleceu em São Francisco no dia 1º de novembro de 2007. Com Haroldo Lívio, estive naquela cidade por ocasião de seu sepultamento, representando as duas entidades culturais a que pertenceu. Naquele dia, como escreveu Haroldo Lívio, “O pavilhão brasileiro hasteado a meio pau, na entrada da Câmara dos Vereadores, em São Francisco, confirmava o decreto de luto oficial de dois dias pelo falecimento do ex-vereador João Botelho Neto, notório pesquisador da história local e ecologista consagrado. Merecidamente homenageado pela municipalidade e aplaudido por todas as pessoas que o
estimavam e admiravam, seu nome está imortalizado na galeria dos beneméritos de sua cidade por ter sido guardião do patrimônio histórico e cultural e zelador vigilante da Natureza. Cogita-se de sua indicação para patrono do centro cultural a ser implantado no prédio do antigo Cine Canoas, ora fechado”.
Lembrou Haroldo Lívio que ele “fundou a ONG Preservar, cujo nome diz tudo: preservação dos bens culturais e naturais para manter viva a memória de um povo rico em tradições. Sabe-se que o eminente historiador Brasiliano Braz registrou atos e fatos ocorridos no passado de São Francisco. E que o pesquisador João Botelho Neto batalhou para que a história local não caísse na vala comum do esquecimento coletivo”.


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Por Petrônio Braz - 27/5/2009 12:07:01
Contribuição partidária
Tenho sido consultado por vereadores de algumas cidades brasileiras, especialmente do nordeste, sobre a obrigatoriedade do pagamento, pelos ocupantes de cargos eletivos (agentes políticos) da contribuição partidária. Alguns partidos, neste início de mandato, têm enviado correspondências a vereadores exigindo a referida contribuição mensal e esclarecendo que a recusa poderia resultar em consequências para o próprio exercício do mandato eletivo.
Para esclarecimento temos que nos ater ao teor expressamente definido de algumas normas da Lei Orgânica dos Partidos Políticos, Lei n° 9.096/95. Estabelece o Art. 3º, da referida Lei, ser “assegurada, ao partido político, autonomia para definir sua estrutura interna, organização e funcionamento”. E a regra contida no Art. 31, II, da mesma Lei, estabelece ser vedado ao partido receber, direta ou indiretamente, sob qualquer forma ou pretexto, contribuição ou auxílio pecuniário ou estimável em dinheiro, inclusive através de publicidade de qualquer espécie, procedente de autoridade ou órgãos públicos.
Em complemento, o Art. 38, da mesma Lei, regulamenta a organização do Fundo Partidário, estabelecendo a possibilidade da contribuição voluntária através de doações de pessoa física ou jurídica, efetuadas por intermédio de depósitos bancários diretamente na conta do Fundo Partidário.
Analisando o assunto sob o enfoque da legalidade, levando em consideração o disposto na norma esculpida no Art. 31, da Lei nº 9.096/95, que proíbe ao partido político de receber contribuição em dinheiro de autoridade ou órgãos públicos, sou levado a transcrever resposta do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) à Consulta nº 1.428/DF. A Corte Eleitoral Superior entendeu não ser permitido aos partidos políticos receberem doações ou contribuições de titulares de cargos demissíveis “ad nutum” da Administração direta ou indireta, desde que tenham condição de autoridade. Discutiu-se, no julgamento da matéria, o alcance do verbete “autoridade”, se o mesmo alcançaria todos os servidores; que detenham cargos de provimento em comissão. A interpretação poderá ser restritiva, todavia, prevalece o entendimento de que referidos servidores não estão obrigados à contribuição obrigatória. No mesmo sentido a resposta à Consulta nº 1.135/DF do mesmo TSE.
Se bem analisada a norma do Art. 31, da Lei Orgânica dos Partidos Políticos, ela não alcança, necessariamente, os agentes políticos (no caso vereadores), pelo que a matéria se desloca, com fundamento no Art. 3º, da mesma Lei, para o Estatuto Partidário, sendo oportuno lembrar que a Constituição Federal, em seu Art. 17. § 1º, estabelece ser “assegurada aos partidos políticos autonomia para definir sua estrutura interna, organização e funcionamento e para adotar os critérios de escolha e o regime de suas coligações eleitorais, sem obrigatoriedade de vinculação entre as candidaturas em âmbito nacional, estadual, distrital ou municipal, devendo seus estatutos estabelecer normas de disciplina e fidelidade partidária”.
O Art. 3º da referida Lei, em consonância com a norma fundamental, determina ser assegurada, ao partido político, autonomia para definir sua estrutura interna, organização e funcionamento.
Assim, para esclarecimento dos vereadores preocupados, entendo que os partidos políticos podem definir em sua organização (Estatuto) a contribuição obrigatória dos agentes políticos, com possibilidade de sanções, que poderão gerar, em consequência, até mesmo a perda do mandato eletivo por infidelidade partidária.



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Por Petrônio Braz - 15/5/2009 11:24:48
Brasiliano Braz

Há pessoas que através da palavra escrita conseguiram a imortalidade. Meu pai – Brasiliano Braz – é uma delas. Ele é Patrono da Cadeira nº 18 do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, da Cadeira nº 36 da Academia de Letras do Noroeste de Minas (Paracatu) e da Cadeira nº 01 da Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco. Não precisamos escalar os píncaros das altaneiras montanhas nevadas pelo caldo da cultura para neles encontrar os que se imortalizaram pelas suas obras ou pelos seus feitos memoráveis, durante a curta passagem pelo planeta Terra.
Com Wanderlino Arruda e Dário Cotrim participei, no ano passado, na cidade de Matias Cardoso, de uma reunião da Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa do Estado, que teve por objetivo, em apoio ao Projeto Catrumano, fixar o reconhecimento de ser aquela localidade a mais antiga povoação do homem civilizado nas terras de Minas Gerais.
Escrevendo sobre “As origens da ocupação e do povoamento do Norte de Minas”, João Batista de Almeida Costa destaca os historiadores Diogo de Vasconcelos (1900), Urbino Viana (1935), Affonso de Taunay (1948), Brasiliano Braz (1977) Salomão de Vasconcellos (1944) e Simeão Ribeiro Pires (1979). Por outra via, Eduardo Rodrigues da Silva, em “Bandeirante Matias Cardoso e a Ocupação do Norte de Minas” destaca que “A respeito das doações de sesmarias, Brasiliano Braz afirma que (...) havia fortes razões de ordem administrativa e política que justificavam a doação de grandes patrimônios territoriais a determinadas famílias cujos chefes, elevados assim à condição de verdadeiros potentados, representavam a força do rei, no sertão sem lei, sem policiamento e sem outra autoridade”. Todos os historiadores que sobre o assunto escreveram após 1977, com o fim de descobrirem ou estabelecerem fatos relativos à história da região, citam textualmente, como fonte fidedigna, o nome de Brasiliano Braz.
O historiador Brasiliano Braz foi parte viva da história do município de São Francisco/MG, que ele tão bem escreveu no seu livro “São Francisco nos caminhos da história” e com a qual se identificou nos últimos cinquenta anos de sua vida. Ele é natural de Brasília de Minas (Sant’Ana de Contendas), onde nasceu nos últimos anos do Século XIX, ou mais precisamente no dia 09 de junho de 1897, mas, empurrado pelas mãos de Aisa o mensageiro homérico do Destino, com sete anos de idade, órfão de pai e mãe, transferiu-se para a então insegura terra de São Francisco/MG, ainda conhecida por Pedras dos Angicos. Em Brasiliano Braz, que ali chegou na aurora do Século XX, o líder já se antecipava ao jovem que aspirava crescer, que já buscava, desde a infância, avaliar o que existia por entre as capas de tantos livros quantos encontrasse em seu percurso de vida, fundindo os alicerces culturais, que haveriam de sustentar o autodidata do futuro, e marcariam precocemente sua personalidade. A predestinação, a firmeza de propósitos, a coragem e a fidelidade aos amigos fizeram dele um líder cuja força e poder somente no ancião foram abrandados. A consideração pública, afirmou Péricles na clássica Grécia, “só pode ser obtida pelos que têm talento e probidade”. O talento cultural de Brasiliano Braz fez dele o historiador; sua probidade, que se originou de sua integridade moral, criou o líder incontestável. Ele foi Prefeito Municipal de São Francisco de 1947 a 1950 e, depois, vereador em três legislaturas e líder político do município por muitos anos.
O homem público abriu espaço ao historiador e em 1977, ano em que a cidade comemorou seu centenário, Brasiliano Braz, numa demonstração de seu amor sempre presente à terra de São Francisco, e numa comprovação pública de sua invejável cultura humanística, acumulada no correr dos anos, publicou a sua insuperável obra: “São Francisco nos caminhos da história”.
Sobre ele disse Cândido Canela: “As gerações futuras saberão admirar a obra e reverenciar daqui a cem anos, ou mais, a memória de Brasiliano Braz”. Hermes de Paula atestou: “Feliz a cidade que tem filhos deste gabarito”. José Campomizzi Filho informou: “Realmente, a contribuição de Brasiliano Braz para a história desta província é importante demais”, Cantídio de Freitas disse: “Brasiliano Braz: uma das reservas morais do Norte de Minas” e Sylo Costa declarou que ele foi “o maior político do Norte de Minas”.
Ele faleceu pobre, mas com honra, no dia 24 de abril de 1989, tendo sido sepultado no Cemitério da Saudade, em São Francisco/MG, onde dorme o sono eterno da imortalidade.


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Por Petrônio Braz - 7/5/2009 08:30:20
O Caminho das Letras

Júlia Maria Lima Cotrim em “O Caminho das Letras” nos faz conhecer tanto a obra literária e artística, quanto a pessoa do acadêmico Dário Teixeira Cotrim, cuja vida é muito interessante.
Dário Teixeira Cotrim é especial. O livro nos leva a conhecê-lo melhor, sua maneira de ser e de pensar. Uma biografia.
A biografia é a história da vida de alguém, é um gênero literário em que o autor narra os fatos notáveis ocorridos na existência de uma pessoa, e ela se torna mais valiosa quando este alguém trilhou uma estrada marcada por realizações de alto valor pessoal e literário, como é o caso de Dário Cotrim.
Além do conhecimento próprio, nascido de uma longa vida em comum, Júlia Maria buscou, como fontes de seu trabalho, o patrimônio documental representado por livros e artigos editados pelo biografado e, principalmente, arquivos de inúmeras instituições sociais e culturais, fontes que dão autenticidade ao seu trabalho literário, e que trazem um relevo enciclopédico, por abranger todos os aspectos da vida de Dário Cotrim.
Seguindo as pegadas de Platão e Xenofonte, quando escreveram sobre Sócrates, Júlia Maria, de um lado, como Platão, na “Apologia de Sócrates”, nos traz uma visão do litarato Dário Cotrim e, como Xenofonte, nas “Memórias de Sócrates”, nos oferta a vida cotidiana e a própria intimidade do acadêmico biografado.
Ela nos faz cientes de que Dário Teixeira Cotrim, montesclarense de coração, é natural do Distrito de Paz de Nossa Senhora do Rosário do Gentio, município de Guanambi (BA), sendo filho do comerciante Ezequias Manoel Cotrim e de dona Ida Teixeira Cotrim, nascido em 20 de outubro de 1949, tendo o registro de seu nascimento sido lavrado no Cartório de Registro Civil do Distrito de Ceraíma, termo de Guanambi, informações preciosas que não podem faltar em uma biografia.
Transcreve discurso de Ruth Tupinambá Graça, quando de homenagem prestada ao mesmo Dário Cotrim pela Academia Montesclarense de Letras, no qual a oradora declara que “Dário Teixeira Cotrim, por onde passa, deixa um rastro luminoso que é o retrato de sua personalidade, que com inteligência ímpar e estro literário, se destaca em todos os acontecimentos, através de relevantes trabalhos que honram seus parentes, amigos e a nossa Academia”.
Verifica-se que a vida de Dário Cotrim vincula-se a elementos colhidos em diferentes gêneros de atividades, desde as sociais à literária com a edição de vários obras, passando pela vida pública, pelas atividades artísticas, pelo jornalismo, pelo magistério, com destaque para sua passagem como servidor do Banco do Brasil. O poeta Dário Cotrim teve o seu poema “Louca Paixão” musicado por Carlos Maia, integrando o disco “Raizes de Minas”, gravado em 2005.
Embora conheça Dário Cotrim desde os tempos em que ele mourejava pelas bandas de Rio Pardo de Minas, somente em Montes Claros conheci Júlia Maria Lima Cotrim, como esposa de Dário Cotrim, sempre presente e admirada em nossas reuniões sócio-culturais. O livro “O Caminho das Letras” irá projeta-la como escritora.


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Por Petrônio Braz - 5/5/2009 06:31:59
Hermes de Paula

Corliss Lamont define a imortalidade como “a sobrevivência literal da personalidade ou consciência humana individual por um período indefinido após a morte (física), com sua memória e percepção de auto-identidade essencialmente intactas”. É isto que ocorre com as pessoas que marcam presença em sua transitória passagem entre os míseros mortais.
Para os que preferem “uma moeda de cobre a uma página de Lamartine” nada mais oportuno do que a conhecida trova de Petrarca Maranhão: “Se vês que a vida é ilusória, / se vês que o mundo é falaz, / por que anseios de glória, / em vez de anelos de paz?”
Para preservar de forma objetiva a presença viva de Machado de Assis na lembrança do povo, o romancista Coelho Neto, membro da Academia Brasileira de Letras, na década de 1920 pugnou em vários escritos para que se erguesse, com subscrição popular, um monumento ao maior escritor brasileiro de todos os tempos.
Neste ano do centenário do imortal Hermes de Paula, autor do livro "Montes Claros, sua história, sua gente e seus costumes", fonte de pesquisa obrigatória da história de Montes Claros, oportuno levantar-se a ideia de um monumento para a preservação de sua memória, de sua lembrança em algum lugar público da terra montesclarense.
Informa Wanderlino Arruda ser “perfeitamente definíveis o homem e o historiador, pois, Hermes de Paula em Montes Claros nasceu e se criou, filho de Basílio de Paula, nome de rua, e de D. Joaquina Mendonça, nome de gene que espalhou família por um mundão sem porteiras. Aqui estudado, aqui casado, aqui vivido. Se saiu de Montes Claros por algum tempo, foi para fazer cursos no Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte, e no Granbery, em Juiz de Fora. Dos anos morados em Niterói, para a Faculdade de Medicina e para o estágio científico, para cá voltou correndo logo depois de sabedor de tudo sobre cobras, soroterapia e microbiologia, aprendido com o papa do ofidismo, Vital Brasil, quase seu sogro (...) Hermes de Paula foi sempre um ativista da cultura, ligado, ligadão ao povo de sua terra”.
A Secretaria Municipal de Cultura apresentou para a Comissão Executiva do Centenário de Hermes de Paula uma programação anual para ser iniciada a partir de maio, data do aniversário do Centro Cultural e Dia Nacional da Seresta.
As comemorações continuadas prosseguirão até o dia seis de dezembro, data de nascimento do homenageado.
Estão sendo propostos os seguintes eventos:
Dia 22 de maio/2009:
- Solenidade de abertura das comemorações continuadas do Centenário de Hermes de Paula.
- Lançamento de selo alusivo.
Local: Sala Cândido Canela
- Exposição sobre a vida e obra de Hermes de Paula.
Local: Galeria de Artes Godofredo Guedes.
- Seresta na cidade velha, com encontro de grupos de seresteiros da cidade e região.
Dia 23 de maio:
- Seresta Minas ao Luar (grupo Sesc de BH).
Local: Praça da Matriz.
Dia 03 de julho:
- Concurso de Fotografias e Redação.
Tema: Montes Claros, sua gente e seus costumes.
- Exposição: Galeria de Artes Godofredo Guedes.
Mês de Agosto:
- Apresentações especiais em homenagem a Hermes de Paula por grupos folclóricos da cidade.
- Salão de artes plásticas – “Prêmio Aquisição” – (Itinerante).
Tema: Amor a Montes Claros.
Dezembro/Festa do Pequi.
- Atividades de encerramento do centenário.
- Entrega do prêmio Salão de Artes Plásticas.
Dia 6/12:
– Aniversário de Hermes de Paula, com missa em ação de graças, apresentação de ternos de folia e orquestra sinfônica.


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Por Petrônio Braz - 29/4/2009 16:23:00
O violeiro Téo Azevedo

É costume afirmar-se que a literatura de cordel, porque originária do povo, não é elaborada com lavor primoroso por se constituir em uma difusão da arte popular, todavia, Téo Azevedo produz um trabalho literário de cordel de alto nível. O cancioneiro popular é importante, tanto que existe, com sede no Rio de Janeiro, a Academia Brasileira de Literatura de Cordel, fundada em dia 7 de setembro de 1988.
José Lins do Rego e Guimarães Rosa, principalmente, foram influenciados pela literatura de cordel. Téo Azevedo já escreveu e publicou mais de mil folhetos e pequenos livros com literatura de cordel. Ele, como afirma, nasceu poeta e apoia o inclusão do cordel como ferramenta cultural obrigatória nas escolas. Partindo do pressuposto de que “o poeta nasce feito”, para ele, para fazer literatura de cordel o interessado tem que ter nascido com o dom da poesia.
A poesia, no cordel, não acompanhou as mudanças trazidas pelo modernismo, que provocou a ruptura com as tradições acadêmicas, estabelecendo a liberdade de criação. Nela devem encontrar-se presentes a métrica e a rima, que segundo Téo Azevedo devem estar no sangue do poeta.
No ano passado ele nos brindou com “Os cem anos de Guimarães Rosa”. O compositor e violeiro Téo Azevedo está presente na música popular brasileira, com inúmeras músicas gravadas por artistas como Gonzagão, Sérgio Reis, Zé Ramalho, Jair Rodrigues e tantos outros.
No último sábado, aqui em Montes Claros, participei da gravação, no Centro Cultural, de um documentário, para as telas da televisão e do cinema, sobre a vida de Téo Azevedo, que está sendo produzido sob a direção do artista global Jackson Antunes.
Especialmente convidados, lá também estiveram Amelina Chaves, Haroldo Lívio, Ildeu Braúna e Beatriz Azevedo, que prestaram seus depoimentos sobre a vida e a obra do grande artista norte-mineiro.
No meu testemunho, entre outras considerações, afirmei que conversar acerca de Téo Azevedo é falar da cultural regional, do violeiro, do músico criador, do poeta repentista, da poesia de cordel, do próprio sertão de Jackson Antunes, de Antônio Dó, de todos nós.
Com sua equipe, Jackson Antunes passou primeiro por Alto Belo (Bocaiuva). Ele estive no sábado pela manhã no Café Galo, aqui em Montes Claros.
A presença de Jackson Antunes provocou algum reboliço no Galé Galo, no Quarteirão do Povo, chamando a atenção dos populares. O grande artista norte-mineiro (Janaúba) é por todos nós respeitado e admirado. Amigo de Téo Azevedo, ele está criando o documentário para registrar a presença do mesmo no cenário cultural brasileiro.
Embora residente em São Paulo, o poeta Téo Azevedo, no Norte de Minas, no campo das atividades culturais, desponta no alto do pódio de nosso respeito e de nossa admiração. Ele é o responsável, o grande incentivador da Folia de Reis de Alto Belo.
O músico, compositor e produtor de romanceiro popular Téo Azevedo, o cantador de Alto Belo, formado na escola da natureza com diploma de viola, é membro efetivo da Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco, ocupando a Cadeira que tem como patrono o imortal Zé Coco do Riachão.
Não se pode falar em cultura popular, neste Norte de Minas, sem uma referência especial a Zé Coco do Riachão (José dos Reis Barbosa dos Santos), natural de Brasília de Minas, que afirmava ter nascido na “boca da noite” e que tinha sido doado, na noite de seu nascimento (1º de janeiro de 1911) como ”esmola” à Folia.
Músico de ouvido, como se costuma dizer, Zé Coco do Riachão tornou-se símbolo da viola no sertão mineiro, como músico e construtor do instrumento musical.
Afirma Téo Azevedo que Zé Coco do Riachão submeteu-se à simpatia da cobra para se tornar um grande violeiro: “Aos treze anos de idade ele voltava de uma festa, quando encontrou uma cobra coral no caminho; ele a segurou pelo “pescoço”, bem perto da cabeça para não ser mordido. Depois a passou entre os dedos várias vezes e, por fim, a soltou no mato sem ferimentos”.


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Por Petrônio Braz - 5/4/2009 09:37:14
Produção Literária

Estou no Rio de Janeiro, cuidando da parte física de meu corpo, para que ela possa continuar a sustentar a espiritual. Aqui, entre uma e outra consulta médica, estive na Editora “Livre Expressão” e ali me deparei com o livro “Toda a Ternura de um Homem” de Paulo Gonçalves Pereira, da família Gonçalves Pereira da Vila Risonha de Santo Antônio da Manga de São Romão, escritor ainda desconhecido dos leitores do vasto sertão.
O editor Jefferson Borges gentilmente presenteou-me com um exemplar, que estou lendo.
Paulo Gonçalves Pereira, que caminha para a imortalidade, é natural de São Romão-MG, mas reside no Rio de Janeiro. Estudou no Seminário “São José”, dos padres carmelitas em Contagem-MG, e em Itu-SP. Bacharelou-se em Física pela Universidade de Brasília e pós-graduou-se de Geofísica pela UFBA. Através de concurso público ingressou na Receita Federal e trabalha na Alfândega do Aeroporto do Galeão/Tom Jobim.
O autor, em Nota no corpo do livro, esclarece que “nesta obra, foi utilizado um conhecido método de criação literária, no qual são colocados, ao lado de personagens reais, conforme se pode comprovar em documentos de cartórios e paróquias, outros extraídos da imaginação do autor e também dos fatos relatados através de gerações (...) O leitor poderá identificar quais são os atores reais, todos já falecidos, e quais os fictícios, bem como verificar que a obra é fiel, não só à história, como também aos relatos que foram passando de boca em boca até os dias de hoje.”
O Prefácio é de nossa confreira Maria da Glória Caxito Mameluque, ilustre escritora natural da mesma Vila Risonha de São Romão.
Trata-se, pelo que já observei, de um desses bons livros de família. Nele o autor retrata a pessoa de Pedro Gonçalves de Abreu Pereira esclarecendo que ele “era moldado, a cada instante de sua vida e até o fim dela, de acordo com o que lhe ditavam a família, a política local, seus amigos de botequins, as chuvas e luas cheias, suas pescarias e seus banhos de riacho, o medo de doenças, de mordidas de cobra e de quedas de cavalo, os cotidianos problemas familiares, o filho com aquela tosse comprida que não acabava nunca, o vizinho que insistia em chegar bêbado, fazendo arruaças, problemas normais de qualquer mísero ser mortal humano”.
Homem do sertão, Paulo Gonçalves Pereira é, na Cidade ainda Maravilhosa, um peixe fora d’água. No livro localizei o seu e-mail e mandei-lhe uma mensagem barranqueira. A resposta veio rápida: “Agradeço-lhe, sinceramente, seu interesse pela leitura do livro “Toda a Ternura de um Homem”, cujo maravilhoso prefácio, elogiado por vários leitores, foi feito pela queridíssima Maria da Glória Mameluque Caxito (Glorinha). Você verá que o livro do seu pai "São Francisco nos Caminhos da História", citado na bibliografia do meu livro, muito me ajudou na elaboração de “Toda a Ternura de um Homem”. A Academia Montesclarense de Letras, bem como a Academia de Letras do Noroeste Mineiro (Paracatu), já possuem um exemplar do livro. Vários leitores de Paracatu, e de outras cidades do Brasil, já me mandaram e-mails elogiosos sobre o livro (bondade deles, né?). É claro, vou doar um exemplar para a Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco, por seu intermédio. Será um privilégio para mim ter o meu livro na biblioteca da Academia. Também, farei uma doação para a Academia de Letras, Ciências e Artes de Várzea da Palma, através do acadêmico Pedro de Oliveira. Caro Petrônio, eu preferia lhe entregar, pessoalmente, o exemplar da ACLECIA, caso isto seja possível, se não, mandarei mesmo pelo correio convencional, no endereço que você me deu, em Montes Claros. Devo chegar a São Romão, no Domingo de Páscoa, à noite, e lá permanecerei uns 7 a 10 dias, para descanso, cervejas, peixadas e novas pesquisas visando a confecção do outro livro. Vou também a São Francisco encontrar-me com meu primo, Max Coutinho, e a Januária. Se você for a São Romão, espero ter o prazer de conhecê-lo. Importante para mim, afora o me sentir lisonjeado com sua leitura, será ouvir sua opinião sobre a obra, pois preciso de parâmetros dos leitores, os quais me incentivarão ou desestimularão a continuar escrevendo (...) Se gostar do livro, peço-lhe indicá-lo para os barranqueiros do São Francisco. Você sabe que todo mineiro, distante de sua terra natal, morre de saudade quando ouve falar de Minas, e meu livro, essencialmente, fala muito de Minas”.


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Por Petronio Braz - 22/3/2009 07:02:30
Produção Literária

Abri, por acaso, o livro “Cartas de Inglaterra”, de Rui Barbosa, e reli o primeiro capitulo: Duas glorias da humanidade. Escreve ele que “ninguém poderá desvanecer-se de ter percorrido intelectualmente a Inglaterra, se não ousou uma excursão pelas regiões sui generis da obra de Carlyle, que parece confinar, por outro lado, com Shakespeare, por outro lado com a Alemanha de Goethe, Schiller e João Paulo Richter”.
Nossa submissão primeira à cultura que nos vinha da França, até princípios do ultimo século e, depois da Ingla¬terra, por imposição econômica, nos leva a, esquecendo do que é nosso, permanecermos atrelados ao que nos vem de fora. Essa submissão foi necessária aos escritores do passado, especialmente aos do século XIX. Obrigatoria¬mente, não existe mais.
Parodiando Rui Barbosa posso afirmar que ninguém poderá ufanar-se de ter explorado intelectualmente o Norte de Minas, se não ousou uma incursão pelas obras de João Valle Mauricio e pela vida de João Chaves. Da leitura das obras do imortal João Valle Mauricio e da biografia de João Chaves, escrita por Amelina Chaves, verifica-se que o solo árido de nosso sertão está marcado pela pre¬sença fértil de expoentes culturais da mais alta valia.
João Valle Mauricio, da Academia Mineira de Letras, autor de “Grotões”, “Janela de Sobrado”, “Beco da Vaca” e “Taipoca”, além de outros escritos, inscreve-se como uma das glorias imortais da terra dos montes claros. Em suas obras misturam-se valores outros, da mesma terra e da mesma região, como Haroldo Lívio, Antônio Augusto Souto, Konstantin Cristoff, Milena Mauricio e outros. Na biografia de João Chaves associam-se as figuras marcantes de Amelina Chaves e Manoel Hygino dos Santos. Na leitura de “Taipoca”, apreciamos o sertão em sua inteireza viva, embora com motivos urbanos, que se interligam e se projetam no contexto do sertão. Em “Beco da Vaca”, uma coletânea de crônicas publicadas pela imprensa regional, ele não foge da marca registrada de suas obras. O livro não é uma ruela do sertão, é uma avenida de cultura. Em suas memórias, retratadas em “Janela do Sobrado”, re¬vivemos Montes Claros. Como toda verdadeira obra literária, seus livros são atemporais.
Amelina Chaves, depois de nos brindar com “O Eclético Darcy Ribeiro”, mostra-nos em “João Chaves uma eterna lembrança”, com Prefácio de Manoel Hygino dos Santos, o mito João Chaves, um dos maiores fenômenos da cultura montesclarense de todos os tempos. “João Chaves ainda canta e encanta na voz do vento, nas pedras no chão, no coração de todo seresteiro”. A literatura está presente na poesia de João Chaves.
Guimarães Rosa com acerto afirmou que há pessoas que não morrem: ficam encantadas. João Valle Mauricio e João Chaves estão encantados no silêncio de suas sepulturas. Como Fênix eles renascem de suas próprias cinzas em cada instante em que deles nos lembramos.
A poesia de João Chaves está patente na sua arte de combinar os sons, mas a poesia sempre tem sido apresentada através de livros, revistas, jornais ou pela declamação do autor ou de terceiros em reuniões sócio-culturais. A informática, como a ciência que visa ao tratamento da informação através do uso de equipamentos, está revolucionando o mundo literário.
Aqui, pelo Norte das Gerais, na atualidade, Geraldo Antônio Dias Guimarães – Geraldo Guimarães – por intermédio do escritor Ronaldo José de Almeida, enviou-me um exemplar de sua obra “Pássaros em Revoada”, em DVD. Será o fim do livro impresso e o princípio de sua vivência em DVD? Não creio, pelo menos por enquanto. Geraldo Guimarães é mineiro, natural de Sete Lagoas, que concorre com Curvelo pela primazia de ser a porta de entrada do sertão das Gerais. Ele já publicou os livros “Vida: Eterna Poesia”, “Sementes da Loucura”, “Roupa Suja” e “Quando o Verbo é o Caminho”.
“Pássaros em Revoada” é apresentado em DVD, com trilha sonora instrumental, desenvolvido pela K&Kproduções. São ao todo trinta e três poemas em que o autor, com seu entusiasmo criador e inspirada imaginação idealista, retrata passagens de sua vida de maneira suave e romântica. Com narração própria ele empresta a cada poema beleza e emoção, ao tempo em que revela o seu grande amor à sua, que também é nossa, Minas Gerais. Ouvindo os poemas senti-me como em um sarau, em uma festa literária em que os participantes declamavam poesias. O autor recita com arte os seus poemas e nos transmite as suas próprias emoções, com gestos e entonações apropriadas.


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Por Petrônio Braz - 9/3/2009 13:23:37
A legitimidade do aborto

Não faz muito tempo o Papa pediu perdão pelos erros da Igreja, especialmente os cometidos durante a Inquisição, sendo lembrado que até o padre Antônio Vieira, o maior orador sacro de todos os tempos, foi vítima e esteve recluso nos cárceres do Santo Ofício.
Em um de seus sermões o Pe. Antônio Vieira disse: “Quando perguntaram a João Batista quem era, ele respondeu o que fazia, porque cada um é o que faz e não outra coisa. As coisas definem-se pela essência. O Batista definiu-se pelas ações, porque as ações de cada um são a sua essência. Definiu-se pelo que fazia para declarar o que era... O que fazeis isso sois, nada mais!”
Um representante da Igreja, revelando-se pelos seus atos, negou a existência do Holocausto. Disse ele que não existiu a eliminação sumária de milhões de vidas humanos durante a Segunda Guerra Mundial pelos adeptos do nazismo. Cada um é o que faz e, pelo que faz, se revela.
Ainda não consegui entender as reações drásticas de um outro membro da Igreja condenando o aborto provocado em uma menina de nove anos, grávida de gêmeos, quando ainda brinca com bonecas, vítima de estupro, crime que consiste em constranger alguém a conjunção carnal, por meio de violência ou grave ameaça.
Não será mais o pecado um correspondente do crime? Quem pratica um crime não estará também cometendo um pecado?
O jornalista Vicente Serejo (jornaldehoje.com.br), acertadamente afirmou que “o homem viveu dois mil anos com medo dos pecados capitais, quando eram sete as portas do inferno. Hoje andam tão fracos, se é que ainda são pecados, que outros são os medos e até o pobre Diabo perdeu seu veneno. O que poderia haver de tão perigoso assim na ira, luxúria, gula, inveja, soberba, avareza e preguiça?”
O estupro não seria luxúria, não se inscreveria como libertinagem descontrolada? O sexo teria se transformado em um direito do homem, em uma olimpíada de eficiência e sucesso?
Eu me pergunto qual seria a sentença religiosa de Salomão, em um caso tão marcante e que revoltou a sociedade brasileira!
Desde a primeira Constituição republicana que o Estado brasileiro está separado de Igreja. As leis do Estado não são mais vinculadas às leis canônicas e todos os brasileiros, assim como os estrangeiros aqui residentes, estão vinculados às normas que regulamentam a vida humana em território brasileiro. A legislação pátria autoriza o abordo provocado em caso de estupro. Assim, não cometeram crime os médicos, a família e quem, de uma forma ou de outra participou do aborto provocado, que talvez tenha salvado a vida da criança de nove anos, restituíndo-lhe o direito de ser criança. Se não praticaram crime, também não cometeram pecado.
Não compreendo, na minha modesta ignorância, porque a luxúria, um dos sete pecados capitais, não foi condenada com a excomunhão, pena eclesiástica que exclui os fieis do gozo de todos os bens espirituais. Para o representante da Igreja, e “as ações de cada um são a sua essência”, somente cometeram pecado, passível de excomunhão, os que eliminaram os efeitos maléficos da luxúria.
Por outro lado, minorando o ato do representante da Igreja, neste último caso, é bom lembrar que não estamos mais na Idade Média e a excomunhão hoje não leva o excomungado à fogueira como herege, mas a punição tem elevado efeito moral e deveria ser revogada por uma autoridade eclesiástica superior.


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Por Petrônio Braz - 3/3/2009 19:55:19
A Dança das Palavras

O imortal Adherbal Murta de Almeida escreveu, na orelha da capa do livro “A Dança das Palavras” da poetisa Doris Araújo, que: “Poesia é emoção que emana da estética das coisas: do voo das borboletas, do canto do sabiá, do amanhecer do dia, do sorriso da criança, do amor de mãe, do ribombo dos trovões, dos serenos da madrugada. Há pessoas que têm uma percepção imediata e sublime deste rebentar do belo e há outras mais felizes, que até conseguem traduzir essas emanações em palavras que cantam, choram, sorriem, gemem”.
Integrante do Grupo “Oficina das Letras” e membro da Academia Montesclarense de Letras, Dorislene Alves de Araújo e Almeida – Doris Araújo – em suas poesias não deixou que as palavras, como enuncia Domingos Paschoal Cegalla, dormissem “seu sono profundo como as pedras no seio das montanhas”. Ela as despertou e com elas construiu, com profundidade filosófica, uma bela coletânea de poemas, que compõem o seu livro “A Dança das Palavras”.
Dizem que poucas pessoas leem livros de poesias, e porque não são sentidos os versos morrem; eles se matam. É o que nos afirma Doris Araújo em um dos poemas de seu livro: “Os meus versos morreram. / Eu os enterrei bem fundo / no meu peito e na minha alma. / Os meus versos se mataram. / Andavam em crise existencial. / Sentiam-se lesados, ultrajados / e, imerecidamente, ignorados. / Eram versos vivos, efervescentes, / virgíneos na sua essência. / Distorceram, macularam, / violentaram até as suas vísceras. / E os tornaram virosos, letais. / Os meus versos morreram. / Os meus versos se mataram. / Eu os enterrei bem fundo / no meu peito, na minha alma. / Eles não contagiam mais”.
Os seus versos, todavia, estão vivos e efervescentes em cada texto contido nas folhas de seu livro, transparentes e brilhantes como os sóis que iluminam a sua arte de poetizar. Eles passeiam voluptuosos pelo erotismo de seu corpo, que torna rubras as rosas. Tão sublimes quanto o enlevo de sua alma embriagada de sentimentos inquietantes como as ondas agigantadas de um mar revolto. Os seus sonhos, enfeitados de estrelas, não deixam que a terra macule os seus pés, em desvarios de loucura. Neles ela mostra o lado humano de sua alma exterior, energia que ela manifesta com prazer para deleite de seus leitores. Deles extrai-se, dentro da teoria machadiana da alma exterior, a importância que têm os outros para ela mesma.
É uma pena que o tempo tenha levado algumas de suas composições em versos, mesmo que elas fossem mágoas ou dores bem doídas. A poesia é, em verdade, “rebento de momentos sofridos”. Não conheço a sua prosa, mas aplaudo o seu subjetivismo poético.
Em uma quinta-feira de fevereiro (19/02/2009), na sede da Academia Montesclarense de Letras, encontrei-me com Doris Araújo. Contou-me ela que tinha lido o meu “Serrano de Pilão Arcado – A saga de Antônio Dó”, mas eu ainda não conhecia a sua obra poética. Li, depois, “A Dança das Palavras”. Agora, quando me recordo do encontro, veio-me à lembrança o artigo do dramaturgo Alcione Araújo “O poeta esconde a poesia sob a pálpebra”, publicado no último número da Revista da Academia Mineira de Letras, no qual ele relata o seu primeiro encontro com Carlos Drummont de Andrade.
Se eu tivesse lido, antes, a poesia de Doris Araújo teria sentido as mesmas emoções que teve Alcione Araújo ao se assentar, em um ônibus, no Rio de Janeiro, ao lado de Carlos Drummont de Andrade.
Depois de ler “A Dança das Palavras”, verifico que eu não sabia, naquela tarde de quinta-feira, que estava conversando despreocupadamente com um gênio da arte literária.
Agora, recostado no espaldar da cadeira, em frente ao meu computador, ganho liberdade para meditar. Releio no artigo de Alcione Araújo: “O poeta me ignora. Simplesmente não me vê. Se olhasse pela janela, poderia me perceber, pelo menos, de soslaio. Mas ele age como se ali não houvesse ninguém. Abre o livro e lê, nariz quase colado ao papel. O ônibus parte. Olho pela janela, fingindo ensimesmamento. Na verdade, atento a cada movimento do poeta, à sua respiração, até ao seu olhar. O poeta não sabe, nem pode saber, que ao seu lado está um leitor de seus versos, que compartilha tanto de sua sensibilidade que se sente cúmplice do olhar, de retinas fatigadas, que pousa sobre homens e coisas. O poeta não sabe, nem pode saber, que este que ele ignora a seu lado, leu todos os seus poemas, de todos os seus livros, assim como todos os livros sobre os seus livros.”


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Por Petrônio Braz - 13/2/2009 08:32:40
Livro de Família

”Antônio e Geny - A Saga do amor eterno” é uma obra escrita para definir rumos e marcar o espaço de uma família no contexto de uma região, mas ela abre-se a uma infinidade de leitores diferentes. Isto porque ela pode ser analisada sobre diversos enfoques: familiar, sociológico, ecológico, literário e histórico.
Marta Verônica Vasconcelos Leite busca fixar, para a glorificação atual e futura, as memórias da Família Pereira de Vasconcelos.Cada um fará a sua leitura dentro do contexto preferido, em razão de sua própria formação ou de seus objetivos. Aqui o texto individual se generaliza para integrar-se à história de uma comunidade, numa passagem abrangente do uno para o coletivo. O livro, assim, sai do contexto familiar para o universal, onde o leitor vive uma época, identificando-se com o cenário, que se torna familiar a todos.
Lembra Frank Brentano que “o amor da família é semente de amor à Pátria e de todas as virtudes sociais”.
Os vínculos familiares e a subjetividade que há no íntimo das relações existentes entre parentes, que integram um grupo familiar, têm sido assunto de alta relevância na sociedade contemporânea, discutidos em seminários universitários, nas rodadas de intelectuais, no viver cotidiano de todas as pessoas, que se preocupam com o acelerado enfraquecimento dos laços familiares.
No livro “Família, subjetividade, vínculos”, Lúcia Moreira e Ana M. A. Carvalho discutem e analisam, a título de debate, o importante tema “família”, visando compreender as razões de sua existência, as suas formas de organização, as mudanças que a influenciam, seus conflitos e tensões.
A família constitui-se em um grupo social criado por vínculos de parentesco. Ela proporciona a seus membros, além do resguardo vinculado ao “sangue”, uma projeção social. A família é a unidade básica de organização social da humanidade. Na vida nada é mais importante do que “honestidade, amizade, caridade, lealdade, sinceridade”, como observa Marta Verônica, ou o amor, o momento social familiar.
Marta Verônica inicialmente se dirige aos primos, relembrando a Estrada do Mel. Ao fazê-lo ela esclarece a origem histórica do “Melo”, importante bairro de Montes Claros, como o leitor verá. Com saudosismo ecológico, ela relembra o verde, as flores e os pássaros.
Como será bom ao leitor saber que no início do século passado Montes Claros era uma cidade tranquila, que as pessoas circularem a cavalo pelas ruas centrais, que um dos pontos relevantes da vida urbana era o antigo Mercado Central.
Tradição da família, a fé religiosa foi transmitida de geração a geração, como ela nos conta, fazendo-nos ver a eternidade do ser humano pela transferência da centelha da vida, não sendo necessário questionar de onde viemos ou para onde vamos.
Este livro de Marta Verônica é uma peça literária, que se complementa com os depoimentos da própria Autora, de Felicidade Vasconcelos Tupinambá e de Edson Vasconcelos Silva.
Os livros de família são hoje muito comuns e contribuem para a preservação dos laços domésticos, mas de certa forma fornecem ou proporcionam elementos das bases fundamentais da própria história.
Pretendendo-se estabelecer a conservação de civilizações passadas, não podemos nos separar das famílias que as constituíram. As famílias e seus membros participam de todas as atividades da vida comunitária. Fazem história.



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Por Petrônio Braz - 29/1/2009 09:51:14
Crise econômica

Ao podemos negar que o mundo contemporâneo está em crise, por ruptura de equilíbrio entre a intelectualidade e a materialidade. Quando da ocorrência da Revolução Industrial (Século XVIII) nasceu o que se denominou de Capitalismo Selvagem. Hoje a realidade não é muito diferente, embora o trabalhador tenha adquirido direitos trabalhistas antes inexistentes.
A vida contemporânea está materializada. O homem, o ser humano deixou de ser o ponto alto das relações entre o capital e o trabalho. Por outro lado inexistem movimentos de natureza intelectual, objetivando uma mudança pela via da conscientização cultural coletiva, como ocorreu como o Iluminismo, por exemplo, no mesmo Século XVIII, o Século das Luzes. Kant, definindo o Iluminismo afirmou que "o Iluminismo representa a saída dos seres humanos de uma tutelagem que estes mesmos se impuseram a si. Tutelados são aqueles que se encontram incapazes de fazer uso da própria razão independentemente da direção de outrem. É-se culpado da própria tutelagem quando esta resulta não de uma deficiência do entendimento, mas da falta de resolução e coragem para se fazer uso do entendimento independentemente da direção de outrem”.
Verdade que a busca do autocontrole tinha, à época, a procura da liberdade cultural e religiosa. Para que o mundo contemporâneo possa vencer a crime econômica, impõe-se o nascimento de um movimento de natureza intelectual, filosófica, de investigação cuidadosa sobre as causas reais da crise econômica.
A OAB noticiou que “o presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, Cezar Britto, criticou hoje (28) a avalanche de recursos financeiros que os governos dos países, incluindo o Brasil, estão revertendo para as empresas afetadas com a crise econômica internacional, mas sem qualquer preocupação em salvar os empregos de milhares de cidadãos. A crítica foi feita por Britto ao abrir os seminários jurídicos da OAB no Fórum Social Mundial, que acontece em Belém. Britto comentou o relatório divulgado hoje pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), que prevê um forte crescimento da pobreza em decorrência da crise. Segundo a OIT, o número de desempregados deve aumentar entre 18 e 30 milhões este ano, podendo chegar a 50 milhões com o agravamento da situação econômica. “Trilhões de dólares estão sendo alimentados para salvar empresas, mas não estão sendo dirigidos para salvar milhares de empregos. Não queremos o capital sem rosto, que mata e não apresenta a sua face”, afirmou Britto, a uma platéia formada por advogados, juristas, estudantes de Direito e representantes de movimentos sociais participantes do Fórum, no Hangar Centro de Convenções. O presidente nacional da OAB defendeu, ainda, a cobrança de compromissos por parte do governo junto às empresas e grupos econômicos que eventualmente forem beneficiados com recursos públicos em decorrência da crise mundial. “Isso porque descobrimos que as empresas que mais receberam dinheiro público nos últimos anos são as que mais demitem agora, quando mais precisamos de garantia de empregos”, afirmou Cezar Britto. “Se o dinheiro é público, ele tem que retornar ao público. Não pode, ao contrário, agravar o social. Todo investimento que o governo possa fazer a fim de ajudar as empresas em crise tem que vir acompanhado da cláusula de retorno social”, acrescentou”.
Na era da globalização, a única referência que está sendo visualizada é o capital.


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Por Petrônio Braz - 24/1/2009 10:03:27
Que país é este?

Leio na coluna de Manoel Hygino, edição do Hoje Em Dia de sábado (24/1/2009), interessante artigo enfocando a mediocridade ambiciosa de uma parcela considerável de brasileiros. Sobre o assunto, bem antes da leitura, minha nora Lilian, esposa de meu filho Júnior, que reside na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, chamou-me a atenção, quando rodávamos em demanda à sua residência, sobre o grande número de placas e cartazes em língua inglesa. Disse-me ela: Agente tem a impressão de estar em Miami.
Observei a ela que em Paris não se vê tantas placas ou cartazes em inglês. O francês tem orgulho de sua língua, que manteve, até a Segunda Guerra mundial, hegemonia cultural em todo o Mundo.
Não só no Rio de Janeiro, mas em todas as cidades brasileiras, Montes Claros incluída, as placas e os cartazes em língua inglesa proliferam em abundância. Observa Manoel Hygino que “o turista de algum país da Ásia ou da Europa, ou da África ou da Oceania, ao chegar aqui, deparando tantas placas e cartazes em língua inglesa, perguntará: Que país é este?”.
E prossegue o mestre da língua pátria: “Há de convencê-lo de que efetivamente o país que se encontra é o descoberto por Cabral, que deveria falar a língua que os lusos deixaram como herança. Língua que já causa rebuliço quando se tem de introduzir nova modificação ortográfica”.
Além das placas e dos cartazes, dos nomes de casas ou firmas comerciais em lugar de usarmos o correspondente vocábulo em nossa língua, preferimos dizer: baby-doll, back-ground, display, drink, drive-in, flash back, happy end, hobby, jeans, jingle, joint venture, kit, leasing, know-how, spray, slogan, sofware, speech, shopping center, short, slack, scripit, set, sexy, rush e não sei quantos vocábulos ou expressões mais. Lembro-me, ainda de folklore, já aportuguesada para folclore, quando se deveria dizer populário.
Observa Manoel Hygino que já se impõe a necessidade de um pequeno dicionário de termos ingleses, introduzidos no uso diário brasileiro. Lembra ele que estamos deixando de ser brasileiros e já esquecemos a lição de Bilac, no soneto “Língua Portuguesa”: “Última flor do Lácio, inculta e bela, / És, a um tempo, esplendor e sepultura: / Ouro nativo, que na ganga impura / A bruta mina entre os cascalhos vela... / Amo-te, ó rude e doloroso idioma. / Em que da voz materna ouvi “meu filho”, / E em que Camões chorou, no exílio amargo, / o gênio sem ventura e o amor sem brilho.”
Transcreve Manoel Hygino, em seu oportuno artigo, um trecho de José Bento Teixeira de Salles: “Pobre língua portuguesa! Primeiro foram os galicismos que invadiram as letras brasileiras como se fossem as forças invasoras de Napoleão em suas conquistas bélicas. Agora, temos de aguentar (retirei o trema) a imposição dos anglicismos, que nos ameaçam como a fúria de Bush, tentando conquistar o Iraque e o mundo”.
Nossos professores de português, no tempo do ginásio, lá pelos anos quarenta, combatiam os galicismos, e nós evitávamos usá-los com orgulho patriótico.
Com certa razão o poeta José Geraldo Pires de Mello, em seu “Oficina de Soneto”, editado pela The Thesaurus, de Brasília, incluiu o “Soneto Americanalhado”. “Vou ao xópingue, compro um rotedogue / e entro no câmpingue sem ter norrau: / vendo na esquina um quite de mingau, / bebo uísque caubói e fico grogue”.


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Por Petrônio Braz - 10/1/2009 09:43:00
Produção Literária

Em conversa com o prefeito Tadeu Leite, na Rádio Terra, fiz ver a ele a conveniência de a Administração Município, via Secretaria de Cultura, promover um maior intercâmbio com as nossas instituições literárias, uma vez que a cultura não se restringe a manifestações populares.
Informa Bernardo Scartezini, pelo Jornal de Poesia, que a modesta Academia de Letras de Gurupi, do Estado do Tocantins, no coração do Brasil, tem como lema manter viva a cultura local. Prima jovem de outras tantas Academias, como ele declara, vive, como tantas outras, à sombra da Academia Brasileira de Letras, com Cadeiras que fogem à pretensão de um Paulo Coelho ou de uma Zélia Gattai, mas é uma Academia. Com seus membros diante dos holofotes da imortalidade literária, a Academia de Gurupi procura seguir a tradição da altiva Academia Francesa de Letras. A Academia de Gurupi, apesar de jovem, tem sede própria, em casa alugada com os recursos provenientes das anuidades pagas pelos seus membros, que corresponde à metade de um salário mínimo. Nenhuma instituição sobrevive sem a contribuição de seus membros.
Até o momento, na terra de Montes Claros, apenas o Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, graças às atuações de Dário Cotrim e de Juvenal Caldeira, tem conseguido arrecadar recursos para sua sobrevivência pela via de contribuições semestrais. Os resultados mostram-se presente com a edição de três números de sua Revista, em apenas dois anos de existência. Falta, ainda, definir uma sede.
A Academia Montesclarense de Letras tem sua sede em uma sala do Centro Cultural, na Praça da Matriz, mas não tem cobrado as contribuições devidas pelos seus membros, para permitir o desenvolvimento natural de suas atividades culturais. A Academia Montesclarense de Letras já promoveu Concursos Literários e tem realizado reuniões para lançamentos de livros ou para posse de seus novos membros.
A Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco – ACLECIA foi fundada na cidade de São Francisco/MG, em 04 de outubro de 2001, por ocasião das comemorações dos 500 anos do descobrimento do rio São Francisco, apesar de ter sido muito ativa, até o presente não tem conseguido arrecadar míseros recursos pela via de contribuição de seus sócios, para o desenvolvimento de suas atividades, contribuição definida em R$ 10,00 mensais. Poucos membros estão em dia com essa pequena contribuição, apenas cinco, mas todos cobram atividades. A ACLECIA já editou uma Antologia Literária e realizou reuniões em vários municípios de sua atuação, inclusive a bordo do vapor Benjamim Guimarães.
Em presença do dinamismo de Wanderlino Arruda, as três instituições, que primam pelo bom uso da língua portuguesa, possuem páginas na internet, que definem as suas presenças no contexto literário nacional.
Cumpre ser lembrado que os cargos de direção das três instituições não são renumerados, mas sem a participação ativa de todos os membros, não se pode fazer milagres.
A jovem Academia de Gurupi já editou seis livros de seus acadêmicos, todos com tiragens de mil exemplares, sendo que o lançamento de um deles contou com a presença do nosso Jackson Antunes, que abrilhantou a festa declamando poesias.
Denise Bragotto, presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Jundiaí/SP pugna por uma maior aproximação das Academias com o povo, especialmente a classe universitária e esclarece, para facilitar essa aproximação, que os acadêmicos falam a língua portuguesa, a mesma língua do povo. A Academia Feminina de Letras de Jundiaí promove concursos de prosa e verso e edita seus livros, em parceria com empresários e gráficas. Afirma Denise Bragotto que ``nosso desafio é ampliar o contato da Academia com a sociedade. Chegaram a me perguntar que língua falávamos em nossas reuniões, veja só. Pois as Academias têm essa imagem de serem distantes, inacessíveis``.
A Academia Cearense de Letras, a mais antiga do Brasil, criada por Capistrano de Abreu e Clóvis Bevilácqua, em 1894, quatro anos mais velha que a Academia Brasileira de Letras, embora não muito badalada, tem em quadro social o poeta Artur Eduardo Benevides, ``príncipe dos poetas cearenses`` e a romancista Rachel de Queiroz.


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Por Petrônio Braz - 28/12/2008 12:53:17
Revista do IHGMC

No dia 27 de dezembro em curso, nesses últimos dias do ano, foi entregue ao público leitor a Revista do Instituto Histórico de Geográfico de Montes Claros, em seu terceiro número. Dedicada à lembrança de Godofredo Guedes, traz inúmeros artigos e alta importância para a preservação da história de nossa região.
Na Orelha da Capa vem transcrita fala de Simeão Ribeiro Pires, que enaltece merecidamente Godofredo Guedes, o “cabra da peste” que engrandeceu e ainda eleva em dignidade a cultura montes-clarense (ainda com hífen até o final do ano).
Na apresentação da Revista, o presidente Wanderlino Arruda nos faz recordar, com saudade, os companheiros João Botelho Neto, Padre Aderbal Murta e Reivaldo Simões Canela, que flutuam nas sombras indefinidas da eternidade.
Amelina Chaves lembra o que denomina “Um Século de Godofredo Guedes”, Dário Cotrim define a Arte Total de GC, enquanto Haroldo Lívio vê em GC o Letrado. Itamaury Teles lembra a presença de Godofredo Guedes, com sua arte, em uma das igrejas de Porteirinha, o jornalista Luiz Ribeiro dos Santos nos faz contemplar em Godofredo Guedes o artista simples e completo, Wanderlino Arruda o compara a Miguel Ângelo e Augusto José Vieira lembra com objetividade a sua convivência com Gegê.
Prestadas tantas e justas homenagens, a Revista se inteira com artigos de inúmeros outros membros do Instituto, que completou, naquele mesmo dia 27 de dezembro de 2008, o seu segundo aniversário de fundação.
Dário Cotrim recorda o poeta Reivaldo Canela, Felicidade Patrocínio informa a criação e o funcionamento da Associação dos Artistas Plásticos de Montes Claros, Itamaury Teles, em uma segunda manifestação, apresenta um Ensaio Histórico de sua Porteirinha.
Em destaque, pelo fundo ecológico de sua fala, Ivo das Chagas em “Eu sou o Cerrado” nos remete à meditação, ao reconhecimento de que o homem é, em verdade, o maior de todos os predadores, o único animal capaz de destruir o Planeta.
João Carlos Sobreira nos relembra o Velho Mercado Municipal de Montes Claros, Karla Celene Campos reedita o seu artigo “O Menino Pescador e a Menina do Vento” e Lázaro Francisco Sena recorda o educador João Luiz de Almeida, enquanto Luiz de Paula Ferreira nos faz lembra que viemos das estrelas e somos uma simples espécie de passagem pelo planeta Terra, e Maria Luiza Silveira Teles em “Caminho de Volta”, relembra os seus tempos de menina-moça na terra dos Figueiras.
Para o registro da história, Maria de Lourdes Chaves em “Ofício do Registro Civil das Pessoas Naturais, Interdições e Tutelas”, em abreviada síntese, rebusca as origens dos registros desde 1889.
Cumprindo o dever que se impõe a todos os membros do Instituto, Marta Verônica Vasconcelos Leite fala do Patrono de sua Cadeira: Auguste de Saint’Hilaire, Miriam Carvalho lembra a “Menina do Sobrado” de Cyro dos Anjos, e Palmyra Santos Oliveira nos apresenta reminiscências de sua Montes Claros, e Paulo Costa lembra “O Telegrama” que anunciou a morte de Rui Barbosa, um documento histórico. Eu, sem outra coisa para publicar, transcrevi o meu discurso de posse na Academia Montesclarense de Letras.
O historiador Roberto Santiago lembra a história da Cachaça de Salinas, Wanderlino Arruda retorna trazendo à memória o inesquecível Reivaldo Canela e fala do “Cônsul Fernanda Ramos”. Wesley Caldeira nos informa ter havido execução da pena de morte em Montes Claros e Avay Miranda em “A Ocupação Desordenada do Cerrado” nos aponta outra execução: a ecológica.
Por derradeiro Zanoni Neves nos relembra “Personagens Históricos e Datas Nacionais”.


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Por Petrônio Braz - 27/12/2008 15:39:58
Potência desarmada

Não sou militar, nem mesmo prestei o serviço militar obrigatório porque estudava em Escola de Agronomia, na época apropriada, mas estou vivamente preocupado com a realidade brasileira atual. Somos hoje uma potência econômica internacionalmente reconhecida, mas não temos como garantir as nossas riquezas, de alta valia: nossas reservas de petróleo, as disponibilidades de nossas jazidas minerais diversas e nossas bacias hidrográficas cobiçadas.
Temos que reconhecer e dar valia, até certo ponto, às hostilidades governamentais de esquerda às nossas Forças Armadas. O passado ainda recente de uma Ditadura Militar nos assombra, mas o País é um todo, e as garantias de nossa soberania estão, como devem ser, nas mãos de nossas forças de terra, mar e ar. Elas são as guardiãs de nossa soberania como nação.
O Brasil é, nos tempos atuais, uma nação com oitenta por cento de sua população urbanizada, porém com suas atividades industrializadas centradas em poucos e conhecidos setores urbanos. Um ataque à cidade de São Paulo paralisará o País.
Somos uma potência desarmada. As nossas forças militares não possuem, hoje, capacidade bélica para garantia da nossa soberania. Estamos militarmente numa posição de inferioridade à Venezuela, nossa vizinha de fronteira. Os armamentos de nossas forças de defesa são ultrapassados, restolhos da Segunda Grande Guerra.
Dirão os otimistas: somos um País pacífico. Na ordem biológica da vida, os cordeiros são animais pacíficos, evoluídos para serem imolados. Somos um País pacífico, militarmente despreparado para a defesa. Cordeiros em um mundo belicoso. Certos estavam os primitivos latinos a afirmarem: Si vis pacem, para bellum. O mundo é belicoso, o homem é aguerrido, as nações são habituadas à guerra. Não podemos ser inocentes. Os exemplos aí estão nos jornais e nos noticiários diários televisionados.
Em nosso País, nem mesmo as forças militares responsáveis pela segurança das comunidades urbanas e rurais estão preparadas para a garantia da ordem interna. O Crime Organizado tem mais poder de fogo que as forças militares de segurança interna.
Somos reconhecidamente uma democracia estabilizada. Um País até certo ponto culturalmente desenvolvido. As diferenças sociais sendo paulatinamente ultrapassadas. Torna-se necessário que se apague de vez as razões que nos levaram à edição da Constituição Cidadão de 1988, promulgada em represália ao antigo Regime Militar, para reconhecermos que somos todos brasileiros e que as nossas Forças Armadas precisam ser atualizadas, dentro da realidade do mundo presente. Temos que estar preparados, não para a guerra, mas para a nossa própria defesa, para a garantia de nossa soberania em face das demais nações.
A Grécia clássica foi culturalmente grande, sustentada em seu poderio militar. O Brasil possui uma enorme área territorial, e embora possa não ser lembrado, ela se afirmou em razão de nossa potencialidade bélica, por terra e mar, nos tempos do Império. O Brasil era, a esse tempo, a segunda potência marítima mundial.
Já somos uma grande nação sob o ponto de vista econômico, e possuímos tudo para sermos uma das maiores nações soberanas, dotada de poderio interno, mas não estamos nos preparando para tanto. A China está evoluindo, mas é um barril de pólvora, com estopim já acesso. A classe média lá está se conscientizando e uma revolução contra a escravidão operária não tardará. A Índia ainda é um país dividido em castas e os Estados Unidos estão, por carência de cultura, nos estertores da morte como potência.


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Por Petrônio Braz - 12/12/2008 06:30:01
Caso de Polícia (federal)

As chuvas, com suas incontáveis benesses, chegaram e já produziram incontáveis benefícios à classe rural e ao meio ambiente. A água, necessária à vida animal e vegetal, pode causar prejuízos materiais nos casos de inundações ou temporais, mas a natureza tem que seguir o seu curso. O homem pode modificá-la através de suas ações, na utilização e exploração do Planeta, todavia, corre o risco de pagar pelos seus atos.
As chuvas, em geral, não são prejudiciais, pelo contrário. As ações incorretas do homem são as responsáveis pelos danos decorrentes delas.
Não faz muito tempo (menos de seis meses) as nossas rodovias e as ruas asfaltadas da cidade estavam bem conservadas, ou bem melhores, com as operações tapa-buracos.
Em especial a rodovia Montes Claros – Salinas estava ótima, até parecia estrada do Estado de São Paulo. O leito liso, bem demarcado, facilitando o trânsito. Houve uma operação tapa-buracos e um fino recapeamento, que havia dado vida nova àquela parcela da malha rodoviário do Norte de Minas.
Vieram as chuvas e, em menos de uma semana, os mesmos buracos (leia-se crateras) antes existentes readquiriram vida. Não são buracos novos. São os mesmos antes existentes, que voltaram com força total. Eles tinham sido tapados com asfalto através de um serviço público executado por empreitada. Deve ter ocorrido o recebimento da obra por alguém responsável, mas o recebimento de qualquer obra pública deve sempre ocorrer, primeiramente, de forma provisória, para somente depois de comprovada a qualidade, ocorrer o recebimento definitivo.
Não sei se, com a evolução dos tempos, com o petróleo extraído das jazidas localizadas no fundo dos oceanos, já existe o asfalto solúvel em água. É bem provável. Somente assim se poderá considerar, como não criminosa, a execução dos serviços de conservação das nossas rodovias e ruas asfaltadas.
O asfalto, quando utilizado na pavimentação de ruas e rodovias, tem, dizem os técnicos, uma duração mínima de vinte anos. A partir daí começam a aparecer algumas pequenas rachaduras, que permitem a infiltração da água e, com ela o umedecimento da base. Mas vinte anos não são seis meses.
Por outro lado, o próprio asfaltamento, especialmente das vias públicas, não obedece mais aos critérios técnicos. Existem ruas asfaltadas em Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e outras grandes cidades, em perfeito estado de conservação há mais de trinta anos. Foram serviços executados em caráter permanente, como obra pública.
Hoje o asfaltamento das vias públicas é executado com objetivos meramente eleitoreiros, para durar até passarem as eleições. Passa-se uma patrol, nivela-se mal e mal o leito da rua e vem, por cima, sem qualquer base firme, uma camada de borra asfáltica. Vem em seguida a inauguração festiva, o povo batendo palmas. Dinheiro público jogado pelo ralo.
Não me refiro aqui a todas as obras. Em Montes Claros, algumas ruas e avenidas foram ou estão ainda sendo asfaltadas com serviços que poderíamos qualificar de perfeitos, realizados por empreitada. Todavia, o serviço de tapa-buracos é uma lástima. Todos os buracos tapados estão de volta. Isto é crime.
Voltando à rodovia informada, é de ser lembrado que ela é fiscalizada pelo Polícia Rodoviária Federal. Não a execução das obras, mas o trânsito de veículos. Assim, não se pode esconder o fato de que essa mesma Polícia (que muito tem contribuído para a moralização deste País, apesar dos excessos), não esteja vendo essa realidade. A omissão é crime.
Com toda certeza, o asfalto utilizado na operação tapa-buracos era solúvel em água. O Brasil precisa começar a pensar em exportá-lo para outros países, objetivando a obtenção de divisas, especialmente para o Paraguai. Asfalto pirata.


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Por Petrônio Braz - 8/12/2008 04:48:22

Amélia Prates Barbosa Souto

Na última terça-feira (2.12.08) no Automóvel Clube de Montes Claros, em reunião extraordinária (diria solene) da Academia Montesclarense de Letras, sob a presidência da escritora Yvonne Silveira, a professora Amélia Prates Barbosa Souto nos presenteou com o lançamento de seus livros infantis: Aventuras do Pássaro Preto, A chegada de Fernanda, Confidências de Chocolate e Pipoca e Zeca Ventania e Tone Topete. Noite maravilhosa de música e literatura.
A professora Amélia Prates Barbosa Souto, membro efetivo da Academia Montesclarense de Letras, nasceu em Montes Claros em 1936, na Praça Dr. Chaves, em uma das primeiras casas construídas na cidade, chamada “O Mirante”. Ela é filha de José Barbosa Neto, mais conhecido como Juca Barbosa, que foi o primeiro dentista formado da cidade, jornalista, fazendeiro e tabelião do 3ª Ofício de Montes Claros e de Olga Prates Barbosa, professora de Francês, conhecida pela sua generosidade com os desafortunados, a quem sempre dava abrigo e apoio. Casou-se com José Souto, médico montes-clarense, com quem viveu 32 anos. Do seu casamento com José Souto tivera oito filhos: Rogério (falecido), José Souto Júnior (médico), Olga Maria (advogada), Danuza (fonoaudióloga), Luciano (arquiteto), Cláudia (jornalista) e Murilo (estudante).
Na sua genealogia, na relação de seus ancestrais importantes, destacamos seu avô Camilo Prates, sendo sobrinha-neta de Antônio Gonçalves Chaves, professor, advogado, juiz de direito, deputado provincial, presidente da Província de Minas Gerais, deputado federal e senador da República.
Amélia Souto cursou o primário no Colégio Imaculada Conceição, o ginásio no Colégio Diocesano de Montes Claros e formou-se em Magistério pela Escola Normal de Montes Claros. Concluiu, depois, o curso de Pedagogia e Supervisão, Orientação e Administração e graduou-se em Educação. Como profissional da educação, é Diretora da Escola Estadual Gonçalves Chaves.
Adolescente ativa e participativa ela foi Rainha da Festa de Agosto dos Catopés, da Festa da Primavera do antigo Clube Montes Claros e Rainha dos Estudantes. Desportista de destaque, Amélia Souto conquistou o 1º lugar de natação, em competição no Minas Tênis Clube de Belo Horizonte.
Apresentando as obras de Amélia Souto, Karla Celene Campos nos fez lembrar que ela foi aluna de Baby Figueiredo, no curso de Pedagogia, “sendo uma pessoa de inteligência brilhante, batalhadora incansável, capaz de fazer de tudo em seu desejo nobre de querer consertar o mundo”. Observou, mais, que ela é dedicada à comunidade em todos os seguimentos que abraça, seja no campo religioso, político, familiar ou intelectual.
Comentando a obra “A chegada de Fernanda”, de Amélia Souto, o acadêmico Wanderlino Arruda afirmou: “Delicioso texto, direto, claro, dinâmico. Tudo como deve ser a conversa franca a criançada da escola. Frases curtas, palavras claras, cada uma um só significado. O ritmo é de quem tem costume de falar aos pequeninos. Simplicidade total. Amor. Muito amor!”
Analisando “As aventuras de Pássaro Preto”, Karla Celene enfatizou que “o protagonista vive momentos diversos em situações e lugares diferente, que retratam problemas reais da nossa cidade, como de muitas outras deste e de outros países. Nele, o sentimento ecológico que ora se faz imprescindível para a salvação do planeta”.
A Autora declara que o Pássaro Preto é dotado de grande musicalidade. “Seu canto encanta a todos. Sua música é feita de sons da mata, das árvores, do barulho das águas, dos rios”. E continua: “Este pássaro já ouvira falar da seca sobre o Rio Verde, onde a água já tinha sido farta e de como era caudaloso, limpo e belo. Hoje, só há um fiapo de água poluída”.
Destaca Karla Celene que “nas “Confidências de Chocolate e Pipoca” acompanhamos o encontro feliz de duas amigas, Marina e Belinha, felizes num passeio com seus cachorrinhos. O encontro é na praça, florida. Meninada a brincar”.
Em “Zeca Ventura e Tone Topete” a Autora nos mostra a difícil existência de muitas crianças em nossos tempos.
Ruth Tupinambá observa que Amélia Souto “transporta-nos para um mundo, uma época que não existe mais. Um tempo que levou consigo o viver simples, cheio de amor, de segurança e de paz”.


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Por Petrônio Braz - 14/11/2008 06:44:35
O estreito caminho de uma Academia

Não foi sem ausência de obstáculos, que necessariamente existem, que a convite da escritora Amelina Chaves apresentei-me como candidato a uma Cadeira na Academia Montesclarense de Letras. O voto aprovador dos acadêmicos, amigos uns, conhecidos outros, todos grandes no campo das letras, permitiu-me transpor os umbrais da Casa de Yvonne Silveira.
Observa Fábio Lucas, da Academia Mineira de Letras, que “a Academia não é mais o caminho necessário de quem deseje cumprir a vocação e o destino de escritor. Minha formação espiritual, ideológica, consolidou em mim a convicção de que o homem das letras deve participar. Ninguém é o senhor de um destino quando procura as comodidades ilusórias do isolamento”.
Não desejo o isolamento, mas a participação, daí porque resolvi, como devem fazer todos os amantes das letras em nossa região, passar pelo estreito e disputado caminho da Academia Montesclarense de Letras.
Sabe-se que o nome Academia teve origem na escola fundada por Platão, na Grécia clássica, que funcionava nos jardins da residência, que havia pertencido a Academus. Sabe-se, também, que ao contrário da Escola de Isócrates, onde o conhecimento se reduzia ao repassar do saber, na Escola de Platão, em presença da dialética socrática, os seus freqüentadores iam ao encontro do conhecimento pelo questionamento, pela busca do esclarecimento, criando novos saberes, que geravam novas discussões. Dentro desse posicionamento, quando o Ocidente se debruçou sobre a cultura grega, teve origem na França, em 1620, a Académie de France, fundada por iniciativa do Cardeal Richelieu. Em 1897 é criada, no Brasil, a Academia Brasileira de Letras e, na sua esteira, inúmeras Academias foram sendo criadas pelo interior do País, nascendo, em 1909, a Academia Mineira de Letras.
Em 13 de setembro de 1966, uma plêiade de personalidades ilustres, intelectuais iluminados, que navegavam pelas águas claras e transparentes da literatura, entre eles Alfredo Vianna de Góes, Antônio Augusto Veloso, José Raimundo Neto, Padre Joaquim Cesário, Geraldo Avelar, João Valle Maurício, Hermes de Paula, Maria Ribeiro Pires, Orlando Ferreira Lima, Heloisa Neto Castro, Francisco José Pereira, Avay Miranda, fundaram e instalaram em Montes Claros a Academia Montesclarense de Letras, importante sodalício Norte mineiro, que conta com quarenta membros, a exemplo da Academia francesa.
Os fundadores da Academia Montesclarense de Letras, em um ato de fé, firmaram disposições iniciais vinculadas ao propósito de fixar neste Norte um espaço voltado para a intelectualidade. Por esta razão, senhoras e senhores Acadêmicos, preocupa-me a aculturada visão do ser humano civilizado de nossos tempos com os bens materiais, em detrimento da busca racional do conhecimento de tudo que se encontra ao seu redor.
Eça de Queirós em “Prefácio dos «Azulejos» do Conde de Arnoso” sentenciou: "A arte é tudo - todo o resto é nada. Só um livro é capaz de fazer a eternidade de um povo. Leónidas ou Péricles não bastariam para que a velha Grécia ainda vivesse, nova e radiosa, nos nossos espíritos: foi-lhe preciso ter Aristófanes e Ésquilo. Tudo é efémero e oco nas sociedades - sobretudo o que nelas mais nos deslumbra. Podes-me tu dizer quem foram, no tempo de Shakespeare, os grandes banqueiros e as formosas mulheres? Onde estão os sacos de ouro deles e o rolar do seu luxo? Onde estão os olhos claros delas? Onde estão as rosas de York que floriram então? Mas Shakespeare está realmente tão vivo como quando, no estreito tablado do Globe, ele dependurava a lanterna que devia ser a Lua, triste e amorosamente invocada, alumiando o jardim dos Capuletos. Está vivo de uma vida melhor, porque o seu espírito fulge com um sereno e contínuo esplendor, sem que o perturbem mais as humilhantes misérias da carne!"
Sócrates, na defesa apresentada em seu julgamento, afirmou que “enquanto tiver um sopro de vida, enquanto me restar um pouco de energia, não deixarei de filosofar e de vos advertir e aconselhar, a qualquer de vós que eu encontre. Dir-vos-ei, segundo o meu costume: Meu caro amigo, és ateniense, natural de uma cidade que é a maior e a mais afamada pela sabedoria e pelo poder, e não te envergonhas de só cuidares de riquezas e dos meios de as aumentares o mais que puderes, de só pensares em glória e honras, sem a mínima preocupação com o que há em ti de racional? E, se algum de vós me replicar que com tudo isso se preocupa, não o largarei imediatamente, não irei logo embora, mas interrogá-lo-ei, analisarei e refutarei as suas opiniões e, se chegar à conclusão de que não possui a virtude, embora o afirme, censurá-lo-ei de ter em tão pouca conta as coisas mais preciosas e prezar tanto as mais desprezíveis”.
Porque buscava a razão, a verdade de todas as coisas, a Academia de Platão foi fechada, novecentos anos depois de sua fundação, pelo imperador bizantino Justiniano I, por considerar que ela administrava ensinamentos pagãos.
Nos tempos atuais, as nossas escolas, as nossas faculdades, as nossas universidades, como ocorria com a Escola de Isócrates, reduzem os ensinamentos ao simples repassar do saber conhecido. Nelas não ocorre a perquirição, a busca de novos conhecimentos. Nossas escolas não chegam sequer a transmitir os conhecimentos existentes, pecam pela omissão construtiva de uma nova sociedade de homens. Não ensinam a pensar.
Na Era da Globalização, via Internet, as informações deixaram de ser um privilégio de poucos para se transformar em um direito de todos. Informar é hoje um direito universalizado e a comunicação está se individualizando através dos blogs e das redes sociais como Orkut, MySpace e Facebook. O computador transformou-se em uma importante ferramenta para estudantes e profissionais de todas as áreas. O e-mail está substituindo as cartas e o site está levando o estudante a desprezar os livros. Mas o computador não ensina a pensar.
É importante ser lembrado e ressaltado que a Academia de Platão não era apenas um grupo de membros de intelectualidade avançada. Ali ele não era o chefe, o sábio dos sábios, ao contrário, a Escola, como assim era chamada a Academia, era uma comunidade de iguais, de estudiosos, mesmo quando se tinha o grande mestre como o “primeiro entre iguais”. Nela os membros eram unidos pela amizade, por um forte vínculo afetivo e é isto o que ocorre, para felicidade nossa, com a Academia Montesclarense de Letras, onde a amizade une a todos pelo espírito, pelas virtudes e pelas idéias. Aqui, pelo que se observa, a igualdade leva à unidade, um corpo organizado que congrega os conhecimentos maiores da terra dos Figueiras.
Não preciso dizer, por desnecessário, da grande satisfação de que me encontro possuído, de ingressar no Quadro seleto de membro efetivo desta Casa do Conhecimento. Pesa sobre meus ombros o compromisso de ocupar a Cadeira nº 25, como sucessor de Geraldo Tito Silveira.
Curvo-me reverente ao falar de Geraldo Tito Silveira, não apenas do coronel, mas principalmente do literato. O coronel honrou a Polícia Militar mineira; o literato dignificou a aldeia montes-clarense com suas obras de repercussão nacional.
Declarou o coronel Antônio de Pádua Falcão, em 1966, então Comandante Geral da Polícia Militar do Estado, que os ledores ocasionais dos livros de Geraldo Tito Silveira “com ele ficam impressionados ao primeiro contato, como no meio daqueles que se dedicam às pesquisas históricas da terra mineira”.
Lendo “Tocaia de Bugres” nos identificamos com os fatos ocorridos em 6 de fevereiro de 1930, na Praça Dr. João Alves, envolvendo a caravana do Dr. Fernando de Melo Viana e verificamos não serem verídicas as informações do envolvimento de D. Tiburtina como mandante do episódio.
Em “Memórias de Cláudia Prócula” o historiador montes-clarense alça vôos nos campos da história universal para ir buscar as memórias da mulher de Pôncio Pilatos.
Nas páginas de “O Quarto Mosqueteiro”, que eu deveria ter lido antes de concluir o meu livro “Serrano de Pilão Arcado – A saga de Antônio Dó”, ele traça o perfil do coronel Otávio Campos do Amaral, que comandou uma das patrulhas que combateram Antônio Do, nas duas primeiras décadas do Século passado.
Sem sombra de dúvidas o historiador Geraldo Tito da Silveira, através de um trabalho sério de pesquisas, nos legou valiosa contribuição à história. A Cadeira nº 25, que ele dignificou e que tenho a honra de ocupar agora, tem como patrono o cônego Augusto Prudêncio da Silva, montes-clarense de nascimento. O cônego Augusto Prudêncio da Silva ingressou no Seminário de Diamantina aos 12 anos, tendo sido ordenado aos 25 anos, regressando a Montes Claros para substituir o vigário Antônio Augusto Alkimim. O mesmo prelado que tempos antes havia sido pároco na freguesia de São José das Pedras dos Angicos, hoje cidade de São Francisco.
Com a proclamação da República e a separação da Igreja do Estado, os padres passaram a atuar de forma ativa nas lides políticas e o padre Augusto Prudêncio da Silva não fugiu à regra, tanto que se elegeu presidente da Câmara Municipal da terra dos Figueiras, cargo que exerceu de 1901 a 1904. Ele ocupou por algum tempo a diretoria da Escola Normal de Montes Claros, mas já em 1904 era transferido para São Gonçalo do Brejo das Almas, então distrito de Montes Claros. Foi vigário de Coração de Jesus, mas retornou ao Brejo e ali exerceu atividades políticas. Foi amigo inseparável do coronel Jacinto Silveira.
Augusto Prudêncio da Silva e Geraldo Tito Silveira são imortais.
José Luís Lira em “Imortalidade Literária”, artigo publicado no jornal “O Povo”, lembra que a palavra imortal, de acordo com o lexicógrafo Aurélio Buarque de Holanda quer dizer "que não morre; eterno, imorredouro". Ao ser humano tal hipótese é impossível, mas, às suas facetas, não. Afirma José Lira que “pode um homem morrer e as ações por ele empreendidas permanecerem. Por isso nos dizem imortais os que pertencemos a uma Academia de Letras. Nós todos morreremos um dia, mas, o que produzimos em termos literários permanecerá ou, pelo menos, nosso nome, pois, todas as vezes que houver sucessão nas cadeiras que ocupamos, seremos lembrados”.
Senhoras e Senhores Acadêmicos.
Senhoras e Senhores Convidados.
Mesmo sem explicações, eu quero enumerar sete razões para justificar a minha posse, hoje, na Academia Montesclarense de Letras: a amizade de Amelina Chaves, o respeito à cultura montes-clarense, a consideração pela presidente Yvonne Silveira, o respeito aos acadêmicos Wanderlino Arruda e Dário Cotrim, a submissão à vontade manifesta da maioria dos ilustrados membros da Academia, a necessidade de aprender com os mestres que compõe o corpo efetivo desta Casa e minha vinculação afetiva à terra dos montes claros.
Por que sete razões? Não posso negar que tenho uma vocação mística pelo número sete. Mística por mera contemplação espiritual, sem me afastar dos objetivos maiores da razão. Sete é o número da preferência Divina.
Sete são os Pecados Capitais; sete são os dias da Semana; sete são as Maravilhas do Mundo Antigo; sete também são as Maravilhas do Mundo Moderno; sete eram os sábios da Grécia; sete foram os dias da criação do Mundo; sete foram as quedas de Jesus em seu caminhar para o Gólgota; foram sete as últimas palavras que Jesus proferiu na cruz do Calvário; são sete as notas musicais; sete são as cabeças da Hidra de Lerna; sete são as Trombetas do Apocalipse; eram sete as vacas e sete as espigas de milho do sonho do Faraó, desvendado por José do Egito; sete são os anões de Branca de Neve; sete são as cores do espectro solar; sete pessoas foram as únicas que se salvaram juntamente com Noé, das águas do Dilúvio; sete foram os pães que Jesus multiplicou; sete foram os anos, como nos lembra Camões, que Jacó teve que serviu a Labão pai de Raquel; sete são os palmos com que se mede a profundidade de nossas sepulturas e, por derradeiro, sete foram as pessoas salvas pelo transplante de órgãos da menina Eloá.
A Metafísica, quando procura definir o que é real, o que é natural, o que é sobrenatural; a Parapsicologia, quando analisa os fenômenos que há séculos intrigam a humanidade e a Metapsíquica, quando observa os fenômenos psicológicos, devido a forças que parecem inteligentes, ou a poderes desconhecidos, latentes na inteligência humana, analisam o que existe de subjetividade em nosso mundo objetivo. Alguma coisa existe de concreto na Numerologia, que nos foi trazida do Egito por Pitágoras.
Não temos sido capazes, desde o Iluminismo, de esclarecer a subjetividade presente na objetividade da razão e de explicar as relações existentes entre os números e a vida humana. Isto serve para que possamos reconhecer que o ser humano ainda é incapaz de conhecer a si mesmo. Com todos os conhecimentos científicos que julgamos possuir, ainda não conhecemos cinco por cento do Universo, assim como desconhecemos o nosso próprio cérebro. Todavia nos qualificamos como seres pensantes.
E, porque pensamos, somos seres humanos evoluídos ou criados, presentes nesta hora em que, na minha individualidade, sinto-me integrado ao esse conjunto homogêneo de cultura, que é a Academia Montesclarense de Letras.
Prezadas amigas.
Prezados amigos.
Passo os olhos pelos presentes e orgulho-me dos amigos que aqui se encontram. Mas a minha satisfação se completa quando vislumbro entre os amigos meus filhos, netos e bisnetos. Eles, os filhos, os netos e os bisnetos, para me servir de um poema de Olyntho da Silveira, são “o Universo em mim, na pouca vida que me resta ainda”.
Muito obrigado.



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Por Petrônio Braz - 5/11/2008 16:22:33
A melancolia em Cyro dos Anjos

No último final de semana, depois que a Fátima, minha esposa, pingou duas gotas de colírio em meus olhas já cansados, reiniciei a leitura de “O Amanuense Belmiro”, de Cyro dos Anjos, leitura esta destinada a identificar a melancolia buscada por Karla Celene Campos.
Em conversa com Karla Celene Campos disse-me ela que o seu projeto de mestrado versaria sobre “A melancolia em Cyro dos Anjos”. Posteriormente, por e-mail, declarou-em ela que seu trabalho não mais seria tese de mestrado, transmudado em realização pessoal.
De uma forma ou de outra, o assunto é palpitante. Cyro dos Anjos, com sua capacidade apaixonada e poética de sentir e transmitir, é, antes de tudo, sentimento. Observa Antônio Carlos Vilaça: que “Cyro dos Anjos está impregnado de lirismo, mas de um lirismo comedido, de ironia. O estilo é muito depurado, sóbrio, de uma discrição machadiana”.
Os autores do livro “Doutor Machado” procurando as expressões jurídicas na obra machadiana, além dos romances, tiveram que rebuscar os contos, as crônicas e a dramaturgia. Para encontra a melancolia ou o lirismo em Cyro dos Anjos não há necessidade de ir além d’O Amanuense Belmiro. Não que ele seja autor de um livro só – até que se poderá considerar – mas porque é o seu livro de referência. Quando se fala em Euclides da Cunha vem à mente “Os Sertões”, e não precisa mais.
Se existe uma semelhança acentuada entre Cyro dos Anjos e Machado de Assis, no sentido dissertativo, eles se distanciam porque, como observa Antônio Cândido, Cyro dos Anjos possui “um maravilhoso sentido poético das coisas e dos homens”.
Podemos dizer que Euclides da Cunha e Machado de Assis são clássicos e que Cyro dos Anjos é célebre. Murilo Badaró, presidente da Academia Mineira de Letras, em entrevista à nossa Márcia (Yellow) Vieira, reconheceu ser Cyro dos Anjos o maior de nosso Estado. Declarou ele: “O Antônio Cândido acha que é o Cyro dos Anjos, seu conterrâneo. Eu também acho que ele é o maior de todos, mais até do que os mais famosos. Mas de qualquer maneira, você pode dar a Guimarães Rosa uma posição de realce, pela literatura nova que ele criou. Mas de toda essa classe, eu acho que o Cyro dos Anjos é o maior”.
O lirismo, mais próprio da poesia, ou melhor, da poesia trovadoresca, desponta na obra de Cyro dos Anjos, presente na vida de Belmiro, cuja existência medeia entre a realidade e o sonho. Não seria esse lirismo uma melancolia?
A melancolia, presente na poesia de Manoel Bandeira, e na obra de Cyro dos Anjos, e em outros escritores e poetas, é um estado psíquico de depressão sem causa específica.
A melancolia é um doença, assim reconhecida desde os tempos de Hipócrates. Na Renascença e no Romantismo a melancolia, presente em alguns escritores dos dois períodos, era considerada como uma doença bem-vinda, uma experiência que enriquecia a alma. A melancolia, explicada por Freud, seria um estado de luto de si mesmo, em presença do narcisismo; um estado de desânimo, de desinteresse pelas coisas do mundo.
Vamos aguarda, com expectativa, o trabalho cultural que está sendo desenvolvido por Karla Celene Campos. Ela, embora não seja especificamente uma psicóloga, é professora e todo professor traz, no conjunto de seus conhecimentos profissionais, uma parcela considerável de psicologia.


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Por Petrônio Braz - 22/10/2008 07:24:51
Sermões

Para quem viveu a vida religiosa (cristã) antes dos anos sessenta, os sermões eram a forma mais perfeita de evangelização. Os templos católicos, em sua grande maioria, possuíam púlpitos, geralmente nas laterais na nave principal e o pároco, no momento preciso, deslocava-se do altar-mor e dirigia-se para o púlpito. Momento aguardado com certa ansiedade pelos fieis, já que a missa, celebrada em latim, nada transmitia de cristianidade à grande maioria dos que a assistiam.
A missa, como a reconstituição do sacrifício de Cristo pela humanidade, era um ato solene e místico, e deveria ter continuado a ser. Um ato respeitoso de contrição, de elevação espiritual e não de alegrias humanas de natureza terrestre.
O contato do pároco com os fieis circunscrevia-se ao sermão. Nele a palavra do Evangelho era mostrada de forma viva, pela eloqüência do pregador.
Foram-se os tempos de um Padre Vieira (o maior pregador católico de todos os tempos, em língua portuguesa), mas ainda podemos encontra sacerdotes capazes de transmitir a fé através da palavra, não da imposição desta através de dogmas. Entre eles, na atualidade, o padre Fábio de Melo. Um grande pregador. Entre os evangélicos destacam-se também alguns excelentes pregadores.
Quando leio os “Sermões” do Padre Vieira, vejo renascer em meu espírito, hoje agnóstico, a procura do entendimento da realidade incognoscível da minha condição de ser humano, de minha origem evolutiva ou criativa.
O padre Antônio Vieira, da Companhia de Jesus, natural de Portugal, veio para o Brasil com sete anos de idade. É considerado um dos homens mais extraordinários do século XVII. Teve atuação de vulto na política e grande influência religiosa tanto no Brasil com em Portugal, e na vida cultural e literária em outros países.
Os sermões daqueles tempos eram persuasivos e claros, centrados no Evangelho, e tinham como paradigma o Sermão da Montanha, provindo da palavra do próprio Cristo.
Ouvi alguns bons sermões, com igreja cheia de fieis silenciosos, com os olhos e a mente presos à palavra do orador sacro. Não se batia palmas nem antes, nem durante, nem depois. Rezava-se, com as últimas palavras do sermão ainda presentes a nos infundir a certeza da fé. Eram sempre palavras que deixavam a mais forte impressão emocional. O orador sacro não buscava aplausos; ele se realizava através do estado reflexivo, da elevada contrição dos fieis.
De Vieira, além de inúmeros outros, são imperdíveis: Sermão de Santo Antônio, Sermão da Visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel e o Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda.
Os sermões, quando objetivamente conduzidos a tempo e modo, ainda exercem influências benéficas na manutenção da fé, conduzindo ao arrependimento, renovando a devoção e orientando a conduta humana dentro dos preceitos da fé de cada um.
O convencimento, pela força da palavra qualifica o orador sacro. Existe um poder imenso nas palavras. Um sermão pode libertar o que de bom existe dentro de nós mesmos, exorcizando o mal.





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Por Petrônio Braz - 10/10/2008 09:59:49
Complexo de Edipo

Leio no Gazeta Norte Mineira, edição de 10 de outubro, que filho engravida a própria mãe em São Francisco, a terra do mais lindo pôr-do-sol de todo o Norte de Minas. A notícia causou-me uma natural repulsão pelo inusitado.
Esclarece o noticiário, de primeira página, que uma mãe de 48 anos teria sido engravidada pelo próprio filho de 28 anos, em relações continuadas, mas sempre, como relata a mãe, sob ameaça. Não creio na ameaça, mas sou levado a concordar com a realidade fática. Aconteceu. Teria sido estupro mediante ameaça ou concordância passiva.
Épido, personagem de um conto grego, teria matado o próprio pai para se casar com sua mãe. Em versões diferentes, a história de Épido é contada e chegou até nós. Por uma delas, Laio o rei de Tebas havia sido alertado pelo Oráculo de Delfos que uma maldição iria se concretizar: Seu próprio filho o mataria e que este filho se casaria com a própria mãe. Logo que o filho nasceu, Laio tentou matá-lo, deixando-o abandonado no monte Citerão pregado com um prego em cada pé. O menino foi recolhido mais tarde por um pastor e batizado como Edipodos, o de "pés-furados", que foi adotado depois pelo rei de Corinto e voltou a Delfos. No caminho, Édipo encontrou um homem e, sem saber que era o seu pai, brigou com ele e o matou. Terminou por casou-se "por acaso" com sua mãe, com quem teve quatro filhos (Etéocles, Polinice, Antígona e Ismena). Quando da consulta do oráculo, por ocasião de uma peste, Jocasta e Édipo descobrem que são mãe e filho, ela comete suicídio e ele fura os próprios olhos por ter estado cego e não ter reconhecido a própria mãe. Édipo, por sua relação incestuosa com sua mãe, é hoje o herói grego mais famoso depois de Hércules.
Os diversos mitos que envolvem a criação da cidade de Tebas, que chegaram até nós pelos atenienses Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, são tão antigos como as as histórias relatadas na Ilíada e na Odisséia.
Freud esclarece que o Complexo de Édipo verifica-se quando a criança atinge o período sexual fálico, na segunda infância, e dá-se então conta da diferença de sexos, tendendo a fixar a sua atenção libidinosa nas pessoas do sexo oposto no ambiente familiar.
A psicologia esclarece o que hoje chamamos de Complexo de Épido, que tem caráter universal. Ele caracteriza-se caracteriza-se por sentimentos contraditórios de amor e hostilidade. O amor à mãe é natural em toda criança. A idéia central do conceito de complexo de Édipo inicia-se na ilusão de que o bebê tem de possuir proteção e amor total, o que é reforçado pelos cuidados intensivos que o recém nascido recebe da mãe por sua condição frágil. A criança, em geral ama a mãe e tem ciúmes do pai, principalmente quando ele descobre que a mãe pertence ao pai e não a ele.
O caso acontecido em São Francisco não se afasta do que a humanidade já conhece há milhares de anos e procura explicar. O caso é, entretanto, inexplicável dentro dos conceitos morais vigentes.
Se o filho tinha relações com a própria mãe de forma corriqueira, mesmo sob ameaça, de certa forma ocorreu a aceitação desta, mesmo porque somente resolveu denunciar o fato por não ter o filho, pai de seu filho, concordado em assumir a paternidade. Cabe à polícia elucidar a verdade para ser, depois, decidida pela Justiça. Vamos aguardar.
Com a liberação sexual dos tempos modernos muito se terá que ouvir e ver, até que o próprio ser humano se identifique como criatura superior dentro da cadeia evolutiva e não como um simples animal.


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Por Petrônio Braz - 10/10/2008 06:31:31
Risco a Evitar

Os efeitos positivos da nossa Lei Seca são evidentes, mas os negativos talvez sejam maiores. Bastava tão somente que os motoristas embriagados, envolvidos em acidente, fossem severamente punidos. Em todos os bares da cidade de Montes Claros, todos os dias, motoristas continuam bebendo e saindo para casa dirigindo. E todos devem afirmar, no íntimo de suas consciências: bebi, bebi, bebi.
Do artigo "Risco a evitar", de autoria do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, no Rio de Janeiro, Wadih Damous, publicado na edição de 06/10/2008 do O Dia Online (RJ), extrai-se: "A desaceleração na queda no número de acidentes fatais nas estradas, desde a entrada em vigor da Lei 11.705, mostra o preocupante afrouxamento da fiscalização nas cidades - como alertou a Polícia Rodoviária Federal ao registrar que o número de colisões com mortes caiu 8% em setembro, terceiro mês de vigência da chamada Lei Seca. O balanço anterior, relativo aos primeiros dois meses, registrara redução de 13,6%. Não podemos correr o risco de que caia em desuso uma lei que, apenas no Rio de Janeiro, certamente contribuiu para a preservação de quase 700 vidas em dois meses, período em que o socorro do Corpo de Bombeiros registrou queda de 16% no número de acidentados em relação ao mesmo período em 2007.”
Observa-se do apontamento que o presidente da OAB defende mais campanhas de conscientização e maior rigor na fiscalização, e quer debater as novas mudanças no Código de Trânsito que o governo propõe. Entre elas, reajuste de cerca de 70% no valor das multas aos infratores e a possibilidade de enquadrar em crime de desobediência quem tiver seu direito de dirigir suspenso e não entregar a carteira de habilitação às autoridades.
Adverte, ainda, o mesmo noticiário que outro projeto interessante foi aprovado na Câmara dos Deputados e irá ao Senado. Cria penas alternativas específicas para quem cometeu crimes de trânsito, tendo por objetivo que os condenados cumpram sentença em locais de atendimento a vítimas de acidentes - pronto-socorros, por exemplo. Em relação à tradicional cesta básica, seria uma forma talvez mais eficaz de convencer os motoristas a assumir suas responsabilidades ao volante.
A edição de 7/10/2008, do Hoje Em Dia, noticia que o comerciante Elisson Alair Miranda, de 39 anos, residente em Belo Horizonte, o motorista conhecido como “Bebi, Bebi, Bebi”, preso por dirigir embriagado e solto, foi novamente detido dirigindo embriagado. Prestou novamente depoimento e foi liberado.
Um fato, porém, merece destaque. O chefe da Coordenação de Operações Policiais do DETRAN, com fundamento no art. 294 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), entrou com uma representação na Justiça pedindo a suspensão da CNH do referido comerciante. A CNH foi cassada pela Justiça.
Embora possa causar revolta, o procedimento do comerciante, a sua asserção anterior – “bebi, bebi, bebi" – é uma afirmação de sua individualidade, de sua independência como pessoa humana, independência que, não controlada, pode colocar em risco a vida de outras pessoas, mas que existe.
Desse episódio extrai-se que proibir, simplesmente, não é solução, ou melhor, é uma solução simplista. O difícil é fazer cumprir uma proibição, seja ela de que natureza for. O ser humano, desde o Paraíso, sempre se rebelou contra qualquer proibição. É da própria natureza do homem. Eva só comeu a maçã porque era proibido (sic). Nos países onde a comercialização de drogas está liberada, não existe crime organizado (Inglaterra e Alemanha, por exemplo). Nos Estados Unidos durante a Lei Seca surgiram os gangsters (crime organizado) e foi o tempo em que mais se bebeu naquele país.



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Por Petrônio Braz - 27/9/2008 22:31:54
Mensagem nº 39002 João Batista Costa – 25/9/2008
“O que o movimento catrumano afirma é a existência de duas formações sociais, históricas, econômicas e culturais distintas em Minas Gerais. Uma vinculada ao ouro que é louvada e outra vinculada ao gado que não está nem mesmo nos livros de história mineira”.
Sem sombra de dúvidas ocorreu a existência de duas formações sociais, históricas, e principalmente econômicas em Minas Gerais. O ciclo do couro e o ciclo do ouro estiveram interligados, todavia, o povoamento em terras de Minas teve início pelo rio São Francisco, sendo o povoado de Morrinhos (Matias Cardoso) o mais antigo do Estado. Mas não se pode retirar de Mariana a condição, também histórica, de ter sido a primeira capital da Província.
O Movimento Catrumano é legítimo quando busca o reconhecimento da anterioridade de Matias Cardoso, que é histórica, e deve ser comemorada essa anterioridade.


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Por Petrônio Braz - 26/9/2008 19:42:37
Maria da Cruz

Maria da Cruz Portocarreiro ou Maria da Cruz Torre Prado de Almeida Oliveira Matias Toledo Cardoso, descendente dos Ávilas da Casa da Torre, educada em colégio de freiras em Salvador-BA, presente na conjuração do São Francisco, viúva de Salvador Cardoso de Oliveira, está a exigir um estudo aprofundado de sua vida e de sua ação colonizadora.
A poesia de José Gonçalves de Souza marca sua vida; Augusta Figueiredo, em “Maria da Cruz e o Velho Chico”, fixa passagem de sua profícua existência, mas pouco, muito pouco, sobre ela se escreveu até agora. Diogo de Vasconcelos, em sua “Historia Média de Minas Gerais”, é quem melhor informa sobre sua vida esclarecendo que “em seus domínios ela possuía teares de algodão, curtumes e oficinas de couros, tenda de ferreiros e carapinas, escolas de leitura e de música, além de armazéns de fazenda”. A ela dedicou Antônio Emílio Pereira pouco mais de uma página em seu livro “Memorial Januária – Terra, Rios e Gente”.
Afirmou Alexandre Herculano que o “mister de recordar o passado é uma espécie de magistratura moral, é uma espécie de sacerdócio. Exercitem-no os que podem e sabem, porque não o fazer é um crime”. Há, todavia, pessoas que afirmam que recordar o passado é um saudosismo démodé.
Dediquei-me, por um longo período de mais de vinte anos a pesquisar sobre a vida de Antônio Dó. Não tenho mais idade, nem me sobra tempo para investigar sobre a vida e a obra de Maria da Cruz, extraordinária mulher que dominou, durante muito tempo, toda a região do Alto Médio São Francisco, em Minas Gerais, numa época em que os homens tinham o domínio das decisões.
Não poucas mulheres se destacaram no contexto histórico universal, no campo das artes, das ciências e até mesmo das guerras. Infelizmente, a televisão nos mostrou Xica (Chica) da Silva, uma prostituta qualificada, como classificada no mesmo sentido foi Cleópatra, que é destacada como personagem de primeira grandeza no Museu do Sexo de Amsterdã, na Holanda, que visitei.
A história destaca, entre tantas outras mulheres extraordinárias, Joaquina de Pompéu, Emilia Snethlage, desbravadora da floreta amazônica, nos primórdios do Século XX, Josephina Álvares de Azevedo, defensora do voto feminino, mas não se lembrou, ainda, de colocar no pedestal que merece a pioneira Maria da Cruz. A sua fazenda, nas margens do Rio São Francisco, transformou-se em povoado e o povoado em cidade que lembra o seu nome, apenas isto. Nem mesmo o povo de Pedras de Maria da Cruz sabe dizer de sua história.
Morei alguns anos em João Pinheiro, todavia, muitos ali residentes não sabiam, nem sabem, quem foi João Pinheiro, a pessoa que deu nome à cidade. Quando se fala hoje, em Governador Valadares todos se lembram da cidade, mas ninguém, ou quase ninguém, sabe que o nome da cidade é uma homenagem ao Governador Benedito Valadares. Pedras de Maria da Cruz não foge a essa realidade. Para muitos é apenas um nome, como tantos outros, mas um nome que imortaliza a extraordinária precursora, que, me servindo das palavras de Euclides da Cunha, ”suportou as agruras daquele rincão”.
Os positivistas, como lembra Vanessa M. Brasília, ilustre professora do Departamento de História da Universidade de Brasília, subestimam o rio São Francisco declarando ser ele um rio sem história, porque não tem documentos que a comprovem.
Até quando?


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Por Petrônio Braz - 24/9/2008 05:47:15

Catrumano

Participei, como assistente e debatedor, no último domingo (21/09/2008), do espetáculo que está sendo apresentado no Galpão da Prefeitura Municipal, na Avenida Sanitária nº 52, aqui em Montes Claros, de 09 a 28 de setembro, de quarta a domingo, às 19:30h, que resgata de forma simbólica e muito bem apresentada a história de nossa região, a partir do povoado de Morrinhos, hoje Matias Cardoso.
Com coordenação de Cláudio Márcio e Nelson Bambam, direção geral de Nelson Bambam, assistência de direção de Cláudio Márcio e de Leonardo Alves, dramaturgia de Glicério Rosário monitorada por Gabryel Sanches e orientação de Ana Lana Gastelois, os atores Ana Flávia Amaral, Antonella Sarmento, Gabryel Sanches, Leonardo Alves. Soraia Santos, Tassiane Figueiró, Tatiana Teles e Rira Maria nos contam de forma dramatizada a história evolutiva no período colonial, buscando fixar, como uma verdade histórica, a anterioridade de Matias Cardoso em relação a Mariana.
A história por eles apresentada segue uma cronologia real que nos leva, pelo imaginário, a vislumbrar as lutas da conquista territorial e da afirmação de domínio.
O espetáculo, como eles mesmos afirmam, além de resgatar o termo catrumano, dando a ele o seu real significado, em contraposição ao que ficou estabelecido de maneira pejorativa na obra de Guimarães Rosa, enaltece a cultura baio-mineira, que se estabeleceu na região em razão do próprio movimento colonizador.
Declaram eles: “Aprendemos a nos esforçar e ser disciplinados no trabalho diário e intensivo. Compartilhamos nossas emoções e vidas. Unimos força e superamos nossas inseguranças e dúvidas. Convivemos num universo de idéias, aprendemos para a arte e para a vida a confiar nas palavras a perder, a sofrer e a escutar (...). Nós atores, artistas, mineiros, norte mineiros, consideramos o Exercício número 1: sobre Catrumano, não apenas como o resultado final do núcleo de investigação teatral de Montes Claros, mas principalmente, como início de uma nova trajetória, em que redescobrimos nossa identidade e assumimos nossa história.”
Sem ultrapassarem o período colonial da história regional, buscam definir os fatos ocorridos, no processo de colonização, de 1613 a 1736, quando ocorreu a Conjuração do São Francisco.
O resgate que está sendo buscado precisa ser mais difundido. Deve se espalhar além de Montes Claros, para que possa chegar à sede do Poder.
Como simples observação, devemos lembrar que a vila de Ribeirão do Carmo foi fundada efetivamente em 1703 e em 1745 a Vila do Ribeirão do Carmo foi elevada à condição de cidade, com o nome de Mariana. Enquanto o povoado de Morrinhos, depois Matias Cardoso, foi fundado em 1660. Não se discute, portanto, a anterioridade de Matias Cardoso em relação a Mariana.
Fiquei emocionado com a visão do espetáculo cultural, vendo passar pela tela de minha mente as lutas da conquista, povoamento e dominação da região.
A Casa estava realmente cheia, dentro dos limites de sua estrutura, o que demonstra estar havendo interesse cultural de considerável parcela da população local.


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Por Petrônio Braz - 9/9/2008 23:20:32
Minas nos Gerais

Quem pretenda considerar o “Gerais”, que integra o nome do Estado como o “Gerais”, região desprovida de desenvolvimento e, como conseqüência, sem mineração, é bom observar, como lembra Roberto C.. M. Santiago, da Academia de Letras de Salinas, que “o Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas (INDI), órgão do governo mineiro, acha que é grande o potencial para exploração de minério de ferro nas cidades de Rio Pardo de Minas, Grão Mogol, Porteirinha e Salinas. O levantamento despertou o interesse de grandes empresas do setor de mineração. Um dos projetos prevê investimentos de 2,4 bilhões de reais nesses municípios, podendo gerar 3 mil empregos. A reserva do Norte de Minas, que seria a maior do Brasil em área contínua, tem potencial de 10 bilhões de toneladas de minério de ferro, com teor de 35% a 45% (o teor do Quadrilátero Ferrífero, região próxima de Belo Horizonte, é de 68%)”.
Itamaury Teles, em artigo que veio à luz através do “minaslivre”, informa com espanto, com nosso apoio, serem absurdas e incorretas “as tentativas da criação do “Dia dos Gerais”, cuja Proposta de Emenda à Constituição, de autoria da deputada Ana Maria Resende, começa a tramitar na Assembléia Legislativa”. A iniciativa atende a reivindicações da AMAMS e do Movimento Catrumano, e prevê a transferência simbólica da Capital do Estado para o município de Matias Cardoso, como já acontece com o “Dia de Minas”, em relação a Mariana”.
Esse projeto não merece crédito, por carência de amparo histórico.
E prossegue Itamaury: “O que chama a atenção nessa história é que, segundo o historiador João Batista Costa, o município norte-mineiro foi fundado em 1695, um ano antes de Mariana, embora esta seja considerada o berço da ocupação mineira. Como que para não ferir susceptibilidades, propõem agora uma solução salomônica, dividindo o Estado em dois: As “Minas” de um lado e os “Gerais”, de outro, como se dois substantivos fossem, esquecidos de que “gerais” é adjetivo que qualifica nossas minas abundantes e diversificadas, inclusive nesta parte do Estado (diamante, ouro, manganês, zinco etc)”
Teríamos nós, norte-mineiros, efetivamente o atávico complexo de vira-latas, habitantes inferiores de um mesmo Estado?
Em comentário de aprovação ao artigo de Itamaury, escrevi que Matias Cardoso efetivamente é uma comunidade mais velha que Mariana, a primeira povoação do homem civilizado em terras de Minas Gerais, todavia, Mariana foi a primeira capital de Minas e essa condição, de natureza oficial e histórica, não pode ser mudada, nem mesmo através de lei.
Nesse ponto temos que reconhecer que o Movimento Catrumano, embora legítimo, está em rota de colisão com a verdade histórica. A cidade Matias Cardoso deve ser reconhecida como a mais antiga povoação do homem civilizado em terras mineiras, mas nunca como "capital" dos "Gerais", como se "Minas" fosse o Sul e "Gerais" o Norte. As Minas efetivamente são muitas ou eram muitas, dai o nome dado ao Estado. O lugar das minas gerais.
Os "Gerais", como entendido geograficamente, não pertencem só ao nosso Estado. Ele se estende por Goiás e Bahia e não é esse "Gerais" (substantivo), que o Aurélio registra como “Campos do Planalto Central”; “lugares desertos e intransitáveis, no sertão do Nordeste”, que integra o nome do nosso Estado.
Como simples observação, devemos lembrar que a vila de Ribeirão do Carmo foi fundada efetivamente em 1703 e em 1745 a Vila do Ribeirão do Carmo foi elevada à condição de cidade, com o nome de Mariana. Enquanto o povoado de Morrinhos, depois Matias Cardoso, foi fundado bem antes.
Brasiliano Braz (1977:42), como transcreve o historiador Eduardo Rodrigues da Silva, afirma que “Matias Cardoso desceu o São Francisco com um exercito de 600 homens acampou em Morrinhos e ai esperou o cel. João Amaro que veio no ano seguinte [1691] com igual número de combatentes (...) Terminada a campanha, o tenente general fixou-se em Morrinhos.
Mariana, a esse tempo, não existia, mas foi a primeira capital oficial de Minas Gerais. Assim, sou levado a ficar com Itamaury Teles. Sem pretender retirar de Mariana uma condição histórica, que o “Dia de Minas” seja comemorado em Matias Cardoso, sem os atributos de “Capital dos Gerais”.


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Por Petrônio Braz - 7/9/2008 05:49:51


Trânsito caótico

Sem que tenhamos necessidade de nos socorrer da Teoria do Caos, que vem sendo desenvolvida a partir da década de 1960, quando o meteorologista norte-americano Edward Lorenz descobriu que “acontecimentos simples tinham um comportamento tão desordenado quanto à vida”, ou dos estudos de Yorke e Robert May com a chamada “equação logística”, somos levados a admitir que o trânsito nas ruas de Montes Claros está confuso e desordenado.
A falta de ordem, determinada pela própria estrutura urbana da cidade, vem se agravando com o crescimento diário do número de veículos nas vias públicas, carros e motocicletas, com a presença de carroças e principalmente de grande quantidade de bicicletas. Essa desordem é, sem sombra de dúvidas, o grande problema a ser enfrentado pelos futuros administradores locais.
Por outro lado, os passeios, mesmo os do centro da cidade, não atendem ao fluxo dos pedestres, que muitas vezes são levados a transitarem pelas pistas de rolagem dos veículos.
O trânsito pelas vias públicas é regulamentado por lei. Os condutores de veículos motorizados são preparados em escolas, mas muitos deles, por necessidade forçada pelas circunstâncias, são levados à inobediência das normas pré-estabelecidas.
Apesar do aumento do número de cruzamentos controlados por semáforos, estes nem sempre estão em sintonia, provocando engarrafamentos que poderiam ser evitados.
As regras de circulação são impostas também aos pedestres e precisam ser obedecidas pelos carroceiros, no entanto, estes, muitas vezes menores de idade, não são preparados e não possuem carteira de habilitação.
Uma categoria, entretanto, é absoluta: a dos ciclistas. Estes não atendem a nenhuma norma, circulam livremente na mão e na contra-mão, nas ruas e sobre os passeios, sem qualquer controle ou fiscalização.
No passado, que não vai muito distante, todas as bicicletas eram registradas nas Prefeituras Municipais e obtinham uma pequena placa de identificação. Isto acabou, sem que a lei fosse revogada. Apenas não é mais cumprida. Esta identificação poderia auxiliar o controle.
Na grande maioria das grandes cidades, o trânsito de bicicletas é controlado através de vias próprias, as chamadas ciclovias, e os ciclistas obedecem às leis de trânsito. Nas cidades planas o uso de bicicletas deveria até mesmo ser incentivado, objetivando o barateamento dos transportes, mas em Montes Claros as bicicletas estão se transformando em um verdadeiro caos. Impõe-se, já, que nas escolas sejam ministradas aulas de trânsito, isto porque, para se conduzir uma bicicleta, não é exigido nenhum documento de habilitação.
Em Amsterdã, ou Amsterdão como dizem os portugueses, o uso de bicicletas chega a ultrapassar o de carros ou de motos. A cidade é plana e permite o uso desse meio de transporte não poluente. Ali, todavia, existe controle e as regras são observadas rigorosamente. Naquela metrópole, os passeios são largos e satisfazem aos pedestres. As ruas possuem pistas para carros e bicicletas e, em algumas, para bondes, e tudo funciona bem. Ali, por desatenção, quase fui atropelado por um ciclista, porque invadi distraidamente a ciclovia.
Em Montes Claros, não sendo possível uma mudança das ruas, que não foram projetadas para o desenvolvimento ocorrido na cidade, por imprevisão do passado, impõe-se o estabelecimento imediato de um controle, especialmente na área central.
Em conversa sobre o assunto, semana passada, com Dário Cotrim, achamos, sem sermos técnicos ou especialistas em trânsito, que algumas ruas poderiam, como ocorre com o Quarteirão do Povo, serem interditadas para o uso de veículos e os ônibus e caminhões poderiam ser desviados para fora da área central.


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Por Petrônio Braz - 19/8/2008 16:58:22
Priapo de Ébano

No dia 27 de fevereiro do ano em curso, lá se vão mais de sete meses (período de um parto prematuro), foi anunciado, para o dia 5 de março o lançamento do livro Priapo de Ébano, da escritora e nossa confrade Amelina Chaves, autora de “O Andarilho do São Francisco” e de incontáveis outras obras. Estive presente, representando a ACLECIA, na solenidade informada, que se realizou nas dependências do Automóvel Clube de Montes Claros, nas primeiras horas da noite.
O livro, com selo das Edições Cuatiara, de Belo Horizonte, traz capa elaborada pelo artista plástico João Rodrigues e Proêmio de Dário Teixeira Cotrim. São contos de natureza erótica elaborados com superioridade editorial pela Autora, com a sua primorosa capacidade de escrever.
Sexo é cultura, tanto assim que Itamaury Teles nos traz à lembrança o livro “Dois Mil Anos de Segredos de Alcova: de Nero a Hitler”, de Claude Pasteur. Esclarecendo ele que “consciente de que os acontecimentos mais íntimos, passados sob os lençóis, sempre atiçaram o interesse alheio, a autora resolveu escancarar as cortinas da Historia e revelar alguns segredos gerados em alcovas famosas, nos últimos dois milênios”.
O priapo, para ser de ébano, terá ser escuro, pesado e muito resistente, como todos os animas do sexo dito forte ambicionam possuir e os do declarado sexo frágil cobiçam, em simbiose de desejos.
A sensualidade em Amelina Chaves desponta à flor da pele, daí porque não poderia ela, em complemento à sua vasta obra literária, deixar de externar o que de mais bonito se esconde na intimidade de seu próprio ser.
A literatura erótica embora anterior a D. H. Lawrence, com seu livro “O Pavão Branco”, publicado em 1911 na Inglaterra, tem nos mostrado o realismo das relações entre o sexo e o amor, como uma força da natureza. Quem na juventude não leu “O Amante de Lady Chatterley”, do mesmo autor, ou “Amor Natural”, de Carlos Drummond de Andrade?
Para ser levado a ler as páginas do livro de Amelina Chaves, basta apenas começar: “Vez por outra pergunto a mim mesma, ao tempo, ao destino e a Deus, como pode uma pessoa amar tanto a outro um desconhecido que aparece em nosso caminho sem aviso prévio!? Um amor desesperado que tritura e desafia os limites impostos pela sociedade, que nada entende de sentimento humano!? Principalmente quando chega num repente e toma todo o nosso espaço e vai nos esmagando, ferindo a pele e rasgando a alma até sangrar o coração”.
“Madame Bovary”, romance de Gustave Flaubert, ultrapassou os tempos e chegou até nós, mas quando publicado em 1857 levou o autor a julgamento na França, mas resultou, depois, em um grande filme (1949). Embora absolvido, não foi aprovado pelos críticos puritanos da época.
Amelina demorou tempo, anos para lançar seu livro e não é de se admirar pois o grande Flaubert afirmou que, quando escrevia, passava horas a procurar uma palavra.
Observa Maria Belo, em “Literatura e Sexualidade” que “a realidade do inconsciente é a realidade sexual”. Para melhor entender e admirar o livro de Amelina Chaves, necessário será ir à fonte maior, isto é, ler Sigmund Freud em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, editado em 1905, e que se encontra disponível nas boas livrarias.
Gostei de ler o livro de Amelina Chaves. Escritora por vocação, em sonhos ela repudiou o Céu para retornar à Terra: “O Senhor me perdoará, tenho certeza. Lutei uma vida inteira para chegar aqui, no céu, porque pensei num céu diferente, onde ao menos eu pudesse ler, escrever, ouvir músicas, cozinhar, ser feliz! Que Deus me perdoe, mas quero voltar para a minha vidinha, que seja. Mas quero voltar. Por favor, leva-me de volta. Senhor de todas as coisas.”
Ela confessa, escrevendo na primeira pessoa, “Lutei com todas as minhas forças para fazer só o bem. Amar a Deus sobre todas as coisas. Mas, diante das minhas fraquezas, sei que nunca fui perfeita. Com certeza, mesmo sem querer ofendi o Criador de várias formas”.
Amelina Chaves é única.


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Por Petrônio Braz - 16/8/2008 19:31:52
Como nasceu a ACLECIA

A Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco – ACLECIA foi fundada na cidade de São Francisco/MG, em 04 de outubro de 2001, por ocasião das comemorações dos 500 anos do descobrimento do rio São Francisco.
No dia 16 do mês de junho de 2001, na cidade de Montes Claros/MG, Rua Deputado Antônio Pimenta nº 480, Jardim São Luiz, reuniram-se os escritores, poetas, artistas e cientistas: Amelina Chaves, Clarice Sarmento, Adherbal Murta, Djalma Alves Ferreira, João Botelho Neto, João Naves de Melo, José Luiz Rodrigues, Konstantino Christoff, Maria da Glória Caxito Mameluque, Maria Eugênia Matos Silva, Marize Fiel Carvalho, Maura Moreira Silva, Natália Geralda Viana Canabrava, Petrônio Braz, Rubem Néri Simões, Tom Andrade e Yedde Ribeiro Christoff.
No inicio da reunião o poeta José Luiz Rodrigues propôs a criação da Academia, com área de atuação em todo o Vale mineiro do rio São Francisco, com quarenta Cadeiras, a exemplo da Academia Francesa, da Academia Brasileira de Letras, da Academia Mineira de Letras e da Academia Montes-clarense de Letras, que foi aprovado por unanimidade. Por proposta do escritor João Naves de Melo foi designado o dia 04 de outubro para a instalação da Academia e posse dos acadêmicos na cidade de São Francisco, data comemorativa dos quinhentos anos do descobrimento do rio São Francisco.
Em seguida foi lido o anteprojeto do Estatuto da Academia, que foi aprovado com uma emenda de autoria do escritor João Naves de Melo.
Finalmente, aos 4 dias do mês de outubro de 2001, data comemorativa dos 500 anos do descobrimento do rio São Francisco, no Plenário Brasiliano Braz, da Câmara Municipal de São Francisco, na Avenida Montes Claros, na cidade de São Francisco, instalou-se a reunião solene de posse e sagração dos ilustres acadêmicos da novel Academia, sob a presidência da acadêmica e madrinha Íris Andrade da Fonseca, representante da Academia Corintiana de Letras.
Para compor a Mesa foram convidados o Sr. Severino Gonçalves da Silva, Prefeito Municipal de São Francisco, Dr. Getúlio Braga, Prefeito de Brasília de Minas, Dr. Pedro Mameluque Mota, ex-Prefeito Municipal de São Francisco e o Dr. Marcelo Mameluque Mota, ex-Diretor da Comissão do Vale do São Francisco.
A senhora Presidente anunciou a entrada solene no Plenário da Câmara Municipal dos novéis Acadêmicos, que se fizeram acompanhar de seus padrinhos e madrinhas. Em seguida, de pé, todos os presentes acompanharam a execução do Hino Nacional.
O locutor responsável pelo cerimonial informou que em encontro ocorrido na manhã de um domingo ensolarado, na cidade de Montes Claros, dando asas a entendimentos anteriores ocorridos na cidade de Brasília de Minas, na residência da escritora Maria Eugênia Matos Silva, os escritores Petrônio Braz e José Luiz Rodrigues idealizaram a criação de uma Academia, voltada para a cultura da língua pátria e da literatura do Vale mineiro do rio São Francisco, integrando escritores que tivessem publicado obras de reconhecido mérito. A idéia, como instrumento de formação de todas as grandes realizações do ser humano, foi tomando vulto no correr dos dias e de novos encontros. De Academia de Letras evolui, mesmo antes de nascer, por influência do músico Tom Andrade, para Academia de Letras e Artes, para logo depois, transformar-se na Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco-ACLECIA, englobando os mais vastos campos da cultura regional, nas letras, nas belas artes e nas ciências.
Em seguida, pela senhora Presidente, foram sagrados e empossados os novos Acadêmicos e eleita, por unanimidade, a primeira Diretoria, que ficou assim constituída: Presidente: Petrônio Braz, Vice-Presidente: João Naves de Melo, Secretário: João Botelho Neto e Tesoureira: Marize Fiel Carvalho.



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Por Petrônio Braz - 9/8/2008 22:26:56
Menino Pescador II

A literatura deste sertão que não parecer ser mineiro e nem chega a ser baiano, que dizem pertencer a Minas Gerais, mas que não tem a altivez das montanhas, que caracterizam o Estado, nem as riquezas do passado da mineração, nem do presente da industrialização, sempre esteve enriquecida por nomes de invulgar intelectualidade no curso de sua história.
O sertão do cerrado plano e arenoso, dos carrascais, dos rios barrentos, das veredas cristalinas, do fruto do pequizeiro, do canto da seriema, do matuto desconfiado, do sertanejo valente, que ainda se pensa ter sido descoberto por Guimarães Rosa, mas que já tinha sido decantado por Euclides da Cunha e engrandecido por Ciro dos Anjos, Urbino Viana, Cândido Canela, Nelson Viana e tantos outros, é o torrão abençoado de Reivaldo Canela.
Em “Os Sertões” de Euclides da Cunha nós sentimos a psicologia do sertanejo e absorvemos seus costumes, em “Menino Pescador” de Reivaldo Canela nós percebemos o cerrado em sua abundante biodiversidade.
Por mais paradoxo que pareça, o “tudo” e o “nada” são palavras escritas com apenas quatro letras, mas cada uma sozinha constrói um enunciado. O tudo ou o todo do sertão das Gerais aparece transparente já nas primeiras páginas do “Menino Pescador”, de Reivaldo Canela. Vemos o cerrado na visão do Autor, como pano de fundo da vida urbana de Montes Claros do passado, que se torna presente pela palavra manifesta nas páginas do livro.
Ser “nada” é ser ao mesmo tempo “tudo”. Difícil de entender! Mas a palavra “grande” é menor que a palavra “pequeno”. Em se declarando ser o “nada”, Reinaldo nos conduz ao “tudo” de uma existência feliz.
Autobiografia, descrição de vida, reminiscências, valoração do amor-sentimento, bairrismo à flor da pele, “Menino Pescador” nos encanta e nos faz criar as nossas próprias recordações de um tempo que se foi, mas que sempre volta, porque as lembranças são propriedade de todos nós e nos apresentam claras e presentes em alguns dados momentos da memória.
Felizes os que têm recordações vivas e podem perpetuá-las em um livro, e transmiti-las, exorcizando o egoísmo da propriedade. Reminiscências que, em Reivaldo, estavam guardadas com muito carinho, envoltas em mimoso papel de seda, no fundo de seu coração.
Nascido nas margens do rio São Francisco, eu não fui um pescador, não trago na lembrança histórias de pescarias, posso ter sido um minúsculo caçador. Como Nivaldo em “Menino Pescador” eu não tive sonhos de pescador, tive a experiência de todo barranqueiro de enfrentar as águas revoltas do Velho Chico, vencendo as maretas mais fortes, em braçadas ritmadas de barranco a barranco.
O poeta Reivaldo se fez presente em incontáveis poemas que completam o livro. Filho exemplar, em elegia perpetua a lembrança de Cândido Canela, de saudosa memória para todos nós: “Já dorme agora, Pai, descansa finalmente / Liberto das canseiras, dores e tormentos / Teu nobre e velho corpo, em paz, já nada sente / Mas, ouves, comovido, os prantos, os lamentos / Bem lá do Alto, deve, em halo reluzente / estar a nos velar, tolher nossos tormentos / em cândido sorriso, etérea e eminente / Tu’alma grandiosa, Pai, só tens talentos / Vives agora, além. Quem sabe, nas estrelas? / E muito mais que o Príncipe-Poeta, ouvi-las / Talvez possas tocá-las, de pertinho vê-las / E é certo, Pai, bem certo haverás de nutri-las / Para que outros poetas possam atingi-las”.


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Por Petrônio Braz - 23/7/2008 20:21:46
Menino Pescador

Reivaldo Canela, na altura dos seus ensolarados 74 anos, afirma, na modéstia de sua grandiosidade literária – todo sábio é modesto - não desejar partir sem deixar para os seus pelo menos o rasto de sua passagem, ainda que sem marcas profundas.
As marcas de sua passagem, presentes em suas crônicas, contos e poemas, já se fizeram marcantes, antes mesmo do lançamento do “Menino Pescador”, seu livro de estréia.
Embora muitos não tenham o hábito de ler os Prefácios dos livros, antes de ler “Menino Pescador”, que o Autor me ofertou, com a sua costumeira gentileza, passei os olhos sobre as palavras de Leonardo Álvares da Silva Campos, pela apresentação de Waldyr Senna Batista, pelos comentários de Oswaldo Antunes e sobre o tributo de Wanderlino Arruda. Críticos, analistas, mas principalmente amigos, instrumentos férteis de apoio e incentivo.
Não me foi possível deixar de ler Jacqueline Almeida Simões Canela, Reinine Canela, Edgar Antunes Pereira, João Caetano Canela, Haroldo Lívio, Afonso Prates Borba, Zoraide Guerra David, Waldir de Pinho Veloso e Ajax Amaral Tolentino.
Uns e outros falaram muito e ao mesmo tempo disseram pouco de Reinaldo Simões de Souza Canela ou simplesmente Reinaldo Canela e de seu livro. Falaram muito retratando o homem e o intelectual, que ele é; mas disseram pouco, porque para dizer dele, teriam que escrever um livro.
Reivaldo Canela é filho do saudoso Cândido Simões Canela, que me honrou com um comentário sobre o meu poema “Gênese do São Francisco”, publicado pelas Edições Caravelas, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, nos idos de 1987, que me sinto levado a transcrever. Na sua bondade nata, Cândido Canela escreveu: “Gênese do São Francisco é uma página brilhante, antologia que marcará tempo na vida do Velho Chico. O poema é um retrato falado do São Francisco. É sua vida, suas lutas, seu vigor, seu passado e seu eterno futuro. Li, mais de uma vez, o poema que me empolgou. Com “Gênese do São Francisco”, o Velho Chico se liberta, tornando-se um rio com vida e história. É verdade que inúmeros barranqueiros falaram dele, quais sejam: Saul Martins, Anfrísio Lima, José Gonçalves (este um apaixonado pelo rio: conversava com ele e beijava suas águas), o talentoso Fernando Rubinger (meu dileto amigo), o velho e culto escritor Manoel Ambrósio, autor das magníficas obras, de fundo regional, “Brasil Interior”, “Os Laras”, etc., e Manoel Ambrósio Júnior, autor do belo romance “Iaiá Quitéria”. Mas, na verdade, não disseram tudo do Velho Chico, como, em versos, disse Petrônio Braz”. Sou grato ao imortal Cândido Canela por esse comentário.
Lembrando de seu pai, li a biografia de Reivaldo Canela, antes de começar a leitura do livro, de onde se destaca que ele integrou a Academia Montes-clarense de Letras, à qual chegou a presidir, e a ACLECIA – Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco, mas de ambas retirou-se, requerendo a resignação do título, por ter resolvido recantilhar-se no que ele denomina “seu mundinho”. Na infância e na juventude perambulou pelas matas e beiras de rios da região, identificando-se com a natureza, em sua essência virgem.
A Dedicatória é extensa, não faltando os pais, os filhos e parentes outros. Ela integra pessoas das letras, professores, intelectuais de renome, sem se esquecer da “deusa de sua vida”, sua esposa e mãe de seus filhos.
Com honestidade agradece aos diretores de jornais e aos jornalistas que o acolheram, estendendo sua gratidão aos cultores das letras, que lhe deram encorajamento para a publicação do livro.
Sobre o livro “Menino Pescador” reservo-me o direito de falar depois, aproveito apenas para concordar com Reivaldo quando se refere a “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, livro onde se encontra “a beleza e a elegância de estilo”, ou, como ele afirma: “Euclides encanta o leitor”.


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Por Petrônio Braz - 13/7/2008 09:54:11
Estado policial

Não se discute, nem se deve discutir, o valor social da ação policial objetivando a segurança pública e a ordem interna. Ela no seu conjunto organizacional deve garantir ao cidadão o direito à vida e à propriedade, como responsável pelo cumprimento das determinações emanadas do Poder Judiciário, seja a polícia estadual ou federal.
Preocupa-nos, todavia, em presença de inúmeros casos concretos, o abuso de autoridade. O silêncio de cada um, de cada cidadão, em presença do abuso de poder, é subserviência, medo, covardia. O preço da liberdade, diziam os udenistas nos anos cinqüenta, é a eterna vigilância.
Vivemos em uma Nação democrática, regida por uma Constituição que deve ser respeitada. Os direitos individuais devem ser garantidos, sejam eles de ricos ou de pobres. As leis devem ser obedecidas em sua inteireza plena, mesmo porque o princípio da legalidade vem estampado, com destaque, no corpo da Constituição.
Para o leito, e mais de noventa por cento dos brasileiros são leigos em matéria de direito, os recentes atos abusivos perpetrados pelo Polícia Federal, em cenas cinematográficas, são dignos de elogios. Se o cidadão praticou atos de corrupção, deve ser processado e punido, na forma da lei. O que não se pode admitir são prisões extemporâneas, sem culpa formada, apenas em presença de indícios de culpa, ainda em fase de investigação; prisões que desabonam e, em muitos casos, representam já uma punição, sem sentença condenatória.
Os leigos afirmam, com razão dentro de suas compreensões aparentemente lógicas, que nunca se puniu tanto os corruptos quanto no governo atual. Afirmação que encontra guarida na realidade dos fatos. É que, nos governos anteriores, havia o respeito à lei. O possível culpado era processado e julgado e só depois era condenado e preso. Hoje, primeiro ocorrem as prisões com exposição à execração pública dos investigados, para depois promover-se o processo e apurar a efetiva responsabilidade. Provas são produzidas de forma inquisitória, sem o crivo do contraditório, e assim colhidas são levadas ao Judiciário (a alguns juízes despreparados), com pedidos de prisão, que são comunicadas antecipadamente à mídia, para os holofotes da desmoralização. Nenhum exemplo é mais marcante do que o ocorrido com os Vereadores de Montes Claros.
Não defendo a impunidade, ao contrário, defendo o cumprimento da lei e o respeito devido a cada cidadão. Seja ele rico ou pobre.
Causam admiração os pronunciamentos reiterados do Ministro da Justiça, que não é leito, tentando explicar o inexplicável. Mas, ao mesmo tempo, somos levados a aceitar o pronunciamento do Presidente da República, que é desconhecedor das leis criminais que regem o País. Aquele tem o dever de garantir o cumprimento da lei, este o direito de buscar o apoio popular (dos leigos). O primeiro é um técnico, o segundo um político.
A insegurança é, hoje, uma realidade na vida nacional. Vivemos em um País onde a ação policial antecede à Justiça, a exemplo da Alemanha nazista, da China e de outras nações, que vivem em regime ditatorial. O que está ocorrendo, hoje, no Brasil só pode ser comparado ao que ocorreu na Rússia, nos últimos dias do período czarista.
Estabelece, com meridiana clareza, a Constituição Federal brasileira, em seu Art. 5º, inciso III, que ninguém será submetido a tratamento desumano ou degradante. E o mesmo artigo, que estabelece os direitos e as garantias fundamentais, em seu inciso X, assenta que são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas. Ainda no mesmo artigo, no inciso LVII, está firmado que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória. Ulisses Guimarães deve estar se retorcendo no fundo das águas do Atlântico. Tudo está a indicar que essas normas fundamentais da Constituição Cidadão foram revogadas, sem que a Nação tenha sido informada de sua invalidação.
Não fui udenista, mas hoje sou levado a afirmar que: “O preço da liberdade é a eterna vigilância”.


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Por Petrônio Braz - 19/5/2008 09:43:47
A CIDADE SEM PASSADO

Presente na solenidade de lançamento do livro “A Cidade sem Passado”, com selo da Editora UNIMONTES, da professora Filomena Luciene Cordeiro, do Departamento de História de nossa Universidade Estadual, graduada em História, pós-graduada em “Ciências Sociais”, pela mesma UNIMONTES e em “Gestão da Memória: Arquivo, Patrimônio e Museu”, pela Universidade do Estado de Minas Gerais, e mestre em História pela Universidade Severino Sombra, ocorrido nas dependências da grande Universidade Norte-mineira, com Prefácio da professora Philomena Gebran.
Dela recebi a produção técnico-literária com o autógrafo: “Ao Petrônio. Que a cidade de Montes Claros, construída também por você, possa garantir a preservação da memória e da sua história. Obrigada.”
O livro, como atesta a Autora, é o resultado de sua dissertação de Mestrado do Curso de Pós-Graduação em História, pela Universidade Severino Sombra, de Vassouras, defendida em 2004 e das inquietações da Autora relativas à ausência de uma política, sobretudo de patrimônio documental em Montes Claros e da Região Norte-mineira.
Embora o título da obra nos revele ser Montes Claros uma cidade sem passado, em verdade ele existe e foi muito bem descrito por Hermes Augusto de Paula, todavia, não está sendo materialmente preservado. É uma pena!
O Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, por iniciativa de seu presidente, escritor Wanderlino Arruda, está estimulando os seus membros efetivos a escreverem, para relembrar e fixar aspectos diversos do passado, de suas coisas e de suas gentes, que deve ser sempre presente na memória da comunidade.
A professora Dra. Márcia Pereira da Silva, em uma das orelhas do livro atesta ser “inegável a importância da memória para a vida humana. Os diários, álbuns de fotografias, filmagens de ocasiões especiais, cadernos de receitas, dentre outros hábitos disseminados socialmente comprovam que os homens precisam preservar o passado que, no limite, serve de referencial para o presente.”
Obra de natureza técnico-literária, “A Cidade sem Passado” nos remete ao fundo de nossas consciências, para nos conscientizar de que o patrimônio cultural deve ser preservado.
Além do extraordinário conteúdo do livro, Filomena Luciene Cordeiro nos oferta uma coleção de fotografias históricas da “Princesinha do Norte”, a “cidade da arte e da cultura”, que nos transporta ao passado. Aqui, o aspecto urbano da cidade em 1953, ali uma foto de uma cavalhada, mais adiante o Grupo de Seresta “João Chaves”, a inauguração do Parque de Exposições “João Alencar Athayde” em 1947, o velho Mercado Municipal, mas não é este o aspecto fundamental do livro.
Montes Claros integra a história deste grande País, e ela precisa ser preservada.
A Autora nos envia aos arquivos públicos e particulares da cidade: Arquivo da Paróquia da Matriz de Nossa Senhora e São José, Arquivos da Prefeitura e da Câmara Municipal de Montes Claros e nos transporta à Divisão de Pesquisa e Documentação Regional da UNIMONTES.
Como arquivista, memorialista, escritora, professora, historiadora, Filomena Luciene Cordeiro aborda com propriedade a relevância do documento para a preservação da memória histórica e relaciona os princípios éticos e as responsabilidades do arquivista.
Obra que precisa ser lida, preservada e, principalmente, seguida. Com sua leitura, como eterno estudante, muito aprendi.


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Por Petrônio Braz - 13/5/2008 16:53:46
Isto não é democracia

Fui professor durante belos vinte anos e tenho orgulho dessa passagem, para mim histórica, de minha vida. Hoje não me disporia a exercer esta sublime profissão.
Assisti aos noticiários televisionados de hoje, o terremoto na China e outras notícias. Da Globo passei para o Fala Brasil e encontrei reportagens terrificantes sobre a situação dos professores em algumas capitais deste País. Ao vivo professores sendo espancados por aluno ou grupo de alunos, em plena sala de aula. Grupos de alunos, dominando áreas dentro da escola para uso de drogas. Isto, para meu entendimento, é inadmissível. Um aluno de quatorze anos levanta-se da cadeira e dá um soco na professora, em plena sala de aula.
A explicação dos menos avisados vem rápida: droga.
Não é somente pelo possível uso de drogas que tem ocorrido a desrespeito à autoridade do professor nas escolas, principalmente nas públicas, é pelo desrespeito ao princípio de autoridade.
Não apenas porque fui professor, em tempos outros, mas porque a classe de professores é a que deve merecer maior respeito em nossa comunidade dita civilizada, apesar dos salários recebidos, que saiu em defesa da classe.
Fatos como esses têm sido presenciados em razão de entendimentos diversificados do que seja uma democracia (leia liberdade).
Em qualquer sociedade humana (sem falarmos nas formigas ou nas abelhas) deve existir um vínculo de subordinação, através de escalões sucessivos, que define os limites de autoridade, de superior a subalterno, sem o que se perde o controle da própria sociedade, estabelecendo-se o primado da anarquia.
Não se pode negar que tais abusos, que se vão tornando permanentes, têm sua origem primeira nos postulados da atual Constituição brasileira. No texto constitucional existem acentuadas limitações à atuação da autoridade, posto que escrita, votada e posteriormente entregue aos brasileiros como sua lei maior, como uma reação legislativa contra o regime militar anteriormente vigente. Nela, na Constituição, destacam-se direitos, com exaltação dos interesses sociais e coletivos, sem considerar as obrigações e os deveres sociais e cívicos, que se exige de todo indivíduo, que vive em sociedade.
Na esteira da Constituição, leis ordinárias e resoluções normativas têm sido editadas excluindo o princípio da autoridade, principalmente nas escolas.
Não seria necessário voltarmos aos bons tempos da palmatória, tempos que me trazem agradáveis recordações, quando éramos levados a bater (com a palmatória) em um colega que não acertava a tabuada. Era um castigo que não magoava, mas incentivava. Mas é imperioso que o princípio da autoridade seja restabelecido.
Hoje nada, ou quase nada, se pode fazer para conter a elevação da desordem dentro das escolas. Em tempos outros havia o instituto da expulsão, da extinção do mau elemento do convívio escolar. Se o criminoso deve ser preso (afastado da sociedade) como deseja toda a sociedade (lembremos do caso Isabella), por que o mau aluno, que pratica ilícitos nas escolas, não pode dela ser afastado como ato punitivo, ouvido o conselho escolar?
Não me animaria, hoje, a ser professor, especialmente nas escolas de primeiro e segundo graus, porque não tenho vocação para mártir, para o sacrifício ou o sofrimento por um trabalho.
A primeira educação deve nascer na família, o que nem sempre acontece. Em seguida vem a escola que instrui, mas não está podendo educar.
Estamos efetivamente vivendo tempos difíceis.


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Por Petrônio Braz - 7/5/2008 07:12:56
Ainda a transposição

A convite do prof. Luiz Giovani Santa Rosa estive ontem na Casa do Rotariano, em Montes Claros, onde proferir palestra sobre a transposição das águas do rio São Francisco, ou melhor, sobre o Programa de desenvolvimento sustentável do semi-árido, projetado para atendimento às vitais necessidades dos nordestinos.
Recebi, hoje, do acadêmico Manoel Hygino dos Santos, do HOJE em Dia, um e-mail pedindo-me os tópicos principais da palestra.
Existem aqueles que são a favor e os que são contra o projeto de transposição das águas do rio São Francisco, já em fase inicial de execução. Os que são a favor do projeto, não devem ter gostado. Os que são contra, aplaudiram. Essa dicotomia entre o bem e o mal, o sim e o não, Deus e o Demônio, existe deste os tempos de Adão e Eva.
Em princípio poderíamos dizer que nós mineiros nada teríamos a ganhar ou a perder com a transposição, posto que as águas do rio já terão cumprido o seu papel em Minas. Todavia, procurei enfocar o fato de ser Minas Gerais o Estado fornecedor de setenta e cinco por cento das águas, que descem para a calha do rio e, no entanto, há menos de um quilômetro do rio, nas duas margens, o norte-mineiro passa fome e tem sede, tanto que, todos os anos os Municípios decretam situação de emergência ou estado de calamidade pública, por falta de água, e nenhum projeto é conhecido com vista a minorar esta situação.
Nós fornecemos as águas que descem, sem serem aproveitadas no seu nascedouro pelos mineiros, por carência de ação administrativa responsável. Não só os nordestinos têm necessidade de água no período das secas, também o norte-mineiro carece do precioso líquido.
O rio São Francisco corta terras de cinco Estados, todavia, com exceção da região do Alto-médio São Francisco (acima de Pirapora), as populações ribeirinhas, drenadas pelo rio, vivem em estado de pobreza quase absoluta.
Embora tenham sido apresentados projetos com vistas à revitalização do rio São Francisco, em Minas Gerais, são em verdade micro-projetos, sem a força convincente de uma ação séria nesse sentido. Minas Gerais precisa de um macro-projeto de revitalização, de uma ação positiva, não só com vistas à despoluição de nossos rios, mas principalmente com a revitalização de todos os afluentes do ex-grande Rio. Revitalizar é fazer renascer, dar nova vida.
Mesmo em si considerando que nada temos a ver com a transposição das águas do rio, depois que elas deixam o território de nosso Estado, como brasileiros temos o direito de analisar, também, os lados positivos e negativos do Projeto de transposição, embora não se saiba, com efetividade, qual o Projeto que está sendo executado, já que o original foi alterado várias vezes, não se tendo conhecimento do que está efetivamente sendo implantado. O Projeto apresentado nas audiências públicas foi modificado.
Sabe-se que a energia gasta com o processo de bombeamento da água, para abastecimento dos dois canais, somada à energia que deixará de ser produzida pelo complexo de Paulo Afonso, comprometerá a energia gerada pela Usina de Sobradinho.
Não se levou em conta, com objetividade, a questão da evaporação, sem considerarmos o fato da evaporação no curso do rio até Sobradinho. Somente no lago da Represa de Sobradinho, a evaporação corresponde ao volume de água lançado no rio São Francisco pelo rio Corrente.
A infiltração, como outro fator importante, absorverá grande quantidade da água bombeada. Os terrenos das áreas de caatinga são de natureza sedimentar, com alta capacidade de infiltração.
É fato notório, e disto todo mundo tem conhecimento, que a água é o maior fator de atração humana. Numa região semi-árida, vai ser impossível o controle do deslocamento das populações vizinhas para as margens dos canais. Isto provocará o esgotamento da água antes de chegar ao seu destino.
Por outro lado, o prazo previsto para a execução das obras é de vinte anos, a um custo inicial estimado em sete bilhões de reais. Historicamente, no Brasil, nenhum governo conclui obra por outro iniciada, ainda mais sendo polêmica como é o caso da transposição.
Está nascendo, no Nordeste, uma nova Transamazônica, de uma nova Perimetral Norte, uma nova Ferrovia do Aço.


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Por Petrônio Braz - 28/4/2008 03:56:50
Sombra de Inspiração

Quando escrevo gosto de ter, como fundo, em surdina, uma música romântica, com sentimentos e poesia na letra, especialmente do quarteto insubstituível: Orlando Silva, Francisco Alves, Sílvio Caldas e Carlos Galhardo, ou, ainda, Dolores Duran, Altemar Dutra, Edu Lobo, Dorival e Nana Caymmi, Maysa e tantos outros.
Letras extraordinárias da lavra de um Jorge Faraj, David Nasser, Mário Lago, Mauro Rossi, Cristóvão de Alencar, Torres Homem, Chico Buarque de Holanda, Carlos Imperial, Herivelton Martins, Fernando Lobo, João de Barro e outros.
Hoje, ouvindo a “Praça” uma composição de Carlos Imperial, interpretada por Ronnie Von, fui levado, pelas lembranças do passado, a sentar-me, em pensamento, no mesmo banco da antiga Praça Governador Valadares, em São Francisco, de onde olhava o coreto neoclássico e observava as lindas moças, virgens e puras (pleonasmo ou redundância necessária), fazendo o “footing” nos princípios de noite.
Não se fixa a individualidade sem a presença de fatores materiais, que a identifiquem. Não se recorda o passado e não se vive as lembranças sem que os elementos que os compõem existam como ponto de referência, isto porque “as lembranças se apóiam nas pedras da cidade”.
A velha e clássica Praça foi demolida por um administrador desvinculado da história e das tradições locais, edificando no local outra sem qualquer atrativo.
Desliguei a “Praça” e resolvi relembrar o passado com “A Deusa da Minha Rua”, letra de Jorge Faraj e música de Newton Teixeira, uma das mais belas canções românticas da música popular brasileira.
Nós crescemos, a cidade cresceu, outras praças poderiam ter sido edificadas, mas a Praça lá deveria ainda estar presente, a mesma Praça, que nos fixasse culturalmente à terra natal.
Ainda em São Francisco, nada era mais lindo do que o cais natural, de pedra calcária, que por muitos e muitos anos protegeu o centro da cidade das inundações do rio São Francisco. A beleza natural foi destruída, por alto custo, para no mesmo local ser construído um simples muro de concreto, sem qualquer atrativo e finalidade.
Desliguei “A Praça” e passei a ouvir “Caminhemos”, de Herivelto Martins, interpretação de Nelson Gonçalves, na busca de uma ida indefinida para lugar nenhum, já que o passado, uma vez destruído, não mais retorna. Passei, depois, para “Copacabana”, de João de Barro e Alberto Ribeiro, interpretada por Dick Farney, desviando o sentido para que a mente retornasse ao objeto primeiro do trabalho literário em execução, passei, em seguida, para “Chuvas de Verão”, de Fernando Lobo, versão gravada por Caetano Veloso.
A saudade, nascida da lembrança da velha Praça, levou-me a sintonizar “Adeus”, lindo samba-canção de Sílvio Neto, na interpretação magistral de Francisco Alves. Antes de afastar-me do computador fui até Dorival Caymmi, na interpretação de “Marina”. Coisas da idade.
A música é um lenitivo, a mais perfeita de todas as artes humanas.


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Por Petrônio Braz - 20/4/2008 09:19:04

ARQUITETURA SÃO FRANCISCANA

Em uma reunião da Diretoria do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, foi-me ofertado pela confreira profª Marta Verônica Vasconcelos Leite, mestra em Ciência da Educação e especialista em História da Arte, um exemplar da antologia “Caminhos da História”, com selo da Editora UNIMONTES.
Para meu deleite deparei, nas páginas da referida antologia, com o trabalho técnico de pesquisa, por ela realizado na cidade de São Francisco (minha terra natal) sobre a arquitetura local, em parceria com o mestrando em História prof. Roberto Mendes Ramos Pereira.
O trabalho, como se extrai da Introdução, constitui-se em um “esforço de análise do patrimônio arquitetônico da cidade de São Francisco, situada na região norte do Estado de Minas Gerais”. Do conteúdo extrai-se a profundidade do referido trabalho, que apresenta a memória e a arte presentes nas construções da parte mais antiga da cidade, que remontam aos finais do Século XIX e princípios do XX.
Questionam os autores, com sabedoria, se São Francisco é uma cidade “berço da expressão cultural ou vitrine do progresso”, e analisam com objetividade a carência de cultural preservacionista, observando que “o conhecimento crítico e a apropriação consciente por parte das comunidades e indivíduos do seu patrimônio são fatores indispensáveis ao processo de preservação sustentável desses bens, assim como no fortalecimento dos sentimentos de identidade e cidadania”.
São Francisco é uma cidade que tem história, mas perdeu a sua identidade em presença dos oportunismos políticos e imediatistas de seus últimos governantes, observação nossa, não extraída do importante trabalho técnico em foco. Todavia, observam os Autores que “a educação patrimonial pode ser um instrumento de “alfabetização cultural”, que possibilita ao indivíduo fazer a leitura do mundo que o rodeia”. Citando Bosi (2004) eles relembram que “as lembranças se apóiam nas pedras da cidade”.
Em artigo publicado pelo Jornal de Notícias, há pouco tempo, declarei que “o que somos está vinculado ao que éramos” e o que éramos precisa ser preservado para que as gerações futuras possam encontrar a sua identidade, para que possam desenvolver, como afirmam os Autores, a “auto-estima” e a valorização de sua cultura.
Focaram os Autores, entre outras observações de real importância, na prevalência da arquitetura colonial nas edificações do centro histórico da cidade e observaram que as edificações que melhor representariam o Neoclassicismo em São Francisco estão edificadas na hoje Praça do Centenário, todavia, a Praça, com o passar dos tempos e com “a desinformação dos governantes posteriores”, teve o seu coreto neoclássico retirado, transformando, com a reforma realizada, a Praça em um lugar comum, sem atrativo técnico, restando apenas “alguns dos belos casarões”, que integram a antiga Praça, que ainda dão “à cidade de São Francisco identidade e encanto”. Dentre eles, relatam os Autores, “salienta-se um com liras representadas no alto da fachada, indicando que ali possivelmente morava uma professora de música. Em casa próxima, encontra-se um pequeno jardim francês e uma belíssima varanda com baldaquins em forma de gregas, afrescos nas paredes e frisos de parreiras com belos cachos de uvas invocando fartura e fertilidade para seus proprietários. Outra residência destaca-se por um ornamento em forma de ânfora no centro da fachada ladeada por papiros. E, ainda, cabe registrar fachadas com pequenas esculturas que lembram a tradição romana de invocar seus deuses protetores, guardiões dos lares”.


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Por Petrônio Braz - 8/3/2008 07:50:51
No mesmo momento em que a sociedade civil de Montes Claros busca se organizar para equacionar os meios de combate à criminalidade, à violência que preocupada a todos, leio na Revista de Estudos Avançados da USP (São Paulo), nº 61, um conjunto de artigos, um dossiê sobre o Crime Organizado, da lavra de Sérgio Adorno, Fernando Salla, Alba Zaluar, Guaracy Minnardi, Marco Antônio Tavares Coelho (autor de livros sobre o rio São Francisco e o Rio das Velhas), Luiz Eduardo Soares, Flávio Oliveira Lucas, Michel Misse, Jacqueline de Oliveira Muniz, Domício Proença Júnior, Vera da Silva Teles, Daniel V. Hirata, Francisco Alexandre de Paiva Forte e Paulo Roberto Ramos, cada um enfocando um aspecto específico da presença do crime organizado, suas origens, suas conseqüências sociais, a legitimidade da política de repressão, enfim, a segurança pública.
Sempre recebo as revistas publicadas quadrimestralmente pelo Instituto de Estudos Avançados da USP, que me são remetidas regularmente pelo seu diretor executivo o professor Marco Antônio Tavares Coelho.
Sabemos que, infelizmente, o Brasil é um dos países mais violentos do mundo. O município de Montes Claros, para não fugir da regra, tem registrado mais homicídios por mês que Portugal em um ano.
As causas de tanta violência são as mais diversas possíveis. A primeira e mais presente é a carência de respeito à autoridade, visto que a própria autoridade constituída tornou-se indigna de reverência em presença da corrupção oficializada.
Observa Sérgio Adorno que a partir de 1970, na esteira das mudanças neoliberais, tem ocorrido o fenômeno da globalização que está diluindo as noções de nacionalidade e desenvolvendo, nas nações em desenvolvimento, “com abertura de espaço para atividades ilegais ao tornar a propriedade do capital anônima, com circulação monetária livre e apta para os financiamentos de operações como o tráfico de drogas, de pessoas e de órgãos humanos, contrabando de armas, fraudes fiscais e financeiras, pirataria de mercadorias e de serviços, falsificação de medicamentos, entre tantas outras modalidades”.
Analisando a questão sob o prisma do sistema democrático brasileiro, Alba Zuluar examina minuciosamente o assunto ponderando que o processo de redemocratização, iniciado a partir de 1978, veio acompanhado por uma crescente taxa de crescimento da criminalidade em uma “nação que foi construída pelos ideais da cordialidade e da conciliação e que mudou recentemente essas idéias depois da crítica de intelectuais importantes sobre a ausência de cidadania nelas”. O retorno à democracia, o término do regime militar, veio acompanhado de “mecanismo de vingança pessoal e de impulsos agressivos incontroláveis”. Adverte ele que um dos principais problemas de hoje é a incapacidade governamental de controlar o uso de drogas ilegais, cuja circulação se opera por toda parte “com uma logística que impressiona pela sua eficácia”. Pondera em seu artigo que os setores mais dinâmicos praticam ilegalidades como o “caixa dois” das empresas, “fonte para pagar as eleições dos candidatos que irão conceder às empresas envolvidas privilégios”, tornando o país uma democracia eleitoral.
Por sua vez Guaracy Mingardi atenta para o problema esclarecendo que o grande erro dos procedimentos de repressão ao crime organizado está na expressão “guerra”. Esclarece que “quando o Estado combate uma guerra, existe um inimigo identificável, com liderança clara”. As organizações criminais possuem lideranças fluidas e “estão de tal forma relacionadas com o aparelho do Estado que se torna difícil mirar uma sem acerta outra”.
Numa linha diferenciada de análise, Marco Antônio Tavares Coelho analisa atentamente o tema criminalidade enfocando o depoimento de Marcola, apontado como o chefe do Primeiro Comando da Capital (PCC), em São Paulo, que segundo ele simplifica tudo ao afirmar: vim da miséria. A miséria e a violência andam juntas. Marcola afirmou que não acredita em Deus. Viveu algum tempo no Paraguai e se tornou um autodidata, um homem culto. Lê, entre outros, Nietzsche, Vitor Hugo, Santo Agostinho, Voltaire e até a Bíblia. Criou regras de convívio nos presídios.
Luiz Eduardo Soares, por seu turno, analisa a política nacional de segurança pública. Flávio Oliveira enfoca o Poder Judiciário e as organizações criminais, enquanto Michel Misse vê as redes de proteção e a organização do crime organizado.
Enquanto a sociedade civil está desarmada, o bandido está cada vez mais dotado de armamento bélico. A podridão está em toda parte.


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Por Petrônio Braz - 24/2/2008 03:51:59
O presidente da Seccional do Rio de Janeiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ), Wadih Damous, afirmou ontem (23) que a decisão liminar dada pelo ministro Carlos Ayres Britto, do Supremo Tribunal Federal, suspendendo vários artigos da lei de imprensa é “histórica e pode significar o reconhecimento definitivo, por parte do STF, da incompatibilidade da lei de imprensa com os postulados democráticos da Constituição de 1988”. Damous lembrou que a lei de imprensa é remanescente, como entulho, dos tempos sombrios da ditadura militar. “As circunstâncias em que foi editada já não mais existem e, no entanto, continua em vigor para cercear a liberdade de expressão e pensamento. Com base nela, tenta-se intimidar jornalistas e órgãos de imprensa.”


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Por Petrônio Braz - 12/2/2008 18:13:55
Vinha, ontem à tarde (11/02/2008), com minha esposa da cidade de Salinas para Montes Claros. Por volta das duas e meia da tarde, na descida da serra de Francisco Sá, após uma curva das inúmeras ali existentes, em local bem sinalizado com proibição de ultrapassagem, deparamos de frente com um ônibus da Empresa Gontijo, que subia na contramão tentando ultrapassar ao mesmo tempo duas carretas. Outra saída não nos foi apresentada senão sair além do acostamento para dar passagem ao irresponsável motorista, que ainda teve o desplante de nos acenar com a mão sorrindo. Em Montes Claros telefonei para a Empresa (3221-8232), tendo sido atendido por uma senhora, que passou para um senhor, cujo nome não gravei. Informei o fato e ele apenas me perguntou se eu tinha o número do veículo. Respondi que não, que as minhas preocupação no momento eram outras. Ele então afirmou que nada podia fazer. Reafirmei o horário e disse que seria fácil para eles saberem qual o carro que teria passado por aquela localidade naquele horário. Ele apenas confirmou a resposta anterior. Nada podia fazer. Ligando a televisão o reporter dava notícia de um outro ônibus da mesma Empresa, em outra estrada, que havia se chocado de frente com outro veículo, com sacrifício de algumas vidas humanas.


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Por Petrônio Braz - 27/1/2008 11:21:08
Como se faz a história

Quando releio a versão histórica, definida no livro “História do Terceiro Batalhão”, do major Anatólio Alves de Assis, relacionada com o ataque à Vargem Bonita, reduto de Antônio Dó, no município de Januária, nos idos de 1913, perpetrado pelo alferes Félix Rodrigues da Silva – o Felão, detalhado com minúcias como o “Canudos de Vargem Bonita”, passo a pensar se também a verdadeira história de “Canudos” como descrita magistralmente por Euclides da Cunha, teria ocorrido com está historicamente definida, como uma resistência heróica dos sertanejos de Antônio Conselheiro ou um massacre perpetrado pelo poder as armas.
Verdade que foram necessárias três expedições militares, a última com quase 5 mil homens e artilharia pesada para submeter os seguidores de Antônio Conselheiro. Registra a história que a população lutou até o fim. Será? Umas 300 mulheres, velhos e crianças se renderam. Os homens sobreviventes foram degolados e os que resistiram até o fim foram baionetados numa luta corpo-a-corpo que se travou dentro do arraial, no dia 5 de outubro de 1897. Teria havia essa luta corpo a corpo ou foram simplesmente degolados sem resistência?
Os relatos militares não podem ser contestados pelos subordinados, como bem informa o major Anatólio Alves de Assis – “superior não mente”.
Ao definir o massacre ocorrida na Vargem Bonita, pelos atos do Felão, em 1913, o major Anatólio Alves de Assis, fundamentado naturalmente nas informações que foram passadas pelo próprio alferes Félix Rodrigues da Silva aos seus superiores, registra: “Mas como acontecera em Canudos anos antes, os rebeldes de Vargem Bonita não se entregaram. Morreram lutando. Como homens. Como valentes. Como sertanejos. No final restaram as mulheres e crianças. Aturdidas, desorientadas, mudas”.
Os fatos são outros. Não tendo podido prender ou matar Antônio Dó, que fugiu com seus homens, o alferes Félix Rodrigues da Silva, ferido em seu orgulho pessoal, inconformado com o desaparecimento de Antônio Dó, ébrio de cólera e insultado em seus brios militares, levantou-se da trincheira e mandou que os soldados percorressem o povoado, prendendo, sem exceção, todos as pessoas que encontrassem. Não houve resistência.
Postos todos os habitantes, homens, mulheres e crianças na praça do povoado, Felão, sem comiseração para com os infelizes moradores da pequena aglomeração urbana, mandou atear fogo às casas.
O fogo, com ímpeto destruidor, ia incinerando os ranchos um a um, enfumando o lugarejo. As chamas espalhavam fagulhas sobre o povoado, em flamifervente espetáculo, criando novos focos de incêndio, devastando tudo.
O terror espalhara-se pelo povoado. Pouco antes do meio-dia mais de cinco inocentes tinham sido fuzilados a sangue frio. Tal chefe, tal tropa. Os soldados, por suas próprias vontades, sem constrangimento, percorriam o que restou do povoado, roubando, deflorando virgens, desonrando mulheres casadas, assassinando a sangue frio quem se opunha.
Mas correta é a versão de Saul Martins: “Felão deu ordem para atearem fogo às casas, que eram cobertas de palha de buriti, a fim de escorraçar os “bandidos”, que se ocultavam nelas. (...) As casas eram ocupadas pelos respectivos donos e suas famílias, moradores do lugar, e não bandidos” (Antônio Dó, 3ª ed., Belo Horizonte, SESC/MG, 1997.).
Assim, muitas vezes, se escreve a história.
O “Canudos da Vargem Bonita” ficaria afirmado na história, se historiadores outros não tivessem desvendado os fatos e relatado os reais acontecimentos.


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Por Petrônio Braz - 4/1/2008 11:33:33
Ainda a transposição do rio São Francisco

Sabe-se que cerca de setenta e cinco por cento do deflúvio do rio São Francisco é gerado em Minas Gerais, daí porque não se pode admitir nenhum processo de utilização de suas águas sem que os interesses de Minas sejam atendidos. E os interesses de Minas referem-se à revitalização, pois temos, necessariamente, que nos preocupar com as limitações das fontes hídricas na condução do processo de transposição pretendido pelo governo federal.
Tem o governo (poder público) poderes quase ilimitados para regulamentar o uso das águas, assim teme-se, não sem razão, que para atendimento ao volume de águas a serem transpostas, venha a ser limitada a sua utilização no território mineiro.
A Fundação Joaquim Nabuco tem alertado sobre os problemas da transposição. Já se estabeleceram, por razões diversas, limitações à navegabilidade do rio São Francisco, à geração de energia, à irrigação e ao abastecimento das populações ribeirinhas, recomendando, a mesma Fundação, “a necessidade da realização de um planejamento hidráulico em sua bacia hidrográfica, de forma a possibilitar as subtrações volumétricas pretendidas”.
O problema não pode ser limitado à vontade do governo ou à contestação de um bispo. Ele é muito mais abrangente.
Dentro do programa governamental, a transposição visa a integração do rio São Francisco com as Bacias Hidrográficas do Nordeste Setentrional, prevendo a construção de dois canais: o Eixo Norte que levará água para os sertões de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte e o Eixo Leste que beneficiará parte do sertão e as regiões agreste de Pernambuco e da Paraíba.
O projeto Jaíba, em Minas Gerais, depende das águas do rio São Francisco, águas que são canalizadas a alto custo operacional, mas que atendem aos objetivos do referido projeto. Será ele afetado?
As populações ribeirinhas, em Minas Gerais, há pouco mais de um quilômetro das margens do rio, não dispõem de água para sua sobrevivência no período da estiagem, que vai de abril a setembro, todos os anos. Para essas pessoas não existe um projeto de atendimento aos seus legítimos interesses. Minas Gerais (via governo estadual) tem o dever de cobrar, como compensação necessária, um projeto paralelo para atendimento a essas populações.
A população mineira mais atingida pela carência de água é justamente a deste Norte. O rio São Francisco para o norte-mineiro pode ser comparado ao rio Nilo, que banha uma região desértica do Norte de África. Fora de suas margens também aqui vivemos em um clima de deserto, com calor abrasador, sem água suficiente à sobrevivência, impondo aos governos municipais decretações quase permanentes de situações de emergência ou de estado de calamidade, em busca de migalhas de recursos dos Poderes estaduais e federais, fato que se repete a cada ano, sem qualquer projeto de atendimento definitivo a uma situação permanente.
Este Norte é desprovido de voz. Daí não estarmos sendo beneficiados com um mínimo de atenção diante do volume faraônico de recursos previstos para a transposição.
Vivemos numa região de clima desértico, razão porque devemos continuar a “pregar no deserto” o atendimento aos nossos interesses. Quem sabe, um dia, seremos ouvidos!.


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Por Petrônio Braz - 30/12/2007 17:38:02
É de fazer chorar as pedras da calçada

É de “fazer chorar as pedras da calçada”, dizem os portugueses quando uma notícia ou um fato choca a nossa mente e alarma o nosso espírito cristão. Informação que me veio pela Dra. Isabel Maria Rosa Furtado Cabral Gomes da Costa, ilustre magistrada do Ministério Público – Procuradora Adjunta junto ao 2º Juízo do Tribunal Judicial da Comarca de Manguale (Portugal), via e-mail, em comentário à saga do rouxinol, que lhe mandei.
Da mesma ilustre portuguesa, em outro e-mail, recebo uma coleção de leis antigas, de normas de conduta impostas às mulheres em tempos outros: “Escritos milenares”. Regras que merecem ser relembradas para que se tenha um reconhecimento do valor da luta das mulheres durante séculos pelo respeito à sua dignidade humana.
“A mulher deve adorar o homem como a um deus. Toda manhã, por nove vezes consecutivas, deve ajoelhar-se aos pés do marido e, de braços cruzados, perguntar-lhe: Senhor, que desejas que eu faça?” (Zaratustra, filósofo persa do Século VII, a.C.).
“Mesmo que a conduta do marido seja censurável, mesmo que este se dê a outros amores, a mulher virtuosa deve reverenciá-lo como a um deus. Durante a infância, uma mulher deve depender do pai, ao se casar de seu marido, se este morrer, de seus filhos e se não os tiver, de seu soberano. Uma mulher nunca deve governar a si própria” (Leis de Manu – Livro Sagrado da Índia).
“Quando um homem for repreendido em público por uma mulher, cabe-lhe o direito de derrubá-la com um soco, desferir-lhe um pontapé e quebrar-lhe o nariz para que assim, desfigurada, não se deixe ver, envergonhada de sua face. E é bem merecido, por dirigir-se ao homem com maldade de linguajar ousado” (Le Ménagier de Paris – Tratado de conduta moral e costumes da França, Século XIV).
“As crianças, os idiotas, os lunáticos e as mulheres não podem e não têm capacidade para efetuar negócios” (Henrique VII, rei da Inglaterra, Século XVI).
"Quando uma mulher tiver conduta desordenada e deixar de cumprir suas obrigações do lar, o marido pode submetê-la à escravidão. Esta servidão pode, inclusive, ser exercida na casa de um credor de seu marido e, durante o período em que durar, é lícito a ele (ao marido) contrair novo matrimônio" Código de Hamurabi (Constituição Nacional da Babilônia, outorgada pelo rei Hamurabi, que a concebeu sob inspiração divina, Século XVII a.C.).
"Os homens são superiores às mulheres porque Alá outorgou-lhes a primazia sobre elas. Portanto, dai aos varões o dobro do que dai às mulheres. Os maridos que sofrerem desobediência de suas mulheres podem castigá-las: deixá-las sós em seus leitos, e até bater nelas. Não se legou ao homem maior calamidade que a mulher." Alcorão (Livro sagrado dos muçulmanos, recitado por Alá a Maomé, no Século VI).
"Que as mulheres estejam caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar. Se quiserem ser instruídas sobre algum ponto, interroguem em casa os seus maridos”. São Paulo (apóstolo cristão, ano 67 d.C.).
"A natureza só faz mulheres quando não pode fazer homens. A mulher é, portanto, um homem inferior." Aristóteles (filósofo, guia intelectual e preceptor grego de Alexandre, o Grande, Século IV a.C.).
"O pior adorno que uma mulher pode querer usar é ser sábia.“ "O pior adorno que uma mulher pode querer usar é ser sábia.“ Lutero (teólogo alemão, reformador protestante, Século XVI).
"Todas as mulheres que seduzirem e levarem ao casamento os súditos de Sua Majestade mediante o uso de perfumes, pinturas, dentes postiços, perucas e recheio nos quadris, incorrem em delito de bruxaria e o casamento fica automaticamente anulado." Constituição Nacional Inglesa (Lei do Século XVIII).
Por esses escritos vê-se quão árduo foi o caminho para as mulheres chegarem aos dias de hoje em igualdade de condições com os homens. Infelizmente, em muitos paises islâmicos, as mulheres continuam na mesma situação desses escritos milenares.
A Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, estabelece em seu Art. 5º, I, que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações (Século XX).


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Por Petrônio Braz - 24/12/2007 19:28:25
O sertão, que não é sertão

Uma forma de aprendizagem, individualizada e que se pode obter no silêncio do escritório, ou da residência, nas horas mortas da noite ou nos dias de descanso do trabalho fatigante de todos os dias, é navegar pela internet. Isto sem falar na leitura de um bom livro, que é a melhor forma de se adquirir cultura.
Navegando despretensiosamente por uma página de filosofia, da velha e sempre nova filosofia grega, destacou-se na tela do computador a informação de que “alguns dos grandes pensadores do mundo antigo surgiram na Grécia, principalmente em Atenas. A Filosofia ou “amor à sabedoria” era a forma deles buscarem a verdade e a realidade no mundo, sem se apoiarem nas respostas dadas pela religião ou o mito. Sócrates (469-399 a.C.) foi um dos pensadores mais influentes do mundo ocidental. Seu trabalho se centrou no estudo da ética e da moral. Sócrates acreditava que a felicidade dependia de levar uma vida baseada na moral e que ela podia ser ensinada. Ele ainda pensou que se a virtude é conhecimento, então a maldade é ignorância, e por isso não é intencional. Sua obra causou um efeito profundo no seu aluno Platão (427-347 a.C.), que estudou a questão da ética com mais profundidade posteriormente. Em sua obra prima: “A República” (385-370 a.C.), Platão questiona o conceito de justiça e descreve o seu governo ideal. A maior contribuição feita por Aristóteles (384-322 a.C.), discípulo de Platão, foi a de ser o primeiro filósofo que verdadeiramente separou a filosofia da ciência. Ele inventou o primeiro sistema de lógica, estabeleceu as ciências da biologia e zoologia, fundou a sua própria universidade e esteve entre os primeiros cientistas políticos. Como pensador, as contribuições de Aristóteles foram únicas e sem paralelos até o século XIX”.
Nós outros, materialistas ou espiritualista deste sofrido sertão das Gerais, sem tempo para pensarmos em outra coisa, que não na insegurança das ruas, na corrupção governamental, na anarquia administrativa, no despreparo de nossos governantes, na precariedade do sistema único de saúde ou no sistema ultrapassado de educação, que confirma existirem analfabetos entre os alunos do ensino fundamental, ficamos a ver navios. Integrantes territorialmente de um dos maiores e mais ricos países do mundo, mas que tem uma das menores rendas per capita, nós norte-mineiros não nos damos conta nem mesmo de analisar uma das maiores mentiras históricas desse grande País: a República, com suas ilusões de igualdade, de garantias de direitos sociais, de liberdade individual, de liberdade de manifestação, de respeito aos bens públicos, sem a ética e a moral de Sócrates, sem os conceitos de um governo ideal de Platão, e sem a lógica de Aristóteles. República que prometeu e ainda continua a prometer, passados mais de cem anos, construir uma sociedade livre, justa e solidária; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais, e promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Promessas aceitas e absorvidas no curso de mais de cem anos, sempre prorrogadas para o amanhã, para um futuro que nunca chega.
Vivemos, hoje, em um pedaço agreste de chão, que não é mais o “sertão que não tem fronteiras” que foi devastado, com licença governamental, para a implantação de florestas artificiais de eucalipto e de outras essências exógenas, que eliminaram as suas nascentes, de antigas águas cristalinas, e destruíram a sua flora e a sua fauna nativas. Em um pedaço de terra de rios poluídos, de população empobrecida, sem direitos e sem voz.
Assim, podemos até dizer que é petulância falar-se em filosofia grega em uma terra de misérias, de desemprego e de fome. Mas os gregos também padeciam de necessidades crônicas e foi através da perquirição do porquê de todas as coisas, que promoveram a sua evolução, naqueles tempos históricos. O sertanejo precisa parar e perguntar: PORQUÊ?


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Por Petrônio Braz - 24/12/2007 10:13:04
DOM JOÃO VI

Há poucos dias escrevi sobre o nascimento de Jesus Cristo, fixado arbitrariamente pela Igreja como sendo no dia 25 de dezembro, data que se firmou em presença dos mil anos de estagnação da evolução da humanidade, ocorrida durante a Idade Média. A Igreja, com sua força e poder incontestáveis, punia até com o sacrifício da vida, aos que ousassem contestar as suas decisões.
Não tão diferente é a situação da questão monárquica brasileira. Por pressão das forças armadas, dos que implantaram a República sem ouvir o povo, as Constituições Federais brasileiras, anteriores à de 1988, todas elas, proibiam quaisquer manifestações favoráveis à monarquia, ou elogiosas aos seus membros. Monarquia que deu a este País a sua unidade territorial, lingüística e a sua independência. Imposição tão desumana quanto as ações inquisitoriais da Igreja durante a Idade Média, ações tão absurdas que levaram o Papa João XXIII a ter a coragem e a humildade grandiosa de pedir perdão à humanidade.
Leio, em O GLOBO, edição de 23 de novembro em curso, da lavra de Luiz Carlos do Amaral, que “por ocasião das comemorações do bicentenário da chegada da Família Real portuguesa ao Brasil, seria oportuno e de inteira justiça a mudança do nome de Praça Quinze de Novembro para Praça D. João VI. Esse logradouro carioca nada tem a ver com a proclamação da República e foi o local do desembarque de D. João VI ao Rio e da sede do seu reinado por 13 anos, no Paço Imperial, felizmente tão bem preservado. A homenagem seria ainda um desagravo pelo injusto deboche suscitado pela sua figura e eventuais fraquezas, em livros, filmes e reportagens, fazendo esquecer que, sob o seu reinado e por suas ações, o Brasil deixou de ser uma colônia atrasada e explorada para se tornar uma nação independente, um ano após a sua partida e por sua incontestável influência”.
Há os que, nesta Terra de Santa Cruz, aplaudem a República, sem analisar os seus males, a sua instabilidade institucional no correr dos seus mais de cem anos de corrupta existência. O Estado da anarquia que, na fala insuspeita de Emerson Rios, “convive com vários grupos que atuam à margem da lei, sem que o Estado nada faça para impedir a sua atuação”.
Cumpre ser lembrado que a vinda da Corte Portuguesa para o Brasil, não se constituiu tão somente como uma conseqüência da invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão.. Ela já era prevista anos antes, como lembra Luis Norton em seu livro A Corte de Portugal no Brasil (São Paulo, 1938:15-16). Escreveu ele que “já em 1801, materializado o avassalamento napoleônico da Europa, o Marques de Alorna afirmara numa exposição ao Príncipe: "Vossa Alteza Real tem um grande império no Brasil, e o mesmo inimigo que ataca agora com tanta vantagem talvez trema e mude de projeto, se V.A.R. o ameaçar de que se dispõe a ser imperador naquele vasto território adonde pode facilmente conquistar as colônias espanholas e aterrar em pouco tempo as de todas as potências da Europa"
A história registra que, quando Portugal foi invadido pelas tropas de Junot, a família real portuguesa embarcou para o Rio de Janeiro. Ao chegar ao Brasil, D. João declarou livres as indústrias brasileiras e abriu os portos do Brasil ao comércio estrangeiro. A D. João VI deve-se a fundação da Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro. Em seu reinado registraram-se importantes movimentos militares, que proporcionaram a ampliação de nossas fronteiras.
A proposta de homenagem a Dom João VI é justa e merecida. Que o povo brasileiro saiba, como o Papa João XXIII, pedir perdão à Família Imperial brasileira pelos erros já centenários de julgamento. Ela merece o nosso respeito histórico e somos o único País da América a possuir uma Casa Imperial.


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Por Petrônio Braz - 23/9/2007 11:50:07
A tempo

Resgatar as origens, as histórias dos antepassados, as tradições e os segredos conservados pela tradição oral ou escrita, através de livros de família, é uma modalidade literária importante, em voga na Europa e em outros continentes, como uma forma de fazer história, e tem sido objeto inclusive de cursos especializados para escritores. Não os livros da família, que tratam da vida das crianças, dos parentes e de seus amigos. Mas livro que faz história, de cunho biográfico ou não, que resgate valores e pessoas que tenham ultrapassado os limites restritos do âmbito familiar, para alcançarem a órbita das comunidades próximas ou distantes. Lembra Frank Brentano que “o amor da família é semente de amor à Pátria e de todas as virtudes sociais”.
Oswaldo Antunes, valendo-se de sua experiência no campo da literatura e do jornalismo, de larga vivência no seio da sociedade cultural mineira, tendo compartilhado do convívio com Mário de Andrade, Edgar da Matta Machado, Alphonsus de Guimarãens Filho, Milton Amado, Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende, João Etiene Filho e outros, em livro a ser lançado em meados de outubro próximo, nos oferta A TEMPO, com a pureza de linguagem que lhe é peculiar, obra bem escrita e elaborada com esmerado cuidado, passagens que definem a saga terrestre dos Antunes da Boa Vista, que vieram de Portugal, de procedência judia, que se espalharam por Brasília de Minas e outras cidades da região e do País.
Alexandre Herculano nos lembra que “debaixo dos pés de cada geração que passa na terra dormem as cinzas de muitas gerações que a precederam”. Nessa mesma linha de pensamento, observa Oswaldo Antunes que “as experiências e histórias que parecem novas acontecem em razão de vidas passadas” e que “raramente a tradição natural dos atributos genéticos é reconhecida e valorizada”. Coelho Neto, imortalizado pela sua obra e lembrado como patrono da Escola Estadual “Coelho Neto”, de São Francisco, onde cursei o primário, nos sentencia que “a casa da saudade chama-se memória”.
O livro não é só a vida de uma família, sua influência no convívio social, econômico, político e cultural, mas também relata fatos históricos de alta relevância, não contidos em nenhum outro livro já escrito sobre a região norte-mineira.
O jornalista, na direção do “Jornal de Montes Claros” fez história e viu passar o tempo e, com ele, os fatos da vida urbana de Montes Claros e da região no curso de quarenta anos, que ele relembra em detalhes.
Oswaldo Antunes iniciou-se na profissão de jornalista, em 1946, no O DIÁRIO de Belo Horizonte, mais conhecido como Diário Católico. Naquele ano, no Hotel Tamoios, onde me hospedava como estudante do curso secundário, dedicava-me desesperado a concluir um acróstico a uma namorada. O Oswaldo apanhou o escrito iniciado e completou a composição poética em cinco minutos. Fiquei agradecido; minha namorada adorou.
Recebi do Oswaldo Antunes, ao entregar-me um original do livro A TEMPO, uma solicitação antecipada de analisar e comentar a obra literária, o que me proponho fazer a tempo, espero que antes da data prevista para o lançamento. A primeira leitura, aquela que se faz à vol d’oiseau, agradou-me. A segunda, que agora estou fazendo, tem o sentido crítico e analítico. O comentário virá, necessariamente, depois dessa última.


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Por Petrônio Braz - 23/9/2007 07:52:01
CONTEXTO SOCIAL DA VIDA DE ANTÔNIO DÓ

Petrônio Braz de Carvalho(*)

Esse artigo tem por objetivo discutir em breves linhas o contexto social da vida do bandoleiro Antônio Dó, retratada no livro Serrano de Pilão Arcado – A Saga de Antônio Dó, de autoria do meu avô o Dr. Petrônio Braz.
Antônio Dó nasceu na fazenda do Salitre em Pilão Arcado no sertão baiano. Onde cresceu ajudando o seu pai na lida do gado. Benedito, pai de Antônio Dó, cansado das constantes secas e das intensas tocais e lutas políticas, resolve vender as suas terras para subir o rio São Francisco em direção às terras mineiras. E assim é que os Antunes de França, a família de Antônio Dó, vão para as terras de São Francisco, ainda conhecida como Pedras dos Angicos, onde sobre a tutela do líder liberal Cel. Nunes Brasileiro, adquirem um pedaço de terra e com o seu esforço e trabalho vão aos poucos progredindo materialmente.
A vida social de Antônio Dó é marcada pelo sincretismo religioso, tão presente na vida do povo brasileiro. Tanto que o velho Benedito antes de se decidir definitivamente em ir para São Francisco sente vontade de seguir o líder messiânico de origem católica Antônio Conselheiro e ao mesmo tempo para confirmar a sua decisão de ir para as terras mineiras vai juntamente com o seu filho Antônio Dó ao terreiro de Candomblé do Pai Firmino, onde esse tem o corpo fechado.
Após o assassinato do juiz e político Antero Simões, pelos correligionários do Cel. Nunes Brasileiro e com o advento da República, o cenário político de São Francisco se torna extremamente violento. A sanha dos novos mandões da terra se volta contra todos os antigos partidários de Nunes Brasileiro, mesmo para aqueles que não participaram do assassinato do juiz e nem tinham pretensões de poder político como era o caso da família de Antônio Dó.
Já na República, Antônio Dó sofre o primeiro golpe de ódio dos poderosos de plantão. Um pequeno sitiante Maurício Rocha articulado com o vizinho de Antônio Dó, o fazendeiro e político Chico Peba, tramam se apropriarem de um pedaço de terra de propriedade da amásia de Antônio Dó. Chico Peba temia o crescimento material de Antônio Dó, pois, por serem de correntes políticas diferentes esse poderia fazer frente ao seu predomínio político na Boa Vista, região onde os dois possuíam fazendas. No meio da disputa por essas terras Antônio Dó é humilhado e preso pelo Capitão Américo, que deveria agir de forma imparcial para apurar os fatos, mas agiu com tremenda imparcialidade para favorecer aos interesses de Chico Peba que era da sua mesma corrente política.
Chico Peba agora com Marcelino, então cunhado de Antônio Dó, trama o roubo do gado da irmã de Antônio Dó. Um dos irmãos de Antônio Dó descobre a trama e acaba assassinado por Marcelino. Mais uma vez as autoridades judiciais, policiais e políticas de São Francisco não fazem nada para corrigir as injustiças. E Antônio Dó se ver completamente desamparado do auxílio da lei e da justiça do Estado nas terras de São Francisco.
Agora a gota d’água viria com a questão de um olho d’água em que envolveu mais uma vez Antônio Dó e Chico Peba. Eram os dois condôminos da fazenda Boa Vista e nessa existia dois olhos d’água de servidão pública que serviam de bebida para o gado criado por esses dois e demais condôminos da fazenda. Chico Peba por ser o líder político do local e estão sobre o manto do poder resolveu cercar um dos olhos d’água para consumo apenas do seu gado, mesmo essa atitude indo contra as posturas determinada pela Câmara Municipal. Antônio Dó indignado com essa atitude e por ser ele juntamente com Chico Peba os dois maiores condôminos da fazenda Boa Vista resolve cercar o outro olho d´água para o consumo do seu gado. Chico Peba procura as autoridades municipais que mandam derrubar a cerca de Antônio Dó, que ele a reconstrói. É intimado a comparecer na cidade para prestar esclarecimentos junto às autoridades locais e já sabendo das injustiças de que seria mais uma vez vítima e temendo ser preso novamente se dirige para a Vargem Bonita no município de Januária, onde passa a arregimentar jagunços para vir a São Francisco acertar as contas com as autoridades locais e com os seus dois principais desafetos Chico Peba e Marcelino.
O gado de Antônio Dó passa a ser roubado as vistas das autoridades municipais e essa mais uma vez nada fazem para impedir esse abuso.
Antônio Dó então entra na cidade com o seu bando e não consegue chegar a um acordo com as autoridades locais para ter ressarcido os seus prejuízos em virtude da arrogância e prepotência desses. A partir de então vai viver vários confrontos com a polícia de onde sempre vai se sagrar vitorioso. Vai viver agora longos anos nos sertões de Minas Gerais, Bahia e Goiás, onde faz aliança com vários coronéis e luta contra o interesse de diversos outros coronéis. Passa a ser uma espécie de autoridade policial e judicial na sua área de influência, principalmente na região da Serra das Araras, resolvendo questões de demanda de terra e gado. Encerra os seus dias em suas terras na Serra das Araras.
Assim podemos perceber que o contexto social da vida de Antônio Dó, apresentado pelo Dr. Petrônio Braz em Serrano de Pilão Arcado – A Saga de Antônio Dó reflete como a opressão e a injustiça caiam sobre o ombro daqueles que não se encontravam sobre o manto do poder. A imparcialidade das autoridades judiciais e policiais, movida pelas paixões políticas, levava ao extremo o abuso do poder, fazendo com que homens como Antônio Dó reuni-se jagunços e os armassem para tentar fazer justiça e lutar contra o predomínio autoritário dos coronéis. Na ausência de uma estrutura judiciária justa, no meio de um cenário de quem pode mais manda mais é que Antônio Dó tenta se livrar da opressão através da arregimentação de jagunços para impor a seu talante a justiça no sertão sem “lei”. Dessa forma podemos considerar Antônio Dó um fora da lei por ser um foragido das leis estabelecidas pelo Estado, mas, não um bandido por que o ímpeto que lhe moveu a arregimentar jagunços não foi a sanha assassina e nem o desejo do lucro fácil pelo contrário ele buscava a reparação de injustiças sofridas.
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Referência Bibliográfica
BRAZ, Petrônio. Serrano de Pião Arcado - A Saga de Antônio Dó. São Paulo: Mundo Jurídico, 2006


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Por Petrônio Braz - 10/8/2007 20:50:18
Nome: Petrônio Braz
E-mail: petroniobraz@hotmail.com
Telefone: (38) 32121114
Cidade/UF: Montes Claros/MG
Mensagem: As tradições de um povo afirmam a sua identidade cultural. Montes Claros não foge à regra. Apesar de a República, implantada pelos militares, ter proclamado, por força das idéias positivistas, a laicidade absoluta do Estado brasileiro, as Festas de Agosto, de natureza religiosa, estão incorporadas à vida sócio-cultural da comunidade montes-clarense, tradição que se origina nos tempos do Império, quando a Religião se integrava ao Estado. A tradição oral e escrita registra a presença das Festas de Agosto, em Montes Claros, desde 1839, portanto, há 168 anos, quando surgiram os Catopés (dançantes), os Marujos e Caboclinhos. Festas que nasceram do culto ao Rosário, presentes no Brasil desde os primeiros tempos da colonização, em vários outros pontos do território. A História registra que nas regiões mineradoras, no Século XVIII, foi fundada pelos escravos a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, que organizava suas festas e construía suas igrejas. A Irmandade organizava festas para homenagear a padroeira Nossa Senhora do Rosário. Em várias outras localidades de Minas Gerais elas continuam a ser realizadas. Todavia, nenhuma outra tem as características especiais das Festas de Montes Claros. Como destaca a Agenda de Eventos do "montesclaros.com", este ano, de 15 a 19 de agosto, a cidade, que já está se engalanando, estará vivendo a mais tradicional manifestação do populário regional deste Norte das Gerais. Festividades que contaminam a população como um todo, com os cortejos de Nossa Senhora do Rosário, de São Benedito e do Divino Espírito Santo e os Ternos de Congados. Em 15 de agosto a Igreja Católica comemora a Assunção de Nossa Senhora, que teria subido aos céus anima et corpore doze anos após o martírio de seu Filho. As Festas de Agosto têm, assim, um profundo cunho religioso.


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Por Petrônio Braz - 11/7/2007 20:33:53
PLEBISCITO PARA TRANSPOSIÇÃO
A bacia hidrográfica do Rio São Francisco teve tratamento especial a partir do governo do general Dutra, com a criação da Comissão do Vale do São Francisco. Os recursos foram inicialmente bem aplicados, porém foram aos poucos sendo desviados para atendimento a objetivos político-eleitoreiros, terminando por descumprir, no curso dos anos, as suas finalidades, levando, pelo descuido governamental, à degradação do Rio da Unidade Nacional.
Sem revitalização, o governo federal insiste nos procedimentos primários da transposição.
O Diário Oficial da União publicou a Portaria nº 1.031, de 5 de julho em curso, do Ministério da Integração Nacional que institui o Grupo de Trabalho Ministerial do Plano de Desenvolvimento das áreas da Integração e Revitalização do São Francisco, estabelecendo o Plano de Desenvolvimento das áreas da Integração e Revitalização do Rio. A Portaria indica as prioridades do Grupo de Trabalho, destacando-se como diretrizes a preservação e uso sustentável do patrimônio natural da área geográfica; estimulo a cooperação, em suas diversas formas, nos processos de desenvolvimento endógenos; promoção de ações de estruturação econômica e de inclusão social, visando ao desenvolvimento regional sustentável, respeitando as diversidades existentes no País e ênfase nos programas e ações de convivência com a seca, sobretudo aqueles que tratam do aproveitamento de recursos hídricos para uso humano.
Quando a Portaria estabelece ênfase para os programas e ações de convivência com a seca, sobretudo aqueles que tratam do aproveitamento de recursos hídricos para uso humano e respeito às diversidades existentes no País, põe nossas orelhas de molho. O aproveitamento dos recursos hídricos para uso humano e o respeito às diversidades existentes no País, nos remete diretamente ao projeto de transposição. Minas Gerais tem se postado abertamente contra a transposição, antes da revitalização.
A integração e a revitalização têm que ser encaradas como ação prioritária de qualquer ação governamental. Municípios como Ibiaí e Santana do Pirapama estão dando exemplos de ações localizadas em favor da revitalização. O primeiro nas margens do São Francisco e o segundo nas do Rio das Velhas. Esperamos que o Grupo de Trabalho venha a se mirar nas ações desenvolvidas nesses dois Municípios.
Se bem analisadas as normas que integram a Constituição Federal de 1988, o Poder de decisão pertence ao povo e somente este pode definir sobre programas que envolvam a própria segurança nacional, como é o caso da transposição das águas do Rio São Francisco. O desarmamento foi objeto de plebiscito e o povo disse não. A transposição deve ser objeto de plebiscito entre as populações diretamente interessadas, quais sejam as dos Estados que integram a grande bacia.
A carência quase absoluta de água ocorre em Minas Gerais há poucos quilômetros das margens do Rio. É preciso encarar com seriedade questão de tão alta relevância. Os lençóis freáticos e até os artesianos estão se esgotando pelo crescimento desordenado da utilização de poços tubulares. Por outro lado, esses mesmos poços vão gradativamente prejudicando as nascentes naturais.
O poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido. A democracia impõe respeito ao povo porque é um governo do povo. Não podemos nos limitar a ações isoladas de protestos de fome e outros. É hora do estabelecimento de uma ação popular, em nível nacional, para a imposição do plebiscito para aprovação prévia do projeto de transposição.



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Por Petrônio Braz - 30/6/2007 09:51:44
Quem vê ou quem vive na Montes Claros de hoje, que comemora seus 150 anos de elevação da vila de Formigas à condição de cidade, com o nome de Montes Claros, centro universitário e pólo industrial, a sexta maior cidade do Estado, pode não se lembrar de que, há menos de 300 anos esta região era um deserto de gente civilizada. Montes Claros, através de André Gonçalves Figueira, descendente dos fundadores da região, esteve presente na Conjuração do São Francisco de 1736. Na época existiam importantes interesses econômicos entre a região dos montes claros e as barrancas do São Francisco. Era pelo São Francisco que vinha para a região o sal do Nordeste e os tecidos de Pernambuco. André Gonçalves Figueira, Maria da Cruz e outros grandes da época da colonização, resistiram a bala às devassas. Foram além dos inconfidentes, que se limitaram a poetar um levante. O professor Ivo das Chagas, Dario Cotrin e eu estamos programando ir a Portugal, em agosto próximo, para maiores investigações históricas. Antônio Gonçalves Figueira, integrante da Bandeira de Fernão Dias, não chegou à região em companhia do grande bandeirante. Ele e Matias Cardoso se desligaram da bandeira regressando a São Paulo. Dois anos depois, ambos retornaram à região, não mais para a procura de ouro e pedras preciosas, mas para se fixarem, em processo de colonização. Matias Cardoso desceu para as margens do Rio São Francisco e Antônio Gonçalves Figueira fixou-se na região de Montes Claros, nas cabeceiras do Rio Verde, e formou três grandes fazendas: Jaiba, Olhos d`Água e Montes Claros. Obteve sesmarias já no ano de 1707. O grande desbravador construiu, por conta própria, em presença da ausência do Estado, estradas no sertão bruto, estradas cavaleiras e próprias para os carros de bois. Construiu estradas para Tranqueiras na Bahia, para as margens do Rio das Velhas e para o Rio São Francisco. Desbravou o sertão por conta própria. É sempre bom lembrar, com afirmou Alexandre Herculano, que "debaixo dos pés de cada geração que passa dormem as cinzas de muitas gerações que a precederam."


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Por Petrônio Braz - 28/6/2007 10:02:28
Ventos de Agosto Estamos em junho, mas recebo, das mãos de Edgar Antunes Pereira, douto diretor do Jornal de Notícias, meu dileto amigo, de quem sou admirador, um exemplar, em antecipação de lançamento (ainda não ocorrido) de seu livro de crônicas - VENTOS DE AGOSTO - com um autógrafo muito pessoal, que me surpreendeu e, ao mesmo tempo, me fez sentir um pouco melhor do que realmente sou. Coisas da amizade. Observa Wanderlino Arruda, no Prefácio, que VENTOS DE AGOSTO é "um livro com toques de quem fala bem a linguagem de jornal, com perfeita musicalidade de quem sabe a boa ciência de contar causos, busca surpreender o leitor do princípio ao fim" e José Luiz Rodrigues, na Apresentação, vê o menino Edgar soltando pipas aos ventos e, com sua veia poética, sempre presente, nos faz lembrar que na infância o baile da vida, com os pés em terra firme e os sonhos no infinito, tem cheiro de anjo e em cada anjo uma história. Edgar inicia o seu livro com um adeus a seu irmão Ernani, que tão cedo nos deixou. Numa recente missa, pela passagem do sétimo dia de falecimento do filho de outro grande amigo, o padre afirmou que ao nascer para a vida a criança chora e todos os parentes riem e que no final dela o falecido sorri enquanto todos choram. Zulma Antunes Pereira, em uma de suas poesias, que complementam o livro, declara: "Nasce a criança / E cheio de vida / Acalma o vagido / Nos braços da mãe". O choro inicial, necessário à vida, é acalmado nos braços da mãe. O choro final, indispensável à saudade, é necessário à lembrança. Quem parte vai sorrindo especialmente quando, em vida, como lembra o mesmo Edgar, conheceu percalços e sucessos, e ousou, como só fazem os determinados, deixar um exemplo de empreendedorismo. É sempre bom lembra, com Epicuro, que não devemos temer a morte, porque, enquanto somos, ela não existe e quando ela passa a existir nós deixamos de ser. E, se deixamos de ser, não sentimos nada. O livro nos traz crônicas valiosas, que compõe o conteúdo de uma existência voltada para o jornalismo, para a informação, para a contestação, para a valorização da vida, para a recordação. Recordação de Contendas, dos sinos da matriz de Sant`Ana e tantas outras. Não sou muito de acreditar em vidas passadas por uma mesma pessoa, todavia, Edgar nos mostra, em uma de suas crônicas, a terapia da regressão. Se outras vidas são possíveis de serem vividas, é bem provável que o próprio Edgar tenha sido um nobre no tempo do Império. Nobre no preciso sentido da palavra. Necessariamente não estarei presente quando ocorrer o fim do homem na face da terra, quando florescerá o domínio das mulheres. Não que seja contra elas, ao contrário. Efetivamente elas, na luta pelo poder, já atingiram o ponto alto da evolução, como lembra Edgar. E como alcançaram! A ciência já produz espermatozóides, necessários à reprodução, a partir de células tronco, sem a necessidade da presença do homem. Elas, as mulheres, como informa Edgar, podem se satisfazer sexualmente através do lesbianismo ou da masturbação. Não necessitam do homem. A luxúria, um dos sete pecados capitais, transformou-se em impulso sexual, exorcizando o pecado e permitindo a satisfação dos sentidos mais íntimos da mulher, sem a presença do homem, que vai sendo descartado paulatinamente. Nesse ponto Edgar foi além de Freud. A felicidade, tão bem descrita por Zulma Antunes, será substituída pelo corpo físico de outra mulher: "Estranha visitante se aproxima / devagarinho, silenciosa, quase tenra / penetra no meu quarto, e de mansinho / envolve o meu corpo num abraço". VENTOS DE AGOSTO, como a devida licença que peço a Wanderlino Arruda, é um livro confessional.


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Por Petronio Braz - 8/5/2007 20:45:58

Duas glórias de Montes Claros


Abri, por acaso, o livro Cartas de Inglaterra, de Rui Barbosa, e reli o primeiro capitulo: Duas glorias da humanidade. Escreve a ele que “ninguém poderá desvanecer-se de ter percorrido intelectualmente a Inglaterra, se não ousou uma excursão pelas regiões sui generis da obra de Carlyle, que parece confinar, por outro lado, com Shakespeare, por outro lado com a Alemanha de Goethe, Schiller e João Paulo Richter”.
Estive na Inglaterra participando, em 1995, do 38º Seminário de Estudos Jurídicos para Advogados Brasileiros, celebrando no “King’s College”, da Universidade de Londres.
Nossa submissão primeira à cultura que nos vinha da França, até princípios do ultimo século e, depois da Inglaterra, por imposição econômica, nos leva a, esquecendo do que é nosso, permanecemos atrelados ao que nos vem de fora. Essa submissão foi necessária aos escritores do passado, especialmente aos do século XIX.
Da leitura das obras de João Valle Mauricio e da biografia de João Chaves, escrita pela acadêmica Amelina Chaves, verifica-se que o solo árido de nosso sertão está marcado pela presença fértil de expoentes culturais da mais alta valia.
João Valle Mauricio, da Academia Mineira de Letras, autor de Grotões, Janela de Sobrado, Beco da Vaca e Taipoca, além de outros escritos, inscreve-se como uma das glorias imortais da terra dos montes claros. Em suas obras misturam-se valores outros da mesma terra e da mesma região, como Haroldo Lívio, Antonio Augusto Souto, Konstantin Cristoff, Milena Mauricio e outros.
Na biografia de João Chaves associam-se as figuras marcantes de Amelina Chaves e Manoel Hygino dos Santos.
Parodiando Rui Barbosa posso afirmar que ninguém poderá desvanecer-se de ter percorrido intelectualmente o Norte de Minas, se não ousou uma incursão pelas obras de João Valle Mauricio e pela vida de João Chaves.
Na leitura de “Taipoca”, vivemos o sertão em sua inteireza viva, embora com motivos urbanos, que se interligam e se projetam no sertão. Em “Beco da Vaca”, uma coletânea de crônicas publicadas pela imprensa regional, ele não foge da marca registrada de suas obras. O livro não é uma ruela do sertão, é uma avenida de cultura. Em suas memórias, retratada em “Janela do Sobrado”, revivemos Montes Claros. Como toda verdadeira obra literária, seus livros são atemporais.
Amelina Chaves, depois de nos brindar com “O Eclético Darcy Ribeiro”, mostra-nos em “João Chaves uma eterna lembrança”, com Prefácio de Manoel Hygino dos Santos, o mito João Chaves, um dos maiores fenômenos da cultura montes-clarense de todos os tempos.
“João Chaves ainda canta e encanta na voz do vento, nas pedras no chão, no coração de todo seresteiro”.
Guimarães Rosa com acerto afirmou que há pessoas que não morrem: ficam encantadas. João Valle Mauricio e João Chaves estão encantados no silêncio de suas sepulturas. Como Fênix eles renascem de suas próprias cinzas cada vez que lemos suas obras, em cada instante em que deles nos lembramos.
Muitos passam e não ficam. Eles não passaram.


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Por Petronio Braz - 5/5/2007 21:57:04

Paulo Coelho


Durante muitos anos, antes de me dedicar com mais afinco às atividades literárias, exerci as mais variadas atribuições da espécie humana, definidas pela minha capacidade, sempre limitada, e pelas necessidades de sobrevivência neste mundo materialista.
O tempo passa e leva a vida.
Hoje, os encontros semanais, aos sábados, na Cristal, e às vezes em dias outros, têm sido marcados pelos comentários sobre crônicas ou artigos publicados por um ou outro participante do grupo ou sobre a obra literária de algum escritor, com ligeiros intervalos de contemplativo silêncio, que se impõe quando nossos olhos são forçados a se fixarem numa beldade que passa, desfilando pelo Quarteirão do Povo, marcando presença.
Entre um e outro comentário alguém lembra, por exemplo, que Getúlio Vargas pertenceu à Academia Brasileira de Letras e Juscelino, não.
No último sábado estava eu distraído, saboreando um pastel, quando o jornalista Estevão Barbosa, com a mão em meu ombro, questionou-me: “O que você acha do Paulo Coelho?”
Muito já se comentou sobre Paulo Coelho em nossa mesa. O José Luiz Rodrigues é um admirador do acadêmico. Eu, em particular, nunca tinha lido Paulo Coelho (um crime!). A pergunta, por esta razão, assustou-me, pois não gosto de emitir opinião, sem conhecimento próprio do assunto.
Sabia eu que de sua parceria musical com Raul Seixas havia resultado o sucesso “Eu nasci há dez mil anos atrás”, entre outras letras de músicas escritas para Elis Regina e Rita Lee, mas ainda não tinha lido “O Alquimista”, nem “O diário de um mago” ou “O demônio e a Srta. Pryn”, entre outros livros seus. Sabia, todavia, que era um nome ilustre no campo das letras, mas ignorava que ele era um dos escritores mais lidos no mundo, desde 1998, e que já vendeu mais de 54 milhões de exemplares de seus livros, traduzidos em 56 línguas e editado em 150 países. Eu conhecia Paulo Coelho como a menina que tinha visto o mar, pela primeira vez, e afirmou que já conhecia o mar, mas eu não conhecia Paulo Coelho como o marinheiro, que conhece o mar. Com essa visão superficial eu não poderia emitir opinião.
“O Alquimista” integra, hoje, a minha estante de livros lidos, depois de ter sido apreciado por milhões de pessoas, além do Brasil, na França, na Polônia, na Suíça, na Áustria, na Argentina, na Grécia, na Croácia, em Portugal, no Mundo. Livro polêmico, fenômeno literário do Século XX, que chegou ao primeiro lugar da lista dos mais vendidos em dezoito países, e está adotado em escolas de mais de trinta países. E eu, ainda, não o tinha lido.
Cumpre ser lembrado que “O Alquimista” foi elogiado pelo prêmio Nobel de Literatura Kenzaburo Oe, pelo prêmio Nobel de Paz Shimon Peres, mas o que mais me vexou foi saber que até Madonna havia lido e elogiado o livro.
O acadêmico Paulo Coelho ocupa a Cadeira nº 21, da Academia Brasileira de Letras, desde 25 de julho de 2002, por justo merecimento.


23420
Por Petronio Braz - 4/5/2007 12:07:12

No país da cultura

Petrônio Braz

O povo francês foi às urnas, em primeiro turno, para a escolha de seu novo presidente, que deverá substituir Jacques Chirac, que esteve à frente dos destinos da grande nação européia por doze anos.
A humanidade globalizada ainda se lembra da presença do erudito François Mitterrand no comando do governo francês.
Doze candidatos disputaram o primeiro turno. Mas o que chama a atenção de nós outros que estamos do lado de cá do Atlântico, não é a disputa eleitoral em si mesma, nem o número de candidatos, mas a qualidade do conjunto, o valor pessoal de cada um, fato que fere os mais rudimentares princípios de brasilidade de todos nós.
Quase todos os políticos franceses estudaram na Ecole Nationale de Administration, onde são preparados para a difícil missão de orientação e de direção dos destinos da nação. Os políticos franceses, respeitados pelo povo, carregam ares de nobreza e de moralidade.
Mas isso em nada se parece com o Brasil de nossos tempos. Um fato, porém, chamou a minha atenção, o da aparente semelhança entre o candidato Nicolas Sarkozy e o brigadeiro Eduardo Gomes.
Todos os políticos têm momentos de afirmação e de escorregão. Nicolas Sarkozy, um dos doze candidatos, quando no exercício do cargo de Ministro do Interior de Jacques Chirac, em pronunciamento nos arredores de Pais, quando os jovens estavam se rebelando contra a discriminação e o desemprego, se referiu a eles como racaille (gentalha). A partir de então a palavra se fixou inexoravelmente à sua pessoa.
No Brasil, há muitos e muitos anos, quando a corrupção ainda não maculava a vida pública do País, quando os políticos eram respeitados e até mesmo admirados, nas eleições de 1950, em um comício de campanha, o brigadeiro Eduardo Gomes, candidato da UDN (partido de direita), afirmou que os trabalhadores eram marmiteiros. O adjetivo, tomado politicamente como pejorativo, se fixou à sua pessoa durante todo o restante da campanha.
Apesar do racaille, o culto Nicolas Sarkozy, advogado e orador brilhante, está no segundo turno juntamente com a socialista Ségolène Royal (diplomada pela Ecole Nationale de Administration), e as pesquisas indicam a vitória do primeiro, no dia 6 de maio próximo.
No Brasil, nos idos de 1950, o eleitor brasileiro, dominado pelo queremismo, repudiou o Brigadeiro. O brigadeiro Eduardo Gomes perdeu as eleições, supostamente por uma palavra.
Uma palavra lá e cá, somente uma palavra.
Todavia, Sarkozy, candidato de direita, propõe abertamente uma verdadeira demolição social para as classes populares, com aumento da jornada de trabalho, generalização da precarização do trabalho, uma intensificação da perseguição aos imigrantes, uma intensificação da repressão policial nos distritos populares, com valorização da nacionalidade francesa.
Marmiteiro, aqui, derrotou o brigadeiro Eduardo Gomes; racaille, lá, poderá eleger Nicolas Sarkozy.
Apenas este aspecto a ser lembrado, já que o fato de serem cultos os políticos franceses, não há como se estabelecer comparação, nem lembrar semelhanças.
No Brasil de hoje, todavia, diante de tanta corrupção, os valores se modificaram. Não se cuida mais de analisar uma só palavra de um determinado candidato, mas os valores financeiros representados pelos desfalques aos cofres públicos. É maior aquele que mais furta.
Até quando!




Selecione o Cronista abaixo:
Luiz de Paula
Alberto Sena
Augusto Vieira
Carmen Netto
Dário Cotrim
Enoque Alves
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Haroldo Lívio
Haroldo Tourinho Filho
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Jorge Silveira
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Luiz de Paula
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