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           Augusto Vieira   

60956
Por Augusto Vieira - 2/9/2010 07:24:08
CAIA NAS REDES!

Confesso que eu tinha um certo preconceito contra as redes da internet. Estava acostumado a comunicar-me, por e-mails, apenas com os amigos que constavam de minha lista de contatos. Com o passar do tempo comecei a ouvir, de várias pessoas mais jovens, referências a um tal de Orkut. Entrei timidamente e vasculhei o programa. Senti que a rede era segura e convidei gente que eu conhecia a esse novo tipo de relacionamento, a amizade cibernética. E não é que deu certo? Do Orkut parti para o MySpace, dele para o Facebook e finalmente cheguei ao Twitter.
Hoje converso com amigos espalhados pelo mundo inteiro. Claro que há aqueles que preferem uma rede a outra. Mas como estou nas mais conhecidas, uso todas para matar saudade deles, dar notícias minhas e saber o que andam fazendo. Atualmente a quase totalidade de meus contatos são feitos através de redes eletrônicas, de forma instantânea, ao vivo. E como tenho feito novas amizades!
A verdade é que a internet facilita a vida da gente. É só saber usá-la. E isso é fácil de aprender, porque os programas modernos são autoexplicativos. Hoje, em sua telinha particular, você lê livros e quase todos os jornais do mundo, vê inúmeras emissoras de televisão e filmes, ouve músicas, produz e grava vídeos, fala com amigos vendo as imagens deles e eles vendo a sua, pesquisa qualquer assunto que lhe interessa, faz compras, paga contas e ainda monta seu site e seu blog sem gastar um tostão. Basta ter um bom provedor de banda larga e navegar a uma razoável potência. Que ferramenta maravilhosa! Revolucionou minha vida e espero e desejo que faça isto com as de milhares de brasileiros, especialmente os de menor poder aquisitivo, porque internet, diferentemente do que eu imaginava, é também cultura. Ela não nos afasta. Ao contrário, através dela ótimos encontros são programados. E você pode até namorar, o que não é mais o meu caso.
Quem diria que esse dinossauro se adaptaria a esses novos tempos! Dinossauro que, antes, tivera preconceitos até contra computadores individuais e que, agora, não vive sem o seu e ainda divulga seus escritos pela internet.
Caia nas redes, amigo, não fuja das mordomias da modernidade. Entre de cabeça, sem medo de ser feliz e deixe a vida te levar. Vale a pena.


60674
Por Augusto Vieira - 19/8/2010 09:13:29
NAS ASAS DA COWAN

Sempre que vou para os lados do Aeroporto da Pampulha, de preferência à tardinha, dou uma passada na sede administrativa da COWAN, especialmente para visitar três amigos de juventude: Saulo, Ricardo e Lindolfo. Revi o primeiro trator da empresa, recuperado pelos empregados e dado de presente de aniversário a Walduck, antes de ele no deixar. Bateu mais forte a saudade quando vi seu busto, ao lado da entrada do prédio da diretoria. Desta vez cheguei numa hora muito boa. Saulinho e Bruno, filhos de Saulo, estavam em seu primeiro dia como diretores. O pai, agora, preside o Conselho de Administração. Saulo triplicou a COWAN, que hoje comanda mais de vinte associadas espalhadas pelo Brasil, em diversas áreas da economia: transportes, petróleo, construção pesada e mineração. Estava tranquilo, como sempre, e muito feliz pela desconcentração de poder. Perguntou-me se eu já havia visto petróleo. Respondi que só em filmes. Ele, então, abriu um pequeno cilindro de plástico que estava sobre sua mesa, contendo uma porção do ouro negro e entregou-me. Não sabia que era tão pastoso e que tinha cheiro de piche. Visitei Saulinho, Bruno, Ricardo e Lindolfo. Encontrei Cláudio, que foi meu centroavante no Cassimiro de Abreu e é engenheiro da empresa, saindo do trabalho. Disse-me que estava de partida para o Mato Grosso do Sul, para tocar uma obra, perto de Corumbá.
Despedi de todos e fui até meu carro. Lindolfo acompanhou-me. Relembramos, ainda, histórias do velho Wanderley e de Walduck, até surgirem outras, mais recentes, das quais três merecem menção.
No último julho, Saulo foi buscar um novo avião em Miami e levou alguns amigos, inclusive Odorico. Disseram-lhe que a embaixada, em São Paulo, estava rigorosíssima, exigindo vários documentos, além do passaporte, para dar o visto. Odorico, mesmo acostumado a viagens internacionais, meticuloso, foi na onda dos malandros e levou uma pasta, tipo James Bond, repleta de documentos. Segundo Lindolfo, nela havia até diploma de congregado mariano, assinado por Padre Dudu. Na embaixada, para sua surpresa, um funcionário apenas pegou seu passaporte, conferiu a foto, disse OK e meteu o carimbo. Depois, já em Miami, os sacanas induziram-no a usar terno e gravata para receber o avião. Disseram-lhe que todos iriam assim. Vi a foto. Todo mundo à vontade, parecendo estar indo a uma praia, e ele ali, naquele imenso calor de verão, trajado como se fosse (o que ele habitualmente faz) adentrar a uma Câmara de um tribunal para sustentar oralmente uma causa.
Odorico, que não é de levar desaforo pra casa, deu o troco. Inventou a seguinte história: voavam, neste mesmo novo avião, alguns diretores e funcionários da COWAN, com vários técnicos da Petrobras, para uma visita ao poço perfurado no Espírito Santo. Lindolfo junto. Um dos técnicos tinha pavor de avião e, para segurar a barra, não permanecia quieto em sua poltrona. Percorria o corredor, sentava um pouquinho, levantava-se e repetia a caminhada. Aquilo foi irritando Lindolfo. Os demais passageiros também estavam incomodados, mas faziam olhos e ouvidos de mercador ao irrequieto e palrador caminhante, que já perturbava o vôo por mais de meia hora. De repente Lindolfo encarou o sujeito e perguntou:
– Escuta aqui, meu amigo, por acaso você tem algum problema no fiofó?
Lívido, o impaciente cientista, desacostumado a tanta franqueza, nem respondeu. Saiu de mansinho, ocupou sua confortável poltrona e nela permaneceu até a aterrissagem. Desembarcados, Lindolfo apontou o dedo para o dito cujo e exclamou para todos ouvirem:
– Feliz é o cara que tem um professor de minha envergadura. Esse companheiro aqui nunca mais perturbará um voo.
Gargalhada geral, inclusive do mais novo discípulo do mestre Lindolfo, Ministro da Aeronáutica da República do Pequistão, cujo Premier é Tino Gomes e cuja capital é Montes Claros, nossa querida aldeia.


60598
Por Augusto Vieira - 14/8/2010 18:33:28
A era do livro digital

Estamos na era do livro digital. Grandes empresas estão copiando e digitalizando todos os livros existentes no mundo. Vários programas estão sendo postos em prática. A Google saiu na frente. Um jovem amigo meu, dono de livraria, já fez vários cursos e participou de seminários sobre o assunto, em São Paulo. Disse-me que hoje é possível você viajar ouvindo um livro. Não precisa mais nem de ler. Levou-me até seu carro e demonstrou. Ouvi, através de um CD, um capítulo inteiro de um livro, narrado, com os diálogos protagonizados por atores. Achei genial. E o CD oferecia opções: além de poder ser ouvido, o texto poderia ser lido em computadores. Já pensaram que barato? Viajar ouvindo um bom livro?
Livros técnicos e didáticos, estes então, todos, serão digitais. Os meninos não precisarão mais daquelas pesadas mochilas, que afetam suas colunas vertebrais. Levarão apenas seus cérebros para as escolas.
E a ecologia? Será preservada, pois a indústria do papel, altamente poluente, perderá muito mercado.
Digitalmente é muito mais fácil preservar a cultura da humanidade. Você põe fogo numa biblioteca comum (já queimaram até a de Alexandria), mas jamais conseguirá apagar uma biblioteca digital, porque ela estará nos satélites e em milhares de computadores do mundo.
Ainda veremos, por algum tempo, a convivência dos dois sistemas, mas ninguém me convence de que essa meninada que vem vindo aí lerá jornais, revistas ou livros impressos. Serão legatários de grandes homens, como José Mindlin e outros amantes e colecionadores de livros impressos em papel, porque, não fossem eles, certamente as bibliotecas digitais não teriam em seus acervos grandes obras da humanidade. Os espaços serão reduzidos aos que, como eu, ainda gostam de sentir, antes de ler, o cheirinho de um livro. Mas os meninos de hoje também gostam do cheirinho de um software. Nós, os dinossauros, que nos adaptemos aos novos tempos.


60480
Por Augusto Vieira - 6/8/2010 19:15:09
BALA 70

Picolino mandou-me um e-mail que disse ser a entrevista de um médio gaúcho, Dr. Paulo Ubiratan, a uma emissora de televisão. Vejam o texto:

P: Exercícios cardiovasculares prolongam a vida?
R: O seu coração foi feito para bater por uma quantidade de vezes e só. Não desperdice essas batidas em exercícios. Tudo se gasta e eventualmente. Acelerar seu coração não vai fazer você viver mais. Isso é como dizer que você pode prolongar a vida de seu carro dirigindo mais depressa. Quer viver mais? Tire uma soneca.

P: Devo cortar carne vermelha e comer mais frutas e vegetais?
R: Você precisa entender a logística da eficiência. O que a vaca come? Feno e milho. O que é isso? Vegetal. Então, um bife nada mais é do que um mecanismo eficiente de colocar vegetais no seu sistema. Precisa de grãos? Coma frango.

P: Devo reduzir o consumo de álcool?
R: De jeito nenhum. Vinho é feito de fruta. Brandy é um vinho destilado, o que significa que tiram a água da fruta pra você tirar maior proveito dela.

P: Quais as vantagens de um programa regular de exercícios?
R: Minha filosofia é: se não tem dor, tá bom!

P: Frituras são prejudiciais?
R: Hoje em dia a comida é frita em óleo vegetal. Como pode maior quantidade de óleo vegetal ser prejudicial?

P: Flexões ajudam a reduzir gordura?
R: Absolutamente, não! Exercitar um músculo faz apenas com que ele aumente seu tamanho.

P: Chocolate faz mal?
R: Tá maluco? Cacau é vegetal. É comida boa pra se ficar feliz.

“A vida não deve ser uma viagem para o túmulo, com a intenção de se chegar lá são e salvo, com um corpo atraente e bem preservado. Se caminhar fosse saudável carteiro seria imortal. Baleia nada o dia inteiro, só come peixe, só bebe água e é gorda. Coelho corre muito e pula, mas só vive 15 anos. Tartaruga não faz nada e vive 450.”

Depois de dar boas gargalhadas, pensei com meus botões: “nem tanto ao céu, nem tanto ao mar”, caro mestre. Isso porque quando fui, recentemente, renovar minha carteira de motorista, o médico-perito constatou que minha pressão estava muito alta. Com muita justiça, negou-me o laudo favorável. Recomendou-me procurar um cardiologista. Disse-me, inclusive, que, pelo exame que fizera, eu poderia estar com algo mais grave no músculo cardíaco. Foi um martírio. Meu pai falecera, há mais de trinta anos, devido a problemas cardiovasculares. Esse negócio é genético. Senti a morte pertinho de mim. Aí procurei o médico de minha associação, a AMAGIS. Fui atendido pelo cardiologista Dr. Marcelo Sady Curi. Pediu-me vários exames. Fiz todos e levei-lhe os resultados. Que alívio! Disse-me, com o maior carinho, que meu coração não tinha problemas tão graves. Apenas uma hipertrofia. Explicou-me que, pelo esforço, o músculo estava a ocupar um lugar um pouquinho maior em meu peito. Passou-me um comprimido e recomendou-me sorrindo:
– Você terá que tomar esse comprimidinho, uma vez por dia, até os 98 anos. Apareça aqui de, três em três meses, para eu dar uma olhada. Tente parar de fumar que será muito bom.
Voltei ao perito credenciado pelo DETRAN com o laudo do Dr. Marcelo. Ele leu, examinou minha pressão, já quase em 12 por 8, e autorizou a renovação de minha carteira, sem o uso de óculos, porque eu fizera cirurgia nos olhos, com meu sobrinho, Carlos Gustavo, conhecido como Dr. Vieira, e ele substituíra meus cristalinos por lentes corretoras.
Agora estou aqui, passado o drama, pronto pra outra, cheio de esperanças, tomando meu comprimidinho e medindo minha pressão diariamente, num aparelhinho alemão que comprei numa drogaria. A vida voltou a sorrir pra mim. Até já ando tomando meu uisquinho, moderadamente, de vez em quando. Renovei meu passaporte, estou de carteira de motorista nova e com muita vontade de viajar. Veremos depois o que ela e a grana reservam para mim nos próximos cinco anos, após os quais pretendo lançar o livro comemorativo, cujo título já escolhi: Bala 70.


60387
Por Augusto Vieira - 29/7/2010 13:05:58
Minhas putas

Gabo (Gabriel García Márques) escreveu o magnífico livro “Memória de minhas putas tristes”, lançado no Brasil pela Record, em 2004, numa bela edição de 127 páginas. O jornalista de vida monótona, aos 90 anos, reencontra o amor em Delgadina, ninfeta com quem dorme no randevu de Rosa Cabarcas, e, daí, passa a fazer coisas mirabolantes, provando que é o amor que nos vivifica.
Li o livro há uns quatro anos e sempre, quando a história me vem à cabeça, penso nas putas de meu tempo. No quanto alegraram minha vida. Sou grato a elas, tal qual o genial escritor colombiano à sua ninfeta. Tanto às que viveram quase na miséria, quanto às que encontraram bons abrigos, boas camas e comida. Recatadas, não usavam drogas. Religiosas, respeitavam o próximo, o parceiro de cada dia ou de cada momento. Asseadas, ainda que os recursos da medicina lhes fossem escassos, não eram pródigas. Quase não fumavam. Ingeriam, com moderação, bebidas alcoólicas e raramente aprontavam um “barraco” ou “pegavam mal”. Muitas se apaixonavam. Não havia motéis. Não se usavam camisinhas. Não havia AIDS. As mais sortudas residiam em casas de renomadas cafetinas, onde se alimentavam e usavam confortáveis leitos para ganharem o pão de cada dia. Ao fim do expediente, cansadas, adormeciam sozinhas ou acompanhadas, dando às patroas um bom percentual do que faturavam a cada jornada.
O advento dos motéis fez cair assustadoramente o movimento das chamadas “casas de prostituição”. Muitas fecharam as portas. As “profissionais” foram sucumbindo à concorrência das “amadoras” e um novo tipo de puta apareceu, as “meninas de programas”. São moças que levam vida normal no seio de suas famílias – algumas trabalham e estudam – e frequentam bares, restaurantes, boates e similares, aonde se encontram, normalmente à noite, com homens carentes de amor, que as remuneram regiamente para usufruírem de seus corpos. Excessivamente “profissionais”, chamam os locatários simplesmente de “clientes”. Homem, para elas, é somente sinônimo de dinheiro. Algumas guardam amor a namorados. Quanto a esses, alguns sabem e admitem a vida dupla de seus amores e até levam vantagens, outros, não. Muitas enveredam pelo caminho das drogas para suportarem os traumas existenciais que lhes causa o aluguel de seus corpos.
Essas putas modernas foram perdendo o charme das do meu tempo. Tornaram-se fúteis. Seus belos sorrisos, emoldurados por caros perfumes e vestidos formosos, são falsos. Já as do meu tempo, algumas hoje na miséria, sobrevivendo da caridade, pensaram mais em ofertar e desfrutar prazeres do que em acumular riquezas. Escreveram páginas que poderiam abrigar um belíssimo livro de Gabo. O certo é que falar das vidas de umas e de outras, com raríssimas exceções, sempre será escrever sobre tristes memórias de putas, ou sobre memórias de putas tristes.


60154
Por Augusto Vieira - 14/7/2010 16:28:49
Beto Guedes lota palácio das artes - esgotados, desde segunda-feira, os ingressos do show de beto guedes, hoje, no palácio das artes. o show será gravado, ao vivo, e transformado em dvd. os fãs escolheram as músicas. mais de quinze mil pessoas votaram. terá a participação de daniela mercury, de wagner tiso, dos filhos de beto (gabriel e ian) e de muitos outros artistas da música mineira e brasileira. beto apresentará vários de seus consagrados sucessos, alguns com roupagem nova, e até músicas inéditas. imperdível. mais uma vez me encho de orgulho por causa desta gente bacana de minha aldeia. saravá!


60046
Por Augusto Vieira - 11/7/2010 10:14:24
O FUTEBOL DA FIFA

Despretensiosa crônica de Paula Bicas e Chico Porras, repórteres de “O Diário do Pequistão”, sobre a XIX Copa do Mundo.

O futebol globalizado é, hoje, o esporte mais dominado pelo vil metal. Movimenta milhões e milhões de euros. Patrocinadores milionários nele investem quantias astronômicas em busca do retorno de seus capitais. Daí o surgimento da filosofia do ganhar a qualquer preço, que retirou desse esporte, que nasceu na Inglaterra, seu caráter fundamental, que é o de uma competição saudável, para tornar-se meramente um grande negócio, sustentado pela paixão de torcedores incultos. Ao invés de palcos de congraçamento humano, os suntuosos estádios foram se transformando em arenas de enfrentamentos de pessoas, influenciadas por uma mídia corrupta, também sustentada por patrocinadores.
Vejam, agora, o que a FIFA obrigou a África a fazer. Vejam, agora, o que ela está obrigando o Brasil, sede da próxima Copa do Mundo, a fazer. Quantos milhões de dólares serão retirados da inclusão social para a construção de elefantes brancos ou para obras correlatas que só endividarão mais ainda os minguados cofres públicos, apenas para enriquecer mais ainda a uma minoria, já tão bem aquinhoada pela riqueza material? A FIFA não respeita a realidade econômica dos povos. Ela os obriga a um luxo que não podem ter. É a mesma coisa que acontece na vida privada quando, para receber um hóspede, um cidadão constrói luxuoso anexo à sua residência, fora de seus padrões normais de existir, e se endivida de uma forma que sacrificará imensamente a si, sua família e seu futuro. Vocês que me contem, daqui a um ano, a utilidade destes novos estádios africanos. Por que tanta exigência? Por que, ao invés de obrigar os povos a se adaptarem a seus hábitos burgueses, a FIFA não se adapta às realidades deles? Aquele hóspede poderia perfeitamente ocupar as dependências normais da casa, caso fosse recebido apenas pelo sentimento de nobreza de seu anfitrião.
Esse desvio humano influencia até o modo de se jogar futebol. A dicotomia entre o futebol-arte e o futebol de resultados está aí, cada vez mais presente. Vejam o que acontece nesta grande decisão da XIX Copa do Mundo. A Holanda, que perdeu duas vezes jogando futebol-arte, pratica, hoje, futebol de resultados. A Espanha, que praticava futebol de resultados e não ganhava, joga, no momento, futebol-arte. A Holanda é o time que mais faltas fez na competição. A Espanha o que mais tocou a bola dentro das quatro linhas. Quem vencerá? Não sabemos. Só sabemos que torceremos pelos espanhóis, unicamente pelo motivo de sermos adeptos do futebol descompromissado com o resultado, do futebol-prazer. Futebol-prazer, por sinal, levado aos castelhanos, paradoxalmente, por um holandês chamado Johan Cruyff, em Barcelona, grandioso país basco, amante da arte, dentro da própria Espanha. A Espanha futebolística de hoje é o Barcelona em campo.
Quem sempre praticou o futebol como profissão foi o povo. Ele que o faça retomar suas origens, deixando de lado a famigerada FIFA e seus empresários. Ele que jogue para a linha de fundo as negociatas, a empáfia e o autoritarismo e faça com que o futebol volte a ser o esporte das multidões alegres, pacíficas e felizes. Ele que faça o futebol ressurgir das cinzas como um saudável exercício da arte humana. Ele que, “à sombra das chuteiras imortais” e em busca do “sobrenatural de Almeida”, jogue para o lixo da História este tão badalado e inexpressivo fair-play, que só fez agravar a miséria dos povos.


59886
Por Augusto Vieira - 5/7/2010 04:18:10
NOITES DO SERTÃO

Meu querido amigo Carlos Alberto Prates Correia submeteu-se, no Rio de Janeiro, a uma delicada cirurgia. Cláudio Athayde, seu primo, ligou, dizendo que, felizmente, tudo correra bem e que ele está animado. Pensei no que ele, na sua virtuosa humildade, representa para todos nós e nossa cultura. No que ele representa para o cinema brasileiro. Pensei no amigo carinhoso e sincero de sempre. Aqui vai, dedicado a ele, um canto sertanejo:
Acaso há, neste mundão de Deus, coisa mais linda do que as noites do sertão? Elas falam com a gente. E não só falam. Filosofam com a gente. É nelas que captamos a vida. O ruflar do vento nos mostra essências. O farfalhar das folhagens é fundo zezinhomusical perene do caminhar em busca de decifração de mistérios. O cheiro da mata é irresistível convite arrozpequizense ao indevassável. O murmúrio das águas é chamado jucapratista a beirarmos infinitos, representados pelo brilho das estrelas e pela grandeza do firmamento. Sempre retornaremos antoniorodriguesmente às nossas noites do sertão, muito nossas e do povo de nossa aldeia. Diferente, em tudo, das noites das metrópoles. O sertão é que é a metrópole de nossas vidas. É nele que tudo foi aprendido, sabido e ressabido. Realidade juntinha do pensamento. Sem passado e futuro. Eta travessia mais desmilinguida! Mas é boa! É cheirosa! Tão gostosa que vale a pena!


59782
Por Augusto Vieira - 2/7/2010 13:41:02
O FIM DE UMA ERA

Em homenagem à memória do garoto Mardem

Essa derrota de hoje para os holandeses deve servir de marco para uma total mudança do futebol brasileiro. Ainda bem que ela veio antes da próxima Copa, que será aqui. Teremos tempo suficiente para voltar a jogar o futebol arte e abandonarmos o futebol de resultados, o futebol preconizado pelos Parreiras e Dungas da vida. E digo isso sem o emocionalismo do momento desta desonrosa desclassificação. O erro começou nas convocações. Nossos comandantes não se curvaram ante as evidências. Fizeram uma panelinha, tal qual a da FIFA e a da CBF, e foram até o fim, empafiosamente, crentes que fariam sucesso. Eu já esperava por isto, há muito tempo. Não quero escolher um Cristo. É muito fácil crucificar alguém na derrota. Desde o início afirmei que não gostava deste futebol que qualifiquei de "dungado". O que diferencia nosso futebol e o fez grandioso foi o talento de nossos atletas. Hoje temos uns tanques bem preparados fisicamente que nada jogam, com raríssimas exceções.
Os times brasileiros estão, quase todos, com dívidas impagáveis. É hora de rever muita coisa em nosso futebol. É hora de um novo tempo, de voltarmos a ter a humildade e a arte dos campeões de 1958.
Muito triste, senti falta de Neymar, de Ganso, de Alexandre Pato, de Hernanes, de Lucas, de Anderson e de tantas outras promessas que foram "queimadas" por jogarem diferente, por não entrarem no "esquema". Muito triste, espero que entrem novos dirigentes na CBF com uma visão menos empresarial e mais voltada para o espírito esportivo.
Nélson Rodrigues e João Saldanha devem estar lamentando. O mesmo, certamente, deve estar fazendo o mestre Armando Nogueira. Que saudade do mestre Telê Santana! Todos eles, cultores de um futebol arte, leal, competitivo sem atavismos, grandioso com humildade e vencedor sem arrogância.


59727
Por Augusto Vieira - 1/7/2010 01:45:30
REGINAURO SILVA

Nos chamados “anos de chumbo”, em que enfrentávamos a ditadura, correndo riscos até de vida, para desespero de nossos pais, estudei Direito na UFMG, de Belo Horizonte. Costumava me esconder e passar férias escolares em minha aldeia. E foi assim que me tornei admirador dos escritos de um jovem, nascido às margens do Rio Jequitinhonha, na antiga “Vigia do Vale”, a belíssima Almenara.
Em 1970, pós-graduado, voltei para ficar, para ganhar a vida, coração cheio das mais sublimes esperanças. E lá estava o jovem escriba, preparando-se para prestar vestibular na Faculdade de Direito do Norte de Minas. Rebelde e artista – até porque o pai se chamava Rebeldino e a mãe levava o nome de uma das mais lindas musas do cancioneiro popular brasileiro, Laura – seria, pouco tempo depois, o líder universitário que enfrentaria o autoritarismo, presidindo o Diretório Central dos Estudantes. Ao mesmo tempo exerceria seu jornalismo com a maior coragem, independência e dignidade. Tornamo-nos amigos. Foi então que conheci para valer um brilhante, lapidado nas benditas terras e águas do Vale do Jequitinhonha, que transformam quase todos os seus filhos em artistas. E esse brilhante, como não poderia deixar de ser, reluziu Brasil afora, em duas profissões, advocacia e jornalismo, misteres cujos exercícios não deixam de também ser uma arte. Mas abraçaria também outra arte, a literatura, o que só os mais corajosos, despojados e destemidos conseguem. E o fez com muito carinho e esmero. Escreveu peças teatrais que foram reverenciadas por todos nós. Hoje é um dos orgulhos culturais de nossa aldeia, que também é dele, por adoção. Editor de um dos mais conceituados jornais de papel da região, ainda mantém um jornal eletrônico, chamado “A Província”, sempre inspirado por Laura Walma, o grande amor de sua vida, que carrega o mesmo nome de sua mãe. Certamente deve perguntar a ela, quando sente saudade de suas raízes:
– Laura, que é do Vale sempre em flor?
Assim é este meu grande companheiro de várias lutas democráticas, o intrépido Reginauro Silva, que eu trato, com o maior prazer, simplesmente por “Regis”, genitivo singular de “Rex”, palavra latina que significa rei, porque ele é, para mim, um dos ícones de nossa cultura e, por que não dizer como os baianos, “meu rei”. Saravá!


59480
Por Augusto Vieira - 21/6/2010 00:35:43

TIÃOZINHO DO BANCO

Meus pais foram padrinhos de seu casamento, daí a amizade histórica de nossas famílias. Era conhecido como “Tiãozinho do Banco”, porque foi fundador e primeiro gerente da agência do Banco Econômico da Bahia em Montes Claros, aonde, aos 14 anos, por causa dele, abri minha primeira conta bancária. Nasceu em Buenópoplis, MG, e, antes de chegar a este importante cargo, foi motorista de caminhão. A família fixou residência na “Princesa do Norte” e a matriarca tratava meu pai como se fora seu filho. Essa amizade estendeu-se aos descendentes de ambos e perdura até nossos dias. Tião era extremamente leal aos amigos, que eram muitos, dada à sua facilidade em conquistar os corações das pessoas. Gostava de beber seu uisquinho. Usava copo longo e ficava com uma das mãos tapando as bordas, mas com o dedo indicador dentro, mexendo o gelo. Quando o uísque amarelava ele dava sua primeira talagada. Sabia beber. Nunca abusava ou ficava de fogo. Sempre rodeado de amigos e música, foi marido e pai exemplar. Tininha (Ernestina Marques da Silva) foi o grande amor de sua vida, junto aos filhos Hélio, Rosarinha, Mazinho, Tininho, Paulinho, Ângela, Claudinho, Zé Alencar e Tiãozinho.
Tenho umas passagens interessantes vividas com ele para contar, porque, além de amigo, fui seu advogado, depois que ele deixou o banco e tornou-se grande empresário, em Montes Claros e no sul da Bahia (Brumado).
Logo que iniciei minha vida profissional ele, Mauricinho, Dácio Cabeludo e Zé Piriquitinho me convidaram, num sábado, para um poquerzinho na fazenda “Lagoa do Peixe”, de Mauricinho. Lá fui, pato, para, em menos de meia hora, perder mais de um mês de salário. Nunca mais joguei. Fiquei sem dinheiro para a feira do sábado. Que vergonha! Minha sorte foi que Zé Periquitinho me deu prazo para pagar o que perdera.
Mauricinho, Tone Mamoeiro, Walter Brasileiro e Zé Periquitinho, seus grandes amigos, sempre exaltavam sua lealdade. Quando derrubaram Mauricinho da universidade ele o procurou para hipotecar solidariedade e disse que se fosse algum problema de caixa, colocaria imediatamente à sua disposição um milhão de cruzeiros. Nosso Reitor, espantado, entendeu o gesto amigo, embora não tivesse gostado da dúvida sobre a lisura financeira da instituição que comandara por anos a fio.
Acompanhei alguns processos judiciais para as empresas de Tião, em Brumado. Quando o caso era urgente ele fretava um teco-teco para me conduzir. Tornei-me amigo da juíza, Dra. Magda, que gostava de uma viola. Ela passou a marcar minhas audiências às sextas-feiras para que eu permanecesse na cidade nos fins de semana. Fazíamos belas serenatas para a mãe de Newton Cardoso, D. Dezinha, uma pessoa maravilhosa, mestra de todos brumadenses, que preparava para nós, nessas ocasiões, uma senhora feijoada de fogão de lenha.
Depois que Tião foi para o andar de cima, continuei e continuo convivendo com Tininha e com os “meninos”. Compareci à festa dos 85 anos de Tininha, na casa de Claudinho. Depois que cantamos parabéns ela se levantou e saiu dançando pela sala, gritando e rebolando: “eu quero é sexo, eu quero é sexo!” Quase nos matou de tanto rir. Que mulher extraordinária! Sempre alegre, brincalhona e de um otimismo inigualável. É um exemplo de vida para todos nós. Nos 60 anos de Tininho perguntei-lhe o que desejava de presente e ele respondeu: uma mulher linda para fazer um strip-tease durante a festa. E não é que lhe dei esse presente? Tininha adorou o show da atriz, que causou verdadeiro frisson.
Imaginei o que Tião, se ainda estivesse conosco, diria, comentando esse presente maravilhoso. Certamente me faria, logo, aquela sua costumeira pergunta:
– Companheiro é o quê?
E antes que eu respondesse retrucaria, enfaticamente:
– Companheiro!
E balançaria, sorrindo, o couro cabeludo para cima e para baixo, coisa que muito poucas pessoas conseguem fazer.
Quando tocávamos viola e cantávamos em algum lugar e ele sentia que o violeiro estava cansado, ordenava imediata paralisação da música e cantava, pausadamente:
– “Não vás me abandonar, ó linda flor maravilhosa! O tocador quer beber. Prá?!”
E dava um pequeno intervalo para que o tocador também se aproveitasse das bebidas e guloseimas da jornada.
Esse o meu grande amigo Sebastião Alves da Silva, que deixou muita saudade em meu coração e de quem sempre me lembro, especialmente por suas espirituosas brincadeiras e pelo afeto que me dedicou. Meu caro Tião, onde você estiver, receba estas minhas pobres palavras, regadas a um bom uisquinho e a um delicioso tiragosto. Sua vida valeu a pena.


59167
Por Augusto Vieira - 10/6/2010 08:38:59
“ÉRAMOS FELIZES E SABÍAMOS”

Depois do sucesso alcançado em Brasília (DF), foi lançado, aqui em Belô, no dia 4 de junho, o livro “Éramos felizes e sabíamos”, que o prefaciante e coautor Tininho chama carinhosamente de “meu livro”. Nenzão comandou tudo, desde o Encontro dos Sessentões, realizado em 2009, em MOC, até a organização, publicação e lançamento do livro, com o maior desvelo. São 18 autores: Ademir Fialho, Carlos Lindemberg, Eduardo Lima, Felipe Gabrich, Haroldo Tourinho, Luiz Milton Velloso, Márcia Vieira, Murilo Antunes, Nilo Pinto, Paulo Henrique Souto, Raphael Reys, Ruth Tupynambá, Tião Martins, Tininho Silva, Virgílio, Virgínia e Walmor de Paula. Estou no livro, com três crônicas, não como membro da brilhante geração que realizou o Encontro, mas, suponho, como um fraterno amigo mais velho que deu a ela, antigamente, todos os “maus exemplos” possíveis, inclusive tocar bossas-novas ao violão.
Lugar melhor não poderia ter sido escolhido para o lançamento em Belô do que o Café Viena Beer, que tem ligações íntimas com a “República do Pequistão” (o mais novo epíteto atribuído a nossa aldeia, por Tino Gomes). Sobre ser aprazível e servir coisas da melhor qualidade, a empresa pertence a gente nossa, fundada que foi pelo inteligente e simpático Wilhelm Shlad, nosso querido Vili (tônica na primeira sílaba), marido de Neize Melo Franco, minha querida professora de Geografia, na Escola Normal, que eu chamo até hoje de “Zizi”, filha de “vovô” Aristeu e de “vovó” Pilucha, meus vizinhos na Coronel Prates, na minha infância. Vili veio da Áustria. Foi à fazenda de meu pai e ali um marimbondo o ferroou. Ficou aquele calombo vermelho no local e meu pai disse a ele que teria apenas mais três dias de vida. Foi dificílimo convencê-lo de que era uma brincadeira. Afinal ele nunca tinha visto um marimbondo. Foi dono da Mercearia Viena, na Simião Ribeiro, cujos frequentadores mais assíduos eram Walmor, Virgílio, John e Zé Guedes. Tive o prazer de rever o casal tão logo entrei, depois de abraçar Xandão (meu irmão) e cumprimentar Célio Balona e Eduardo Lima. Subi as escadas para o piso reservado ao lançamento. Quando vi aquele mundão de moquenhos reunidos saudei logo: - oi, tropa de fi duma égua!
A noitada foi maravilhosa. Muitos livros vendidos. Essa turma é mesmo feliz e sabe que é. Raphael Reys veio de MOC. Joel Antunes, meu querido Joe Cachorro Doido, veio de Uberlândia e quase nos matou de tanto rir contado seus famosos “causos”. Ademir Fialho, de São João da Ponte, tão bom quanto, não ficou pra trás. Tino Gomes e Genival Tourinho prestigiaram o evento. À meia-noite, felicíssima coincidência, comemoramos o aniversário de Célia, minha esposa. Publiquei em meu blog inúmeras fotos dos presentes. Só gente fina ou, como diria Henrique Chaves, bacana.
Em agosto o livro será lançado em MOC. Já comecei a economizar saúde.


58904
Por Augusto Vieira - 31/5/2010 13:59:57
COPA DO MUNDO - FRASES DOS ÕNIBUS

África do Sul: Futebol aqui é preto no branco.
Alemanha: A caneca é nossa!
Argélia: Sem essa de nadar, nadar, nadar e morrer nas dunas.
Argentina: Gracias, Dunga.
Austrália: Tirando onda dos adversários.
Brasil: Um ônibus, 10 volantes.
Camarões: Um time meio sem cabeça, mas cheio de pernas.
Chile: Um país inteiro tremendo de esperança.
Coreia do Norte: Vamos bombar nesse mundial!
Coreia do Sul: Vamos nos matar em campo. Mas se o jogo for contra a Coreia do Norte, matamos eles.
Costa do Marfim: Vamos, Elefantes! E ai de quem trombar com a gente.
Dinamarca: Ficaremos com os louros da vitória.
Eslováquia: Perdemos a Tcheca, mas não perdemos a honra.
Eslovênia: Pela milésima vez, não temos nada a ver com a Eslováquia.
Espanha: Não vamos fazer feio: convocaremos a Penélope Cruz.
Estados Unidos: Ê ô, ê ô, o Osama é um terror.
França: Desodorantes podem estar vencidos, o time nunca.
Gana: Gatos em pele de leões.
Grécia: Chuto, logo existo.
Holanda: Ônibus ecológico: fumaça só do lado de dentro.
Itália: A Copa do Mundo é massa.
Japão: A gente caberia numa van, né?
México: Se buscamos nosso lugar ao sol, porque temos que usar esses malditos sombreros?
Nigéria: Vamos tirar a barriga da miséria.
Paraguai: Copa do Mundo por apenas R$ 1,99.
Portugal: Seremos campeões em plena Ásia!
Sérvia: Vai dar Zebracovic.
Suíça: Vamos dar um chocolate neles.
Uruguai: Gaúcho é a mãe, tchê.


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Por Augusto Vieira - 30/5/2010 19:50:56
REPÚBLICA DO PEQUISTÃO

Em minha aldeia, Montes Claros, terra de Darcy Ribeiro, Cyro dos Anjos, Carlos Alberto Prates Correia e Godofredo Guedes, nasceu um artista chamado Tino Gomes, cujo pai, Dito, foi craque de futebol. O menino cresceu e também tornou-se craque, mas na música, na poesia e nas artes cênicas. Inteligentíssimo, simples, alegre e sorridente, hoje em dia conquista todas as pessoas que dele se aproximam, simplesmente por abrigar profundo sentimento de amor ao próximo em seu bondoso coração sertanejo. É um autêntico profeta do querer bem. Extremamente criativo, redesenhou o mapa do Brasil, com base na imensa área aonde existe a frondosa e famosa árvore chamada pequizeiro (nordeste/centro-oeste do Brasil e norte de Minas Gerais) e, em homenagem à sua fruta amarela, típica do cerrado, chamada pequi (cariocar brasiliense), criou a República do Pequistão, escolhendo Montes Claros para sua capital. E foi assim que ele e outros catrumanos malucos-beleza, (Picolino, Flávio Pinto, Odorico Mesquita e o autor deste artigo), começaram a desenvolver a temática e chegaram a algumas interessantes conclusões. Nosso balneário será Porto Seguro; nosso museu barroco será Diamantina; nossa highland será Salinas (por causa da melhor cachaça do mundo); nossos mais importantes portos de rio serão Januária e Pirapora; Salvador será nosso principal porto de mar; nosso planetário será Bocaiuva; nosso pentágono ferrífero, que vai de Pirapora até a famosa Chapada Diamantina, terá sede em Rio Pardo de Minas; nosso centro de produção de carne de sol será em Mirabela; nossa indústria de farinha de mandioca será em Morro Alto, e nosso centro de pesquisas (palavra que já contém o nome da fruta) será em Campo Novo.
A Républica do Pequistão terá uma população de cerca de 80 milhões de pessoas. Sua bandeira será verde e amarela, com a fruta amarela ao centro e a inscrição “trem bão dimuais”, de autoria do imortal roedor de pequi, de Coração de Jesus, Gentil de Queiroz.
Fica, portanto, lançada para o mundo a promissora República do Pequistão.


58704
Por Augusto Vieira - 25/5/2010 11:39:51
AMIZADE A UM CÃO - Já que várias pessoas vêm se manifestando neste Mural sobre a amizade entre pessoas e cães, não poderia deixar de incluir o grande mineiro Belmiro Braga que, em homenagem a seu cachorro de estimação, chamado "Príncipe", legou-nos um dos mais famosos epigramas da língua pátria.BELMIRO Belarmino de Barros BRAGA (07.01.1872 a 30.03.1937) nasceu em Vargem Grande, lugarejo antigo de Juiz de Fora, hoje município que leva seu nome. É um dos fundadores da Academia Mineira de Letras. Escreveu contos, crônicas, peças teatrais e foi iluminado trovador.Vai o epigrama, com um abraço a todos, especialmente a Ucho Ribeiro:
“Pela estrada da vida subi morros,
Desci ladeiras... e afinal te digo:
Se entre amigos encontrei cachorros,
Entre os cachorros encontrei-te, amigo!”


58445
Por Augusto Vieira - 17/5/2010 12:34:59
Li a mensagem 58417, do Alan e, tamanha foi minha alegria que quase pulei da cadeira. Deu vontade de soltar foguetes. É Montes Claros, novamente, na elite do futebol mineiro. Deixo aqui mais um apelo a meu amigo Luiz Tadeu Leite para que construa o MOCÃO. Vamos caminhar juntos, no vôlei e no futebol, honrando nossas tradições esportivas e divulgando o nome de nossa aldeia. Axé!!!PS: Na minha crônica sobre Tião Boi quero fazer uma retificação: onde se lê "tio" Lourenço Sant`Ana, leia-se "tio" Lourenço Miranda.


57702
Por Augusto Vieira - 26/4/2010 11:20:55
TIÃO BOI”

Eu tinha vizinhos maravilhosos em minha aldeia. De uma lado minha querida “Zinha”, que era Alice dos Anjos, em cuja casa viviam também suas duas irmãs Biela e Carlotinha. Do outro lado “seu” Marinho Português e minha querida D. Xininha, com aquela filharada bacana, pais do chefe de minha trinca, Gerinha Português, a quem Raphael Reys cognominou “Lenda Viva”. À frente, numa esquina, o Prof. João Neto e D. Maria, pais de Carminha, Edmundo, Branca e Paulinho, ao lado da casa de “seu” Mundinho e de D. Marieta. Ainda à frente meu querido e saudoso “tio” Lourenço Sant’Ana, pai de Boyzinho (Moacyr) e, depois, Wilson Athayde. Nas esquinas ficavam a vendinha de Orácio e a Sapataria de Lourival. Do lado esquerdo da casa de “seu” Mundinho, na Presidente Vargas, havia um imenso corredor interno, tendo à sua frente um pequeno cômodo, que dava para a rua. Foi alugado, lá pelos idos de 1957, a um jovem sapateiro, cujo nome era Sebastião Ramos Guimarães e cujo apelido era “Tião Boi”. Nasceria, então, a “Sapataria Nossa Senhora de Fátima”, que se tornaria um dos grandes pontos de encontro dos moquenhos. Tião, bom de prosa, com aquele seu jeito simples, sincero e, às vezes, até deselegante, devido a sua intrépida franqueza, tinha mania de filosofar sobre a vida. Exercia a profissão com maestria e era um touro no trabalho. Talvez aqui, suponho, a origem de seu apelido. Jogamos futebol no juvenil do Cassimiro de Abreu: Gerinha e eu de zagueiros, Alpheuzão de goleiro e ele e Haroldinho de laterais, tendo como técnico o grande Castilho. Nesse contexto fui me tornando seu amigo e, devido a isso, meus pais também, a ponto de ele ser um dos mais frequentes convidados de minha casa para um almoço ou lanche, ou para um fim de semana na fazenda. Ouvimos, em 1958, pelo rádio Semp, na voz de Jorge Curi, o Brasil sagrar-se campeão do mundo pela primeira vez e fizemos o maior carnaval lá em casa.
Tião Boi consertava sapatos na parte direita, aos fundos, sentado num banquinho, tendo ao lado uma pequena prateleira e à sua frente uma mesinha. Tudo de madeira e feito por ele. Em frente à mesinha havia um pequeno balcão, que deixava uma passagem do lado esquerdo, espaço dos banquinhos (muitos deles tocos de troncos de árvores) para receber os inúmeros amigos. Na parede, ao alto, em cima de uma porta, um poster de Nossa Senhora de Fátima e, logo abaixo, um outro, imenso, do Flamengo, duas de suas paixões. O próprio Tião pintava de azul as peças de madeira, para reverenciar sua terceira paixão, o Cassimiro de Abreu, que eu teria a honra de presidir, em 1971/2, tendo-o como membro da diretoria e abnegado conselheiro. A sapataria sempre era visitada por Aristóbolo Mesquita, que vinha do Rio de Janeiro à caça de talentos para o Flamengo.
Tião Boi tornou-se técnico de futebol de salão e fez times brilhantes. Ganhou muitos títulos. Eu já havia parado de jogar, mas ele sempre me inscrevia em seus times. Uma vez exigiu minha presença. Eu já trabalhava no Serviço de Assistência Judiciária da Faculdade de Direito da UFMG, mas como não atender à convocação daquele grande amigo? Parafraseando Charles Boa Vista, “fui de trem pra Montes Claros”. Faltando dois minutos para terminar o jogo ele me colocou na quadra e, por incrível sorte, num chute que nunca mais darei, a bola quase saíndo para a linha de fundo, marquei o gol do título no grande amigo e goleiro Pindoba (Eustáquio Milo). Fomos comemorar no Espeto de Ouro e a turma deitou-me, de barriga pra cima, nas mesas unidas e me deu o maior banho de cerveja.
Tião se casou e não foi feliz. Como “desgraça pouca é bobagem”, ainda pegou uma doença alérgica na pele, talvez causada por seu contato diário com o couro de boi. Teimoso, não seguia as normas do tratamento. Paulinho Dias quis levá-lo para o Rio de Janeiro para tentar curá-lo, mas ele não aceitou. Faleceu, no esplendor da vida, muito sozinho, numa casa que construíra, com imenso sacrifício, no Bairro Todos os Santos. Sempre que ia a Montes Claros o visitava e ficava muito triste em vê-lo naquela situação.
Dos frequentadores mais assíduous da sapataria, em meu tempo, recordo-me, dentre muitos outros, de Betão Viriatinho, Gentil, Beto e Quincas de Queiroz, “seu” Lucinho Narciso, Jackson Athayde e Ricardo Tupynambá (grandes amigos que recentemente nos deixaram), Ruizão e Berilo Maia, Zé Carlos Gomes, Zé César Vasconcelos, Coró e Chiquito Barbosa, William e Zé Geraldo Santos, Valmir Alencar, Taque Maia e Tidinho Xorró, Paulinho Dias, Nélson e Nivaldo Santos, Xandão (meu irmão), Tatu, Felício Fernandes (Gaguinho), Zé Venâncio e seu irmão, um garotinho bom de bola e letras chamado Alberto Sena.
Felício Fernandes, o Gaguinho, famoso ponta-esquerda – aquele que deu uma “gaúcha” em Almerindo e deixou imediatamente o treino no campo do Cassimiro, de uniforme e chuteiras, para comemorar no Bar de Zé Piriquitinho, na Praça Dr. Carlos –, uma vez, elaborou e recitou para nós um poema ininteligível, que até hoje repito quando me lembro da turma da “Sapataria Nossa Senhora de Fátima” e de seu artífice, nosso querido e inesquecível amigo “Tião Boi”.
“Tu,
Não seja já!
Vem, vírgola,
Ó parte omana!
Me chama Judite.
E vem zabelê,
E vem sabeá.
E ponto final.”

PS: Quem tiver uma foto de Tião Boi, por favor, envie para mim, pela internet (avbalinha@gmail.com) para que eu ilustre essa crônica, que também foi publicada em meu site de literatura (http://sites.google.com/site/quidialas), no link AMIGOS.


57572
Por Augusto Vieira - 22/4/2010 11:51:55
ZÉ AMARO

Bateu saudade de José Mário de Araújo. Ele sempre ia à minha casa, na Presidente Vargas, porque era amigo de meu pai. Essa amizade, suponho, deve ter nascido nos tempos em que o velho Nonô era sócio de seu irmão, meu tio Augusto Getúlio, na firma Vieira&Cia, ou seja, durante ou pouco antes dos anos 30, do século passado. No fim dos anos 50, adolescente, deliciava-me com aquele seu jeito espalhafatoso de falar: voz de timbre agudo, em tom elevado, intercalando entre as frases homéricas gargalhadas e finalizando-as com as interrogações “ouviu?” ou “tá ouvindo?”, que repetia e pronunciava “ourriu?” ou “tá orrino?”. Jamais esquecerei de sua botina “rangideira” marrom-glacê, de sua calça de brim e de suas belas camisas. De baixa estatura, barrigudinho, rápido em tudo, tão logo chegava alegrava qualquer lugar. Ele chamava Nonô de “Norica”. O que é a vida: duas décadas depois, Nonô faleceria nas mãos de Paulinho, competente cardiologista, filho de Zé Amaro. Eu estava junto, sofrendo a irreparável perda de meu pai. Paulinho chorou conosco, porque também gostava muito de Nonô. A gente herda os amigos de nossos pais.
Quando eu tinha pouco mais de doze anos, Zé Amaro candidatou-se a vereador e dediquei-lhe a seguinte poesia, que foi publicada na “Gazeta do Norte”, jornal do inesquecível Jair Oliveira. Ei-la, com os retoques do tempo:

Ele é um grande homem
Candidato a vereador
Em sua ilustre carreira
Só falta título de doutor.

É também negociante
Político de coração
E está bem convencido
Que vai ganhar a eleição.

Trinta votos garantidos
O Zé Amaro já tem
Mais oitenta ou cento e vinte
Ele disse que inda vem.

Quem votar em Zé Amaro,
Aqui no nosso rincão,
Gastará menos moedas
Pra comprar o seu feijão.

Zé Amaro conseguiu dar cama, comida e escola a sua filharada, tendo como atividade o comércio num armazém da Ruy Barbosa, ao lado do antigo Mercado. Inteligente, esperto, trabalhador e pai extremoso, deu a todos o maior conforto, moral e material. E como ele se orgulhava dos sucessos daquela inteligente ninhada! Alardeava-os aos amigos, naquela época em que as alegrias da vida eram muito mais compartilhadas. Fez um estardalhaço quando um passou no vestibular de medicina e outro foi aprovado nos exames da Academia Militar de Agulhas Negras. Quanto ao último, vaticinou logo: – esse será Presidente da República, “ourriu”?
Há duas estórias que me contaram dele que são antológicas. Era compadre de Pedro Santos. O consultório de Pedrão ficava na esquina da Dr. Veloso com Padre Augusto. A sala de espera sempre lotada. Pedrão examinava as partes íntimas de sua esposa quando, de repente, Zé Amaro abriu a porta e disse, alto e bom som: – compadre, faça de conta que você está examinando sua própria mãe, “tá ourrino”? A outra é a dos penicos. Ele estocara muitos e não os vendera. Sabia que um colega comerciante não os tinha no estoque. Combinou com mais de dez meninos para irem, em espaços regulares e dias diferentes, mas seguidos, à loja do outro perguntar se tinha penicos. Livrar-se-ia, assim, de empacados urinóis, transferindo-os ao colega, que dele compraria, poucos dias depois, quase todos, para tentar revender, ante aquela inusitada procura.
Zé Amaro deixou esta vida feliz e realizado. Embora tivesse fama de sovina, foi extremamente bondoso, sem alardear o bem que fazia ao semelhante. Eu o vi ajudar muita gente, especialmente os pobres e miseráveis. Tornou-se figura emblemática de minha aldeia, caricaturada por nosso fabuloso artista e médico Konstantin Christoff. Estórias tendo-o como personagem rodaram mundo. Hoje, certamente, estarão a circular em bem-aventuranças, onde ele deve ter encontrado muitos companheiros bons de prosa, que tiveram a felicidade conhecê-lo aqui embaixo.
Que Deus o tenha, meu caro Zé Amaro! “Tá orrino”?

***
Meu caro Raphael Reys.O que faço, quando os recebo aqui, é apenas em retribuição ao que vocês, “Imperadores do Divino”, fazem por mim quando vou aí rever minha mãe e matar um pouco da imensa e constante saudade da gente de minha aldeia.Que Deus nos permita repetir sempre esses indeléveis bons momentos de amizade e alegria! É isso que vale a vida!Muito obrigado!


57030
Por Augusto Vieira - 9/4/2010 06:39:01
DAS REGULAÇÕES ESTAPAFÚRDIAS

O Mestre passava em frente a um restaurante, quando dele se aproximaram dois senhores, idosos, com mais de oitenta anos, e lhe perguntaram a respeito de uma lei que os proibia de fumar naquele local. Os dois revelaram que tomavam sua cervejinha, uma vez por semana, há mais de sessenta anos e que, agora, se sentiam privados do prazer de fazê-lo acompanhado de um cigarrinho. Veio a resposta:
- Vocês são de uma geração em que o cigarro era considerado charmoso. As moçoilas gostavam mais de namorar os fumantes do que os não fumantes. Era chique, o hábito de fumar demonstrava maturidade e independência e era amplamente divulgado nas telas dos cinemas. Casablanca, por exemplo, é um filme todo enfumaçado. Quem não se lembra das longas tragadas de Humphrey Bogart? Aí começaram a atribuir ao uso do fumo as causas de várias doenças, inclusive do câncer. Foi um Deus nos acuda. Está virando moda não fumar. E os próprios não fumantes passaram a fiscalizar os fumantes em ambientes onde é proibido o uso do cigarro, muito mais devido à intolerância social do que por zelo pela saúde pública. Isso, no entanto, meus caros, faz parte de um esquema muito maior, que é o da dominação das pessoas. É necessário manter o povo alienado, ignorante e medroso para que sua vontade possa ser manipulada nas campanhas eleitorais. A melhor maneira de dominar uma pessoa é proibi-la de fazer algo corriqueiro. Aí surgem leis estapafúrdias, draconiamas, lesivas à liberdade individual, como essas do tipo antifumo e anti-álcool. A continuar assim, qualquer hora regularão quantas vezes por semana o cidadão poderá manter relacionamentos íntimos. Agora, desmatar florestas, poluir rios, expelir gases maléficos pelos canos de descarga de veículos e chaminés das fábricas, isso é permitido. O cidadão moderno é um simples pagador de pesados tributos e vítima de grandes desfalques de seu dinheiro por empresários, políticos e funcionários públicos corruptos. E, ainda por cima, é privado dos mais elementares prazeres da vida. Ou seja: prevaricar, pode; poluir, pode; pagar tributos, pode. O que não pode mais é beber uma cervejinha, moderadamente, com os amigos e voltar para casa dirigindo um carro. O que não pode mais é fumar em locais fechados destinados ao público, ou seja, principalmente nos bares e restaurantes onde nos congraçamos e nos comunicamos, até para falar de política e nos queixarmos das lesões a nosso patrimônio comum. Isso tudo sem contar que ainda somos aconselhados a só fazer amor com uso de preservativos – emborrachados –, quando se sabe que dificilmente uma pessoa sadia que não pratica sexo anal e não usa drogas contrairá esse tal de HIV. Mas as grandes multinacionais da farmacologia têm que vender seus medicamentos e recuperarem o que investiram em pesquisas e produção deles. Então vai meu conselho a vocês dois: sempre que puderem burlem leis e normas estapafúrdias como estas, senão vocês ficarão enclausurados em suas casas, fumando e bebendo sozinhos. Vivam o resto de suas vidas felizes. Seria muito constrangedor à polícia prender octogenários por fumarem e dirigirem após beberem, com moderação, apenas um pouquinho acima do permitido.
Assim falou Nabonosseu.


56992
Por Augusto Vieira - 8/4/2010 10:17:22
ZEZINHO DA VIOLA

Dizíamos, orgulhosos, que os momentos mais propícios às reuniões de amigos em mesas de bares não eram os finais de semana. Que eles eram destinados aos amadores. Que o dia dos profissionais era a segunda-feira. E assim nos habituamos a encontros semanais no Bar Brasil, o que ficou batizado de “segunda sem lei”. De repente o pessoal foi se dispersando. Infelizmente o Bar Brasil fechou. O imóvel, histórico, foi vendido e dará lugar a mais um espigão. Paulinho Pedra Azul, sugeriu que revivêssemos a segunda sem lei. Resolvemos fazê-lo só que, ao invés de num bar, em minha casa. Mal anoiteceu a turma foi chegando, a festança foi crescendo e minha sala se transformou num palco de harmoniosa orquestra, até a última música, cantada quase ao amanhecer. E ela foi justamente “O Sonho”, de Zezinho da Viola, sob os comandos de Paulinho e Tadeu Franco, com acompanhamentos de Yuri Popoff e Marcelo Drummond. Despedi-me do último convidado e, antes de dormir, resolvi abrir meu correio eletrônico. Dois dias antes, uma pessoa chamada Anna Patrícia Dias Silva me lera pela Internet e me indagara se eu tinha alguma informação sobre Zezinho. Respondera, apenas perguntando quem e de onde era ela. E lá estava a resposta:
“Sou neta de Zezinho da Viola. Quando a minha avó Joaquina era viva, eu era nova e não perguntava muito sobre ele. Agora é que tenho consciência da sua importância. É claro que tenho meu pai, José Pedro, e meus tios para conceder informações, mas depoimentos de terceiros são sempre interessantes. Abraços. Anna.”
Que incrível coincidência! Pareceu coisa vinda diretamente de Deus. Emocionado, respondi: Anna, que beleza falar com uma neta de Zezinho da Viola. Sabe? São mais de quatro horas da madrugada. Aqui em casa ocorreu uma “segundona sem lei” e cantamos várias músicas de seu avô, inclusive “O Sonho”, encenada por Tânia Alves, no filme Cabaré Mineiro, de nosso conterrâneo Carlos Alberto Prates Correia. Seu avô trabalhou com meu pai, na Vargem Grande, e eu o conheci nos meus oito anos. Quando morreu, abraçado à viola, numa enxurrada, comuniquei o fato (eu já estudava na Faculdade de Direito da UFMG e já tinha dezenove anos) ao Prof. Alberto Deodato. Logo depois o mestre publicou, no “Estado de Minas”, uma belíssima crônica em homenagem à sua memória. Seu avô era forte, bonito e artista. Seu sorriso era largo. Sempre alegre e feliz transmitia a todos a bondade de seu nobre coração. Anna, você pode acessar o site montesclaros.com e verá o quanto nós ainda somos uma aldeia, uma tribo de gente amiga. Obrigado e um grande abraço.
Adormeci com o nascer do sol, pensando em Zezinho e em sua neta. E foi então que “sonhei qui tinha morrido e vêi gente pra me guardá. Fiquei muito avechado, quando fôro me lavá. É qui eu tava cum corpo sujo e pegaro a caçoá. Lavareu cum sabão, marrarasminhamão e me pusero num caxão. Gente em alta escala pegaro a chorá. Me levareu pra igreja pru santo me recumendá. Me pusero um castecismo qui tava lá no artar. Rezaro só cinco minuto e cumeçaro a retirá. Tava chegano a hora do povão me sepurtá. Acordei nessa hora, gritei minha Nossa Senhora e garrei a chorar...”
Chorar, sim, Anna Patrícia, de saudade. Saudade de seu avô Zezinho e de sua viola de dez cordas. Saudade de seus doces acordes sertanejos que ainda ressonam no lindo luar de Montes Claros e continuarão a me fazer feliz e a embalar meus sonhos pelo resto de minha vida.


56868
Por Augusto Vieira - 5/4/2010 09:35:33
PEDOFILIA

A prática da pedofilia por religiosos é muito antiga. Só que sempre se pôs pano quente nela, até porque os criminosos confessam os atos libidinosos a seus colegas, obtêm perdão e cumprem penitências, na esperança de encontrarem o caminho de suas redenções.
A gravidade maior do problema reside nas infelizes e inocentes vítimas, porque carregarão dentro delas, enquanto viverem, indelével chaga.
Houve, sim, omissão da Igreja Católica, já assumida por muitos de seus membros, no combate à pedofilia praticada por clérigos, o que fez com que o caso assumisse as atuais proporções. Estamos aguardando enérgicas providências do Vaticano, sem prejuízo das ações cabíveis na justiça comum, com punições severas aos autores dos crimes e ressarcimento dos danos morais às suas infelizes vítimas.
A continuar essa imperdoável omissão, qualquer hora um pedófilo baterá às portas do céu só porque soube que lá reside um tal de Menino Jesus...

PS. Para Carmem (MS56864). Sua mensagem mostra que você está ansiosa para que o Brasil comece em 2010. Só que depois da Semana Santa vêm a Copa do Mundo e as eleições, essas certamente com segundo turno nas proximidades do mês do Natal.


56780
Por Augusto Vieira - 1/4/2010 03:15:45
“JORNAL DE MONSCLARO DE HOOOJJ!!!”

Tomava uns chopes no ex-Bar Brasil com Paulinho Pedra Azul e Beto Guedes. De repente Beto nos surpreende, quase cantando, com as seguintes palavras: “Jornal de Monsclaro de hooojj!!!” Claro que logo entendi o que ele estava relembrando. Era do musical grito, indelével em nossas memórias, dos meninos que saíam a vender o “Jornal de Montes Claros”, tão logo a edição ficava pronta. Grito de crianças felizes porque ganhariam uns trocados para comprar refrigerantes, pipocas, balas-doces, quebra-queixos e picolés, ou para ajudar suas famílias. No anúncio omitiam a letras “t” e “e” e o último “esse” do substantivo composto Montes Claros, bem como a pronúncia da vogal “e” na segunda sílaba da palavra hoje, de modo que o brado juvenil ficava realmente como Beto o cantara: “Jornal de Monsclaro de hooojj!!!”
Logo depois Beto nos revelaria que, menino, pedira a Godô uns trocados, que lhe foram negados com a maior educação. Resoluto, fora à sede do “Jornal de Montes Claros”, pegara dez exemplares para vender e saíra gritando pelas ruas da cidade: “Jornal de Monsclaro de hooojj!!!” Foi tão legal o modo pelo qual ele reviveu essa sua faceta de ex-vendendor do “Mais Lido”, que, marmanjos, ficamos a cantar naquela mesa do calçadão do bar, qual meninos, para a perplexidade dos demais presentes, dos transeuntes e dos amigos que se acercavam de nós: “Jornal de Monsclaro de hooojj!!!” Paulinho Pedra Azul vaticinou que aquilo daria refrão para uma bela música. Concordei, no ato. Belo refrão, sim, meu caro Paulinho, que, até hoje, decorridos mais de vinte anos do fechamento do jornal, ainda ressona nos ouvidos da gente norte-mineira, nos quais ecoou por mais de trinta e oito anos. O “Mais Lido” não morreu. Continua vivo, principalmente nas pessoas de seu grande artífice, o mestre Oswaldo Antunes, e de seus escribas e demais servidores, espalhados por estes brasis, cultivando um jornalismo de alto nível, saboroso e ético, bebido em fonte tão límpida.


56701
Por Augusto Vieira - 29/3/2010 17:46:49
“QUINHENTO PRO CADÁVER!!!”

Era conhecido simplesmente por “Paulista”. Residia num barracão, no bequinho, ao lado da antiga fábrica, ali na Coronel Prates, perto da Santa Casa. Era paulista. Deve ter sofrido grande drama, porque vivia na mais absoluta solidão, amparado apenas, suponho, pela família de “seu” Meinardo, seu elegante e bondoso vizinho, que residia em frente à avenida. Seus cabelos, sedosos, eram cinzentos. Sua barba fechada, ponteada por fios embranquecidos, ora feita, ora por fazer, emoldurava um rosto fatigado e um olhar tenebroso. Fumava desbragadamente, ora cigarros, ora um cachimbo, e cuspia grosso. Seus dentes, escurecidos pela nicotina, eram grandes e pontiagudos. Sempre andava com um terno cinza, ora limpinho, ora sujo. Em certos dias, de lucidez, penso, limpava seu corpo, sua roupa e seus sapatos, para caminhar pelas ruas, usando uma gravata borboleta vermelha e um elegante chapéu cinza, relembrando o tempo em que fora feliz e saudável. Tinha uma doença crônica nas pernas. Seus passos eram milimétricos. Andava com o corpo inclinado para baixo. Gastava horas para fazer o percurso, de menos de um quilômetro, de seu barracão até antigo mercado da Praça Dr. Carlos. E a meninada, ao vê-lo passar, gritava, em coro, para irritá-lo: Quinhento pro Cadáver!!! E recebia de volta os mais requintados xingamentos daquele moribundo que mal conseguia se manter nas próprias pernas e erguer sua cabeça, especialmente nesses momentos de extrema ira. Com o tempo passou a usar uma bengala, o que impedia a garotada de aproximar-se de seu débil corpo para provocá-lo. Acredito ter sido um homem culto, trabalhador e de recursos, que deve ter perdido tudo e saído, por este mundão, à procura de paz, até chegar a minha aldeia, onde se fixou. Mas continuou carregando sua cruz, agora acrescida do peso da falta de misericórdia da criançada. Esse pobre homem marcou a vida de um menino, cujo coração ainda dói pela impiedade e que tem muita curiosidade em saber sua verdadeira história, antes que ela morra. História de um ser humano, que pode ser inspiradora de um grande romance. Meu caro “Quinhento pro Cadáver”, hoje, aos sessenta e cinco anos, aquele menino traquinas roga, ajoelhado e contrito, seu perdão. Que Deus o guarde!


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Por Augusto Vieira - 23/3/2010 11:15:43
OS JUÍZES E OS MAFIOSOS
Crônica publicada em 2005. Republico-a em solidariedade ao amigo, ex-aluno e colega de magistratura Isaias Caldeira Veloso.

A bem da verdade, muitos juízes já foram assassinados no Brasil. Se o juiz contrariava interesses de um poderoso de uma localidade, era contratado um pistoleiro para assassiná-lo. Lembro-me que, numa de minhas comarcas, circulou uma tabela dos pistoleiros. Cobravam quinhentos mil para matar juiz de direito; quatrocentos para promotor de justiça; trezentos para advogado, prefeito e delegado de polícia; duzentos para padre e cem para os demais
No exercício de minha magistratura fui ameaçado de morte. No meu caso, chegaram a praticar atos preparatórios. Estava indo a Belo Horizonte para me defender de falsas acusações, engendradas pelos “poderosos”, cujos interesses minhas decisões haviam contrariado. Fui seguido numa estrada por três carros que se revezavam. Não morri porque não perdi o controle da direção do carro e porque fui inteligente. Estacionei num posto de gasolina e apareceu um sujeito barbudo, que me chamou de doutor. Fui ao banheiro coletivo e ele me seguiu. Começamos a urinar, um ao lado do outro, e eu lhe perguntei como sabia que eu era doutor. Ele respondeu que sabia porque era soldado do Batalhão da Polícia Militar de Barão de Cocais. Retruquei, dizendo que era Juiz de Direito. Em seguida, menti ao desconhecido, comunicando-lhe que, naquela viagem, havia uma viatura da Polícia Federal, com dois policiais, de cinquenta em cinquenta quilômetros, inclusive naquele local, para me dar proteção até Belo Horizonte. Ele rapidamente se despediu e azulou, num fusquinha branco. Dei um tempo, recobrei a calma e as energias, e continuei a viagem. Quando retornei à Comarca, anunciei – pura invenção de meu instinto de defesa – que os que queriam tirar-me a vida, a partir daquele dia, teriam de me proteger, porque eu dera os nomes de todos à minha família e à Corregedoria de Justiça e, se alguém me matasse, eles seriam os primeiros suspeitos. Disse também que não era defunto sem choro, seguindo sábia orientação de meu fraterno amigo e ex-professor, o inesquecível Ariosvaldo de Campos Pires. Aí eles ficaram grilados e eu continuei, tranquilo, a distribuir minha justiça sem curvar-me à sua prepotência.
Agora, vemos, no Brasil, o crime organizado tentando aterrorizar juízes. Participei do IV Congresso Internacional de Magistrados, em Porto Alegre, em janeiro de 2005. Lá se encontrava também Danilo Campos, Juiz de Direito de Montes Claros. Tive o prazer de conhecer pessoalmente o juiz italiano Gherardo Colombo, um dos grandes desarticuladores (palavra não encontrada no Aurélio) da máfia. E ele me disse que, antes de atingi-la, tiveram de combater, com extremo vigor, seus tentáculos na estrutura do próprio Estado. Primeiro sanearam o Estado para, depois, combater o crime organizado.
À época, eu já pensava – e ainda penso – que a melhor solução para esse problema é o Judiciário democratizar-se, tornar-se um poder efetivamente do povo e não um conjunto hermético de semideuses humanos. O povo é que será seu maior guardião. O Judiciário tem é que se abrir, se escancarar para a cidadania e destruir suas mazelas, sem medo de ser feliz. Afinal, os julgamentos dos juízes são, antes de serem pessoais ou colegiados, atos praticados em nome dos titulares do poder que exercem: o povo. O dia que os mafiosos sentirem que a Justiça é o povo julgando, em nome da paz e da harmonia da sociedade, pensarão dez vezes antes de ameaçar, querer matar, ou mandar matar um Juiz. Sentirão também que o Poder Judiciário é, no mundo contemporâneo, a maior garantia de qualquer cidadão. Inclusive deles.


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Por Augusto Vieira - 23/3/2010 07:35:50
OS `MENINOS DO SANTOS"

Há jogadores de futebol que dizem, quando seus times ganham ou quando marcam um gol, terem sido abençoados pelo Senhor. Quando ouço suas entrevistas tenho vontade de perguntar-lhes o nome desse tal senhor de que tanto falam, porque tenho certeza que ele não pode ser Deus. O motivo? Ora, Deus é pai também dos jogadores do time que perdeu o jogo e do goleiro que tomou o gol. Ele seria muito injusto se não abençoasse igualmente todos os seus filhos. Por isso prefiro as coreografias dos "Meninos do Santos". Eles homenageiam a nutricionista e a psicóloga do clube, a Estátua da Liberdade, o Corcovado, os Pescadores, a memória de Ayrton Senna, o Cristo Redentor, enfim, reverenciam algo que escolhem nos momentos das comemorações, que têm sido muitos. Esses meninos estão resgatando o verdadeiro futebol brasileiro, sem essa medíocre, muitas vezes falsa e hipócrita pieguice dos que se pretendem os únicos escolhidos, prediletos e ungidos, os únicos abençoados por essa coisa que eles chamam de senhor. E podem notar que apenas os mais incultos desviam suas entrevistas para o outro mundo. Isso é porque têm dificuldade em se comunicar com o público e preferem, ao invés de se esforçarem e aprenderem, jogarem pra fora aqueles chavões religiosos, decorados e repetitivos, que jamais comoveriam a Deus.
Futebol não é guerra. É esporte. É competição sadia. Deveria ser norteado pela alegria, pela confraternização e pela ética. Mas os caras querem mesmo é ganhar tudo, a qualquer custo. O que importam são os fins, ainda que os meios sejam ilícitos. Deus já deve estar é de saco cheio com esses beócios e certamente vibrando com as coreografias e com os golaços dos "Meninos do Santos", que nunca se travestem em "Meninos do Santo"” ou "Meninos do Senhor".
Dunga, vê se leva pelos menos uns dois para a Copa da África. Pelo amor de Deus! Caia na real. Futebol brasileiro é, antes de tudo, arte. E é por isso que é o melhor do mundo. O que importa é jogar bonito e bem, com arte e lealdade. O resultado sempre será incerto em qualquer competição em que os contendores tenham quase o mesmo nível técnico. Futebol de resultados sempre foi conversa fiada. Pelo menos aqui no Brasil, onde a minha geração nunca consegue esquecer as seleções de 1958, 1970 e 1982.


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Por Augusto Vieira - 22/3/2010 07:35:36
DIA DA ELIMINAÇÃO DA DISCRIMINAÇÃO RACIAL

Ontem foi o Dia da Eliminação da Discriminação Racial. Temos, todos, penso, a mesma origem. Descendemos, todos, de um mesmo e único grupo de animais. Foram as condições ambientais que, durante séculos, tornaram os homens negros, brancos ou amarelados. A bola de fogo foi esfriando e as explosões a separaram em várias partes. O homem só pode ter vindo da água. Não seria possível a ele sobreviver em temperaturas tão elevadas como as da crosta terrestre, que foi esfriando, durante séculos, até que alguém deixou a vida aquática, como um feto, para conseguir sobreviver fora dela. Outros indivíduos fizeram o mesmo. Nos lugares onde o sol era mais inclemente suas peles tornaram-se escuras. Noutros locais amareladas. Nos locais mais frios, embraquecidas. Os olhos apertadinhos dos chineses, por exemplo, devem ter origem num período de insuportável claridade do sol. Habituaram-se, então, a cerrá-los, conforme a ocasião, para não se tornarem deficientes visuais.
Sob o prisma estético, há brancos, amarelos e negros horrorosos, como há brancos, amarelos e negros lindos, apesar do adágio "quem ama o feio, bonito lhe parece".
O problema foi a divisão do trabalho e a apropriação da riqueza coletiva por alguns indivíduos, que passaram a explorar o trabalho dos outros. A produção da riqueza deixou de ser coletiva. Surgiram as classes ou castas sociais. E com elas a escravidão, que perdura, até hoje, sob as mais variadas formas, embora as leis a proíbam.
A teoria marxista, compatível com a teoria da evolução de Sir Charles Darwin, defende que o homem se individua no processo humano essencial da produção de sua sobrevivência. Não é criado por um Deus extraterrestre ou universal. Parte da natureza e da sociedade humana concreta para chegar ao indivíduo. A economia é que é a base de tudo. Dela nascem, inclusive, os valores que denominamos morais: religião, direito, etc. Resumindo, para os marxistas seria assim: onde há natureza, há seres humanos; onde há seres humanos, há a necessidade de se produzir a sobrevivência (o único animal que necessita produzir para sobreviver é o homem) e onde há produção coletiva da vida, plasmam-se os indivíduos. Hoje, os marxistas modernos preocupam-se, e muito, em estabelecer uma teoria da personalidade compatível com sua doutrina (cf. Lucien Sève, Marxismo e a Teoria da Personalidade).
Toda discriminação, inclusive a racial, tem sua origem na exploração econômica do trabalho humano. Eu já vi, em Nova York, um americano branquelo abrir a porta de um Cadilac para um negro milionário, que desceu do carro fumando um imenso charuto. Esse milionário negro (exceção quase total da regra) certamente explorava o trabalho do branquelo, da mesma forma que os branquelos faziam com os negros. A questão é, pois, muito mais social do que se pensa. Na África do Sul dizem que o racismo acabou. Acabou nada. Continua nas relações sociais. Eles apenas harmonizaram a convivência de negros e brancos, num Estado colonizado por ingleses e que se tornou independente. O resto da África continua na miséria. Agora, recentemente, mais de quinhentas pessoas católicas foram massacradas por membros de uma tribo islâmica, em represália a violências anteriores cujos autores foram as atuais vítimas. Um ônibus de um time de futebol foi metralhado.
A discriminação racial não se elimina com um dia a ela dedicado. Há brancos, negros e amarelos racistas. Só será eliminada quando deixar de existir a exploração do trabalho humano, quando a riqueza se tornar verdadeiramente coletiva e todos contribuírem, para sua produção, de acordo com a capacidade de cada um. Sonho que pode ter-se tornado impossível. O que sei é que caráter não tem cor. Somos todos irmãos.


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Por Augusto Vieira - 12/3/2010 13:32:06
VELHICE É VIRTUDE

No dia 25 de fevereiro de 2010 completei 65 anos. Agora estou totalmente protegido pelo Estatuto do Idoso, e as pessoas mais jovens são obrigadas a me paparicar. Norberto Bobbio, em seu livro “O Tempo da Memória”, havia me ensinado a descer a escada com uma certa tranquilidade. Tenho meditado muito sobre a velhice. Cheguei lúcido, sem doença grave, tocando um pianozinho e um violãozinho de vez em quando, cantando as músicas que amo, cheio de bons amigos que sempre se lembram de mim e fazendo o que mais gosto, que é escrever.
O governo fez e inda faz as maiores injustiças comigo. Paguei INPS, até chegar ao teto máximo, como advogado e só deixei de fazê-lo quando assumi a magistratura. Aí me tornei beneficiário do IPSEMG, que é a previdência social de meu Estado. Contribuí regiamente em todo o período que exerci o cargo de juiz, descontado em folha. Depois que me aposentei continuaram descontando. Entrei na justiça e ganhei a ação. O precatório da restituição está noTJMG há mais de cinco anos para ser cumprido. Só que, pouco tempo depois de minha suada vitória judicial, voltaram a descontar, porque aprovaram uma emenda constitucional, que devolveu à previdência esse direito. Foi mais uma das injustiças perpetuadas através da lei. Administram mal os fundos previdenciários, desviam seus recursos para outras finalidades e depois oneram até os aposentados. E o Estado ainda me deve uma grana preta de parcelas de vencimentos que não me pagou quando eu estava na ativa. Como nunca liguei para dinheiro, vivo dentro de meus limites, o que para mim não é muito difícil, já que nunca tive grandes ambições. Contento-me com o necessário. E sempre acho que Deus me deu até mais do que mereço. Agora, eu que já não enfrentava filas desde os 60, não mais pago ônibus. Mas sou catrumano do Norte de Minas e, por conseguinte, estradeiro, que nem meu querido amigo e conterrâneo Charles Boa Vista. Mês que vem “Vou de trem pra Montes Claros”. Minha estrada tem dores e alegrias, é caminho longo, demorado e de curvas perigosas, mas é minha doce estrada.
Adoro conviver com pessoas jovens, especialmente meus três meus netos, e faço todo o possível para que eles gostem de minha companhia e suguem minha experiência, como eu sugo deles a pureza de alma, a esperança, o otimismo e a alegria de viver. Desdenhar do elo que liga juventude e senectude é muito perigoso, até para a identidade de uma nação. Os jovens são meu amanhã e eu sou o ontem deles.
Suponho que já superei a andropausa. Estou mais alegre e a esperança está voltando. Tive uma fase difícil. Era medo de morrer, de doença grave e outras coisas ruins. Era um tal de passar o filme da vida e me culpar inclementemente pelos fracassos, olvidando as conquistas. Era um pessimismo de dar dó. Um amigo até me disse, depois de uma conversa: - Bala, você "tadidadó"! De repente as coisas foram mudando e minha viagem ficou mais amena. Perdi o medo da morte. Vinicius de Moraes ensinou-me no poema “O Haver” que quando ela chegar, cerimoniosa, pensando ser uma antiga amante, será minha mais nova namorada. Estou ficando tão atrevido que arrisco a dizer que se ela for uma mulher gostosa levará de mim a maior cantada. E é assim que lá vou eu, na estrada, querendo ser criativo, querendo fazer coisas novas para não cair na mesmice. Até algumas loucuras.
Outro dia fui ao cinema num Shopping e pedi meia-entrada, dizendo que era idoso. A moça da bilheteria não acreditou e exigiu que eu lhe apresentasse a carteira de identidade. Respondi:
- Minha filha, não só vou lhe apresentar, mas vou lhe dar um beijo.
Que moral ela me deu quando, depois de examinar o documento, pediu desculpas e disse que eu aparentava ter 50 anos!
Ela não sabia que eu aprendera com Mário Quintana que velho é apenas aquele que é um ano mais velho do que eu e que velhice não é doença, é virtude.


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Por Augusto Vieira - 11/3/2010 21:13:43
ALPHEU GONÇALVES DE QUADROS

Era meu primo em segundo grau, porque sua mãe era irmã de minha avó materna. Tornou-se um dos maiores amigos de meu pai e fui, por longos anos, o herdeiro dessa grande amizade. Nosso santo combinava. Era um homem bonito, alto, elegante, de voz branda e extremamente culto. Humilde, não alardeava seus conhecimentos literários e suas virtudes profissionais. Grande médico, devo a ele a vida de minha mãe. A ele e a Dr. Fábio Ribeiro. Batíamos longos papos, em minha casa ou na dele, ou quando viajávamos em sua caminhonete com destino a alguma fazenda. Aparentemente sério, adorava dar boas e genuínas gargalhadas. Sempre de terno e meias cinzas, sapato marrom, camisa impecável e gravata borboleta vermelha, ou com seu blusão cáqui ou guarda-pó banco, camisa, calça e botinas de fazendeiro nas viagens pelas estradas empoeiradas, nas quais, muitas vezes, eu me tornava seu cuidadoso motorista. Menino, participei de suas campanhas políticas. Por três vezes foi Prefeito de minha aldeia e eu sentia o maior orgulho de ter aquele primo tão querido no comando da coisa pública. Tinha inigualável senso de justiça e não perseguia ninguém. Respeitava os adversários políticos de um modo reverente e agia com muita ética e serenidade nas questões que os envolvia. Nunca o vi abrir a boca para falar mal de alguém. Nas horas felizes sempre estava em minha casa. Nas tristes era o primeiro a chegar, perguntando se eu estava precisando de alguma coisa. O último almoço, um arroz com pequi e carne de sol, em minha casa da Irmã Beata, depois de minha separação, contou com sua honrosa presença. Fiquei uns tempos meio descontrolado e ele, semanalmente, me visitava para saber como estava minha vida. Quando adoeceu, com mais de 90 anos, eu estava judicando em Pirapora e sempre o visitava no casarão da Dr. Santos, ao lado do prédio onde funcionava “O Jornal de Montes Claros”. Ficava à beira de seu leito a bater os bons papos, relembrando coisas do passado e contando a ele as novidades. Sentia em seu semblante a alegria e um certo orgulho por me ver homem renovado e juiz de direito, depois do sofrimento. Ele gostava muito de mim e me desejava tudo de bom que o mundo poderia me ofertar. Eu também era assim em relação a ele. Tio Joãozinho e “Dindinha” Honorina tiveram um grande filho. “Dindinha” Helena Prates teve um grande marido. Suzana e Sônia tiveram um grande pai e eu tive um grande primamigo, por quem, até hoje, choro de saudade. Que homem maravilhoso foi esse Alpheu Gonçalves de Quadros!


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Por Augusto Vieira - 9/3/2010 01:14:11
CALIDOSCÓPIO

Em todos continentes a natureza responde tragicamente às nossas agressões. Milhares de vidas perdidas. Famílias desfeitas. E ainda vimos aqueles que procuraram se locupletar das tragédias. Meu Deus, até onde vai a ignorância, a insensatez e a insensibilidade?
Enquanto isso, nesse teatro macabro, acontece a festa do Oscar, bem no Dia Internacional da Mulher. E pela primeira vez, uma delas, a linda Kathryn Bigelow, ganhou o prêmio de melhor direção, e seu filme, que durou dez anos para ir às telas, o “Guerra ao Terror”, foi o vencedor, destronando o favorito “Avatar”, produção milionária, cinquenta vezes mais cara, puramente técnica, que nada acrescenta à cultura universal. Sandra Bullock recebeu o prêmio de melhor atriz, por sua atuação em “Um Sonho Impossível”. Ela é muito linda, competente e mereceu. Sinto que as coisas estão mudando na poderosa industria cinematográfica, que está se conscientizando de que o público está buscando muito mais qualidade nas produções. Essa meninada que vive jogando videogame na internet deve ter ficado irada com a derrota do moderno místicismo. Mas eu, dinossauro, me perdoem os jovens, achei ótimo. Gostei muito da premiação do argentino Juan José Campanella, por “O Segredo de seus Olhos”, escolhido o melhor filme estrangeiro. Orgulho latino-americano.
Enquanto isso um jogador de futebol morre, no Sudão, logo após sentir-se mal durante um jogo de um time dirigido pelo brasileiro Carbone, e um jovem craque de nosso futebol de salão, Robson Costa, também teve o mesmo destino, após dar um carrinho e uma lasca de madeira da quadra lhe perfurar o intestino. Quem serão os culpados? Não sei, mas que os há, há. E isso precisa ser apurado com o maior rigor. Está virando moda. É a saúde humana sendo preterida pela busca do sucesso e do lucro.
E enquanto isso, ainda, estoura mais um barraco do Imperador do Flamengo. Os dois Ronaldinhos e Adriano estão a comer o pão que o diabo amassou, correndo o risco de não serem convocados para disputar a Copa do Mundo que se realizará na África, daqui a três meses, onde um ônibus de um time de futebol foi metralhado e onde, ontem, estima-se que quinhentas pessoas foram massacradas, na Nigéria, pela madrugada, devido a um conflito religioso entre cristãos e mulçumanos. A Copa não será da África, mas da África do Sul, onde ainda impera um racismo dissimulado. E haverá riscos às vidas humanas. Podem crer. No caso dos três brasileiros, ouço pessoas dizendo que eles, meninos pobres, adquiriram fama e dinheiro e não estão sabendo lidar com isso, como se dignidade fosse privilégio apenas de quem tem um certo status econômico e uma certa posição na sociedade. Ora, há pobres muito mais dignos do que muita gente que não teve origem na pobreza. Brasília que o diga. Os gravatinhas letrados estão nos perturbando muito mais do que os três craques de futebol. O saudoso João Saldanha quando convocou Garrincha foi criticado, devido ao comportamento boêmio do jogador. E ele respondeu que não estava procurando marido pra sua filha, mas os melhores jogadores para integrarem nossa seleção. Acho que os três jovens precisam é de um pouco de paz para reencontrarem seus dotes atléticos e tentarem jogar o futebol que sabem. Não me venham com esse negócio de lições de moral. Normalmente quem faz isso está sentado no próprio rabo, num troninho muito vulgar. Deixem os caras viverem suas vidas privadas como acharem melhor. Eles não são animais e nem máquinas de jogar futebol. São seres humanos altamente sacrificados por um ambiente que lhes retira a alegria de viver. Estou do lado deles, ainda que não tenham condições de disputar a Copa. Suas liberdades pessoais valem muito mais do que seus sucessos e suas convocações por falsos moralistas que estão destruindo o verdadeiro futebol brasileiro, que era alegre e criativo e, hoje, está pragmático e tristonho.
E enquanto isso, finalmente, as mulheres ainda continuam levando porrada e seus salários no mercado de trabalho ainda são muito inferiores aos dos homens. Mas elas chegarão lá, com certeza. Só que ficarão carecas, engordarão e terão alguns problemas de saúde que nunca tiveram antes, quando eram sustentadas pelos marmanjos.
“C’est lá vie”.
Mundo cão!


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Por Augusto Vieira - 2/3/2010 13:15:56
Meu caro Alberto Sena. Sua crônica sobre Tião Boi é retrato fiel da personalidade de um dos mais festejados moquenhos, de saudosa memória. A Sapataria Nossa Senhora de Fátima ficava na Presidente Vargas, num cômodo que ele alugava de "Seu" Mundinho, avô de Paulinho "Cães". Ali nos reuníamos, sempre, para bons papos. Você lá, também. Sou citado como craque do futebol de salão. Quisera eu ser tão craque quanto você o é no jornalismo e na literatura. Muito obrigado pela referência. Foi um prazer vê-lo frequentando nosso Mural. Volte sempre. Um grande abraço.


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Por Augusto Vieira - 17/2/2010 02:28:35
ANTIGOS CARNAVAIS

Ah, que saudade de meus antigos carnavais! Eram, antes de tudo, samba no pé, pelas ruas e clubes das cidades. Todo mundo conhecia todo mundo. Hoje são multidões anônimas, emboladas em locais gigantescos. A estrela-d’alva, vênus soberana, guia dos navegantes, não mais é vista a fulgurar no céu, ofuscada por potentíssimos néons. O alegre pedido “ei, você aí, me dá um dinheiro aí”, foi substituído por “ei, você aí, me passa logo a carteira, o relógio e a corrente de ouro”. As letras das músicas não mais são românticas. Arlequim não mais chora na multidão pelo amor da Colombina. Por onde andam os pierrôs apaixonados? E as pastorinhas que cantavam na rua lindos versos de amor? Ah, que saudade dos lança-perfumes, que nos faziam gritar de prazer e perfumavam os ambientes! Foram substituídos por maconha, cocaína, craque e outras drogas mais modernas. E os confetes e as serpentinas? Onde andarão? A pista do samba é limpa por garis, para um novo desfile quase imediato. Não mais se dança carnaval, desfila-se. Agora é um convulsivo pula-pula sem fim. Um barulhão de arrebentar os tímpanos. Fortunas são investidas por pessoas que se encarregaram de explorar e ganhar dinheiro com a festa do povo, para mostrá-la, com roupagem nova, a curiosos turistas, em luxuosos camarotes e arquibancadas de cimento. O mundo inteiro assiste, nas telinhas, aos suntuosos desfiles. Mulheres lindas se exibem nuas para delírio do que agora se chama “galera” e teventes. Ah, que saudade dos tempos em que as estradas não ficavam congestionadas e que não se faziam estatísticas de acidentes! Hoje em dia, para mim, carnaval é só na televisão, com uma pipoquinha e uma cervejinha bem gelada! Mas até o romper da aurora, porque sou Mangueira, doente e da gema, há mais de meio século.


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Por Augusto Vieira - 20/1/2010 12:24:41
AUGUSTO GETÚLIO E DULCE SARMENTO – ETERNO AMOR
Dedicada a Haroldo Lívio

Toda a meninada da família a chamava de “tia” Dulce. Eu perguntava a meus pais porque ela era nossa “tia” sem ser irmã deles. Eles me respondiam que a gente podia também ter “tias” pelos laços do coração. Era uma das pessoas mais queridas e respeitadas por toda nossa família aquela mulher educadíssima, cheirosa, inteligente, virtuosa e musicista. Ela morava num sobradão, perto da Igreja da Matriz e eu sempre a visitava. Tomava-lhe a benção e quase sempre ela me preparava um pequeno lanche para, em seguida, irmos ao piano. Ensinou-me a dedilhar as primeiras teclas. Em pouco tempo eu já tocava com ela, a quatro mãos, aquela musiquinha famosa e popular, que chamávamos de “bife” (nosso popular dim-dim-dô-lá-lá), que Carmem Cavallaro executou tão bem no filme “Melodia Imortal”, interpretado por Tyrone Power, que eu chamava de “Tirone Pover”. Quando ela mudou-se para a rua Ângelo de Quadros, pertinho da entrada do campo do Ateneu, continuei a frequentar sua casa. Quase toda semana ela me brindava com seus toques ao piano. Depois foi minha professora de “Música”, na Escola Normal, no então curso ginasial. Minha e dos primos Jairo, Guigui e Joãozinho. E nos tratava com o maior carinho. Acho que todos lhe pedíamos a benção quando não estávamos junto aos colegas. Eu, tenho certeza, sempre o fazia.
Um belo dia descobri a causa. Ela e nosso tio Augusto Getúlio foram apaixonados um pelo outro e esse grande amor, não sei por que cargas d’água, não se consumou. Mas continuou regar a vida dos dois, que permaneceram solteirões até suas derradeiras viagens.
Hoje me pergunto como foi possível tão grande amor não se concretizar e não obtenho respostas. Talvez meus ascendentes saibam os porquês. Nunca os indaguei a respeito e nunca encontrei explicações. Seria porque os corações humanos teriam razões que a própria razão desconhece? Mas o fato é que todos os meninos da família sabíamos que rolava entre eles aquele grande amor, em pedaços que nunca se juntaram. Deve ter sido muito triste para eles essa situação. Nos almoços, jantares e festas da família sempre os víamos a conversar, reverencialmente, cerimoniosamente até, um demonstrando ao outro um respeito quase sacrossanto, embora não conseguissem disfarçar, em suas faces ruborizadas, a emoção que permeava seus encontros.
Ah, tia Dulce, ah, tio Augusto, que saudade de vocês dois! Como vocês eram bondosos, inteligentes e caridosos! Como eram bonitos! Suas caligrafias eram lindas. Vocês nos cobriam de gentilezas que muitas vezes nem merecíamos. Davam-nos bons conselhos. Ensinavam-nos a difícil e complicada arte de viver, em pinceladas magistrais. Devem estar caminhando juntos pelo firmamento. E devem ser estrelas de brilho muito especial. Aqui restou a saudade que o tempo jamais apagou. Obrigado, tia Dulce, por você ter existido e participado de minha vida. Eu te amarei sempre e você sempre será aquela tia querida, que conquistou meu coração menino. Há laços não consanguineos muitos mais significativos do que os hereditários. Ah, tia Dulce, se todos fossem iguais a você o mundo seria bem diferente: harmonioso, pacificado e bonito. Espero que você e meu tio Augusto Getúlio tenham conseguido romper as barreiras que os impediram de caminhar juntos por aqui. Que Deus os tenha!


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Por Augusto Vieira - 9/11/2009 03:04:47
ROBERTO ELÍSIO 70

Um de meus amigos mais espirituosos é Roberto Elísio de Castro Silva. Encontramo-nos sempre no “La Greppia” da rua da Bahia. Na mesa, por ele comandada, permanecem antigos boêmios da saudosa Gruta Metrópole. Alguns partiram (Neves e Viotti os mais recentes), mas muitos ainda continuam firmes, dentre eles Zé Bento Teixeira de Salles e Fausto Matta Machado. Já há um capítulo sobre essa turma maravilhosa em meu Bala 60 e em meu site, mas não resisti em deixar escritas algumas das mais recentes tiradas geniais de Roberto.
Ele só chega ao restaurante por volta das oito e meia da noite e sai por volta das onze e meia. Zé Bento chega por volta das sete e sai por volta das nove. São primos e muito amigos. Zé Bento, então, reclamou do pouco tempo que passava ao lado do primo naquele ambiente alegre, cercado de amigos. Encerrados seus educados e convincentes argumentos, arrematou:
– Roberto, você deveria chegar mais cedo.
Veio a resposta:
– Não, Zé Bento, você é que deveria sair mais tarde.
Um dia faleceu um nosso conhecido. Liguei a Roberto:
– Bob, vamos ao enterro? Se você quiser eu te pego em sua casa.
– Não, Gordo, não vou, não!
– Por que você não vai?
– Porque ele não irá ao meu.
Doutra feita, casa lotada, estávamos sentados em volta das duas mesas a nós reservadas. Uma linda moça vê uma cadeira vaga, aproxima-se de Roberto, põe suas delicadas mãos sobre o encosto, inclina suavemente o corpo em direção a ele, e pergunta suavemente:
– Meu senhor, por acaso essa cadeira tá vaga?
Resposta imediata:
– Está, sim. Pode sentar!
De outra vez, quase meia-noite, restando na mesa apenas ele e Fausto, restaurante com fila na entrada, uma elegante senhora, seguida por alguns casais mais jovens, perguntou a Roberto:
– O senhor vai demorar?
– Saio às onze e meia.
Ela mirou seu relógio de pulso e argumentou:
– Mas já são onze e quarenta.
E Roberto:
– Então eu já fui.
Claro que, cavalheiros, ele e Fausto pediram a conta e trataram de ceder as duas mesas à gentil dama e sua comitiva.
E é assim que se encontra esse grande jornalista Roberto Elísio de Castro Silva, nas suas 70 primaveras: inteligência fulgurante, escrita cada vez melhor, memória invejável, cheio de amor aos netos e sabedoria de quem já viveu mais de dois séculos. E que presença de espírito!


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Por Augusto Vieira - 5/11/2009 04:56:18
CAIM

Alvenaria!
Acabo de ler "Caim", do grande José Saramago. Estou pasmo. Decidi escrever estas linhas sem rascunho, expressando com honestidade o que me viesse à cabeça, certo ou errado. Sei me situar muito bem entre os sedentos de aprender, consciente de que nada sei.
Sinceramente, o livro, muito gostoso de se ler, pareceu-me uma "apelação", nunca feita na História. Nem Karl Marx, nem os comunistas de seu tempo e posteriores, foram tão cruéis com o Velho Testamento. Marx, ao contrário, o estudou a fundo, sociologicamente falando. O mesmo fez e ainda faz Fidel, nos tempos modernos.
É muito fácil esculhambar o Velho Testamento. Basta não examiná-lo sob o prisma histórico e sociológico. Difícil seria fazer isso com o Novo, onde a figura luminosa de Jesus se sobreporia a qualquer baixaria que, porventura, alguém quisesse fazer.
Saramago se revela até anti-semita, em franco desrespeito a milhares de judeus socialistas e comunistas dos dias atuais. Escrevendo dessa forma desrespeitosa, ele está a fazer justamente o jogo de igrejas reacionárias e conservadoras, sedentas de mais um motivo para explorar a ignorância e a boa-fé do povo, da mesma forma que os fanáticos fundamentalistas adoram proibir um livro e condenar à morte um escritor que critica suas atitudes desumanas em nome do Alcorão. Sua abordagem, certamente, fomentará novas pequenas inquisições. Quantos crimes em Teu nome!
Saramago cria um Caim, errático como o da Bíblia, só que atemporal, participando de movimentos da História, anteriores e posteriores a ele, para criticar a chamada "justiça divina". Só para dar um exemplo, dentre os vários que a obra nos apresenta: Noé, completamente bêbado, tem o rabo comido por um de seus filhos e Caim, o grande garanhão da História, lhe come a esposa e as noras, para depois lhe matar os filhos, a esposa e as noras, com o objetivo de, ancorada a arca, depois de Noé, frustrado, suicidar-se, soltos os animais chamados irracionais, encontrar-se com "deus" e vingar sua condenação por ter matado o irmão (que seria filho de Eva com um anjo), certo de ter eliminado qualquer possibilidade de continuação da espécie chamada humana, qualquer possibilidade da construção de um mundo pós-diluvial, que seria tão desastroso como aquele que fora destruído pelas águas.
Pergunto, no campo do imaginário, da ficção: não poderia Deus, então, criar uma nova Eva? E assim perpetuaria nossa espécie e ainda livraria o garanhão Caim de papar a própria mamãe...
Precisava disso tudo, grande lusitano, para criticar a "justiça divina", especialmente em Sodoma e Gomorra, com base na morte, dentre os atingidos pela "ira divina", de criancinhas inocentes?
É meu caro Saramago, desta vez acho que você escrachou. Extrapolou os limites.
Mas valeu a pena te ler mais uma vez! Sem censuras! Apenas abismado e perplexo.
Os terroristas do 11 de setembro atrasaram em mais de um século nossa revolução! Entregaram o ouro para os bandidos!
Você poderá estar a fazer o mesmo com esse seu "Caim". Ou não?
Estou aguardando seu novo livro, já anunciado, sobre a corrida armamentista, ciente de que o norte-americano Fred J. Cook já nos brindou, nos anos sessenta, do século passado, com "O Estado Militarista".
Vamos em frente! A caminhada é muito longa, bem mais longa que a de seu Caim!


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Por Augusto Vieira - 30/10/2009 17:08:30
O PRIMEIRO LIVRO DE LIPA XAVIER

Antes de começar a leitura de “Os Olhos Tristes de Ulisses”, imaginei que me depararia com algo que tivesse relação com o comandante das tropas gregas na guerra de Tróia, tão decantado por Homero. Só que o Ulisses, ou Odisseu, de Homero, em Lipa Xavier, nada mais é do que senão um belo cão, velho de muitos anos, cego e surdo, maior de todos do terreiro de Zé Bento e D. Dizinha. Cão de um lugar onde “nomear cachorros não ia além da miuçalha”. Cão que velaria o sono do viajante por quatro dias e nunca mais lhe sairia da cabeça, simplesmente porque na tristeza de seu olhar, ele enxergaria a própria. Quem sabe esses olhos tristes de Ulisses seriam os do próprio autor ante as injustiças sociais por ele tão combatidas?
Conhecemos de perto e há muito tempo esse brejeiro-moquenho Lipa Xavier, grande homem público de nossa aldeia, através de sua atuação na política, sua primeira paixão. Agora ele nos revela a segunda: a literatura. Que achado para nossas letras!
Os contos, em estilo próprio, bem sertanejo e erudito – fui cinco vezes ao Aurélio durante a leitura – são a expressão mais pura de uma alma catrumana cantando suas origens, suas andanças, seu encanto pela mãe natureza (especialmente a de sua região) e sua fé na solidariedade humana, tão ausente de nossas vidas marcadas pelo individualismo e pela hipocrisia. Lipa, na verdade, nas páginas do livro, romanticosertanejamente, rosianamente, aborda questões fundamentais da existência e do convívio humanos.
Belíssima obra, fadada a ganhar prêmios, esses “Olhos Tristes de Ulisses”. Vá em frente, Lipa Xavier! Seu ofertório literário, tenho certeza, é muito mais vasto!


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Por Augusto Vieira - 17/9/2009 16:06:40
O CRUZAMENTO DO CACHORRINHO

Vocês conhecem bem, é claro, aqueles cãezinhos chatos, minúsculos, metidos a valente que ficam latindo pra gente e mordendo as barras das calças dos homens e das saias das mulheres. Como são barulhentos! Babam e expõem aqueles minúsculos dentes afiados, parecendo querer nos engolir. São de várias raças, mas há uma delas em que o cão é marronzinho, com os pelos quase colados à pele. Um colega meu, de saudosa memória, Eduardo Cerqueira Lage, depois de ser incomodado por um deles por mais de uma hora, não resistiu. Pegou o infeliz por uma das patas, levou-a até a boca e deu-lhe uma senhora dentada na perninha. Depois me contou:
— Bala, que alívio! O sacaninha me via e saía a cem quilômetros por hora para se esconder. Nunca mais me encheu o saco.
Contaram-me que Saul, centroavante do Cassimiro de Abreu, participava de um jogo num distrito do município. O campo era de terra e não havia lugar para o público, que era isolado dos atletas apenas por uma corda, sustentada nos quatro lados e na parte central pelos próprios policiais encarregados da segurança. Havia um tocedor chatíssimo segurando um desses cãezinhos por uma coleira. Qualquer atacante que chegasse à linha lateral do campo ele xingava dos mais variados nomes feios. E, como se isso não bastasse, ainda instigava o animalzinho a investir contra o atleta. Saul já tinha sido provocado várias vezes. Numa delas o cãozinho lhe rasgara o meião da perna esquerda. Na última vez Saul conduzia a bola pela lateral e o torcedor se esmerava nas ofensas e ameaças com o animaleco. Um colega de equipe correu para a área e gritou:
— Cruza! Cruza! Cruza!
Saul chegou com a bola bem perto do corpo do cãozito, deixou que ela corresse para a linha de fundo e simplesmente cruzou-o, com coleira e tudo o mais, fazendo-o desgarrar-se das mãos do dono. O cachorrinho voou que nem um pássaro e foi parar na pequena área, exatamente na cabeça do atacante que pedira a bola. E não é que este ainda cabeceou aquele bolinho de carne viva marrom para dentro do gol e saiu comemorando?
Felizmente o animal não morreu. Sofreu apenas algumas graves escoriações. Nunca mais quis ir a campos de futebol com aquele dono cricri.


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Por Augusto Vieira - 3/8/2009 17:13:13
CAFÉ GALO

Montes Claros, minha querida terra natal, que muitos chamam de MOC – sigla criada e divulgada no mundo inteiro por seu filho mais ilustre, Darcy Ribeiro –, já tem mais de quatrocentos mil habitantes.
Quando vou lá, meu ponto predileto é o Café Galo. O atual proprietário é meu amigo Jadir. O fundador foi “seu” Augusto, há mais de 50 anos. Fica na esquina das ruas Simeão Ribeiro e Governador Valadares, num quarteirão fechado, onde encontramos até banquinhos para bater bons papos. É uma das mais significativas referências culturais de MOC. A gente tem a impressão de que todos se sentem na obrigação de por ali passar diariamente. Em suas paredes estão espalhadas fotos emolduradas de personalidades que visitam a cidade. Há também um imenso mural com fotos de inúmeros freqüentadores.
Gosto muito de reencontrar com amigos da velha guarda, dentre eles, Geraldinho Alcântara, Geraldo Mundial, Márcio Milo, Danilo Macedo, Tico Lopes, Zé Luiz Rodrigues, Ronaldo José de Almeida, Itaumary Telles, Arnaldo Azevedo, Haroldo e Fernando Lívio, Luís Novaes, Jorge Silveira, Nonato Pampa, Zé Maria, Felipe Gabrich, Reginauro Silva, Maçarico, Pancho Silveira, Gegê Gomes, Nicomedes Almeida e Helton Veloso.
No Café Galo estouram notícias quentes, sabe-se das coisas que acontecerão e comenta-se as acontecidas, lançam-se livros e candidaturas, leem-se jornais, faz-se caridade, sabe-se quem adoeceu e quem morreu ou driblou a morte, compram-se loterias, discute-se política, sente-se saudade e relembra-se de amigos que já partiram, cujas memórias jamais se apagarão de nossas mentes. Ali, enfim, sente-se o pulsar do coração e o esplendor da alma de minha aldeia.


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Por Augusto Vieira - 6/7/2009 05:36:18
PEDRO SANTOS

Eu o conheci na casa de meus pais, na rua Presidente Vargas, em minha infância. Vi aquele homem alto, magro, corpo atlético, vestido todo de branco, com sapatos também brancos. Disseram-me que usava aquela roupa porque era médico. Sempre sorridente, brincou comigo, o que me envaideceu, porque, normalmente, os grandões não davam muito papo para crianças.
Depois minha mãe me disse que ele nascera em Brasília de Minas, que sua família se mudara para nossa aldeia e que se formara em Medicina, no Rio de Janeiro. Orgulhosa, contava ter feito a primeira faxina na casa que ele residiria, quando voltara da Cidade Maravilhosa, casado com D. Sílvia, mulher finíssima e grande pianista. Essa casa se localizava na Dr. Veloso com D. Pedro II, em frente à de meus avós maternos. Mostrou-me até uma foto de sua formatura, que guardava num álbum de família.
Em minha juventude, quando fazia o curso ginasial, vi-o jogando futebol no campo do Ateneu. O muro do quintal de sua nova residência, onde tinha também seu consultório, fazia divisa com o do estádio. Seu filho, Jorge Antônio Santos, o Tone Santos, era craque no futebol, jogando no meio de campo, e eu já me tornara seu fã incondicional. Parecia um Didi ou um Gérson fazendo aqueles longos lançamentos e deixando os atacantes na cara dos goleiros. Chutava bem e muito forte. Depois, já bacharel em Direito, Tone casou-se com Leninha, minha prima, filha de tia Lila, irmã de meu pai, o que me encheu de alegria, pelo fato de receber um grande amigo em minha própria família.
Vi, por duas vezes, “Pedrão” ser eleito nosso Prefeito Municipal. A política daria a nossa aldeia um de seus maiores líderes, que o povo, carinhosamente, sempre carregava nos braços. Num de seus mandatos nomeou-me presidente de uma comissão de cidadãos para apurar irregularidades que teriam ocorrido na Prefeitura, denunciadas pela imprensa. Eu sempre dizia que “Pedrão” era um INPS da pobreza. Pura verdade. Jamais vi médico tão caridoso. Cuidava mais do semelhante, especialmente dos pobres, do que de si próprio. Não deixava ninguém sem o devido amparo. Seu imenso prestígio político conquistou outras plagas, na região e em todo o país. Era o bom de votos. “Ferrava”, nas urnas, seus adversários, que nem marimbondo, inseto este tornou-se símbolo de suas vitoriosas campanhas.
Quando meu pai faleceu, abri seu cofre e encontrei, em antigos documentos, uma nota promissória assinada por “Pedrão”, em branco. Liguei a ele. Simplesmente me disse que a cambial deveria ser representativa de algum negócio que os dois teriam feito, há muito tempo, e que ele poderia tê-la entregue a meu pai como garantia. Pediu-me que a rasgasse, o que fiz, prontamente. Pedro Santos era assim. Não ligava para formalidades. Um fio de sua barba e a palavra dada eram muito mais idôneos do que quaisquer outras formas de celebrar e honrar compromissos.
Certa feita ele não gostou de uma entrevista que dei a Reginauro Silva, num jornal tipo mural, que era publicado em vários locais da cidade. Dissera que, embora tivéssemos em sua pessoa nosso ás da política, chegara a hora da abertura de espaços aos mais jovens. Ele não gostou e respondeu, enfático, criticando minha presunção. Nossa grande amizade, no entanto, não se abalaria. Em nosso primeiro encontro, após o entrevero, nos cumprimentamos e nos abraçamos alegremente, como sempre fazíamos.
“Pedrão” faz muita falta a minha aldeia. Certamente Deus está recompensando sua imensa bondade, seu inigualável desprendimento e seu extremo amor ao próximo. Se os russos tiveram, no século XVIII, Pedro, o Grande, tivemos, no século XX, nosso Grande “Pedrão”.


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Por Augusto Vieira - 8/6/2009 19:10:47
PATOÁS DE MINHA ALDEIA

Vocês podem também dizer moquês, moquenhês, montesclarinês, ou qualquer outro nome, mas o fato é que em minha aldeia, a gostosa e aprazível Montes Claros, centro econômico e cultural do vasto norte destas Minas, tão várias e gerais, desde menino, convivi com palavras e expressões que integram o que poderíamos chamar um dialeto montes-clarense. Elas constituem nosso patoá.
Quando alguém, por exemplo, matava uma charada ou desvendava uma trama, logo exclamávamos “ara tchara”. A origem? Por mais que eu pesquise não encontro. “Ara” poderia ser deformação da interjeição “ora”, e “tchara”, do substantivo “tiara”, que é, dentre outras coisas, a mitra papal. Assim, suponho, quando exclamávamos esta expressão, poderíamos estar dando uma gozaçãozinha, de leve, em nosso interlocutor, mostrando a facilidade com que descobríramos a solução de um problema que ele nos apresentara jactanciosamente, com pose de soberano, certo de que não a encontraríamos. Ora seu posudo, essa foi mole pra nós! Quando o cara acreditava mesmo ser o maioral, ainda arrematávamos, ironicamente: ele é “crente” que é o maioral!
“Bilóia”, que não encontrei em meus dicionários, era o buraquinho que fazíamos na terra para jogar bolinhas de gude. Suponho que a origem é goiana, pois lá havia um antigo jogo chamado biloca, em que os contendores, usando o polegar e o indicador, atiravam botões num buraquinho.
“De araque” significa mentira, ou melhor, “de mentira”. Até escrevi uma crônica com esse título, relembrando Waldir Durães, num jogo de futebol do Ateneu, quando ele gritou a Guarinello que corresse, dando a entender que lhe lançaria a bola e, ao invés disso, desferiu, da intermediária, potente chute, no ângulo do gol adversário. Guarinello, ao invés de xingá-lo, surpreso, parou e o abraçou, ouvindo os gritos comemorativos da fanática torcida. Waldir apenas sorriu e disse: – Era “de araque”, Guá!
“Ribuço” é cobertor. Creio que vem de “riba”, que é palavra consagrada em dicionários e significa, dentre outras coisas, a margem alta do rios e também a parte mais elevada, a parte de cima das coisas. Aqui há muita lógica, pois os cobertores ficam por cima dos corpos humanos, protegendo-os do frio.
“Quidialas” é palavra integrante do “latinorum catrumano” e revela certo pedantismo de quem a pronuncia no contexto de uma fala. A pessoa pensa ser chique dizê-la, ao invés do clássico advérbio “aliás”.
E assim, aos montões, há muitas outras palavras e expressões que encontramos nessa nossa imensa e culta tribo norte-mineira, de que minha aldeia é o grande expoente cultural. Apenas ofereço, aqui, ao caro leitor, um “mote”.

EM TEMPO: Quero mandar um grande abraço a meu primo Rodrigo Vieira Gomes, que está colando grau em Medicina, pela Universidade Estadual de Montes Claros. Abraço também a seus pais, meus queridos Pedrinho e Lilia.


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Por Augusto Vieira - 1/5/2009 15:41:15
A GRIPE É SUÍNA, SIM!
O mundo está sendo vítima de um vírus cuja fonte é um criatório de porcos localizado em La Gloria, cidadezinha do distrito de Perote, do México. Lá funciona a empresa multinacional Smithfield Foods, dona das Granjas Carrol, que produz mais de l milhão de porcos por ano. Essa empresa foi expulsa dos Estados da Virgínia e da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, por danos ambientais. A fonte do vírus é o imenso criatório de porcos. As fezes e a urina dos animais são depositadas em tanques de oxidação, a céu aberto, que poluem o subsolo e, por conseguinte, os riachos e os lençóis freáticos da região. Nuvens de moscas se reproduzem na superfície desses tanques. A primeira vítima foi o menino Edgar Hernandéz. A OMS (Organização Mundial de Saúde) mudou o nome da gripe para Gripe-A, o que certamente desviará a opinião pública mundial da verdadeira causa de uma provável epidemia, que poderá causar terríveis danos à humanidade.
Bons tempos aqueles em que os criatórios de porcos não existiam em escalas industriais e em que os chiqueiros das propriedades rurais individuais eram o habitat desses animais, que eram alimentados por produtos da própria natureza – em minha aldeia o usual era alimentá-los com a chamada lavagem. Eles não sofriam mutações genéticas e não usavam medicamentos que tornavam seus organismos resistentes às viroses.
Ah, que saudade de um lombinho assado, daquele marronzinho por fora e branquinho por dentro!


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Por Augusto Vieira - 23/4/2009 17:45:31
Se algum desrespeito inicial houve foi do Presidente do STF a seu membro Joaquim Barbosa. Basta ver o vídeo com atenção. E durante a discussão o presidente foi até racista ao insinuar que Joaquim Barbosa julgava por classe. Aí veio uma reação mais contundente do ofendido. Depois entraram os bombeiros e propuseram suspender a sessão, o que foi acatado pela presidência. Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Impressionante como a mídia inverte os fatos e tenta colocar o Ministro Joaquim Barbosa como a ovelha negra do lamentável espisódio. Sua reação simplesmente, como em outras ocasiões, foi à altura do desrespeito que sofreu.
Há muito, defendo e escrevi em meu livro Judiciário e Cidadania, que os ministros do STF deveriam ser eleitos pelo povo, para mandatos temporários. Já passou da hora de democratizar a cúpula de nosso judiciário. E que não venham me dizer, mais uma vez, que a Suprema Corte norte-americana serve de exemplo como tribunal de cúpula não escolhido pelo povo...


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Por Augusto Vieira - 13/4/2009 09:33:07
O BIODISEL DE MINHA ALDEIA

Eu me pergunto: por que os que, agora, depois da inauguração, criticam a instalação da indústria de biodisel em minha aldeia não o fizeram antes? Acho que o governo federal tem muita gente competente nesta área e não seria irresponsável a ponto de fazer um investimento tão elevado para ser improdutivo. Não acredito muito nesse pessoal que agora critica. Podem, suponho, estar a serviço de outros interesses econômicos, até transnacionais, que não o da nossa preservação ambiental, que é a substituição das fontes de energia poluentes por outras mais adequadas à vida humana. Na verdade, tenho é orgulho dessa nova fábrica de minha aldeia, que dará emprego a muitos conterrâneos e atrairá muita riqueza para nossa região, dotada de mão de obra e matérias primas adequadas ao desenvolvimento da empresa. Só espero que a nova indústria não explore o trabalho humano. Gostaria de ouvir também os técnicos do governo, o que faria também com o mesmo espírito crítico com que ouvi os primeiros. A verdade é que adquiri muito medo de técnicos. Tecnocratas, então, nem falar! Só para exemplificar: disseram, anos e anos, que o ovo tinha mau colesterol. Depois voltaram atrás e afirmaram que o colesterol do ovo era bom. Ficamos, tempão, com medo de comer ovos fritos. Luis Fernando Veríssimo até escreveu, numa crônica, que processaria quem o havia privado, por tanto tempo, do prazer de comer esse que é um de seus pratos prediletos. Esse pessoal técnico sempre deve ser ouvido por nós, os chamados leigos, criticamente. Devemos fazer a crítica da crítica de seus pensamentos. Quanto a mim, orgulhoso aldeão, torcerei para que nossa indústria de biodisel dê certo e tenha um futuro promissor, para o bem de minha aldeia e desta imensa tribo brasileira.


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Por Augusto Vieira - 9/4/2009 09:11:49
VIAGRA ESTATAL

Como de costume, abri, pela internet, meus jornais prediletos para ficar por dentro, no dia de hoje, das coisas que estão a acontecer neste nosso desvairado mundo. Encontrei duas notícias que dizem respeito à sexualidade: a produção de um “viagra estatal” e de um spray que prolonga o tempo da relação sexual, evitando a ejaculação precoce. O viagra sairá em breve. O spray ainda demora um pouquinho.
A primeira notícia chamou especialmente minha atenção, porque foi o próprio Ministério da Saúde que encomendou a produção a um laboratório, e o genérico deve sair brevemente, ao custo de até dez reais, bem mais barato do que os “viagramidos” do mercado. Foi então que me lembrei, mais uma vez, com saudade, de meu velho amigo Manuelzão. Pouco antes de seu desencantamento perguntei-lhe se seu “negócio” ainda estava subindo e veio, de estalo, a espirituosa resposta de sempre: — “ponha uma menina bonita, nova e carinhosa nos peitos do “véio” procê ver. Quebro a fábrica desse tal de viagra.” E o eterno vaqueiro rosiano tinha toda razão. A coisa mais broxante deste mundo é mulher feia, sem educação e ensebada, daquelas que em minha aldeia, Montes Claros, costumamos tratar por “sá corna”, “sá xibunga” e “sá viada”.
Foi então que me perguntei: o que o Estado tem a ver com o desempenho sexual das pessoas? Encontrei uma explicação plausível. Ele, que vive a nos broxar, com sua insaciável sede tributária, com as constantes falcatruas com nosso dinheiro e com o desperdício dele em mordomias e gastos desnecessários, ao pedir a produção de um “viagra estatal”, deve estar querendo redimir-se do estrago que já fez em nossas sexualidades. Imaginem a hora que chegar o tal spray. Possivelmente será um “spray estatal”, não mais contra a broxura, mas para prolongar nosso prazer sexual. Só me resta imaginar que se trata, no caso, de mais uma flagrante confissão de culpa do rei dos pecadores.


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Por Augusto Vieira - 7/4/2009 05:51:16
LEITE DERRAMADO

De que adianta a alguém chorar o leite derramado? Não escolhemos a maneira pela qual, como dizem os baianos, estreamos neste mundo, mas podemos escolher o que fazer de nossas vidas. Chico Buarque nos mostra, em seu quarto livro propriamente dito – porque sua obra literária, anterior a eles, é muito vasta –, a saga de uma família brasileira tradicional, narrada por um centenário doente terminal de sua quarta geração. E com ele percorre boa parte de nossa história e de nosso mundo, em vários matizes. Sim, percorre a história dos rotulados ou não bem nascidos, até porque berços não se rotulam. Quantos Lalinhos estão por aí, inclusive em miséria material, a, orgulhosamente, relembrar e retirar vida de velhos tempos de bonança e de amores perdidos?
Ao escrevermos, é claro, somos influenciados por tudo o que já lemos e vivemos. Não me venham, portanto, rotular Chico Buarque de machadiano ou do que quer que seja. Ele é genuíno. Acaso Machado de Assis também não foi acusado de não ter sido original? A genialidade de Chico Buarque aflora literariamente, numa linguagem própria, escorreita e atual, derramando psicologia, filosofia e sociologia, aos montões, em quase duzentas páginas de mais pura arte, reveladoras de exacerbado humanismo. Que me perdoem alguns críticos reacionários e algumas viúvas de esquecidas ditaduras, quando enxergaram em Leite Derramado um certo esquerdismo. Estão, como sempre, por fora. Eles, sim, impregnados de direitismo, criticam ideologicamente, afastando-se da essência da obra. Ressalte-se, finalmente, a belíssima capa, a excelente composição gráfica e a divisão das páginas do livro em capítulos, quase todos de mesmo tamanho, à exceção dos dois últimos, só um pouquinho mais extensos, o que torna mais prazerosa, ainda, a leitura.
Meu caro Chico Buarque, aguardo o próximo, que ainda não li e já gostei.


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Por Augusto Vieira - 6/4/2009 21:05:23
FOLHA DO FUMO NA CURA DA AIDS

Pesquisadores da Universidade de Louisville (USA) descobriram que a planta nicotiana benthamiana, parenta da folha do tabaco, é biofábrica para a produção da proteína griffithsina, encontrada na alga vermelha griffitsia e que funciona como um microbicida contra o HIV.
A equipe do Dr. Kenneth Palmer modificou o vírus conhecido como “mosaico do tabaco” (aquele que faz com que as folhas da planta do fumo percam seu verdor) nele incorporando o gene da griffithsina, o que fez com que a planta produzisse cerca de cem mil doses de um microbicida, uma espécie de gel, que mata o HIV quando ele tenta entrar no organismo humano.
É a velha e consagrada prática de encontrar a cura das doenças na própria natureza, onde estão as grandes fábricas biológicas, cujos custos de produção são infinitamente menores do que as das construídas pelo homem.
Interessante notar que a grande mídia, que se sustenta pelos anúncios das transnacionais empresas farmacológicas, não deu a devida ênfase a essa descoberta científica. O único artigo que li sobre a matéria foi no blog de Nurit Bensusan, que é hospedado pelo site do jornal “O Globo”, no mês de março de 2009. Já escrevi muito sobre esse assunto e continuo achando que, há muito tempo, já poderíamos estar considerando a AIDS como um mal antigo, de tristes recordações. No entanto, primeiro as multinacionais tem que desovar estoques de remédios e recuperar investimentos que fizeram em pesquisas e medicamentos para combater essa malsinada síndrome de imunodeficiência adquirida, cujo vírus foi isolado, pela primeira vez, em 1983, pela equipe do médico francês Luc Montagnier, no Instituto Pasteur, de Paris.
Quando chegará o dia em que a vida será mais importante que o capital?


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Por Augusto Vieira - 10/3/2009 15:09:53
RONALDINHO, O CARIOCA

No dia Internacional da Mulher, 8 de março de 2009, o Brasil inteiro torceu para que um atleta marcasse um gol, num clássico. Todos, ou quase todos, esquecemos as cores de nossos times simplesmente pelo prazer de ver aquele atleta, pela terceira vez, dar a volta por cima e vencer adversidades quase intransponíveis, causadas por graves contusões em seus dois joelhos. E tudo aconteceu, num momento mágico, no último minuto do clássico. Veio finalmente o gol, de cabeça, que salvou seu time de uma derrota e fez vibrar quase todos os amantes do futebol, não só pelo Brasil, mas também pelo mundo afora. Ele estava de volta, em quase toda sua plenitude, aos gramados, levando alegria a milhares de pessoas. Bem antes, durante a Copa de 2008, dediquei-lhe as palavras que ora transcrevo:
Naveguei pelos jornais do mundo e constatei que o grande assunto de ontem foi Ronaldo Nazário, a quem nunca deixei de tratar por Ronaldinho. Estou cada vez mais convencido de que seu problema é, antes de tudo, de natureza psicológica. Se ele fosse bem orientado, desde o início da brilhante carreira, jamais aceitaria o epíteto de “Fenômeno”, ou ser esportivamente tratado simplesmente por seu nome, Ronaldo. Afinal, ele, um jovem carioca, alegre e humilde, já era consagrado esportivamente com o carinhoso nome profissional Ronaldinho. Era um dos xodós do Brasil. O nome era marca registrada, direito adquirido. Aí, então, estourou um outro Ronaldo, o gaúcho. Barbaramente tiraram do carioca o carinhoso diminutivo. Foi muita sacanagem da maliciosa mídia. Que chamassem o gaúcho, que surgia, também de Ronaldinho, tudo bem, mas que não mudassem o amável tratamento que já era dispensado ao consagrado craque homônimo. Perdas psicológicas desse jaez afetam a mente de qualquer pessoa normal. Depois dessa, Ronaldinho ainda sofreu grave contusão. Joelho não é mole não, minha gente. Reinaldo Lima que o diga. Também tenho um estourado e sei o que é. A lesão fica também na cabeça da gente, se formos simplesmente humanos e não super-homens. E Ronaldinho foi grandioso ao vencer a adversidade e se tornar o maior jogador e artilheiro da Copa asiática, sob o comando de Felipão, durante a qual não teve qualquer crise emocional. Antes, em 1998, na França, sob o comando de Zagallo, ele já sofrera uma crise de estresses, que nos tirou o título. Agora, sob o comando de Parreira, ela veio mais branda. Entre 1998 e 2006, num curto espaço de oito anos, Ronaldinho teve dois fracassos matrimoniais, um deles com um filho. E isso, por acaso, não afeta as pessoas? Afinal, ninguém é máquina de fazer gols. O jogador de futebol é gente como a gente. Diante de tudo isso, permito-me fazer algumas perguntas. Seria Ronaldinho um cara amoroso, romântico? Seria um galinhão? Seria um bobão, cheio de grana, vindo da pobreza, enganado em seus relacionamentos? Ah, essas mulheres! Nem a fracassada “revolução feminista” conseguiu tirar delas a voragem insaciável, tão decantada por Vinicius de Moraes. Querer fazer vista grossa da parte amorosa da vida de Ronaldinho é tapar o sol com a peneira. Claro que seus problemas amorosos afetaram sua vida profissional. Isso acontece a qualquer um. Paciência. Zequinha, filho do velho Moussi, me ensinou, há muitos anos, lá no Brejo das Almas, que o mais difícil da vida é a parte amorosa. Meu querido e verdadeiro Ronaldinho, quero lhe agradecer até pelas tristezas que você me deu, quando jogava pela Raposa, contra meu amado Galo. Quero lhe agradecer, também, as alegrias que você me deu jogando por nosso escrete. Se você quiser resolver seu problema amoroso, dê uma passeada em minha aldeia, uma cidade norte-mineira chamada Montes Claros. Eu lhe garanto que lá você encontrará uma mulher carinhosa, companheira, que honrará seu nome, terá orgulho de você e de sua biografia e apenas compartilhará sua fama e sua grana com o mais puro amor. Acho que você precisa é de uma mulher que saiba realmente amá-lo. Ser famoso é um perigo, meu caro. Ser muito rico, mais ainda. Você não é tanque, nem fenômeno. Só sabe jogar futebol com técnica e garra incomuns. Foi considerado, duas vezes, o melhor do mundo e, uma vez, o melhor de uma Copa. Não precisa provar mais nada pra ninguém. Mas devo lembrar-lhe que você não tem o mesmo vigor físico de antes. E isso é plenamente normal. Todos, os mortais, somos assim. Mas você ainda tem futebol até pra mais uma Copa do Mundo. É hora de dosar as coisas. Procure, nesta altura de sua vida, muito mais ser feliz do que quebrar recordes ou se entupir de grana. Se necessário, tenha um bom analista, que o ajudará a reencontrar caminhos. Fuja dos bajuladores. É a pior raça que conheço. Fico aqui, torcendo para que você, a cada dia de sua vida, tenha mais paz interior e continue a nos brindar, por muito tempo ainda, com suas jogadas geniais.


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Por Augusto Vieira - 26/2/2009 09:56:20
A ESPINGARDA

Baiano nasceu em Taiobeiras e é motorista de meu tio Air. Ótimo churrasqueiro, cantor e tocador de viola, conta “causos” como ninguém, com aquela verve e arte de que só os sertanejos da gema são dotados. Passei dois dias numa das fazendas de meu tio, a Vaca Brava, com meu filho Combat e meus netos, filhos dele, Cayo César e Anna Laura. Os meninos gostaram tanto que não queriam ir embora daquele local tão lindo e aconchegante, onde vivi felizes momentos de minha infância, em companhia dos primos Jairo e Mércio. Combat comeu mais de quarenta pequis, daqueles carnudos, de Serra Azul. Tirou o atraso. Os meninos deram a maior canseira nos cavalos, guiados pelo primo Lucas, inteligentíssimo bisneto de meu tio, filho de Wagner e Adriana, e que já sabe tudo de fazenda de tanto andar com o avô. Baiano, enquanto preparava um churrasco pra nós, ia me contando estórias que quase me faziam estourar de tanto rir. Uma delas não mais me saiu da cabeça.
— “O cumpade e a cumade, na ausência do cumpade, resolvero transá. Amor antigo ricuído. Só que a coisa foi boa dimais e eles, esgotado, isqueceram que o cumpade vortaria cidin de uma viage. Apagaro e, quas o dia amanheceno, acordaro cum barui da chegança. O cumpade levantô, vistiu as roupa ligirin, calçô as butina e saiu do quarto, pisano duro. Cruzô cum cumpade na sala, passô direto, de cara fechada, sem dizê nada. O cumpade entrô no quarto e priguntou:
— Sô amigo do cumpade há mais de quarenta ano e, pela premera vez, ele passô pru mim, de cara fechada e nem me cumprimentô. O qui acunteceu aqui?
— Curpa sua!
— Curpa minha? Pru quê?
— Ele vêi aqui pidi a espingarda imprestado, mas ancê tinha dito qui ela era de istimação e não imprestava pra ninguém?!?!”


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Por Augusto Vieira - 4/2/2009 12:42:57
RONALDO, O MAGO DOS ENREDOS - Levei Ronaldo José de Almeida à praia. Valeu a pena. Entre noites enluaradas, céu estrelado, ventos gostosos, ranger de rede, dias de sol e barquinhos a deslizar no macio verde do quente mar da Bahia, li seus dois livros. Ficção de primeira qualidade de um talentoso jovem romancista que muito ainda produzirá. Ronaldo se me revelou um mago dos enredos. No “Data Vênia, Excelência” bolou uma história fabulosa e verossímil, até seu final feliz, que é o coroamento do amor de duas pessoas que se supunham irmãs por parte de pai. No “Mademoiselle” bolou lupanáricas e lapidares (até porque tem a Lapa como cenário) histórias de mais de duas décadas de um Rio de Janeiro ainda agrícola, dos coronéis do café, requintados cabarés, sofisticados malandros, artistas boêmios e impiedosos escroques. Maria das Dores, a Dandy, com seus sofrimentos, amores (até do Presidente da República) e venturas não me sai da cabeça. A Ronaldo quase nada escapou, nem o famoso e sempre relembrado duelo musical entre Dalva de Oliveira e Herivelto Martins. Valeu, Ronaldo! Sua literatura só me fez confirmar a verdade da enigmática frase de Dostô: “a beleza salvará o mundo”. Beleza que encontramos também na literatura, como arte maior. Estou aguardando o próximo.


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Por Augusto Vieira - 10/1/2009 16:18:36
CAYO CÉSAR E A “MONKA”

Cayo César, meu neto, nasceu no Dia dos Namorados. Aos doze anos tem se revelado um artista no relacionamento com as meninas. Todas querem sua companhia. É bonito, bom de papo e um cavalheiro. Joga xadrez, basquete e luta judô. É campeão infantil de xadrez, do Praia Clube, da belíssima cidade onde reside, a acolhedora Uberlândia. Tive o prazer de entregar-lhe o troféu, numa solenidade. Fui às lágrimas. Deu até reportagem no jornal dos associados.
Neste verão fomos para a Bahia: Nova Viçosa. Anna Laura, irmã de Cayo, tem dez anos. Educadíssima, meiga e estudiosa, tem demonstrado vocação para ginástica. Ela se diz acrobata. Um belo dia, logo que anoiteceu, Anna pediu-me que a levasse para ver, num Parque que estava montado na praça principal da cidade, a pessoa que se transformava em macaca, a “Monka”. Certamente, supus, a palavra inglesa “monkey”, no “baianenglish”, transformara-se em “monka”. Acomodamo-nos em duas cadeiras, da terceira fileira, num escuro recinto, fechado por uma tenda de pano, e as luzes se apagaram. É colocada no pequeno palco, numa jaula, uma figura estranha, não sendo possível distinguir se homem ou mulher. De repente a figura saiu correndo da jaula, por uma portinhola, e abandonou o espetáculo. Estranho aquilo. Nunca vira antes. Só vim a descobrir a causa no dia seguinte, quando contei o caso, na praia, a alguns amigos. É que, na noite anterior, o transformista, um baianinho porreta, após a metamorfose, resolveu fazer medo nos meninos presentes, abriu a porta principal da jaula e fez menção de se dirigir a eles que, aos gritos, romperam a portinhola de pano da tenda e saíram correndo, apavorados, pela praça. Cayo presente ao espetáculo, com quatro amiguinhas, bom de judô, avançou na “Monka” e cobriu-a de porradas. Quando fui ver o espetáculo com Anna Laura, umas das amiguinhas de Cayo, que estava na primeira fileira, logo que ela entrou no palco, foi logo avisando:
— Aquele gordão careca e aquela menininha que estão ali atrás são o avô e a irmã daquele menino que a senhora brigou com ele ontem.
Tadinho do baianinho. Perdeu o emprego.


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Por Augusto Vieira - 15/12/2008 16:08:37
JOMAR
Pois é, meu caro Bichara, nosso “Zé”, nosso “Lães”, foi surpreendido por ela. Consegui me despedir dele, no velório da Santa Casa. Que despedir, qual o quê! Ele sempre estará presente em nós, com aquele seu modo todo especial de cultivar amigos. Estudante secundarista, ia aos treinos do Galo, no antigo Estádio Antônio Carlos, em Lourdes, só para vê-lo, junto a Marcelino, William, Bueno, Nilson, Viladônega, Luiz Carlos e outros craques. Ele nunca deixava de se aproximar do alambrado para saudar o conterrâneo. Uma vez, num jogo contra o Flamengo, no Independência, ele deu uma finta em Joubert, que ficou gravada, indelevelmente, na memória de todos os atleticanos. Carlúcio exibia antigas fotos de “Zé”. Encontrei Bené (meu querido amigo, que também jogou no Atlético e foi um dos grandes atletas de minha passagem pela presidência do “Mais Querido”). Lá estavam também Mano, Juber e toda uma constelação de craques do passado de nossa aldeia, reverenciando a memória do companheiro, o que também fazia nosso grande mestre Oswaldo Antunes. Abracei Alex, que chegava do Rio, choramos juntos, e me despedi, porque tinha um batizado de um sobrinho aqui em Belo Horizonte. A vida é interessante: uns indo embora e outros batizando. Jomar foi também, como seus filhos hoje o são, meu caro Bichara, homem do Direito. Tinha, como ninguém, o senso do bom e do justo, sob um equilíbrio mental, uma inteligência e uma dedicação profissional invejáveis. Foi craque também no Direito. Certamente Bethânia herdou tais atributos de seu maravilhoso pai, que conquistou Sete Lagoas e não mais saiu de lá. Deitou raízes, sem nunca perder as da origem, incrustadas, bem fundo, no chão de nossa aldeia. Pois é, meu caro Bichara, você foi um dos maiores amigos de Jomar. Eu também. Você, “Lães”. Eu, simplesmente “Zé”. Por nossas vidas inteiras.


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Por Augusto Vieira - 5/12/2008 13:55:07
ROBERTO MAURO AMARAL

Fui à Câmara Municipal de Belo Horizonte e presenciei nosso conterrâneo Jarbas Soares Filho (ele nasceu em nossa aldeia e foi criado na gostosa São Francisco) receber o título de cidadão honorário. Jarbinhas fez um grande discurso barranqueiro. Depois fui ao Bar Brasil e tive o prazer de encontrar meu irmão de leite Flávio Pinto. Batemos aqueles papos amigos, telúricos, saudosistas e pós-modernos de sempre. Ao Jarbinhas disse que era o mais novo amigo de Petrônio Braz, filho do velho Brazim, de São Francisco, amigo de meu pai e de meu tio Augusto Getúlio, que tinha ido à posse dele na Academia e que era vizinho de Rodrigo, neto de Petrônio, em Montes Claros. A Flávio, dentre muitas outras coisas, falei dos 70 anos de um grande amigo nosso, Roberto Mauro Amaral. Aí lembramos de nossas vidas esportivas, quando jogávamos basquete na Praça de Esportes e Roberto era um de nossos ídolos. Em casa, começaram a surgir em minha mente antigas imagens de minha amizade e admiração por este grande conterrâneo, que está completando 70 anos de idade. Recebera um lindo convite, entregue por sua filha Greycielle. Roberto está, numa belíssima foto, com a esposa, os filhos, os genros, as noras e os netos, com aquele seu semblante que irradia, como sempre, muita energia positiva e bondade, com aquele seu sorriso bonito e fraterno e, para ser sincero, com aquela aparência de quem tem menos de meio século de vida.
A primeira vez que o vi foi na residência de seus pais. Eu era colega de seu irmão Luciano e fui lá estudar para uma prova. A família tratou-me com o maior carinho e foi assim que brotou em mim aquele querer bem, próprio de nossa gente, à esposa e aos filhos de “seu” Amaral. Em 1957, fui estudar no Colégio D. Bosco, em Cachoeira do Campo, onde já se encontravam os irmãos Edgar, Ivan e Ernane Pereira. Roberto e Tutica já haviam ali concluído o curso ginasial e as proezas dos dois numa quadra de basquete ainda eram cantadas em verso e prosa. Voltei a MOC, em 1958, e comecei, influenciado por eles, a praticar esse esporte. Roberto já estudava Agronomia, numa das mais conceituadas faculdades do Brasil, a de Viçosa. Formou-se e, depois, fez pós-graduação na Espanha, para orgulho de todos nós. Depois o vi, incansável, trabalhando em sua empresa, com seu irmão Lúcio, fazendo projetos para a Sudene. Depois o vi comandando a CODEVASF. Depois o vi Deputado Estadual, com brilhantíssima e honrada atuação em favor de todos nós. Depois, vizinhos, passei a ter o prazer de sempre me encontrar com ele, em nosso bairro de Belô, o Gutierrez.
Flávio Pinto e eu lamentamos não podermos comparecer à festa, que será no Buffet Duca e Nazareth, o que nos fez lembrar de nosso querido Zim Bolão, marido de Duca, nosso técnico. Roberto foi o primeiro atleta que vi lançando uma bola do ar, num majestoso jumping. A partir daí foi que todos nós, os pouco tempo mais jovens, por imitação, aprendemos a também fazer isso: Flávio, Haroldinho, Armeninho, Dutão Figueiredo, Aristóteles, Xandão e muitos outros. Roberto era um exemplo de atleta e de estudante e, por isso, uma das pessoas que todos nós mirávamos para continuar nossas travessias. Nós o chamávamos de Betiona. Só depois de maduro passei a tratá-lo, como faço até hoje, por Bob. Recordo de um timaço em que jogavam ele, Tutica, Lúcio, Armeninho e Haroldinho. Três da família Amaral e dois da família Veloso, com reservas à altura, dentre eles, Osmane e Guim. Timaço. Chamava-se Amável, fusão dos nomes Amaral e Veloso. Joguei umas duas vezes contra este time e perdi feio. Mas valeu a pena. Em 2007, quando, tal qual Jarbinhas, recebi o título de cidadão honorário de Belô, a presença de Roberto na Câmara Municipal, me emocionou. Só que cometi a imperdoável omissão, involuntariamente e embriagado por essa emoção, de não dizer a ele, da tribuna, as palavras que lhe havia reservado em minha mente e em meu coração.
Meu caro Betiona, creio poder falar a você, aqui, não só em meu nome, mas também no de Zim Bolão, no de Flávio Pinto, no de Zé Aluísio, no de Armeninho, no de Haroldinho, no de Zé Cocão, no de Waltinho, no de Buião, no de Bichara, enfim, em nome de todos os seus amigos e admiradores da turma do basquete de nossa Praça de Esportes, nesse momento feliz de sua vida, para mandar-lhe um grande abraço e desejar-lhe toda a felicidade deste mundo, junto a Neide, a seus filhos, noras, genros e netos, porque você só plantou, até hoje, coisas boas e merece grandiosa colheita. Obrigado por você existir. Parabéns, caro amigo e que nós possamos comemorar seus 80, seus 90 e seu centenário. Quem sabe com uma partidazinha de basquete entre o Amável e uma seleção dos que ainda estiverem por aqui, dirigida por Zim Bolão? Já estou me preparando para mais uma fragorosa derrota. O placar, imagino, deverá ser 10 a 5 para o Amável. Mas que será um grande jogo de basquete, será. Podes crer, amizade!


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Por Augusto Vieira - 1/12/2008 19:39:31
UNIVERSO GLOBAL

A Nasa enviara ao espaço a nave Epoxi, com a finalidade de encontrar o cometa Hartley 2 e novos planetas de nosso sistema solar. Essa nave foi usada como retransmissora de dados de um sistema de rede entre várias sondas espaciais e um laboratório, o Jet Propulsion Laboratory (JPL). Vin Clef, vice-presidente do Google, um dos pais da internet, estava trabalhando nesse laboratório e enviou uma mensagem e arquivos com imagens de Marte para a nave, que estava a trinta e dois milhões de quilômetros da Terra. Ele trabalhava num protocolo para padronizar as comunicações feitas entre missões espaciais, ou seja, criar uma rede na qual as missões pudessem se comunicar no mesmo esquema, entre si e com suas bases. E obteve sucesso. A tecnologia usada se chama “rede tolerante a rupturas” (DTN), que é uma net avançadíssima, adaptada a grandes distâncias, medidas pelo tempo: três e meio a vinte minutos para enviar dados de Marte para a Terra e vice-versa. E esse sistema tem uma grande vantagem: na nossa internet comum, quando há uma ruptura da comunicação, ela se perde. No sistema DTN, não. Os arquivos são guardados e, ou procuram outra rota, ou são enviados, de ponto a ponto, quando a rede se restabelece.
Quem sabe foi por isso que, semana passada, eu estava escrevendo um texto, com minha webcam ligada, quando, de repente, ouvi o sinal de que alguém queria entrar em contato. Aceitei e, de repente, começaram a surgir, na telinha, milhares de objetos, parecendo estrelas cadentes, numa corrida espantosa, deixando-me com a impressão de que eu entrara numa Via Láctea, a uma velocidade inimaginável. Depois começaram a aparecer imagens semelhantes a raios. De repente a tela escureceu. Esperei um minuto e as imagens voltaram, intactas. Aí começaram a surgir umas legendas semelhantes às letras da escrita chinesa. Só identifiquei uma delas, semelhante a um eme maiúsculo. Poderia ser uma marciana querendo namoro comigo. E a danadinha quase conseguiu.


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Por Augusto Vieira - 26/11/2008 11:59:32
É MUITA INJUSTIÇA!

Em matéria de economia, os teóricos, por academicismo, dizem coisas simples numa linguagem erudita, complicada, o que faz com que se comuniquem quase que apenas entre eles – e olhe que muitos deles também têm dificuldade em entendê-la. O que, então, será de nós, comuns dos mortais? Se pesquisarmos sobre a origem do termo, veremos que a palavra economia, que vem do grego, significa o estabelecimento de condutas individuais e coletivas que regerão, dinamicamente, a riqueza social, sob todos os aspectos. Tem a ver com ecossistema. A economia é, por natureza, política, porque as decisões sobre ela dizem respeito ao interesse de todos e de cada um. Pelo menos, em tese, elas deveriam ter a participação dos cidadãos o que, na realidade, não se dá. Decisões de natureza econômica, hoje em dia, ficam a cargo dos tecnocratas. Os cidadãos apenas as recebem e arcam com seus ônus.
Meço a grandeza econômica de uma nação moderna de uma maneira muito simples: dou um balanço geral em sua riqueza e vejo se sua moeda circulante é maior ou menor do que essa riqueza. Se o valor da moeda que circula é maior, então a nação estará com sérios problemas, porque sua riqueza representada não corresponde à realidade, não tem lastro. Se você, pessoalmente, gasta mais do que ganha, ou se endivida sem capacidade de pagamento, adquirindo produtos não úteis, certamente quebrará. O mesmo acontece coletivamente, em termos de nações. O que, na realidade, falta é uma planificação da própria produção da riqueza globalizada e uma exploração mais racional e democrática dos recursos naturais do planeta, para que tenhamos uma vida melhor. Se a economia mundial visasse prioritariamente o interesse coletivo não teríamos tanta miséria e tantas crises. O extremo consumismo gerado pela produção anárquica, voltada para o individualismo, sempre gerou crises cíclicas.
No caso norte-americano penso que se fosse possível fotografar sua riqueza social, de um lado e, de outro, a massa de dólares que circula no mundo, constataremos que eles estão quebrados, há muito tempo. Essa crise recente, que desequilibrou a economia mundial, é mais um produto da imensa ciranda financeira, causada por capitalistas irresponsáveis, transnacionais, que fizeram circular riquezas sem lastros. E o pior é que tanto o povo norte-americano, quanto nós, todos, pagaremos essa conta. É muita injustiça!


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Por Augusto Vieira - 19/11/2008 21:14:27
ESSES MARAVILHOSOS SESSENTÕES DE MINHA ALDEIA

Fui, vi e gostei. Valeu a pena conviver com essa geração tão bacana. Viajei, dirigindo meu carro, na quarta-feira, 12 de novembro, tendo como passageiros Tininho e Picolino. Já imaginaram o que foi essa travessia? Papos geniais: geografia, música, política, piadas, filosofia, “causos” e mil outras coisas. O pior é que os sacanas paravam toda hora para tomar uma e eu babava de inveja, submetido que estava ao império da Lei Seca. Quando descíamos a serra e avistamos MOC caiu o maior toró. Esfriou de vez. Tininho comentou:
— Bala, acho melhor a gente voltar pra Belo Horizonte, porque esse lugar aqui é muito frio e chove demais. Nós não trouxemos agasalhos.
E eu ainda tinha que ir à posse de meu caro novo amigo Petrônio Braz, na Academia Montes-Clarense de Letras. Quase cheguei atrasado.
Na sexta-feira, 14, encontrei vários sessentões, desta vez no Esquema, para um arroz com pequi e carne de sol. No auge da noitada eis que chega Joe Cachorro Doido, de Uberlândia. Vai logo pedindo uma cerveja. O garçom, rapazinho inexperiente, atarefadíssimo, pediu um tempo para anotar. Entrei de estalo:
— Que anotar porra nenhuma, rapaz. O que você tem que guardar é que no dia 14 de novembro de 2008 teve a honra de servir uma cerveja a Joe Cachorro Doido. Cê num sabe o quanto isso abrilhantará seu currículo.
O jovem, sem entender nada, foi logo buscar uma Original, bem geladinha. E sem anotar.
No sábado, participei de um almoço, que foi até o jantar, numa tenda do Parque de Exposições. O cardápio foi arroz com pequi e carne de sol. Alvenaria!!! Como comemos! O majestoso recinto, coalhado de gente boa, que habita ou não nossa aldeia, teve como tônica o calor humano. Fiquei, com Haroldinho, na mesa de Ernesto Costa. Cabaré (Haroldo Tourinho Filho) revelou-se grande mestre de cerimônias, acompanhado por dois geniais músicos da família Queiroz (Juquita e Ruizão), primos de Nenzão, o incansável organizador de tudo. Chico Ornelas editou um CD só de músicas da época da juventude deles. Mal começou a tocar, todos foram para a pista de dança, onde balançaram os corpos tutifrutemente, rockroladamente, chachachazmente e avassaladoramente. Os caras não perderam o pique, minha gente! Certamente algumas dores viriam, mas a performance deles, naqueles momentos, foi impressionante. Pareciam rapazinhos e moçoilas celebrando a vida.
No domingo não pude participar das comemorações no Automóvel Clube, mas quero agradecer, de coração, a minha querida Ruth Tupynambá, a madrinha do Encontro, a referência feita a mim, nas belíssimas palavras que proferiu, já publicadas no Mural. Quero agradecer também a Nenzão o presente que me deu: uma garrafa da antiga pinga produzida por seu saudoso mano João Reduzido. Já está bem guardadinha para ser saboreada em gotas.
Valeu Nenzão! Valeu turma boa! Que vocês caminhem, felizes, para o encontro dos setentões. O velho Bala espera ser novamente convidado.


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Por Augusto Vieira - 10/11/2008 07:29:43
O ENCONTRO DOS SESSENTÕES
Já estou beirando os 64. Alguns montes-clarenses que, como eu, premidos pela existência, não mais residem em nossas plagas, resolveram organizar, em nossa aldeia, nos dias 15 e 16 de novembro, um encontro. “A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida”, já dizia o poeta. Sei que os meninos que estão à frente do evento me respeitam muito, até pelos maus exemplos que lhes dei na juventude. Alguns se tornaram meus admiradores, sem saber que minha admiração por eles é muito mais intensa. Tornaram-se personagens de meus livros. Essa turma, liderada por Nenzão, Tininho, Picolino, Armeninho, Alberto e Chico, convocou-me a comparecer. Nenzão até me pediu autorização para publicar, num livro que marcará o encontro, uma crônica do Bala 60, intitulada Bach na Zona, que o tem, junto a Tininho, Picolino e Armeninho, como personagens e que narra a proeza deles, ainda jovens e amantes da música, numa Sexta-feira Santa, quando fizeram Tia Edna executar, em sua pomposa radiola, a Paixão de Cristo, segundo Johan Sebastiann Bach, o que emocionou não só aos protagonistas, mas a todas as sacerdotisas que residiam no randevu.
Há, também, o caso de Tininho, Picolino e do saudoso Virgílio Baiano. Depois de uma farra homérica, Virgílio resolveu levar Picolino, cujo pai era funcionário da EFCB, em sua casa, que se localizava depois dos trilhos, numa área privativa. Não é que Virgílio cismou de deixar o amigo na porta de sua residência e fez o fusquinha subir os degraus do majestoso prédio de nossa Estação? Só não continuou por causa da catraca, que impediu a passagem do veículo. Mas que deixou Picolino bem perto, deixou. Afinal, “companheiro é companheiro e carro tem pé redondo é pra deixar os amigos nas portas de suas casas!”
Há, ainda, uma outra história em que eles, acompanhados por Luiz Milton, depois de degustarem várias bebidas surrupiadas dos papais, já quase o dia amanhecendo, sem grana, resolveram abrigar belas “fazedeiras de amor” num dos vagões, em frente ao local de embarque de passageiros. Entraram sorrateiramente e, quando estavam no bem bom, ouviram um tremendo solavanco. Uma máquina, Maria Fumaça, engatara o vagão e dera partida. Como sair dali em tais circunstâncias? E o medo? Quietinhos, foram até Glaucilândia, onde conseguiram descer, arrematando a farra, horas depois, numa viagem de volta, desta vez num carro enviado pelo pai de um deles para buscá-los, e às moças, de volta aos doces lares.
Por essas e por outras e muito mais para matar a saudade de pessoas maravilhosas que estarão presentes é que o convite desses meninos soou em mim como uma coação moral irresistível, como uma intimação que, não atendida, poderia tornar-me alvo de imperdoável omissão que nunca desejaria carregar pro jazigo. Gosto muito desses meninos, agora também sessentões. Sexagenários ou sexigenários? Sei lá! Vou, sim, se Deus me permitir, participar, com muita alegria, só que na condição de convidado sessentão um pouquinho mais velho, de outra turma, também muito bacana. Que nós bebamos muita água ardente e que levemos muita água do céu a nossa aldeia! Axé!!!


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Por Augusto Vieira - 3/11/2008 13:32:15
A PRAÇA É NOSSA!

Há uma instituição em minha aldeia, chamada Montes Claros Tênis Clube, nossa Praça de Esportes, que é um dos ícones de nossa cultura. Ela incrustou em mim imagens de um tempo feliz, lembranças que ainda povoam minha mente. Aos 10 anos de idade, em 1955, transpus, pela primeira vez, seu portão de ferro, de duas peças, e desci os degraus de uma larga escada para conhecer suas dependências, o que era um sonho de toda a criançada e dos jovens da cidade, então com pouco mais de quarenta mil habitantes. Procurei o saudoso Sabu (José Francisco de Oliveira), por indicação de meu pai, e disse a ele que gostaria de aprender a nadar. Pediu-me um exame médico. Fui ao consultório de Dr. Mário Ribeiro, na Dr. Santos, e este, após examinar-me com o maior desvelo, elaborou um atestado, dando-me como apto a freqüentar as piscinas. Voltei, ansioso, e entreguei o papel na secretaria. Daí, tornei-me um dos mais assíduos freqüentadores do clube. Só o deixaria oito anos após, obrigado a residir em Belo Horizonte para tentar um curso superior, já que, na época, em 1963, não tínhamos universidades.
Ainda meninos cultivávamos, como ídolos, nossos atletas das mais diversas modalidades esportivas. Falávamos, sem sequer ter visto jogando, de Zembla, Marlene e Lucy, estrelas do vôlei feminino. No vôlei masculino comentávamos e exaltávamos os saques de Piloto, as cortadas de Buião e Raimundo Fumaça, as pingadinhas de Bichara e a técnica do levantador Terezino. Quanto aos ídolos do basquete, tive a honra de, juvenil, participar de treinamentos em que ainda jogavam, dentre outros, Geraldo Barata, Diu, Walduck, Hélio, Tutica, Roberto, Cabeludo, Raimundo Chupa Dedo, Amauri, Mário Bode e João Carlos. Uma das maiores emoções de minha vida foi quando, ao final de um treino, Zim Bolão me chamou e entregou-me a camiseta de Geraldo Barata, toda suada, para que eu treinasse apenas os cinco minutos finais. E foi assim que encontrei meu esporte predileto. Cinco anos depois, chegaria à seleção mineira, disputaria um campeonato brasileiro universitário e receberia o troféu de craque do ano da segunda divisão de Minas Gerais, em 1966. Ilídio Costa, saudoso repórter esportivo, perguntou-me, numa entrevista, a quem eu devia tudo aquilo e respondi, na bucha: à Praça de Esportes de Montes Claros e a meu primeiro técnico, Zim Bolão. Minha geração nunca esquecerá as eletrizantes provas de natação, que se davam normalmente nas manhãs dos domingos. A imensa torcida se aglomerava em volta das barras de ferro que isolavam a piscina, onde competiam nossos grandes nadadores, dentre eles, Zé César, Diógenes, Max, Guigui, Gilberto, Leônidas, Waltinho, Maninho, Armeninho e Felipe. Um deles, Saulo, tornar-se-ia campeão mineiro do nado de peito. Os campeonatos de futebol de salão eram emocionantes, com vários times disputando. As rodadas, noturnas, se davam duas vezes na semana, as terças e quintas, e as arquibancadas, de madeira, ficavam completamente lotadas. As quadras de tênis viviam repletas de jogadores. No gramado da pista de atletismo, desfilavam grandes craques de nosso futebol. Em volta dela, muitos jovens passeavam de mãos dadas a lindas donzelas, ou iniciavam sutis paqueras com desejo de conquistar dadivosos corações. As horas-dançantes da chamada “Boate da Praça” selaram muitos romances que ainda perduram. Começavam por volta das dez horas da manhã e iam até as duas da tarde, embaladas por excelentes conjuntos musicais. Dos superintendentes lembro especialmente de “seu” Laércio e “seu” Pimenta, pessoas finíssimas, extremamente rigorosas com a disciplina. Volta e meia alguém pegava uma suspensão por não cumprir as normas do clube. Era um martírio ficar alguns dias sem freqüentar aquela aconchegante Praça de Esportes, berço de muitos atletas e orgulho de nossa aldeia. Eternamente nossa.


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Por Augusto Vieira - 27/10/2008 13:50:38
“AUGUSTO, CADÊ A CHUVA???”

Foi uma beleza o casamento de Vanessa e Rodrigo, no sábado, dia 25 de outubro, em nossa majestosa Catedral, onde, há 33 anos, naquele mesmo dia do mês, os pais da noiva, meus compadres Haroldinho e Ângela, também haviam se casado. De Vanessa eu me considero tio, pelo coração. Rodrigo, por sua simpatia, tornou-se nosso mais novo sobrinho, porque conquistou todos os velhos amigos do sogro, “chefe” de uma turma de dinossauros que, dentre outros, ainda tem, vivos, Cláudio Athayde, Marinho Alaor, Odorico Mesquita, Joenildo Chaves e este pobre escriba, conhecido por Augustão Bala Doce. Bateu muita saudade dos que haviam partido: Nem Passarela, Wanderley Fagundes, Dácio Cabeludo, Tone Abreu e Lucílio Mesquita. Robertão Gomes não apareceu. Continua recluso. Mas o fato é que os ainda vivos, à exceção de Marinho Alaor, se locomoveram de bem longe e se reuniram para o casamento da filha do “Chefe”.
O noivo foi o primeiro a chegar na Igreja. Fui o segundo. Bonito, inteligente e comunicativo, como é quase todo mundo de nossa gostosa São Francisco, ficou surpreso com minha espaçosa presença. Apresentei-me a ele e disse que era Augustão Bala Doce. Ele respondeu: você é o famoso Bala Doce? Em seguida apresentei-lhe minha esposa, Célia. Aí brinquei: cara, São Francisco só produz cara bonito, hein? Não vê o Jarbinhas, meu amigo de Belo Horizonte? É o cara mais bonito do Ministério Público. Empata com Jacson Campomizzi. Agora me aparece você com esta belezura toda! Qual o segredo que vocês têm lá?
Quando Haroldinho entrou com Vanessa, Igreja lotada, Rodrigo esperando no altar, meus olhos se encheram de lágrimas. Antes, no cortejo, presenciara a passagem de Petrônio Braz. Perguntei a Odorico o porquê e veio a resposta: avô do noivo. Pouco depois choraria pra valer. Foi quando Haroldinho, ao final da cerimônia, surpreendendo minha comadre Ângela, entregou ao padre duas novas alianças, que foram abençoadas, em comemoração aos seus 33 anos de casados. É, gente, isso vai virar moda em nossa aldeia, onde o povo adora uma festa. Será mais uma de nosso vasto calendário. Haroldinho, muito fervoroso, até já lhe deu nome: Bodas de Cristo.
Da Catedral fomos ao Automóvel Clube, para uma recepção de conto de fadas. Os dinossauros ocuparam duas mesas. Tiraram várias fotos e se confraternizaram com os noivos, seus parentes e todos os demais convidados. Beijei D. Dina, D. Aparecida e dancei, várias músicas, com D. Neuza, avó da noiva. Eta time bacana, o dessas vovós de minha aldeia, sô!
Na volta, no domingo, almocei com Paulinho Pedra Azul, Carlos Dijon e Marcelo Giran, no restaurante de João Maia. Eles estavam vindo de Januária, onde haviam se apresentado, junto a Gabriel Guedes e a um conjunto local, de chorinhos. Agora é acumular energias, para voltar a MOC no dia 12 de novembro, para a posse de Petrônio Braz na Academia Montes-Clarense de Letras e ficar até o dia 15, para a Festa dos Sessentões, organizada por Nenzão, Tininho, Picolino, Chico Ornelas, Armeninho Graça, Murilo Antunes e outros caras, bem mais novos do que nós. Já beirando os 64, só espero que chova, pois o calor, em minha aldeia, anda insuportável. “Augusto, cadê a chuva???”


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Por Augusto Vieira - 23/10/2008 08:47:33
ADEUS, REIVALDO!

E lá se foi, para a outra, nosso grande pescador, de peixes e de amores, nosso grande poeta e escritor, nosso grande advogado e, mais do que tudo isso, nosso grande amigo, numa manhã ensolarada do dia 22 de outubro. Doeu, e muito, em meu coração, receber a notícia, pelo Mural, através da mensagem do jornalista Luiz Ribeiro. Depois, Leonardo Campos me passou um e-mail, com um texto de Waldir de Pinho Veloso, descrevendo como a morte surpreendeu esse nosso grande amigo. Hoje recebi uma belíssima crônica de Leonardo falando sobre sua vida e filosofando sobre sua morte. Recentemente escrevi sobre ele, que foi o apresentador de meu primeiro livro, coincidentemente, comentando seu primeiro livro. Tive a honra de ter sido seu professor em nossa FADIR. Nossa aldeia perdeu um de seus mais proeminentes cidadãos. Perdeu um de seus homens mais puros de coração. Perdeu um exemplar chefe de família. Mas sua vida, tenho certeza, continuará em Shirley, em seus filhos, netos, demais parentes e em todos os que aprendemos a amá-lo. Adeus, meu querido amigo Reivaldo! Até breve!


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Por Augusto Vieira - 22/10/2008 18:50:08
BITOLA ZACALEX!!!

O grego Panayottis Jean Skiadas chegou a Montes Claros e se estabeleceu, como comerciante, na Praça Dr. Carlos, ao lado da Drogaria Americana, num pequena loja, repleta de artigos populares da melhor qualidade. Inteligente, alegre, sagaz, organizado e bom administrador de seu capital, progrediu na vida. A loja logo tornou-se um das mais famosas e procuradas. O nome era Casa Zacalex. E o próprio dono passou a ser conhecido por um dos nomes dela: Zacalex. Muito trabalhador, abria as portas bem cedinho e só as cerrava à noitinha. Quase só saía para o almoço que, normalmente, se dava no Restaurante Espeto de Ouro, cujo proprietário, de então, era o impagável Zé Amorim. Como o imóvel ocupado pela loja ainda não era dotado de instalação sanitária, Zacalex costumava satisfazer suas necessidades fisiológicas na acanhada instalação do restaurante, antes das refeições. Era muito sadio e soltava aqueles “barros” de caminhoneiro da Rio-Bahia: marrons, grossos, consistentes, difíceis de serem absorvidos pelo tímido esgoto do único vaso, após aquelas descargas de pouca água, das antigas. Zé Amorim, querendo descobrir o autor daquelas proezas, resolveu trancar o cômodo e os fregueses que desejassem usá-lo, deveriam pedir a chave no balcão. Estava cansado de ter de ir sempre ao local, munido de um cabo de vassoura para desintegrar aqueles grossos resíduos humanos e dar várias descargas para que o vaso pudesse ser novamente usado pelos freqüentadores do restaurante.
Um belo dia, antes do almoço, Zacalex chegou todo sorridente e, como de costume, pediu a chave. Zé Amorim pegou-a num prego que dependurara na parede, amarrada a um pedaço de madeira, fina e lisa, colocou os cotovelos no balcão, entregou-a com uma das mãos, encarou o grego e bradou:
—Use à vontade mas, pelo amor de Deus, bitola Zacalex, bitola Zacalex!!!


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Por Augusto Vieira - 20/10/2008 13:53:59
Meus caros amigos.
Em Belô a política dominará quase tudo até domingo que vem. Sou eleitor aqui. Hoje, no Maria das Tranças, na Prof. Morais, meu querido amigo Tadeu Franco estará lançando seu mais novo CD, chamado "Pop Roça". Já ganhei um de presente. Está genial. São várias novas composições. É uma espécie de transposição da arte rural para a cidade, enfim, uma urbanização do lindo som dos gerais. Sexta-feira Paulinho Pedra Azul estará se apresentando aí em MOC. Ele adora a cidade e me chamou pra ir junto. É uma irresistível coação. Sábado será o casamento de Vanessa, filha de meus queridos compadres Haroldinho e Ângela. O apartamento que comprei aí, num prédio construído por Haroldinho, ao lado do Parque Guimarães Rosa, já está pronto. Nessas circunstâncias, como não ir pra Montes Claros? E meu voto aqui, como ficará? Bem, ficará pra próxima. E, de quebra, ainda curtirei a apuração da eleição do cacique de minha aldeia. Se já tiver pequi, melhor ainda. Aguardem o Bala Doce. Axé!!!
PS: Obrigado, Wanderlino Arruda, pelo pedido de meu artigo sobre Godofredo Guedes para a revista do IHG.


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Por Augusto Vieira - 6/10/2008 18:04:53
Venho observando, nas últimas eleições, crassos erros dos Institutos de Pesquisas. Nessa última, só para ilustrar o que digo, verifica-se que o IBOPE errou feio, no Rio, em São Paulo e em Minas Gerais. Por que não acabar com essas pesquisas eleitorais, pelo menos quinze dias antes das votações, para que os eleitores fiquem mais à vontade para escolher de seus candidatos?
Outra coisa: por que não acabar com a reeleição, esse mecanismo que lesa um dos princípios fundamentais do regime republicano, que é o da rotatividade no poder? Nas monarquias o poder é uno, hereditário e vitalício. Nas repúblicas, ao contrário, é exercido por vários representantes do povo, eletivo e rotativo.
Mais outra coisa: por que não acabar com a obrigatoriedade do voto? Não seria mais democrático? Se eu não vejo candidato que me represente, tenho o direito de não comparecer às urnas. Aí sim, os bons candidatos serão valorizados. Iremos às urnas votar em pessoas competentes e dignas, cujas idéias motivarão nosso comparecimento.
Mais outra coisa: por que não adotar o financiamento público das campanhas para eliminar o abuso do poder econômico?
Finamente, mais uma outra coisa: É uma injustiça a gente ver candidatos a vereadores com um número expressivo de votos não serem eleitos, por causa da proporcionalidade. Ora, porque a lei não exige, dentro de uma média dos números de votos atribuídos a todos os candidatos, um número mínimo de votos para que o cidadão seja eleito, mesmo dentro do sistema proporcional? Vocês se lembram do Enéias, que teve mais de cinco milhões de votos e, pelo quociente eleitoral, elegeu um colega de partido com número inexpressivo de sufrágios?
Caso as coisas continuem como estão, cada vez mais seremos menos motivados a participar da política e a acreditar nos políticos. E fora da política, amigos, não há solução para problemas coletivos e até, por que não dizer, para os individuais. O indivíduo só é feliz no coletivo, sem o qual não se realiza como indivíduo.


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Por Augusto Vieira - 4/10/2008 11:18:00
RAPINAGEM

Os norte-americanos que compraram imóveis e os financiaram, deixando-os em hipoteca, como garantia de seus empréstimos e que, com muito sacrifício, pagaram e vêm pagando, durante anos, a quase totalidade em dia, as prestações, estão perplexos. O povão é honesto e não dá cano em ninguém. Aqui e lá. O problema são os dirigentes dos bancos. Eles venderam as hipotecas, várias vezes, uns aos outros, para fazer dinheiro (cirandas financeiras), por preços inferiores ao real, até chegarem a esse imenso rombo do sistema. Continuarão os banqueiros riquíssimos. Seus patrimônios em nada serão afetados. Os dos bancos, sim. Que se danem os bancos! São pessoas jurídicas. O governo, ou seja, o povo, como sempre, arcará com os prejuízos. Quer dizer, trocando em miúdos, numa linguagem acessível aos comuns dos mortais, que os capitalistas jamais socializam lucros, mas apenas os prejuízos de suas negociatas espúrias. Esse filme eu já vi aqui no Brasil. O repeteco norte-americano é apenas um pouco maior em termos econômicos. E nós também vamos sofrer, em nossas peles, as conseqüências de mais esse astronômico “cano” do sistema capitalista pós-moderno e globalizado. O dólar já passou de dois reais. E por aí a fora...
Afinal o que é mesmo esse tal neoliberalismo? Teoricamente seus corifeus entendem que a economia deve ser privatizada, que a máquina estatal deve ser enxugada e só cuidar de serviços públicos essenciais. No entanto, quando há um grande prejuízo, provindo das mazelas financeiras do sistema, tornam-se grandes socialistas, ou seja, pregam a intervenção do Estado (nós todos) na economia para cobrir os rombos. Isso é pura rapinagem. E o que é pior: legalizada, porque aprovada por “representantes” do povo. No caso americano, pela maioria dos congressistas. Benditos votos contrários, que foram muitos, desta vez.


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Por Augusto Vieira - 30/9/2008 16:50:23
MÁRIO TOURINHO FILHO

Hoje eu vou falar de um grande montes-clarense chamado Mário Tourinho Filho. Nós o apelidamos “Pão-Véio”. Na juventude foi exímio nadador do Montes Claros Tênis Clube. Disputou um campeonato mineiro, em Diamantina. A delegação de nossa aldeia se hospedou no famoso seminário da cidade. Depois da competição, na noite de despedida, Mário foi comemorar sua vitória naqueles bares maravilhosos da terra de JK. Encheu a cara. Voltou na majestosa madrugada, completamente chumbado. Cansado daqueles dias monásticos e das rígidas normas daquela santa hospedaria, resolveu mostrar nossa cara. Entrou no imenso pátio, nu, balançando os documentos e gritando: — olha aqui procês, seus quadrados. Montes Claros é foda!!!
Mário residia, ora em Montes Claros, ora em Belo Horizonte. Era grande amigo de seu irmão, também Mário, só que Genival Tourinho. Genival, na ditadura, antes de ser federal, foi deputado estadual e Mário sentia-se seu mais fiel escudeiro. Ai de quem falasse mal do irmão! Ai de quem o perseguisse. Eu trabalhava no Edifício Dantés, no escritório do Prof. Marcos Afonso de Souza. O escritório de Genival era no mesmo andar. A Assembléia era na Tamóios, ali bem pertinho. Por volta das três horas da tarde, de um 24 de agosto, Mário entrou, possesso, em minha sala e me disse que havia um boato que iriam prender Genival, que anunciara um discurso em homenagem à memória de Getúlio Vargas, que falecera neste mesmo dia, no ano de 1954. A ditadura proibira qualquer manifestação em memória de Vargas. Mário me disse: — Bala, se tirarem um fio de cabelo de meu irmão eu mando porrada nestes felas. Vamos lá proteger Genival? Perguntem se topei? Claro! Também era e ainda sou muito amigo de Genival. Fomos, os dois, para o plenário da Assembléia. Quando Genival subiu à tribuna, que ficava num plano bem mais elevado do piso, invadimos a área privativa dos deputados e nos postamos, em plano inferior, cada um num dos lados dela. E ali ficamos durante todo o discurso, dispostos a mandar brasa em quem o importunasse. Genival fez um magnífico e corajoso pronunciamento, desceu ovacionado da tribuna e nós ali, orgulhosos seguranças de merda, cheios de brio, crentes que nada acontecera porque os caras tiveram medo da gente. Quanta presunção!!!
Mário montou, em Montes Claros, uma Sapataria, em frente ao Cine Fátima. O nome era “Bububu no Bobobó”. Sapataria pop. Era tão bondoso que se um cara fosse comprar um calçado de trinta cruzeiros e dissesse que tinha apenas vinte pra pagar, Mário logo respondia: — leva essa porra por vinte mesmo! Claro que o negócio, em tais circunstâncias, não prosperou. Havia fornecedores a pagar. Um deles mandou um milico cobrar. Já haviam emitido cinco duplicatas, que estavam vencidas. O cara extorquiu de Mário cinco cheques, de mesmo valor. Cheque dava processo criminal; duplicata, não. Mário foi intimado a comparecer à Delegacia da Lagoínha, em Belo Horizonte. Genival estava em Brasília. O Prof. Marcos estava em audiência. Fui com ele à Delegacia. Eu nem era advogado ainda. Era solicitador acadêmico. O escrevente, um rapaz pedante, quis fichar Mário, que respondeu que não aceitaria, porque tinha identidade civil. O rapaz gritou que ele o respeitasse. Mário falou mais alto: — Por acaso você sabe com quem está falando, hein? Sou Mário Tourinho, filho de Doutor Tourinho, de Montes Claros e você também trate de me respeitar, cê tá entendendo? Ele tinha a mania de encerrar as frases com essa expressão. Eu ali, aprendiz de advogado, ouvindo aquela discussão, tremendo de medo. A sorte foi que o Prof. Marcos chegou e o Delegado era seu ex-aluno na Federal. Quando soube que o mestre se encontrava no recinto, chamou-nos, os três ao Gabinete. O professor explicou o caso da extorsão e Mário simplesmente foi ouvido, sem sujar seus dedos naquela tinta pegajosa. Prevaleceu sua identidade civil, o que era difícil naqueles tempos. O professor saiu da Delegacia e deixou-me encarregado de dar assistência às declarações de Mário. Durante elas, Mário dizia ao prepotente escrevente que ele devia aprender a respeitar os direitos das pessoas. Quando terminou exigiu ler o que declarara e ainda corrigiu os vários erros de português do rapaz, a quem chamou de analfabeto e sugeriu estudar mais um pouco a língua pátria. Tempos depois, eu iniciando minha carreira de advogado em Montes Claros, por ter escritório perto, gostava de participar do bate-papo de fim de tarde, em frente a loja de meu querido e saudoso amigo Fernando Jabbur, a quem tratava, carinhosamente, de “Velho”, porque ele assim também tratava seus amigos. Meu “velho” amigo, era o que significava a palavra no contexto. Beto Guedes também faz assim, só que ele diz “Véi”. Conversávamos umas cinco pessoas. Mário se aproximou e disse: — Jabbur, esse Bala Doce é um frouxo. Quase fui preso em Belo Horizonte e ele nem reagiu. Quase borrou as calças de medo, na Delegacia. Advogado de merda, esse Augustão, viu Jabbur? Gargalhada geral. Aí contei a história aos amigos. O velho Jabbur, com ar filosofal, arrematou: — Qual é Mário, Augustão não é frouxo coisa nenhuma, você é que é corajoso demais.
Quando Mário fez 34 anos, Telé fazia 43. Eu era Presidente da 11ª Subseção da OAB. Fizemos um jantar para Telé, no Intermezzo. De repente chegam Mário e Benedito Maciel. Bené pede a palavra e diz: — O nosso amigo Telé faz 43 anos. O nosso amigo Tourinho faz 34. No ano que vem, Telé fará 44 e Tourinho 35 e não terá mais nada a ver uma coisa com outra. Tenho dito! E todos cantamos um belíssimo parabéns para os dois.
Mário foi também poeta e compositor. Num dos carnavais, no bar de Zim Bolão, fez uma música com a seguinte letra: Este ano eu vou pedir Papai Noel/A lua cheia de pinga só pra mim/Papai Noel é um cara legal/Me dá cachaça pr’eu pular meu carnaval. Sobre a Rua Simião Ribeiro, Mário poetou e fez música em parceria comigo: A rua Simião Ribeiro/É a rua do meu coração/Pois além do Roque Camiseiro/Tem o gostoso Bar do Zim Bolão/Eu vou mudar o nome dessa rua/Pra Rua da Felicidade/Pois ali a gente senta a pua/Naqueles que não gostam da cidade.
Mário era fanático por nossa aldeia, tão geraizeiro que inspirou-me a um canto catrumano, que chamei de “Cantrumano”, assim: Ó Minas, não fossem os teus gerais/O que seria de ti?/Serias, digo e não erro/Um imenso monte de ferro.
Esse o meu grande amigo Mário Tourinho Filho, que deixou-nos prematuramente, mas que, por sua bondade, por sua alegria, por sua lealdade, por sua honradez, por sua pureza de alma, merece muito mais do que esta singela homenagem que ora presto à sua memória. Sempre me pego lembrando dele, com imensa saudade. Só lembranças felizes, como feliz foi sua breve vida.


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Por Augusto Vieira - 23/9/2008 17:14:37
TRAIANÇA

Aquele, sim, é que era um capataz de confiança. Bom de gatilho, excelente vaqueiro, tocador de viola, valente e forte como um touro. Já trabalhava na fazenda há mais de vinte anos. Mandara uns quatro cabras safados comer capim pela raiz, por causa do patrão que, propriamente falando, não lhe ordenava matar ninguém: simplesmente dizia ao leal escudeiro que estava com antipatia de determinada pessoa. Essa palavra era o código. Pouco depois o dito cujo se despedia deste vasto e perigoso mundão de Deus, com um furo de bala dundum do lado esquerdo do peito.
O patrão era herdeiro único daquela fortuna, lotada daqueles bois brancos, gordíssimos, que passavam a maior parte de suas vidas com a cabeça inclinada para baixo e a boca colada ao fértil solo, pastando, calmamente, aquele nutritivo capim nativo. Criado na mordomia não era muito chegado ao trabalho. Recebera muito peixe e não se habituara a pescar. Gostava mesmo era de praticar esportes de alcova. E não media esforços nem dinheiro para tal. Com a gorda, alegre e palradeira esposa, apadrinhara o casamento do capataz com Toínha, moça faceira, criada na fazenda e que, sobre ser prendada, ativa e caprichosa, se transformara na mais cobiçada beleza matuta das redondezas. Logo após o casamento, começou a mandar o capataz entregar boiadas em plagas longínquas, vários dias de viagem. E o assédio era diário e sutil. A empreitada, em tais circunstâncias, só poderia ser vitoriosa.
Um belo dia, o capataz aproximou-se do patrão e, em tom grave, disse:
— Patrão, preciso ter uma conversa muito séria com o senhor.
O homem tremeu na hora. O que será, meu Deus? Será que ele está desconfiando? Será que ela contou? Mas controlou-se, pensou um pouco e jogou água fria na fogueira, combinando que, no sábado, iriam à cidade e conversariam.
Cedinho, mal o galo cantou pela primeira vez, sem que ninguém ainda tivesse acordado, saíram na caminhonete, os dois na boléia, taciturnos. O único ruído que se ouvia era o do motor do veículo. Quando o sol já esquentava, o capataz rompeu o silêncio:
— Patrão, chegou a hora de nossa conversa séria.
Novo tremor, desta vez nas pernas. A única coisa que conseguiu fazer foi colocar a mão direita na coronha do 38 que, deliberadamente, colocara na cintura. Era só dar logo um tiro certeiro, à queima-roupa, e deixar o corpo naquele geraizão. Quem desconfiaria?
— Desembucha logo, cabra.
O capataz, na maior tranqüilidade:
— Patrão, Toínha tá traindo nós dois?!?!


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Por Augusto Vieira - 22/8/2008 17:04:51
UMA CERTA BRASILEIRA

Olha eu aqui, gente, me preparando com ela, correndo com ela e saltando com ela!
Olha eu aqui, gente, dando a volta olímpica com ela, com meu corpo envolvido pela bandeira do Brasil e segurando, numa de minhas mãos, uma bandeirola da China!
Olha eu aqui, gente, chorando com ela!
Olha eu aqui, gente, sexagenário, pulando que nem menino e batendo palmas para essa brasileira que sempre me faz lembrar das palavras de Cristo no Sermão da Montanha!
Olha eu aqui, gente, sentindo aquele clima de paz da reparação de uma injustiça, ainda que a vítima, nem, de leve, fale do assunto em seu momento de glória!
Olha eu aqui, gente, me reabastecendo daquela luzinha a que os poetas chamam de esperança!
Olha eu aqui, gente, ainda vibrando com a primeira brasileira que fez o mundo inteiro ouvir o hino de minha pátria!
Olha ela lá, gente, no pódio, segurando, com a mão direita, sua tão sonhada medalha de ouro!
Valeu, Maurren!


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Por Augusto Vieira - 18/8/2008 04:20:35
O PESSOAL DO BANCO DO BRASIL

Gostaria imensamente, neste Brasil meio sem memória, que as pessoas nunca se esquecessem da importância cultural do Banco do Brasil, especialmente no século XIX, para as comunidades interioranas. Costumo dizer que pertenço a uma confederação de tribos chamada Brasil, a uma tribo chamada Minas Gerais e a uma de suas aldeias, chamada Montes Claros. Quando nasci, em 1945, minha aldeia tinha pouco mais de trinta mil habitantes. Não havia uma rua calçada. Era um poeirão danado. Diziam que poeira era vitamina de baiano. E o calorão? Causticante, mas bem menos intenso do que o das almas dos nativos. Minha aldeia era e ainda é muito pobre. Na região a riqueza era bem mais concentrada. Os melhores salários da época eram os das professoras e os dos servidores do Banco do Brasil, esses últimos, provindos dos mais variados rincões deste nosso vasto território brasileiro. Suponho que, embriagados pela beleza de nossas moças, pelos harmoniosos sons das cordas de nossos violões e por nosso arroz com pequi e carne de sol, mal chegavam já iam deitando raízes em nosso solo e nem pensavam em promoções para as comunidades mais prósperas da época. Afinal, minha aldeia era e ainda é a pátria do aconchego. Naquele tempo, casar-se com funcionário do Banco do Brasil (quase não havia mulheres dentre eles) era certeza de bom marido, sobrevivência digna e futuro promissor. Os que chegavam solteiros, considerados bons partidos, logo se enamoravam por nossas lindas donzelas vestais. Muitos se casaram com filhas dos fazendeiros mais ricos da região e até impediram, bem informados em matéria econômica, que muitos sogros e sogras trocassem os pés pelas mãos e perdessem ou diminuíssem suas fortunas.
Em meu livro de memórias relembro um fato ocorrido com um deles. Era meu vizinho. Chamava-se “seu” Caçulo. Tinha por sobrenome Leão. Leão Caçulo (não me recordo se com c cedilha ou com dois esses). O grande pinguço da cidade era “Bem Pau Véio”, de estatura elevada e traços finos, irmão de Santim Amorim. Quando parava, por uns tempos, de beber, a abastada família, dona do prédio onde funcionava a agência do banco, o produzia com um belo terno de linho branco, gravata vermelha, camisa de seda e sapatos caros. Inesperadamente, dava uma recaída e virava um molambo. Vendia as roupas e os sapatos para golear. Bêbado, tinha o hábito de aproximar-se das pessoas e ir, logo, dizendo:
— Morreu, leão, eh, tigrão! Cheguei ontem, cê num ouviu o Constellation roncando no céu?
No primeiro dia de trabalho do zeloso servidor, quando ele se dirigia à agência, imaginem só, cruzou logo com “Bem Pau Véio”, que o encarou e exclamou:
— Morreu, Leão!
O homem quis deixar a cidade, na hora, não fossem os convincentes esclarecimentos dos risonhos colegas.
Dos dignos servidores do Banco do Brasil de minha época, alguns já partiram, mas muitos dos que conheci, para minha alegria, ainda estão entre nós, semeando saber e esbanjando cidadania. E nas pessoas desses últimos, quero prestar esta singela homenagem a todos eles, na certeza de que sempre serão bem-vindos a minha aldeia, à minha Vila de Formigas, esses valorosos brasileiros que, sobre cuidarem muito bem de nossa grana, ainda prestaram e vêm prestando relevantes serviços à nossa cultura. Devemos muito a eles. Que Deus os abençoe!


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Por Augusto Vieira - 11/8/2008 13:03:45
DALMO PRETO NA CHINA

Imaginem vocês, caras pálidas, Dalmo Preto na Olimpíada da China. É verdade. Estava lá. Trabalhou pra valer pra conseguir a grana. Dobrou turnos, pegou os mais variados bicos, fez milhares de horas-extras, aposentou-se, mas chegou lá, através de uma agência de turismo. Não teria problemas. Afinal, chinês é tudo igual. Nem precisaria falar. Bastaria gesticular que seria entendido. Na manhã do dia 09 de agosto de 2008, após as dez horas, lá estava ele, no Cubo D’Água, em Pequim, para ver seu ídolo competir. Dalmo Preto, ex-roupeiro do Minas Tênis Clube, de Belo Horizonte, era o maior fã de Thiago Pereira, a quem via quase todos os dias e que lhe dava a maior força enquanto trabalhou no clube. Thiaguinho, como o tratava, sempre parava na rouparia, vários minutos, para um papinho amigo. O problema é que ele enfrentaria um norte-americano, um tal de Michael Phelps. Ele mesmo dissera a Dalmo Preto que seria muito difícil subir ao pódio. Mas o velho roupeiro foi lá assim mesmo, gritar o nome do menino, como sempre, só que, dessa vez, numa ocasião muito especial. Seria numa Olimpíada. E na China, do outro lado do mundo. Sentou-se numa cadeira de um dos compartimentos, próximo ao em que se encontravam dois senhores, um deles já bem velhinho. Notou que suavam às bicas. Na China todo mundo deve ser igual, pensou. Velho deve ser tratado do mesmo modo que as pessoas mais novas. O calor estava insuportável. Teve dó do mais velhinho. O mais novo devia ter tomado umas antes, porque suava às bicas. Sempre solícito, apesar da idade também provecta, saiu do recinto, foi a um tipo de lanchonete que encontrou na entrada do Cubo D’Água e comprou um saco de pipocas e uma coca-cola, daquelas de máquina, num gigantesco copo de papelão. Voltou e, através da grade que separava os compartimentos, ofereceu a coca e as pipocas ao velhinho, que se levantou, aproximou-se dele, aceitou de bom grado a oferenda e agradeceu. Menos de dois minutos após, aparecem dois guardas. Achou que seria preso. Seria proibido comprar alimentos antes das competições e levá-los às arquibancadas? Não entendia nada do que falavam. Pelos gestos, notou que queriam que os acompanhasse. O que fazer? Perderia aquele momento sagrado de ver Thiaguinho nadar numa Olimpíada? Os policiais o conduziram até uma porta de duas folhas, daquelas imensas, bem chinesas, que davam para um túnel. Pensou: tô ferrado! Que nada. De repente apareceu à sua frente, mais uma vez, a belíssima piscina olímpica. Os guardas apontaram para o senhor cuja sede ele matara, que lhe fez, sorrindo, um sinal de positivo, com o polegar. Eles, então, mandaram-no sentar numa poltrona. Veio a largada. Quase sem voz de tanto gritar, viu Thiaguinho chegar em oitavo lugar. O tal de Phelps, sobre quem Thiaguinho lhe falara no Brasil, quebrou o recorde mundial. Matou a pau. Encerrada a prova, antes da premiação, um rapaz se aproximou e lhe perguntou, em português, de onde viera e o que fazia. Respondeu que viera de Belo Horizonte e era roupeiro aposentado do Minas Tênis Clube. Falou, ainda, que viera aos jogos apenas para ver aquela prova de Thiaguinho, a quem conhecia desde menino e que, logo em seguida, pegaria um avião para Lisboa, onde residia uma irmã que não via há muitos anos. O rapaz, bem vestido, de terno e gravata, agradeceu as informações e se retirou. Em menos de cinco minutos retornou e perguntou a Dalmo Preto se ele queria uma carona de avião até Portugal. O velho roupeiro desconfiou, porque sabia que quando a esmola fosse grande demais, qualquer santo desconfiaria. O rapaz argumentou que ele não se preocupasse, porque o avião do velhinho, cuja sede matara, era dos melhores e ele não correria qualquer risco. Pensou logo na grana que lhe sobraria para a visita à irmã. Aceitou, titubeando. Marcaram encontro no aeroporto. Perambulou pelas ruas de Pequim umas oito horas, partiu para o aeroporto e ainda deu uma cochiladinha numa poltrona, próxima ao local combinado para o encontro. Foi acordado pelo mesmo rapaz, que o levou a uma sala muito chique, onde apresentou seu passaporte a um china imenso, que leu tudo, revistou-o e, com os olhinhos quase fechados, mandou-o embarcar num imenso avião à jato. Rapaz, que luxo a aeronave do velhinho. Como estava cheirosa. Vários compartimentos. Cansado, dormiu o vôo inteiro, numa aconchegante poltrona, depois de lhe ser servido um farto e saboroso lanche por uma comissária de bordo que mais parecia uma misse. Acordou quase chegando a Lisboa. O avião pousou. Quando ia descendo as escadas, os dois senhores se aproximaram. O velhinho estendeu-lhe a mão e perguntou-lhe o nome. Deu seu nome aos dois. Depois, o velhinho disse, em português macarrônico: Muito prrazerrr. Obrrigado. Meu nome é Jorge. Só não entendeu o sobrenome: “fada”. O outro apertou-lhe a mão e disse o mesmo nome. Deveria ser parente do velhinho. Só não entendeu, também, seu sobrenome: “san”. Que sobrenomes mais esquisitos! Desceu as escadas e um imenso carro preto, com uma bandeirinha no capô, já o esperava, na pista. Deu ao motorista o endereço, já grafado, a lápis, numa amassada folha de caderneta. Conduziram-no até o barraco da irmã, num bairro da periferia de Lisboa. Quando entrou na casa, a irmã, o marido e o filho deles estavam na sala, vendo televisão. Ficaram felicíssimos com a surpresa de sua chegada. Ainda mais naquele carrão todo embandeirado. Demoradamente e com detalhes, narrou-lhes tudo o que acontecera. De repente, o senhor mais moço aparece na telinha. Diziam que ele era o Presidente dos Estados Unidos da América do Norte. Dalmo Preto voltou a pensar com seus botões: esse negócio, cara, é coisa de São Jorge. Vou é num terreiro esclarecer tudo isso. Ele deve ter baixado em Pequim pra ver as provas de hipismo e resolveu dar uma passadinha no Cubo D’Água. Se esse cara for mesmo o Presidente dos Estados Unidos como é que eu não vi o Lula, lá, torcendo por Thiaguinho?


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Por Augusto Vieira - 8/8/2008 05:55:00
GODOFREDO LOTOU O PALÁCIO DAS ARTES

Coisa mais linda a homenagem que Belo Horizonte prestou a Godofredo Guedes na comemoração de seu centenário. O show, com o grande teatro do Palácio das Artes completamente lotado, foi aberto pela voz do produtor musical Jackson Martins, que emocionou-me com um agradecimento feito a mim e anunciou o neto de Godofredo, Gabriel Guedes, filho de Beto Guedes, que veio ao palco e comandou, a partir de então, todo o evento. Na platéia os pais de meu querido amigo Paulinho Pedra Azul. Gabriel, com muita classe e espontaneidade, agradeceu a presença de todos e não deixou de homenagear os conterrâneos presentes. Anunciou o pai, Beto, que brindou o público com uma linda canção de abertura. Entre a apresentação de um e outro artista, Gabriel tocava, no bandolim, composições do avô, arrancando calorosos aplausos. Aos poucos foram desfilando os convidados: Lô Borges, Paulinho Pedra Azul (que homenageou a memória de “tia” Júlia), Marina Machado, Tavinho Moura e Toninho Horta. Beto voltaria à cena mais duas vezes para novos números. Os conjuntos musicais e vocais que acompanharam os artistas foram simplesmente maravilhosos. Dentre os músicos estava Ian, irmão de Gabriel. Várias músicas do avô foram tocadas por Gabriel num majestoso piano de cauda que enfeitava o palco. A descontração foi a tônica deste show que eletrizou a platéia do princípio ao fim, momento em que todos, artistas, músicos e público, pareciam estar dando um cósmico abraço em Godofredo, através dos sublimes acordes de sua música “Cantar”. Gabriel não se esqueceu de trazer ao palco duas netinhas do homenageado, crianças que só o enfeitaram, qual lindas flores. Não se esqueceu também de homenagear a memória do tio, Hélio Guedes, nosso querido Patão, que nos deixou recentemente. Enfim, a arte da família Guedes encantou, mais uma vez, Belo Horizonte. Valeu, Gabriel. Valeu, Jackson Martins. Foi lindíssimo. Dá vontade de ver de novo, várias vezes. Ainda bem que vocês gravaram. Meus queridos Gabriel, Ian e Beto, que vocês continuem sempre assim, felizes, honestos, trabalhadores e artistas, integrantes desta majestosa constelação que tem em seu centro a luz divina desta fulgurante estrela chamada Godofredo Guedes.


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Por Augusto Vieira - 1/8/2008 17:19:53
BALA E OS CACIQUES

Fui edil, por quatro anos, na Câmara Municipal de minha aldeia. O Prefeito era Toninho Rebello, meu fraterno amigo. Fui seu líder durante quase todo seu mandato, reconduzido por ele, anualmente. A ditadura prorrogou os mandatos dos vereadores e prefeitos sem consulta popular e renunciei ao meu, pois, por questão de princípios, entendi que a vontade popular fora lesada. Respeitei as posições dos que ficaram. Toninho compreendeu minha posição e a respeitou, o que era característica marcante de sua personalidade. Fiz concurso para juiz de direito, logo em seguida, fui aprovado e assumi a nova carreira. Deixei a política partidária, mas nunca deixei de ser político, como cidadão.
Agora, que se aproximam as eleições municipais de minha aldeia, quero deixar bem claro que não tomarei posição a favor ou contra nenhum candidato a prefeito ou vereador, simplesmente por ser amigo de quase todos e por devotar a quase todos o meus mais profundo respeito. Senão, vejamos:
Jairo é primo amigo, filho do único irmão vivo de meu pai, meu querido tio Air. Fomos criados juntos. Nossa afeição nunca se abalou durante nossas existências. Às vezes navegamos barcos diversos, mas sem nunca perder o rumo de nossa sincera amizade. Anamaria tornou-se uma das primas que mais admiro e respeito. Mulher valorosa, digna, hoje está deputada. Tenho orgulho disto. Orgulho dela e de seu marido, meu querido primo.
Humberto Souto foi companheiro inseparável da administração de Toninho. Conseguiu incluir nossa aldeia no programa de cidades de porte médio, o que possibilitou uma revolução urbana em suas plagas. Mas já era amigo histórico de minha família. Nossa amizade cresceu muito através de dois amigos comuns: Toninho e Mário Ribeiro.
Tadeu foi meu colega de Câmara. Era o grande opositor de Toninho. Tinha o programa “Boca no Trombone” onde fazia duras críticas à nossa administração. Discutíamos na Câmara nossas teses, nossas visões de mundo e nossos projetos para nossa aldeia, sem nunca perdermos o respeito um pelo outro. Saíamos das reuniões irmanados, com a consciência de que havíamos cumprido nossos deveres cívicos. Anos depois, eu já aposentado, ele Secretário de Justiça, indicou-me ao governo mineiro para ser Procurador-Chefe da Defensoria Pública, função que exerci por sete meses e que muito me honrou a vida.
Athos é meu amigo. Ele e Vera. Sou fã deles, desde que retornaram a nossa aldeia, casados, para iniciar suas profissões de médicos. Por sinal, é ele o político com quem tenho mais afinidade ideológica. Guardo-o como uma pessoa muito bondosa que recebeu, do berço, heranças imensuráveis de dignidade e honradez. Torço para que tudo que ele faça dê certo.
Carlinhos Pimenta conheci menino. É filho de um dos maiores amigos que tive, Lourenço Pimenta de Figueiredo. Sua mãe, D. Therezinha, é uma pessoa maravilhosa que, por minha amizade ao marido, tornou-se também minha amiga. Recordo-me do dia em que comemoramos sua vitória no vestibular de medicina. Depois Carlinhos foi meu colega de Câmara Municipal e sempre me ajudou a aprovar grandes projetos da administração de Toninho. Até hoje, quando nos encontramos, fazemos festa em celebração de nossa amizade.
Arlinho, filho de minha querida Rita, minha ex-aluna, foi também meu aluno da Faculdade de Direito, depois de já formado em Medicina. É neto de meu querido Chiquinho Santiago, um dos ícones do Cassimiro de Abreu e que me ajudou muito quando exerci a presidência do clube. Casou-se com uma filha de meu querido “tio Bila”. Tenho o maior orgulho dele. Sou, em relação a ele, aquele velho mestre que vê o ex-aluno se distinguir na vida e que se emociona a cada passo que ele dá.
Gil Pereira, foi meu vizinho da irmã Beta, filho de meus queridos Josué e Walquíria, sobrinho de meu saudoso “tio” Digas. Sempre admirei Gil e antevia, conversando com sua mãe, seu brilhante futuro político. Dizia a ela: Walquíria, esse seu menino vai longe na política, porque tem uma maneira toda especial de conviver com as pessoas. Como respeita a todos!
Ruy Muniz é irmão de meu atleta do juvenil do Cassimiro, Carlinhos, hoje renomado artista internacional. Não convivi muito com ele. Confesso que passei a gostar dele, e muito, pela maneira educada e sincera com que sempre me distinguiu, onde quer que nos encontrássemos. Daí, foi um pequeno passo para o nascimento de uma nova amizade. Fui, com muito prazer, à festa de suas Bodas de Prata. Hoje o considero um amigo e um atuante defensor de minha aldeia.
Pois é, minha gente, vocês aí que briguem, se quiserem. Eu, Bala, do altar de minha doce senectude, amparado pelo Estatuto do Idoso, jamais me meterei nas campanhas políticas daí, simplesmente porque gosto de todos, admiro todos e torço pelo sucesso de todos. Essa minha boa gente sempre me encheu de orgulho e não posso deixar de mencionar um dos momentos em que isso mais se revelou em minha vida: foi quando meu querido amigo José da Conceição Santos, que conheci garçom da Cristal, de Josias Loyola, tomou posse como Secretário de Estado destas nossas Minas, tão Gerais. Que venham outros orgulhos. Eta Montes Claros bão, sô!!!


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Por Augusto Vieira - 29/7/2008 16:45:56
O BREVÊ DE GEGÊ
Gegê Gomes, filho dos saudosos “Antônio Minha Nora” e “Tia Mariquinha”, desde a infância, gostava de aviação. Maduro, resolveu se brevetar. Aplicado e inteligente, estudou aqueles manuais complicadíssimos e aprendeu, logo, a controlar o complicadíssimo “passarin de ferro”. Com louvor, tornou-se piloto. Nunca havia ingerido bebida alcoólica. É costume dos aviadores, depois que o aluno se torna apto, dar-lhe um banho de champanhe. Gegê, a contragosto, tomou o seu e, ainda, no embalo dos colegas e instrutores, pela primeira vez, encheu a cara. Chegou à sua casa completamente bêbado. Entrou, cambaleando, pelo portão lateral, foi até um tanque que havia no imenso quintal e pisou na cabeça de um jacaré. “Tia” Mariquinha saiu na varanda e deu a maior bronca, mais preocupada com a segurança do filho do que com seu estado etílico. Gegê fitou a mãe, sério, e, pastosamente, argumentou:
— Ô maínha, pára de me xingar. Hoje me tornei piloto e só tô comemorando. Foi a primeira vez que bebi em minha vida. Fique a senhora sabendo que Cláudio Athayde e Haroldinho Veloso chegam em casa assim, direto e reto, e as mães deles nem ligam.
A bondosa “Tia” Mariquinha, sorrindo, pediu a Robertão que tirasse o irmão de perto do bocudo réptil e mandou que lhe preparassem um forte caldo de mocotó.


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Por Augusto Vieira - 23/7/2008 11:56:33
Por que esse preconceito? Devemos eliminar de nossas mentes o preconceito de que as coisas boas da vida só acontecem no chamado primeiro mundo. Essa classificação dos "mundos" é de natureza eminentemente econômica. Culturalmente temos muitas coisas que superam o primeiro mundo. E até politicamente e economicamente também. Por outro lado, a miséria é também encontrada em todos os países desse chamado primeiro mundo. É só você não se iludir e encarar a realidade. E a miséria deve nos tocar e nos levar a protestos contra ela em qualquer lugar em que a vejamos, pois somos, todos, irmãos pela humanidade. Vi misérias terríveis nos Estados Unidos da América do Norte. Elas ainda estão lá, onde ainda há muita violência, até bem mais que aqui. Sou bisneto do Barão de Gorutuba, o velho Ângelo de Quadros Bittencourt, citado na recente crônica de Dário Cotrim, neste nosso Mural, intitulada "Os Borós da Fábrica de Tecidos", e estou orgulhoso da grande cidade do Vale do Gorutuba. Cumprimento seu povo, na pessoa de seu Prefeito Municipal Ivonai Abade Brito, por ter reduzido o índice de mortalidade infantil. Isso, sim, é que é cuidar do futuro e merece todo meu aplauso. Em tempo: meu caro Dário Cotrim, não tenho seu e-mail e, através do Mural, peço sua autorização para publicar sua crônica em meu site e em meu novo livro. Ficarei muito grato se você me der essa autorização. Quero também passar aos pósteros a carta que meu saudoso e querido primo Alpheu Gonçalves de Quadros escreveu ao não menos saudoso e querido Simeão Ribeiro Pires


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Por Augusto Vieira - 9/7/2008 07:07:53
JK, O BISPO, OS VEREADORES E A ZONA

A antiga zona boêmia de Montes Claros quase que se concentrava nas imediações de nossa majestosa Catedral, onde também se localizavam grandes casas comerciais. Ninguém mais do que uma rapariga gosta de morar perto de onde corre a grana. Chegou um novo Bispo e implicou com aquilo. Um absurdo. Onde já se viu zona boêmia ao lado de igreja? S. Exa. Revma. procurou o Prefeito e pediu que ele mandasse um ofício à Câmara, solicitando autorização legislativa para desapropriar as casas daquelas mulheres “perdidas”, tão facilmente encontradas. E lá se foi o ofício. Só que muitos vereadores do PSD, inclusive meu pai, tradicionais boêmios, acharam aquele pleito um tanto discriminatório. Que mal faria à cidade aquelas “raspadeiras de tristezas”, como diz Armênio Graça Filho, viverem como qualquer outra pessoa, nos locais que escolhessem para suas moradas? E votaram contra o pleito do bispo, endossado pelo alcaide. O poderoso prelado ficou uma fera e foi ao Governador do Estado, que era Juscelino Kubitschek de Oliveira, também do velho PSD. JK não poderia contrariar seus correligionários. Inteligente e conciliador como ninguém, encontrou, rápido, a solução. Procurou o Núncio Apostólico e conseguiu a promoção do Bispo ao cargo de Arcebispo. E foi assim que nossa aldeia trocou de bispo. Mais compreensivo e humano, respeitador dos direitos de nossas sacerdotisas, o novo prelado compreendeu que o progresso, naturalmente, faria com que a zona boêmia mudasse daquele local, o que efetivamente ocorreu no decorrer da História.
Se duvidarem do que ora lhes conto, perguntem ao Procurador de Justiça, professor de Direito e grande advogado Noraldino Rocha Machado, meu fraterno amigo, que me narrou esses fatos, durante as comemorações de nosso sesquicentenário


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Por Augusto Vieira - 3/7/2008 14:37:05
ADEUS, PATÃO!

Homenagear um grande amigo, que partiu justo no dia do aniversário da cidade em que ele nasceu e amou, 03 de julho, é muito penoso. Um artista como Hélio Guedes, meu querido Patão, nunca morre. Apenas desencanta. Fica gravado na memória dos parentes, das pessoas que o amaram e com ele conviveram. Através de sua arte, perpetua-se também na memória de todos os que não tiveram a ventura de conhecê-lo pessoalmente. Recebi a notícia hoje, às 14:00 horas, apenas três antes do enterro, que será em Montes Claros, através de Luís Novaes, o “Peré”, que tanto quanto eu, privou da amizade e do convívio com essa figura maravilhosa que Deus pôs no mundo e levou um pouco antes da hora. Só me resta republicar um poeminha que lhe fiz há uns seis meses.

E lá vem ele, soberano, pela Rui Barbosa,
Com tênis, calça jeans, colete e seu “oclin”,
Buscando amigos prum naco de prosa
Observando tudo, tim tim por tim tim.

De repente ouve, ao longe, um grito antigo
Pára, procura circunspecto o autor do brado
E vê dois braços lhe estendendo abrigo:
É Tico Lopes, sorrindo emocionado.

Depois do abraço, num banco da Praça
Onde existia o mais lindo Mercado
E agora existe um predião sem graça
Deixam o papo de sempre atualizado.

Levantam âncoras. Ao Café Galo!
Quem sabe pra rever linda mulher
Desfilar, sem passarela e no embalo
De ardentes olhares de quem não a quer.

A cervejinha? Não sem a guia: “Viriatinha”.
Estalam a língua, saboreando o “mé”,
Na esperança de por ali dar uma voltinha
Um grande amigo, Haroldinho, o “Cabaré”.

E não é que ele aparece? Foi milagre?
Eta, o homem chegou! Ô trio “bão”!
Só tomando mais uma, seu cabeça de bagre!
Isso é hora de chegar? Que dormição?!?!

E descem os três à Praça da Matriz,
Celebrando a vida e o encanto da amizade,
Ao encontro de um imenso ex-Juiz
Que os espera desde o cair da tarde.

E o paquiderme, ao vê-los, se levanta
E solta fogos temporões de “seu” Firmino.
E na Igreja Padudu, solene, canta
Em homenagem ao amor um novo hino.

E esta visão e este momento terno
Naquela Praça, antes florida e bela,
Patão, amigo, artista, imortal e eterno,
Registra tudo numa imensa tela.


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Por Augusto Vieira - 25/6/2008 21:36:00
O BRASIL PERDE UMA GRANDE MULHER

Ruth Valença Correia Leite Cardoso, paulista de Araraquara, foi uma das maiores antropólogas brasileiras. Deixou-nos aos 77 anos. Doutorou-se pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, onde foi professora e pesquisadora. Teve brilhantes passagens, nas mesmas áreas, por várias universidades estrangeiras, dentre elas Chile, Berkeley e Colúmbia (USA) e Cambridge (Inglaterra). Publicou vários livros e trabalhos acadêmicos sobre imigração, movimentos sociais, juventude, meios de comunicação de massa, violência e cidadania. Esposa do Presidente Fernando Henrique Cardoso, durante oito anos, teve marcante atuação como primeira-dama (não gostava deste epíteto), especialmente no programa por ela criado, o Comunidade Solidária. Publicou vários livros e organizou uma obra importantíssima para a antropologia, chamada “A Aventura Antropológica – Teoria e Pesquisa”. Humilde, não gostava das vanglórias. Solidária, sempre trabalhava em equipe. Cultíssima, era serena e tranqüila. D. Ruth pautou sua vida por rigorosa ética e por uma dignidade inigualável, fugindo sempre das baixezas humanas que sondaram sua atuação acadêmica e sua condição de esposa de Presidente da República. Não guardou nem incentivou ódios. Foi bondosa. Sua intocável memória será sempre uma luz a iluminar nossos caminhos, especialmente os das as mulheres brasileiras no que concerne à sua independência e libertação dos históricos jugos a que foi e ainda está submetida. Valeu, D. Ruth. Todos estamos de luto pela Senhora. A Senhora fará muita falta ao Brasil.


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Por Augusto Vieira - 19/6/2008 12:07:10
FUTEBOL DUNGADO

Gustavo Linhares é um atleticano tão doente que, quando o Galo jogou contra o Botafogo, de portões fechados, pegou um avião, foi ao Rio, atravessou a ponte, chegou a Niterói, subiu numa árvore das proximidades do estádio e, durante a partida, com um rádio de pilha colado aos ouvidos, ficou gritando o tempo todo: Galôôô! É brilhantíssimo advogado aqui em Belô e costuma me ligar, convidando para ir ao Mineirão. Foi colega de Faculdade de meu filho. Quando recebo esse amável convite sempre respondo: me respeite, menino, já vi Zizinho jogar. E fiz a mesma coisa ontem, quando convidado por ele, mais uma vez, para ir ao Mineirão. Acertei, como sempre, na mosca. Está muito difícil, para mim, ver um jogo de futebol nos estádios. Aposentaram a arte. Ontem dormi, à frente da TV, no segundo tempo. Ainda bem que meu querido primo e colega de Faculdade, Antônio Soares Dias, fazendeiro do Brejo das Almas, não pôde vir ver o jogo aqui em casa, conforme havíamos combinado durante nosso almoço. Esse futebolzinho de rigorosa marcação, muito preparo físico e sem criatividade, especialmente por parte dos jogadores do meio de campo, me dá muito sono. Ah, que saudade do mestre Ziza, de Pelé, Garrincha, Gérson, Tostão, Zico, Falcão, Bené, Reinaldo e tantos outros craques que nos brindavam com a prazerosa arte de jogar bola! E o Brasil se impôs ao mundo do esporte bretão justo devido a isso. Os campos de pelada foram substituídos por escolinhas que, muitas vezes, forçam a barra e tiram dos meninos a criatividade e o prazer de jogar pelo simples prazer de jogar. Um dos poucos caras que ainda vejo jogando bola como se deve fazer é um portuguezinho chamado Cristiano Ronaldo, secundado por dois gaúchos, Alexandre Pato e Anderson. O resto anda muito convencional. Muito dungado pra meu gosto. Não vou mais a campo, enquanto estiverem jogando assim, porque fui peladeiro do largo da Igrejinha do Rosário de minha aldeia. “Tchau e bença” pra essas máquinas de jogar bola!


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Por Augusto Vieira - 10/6/2008 21:52:46
AMORMEUZINHO-DE-CADA-DIA

De onde vem a palavra namorar? Namorar, esse verbo transitivo direto, quase divino, é aférese (supressão de um fonema ou grupo de fonemas de uma palavra) do verbo enamorar, que traz, ínsita, a palavra amor (en+amor+ar). Começou a ser usado no século XIII, no início do período histórico a que denominamos Idade Média, naquela fase romântica em que os cancioneiros produziam lindas trovas às mulheres amadas. Se atentarmos para a evolução dos idiomas, constataremos que, efetivamente, esse verbo quase não teve similares, porque as mulheres, principalmente no sistema patriarcal, eram meros objetos (salvo nas tribos primitivas, quando foram livres, por elas se conhecia a descendência e podiam ter filhos com vários homens). A escravização das mulheres se deu quando os homens se apropriaram dos bens de produção, o que resultou, historicamente, na estrutura familiar chamada monogâmica, judicioso artifício para garantir a perenização dos patrimônios individuais. Mas as mulheres conquistaram o até hoje limitado direito à meação. Impuseram-se até tornarem-se donas da metade, na difícil arte da chamada vida em comum, que só em raríssimos casos o é verdadeiramente, porque fidelidade sempre foi e será avis rara em qualquer família estruturada muito mais pelo liames do patrimônio do que pelos sagrados laços do matrimônio. As mulheres foram escravas por séculos e não temos a mínima culpa disso. Foi a própria monogamia que as escravizou. O que seria opção de corações apaixonados tornou-se obrigação, dever conjugal, legalizado. Na prática, só para elas. Hoje, neste nosso século XXI, em que elas ainda estão se libertando e já deram passos gigantescos no sentido de conquistarem suas identidades, as coisas já mudaram bastante. E acho que para melhor. Deus me livre das antigas teúdas e manteúdas! Tanto isso é verdade que, antes, quando a gente pronunciava o verbo namorar, nosso pensamento se direcionava quase que exclusivamente ao universo feminino. Isso porque as mulheres eram meros objetos, inclusive de nossos amores, nunca sujeitos deles. Hoje, tendo conquistado, principalmente pelo trabalho, rudimentar independência econômica, também vão elas conquistando o direito de amar. Dificilmente se ouvia um poema dirigido a um namorado. Já há inúmeras mulheres cantando, em verso e prosa, o fulgor e a beleza de seus amores livremente escolhidos. Assim, para escrever atualmente sobre o Dia dos Namorados, impõe-se ter em mente que o sentido do verbo namorar desmasculinizou-se e adquiriu vários outros contornos: homo, bi, trans, metro, etc. É, meu caro leitor, sem embargos dos preconceitos ainda existentes, o vetusto verbo medieval tornou-se também genérico. Há amor onde habita o coração e há namoro onde há amor, pouco importando a sexualidade, mera opção das pessoas. O que importa é a presença do amor, ainda que entre militares de mesmo sexo, como se viu no recente caso brasileiro que veio à tona na mídia. O que fica patenteado é que nada conseguiu ou conseguirá apagar dos corações humanos o sublime pulsar do amor. Amor das mais variadas formas, diferente em cada um de nós, mas essencialmente amor. Amor inerente a nós porque fonte de nossas existências. Amor bandido, até, mas amor, porque, como disse Chico Buarque, no “Choro Bandido”, “mesmo sendo errados os amantes seus amores serão bons”. Por tudo isso, meu caro leitor, rogo-lhe, neste Dia dos Namorados, chamar, carinhosamente, seu grande amor, como fez meu querido amigo Fernando Brant, de “amormeuzinho”. E que esse amorseuzinho-de-cada-dia sempre encante sua vida. E que você de tudo a ele seja atento antes, como nos ensinou Vinicius de Moraes, no “Soneto da Fidelidade”. Feliz Dia dos Namorados!


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Por Augusto Vieira - 4/6/2008 02:11:51
“BAIÃO DE DOIS”

Acabo de ler, no Mural, pela terceira vez, a crônica de Jorge Silveira, intitulada Candelabro Italiano, em que ele, com seu consagrado estilo literário, faz um interessante paralelo entre o uso das lambretas e motos de ontem, com as de hoje. Enquanto as de ontem eram usadas para as paqueras, para a conquista dos objetos dos amores dos rapazes, as de hoje, pelo menos em nossa aldeia, são utilizadas para assaltos à mão armada. É, Jorge, a gente era feliz e não sabia.
Jorge cita um meu escrito sobre a turma de Gerinha Português, da qual sou, até hoje, com muita honra, modesto integrante e diz que nós babávamos de inveja quando líamos, na coluna social de Lazinho Pimenta, a notícia das “Festas da Cueca”, promovidas por Hamilton Didier Guimarães, nosso estimado Mimi, alagoano que residiu por muitos anos em Montes Claros, nas quais só era permitida a entrada dos rapazes que tivessem lambreta, com honrosa exceção ao Lazinho.
Realmente, meu caro Jorge, pelo fato de possuírem lambretas, Waldir Aguiar, Márcio Milo, Agnaldo Drumond, você e outros, levavam a maior vantagem nas paqueras, porque isso era a onda da época. Nós, da turma de Gerinha Português, vivíamos, na verdade, era sem grana. Enquanto vocês já trabalhavam e ganhavam o seu nós éramos sustentados por nossos pais e, naquele tempo, o vil metal era bem curto para os imensos encargos. Mesmo se sobrasse algum, eles não liberavam, até com medo de que caíssemos na gandaia. Vocês, ao contrário, jovens e já trabalhadores, independentes, ganhavam sua própria grana, o que lhes permitia comprar e manter suas lambretas e ainda, depois das bem sucedidas paqueras, arrematarem as noitadas no Mangueira e na casa de “tia” Leobina. Nós mal tínhamos dinheiro para ir ao Bequinho, de vez em quando, amar uma sacerdotisa.
Agora, Jorge, o que mais me fez meditar depois de ler sua crônica foi a análise – posso estar errado e peço a você antecipadas desculpas – sobre o bem que a liberdade sempre faz às pessoas. E parto, com toda pureza, de meu próprio caso. Vocês, na juventude, tiveram grana própria e se divertiram a valer, porque trabalhavam. Nós, dependentes dos pais, só passamos a ter a nossa já adultos. Vocês, pela liberdade conquistada na juventude, tornar-se-iam, depois, ótimos maridos, não por imposição, mas por opção. Isso porque aproveitaram, ao máximo, a juventude, até se cansarem e se acomodarem. Nós, ao contrário – aconteceu comigo e, creio, deve ter acontecido com muitos de meus amigos –, quando passamos a ter nossa própria grana, não resistimos àquela vontade louca de fazer coisas que não fizéramos na juventude. Será que foi isso mesmo que aconteceu? Só Freud para explicar.
Outro dia, Jorge, casa de Zé Augusto, em Angra, relembrávamos essas histórias. E Bárbara, minha sobrinha, fez um vídeo de nossa conversa, sempre repetida em nossos encontros, especialmente nas nossas costumeiras festas de natal, na casa de Saulo, aqui em Belô. Dentre elas há a da macarronada (nosso dinheiro só dava para esse prato ou para um mexidão, o famoso “Baião de Dois”) do Espeto de Ouro, em que Olguinha, cozinheiro gay, fã de Saulo, a quem considerava o rapaz mais bonito da cidade, punha, às escondidas, por debaixo de nosso macarrão, no fundo da travessa, um filezão à milaneza, até que Zé Amorim descobriu, espetou-o com um garfão, daqueles do capeta, saiu com ele, pingando gordura, por entre as mesas do restaurante, dizendo que aquele cozinheiro, veadinho, ainda o levaria à falência. Há a de Zé Augusto, que pedia à mãe para demorar, um a dois meses, para lhe presentear com uma camisa, para que pudesse juntar mais grana e comprar outra mais cara, em moda na época, usada pelos rapazes das famílias mais abastadas da cidade. Há as das festas em que éramos barrados ou recebidos com desprezo, simplesmente por não verem em nós futuro promissor. E como rimos, hoje, disso tudo. Vocês, tal qual nós, também eram e são pessoas humildes, só que já em suas juventudes ganhavam sua própria grana e puderam namorar à vontade, comprar suas lambretas, pagar seus cuba-libres no Mangueira e os amores das moças de “tia” Leobina. Isso, para nós, naquele tempo, era aventura quase proibida, raríssima e inusitada.
Só peço a você, meu caro amigo, bem assim a Waldir Aguiar, Agnaldo Drumond, Márcio Milo e aos demais membros de sua gostosa turma, que renovem o “pacto do silêncio” por, pelo menos, mais uns cinqüenta anos para que sejam preservados os segredos de algumas maravilhosas vovozinhas de hoje. Quanto às “Festas da Cueca”, nos réveillons da casa de Mimi, saibam que eu teria gostado imensamente de ter participado. Só que nunca me convidavam. Mas também quem mandou eu não ter minha lambreta!? Paciência!!!


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Por Augusto Vieira - 25/5/2008 11:38:03
EM MEMÓRIA DE EDVALDO VERSIANI DOS SANTOS

Nos idos de 1958, quando retornei do Colégio D. Bosco, de Cachoeira do Campo, para cursar a terceira série ginasial, na Escola Normal, tornei-me colega de sala de Edvaldo Versiani dos Santos. Era um rapaz inteligente, forte, bonito, rico, humilde, de pouca conversa e muito tranqüilo. Por detrás de aparente timidez, revelava-se comunicativo, bondoso e solidário. Com o tempo comecei a freqüentar sua majestosa residência, na Viúva Francisco Ribeiro, em frente à casa de meu tio Air, muitas vezes para estudarmos para uma ou outra prova. “Seu” Zacarias e D. Bembem tratavam-me com o maior desvelo. Conheci Djalma, seu irmão, um pouquinho mais velho que nós, já rapagão, cobiçado pelas moçoilas da cidade, porque também bonitão, inteligente e grande atleta. Djalma nos dava muitas dicas de como nos comportarmos no relacionamento com as meninas. Rodamos por esta roda viva. Edvaldo tornou-se otorrinolaringologista, passou a exercer a profissão em nossa aldeia e casou-se com Elizabeth, filha de meus queridos padrinhos de formatura de científico e amigos pelo resto de nossas vidas, Simeão Ribeiro Pires e Terezinha Gomes Pires.
A vida, poetou Vinicius de Moraes, é “a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida”. Eu sempre me lembrava desse verso quando, adulto, esporadicamente revia Edvaldo, a quem chamava, carinhosamente, como na juventude, de Vadinho. Separados fisicamente por nossas andanças e profissões, nunca deixávamos morrer em nossos corações aquela sincera e pura amizade dos bancos escolares. Doeu-me profundamente a notícia de sua doença. Entristeceu-me mais ainda porque ele não merecia tanta dor.
A gente, meu caro Vadinho, na construção de nossos caminhos, transpõe imensos obstáculos, mas só não consegue vencer essa coisa misteriosa a que chamamos morte. Nossa geração chegou numa fase perigosa, em que ela vasculha nossas existências bem mais de perto. Às vezes até sentimos seu cheiro, da mesma forma que sentimos o cheiro de Deus. Como diz a canção, é preciso estarmos atentos e fortes, por não termos tempo de prevê-la. Ela chegou, fora da hora, para você. Poderá vir, da mesma forma, para qualquer um de nós. Só sei que, os que ficamos, continuaremos por aqui, profundamente tristes, certos de que, com sua prematura partida, um bom pedaço de nós também se foi. Onde você estiver, meu caro Vadinho, receba um forte abraço desse seu velho amigo, que se arvora, nesse momento tão triste, através dessas pobres palavras, também representante de Jairo Ataíde, Genésio Tolentino, Valderez Costa, Artur Ramos, Fernando e Paulo Roberto Costa, Bento e Alvimar Barbosa, Paulinho Macedo, José Luiz e João Augusto Vieira e de todos os seus demais colegas e amigos de juventude, cujos corações você conquistou de forma perene. Até breve, querido Vadinho. Que Deus o receba, em paz, por sua breve e honrada travessia!


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Por Augusto Vieira - 20/5/2008 10:38:39
GENIVAL 75 E A MATEMÁTICA

Tive o prazer de participar da festa dos 75 anos de meu querido amigo Mário Genival Tourinho. Eu já comparecera à festa dos 70, no mesmo local, o Automóvel Clube de Belo Horizonte. Essa gente de minha aldeia é mesmo amiga e vivedeira. Encontrei, cinco anos depois, quase as mesmas pessoas, dentre elas, Leônidas, Gilberto e João Jaques Lafetá, Affonso Prates, Alceu Carneiro, Flávio Pinto, Ucho e Fred Ribeiro, Pancho, Marcos Afonso, Finadinho (de Carlúcio Ataíde), Raimundo Tourinho, Carlos Emílio (de Antônio Rodrigues) e Ademir Fialho. Genival é muito querido em Belo Horizonte e, juntando nossa turma catrumana com a da capital, o segundo pavimento do clube ficou completamente lotado, como da vez anterior.
Pois bem, lá pelas três da madrugada, vi Alceu Carneiro e perguntei por sua esposa, Regina. Ele apontou uma imensa mesa redonda, num dos cantos do salão e disse que ela lá se encontrava. Respondi que queria cumprimentá-la. Dirigimo-nos ao local, saudei Regina e resolvi sentar. Aí, fim de festa, foi chegando gente, inclusive o aniversariante. O papo foi tão gostoso que só terminou com o dia amanhecendo. Genival contou várias histórias de Montes Claros. Uma delas me fascinou. Ele era estudante do Colégio Diocesano. Fazia o Tiro de Guerra, motivo pelo qual, não freqüentava habitualmente as aulas de matemática, que eram no primeiro horário, às sete horas da manhã. Tomou segunda-época. O professor, um engenheiro do DER, estava a fim de ferrar aquele aluno faltoso. Dr. Tourinho tratou logo de arranjar aulas particulares para o filho. E sabem quem foi a professora? D. Fernanda Ramos, mãe de Regina, que residia na mesma avenida em que se localizava o Diocesano, nossa hoje transfigurada Coronel Prates. O professor apresentou a Genival um problema, daqueles escolhidos a dedo para bombardear alunos. Genival leu a questão e, embora bem preparado pela mestra, não conseguiu resolver. Ele, então, disse ao professor que estava com dor de barriga e que precisava ir ao banheiro. Obtida a permissão, sob vigilância, Genival entrou no cômodo da instalação sanitária e, sorrateiramente, saiu pela janela dos fundos, pulou o muro da casa de Dr. Hermes, atravessou os quintais de D. Clotildes, de “seu” Aristeu de Melo Franco, pulou os muros de D. Vidinha e de D. Eponina Pimenta, até chegar à casa de D. Fernanda, a quem apresentou a questão. A mestra revelou que aquele problema só tinha duas soluções e que conhecia uma delas. Ensinou a Genival, que agradeceu e, suando às bicas, fez o espinhoso caminho de volta, escalando os mesmos muros com extrema agilidade, até reentrar, cuidadosamente, no cômodo onde se encontrava, pela janela que deixara aberta. Percebendo a vigilância do professor, começou a tossir desbragadamente. O homem tranqüilizou-se e ele se recompôs do hercúleo esforço. Passado algum tempo, retornou à sala de aula e apresentou a solução. O professor, surpreso, não acreditou no que vira e perguntou ao aluno como conseguira resolver aquele problema, no intuito de testar-lhe os conhecimentos. Genival, com ares de sábio, queixo empinado, arrogantemente respondeu:
— Muito simples, professor, apenas parti de um número imaginário...
E foi assim, graças à sabedoria de D. Fernanda Ramos, que o sapeca e inteligente estudante do Diocesano, não tomou a estrondosa bomba antevista pelo chato professor de matemática, que nem era de Montes Claros. E esse eterno menino, no esplendor de suas 75 primaveras, ainda arrematou a história assim:
— Imagine, Augustão, um cara de fora, chato, me dar bomba logo em matemática!?!?


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Por Augusto Vieira - 5/5/2008 03:43:14
PESCADOR DE AMORES E PEIXES

Acabo de ler “Menino Pescador”, primeiro livro de Reivaldo Canela. São belas e bem escritas quase duzentas páginas de memórias, ecologia, filosofia e poesia, em primorosa edição. O estilo literário do autor cativou minha sensibilidade, da primeira à última, em que ele pede a crítica dos leitores para estudar a possibilidade de escrever mais um.
As memórias começam no namoro dos pais do autor. O pai, meu querido e inesquecível “tio” Cândido, uma das pessoas que mais me ensinou coisas boas, durante grande parte de minha vida, foi e ainda é, para mim, um dos diamantes de minha aldeia, sertaneja e universal. “Tio” Cândido foi grandioso, mas não teria sido tanto, se não tivesse a seu lado a bela figura de D. Laurinda, que me tratava com o maior carinho, quando eu, ainda jovem, amante de literatura, visitava meu poeta predileto para conversar sobre livros, especialmente um dos dele, a festejada e consagrada “Lírica e Humor do Sertão”. Reivaldo fala com carinho incomum dos irmãos, dois reis e duas rainhas, não só nos nomes, mas sobretudo na honradez e dignidade, bebidas em fontes tão límpidas, naquela casa florida, de terreno imenso, daquela tão bucólica e antiga praça. Retrata o namoro, noivado e casamento com a vizinha e eterna musa, Shyrley, filha do grande Juca Milo e de “tia” Elza, a quem enaltece a todo momento, especialmente numa “apaichorada” página, a de número 41, única do livro em tipos itálicos. Fala do amor que sente pelos quatro filhos, sete netos, noras e genros como se os houvesse gerado a todos.
Esses amores do escritor sobrepujam, é bem verdade, mas quase se equiparam ao que ele nutre por seu “Rio dos Encantos”, este nosso indestrutível Verde Grande, que ainda conserva a cristalinidade de suas águas, léguas abaixo, depois receber e guardar em seu leito quase toda a porcaria do progresso montesclarino. E é bem ali que, dentre outras paragens, ainda vai o escritor pescar, especialmente na fazenda dos descendentes de nosso querido Elpídio da Rocha, tio de Cesarinho, o mais roseano de todos os médicos que conheço. E ainda leva consigo o neto Victor Augusto e ensina ao petiz a arte da pesca, certo de que ele já traz, ínsito, o maravilhoso prazer que habitou, habita e habitará, por muitos anos, a vida do avô, escritor de 74 bem vividos, que foi office-boy, bancário, comerciante e é respeitado colunista de vários jornais, advogado de escol e pescador de amores e peixes. Raramente se vê, na literatura brasileira, alguém entender tanto de rios, peixes, pássaros, plantas, árvores e frutos como Reivaldo. O livro lega às “gerações porvindoiras” (expressão que aprendi com “tio” Cândido) os nomes e características de uma infinidade de espécies, comuns na infância e juventude dos moquenhos nascidos no século próximo passado e que já ultrapassaram meio século de existência. É um tratado de ecologia e me trouxe à memória, em inúmeras passagens, a figura ímpar de Sir Charles Darwim, aquele notável inglês que foi tão amante e pesquisador da natureza quanto o Velho-Menino-Pescador de Montes Claros.
O filósofo, que se diz um nada, ao contrário, revela-se profundo, quase um todo, grande amigo do saber, através do ficcional Nivaldo, que é o próprio autor, em plenitude, pensando na fonte da vida, em seus porquês e em sua finalidade. Nas falas de ambos, simples, sertanejas, reivaldianas, me vi envolvido nas mais importantes correntes da história da filosofia universal. E pensei, mais uma vez, dentre milhares, sobre de onde vim, o que estou fazendo aqui e para onde vou.
As páginas finais da saborosa obra literária revelam o fabuloso poeta. Confesso que isto não me surpreendeu, porque conheço bem a fonte inspiradora, genética, que jamais se esgotará enquanto houver neste mundo alguém em cujas veias corra o sangue do bondoso e imortal Cândido Canela.
Parabéns, Reivaldo. Obrigado pela dedicatória. Mestre é você. Aguardo novos livros. E que venham logo, claros como nossos montes. E aos montões, cristalinos como as águas que ainda sonhamos para nosso “Rio dos Encantos”.


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Por Augusto Vieira - 29/4/2008 10:54:34
MURAL

Este Mural,
Vanguarda cultural,
Puro deleite,
Café da manhã,
É fenomenal.
Notícias fresquinhas,
Memórias de Luiz,
Histórias de Monzeca,
Crônica de Rubem Braga
(Via Wander, tão bom quanto),
De Manoel Hygino,
Oswaldo Antunes,
Flávio Pinto,
Paulo Braga
(graças a Deus curado),
Saulo,
Wanderlino Arruda,
Maria Jacy,
Petrônio Braz,
Raphael Reys,
Waldyr Senna,
Jorge Silveira,
Haroldo Lívio,
José Prates,
Ucho Ribeiro,
Ruth Tupynambá
E Carmen Netto.
Justos protestos,
Sábias críticas
E ótimas idéias
Em eletrônicas mensagens.
Este Mural
Me alimenta a alma
E o coração.
Dá vida a mim
E a minha aldeia.
Quem escreverá a letra
E comporá a música
Do samba-enredo
Da Mangueira
No próximo carnaval?
Aguardo-as aqui,
Porque a Verde-Rosa,
Terá por tema
Darcy Ribeiro,
Moquenho da gema,
Que, onde estiver,
Será muralista.


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Por Augusto Vieira - 1/4/2008 11:18:06
“TIO DIGAS”
Quando a gente escreve sobre pessoas que já nos deixaram a gente sempre retrata momentos nos quais convivemos com elas ou as lembranças delas, guardadas em nossa mente, ainda que só pelo simples fato de as termos presenciado fazendo ou dizendo algo que teve significação para nós.
Vou falar aqui de um homem que, de tão querido por minha geração, tornar-se-ia uma espécie de “tio” de todos nós, por sua paciência com os mais jovens e por sua imensa bondade, que sempre o levava a compartilhar seus sucessos, suas alegrias, suas tristezas e sua riqueza material com o semelhante. A primeira imagem que me vem à cabeça, quando me lembro dessa figura, é a dos momentos em que havia algum circo fazendo temporada em nossa aldeia. Ele sempre pagava as entradas de toda aquela meninada pobre que se aglomerava nas imediações das bilheterias, até pedindo, aos que estavam na fila, alguns trocados para inteirar a grana do ingresso, porque não tinham todo o dinheiro para pagá-los. Eu, que ganhava o ingresso de meu pai, vibrava, das arquibancadas, quando via entrarem, muitas vezes já ao apagar das luzes do picadeiro para as aberturas dos espetáculos, debaixo daquela imensa lona, normalmente por um comprido corredor, entre as arquibancadas, com piso de serragem, aquele bando de meninos pobres, provocando o maior rebuliço em hora imprópria, não por algazarra, mas pela alegria que expressavam por poderem participar de mais uma sessão circense. E quando perguntávamos de que modo haviam conseguido entrar, sempre respondiam, com largos sorrisos: — “tio” Digas pagou pra nós. E assistíamos aos espetáculos, emocionando-nos com os números de trapézio, dando estrondosas gargalhadas com as brincadeiras dos palhaços, tremendo de medo de algum bicho feroz que aparecia em cena, sem que ninguém fizesse qualquer tipo de discriminação contra aqueles afilhados, aqueles protegidos do bondoso “tio”. Isso sempre se repetia e chamava minha atenção, porque, tinha vontade de fazer o mesmo e não podia. Só me restava oferecer alguma bala doce que estivesse sobrando ou alguns grãos de pipoca àqueles meninos mais pobres do que eu, que recebiam, de bom grado, minhas insignificantes oferendas. Vi, muitas vezes, aquele homem bondoso o mesmo nas bilheterias dos cinemas, especialmente nas do Cine Cel. Ribeiro, próximo a seu escritório e a sua residência. Foi assim que entrei para o clube dos fãs de “tio Digas”. Anos depois, Edgar, seu filho, meu colega de colégio e fraterno amigo, me diria que seu pai agia daquela forma com as crianças pobres porque também fora uma delas, sem grana para entrar em circos e cinemas.
Conto em meu livro de memórias o momento em que D. Quita Pereira pagou a meu pai seiscentos e cinqüenta contos, em dinheiro vivo, dentro de um saquinho de papel, daqueles que os armazéns colocavam os produtos depois de pesados nas balanças, pela compra da Varginha, que depois se transformou na famosa Vila Ipê, o grande reduto da honrada família Pereira.
Nos meus doze anos fui colega de três filhos de “tio” Digas, no Colégio D. Bosco, em Cachoeira do Campo, no ano de 1957. Edgarzinho era meu protetor. Era da divisão dos maiores e, quando alguém queria fazer alguma covardia comigo, bastava eu dizer que era seu conterrâneo, para que o cara me respeitasse. Era fortão e bom de briga, embora não as procurasse. Ivan vivia estudando e rezando e era da minha divisão, os sub-médios. Ernane, o mais novo, era dos médios. Nossas amizades da juventude permaneceram incólumes. Perdemos Ernane, fora de hora, no esplendor de sua vida. Carlinhos eu já conheceria grandão, deputado estadual. Quase não convivi com Luis Eugênio. De Orlando, que também já partiu, fui professor, na Faculdade de Direito do Norte de Minas. D. Zulma, mãe deles, era muito amiga de minha mãe e de minha tia Consuelo. De vez em quando eu ia à casa de “tio Digas”, ali na Dr. Veloso, perto da Delegacia de Polícia. Aquele casarão era, para mim, uma monstruosidade, um palacete. Não tive o prazer de conhecer José e Cássia Maria, filhos do segundo casamento de “tio Digas” com D. Ozira.
Jovem, admirava a capacidade empreendedora daquele homem bondoso, que estudara no Liceu Mineiro e no Colégio Pedro II, do Rio de Janeiro. E o vi montando indústrias, construindo fazendas, praticando o comércio, sempre alegre, promovendo e ajudando pessoas das mais variadas formas, até descobrir que ele havia nascido em Brasilinha, nome pelo qual sempre chamamos nossa querida Brasília de Minas, depois que JK construiu aquela Brasilhona, lá no planalto central, para onde ele iria, deputado federal, por duas vezes, representar nossa gente. Quis o destino, no entanto, levá-lo precocemente, num acidente, em abril de 1973, quando exercia o segundo mandato, com pouco mais de sessenta anos de idade.
Maduro, quando presidi o Cassimiro, descobri que ele doara os refletores ao clube, depois que o time de seu bairro, o Ipê, não mais disputaria o campeonato da cidade. “Tio Digas” tornou-se grande benemérito e torcedor do Cassimiro. Num jogo contra o Vila Nova, no chamado “Alçapão do Bonfim”, em que ganhávamos por três a dois e tentavam coagir nosso time, ele tomou o microfone da ZYD-7 e aprontou o maior berreiro, mostrando à torcida contrária que não tínhamos medo e que continuaríamos a lutar por aquela vitória com todas as nossas forças. E ganhamos, coisa rara de acontecer, naqueles tempos, lá dentro daquele temido alçapão. Gélson Dias é que sabe contar bem esse caso.
Contam uma estória dele com um guarda paulista, que nem sei se é verdade, mas que já ouvi de várias pessoas. “Tio Digas”, quando deputado federal pelo Norte de Minas, dirigindo em pleno trânsito paulista, entra na contramão, na rua famosa Augusta. O guarda o pára e pede a “carta”. Gozador e brincalhão, responde:
— Que carta qual é o quê, sô, eu nem te conheço. Como iria te escrever?
O guarda quis engrossar, mas ele retrucou:
— Olha aqui, moço, sou o deputado federal Edgar Martins Pereira e quem resolve estes problemas pra mim é meu assessor, Josué, lá na Valsa. Procura ele, pois tô com pressa. Té logo.
Arrancou, deixando o guarda com cara de tacho e queixo na mão.
Valsa era o nome de uma empresa da qual “Tio Digas” era sócio em Montes Claros e que era administrada por Josué, esposo de Valquíria, sobrinha dele. Josué e Valquíria, meus queridos ex-vizinhos de Montes Claros, na rua Irmã Beata, são os pais do grande político Gil Pereira.
Meu último contato com “tio Digas” foi dramático. Estamos, só ele e eu, tomando uma cerveja, e era o último dia da apuração da eleição em que Moacir Lopes e Crisantino Borém disputavam a Prefeitura. Ele, deputado federal, apoiara Moacir. A luta se feria voto a voto e só foi decidida na última urna a favor de Moacir. “Tio” Digas nunca perdia a esperança da vitória e me dizia que se Moacir perdesse aquela eleição se mudaria de Montes Claros. Eta sertanejo raçudo!
Essas são as minhas mais caras lembranças de Edgar Martins Pereira, nosso eterno e querido “tio Digas”, figuraça indelevelmente gravada nos corações norte-mineiros.


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Por Augusto Vieira - 24/3/2008 10:29:57
QUEM DESRESPEITA SÃO OS GOVERNANTES Vivemos crises cíclicas na vida política nacional, regional e local, quando nosso ideal, manifestado nas urnas, principalmente pela consciência do dever cumprido, depois que a elas comparecemos, é que tudo caminhe na mais perfeita harmonia. Muitos intelectuais vêm afirmando que o povo brasileiro não respeita seus representantes. Alguns, usando até de psicologia social, chegam mesmo a dizer que o povo não presta, que tem os governos que merece e que só escolhe seus representantes para sublimar frustrações e achincalhá-los posteriormente. Outros defendem a tese de que isso seria a revolta natural do ser humano contra qualquer forma de autoridade, fantasma castrador da plenitude da liberdade individual.
Quanto aos partidos políticos que, na teoria, seriam valiosos instrumentos de construção de uma sociedade mais justa, de uma democracia real, efetivamente popular, observa-se que seus estatutos revelam programas de elevado interesse coletivo.
No entanto, o que tenho constatado, quando o cidadão reclama dos governantes, até de forma desrespeitosa, é que ele o faz, nem por mero desejo de sublimar frustrações pessoais e nem por insubordinação contra o princípio da autoridade, mas porque seus representantes, nas várias esferas de poder, cujas elevadas remunerações ele paga com seu trabalho, se desgarram do espírito das boas leis, dos salutares preceitos dos programas partidários e dos sonhos e utopias vividos nas campanhas eleitorais.


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Por Augusto Vieira - 20/3/2008 04:00:11
O FAIR-PLAY DE MOACIR E O GOL DE LADO

Num domingo, à tarde, em 1955, nos meus dez anos, fui ao Estádio João Rebello, com meu tio Hermindo Pinto. Na preliminar vi um lance do qual nunca me esqueço. Moacir, grande “Moaça”, popular e querido motorista de táxi, jogava na ponta direita, acho que pelo time do Ferroviário, contra o aspirante do Ateneu. Estava endiabrado naquele dia. Ninguém conseguia barrar suas inteligentes jogadas. Um beque, Márcio, desesperado, estando Moacir próximo ao alambrado, resolveu dar-lhe uma cacetada para intimidá-lo. Moacir, sempre elegante, recebeu a pelota próximo à lateral do campo, em frente à torcida. O beque voou rasteiro, em sua direção. Aquilo não era um carrinho, era uma tesoura voadora. Moacir, então, tocou levemente a bola por debaixo do corpo do zagueiro e saltou para um dos lados, não sendo atingido. O atlético corpo do zagueiro, ainda submisso às leis da navegação aérea rasante, transpôs a linha do gramado e chocou-se contra o bloco de cimento que sustentava o alambrado. Quando todos esperavam que o garboso atacante retomasse o domínio da esfera e fosse à linha de fundo para cruzá-la para a área – inacreditável – ele simplesmente parou-a na grama, com um dos pés, deu uns três passos para trás, virou-se, estendeu uma das mãos ao adversário e o ajudou a levantar-se, murmurando-lhe algo. Só depois disso retornou ao gramado, passou os dedos em seu vasto bigode, sorriu para a torcida, aproximou-se da pelota e prosseguiu a jogada. Que cavalheirismo! Que bela demonstração de espírito esportivo! Que bela cena, digna de registro por câmaras cinematográficas, sob a direção de um Federico Fellini! Muitos anos depois, já adulto e amigo de “Moaça”, perguntei-lhe o que dissera ao beque:
— Bala, falei pra ele que tomasse cuidado porque, daquele jeito, poderia quebrar um braço ou uma perna.
No jogo de fundo, nessa mesma tarde, vi, ainda, um dos gols mais inteligentes do futebol brasileiro. A partida era entre o time principal do Ateneu e o do Tiradentes. Lado era um dos ídolos do Ateneu. Como jogava futebol aquele rapaz que, na minha infância, conheci engraxando sapatos na Praça Dr. Carlos! Sua mobilidade, bilateral, era incrível, o que enlouquecia os beques que o marcavam, porque eles nunca sabiam para qual lado do gramado ele optaria por fazer uma jogada. Alto e forte, batia na pelota com os dois pés, com idêntico esmero e arte. Seus passes eram perfeitos, milimétricos. Suas arrancadas arrasadoras. Seus chutes extremamente fortes e certeiros. Suas cabeçadas fulminantes. Foi um dos melhores e mais raçudos centroavantes que já vi em campo. Pois bem, Lado era amigo do goleiro adversário, que se chamava Joaquim. Respeitavam-se muito, fora das quatro linhas. A pugna, muito disputada, estava empatada e em seus minutos finais. O ponta-direita do Ateneu, salvo engano meu querido amigo Cardoso, o Tone Budóia, ou Budoínha, cruzou uma bola da linha de fundo e Joaquim, bem preparado, subiu muito mais que os beques de seu time e os atacantes adversários, agarrando-a no ar como um pássaro, soberano, de forma magistral, aliviando o perigo que rondava sua meta. O normal, depois desse tipo de lance, num jogo de futebol, é os beques e os atacantes saírem imediatamente da grande área para deixarem o guardião dar seqüência à partida. O que aconteceu, então? Lado, matreiramente, nas proximidades, atrás de dois beques do Tiradentes, a uns dez metros da bola, diz ao goleiro:
— Joaquim, o juiz marcou falta minha em você.
Joaquim certamente supôs não ter ouvido o apito do árbitro e, muito disciplinado, acreditando naquela palavra amiga, pôs a bola no chão e afastou-se dela uns cinco metros para bater a falta. Lado, como um raio, passou pelos dois beques, antecipou-se ao goleiro e tocou a pelota para o fundo das redes. A bola estava em jogo e ele não estava impedido. O que fazer, então, “seu” juiz, a não ser confirmar o gol? O que se deu, após breve reflexão do árbitro, acho que nosso querido Zuza, debaixo de intensa vibração da torcida do Ateneu que, por mais de um minuto, gritava, em coro: Lado! Lado! Lado!
Em julho de 2007, decorridos mais de 50 anos do fato, tive a alegria de me encontrar com Lado, sadio e bem de vida, no Café Galo, feliz ponto de encontro dos moquenhos. Relembramos, dentre muitos outros, esse seu gol de placa.
É, meus caros leitores, o fair-play de Moacir e a esperteza de Lado são daquelas coisas que só acontecem em minha aldeia que, segundo me dizem, desde a infância, “tem umas coisas que outras terras não têm”.


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Por Augusto Vieira - 7/3/2008 15:11:50
BETO GUEDES Ontem tive o prazer de apresentar o show de Beto Guedes, na Associação dos Magistrados Mineiros. Disse as seguintes palavras:
Alberto de Castro Guedes, Beto Guedes, esse grande artista mineiro, de renome nacional, nasceu em Montes Claros, no dia 13 de agosto de 1951. É o caçula de oito filhos de Júlia de Castro Guedes e Godofredo Guedes. Aos oito anos já tocava pandeiro, num conjunto musical que o pai formara com parentes e amigos. Adolescente mudou-se para Belo Horizonte e conheceu Lô Borges. Os dois, Márcio Aquino e Yé Borges, formaram o grupo The Beavers (Os Castores), que produzia e cantava versões das músicas dos Beatles. Mesmo residindo na capital, Beto jamais abandonou sua aldeia e sua tribo. Na cognominada “Era dos Beatles” integrou, em Montes Claros, com amigos de infância, o conjunto musical, “Os Brucutus”, grande sucesso das festas dos clubes sociais da cidade.
Em 1969, aos 18 anos, classificou a música “Equatorial”, no 1º Festival Estudantil da Canção de Belo Horizonte, tendo como parceiros os irmãos Lô e Márcio Borges. Aos 26 anos, em 1977, lançou o disco, “A Página do Relâmpago Elétrico”, primeiro de mais oito (“Amor de Índio”, “Sol de Primavera”, “Contos da Lua Vaga”, “Viagem das Mãos”, “Alma de Borracha”, “Beto Guedes ao Vivo”, “Andaluz”, “Dias de Paz” e “Em Algum Lugar”), todos recebidos com carinho e festejados pelo grande público mineiro e brasileiro. Além desses seus discos e cedês participou de muitos outros, dentre eles “Clube da Esquina 1 e 2 (1971 e 1979); Beto Guedes/Novelli/Danilo Caymmi/Toninho Horta; “Minas” e “Caso você queira saber”, com Milton Nascimento. Em 13 de agosto de 2001, completou 50 anos, lançou, em DVD e CD, “Beto Guedes – 50 anos ao vivo” e comemorou esse aniversário no dia 11 de setembro, com inúmeros amigos e fãs, no Teatro Francisco Nunes, num belíssimo show. Para minhas alegria, estive lá e vi subirem ao palco, para homenageá-lo, uma plêiade de artistas, capitaneada por Milton Nascimento, nosso querido Bituca, grande ícone da mineiridade, tal qual o homenageado.
Beto Guedes é homem tímido e simples. Múltiplo em artes e tão honesto quanto seu querido e saudoso pai. É amoroso com os filhos e com a neta Júlia, que carrega o nome de sua inesquecível e bondosa mãe. É filósofo. É poeta. Seu coração “tem catedrais imensas” e dele jorra a mais pura fraternidade. Não é bobo. Sabe de tudo. Tem acirrada consciência de cidadania. É ecológico. Ótimo guitarrista, já tocou com o 14 Bis. Fazedor de coisas, apaixonou-se por aviação e construiu um avião, tal qual Godofredo Guedes que, apaixonado por música, construíra um piano. Será que conseguiríamos fazer tais proezas? De resto, é competente zeloso marceneiro. E sua voz? Que timbre mais especial, doce e suave! Só ele o tem. Inimitável. É como se Deus lhe houvesse beijado as cordas vocais quando veio ao mundo. É um dos maiores orgulhos de Montes Claros, ao lado de Cyro dos Anjos e Darcy Ribeiro. Que trio maravilhoso!


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Por Augusto Vieira - 27/1/2008 05:08:35
QUEM SABE, UMA TRANSPOSIÇÃOZINHA?

Para aumentar o sofrimento e amedrontar mais ainda a população brasileira, criaram o sóciopsicodrama da febre amarela. Falso alarme de uma epidemia só existente em mentes inescrupulosas. Há casos, sim, nunca epidemia. São os mesmos que dramatizaram o herdado apagão aéreo e que, agora, estão tramando a sóciotragicomédia de um novo apagão elétrico. É assim mesmo que a coisa funciona: alarmes falsos de epidemias e apagões para que o povo brasileiro – ainda, em sua grande maioria, analfabeto –, continue medroso e doente, para ser mais facilmente manipulado, antes, durante e depois das eleições.
Enquanto a roubalheira continua no país, no Norte de Minas a seca está cada vez mais brava. Desde que me entendo por gente os governos vêm enrolando os catrumanos e nunca solucionaram, em definitivo, esse grave problema. E olhem que já estou com quase 63 anos...
Não seria uma boa idéia a criação de um“Big Brother” norte-mineiro?Gente de comunicação para bolar o programa não falta. As TVs de Montes Claros lançariam o BBC, ou seja, o “Big Brother Catrumamo”, colocando, numa casa, quinze a vinte flagelados e flageladas da seca. O prêmio ao vencedor seria a construção de uma cisterna, por conta do programa, no local por ele designado. Já imaginaram o Brasil inteiro vendo como pensa, fala, age, come, bebe, dorme, canta e ama, enfim, como vive um flagelado da seca? Quem resistiria em não sintonizar a TV num programa desse tipo? Seriam firmados convênios com as operadoras de telefonia, com participação do programa nos lucros das ligações, como faz a Rede Globo. Essa bilionária arrecadação, descontados os custos, seria destinada à execução de uma grande obra contra a seca: uma transposiçãozinha das águas do “São Chico”.
Com efeito, o Norte de Minas é banhado pelo Rio São Francisco em quase toda sua extensão territorial. Quem sabe se ligassem um pouquinho de suas águas à nossa desidratada bacia hidrográfica seria resolvido o problema da falta desse ouro líquido para o consumo individual e as atividades econômicas da região? O custo seria infinitamente menor que o das obras que estão em andamento lá em cima, na divisa da Bahia com Pernambuco. Essa transposiçãozinha não afetaria, quase nada, o volume hídrico do doador. Nossos pálidos e secos rios, ribeirões e córregos, já tão próximos dele, tornar-se-iam caudalosas fontes do mais precioso líquido em extinção no planeta.
Pode até ser louca, mas que é uma idéia, é! Os ecologistas que me perdoem!


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Por Augusto Vieira - 3/1/2008 17:33:50
MUNDINHO ATLETA
Mundinho Atleta, Raimundo Muniz de Carvalho, sempre magro e corajoso, irmão de Quincas do Café, partiu no dia 30 de dezembro de 2007, penúltimo do ano.
A primeira imagem que tenho dele, em minha vida, é de quando Juscelino se elegeu Governador de Minas. Mundinho, elegantemente vestido, como sempre, foi colocado num platô de cimento, de mais de metro de altura, que havia em frente à vitrine da loja Ramos & Cia, na esquina da Rua Quinze (Presidente Vargas) com Simião Ribeiro, e fez um magnífico discurso saudando JK.
Posteriormente veio a fase da paixão por Maria Eugênia, filha de nosso querido Prefeito e amigo Geraldo Athayde, irmã de Cecília e de Cláudio. Mundinho queria mesmo, de todo jeito, se casar com Maruja que, educadíssima, jamais lhe fazia qualquer desfeita ou o humilhava. E quanto mais polidamente era tratado por sua Dulcinéia e até convidado para festas em sua casa, mais ardia aquela fervorosa paixão.
Mundinho freqüentava religiosamente o Bar de Zim Bolão, meu querido João da Silva Prates, na Simeão Ribeiro, ao lado do antigo Cine São Luiz. Lia os jornais e se inteirava dos acontecimentos de nossa aldeia do país. Depois, com aquele nobre ar intelectual de quem sabia das coisas muito mais do que aquela ralé inculta (nós, seus amigos e conterrâneos), ditava suas sentenças. E ai de quem não concordasse com elas...
Com a ditadura militar Mundinho assumiu a postura de Comandante Supremo das Forças Armados e Chefe da Revolução Redentora. Dizia que o General Presidente ligava para ele, diariamente, para discutirem as grandes questões nacionais. Creio que foi por este motivo que a turma passou a chamá-lo de “General”. Se alguém expressasse alguma idéia contra a ditadura, Mundinho caía de pau no infeliz e lhe ministrava, publicamente e com a costumeira verve, uma verdadeira aula de civismo. Imaginem, então, vocês, as broncas que eu, esquerdista atrevido e irreverente, levei de Mundinho, no Bar de Zim Bolão. Às vezes ele até dava ponto de briga se eu não me calasse, ou manifestasse respeito às suas idéias e opiniões, ou não me desculpasse por meu atrevimento. Onde já se viu catrumano contestar sumidades? No entanto, nossa grande amizade, serenados os ânimos, cessado o calor das pugnas intelectuais, sempre se reatava e nunca morria. Mundinho jamais deixou de gostar de mim e eu dele. Em 1996, quando lancei meu primeiro livro, as Estórias do Bala, em frente ao Café Galo, lá estava ele, para minha alegria. Tiraram uma foto nossa, que é um sincero aperto de mãos amigas. Guardo-a com o maior carinho e publiquei-a em meu site.
A família de Mundinho, gente tradicional, honesta e trabalhadora, cuidou dele, durante toda sua vida, com o maior desvelo, sem jamais desprezá-lo ou humilhá-lo. Só anteviam sua nobre lucidez e por isto sempre o tratavam como uma pessoa absolutamente normal, o que contribuiu, sem sombra de dúvida, para sua longevidade e para o não agravamento de seu problema. O que o amor faz pelas pessoas chega, muitas vezes, às raias do inexplicável. Na pessoa de Quincas do Café, quero manifestar a essa grande e amorosa família meu mais profundo pesar.
Adeus Mundinho Atleta! Até breve, amigo! Descanse em paz!


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Por Augusto Vieira - 20/9/2007 08:01:55
INÊS É VIVA!

Nos anos 50, do século passado, quando eu residia na hoje desfigurada Coronel Prates, pertinho do extinto Colégio Diocesano, tinha o hábito de assistir, em seu liso e poeirento campo de terra batida, partidas de futebol que o bom time de seus estudantes, internos ou não, disputava contra outras equipes da cidade. Ali despontaram vários craques, dentre eles um goleiro brasilminense, que jogava com o uniforme todo preto e fazia pontes incríveis. Em Belo Horizonte, há mais de quinze anos, participo de encontros da “Turma do 6 e 1”, onde cultivo alguns amigos históricos. Num deles conheci um jovem estudante de Direito chamado Antônio Fabrício de Matos Gonçalves. E foi então que descobri que ele era filho justo daquele brilhante arqueiro do time do Diocesano, cujo nome é Antônio Gonçalves da Silva, hoje renomado dentista e ex-Prefeito de Brasília de Minas
Fabrício tornou-se, em menos de dez anos, um dos mais brilhantes juristas de Minas Gerais. É mestre em Direito do Trabalho e professor dessa disciplina na PUC/Minas. É Conselheiro da OAB-MG e um dos coordenadores de sua Escola Superior de Advocacia. É autor de um dos livros mais bem sucedidos de sua especialidade, que leva o título “Flexibilização Trabalhista”, já na segunda edição, pela Editora Mandamentos. Casou-se, em Brasília de Minas, com Anita Zonichenn Matos. Recentemente me enviou um presente. Abri o imenso envelope e me deparei com o livro “Memorial de Brasília de Minas – documentário”, de autoria de sua mãe, Maria Inês de Matos Gonçalves, prefaciado por Haroldo Lívio de Oliveira.
Minha babá, Marcionilia, que me ensinou a contar “causos”, era de Brasília de Minas. Sabia que meu querido Juca Milo (José Milo de Silqueira) e minha querida “tia” Elza, pais de Else, Shyrley, Cibele, Geraldinho Renan, Márcio, Lu, Mirinha, Pindoba, Marcos e Ricardo (Tiupas) eram brasilminenses. E foi através deles que aprendi a admirar aquela boa gente. “Seu” Juca Milo foi o grande embaixador. Fui calouro, por quatro anos, de Chiquinho Simões (Francisco de Assis Simões), na Faculdade de Direito da UFMG, onde ele era um dos mais brilhantes alunos. Quando exerci a advocacia, meu querido amigo “Cumpade Coi” (Clóvis Augusto de Freitas), esposo de minha mais brilhante e saudosa ex-aluna, “Cumade” Regina, me hospedavam quando eu permanecia por mais de um dia na doce Brasilinha. O juiz era meu ex-colega de Faculdade, “Picolé” (hoje Desembargador Geraldo José Duarte de Paula) que, nos famosos carnavais brasilminenses, puxava o samba-enredo de uma de suas mais garbosas Escolas de Samba. Leal (Antônio José Leal) era o Promotor de Justiça. Padre Magalhães (Antônio Carvalho Magalhães, que deixou saudade imensa em meu coração) era o Vigário. Picolé marcava minhas audiências só às sextas-feiras, para que eu permanecesse o final da semana na cidade, tocando viola e piano, cantando e comendo do bom e do melhor, acompanhado por ele, por meus gentis anfitriões, pelo promotor e pelo vigário. Minha “Cumade” Regina tocava piano como ninguém. Essas haviam sido, até então, antes de conhecer Fabrício, minhas mais profundas ligações com a Contendas, do saudoso escritor Henrique de Oliva Brasil.
Pois bem, depois que li o livro de Maria Inês de Matos Gonçalves, a Inês, mãe de Fabrício, numa edição primorosa, de bela capa e com inúmeras fotografias de pessoas e lugares, quanta coisa nova descobri sobre sua maravilhosa terra! Eu não sabia, por exemplo, que Monsenhor Gustavo, Dr. Santos (Antônio Teixeira de Carvalho) e Pedro Santos nasceram lá e que Brasília de Minas é berço do majestoso Rio Paracatu. A verdade, caros leitores, é que o livro de Inês, esposa do grande goleiro do time do Diocesano e mãe de Fabrício, é uma minuciosa enciclopédia brasilminense, fruto de apurada pesquisa e grande esforço intelectual de consagrada educadora, que revelou ao mundo, antes de tudo, seu mais profundo amor pela terra natal e por sua gente.
Felizmente para nós, leitores catrumanos, e para as gerações porvindouras, Inês é viva!


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Por Augusto Vieira - 21/8/2007 00:06:33
ORGULHOSAMENTE MOQUENHO
Inspirada na vitória do filme-longa-metragem-documentário “Castelar e Nélson Dantas no país dos Generais”, de Carlos Alberto Prates Correia, no Festival de Gramado, em 18 de agosto de 2007.

Eu me orgulho dos catopês, dos marujos e dos caboclinhos. Eu me orgulho de “A Formiga que queria ser cidade e virou Princesa”, do grande Reginauro Silva. Eu me orgulho das verdades poeticamente expostas por Georgino Júnior. Eu me orgulho da maestria com que Jorge Silveira analisa economia. Eu me orgulho do humanismo dos textos de Felipe Gabrich. Eu me orgulho dos preciosos escritos de Artur Leite. Eu me orgulho das espirituosas crônicas de Haroldo Lívio e de sua cria Raphael Reys. Eu me orgulho dos trabalhos culturais do vastíssimo Wanderlino Arruda. Eu me orgulho das colunas sociais de Paulo César de Oliveira, Theodomiro Paulino e Magnus Medeiros. Eu me orgulho dos corajosos editoriais de Edgarzinho Pereira e dos sociológicos artigos de Luis Novaes. Eu me orgulho da lisura e ética das reportagens de Luiz Ribeiro. Eu me orgulho da clareza e sinceridade de Waldyr Senna. Eu me orgulho da criatividade de Flávio Pinto. Eu me orgulho dos lauréis jornalísticos de Paulinho Narciso, Eustáquio Senna, Robson Costa e Carlos Lindenberg. Eu me orgulho da monstruosa inteligência de Manoel Hygino. Eu me orgulho da percuciência do mestre de quase todos, Oswaldo Antunes. Eu me orgulho da foto do escritor-catopê Ucho Ribeiro, dançando no meio do povo, nas festas de agosto. Eu me orgulho do legado de Monzeca. Eu me orgulho da arte de Dulce Sarmento. Eu me orgulho da antropologia de Darcy Ribeiro. Eu me orgulho da literatura de Hermes, Luiz, Virgílio e Virgínia de Paula. Eu me orgulho dos prêmios nacionais e internacionais dos filmes de Carlos Alberto Prates Correia. Eu me orgulho das lindas vozes de Nivaldo, Rita e Clarice Maciel. Eu me orgulho das músicas de João Chaves, Beto Guedes e Marcelo Godoy. Eu me orgulho da genialidade dos irmãos Armênio e Alberto Graça. Eu me orgulho da pintura de Godofredo e Hélio Guedes (das músicas do primeiro também), Konstantin e Yara Tupynambá. Eu me orgulho dos livros de João Valle Maurício, de Cândido Simões Canela, de Nélson Washington Vianna e de Simeão Ribeiro Pires. Eu me orgulho dos novos talentos que brotam, sem cessar, em minha tribo, em todos os campos da cultura. E me orgulho, enfim, da “Casa de Dona Yvonne”, iluminada pelo mais belo luar que existe neste nosso mundão, onde tenho a honra de ser titular de uma cadeira e onde estarei, parafraseando Arthur Fagundes de Oliveira, mercê de Deus, nesta quinta-feira, para a posse e lançamento do primeiro livro de meu fraterno amigo de infância Edgar Antunes Pereira Filho.


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Por Augusto Vieira - 19/7/2007 11:13:00
O “GAVIÃO”

Bonitão, conquistador, aportou em Montes Claros, logo depois do fim da 2ª Guerra Mundial, quando ainda não existia a figura do “Ricardão”, ou melhor, nos tempos em que ele era conhecido pela alcunha de “Gavião”. Óculos escuros, porte atlético, conversa fácil e agradável, falava de coisas novas, despertando a curiosidade das pessoas. Era representante comercial. Fez, logo, o maior sucesso com o mulherio. Sua fama correu mundo. Passou a ser convidado para quase todas as festinhas e reuniões. Sua agenda tornou-se intensa. Quase toda noite um compromisso social.
Um dia, ao fazer uma venda, cantou bela mulher casada, mãe de três filhos. A infeliz não resistiu àquele incrível charme e caiu na rede. O marido, exímio comprador de bois, homem de poucas posses, honrado, daqueles que um fio de sua barba valia uma nota promissória, era dos cabras mais valentes e bom de gatilho da região. Já respondera a uns cinco processos por homicídio doloso. E o gavião lá, a se esbaldar com sua esposa...
Bem que um amigo até advertira ao D. Juan:
– Abre seu olho, galo na terra dos outros é galinha. O marido dela é uma fera. Já matou mais de cinco...
– Não se preocupe, ele viaja muito e jamais descobrirá.
– Ora, não descobrirá?! O que não se fica sabendo numa cidade pequena?
E não deu outra. Poucos dias depois o matador pegou a mulher e os três filhos, pôs em seu empoeirado jipão 54 e se dirigiu à residência do gavião. Encontrou-o, na sala, vestindo um elegantíssimo robe de chambre. Foi, logo, dizendo:
– Olha aqui, seu moço, sou um homem direito e trabalhador. Casei com essa mulher porque gostei dela e tenho com ela esses três filhos pequenos. Trabalhei feito louco pra dar a ela e às crianças uma boa vida. Agora fiquei sabendo que sou corno. Já matei muito, só nunca roubei. Temos só dois caminhos: ou mato o Sr., ou faço um trato com o Sr: de hoje em diante o Sr. terá que cuidar dela e dos meninos do mesmo modo que eu cuidava. Se o Sr. não cumprir esse trato, venho aqui e te mato.
O gavião viveu na Princesinha do Norte até sua morte natural, ocorrida bem antes da do matador, vendendo seus produtos e cuidando, com o maior esmero, daquela mulher e de suas três crias, sob constante vigilância. E mais: assentada a poeira, o valente corno ainda levou pra morar na casa que construíra para a família uma linda morena, da roça, dez anos mais nova, fidelíssima, quituteira de primeira, que lhe deu dois filhos e, segundo confidenciou a um amigo, muito melhor de cama...

PS: Participei da belíssima homenagem que a Assembléia Legislativa, por iniciativa do grande deputado, meu ex-aluno do curso de Direito, Arlinho Santiago, nos prestou por nosso sesquicentenário. Novo reencontro com vários amigos fraternos da velha guarda. Dia seguinte almocei, no Mercado Central, com Raphael Reys e Felippe Prates, um magnífico feijão tropeiro, com arroz e ovos fritos. Depois levei Rafa até o Hospital das Clínicas e ainda lhe dei a notícia de que O Mural havia publicado afetuosa mensagem de um de seus médicos. Noitinha, naveguei no montes claros.com e nos outros jornais de minha aldeia. Está me causando muito prazer ler e reler os capítulos das memórias da infância de meu querido Ucho Ribeiro e estou adorando as inteligentes e saborosas histórias de Dawidson Rêgo. Ando sentindo muita falta de novos escritos do mestre Oswaldo Antunes e de Flávio Pinto.


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Por Augusto Vieira - 13/7/2007 07:06:57
O AGRADECIMENTO DE ZÉ AMORIM

Eh, feras, cês tão bem de vida, hein? Gastaram um dinheirão enfeitando esse salãozão, fazendo diplomas, troféus, contratando artistas pra medalhar esse mundão de gente, inclusive Sinvalim, meu irmão, na festa do 150 anos de Montes Claros.
Bom mesmo, feras, era no tempo do bar de Sinvalim, onde a gente reunia toda a cidade e dançava a noite inteira, ao som de uma vitrola, ou de uma viola e de uma sanfona pé-de-bode, iluminados, até as dez horas da noite, pela luz de D. Vidinha. Agora cês tem luz à vontade, um mundo de conjuntos musicais, jornais, rádios e televisões. Pra que isso tudo feras? No meu tempo de rapaz a gente não tinha televisão, só havia o “Jornal de Montes Claros”, a “Gazeta do Norte” e a ZYD7. A D7 falava para o centro e cochichava para os bairros e nela a gente ouvia Chico Pitomba e Mané Juca contarem nossos “causos” e cantarem nossas músicas. Hoje, vocês só ouvem esses estrangeiros... Um forrozinho e um lunduzinho mesmo, que é bom... lona!
Cês qualharam Montes Claros de prédios, cheios de elevadores, cujos tetos quase batem no céu. Nem venta mais na cidade. Antigamente a gente construía mesmo era edifício de no máximo três andares, que nem os de Paris, com aqueles escadões belezura, com aqueles alicerces profundos, com aquelas paredes de dois tijolos maciços e aquelas lajes de cimento grosso, diferente dessas porcarias pré-fabricadas, de tijolo furado, que passam todo o barulho de um andar para outro e não isolam o barulho da rua. E o térreo não contava como andar. O construtor era Chiquinho Guimarães, um campeão. Basta ver que os prédios que ele construiu estão aí até hoje, firmes que nem toco de jurema e quem é esse tal de tsunami pra derrubá-los.
A cidade anda cheia dessas motoquinhas vagabundas que não deixam ninguém andar em paz pelas ruas e ainda fazem um barulho infernal. Toda hora a gente vê um motoqueiro atropelado, com um braço ou uma perna quebrados. No meu tempo havia poucas motocicletas, mas todas eram de primeira, de ferro fundido, motor silencioso, tran-chan, verdadeiras máquinas que nem arranhavam se um carro batesse nelas. Queria ver a valentia desses motoristas de carro no tempo de minha Harley-Davidson...
Vocês, feras, estão dando essas medalhas a muita gente nativa, mas também a muitos forasteiros. Não tem problema. Eles estão na cidade, ajudando a gente há tantos anos, que já os consideramos montes-clarenses da gema. Mas há uns dois felas, aí, na lista que, ao invés de emedalhados, deveriam ser mesmo era emerdalhados. Chegaram à cidade com uma mão na frente e outra atrás, deram o golpe do baú ou receberam esses tais de incentivos fiscais e não levantaram nem um grãozinho de poeira por nosso progresso. Só levaram vantagem às nossas custas. Mas a vida é assim mesmo. É impossível ser totalmente justo.
Estou aqui, feras, com meu velho pai, Pedro, meus irmãos Bem, Tuca, Sinvalin e Santim, e meu grande amigo Walduck Wanderley, o Mola Forte, assando uma batata doce e um milho verde, numa imensa fogueira, tomando um quentãozinho e comendo uma paçoquinha, esperando vocês. Estamos construindo um restaurante cujo nome será “Espeto de Ouro”, que só servirá nossas comidas e bebidas típicas. Ele ocupará todo o primeiro piso de um majestoso prédio de três andares cujo nome será “Edifício Pedro Montes Claros”. Aqui, bem no miolinho do céu, na rua Quinze.
Em nome da família Amorim, muito obrigado, feras, e até breve.


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Por Augusto Vieira - 9/7/2007 12:06:46
A HOMENAGEM DE GIL PEREIRA AOS VEREADORES Voltei a minha aldeia, no dia 06 de janeiro de 2007, para receber a homenagem que o Deputado Gil Pereira prestou a seus vereadores e ex-vereadores, dos quais ele foi um dos mais proeminentes, nas comemorações de nosso sesquicentenário. Voei em companhia do Presidente da Assembléia Legislativa, Deputado Alberto Pinto Coelho, a quem tive o prazer de conhecer pessoalmente. Figuraça: inteligente, alegre, simples e bom de papo. E mais: um cavalheiro. Manteve-se presente durante toda a solenidade de entrega de mais de duzentos diplomas aos homenageados e seus familiares, diferente de outros que até inventam compromissos para se verem livres de tais encargos. No vôo ainda se encontravam o Deputado Luiz Tadeu Leite e esposa, Léo Pimenta (assessor de Gil), o Chefe do Cerimonial e o Chefe da Segurança da Assembléia. Gil nos recebeu no Aeroporto Mário Ribeiro e fomos ao local do evento, que já se encontrava lotado. Escolhido para agradecer em nome de todos só me restou falar pelo coração, dizendo quão pesada era aquela honrosa missão de falar em nome de tantas pessoas ilustres.
Emocionou-me citar, em minha breve oração, minha grande amiga Walquíria, mãe de Gil; seu pai, Josué; minha querida “tia” Nenzinha Esteves; minha querida madrinha Lourdes Antunes Pimenta; meu querido amigo e diretor Artur Fagundes de Oliveira; minha querida prima Sônia Prates Gonçalves de Quadros Lopes; minha querida madrinha de formatura Terezinha Ribeiro Gomes Pires; Pedro Santos; Pedro Martins de Sant’Ana; os ex-Secretários de Estado Pedro Narciso e José da Conceição Santos; Nivaldo Maciel (e seu genro, o Desembargador Joenildo de Souza Chaves, e sua filha, musa de Montes Claros, Clarice Maciel); os ex-vereadores da família Macedo (Vivaldo e Tancredo); Neco Santamaria; Francisco José Pereira; João Luiz de Almeida (pai e filho); José Maria de Oliveira; José Nunes Mourão; Wanderlino Arruda e José Linhares Frota Machado. Dei um pequeno vôo na história de nosso legislativo até chegar à minha Câmara, a do segundo governo Toninho Rebello. Lá estavam quase todos: Luiz Tadeu Leite, Marcelino Mota, Aristóteles Mendes Ruas, Alberto Oliveira, José Gonçalves de Freitas, Arnaldo Athayde, José Adão Machado e Deosvaldo Santos Pena. Conosco aquela imensa saudade dos companheiros Hamilton Lopes, Ronald Carvalho Freire e Geraldo Correia Machado Filho. Encerrei minhas palavras fazendo mais uma sincera e apaixonada declaração de amor a nossa aldeia.
Durante o coquetel uma televisão me entrevistou e o repórter perguntou-me qual eu julgava ser o fato mais importante daquela noite. Respondi que o que mais me tocara a alma fora ver, ali, materializada, nossa história política, desde a primeira Câmara (dos anos 30, do século XIX), nas famílias de todos os ex-vereadores, muitos deles representados por esposas, filhos, netos e bisnetos, todos orgulhosos de seus antepassados, inclusive eu de meu pai. Como não ficar feliz ao rever, dentre muitos outros, familiares de Hildeberto Alves de Freitas, José Avelino Pereira, Mário Ribeiro da Silveira, João Valle Maurício, Coronel José Coelho de Araújo, Jader Dias de Figueiredo, Geraldo Athayde e Ubaldino Assis de Oliveira?
O atual Presidente da Câmara, vereador Coriolano Ribeiro, presidiu a solenidade com a maestria de sempre e fez um brilhante pronunciamento. Gil Pereira nos deu uma aula de História. Depois ouvimos o Presidente da Assembléia, que terminou seu discurso com uma frase linda, dizendo que “já estava com saudade do futuro de Montes Claros”.
Valeu, grande Gil Pereira, você marcou nossas vidas e a vida de nossa aldeia, ao homenagear aqueles que, nas veredas (daí vem a palavra vereador) deste sertão, lutaram e lutam incansavelmente por nosso progresso material e espiritual. Mostrou-nos, ainda, que, no fim das contas, somos uma grande família unida de uma valorosa tribo. De coração, muito obrigado, mais uma vez, em nome de todos os homenageados!


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Por Augusto Vieira - 5/7/2007 07:57:33
A FESTA DA MEDALHA
Voltei a minha aldeia, desta feita para receber a medalha “civitas” e o diploma de homenageado do sesquicentenário. Matei a saudade de minha mãe, almocei com ela e, por volta de uma hora da tarde, fui à casa de Tininha, viúva de Sebastião Alves da Silva, comemorar o aniversário de seu filho, meu grande amigo Tininho. Lá pelas três horas da tarde, de carona, com Alberto e Armeninho Graça, deixei a festa. Alberto me deu a notícia de que o novo filme de Carlos Alberto Prates Correia, “Castelar e Nélson Dantas no país dos generais” foi selecionado para o Festival de Gramado. Cumprimentei nosso grande cineasta, por telefone. Armeninho me deu outra, tão boa quanto: a de que o irmão Alberto, também consagrado cineasta, tivera dois roteiros de filmes aprovados por um órgão cultural da União Européia. Depois fomos pegar a mãe deles, “tia” Ruth Tupynambá, que já entrou no carro, linda como sempre, com seu belo livro “Montes Claros era assim...”, a mim autografado. Finalmente chegamos ao Parque João Alencar Athayde, que comemorava seus cinqüenta anos. Depois de agitado e demorado credenciamento, esperamos umas três horas para, após três discursos (do Prefeito, do Governador de Minas e do Presidente da República em exercício), recebermos nossas medalhas. A cerimônia foi uma beleza, mas o gostoso mesmo era cumprimentar, abraçar e beijar velhos amigos e amigas. A cada momento sentia uma nova emoção nos reencontros com pessoas queridas. Padre Murta me deu mais uma aula de latim, sobre a etimologia das palavras urbs e civitas. Téo Azevedo, acompanhado das irmãs Iracema e Beatriz, brindou-me com dois livros (“Montes Claros – 150 anos em literatura de cordel” e “A Folia de Reis no Norte de Minas & Vale do Jequitinhonha”). Recebi minha medalha das mãos da grande médica Vera, esposa de nosso cacique Athos.Com sede e fome, deixei o recinto e fui à tradicional barraca de Theodomiro Paulino, onde consegui comer uma deliciosa carne de sol com mandioca e tomar duas doses de uísque, ao lado de meu compadre Haroldo Veloso, de Maçarico e de Alemão, velho companheiro de Bar Brasil, em Belô. Na mesa ao lado estavam vários outros amigos, dentre eles Zé Augusto, Saulinho, Bruno, Herbert, Gustavo Correia, Da Roça, Paulo César e seu filho Gustavo. Lá pelas dez horas da noite, no Aeroporto Mário Ribeiro, embarquei no avião de Zé Augusto, de volta pra casa. Voamos num céu maravilhoso, sem nuvens, iluminado pelo luar do sertão. Nem sentimos a viagem, tão gostoso foi nosso papo, recheado de felizes lembranças.Se Deus me permitir, amanhã, 06 de julho de 2007, retornarei a minha aldeia, desta vez para, junto aos ex e atuais vereadores, receber nova homenagem, de meu fraterno amigo deputado Gil Pereira e da Assembléia Legislativa de Minas Gerais. No dia 09 de julho, receberei outra, desta feita do jornal da simpaticíssima figura do deputado Rui Muniz, que me deu a notícia na festa da medalha.Já ando tão preocupado com tantas homenagens que até brinquei com Paulo César, durante nosso vôo de regresso:– Paulo, o pessoal anda me homenageando demais. Será que já começaram a me despachar?
PS: Fiquei muito triste ao saber, pelo Mural, da morte de minha grande amiga Joeliza Ramos Cunha, que partiu ao encontro de seu querido Pimenta (Antônio José da Cunha). Quero mandar um abraço de pêsames a Marlene, “seu” Joel, Murilo, Joe, Neila e Evelina. Toda as vezes em que fui, de carro, lançar um livro em minha aldeia já levava o exemplar de Joeliza, autografado e, antes de chegar à cidade, parava em seu restaurante, na região do Pentáurea, para entregá-lo, num almoço ou jantar. Descanse em paz, querida Joeliza!


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Por Augusto Vieira - 18/6/2007 01:22:50
Quero dedicar à memória do menino Sidney uns versinhos que o poeta Cândido Canela me deu de presente, manuscritos, numa pequena folha de papel, no início do ano de 1972, do século passado.

Criança, assim bem falando
Num pensamento profundo,
É um lenço branco enxugando
O amargo pranto do mundo

O homem bom se retrata
Muito bem nesses pendores:
Fazer trova e serenata
Amar crianças e flores.


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Por Augusto Vieira - 11/6/2007 19:10:16

EDMUNDO ANTÔNIO DIAS NETO

Um de meus vizinhos de esquina se chamava Edmundo Antônio Dias Neto. Era inteligentíssimo. Sabia de tudo. Filho do estimado e repeitabilíssimo Professor João Neto e de D. Maria, irmão de Carminha, Branca e Paulinho, era, de todos os meus amigos de infância, o que eu mais admirava. Tramávamos as mais mirabolantes “estrepolias”. Nossa amizade era tão profunda que, nos meus 12 anos, fiz a ele um versinho, assim: amigo do coração/o endiabrado Edmundo/cujas estrepolias são/as que ninguém faz no mundo. Abro um parêntese para dizer que só hoje descobri que a palavra estrepolia não consta de meus dicionários. E como a usávamos! Supus, até, que ela talvez viesse do verbo estripar e o derivativo correto seria estripolia, também não encontrado em meus “pais-dos-burros”. Só sei que a pronunciávamos como escrevi aqui e como constou do versinho e que ela é uma palavra muito nossa, dialética.
Em outubro de 1957 os russos haviam lançado ao espaço o Sputnik, a primeira nave que orbitou em volta da terra. Incentivado por meu professor de Ciências Naturais, o saudoso mestre Francolino Santos e ainda entusiasmado com o sucesso dos soviéticos, resolvi montar meu laboratório no corredor, aos fundos do casarão da Presidente Vargas. Depois de apresentar o local, dotado até de um pequeno telhado e de uma velha prateleira, a Edmundo, resolvemos construir nossa própria nave espacial. Se os russos fizeram a deles, por que não fazermos a nossa? Seria a primeira espaçonave montes-clarense. Edmundo gostou da idéia e logo elaborou o projeto numa imensa folha de cartolina. Passamos à sua execução. Enchemos um cano de pólvora, furamos um buraquinho em sua base, onde colocamos um pavio de barbante. Pregamos um imenso foguete de compensado num cabo de vassoura, que enfiamos num longo e grosso cano. Tia Yayá, sempre generosa, até no nome, financiou a empreitada, sem nada dizer a meus pais. Fomos, mais de cinqüenta meninos, lançar o artefato ao espaço, onde construíam o campo de futebol do Cassimiro de Abreu, antiga chácara de “seu” Benedito Gomes. O pavio, mesmo embebido em álcool, não funcionou, devido ao excesso de terra fofa produzida pelas obras de nivelamento do terreno. O primo Geraldo Eustáquio Mirabeau, hoje festejado cardiologista do Rio de Janeiro, passava férias conosco. Resolveu dar uma de bacana, dizendo: – eu rixxco! Colocou um palito de fósforo no buraco do cano, preso ao chão por fortes arames roliços e estacas de madeira para que só o foguete voasse, e “rixxcou”. Voaram aos céus cano, base de madeira, arames, estacas, cabo de vassoura, foguete de compensado e tudo o mais. Gerinha Português, nosso Chefe, verberou, na correria, que todos deitássemos, de bruços, ao solo, para que nada caísse em nossas cabeças. Só Geraldo não deitou. Chorava e gritava que estava cego. Descemos para a cidade, em ruidosa procissão, carregando-o nos braços e invadimos o consultório médico de meu tio Luiz Quintino. Felizmente só ficou com o rosto manchado de pólvora. Que alívio!
Hoje, no Café Kahlúa, através do brilhante advogado Paulinho, esposo de Júnia, filha do inesquecível Dr. Bento Campos, soube da morte de Edmundo, ocorrida ontem. Edmundo tornou-se um dos mais renomados engenheiros do Brasil. Sempre exerceu a profissão em São Paulo, onde residia. Isso nos separou apenas no espaço físico porque, espiritualmente, nunca nos desligamos um do outro. Pois é, menino travesso, você nos deixou antes da hora, mas para nosso orgulho, deixou também um nome respeitado, tal qual seus dignos pais, na sociedade em que viveu. Sua vida valeu a pena. E nós, companheiro, tenha absoluta certeza, sempre nos lembraremos de você com a mais profunda saudade que seremos capazes de guardar em nossos corações. Descanse em paz, meu querido Edmundo, e vê se faz logo alguma “estrepolia” aí nesse aprazível lugar destinado aos bons onde, tenho certeza, você agora se encontra. Brinde a todos daí com a alegria e com a luz fulgurante dos aldeões de nossa tribo. Projete um foguete sideral. Chame um menino de nossa tribo, por nome Sidney, para participar dessa nova empreitada. Ele ficará muito feliz. Até breve, caro amigo.


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Por Augusto Vieira - 7/6/2007 21:03:31

AS RASPADEIRAS DE TRISTEZAS E O MURO DA COWAN

Dedico esta crônica ao amigo e escritor Raphael Reys, querido nas zonas rural, urbana e boêmia e nossa aldeia.
Dedico-a, também, ao muralista Chiara de Bernardino (MS24419), dos lindos Açores portugueses.

Meu saudoso pai Nonô, certa feita, não resistindo à intensa curiosidade de um inteligentíssimo menino montes-clarense, muito seu amigo, resolveu ensiná-lo o que eram zona boêmia e rapariga. Parou o carro do outro lado da avenida, em frente à porta de entrada do sobrado de “tia” Anália e explicou ao garoto que zona boêmia era o lugar para onde as pessoas, quando tristes, se dirigiam para se alegrarem e que as chamadas raparigas eram as enfermeiras da Santa Casa da Alma dos Homens. Esse petiz, hoje o brilhante maestro e cineasta Armênio Graça Filho, narrou, numa crônica, o diálogo que, então, travou com meu pai:
– Armeninho, todas as cidades se dividem em vários lugares, chamados zonas. Aqui neste lugar, onde estamos, é a Zona da Alegria. Ali, do lado, é a Praça de Esportes, a Zona do Esporte, aonde as pessoas vêm nadar, jogar futebol etc. Lá, no cemitério, é a Zona das Pessoas Mortas. Há também a Zona das Escolas, onde ficam o Grupo Escolar, o Colégio Imaculada Conceição, a Escola Normal. Entendeu?
– Mas, Nonô, por que o nome rapariga?
– Rapariga, Armeninho, é uma palavra de outra língua que, dividida em pedaços, você vai entender: “rapa” é raspar, tirar; “riga” significa tristeza.
E o menino concluiu:
– Então, Nonô, rapariga é raspadeira de tristeza!?
A zona boêmia da Princesa do Norte era famosa, primeiro pela beleza, carinho e calor humano de suas moças e, depois, pelo poema que a ela dedicou o genial Carlos Drummond de Andrade, o “Cabaré Mineiro”, que deu título a um dos mais premiados filmes de nosso grande cineasta Carlos Alberto Prates Correia.
A primeira sede da COWAN, logo que a empresa começou a crescer, foi no Prado Oswaldo Cruz, em plena zona boêmia, na região a que chamávamos simplesmente de “Praça de Esportes”, ao lado do sobrado da saudosa “tia” Anália. O randevu era adornado pelas mais belas “raspadeiras de tristezas” que se conheciam à época e teve entre seus freqüentadores até o Presidente Juscelino Kubitstchek de Oliveira, nacionalmente conhecido por “Nonô Pé-de-Valsa”. Ambos os terrenos eram imensos e tinham a separá-los, de um lado, um extenso e antigo muro divisório. De repente, numa indômita tempestade, os velhos tijolos não resistiram à força do vento e dos raios e o muro ruiu. Fato natural, sem culpa de nenhum confinante, ambos teriam que arcar com as despesas da reconstrução, pois não ficaria bem para as moças terem suas intimidades devastadas e nem para os trabalhadores da empresa serem irresistivelmente levados a ver o que se passava no interior do sobrado, negligenciando suas pesadas tarefas. O preço da restauração era bastante salgado e Walduck Wanderley procurou “tia” Anália, de orçamento em punho, para discutir de que forma ela pagaria sua metade. A dama da noite argumentou que a situação não andava muito boa, devido a uma crise que assolava o país, e que as meninas não estavam faturando quase nada, apenas o necessário para se manterem. A COWAN já tinha uns cinqüenta empregados ali, muitos deles já habituados, ao final do expediente, a se dirigem às sacerdotisas para deixarem, em seus doces braços, os cansaços de suas árduas jornadas de trabalho. Fizeram, então, o seguinte acordo, com participação das meninas e dos empregados: “tia” Anália pagaria, in natura, sua parte na reconstrução do muro. Todo empregado da empresa que fosse ao randevu se identificaria a ela, que anotaria o nome num livro de contas correntes. Se o empregado fosse mais de uma vez durante o mês, bastaria que ela colocasse um “x” à frente de seu nome. No final do mês apurava-se o número total dos “programas”, inclusive por pessoa, e multiplicava-se pelo preço usual que as moças cobravam para rasparem as tristezas dos homens. Em menos dois meses, para surpresa de todos, Anália pagou sua metade do muro. Walduck, sempre bondoso, sentindo que poderia tirar o pão de cada dia da boca de alguns de seus empregados, especialmente dos mais assíduos aos leitos das meninas, decidiu não descontar nada de seus salários, presenteando a todos o que teriam de pagar por suas jornadas de amores bandidos. O maldito muro divisório foi reconstruído em tempo recorde, para tristeza dos empregados e das moças, alguns deles e algumas delas já em fase de afáveis e profundos xodós. Zé Amorim, filósofo-mor da corte catrumana, sentenciou:
– Eh, Mola Forte, você vai acabar quebrando essa empresa se ficar fazendo negócio desse tipo, porque xibiu bem administrado dá mais dinheiro que banco...


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Por Augusto Vieira - 28/5/2007 10:59:53

MINHA MÃE, A STRIPER, O VELÓRIO, O LIVRO E A BELA DOLORES
Mais uma vez, no dia 22 de maio de 2006, em que meu irmão caçula, Xandão, completava 59 anos, fui obrigado a viajar, às pressas, para minha aldeia. Recebi a notícia de que minha mãe estava internada num Hospital. Pelo que me disseram, imaginei que, desta feita, a coisa seria muito mais grave e cheguei até a pensar na possibilidade de uma despedida. Estava me recuperando de uma microcirurgia de catarata senil, em que trocara o cristalino do olho direito por uma lente alemã, com a do outro olho programada para o próximo dia 28, a apenas seis dias do da viagem. Mas mãe é mãe. Não consegui vôo e saí, à tardinha, de carro. Quatrocentos e vinte quilômetros de estrada precariamente transitável, menos no trecho compreendido entre Francisco Dumont e Engenheiro Navarro, onde topei com várias crateras no asfalto. Até caí numa delas. Dei sorte. Não houve problemas. Onze e meia da noite estava beijando minha mãe num apartamento do Prontocor. Apesar de minha insistência ela não quis que eu dormisse ali, preferindo a companhia da sobrinha Candinha, alegando que, assim, teria mais liberdade. Cansado, rejeitado, faminto e ao mesmo tempo feliz, despedi-me dela e da prima e saí à procura de um restaurante. Só que eles, naquela madrugada de quarta-feira, já estavam fechando ou vazios. Um garçom me disse que havia uma boate espetacular, no caminho do aeroporto, onde eu poderia até jantar. Resolvi encarar. Entrei num imenso portão de um gigantesco pátio que serve de estacionamento. Dois “armários” me receberam com a maior educação e me deram uma cartela branca. Por um imenso e artístico corredor, cheguei ao salão. Lindíssimo. Vários planos circulares de poltronas estofadas, com uma imensa pista de dança ao centro, excelente som e lindas mulheres. Não deixa nada a dever às mais sofisticadas boates de outras plagas. Até nisso minha aldeia me orgulha. Não estava a fim de paquerar ninguém e fiquei ali, tomando meu uisquinho, esperando o prato que pedira. Vi três shows. Foi então que anunciaram a estrela da noite: uma linda strip-teaser paulista que já havia sido capa de várias revistas do país. A moça se apresentou com muita arte. Depois, certamente imaginando que aquele desconhecido, careca, gordo, alto e sexagenário, poderia ser um daqueles coronéis do interior, cheio da grana, aproximou-se de minha mesa e sentou-se, no estofado, a meu lado. Tratei-a polidamente, mas ela, como toda paulista, foi muito apressada. Sem a mínima fumaça sequer de amor bandido, foi logo me pedindo oitocentas pratas por um programa de uma hora, num dos apartamentos que, informou, havia aos fundos da boate. Não resisti à tentação e, quando me dei por mim, já havia respondido que nós, montes-clarenses, cobrávamos, principalmente de apressadas prostitutas forasteiras, oitocentas pratas, por hora, só para batermos um papinho com elas. A bela atriz, perplexa e desarticulada, tratou logo de chispar e sair, sem graça, em busca da sobrevivência noutros recantos. Comi meu palmito com carne de sol, pedi e paguei a conta, saí da boate e fui dormir sozinho, num apartamento do Motel Sonotur, de meu saudoso amigo Afrânio Tempone. Acordei cedo, tomei aquele banho e retornei ao Hospital, passando, antes, pelo Café Galo, onde abracei Jadir e saboreei um copo grande de café com leite com aquele delicioso pastelzinho de carne. Mal sentei naquele gostoso banquinho de madeira que fica encostado a uma das paredes laterais, vi um panfleto com a foto de uma mulher quase nua. Era justamente a atriz paulista. Contei a história a vários amigos que ali se encontravam, dentre eles o grande escritor Haroldo Lívio (de quem sou admirador há muitos anos e que, só naquele momento, descobri ter olhos azuis) e sua cria literária, Raphael Reys, a quem eu conhecia apenas de vista e de quem sou aficionado leitor, no Mural do Paulinho Narciso. Haroldo se retirou e Raphael e eu continuamos a conversar sobre vários assuntos, inclusive sobre sacerdotisas de Cotito, até sugerirmos, um ao outro, escrever crônicas em homenagem às cinco mais importantes de Montes Claros: Roxa, Anália, Leobina, Zinha e Edna. Raphael até já me mandou uma, sobre Roxa, por e-mail.
De volta ao Hospital descobri que a causa da internação de minha mãe, mais uma vez, fora uísque misturado a potentes medicamentos. Seu médico, André Antunes, sobre ser competentíssimo, parece um santo de tão bondoso. Minha mãe me perguntou onde eu dormira. Respondi que no Motel de Afrânio. Ela, maliciosamente, só olhou pra mim e exclamou: – Esse meu filho não toma jeito, mesmo! Retruquei, citando o filósofo Zé Amorim: – “Antimônio não pega solda”. Aí pedi a André que, se fosse possível, diminuísse a potência dos remédios de minha velha e permitisse que ela tomasse mais alguns uísques. Ao que ele, sorrindo, respondeu: – Uísque, não, Bala, mas um bom vinho, moderadamente, seria até bom para a saúde dela. André foi cuidar de seus outros pacientes e eu fiquei ali a meditar sobre a velhice: será que vale a pena a gente se privar dos prazeres e morrer cheio de saúde? Não seria bem melhor morrer sem saúde? Gastá-la nos prazeres da vida?
Iran Rego, um dos fundadores do Hospital (que tem um belo busto de Mauricinho num jardim de entrada), veio visitar sua “tia” Maria Helena. O irmão dela, tio Luiz Quintino, com mais de cinqüenta anos de medicina e oitenta de idade, estava no quarto. Liguei a Guilherme, meu irmão, também médico, e disse a ele que, Iran, tio Luiz, e eu havíamos feito um acordo: a partir daquele momento, menos remédios e mais bebida para nossa querida mãe. E deixo aqui um bom conselho a todos: se algum dia, algum remédio atrapalhar seu prazer de beber, elimine o remédio. E apelo às gananciosas multinacionais da farmacologia que passem a fabricar remédios compatíveis a esse prazer.
Almocei no Automóvel Clube, com meu parente pelo lado dos Quadros, amigo e colega de faculdade, Antônio Soares Dias e com a repórter Márcia Vieira, de sua emissora de rádio, que me entrevistara. A moça quase não pôde dizer nada. Ficou, o almoço inteiro, ouvindo aqueles dois carecas, parecendo meninos, relembrando fatos de suas juventudes.
Só vim a me entristecer quando, à noite, Paulinho Narciso me deu a notícia da morte de meu grande amigo Antônio Augusto Athayde, nosso querido Totone. Mas a verdade é que até em velório de amigo a gente sente algum prazer. E no de Totone tive alguns como o de dar um fraterno abraço de pêsames em sua esposa, Lúcia, o de conhecer alguns jovens da família, o de rever a irmã de Totone, Aparecida (linda como sempre) e seu marido Zé Carlos (aquele companheiro cultíssimo, que parece um lorde britânico e que lutou intensamente pelo progresso de nossa aldeia), o de rever Cássio Athayde e Mary, o de abraçar meu “cumpade” Vila Pereira, o de abraçar meu querido amigo Fábio Rebello e o de mandar um grande abraço a Pedro Prates, por intermédio de Andréia e Tila. Totone, minha gente, foi uma figuraça. Seu coração, um dos mais bondosos de toda nossa tribo, sempre guardava um lugarzinho especial para os mais jovens, inclusive para mim. Tenho gratíssimas lembranças de nosso convívio, inclusive uma cinqüentenária foto, ao lado dele, na Vaca Brava, que hoje publiquei em meu site.
Na manhã seguinte, em que Totone baixou à sepultura, minha mãe recebeu alta. Levei-a à sua casa e passei o dia com ela. Jantei uma deliciosa bacalhoada portuguesa, no restaurante de meu saudoso amigo Armando Português, acompanhado pelo ilustrador de meu último livro, o artista plástico Juarez Azeredo Dias Costa, cujo pai, Fernando Dias Costa, ex-Reitor da Unimontes, a quem eu assessorara juridicamente, fora homenageado nas festas das comemorações dos quarenta anos da instituição. Revi meu caro reitor Paulinho, Marina, Tião Vieira e conheci a nova, culta e alegre turma da Unimontes. Na noite seguinte Berguinho autografaria seu belíssimo “Quase História”. Já havia comparecido ao lançamento, em Belo Horizonte, no Palácio das Artes, mas resolvi ficar mais um dia, para ir, mais uma vez, ao encontro dele. Num imenso salão revi gente boa que não acabava mais. Alguém me pediu para fazer uma comparação dos dois lançamentos. Respondi que no de Belo Horizonte havia mais gente, mas não tanto calor humano. Como Berguinho é querido em Montes Claros! Tirou até Robertão Gomes da toca. Já li o livro. É ótimo e será, num futuro bem próximo, grande documento para as gerações porvindouras (quando escrevo essas duas palavras me dá uma tremenda saudade de Cândido Canela) estudarem o passado. E foi justamente por isso que Roberto Elísio, em sua bela crônica dominical sobre o livro, chamou Berguinho de “testemunha ocular da história”, parafraseando o slogan de abertura do antigo Repórter Esso. Roberto disse, ainda, que Berguinho, de Espinosa, adotou Montes Claros. Devo dizer a meu querido amigo-irmão que Montes Claros também o adotou, por um projeto de minha autoria, quando fui vereador e líder do Prefeito Toninho Rebello.
Depois do lançamento fomos a uma bela churrascaria. Fiquei papeando com Haroldinho e com ciúmes de Robertão, porque ele, ao invés de sentar-se a meu lado e de nosso Chefe, preferiu a cadeira ao lado de Zé Augusto Alkmim. De repente chega a moça que eu considerava a mais linda de minha aldeia, no meu tempo de rapazinho. E eu não estava sozinho nessa opinião, que era também a de Konstantin, que a retratou numa tela. E a moça continua linda. Estava com um de seus filhos, um belíssimo rapaz. Falo de Dolores Alkmim. Não via aquela beleza, ao vivo, há mais de três décadas. De repente bateu um tremendo cansaço. Bala Doce você não é mais aquele, pensei. Maçarico, gentilmente, acompanhou-me até meu carro. Fui dormir na casa materna. Acordei e peguei estrada de volta, pensando na cirurgia programada. E aqui estou, preparando-me para operar o olho esquerdo, para que eu possa ver com mais nitidez ainda a incomparável beleza da gente de minha aldeia. E devo dizer a meus leitores que estou orgulhoso pelo fato de que meu cirurgião é um jovem, meu sobrinho Carlos Gustavo, cujo nome de guerra na profissão, aqui em Belô, é Dr. Vieira. Daqui a quatro horas estarei na Clínica. Axé!


23659
Por Augusto Vieira - 11/5/2007 11:08:03

DEUS EXISTE!!!
O avião do Papa descia. O meu também. O do Papa na confederação das tribos para altas discussões filosóficas com os teólogos da libertação; o meu, em minha aldeia, a sesquicentenária Princesa do Norte, ao encontro da afabilidade e do calor humano que a gente só encontra nas próprias raízes. Vi aquela vastidão de luzes noturnas pela janela do avião. Meu Deus, disse a mim mesmo, como minha aldeia cresceu! E como é bela, à noite, toda iluminada! Mas sabia que o esplendor dessa beleza se revelaria no momento em que me deparasse com minha gente, na Praça da Catedral, onde seriam nomeados os 150 felizes ganhadores da medalha “Civitas”. E não deu outra.
Após ouvir o magnífico pronunciamento de nosso cacique Athos, joguei uma partida de basquete, dirigido por Zim Bolão, numa quadra da Praça de Esportes em que estavam Geraldo Barata, Dácio Cabeludo, Raimundo Chupa-Dedo, Walduck Wanderley, Amaury Fraga, Guigi, Joãozinho, Jairo, Valtinho, Armeninho, Maninho, Haroldinho, Tutica, Roberto e Lúcio Amaral. Vi Sabu, à beira da piscina da Praça de Esportes, exigindo de seus alunos movimentos mais adequados para reduzirem seus tempos. Vi Zé Maria Melo tratar carinhosa e elegantemente uma bola de futebol. Vi Coró fazer uma defesa espetacular, num chute certeiro de “tio” Ênio, e Bonguinha deixar a torcida em delírio com uma atlética e garbosa ponte, após certeira cabeçada de Manoelzinho. Marcelino aplaudia as jogadas e Elias Siuf irradiava tudo, pela ZYD-7, onde Alpheu Prates tecia seus inteligentes comentários. Li o mestre Oswaldo Antunes reivindicar, com sabedoria e ardor, mais um grande benefício para nossa terra, num editorial do “Mais Lido”. Li Waldyr Senna, com a verve de sempre, criticando, de forma construtiva, algum emprego errado do dinheiro público e oferecendo a alternativa correta. Li as colunas de Lazinho Pimenta e Theodomiro Paulino. Enquanto isso, Toninho Rebello, em seu corcel marrom, placa 2121, chegava, bem cedinho, à Prefeitura, para enfrentar mais um dia de luta pelo progresso de sua amada princesinha. Vi Luiz de Paula, com Zezinho da Viola e Zé Côco do Riachão acompanhando-o, cantar uma bela música que acabara de compor, queimando um cigarrinho de palha, à beira de uma fogueira de São João. E quando chegavam ao fim, deles se aproximou “Mané Quatrocentos”, dizendo a Zezinho que uma corda de sua viola se partira ao meio, fazendo-o parar de tocar para, em seguida, exclamar seu famoso e festejado “olalaique!!!”. Vi D. Geraldo, da genial família Espírito Santo, abrindo o sacrário para, depois de entrar em linha direta com Deus, voltar-se para o público e pregar, como nunca se ouvira antes, o amor e a fraternidade. Vi meu avô Donato Quintino, João Chaves, “seu” Mundinho Dias e Zé Luiz Veloso, sentados à porta da agência lotérica “A Preferida”, na Rua Quinze, batendo aqueles papos inteligentes e se deliciando com o desfile vespertino de lindas donzelas vestais. Em seguida vi Dr. Alpheu, de terno cinza, camisa branca, gravata borboleta vermelha e sapatos marrons, ser convidado a integrar o grupo. Vi Mário Ribeiro chamar Mauricinho e “Zão” e a ele propor a criação de uma escola de medicina em nossa aldeia. Vi Darcy Ribeiro voltando do exílio, dizendo que fora parido por uma avenida e telefonando aos amigos, pedindo que lhe organizassem um jantar na casa de “tia” Zinha, regado a pacas e putas. Vi Simeão Ribeiro Pires convidando Gélson Dias, tratando-o por “Lumumba”, a um passeio ecológico por nossas grutas. Vi “tia” Dulce Sarmento, manhãzinha, dedilhando seu piano, para alegria dos vizinhos, na sala de sua aconchegante residência, ao lado da entrada principal do Estádio João Rebello.
E foi assim, vendo coisas e mais coisas, que saí das nuvens, retornei ao presente, caí na real e pisei meu chão. Senti que naquela praça, como bem expressou o muralista César Soares, as torres da Catedral se curvaram perante mais de três séculos de história, aos sons de catopés, marujos e caboclinhos, de artistas do Banzé (comandados por Zezé Colares) e do Grupo de Serestas “João Chaves” (comandado por D. Fina e assessorado por Dr. Hermes e Virgílio). E eu ali, abestalhado, entre os 150 homenageados, sem saber sequer o que fazer, de tanto orgulho, sem me julgar merecedor de tamanha honraria, abraçando aquela gente irmã que mora bem lá nos fundões de meu velho coração sertanejo. De volta a Belô, quase estourei de emoção, depois de abrir o Mural e ler a crônica do mais jovem ganhador medalha “Civitas”, o grande jornalista Luiz Ribeiro, me homenageando. Bala Doce, deixe de ser besta, Deus existe!!!


22989
Por Augusto Vieira - 19/4/2007 01:03:08

SIMEÃO RIBEIRO PIRES

Conheci Simeão Ribeiro Pires em minha infância. Luiz Tadeu Leite costuma dizer que estou trinta anos à frente de meus contemporâneos. Mas a verdade é que quem realmente andava bem à frente de sua época era meu saudoso pai, Nonô. Na década de 40, do século passado, quando a política de Montes Claros ainda era extremamente radical e sectária, Simeão era um jovem engenheiro, ligado ao PR, e Nonô, um pouco mais velho, um prático em construção civil, ligado ao PSD. E não é que deixaram de lado o radicalismo e o sectarismo políticos, ficaram amigos e construíram um prédio de três andares, na Rua Padre Augusto? Esse prédio, por algum tempo, abrigou, num dos andares, nossa saudosa ZYD-7, onde despontavam os saudosos Zezinho Fonseca e Milton Ramos, o último em inteligentes entrevistas com os craques de nosso futebol.
Lembro de uma das vitoriosas campanhas de Simeão à Prefeitura de Montes Claros. Menino, seu ferrenho adversário político, minha praia era a de meu primo, Dr. Alpheu, e a de meu querido e saudoso Geraldo Athayde. Nos comícios do PR, estilingue em punho, atirava verdes e espinhosas mamonas – colhidas na manga da cocheira de “seu” Ataidinho – nos participantes. E ainda fazia mais: andava no meio do povo, portando alfinetes de cabecinha, só para espetar os bumbuns das mulheres.
A mãe de Simeão, a inesquecível D. Vidinha Pires, cansou de me ver furtando mangas-rosas, abacates, goiabas e outras frutas em seu farto e belo pomar. Ainda vejo sua figura, alta, forte, retilínea, bem trajada, traços marcantes, na varanda de duas escadas laterais que havia aos fundos de sua residência, a gritar comigo e meus companheiros, para deixarmos suas frutas em paz. Grande D. Vidinha que, à época, era a proprietária do serviço de energia elétrica da cidade. Nossa luz era, portanto, a “Luz de D. Vidinha”. Depois, maduro, conheci-a de perto e tornei-me seu admirador, porque vi que por trás de toda aquela austeridade estava escondido um coração bondoso de uma grande mulher.
E seria justo da luz de D. Vidinha que eu receberia, no curso cientifico, as luzes de dois grandes mestres: Simeão, na cadeira de Química, e Luiz Pires Filho, na cadeira de Biologia. Que grandes professores nos deu ela! Foram mestres, na mais pura acepção que essa palavra possa vir a ter. Simeão organizava, para nós, excursões pelas grutas da região, apenas para ensinar-nos a valorizar nossos tesouros arqueológicos que eram a expressão mais incontestável de nossas mais profundas raízes. E como eram gostosos aqueles passeios, com o mestre a nos explicar, nos mínimos detalhes, tudo o que havia de importante para nossa formação. Aprendemos a respeitar a natureza e adquirimos consciência sobre quem éramos naquele pedacinho de planeta. Gélson Dias e eu, a partir dessas excursões, passamos a tratar Simeão por “Lumumba”. E ele também a nós, por esse nome. Acho que em homenagem à memória de Patrice Lumumba, à época, chefe do governo da República Democrática do Congo, destituído do poder e assassinado, mas proclamado herói e mártir por seu, até hoje, sofrido povo. Gostamos tanto de Simeão que o elegemos, com sua esposa, D. Therezinha Gomes Pires, e Jamil Habib Cury, então jovem professor de Física, nossos paraninfos de formatura de curso científico. Nunca mais deixei de tratar D. Therezinha por “madrinha”.
Terminado o científico, em 1963, como não havia ensino superior em minha aldeia, fui estudar em Belo Horizonte e só retornei a ela, com doutorado em direito público, no início de 1970. De repente, já exercendo a advocacia e o magistério superior, sou surpreendido por um convite de Simeão:
– Lumumba, estou lançando meu primeiro livro, o “Raízes de Minas”, e gostaria que você fizesse a apresentação dele, num programa de uma hora de duração, em nossa ZYD-7. Quase desmaiei de emoção. Corri à casa do mestre, em frente à que eu então residia, na hoje mutilada Avenida Coronel Prates, peguei o livro, devorei-o e, tremendo de emoção, falei à minha tribo sobre uma das obras mais primas da literatura brasileira. Foi nela que adquiri a consciência do que é ser catrumano, do que era a cultura do ciclo do gado. Foi a carne de nosso gado que deu de comer ao pessoal do chamado ciclo do ouro. Distingui o Geraizão e as Minas, os “roseanos” e os “mineiros”, os caipiras e os “chiquéis”.
Pouco tempo depois, devido ao último ato de João Valle Maurício como reitor da universidade, viria a assumir a direção da Faculdade de Direito do Norte de Minas. Pedi a Simeão que ministrasse aulas de oratória aos alunos que desejassem. Ele me atendeu na maior boa vontade e, sem ganhar um tostão, passava as tardes dos sábado nos deliciando com suas palestras e ensinando-nos a difícil arte da oratória. Voltei, com o maior prazer, a ser seu discípulo. O salão nobre da faculdade ficava lotado e eu não perdia uma aula, sequer, daquele sempre mestre e amigo.
Simeão lança, então, o “Gorutuba: o padre e a bala de ouro”, que tem muito a ver comigo, por ser eu, com muito orgulho, bisneto de Ângelo de Quadros Bittencourt, um dos homens que teria matado o padre com uma bala de prata benzida pelo próprio. O inesquecível Dr. Hermes de Paula me deu o mote e eu me inteirei da história e li o processo do julgamento.
Caí na magistratura e rodei mundo. Simeão nos deixou. Em 2001, já aposentado e residindo em Belo Horizonte, recebi seu terceiro livro, “Serra Geral – Diamantes, Garimpeiros & Escravos”, uma magnífica edição póstuma, com belíssimas orelhas de autoria de Wanderlino Arruda e do saudoso mestre Ayres da Mata Machado Filho. Minha madrinha, D. Therezinha, nele apôs, de próprio punho, a seguinte dedicatória: “para Augusto, com o carinho e a amizade da família de Simeão”. Nessa obra, o incansável pesquisador, o grande filho de D. Vidinha, nos mostra, como bem disse Wanderlino, que aqui, nesses Gerais, “está o verdadeiro coração da história brasileira.”
Ainda sinto muita saudade desse mestre. Saudade de seu amável e farto sorriso, de suas marcantes sobrancelhas, de sua voz firme e aveludada, de sua serenidade e de sua presença de espírito. Simeão Ribeiro Pires foi, sem dúvida, um grande exemplo, para todos nós, de respeito à dignidade humana, de amor à ciência e à arte e, sobretudo, de amor à vida, ao semelhante e a Deus.


22878
Por Augusto Vieira - 15/4/2007 14:28:54

GERALDÃO
Já era muito amigo do pai dele, desde os tempos de minha juventude. Mais admirador do que amigo. Me lembro de meu querido “Ti Bila”, como sempre o tratei com carinho, exercendo sua medicina e dirigindo, com Marão e Toninho Rebello, o Ateneu, com o maior ardor do mundo. Guarinello, seu cunhado, o “tanque”, o grande centroavante, ali jogava com a garra que o cunhado demonstrava e ainda demonstra em todos os atos de sua vida. “Ti Bila” sempre foi simples e farto. Farto até pra fazer meninos. E encontrou uma meeira de vida genial, tão raçuda quanto ele e o irmão (dela), minha querida “tia Taís”. E deram a Montes Claros uma meninada maravilhosa. Dificilmente se vê, neste mundo tão individualista, uma irmandade tão unida e solidária como os filhos desse casal maravilhoso. Todos inteligentes e bonitos. Todos leais e amigos. Todos pautando a vida pela ética e pelo respeito à dignidade humana. Sábado, 14 de abril de 2007, mais um deles nos deixou precocemente: meu querido Geraldão. Tive o prazer de conviver intensamente com ele, por quatro anos, no governo de Toninho Rebello. Éramos vereadores e aliados do grande Prefeito de nossa aldeia. Acompanhei sua vida estudantil. Recordo-me de seu namoro e casamento com sua colega de medicina Mercês. Só não pude acompanhar o nascimento de seus três filhos Geraldo, Lucas e Daniel, porque a vida nos separou. Ele continuou servindo nossa terra pelos caminhos da medicina e da política e eu a outras, pelos caminhos da magistratura, que antes já haviam sido trilhados por seu avô materno. Mas nossa amizade sempre se manteve sólida e profunda. Em nossos raros e prazerosos contatos, marcados pela franqueza e delicadeza de sempre, bastava apenas um olhar para dizermos quase tudo um ao outro. Geraldão era linheiro. Jamais traía um amigo. Era o companheiro de todas as horas. Sempre chegava junto. Sua garra, tal qual a do pai, a da mãe e do tio Guarinello, era impressionante. Nada o abatia. Nada o curvava. Foi um jequitibá. Até em sua doença consolava e animava as pessoas.
Meu querido Geraldão, sua vida foi um exemplo para todos nós. Pena que você, como diz meu grande amigo Roberto Elísio, “precipitou”: deixou-nos antes da hora. Queríamos tê-lo conosco, vivinho, por mais alguns anos. Mas essa misteriosa vida nem sempre é como a gente quer. Decanse em paz, Geraldo Correia Machado Filho, alma boa de gente bem montes-clarense!




Selecione o Cronista abaixo:
Luiz de Paula
Alberto Sena
Augusto Vieira
Carmen Netto
Dário Cotrim
Enoque Alves
Flavio Pinto
Genival Tourinho
Haroldo Lívio
Haroldo Tourinho Filho
Iara Tribuzzi
Isaias Caldeira
Jorge Silveira
José Prates
Luiz de Paula
Manoel Hygino
Marden Carvalho
Oswaldo Antunes
Paulo Braga
Paulo Narciso
Petronio Braz
Raphael Reys
Raquel Chaves
Ruth Tupinambá
Saulo
Ucho Ribeiro
Waldyr Senna
Wanderlino Arruda
Web - Chorografia
Web Outros
Yvonne Silveira
 



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Três jogos hoje e sete amanhã pela 19ª rodada do Brasileirão

04/09/10 - 14h
Mais de 1 milhão se inscreveram em concurso dos Correios; provas serão no dia 28 de novembro

04/09/10 - 13h
“Desmatamento cresce em Minas” – “PIB supera previsões e atinge 8,9% no semestre”- “Gastos do governo turbinam o PIB”

04/09/10 - 12h48
"Os órgãos estatais que você citou em sua mensagem são totalmente inoperantes em nossa cidade, com relação ao problema que você citou. Moro próximo do local, e é um verdadeiro inferno. Já liguei para tais órgãos, mas nenhuma providência é tomada"

04/09/10 - 12h
M. Claros vai continuar com umidade do ar baixa (na altura dos 23 por cento) neste fim de semana

04/09/10 - 11h
Amigos apostaram quem cometeria maior número de estupros em cidade baiana; vítimas podem chegar a 42

04/09/10 - 10h
Assaltantes atacam casal de namorados em M. Claros, executam rapaz de 19 anos, com tiro na nuca, e levam a moto

04/09/10 - 9h09
"O índice pluviométrico registrado nos últimos 90 dias, de 55mm, bem abaixo da média histórica, reduziu drasticamente os recursos hídricos, prejudicando o sistema produtivo e..."

04/09/10 - 9h
Contran muda norma da cadeirinha para carros com cinto de dois pontos

04/09/10 - 8h
Número de apostas na Mega-Sena, que corre hoje, pode atingir os 90 milhões de reais

04/09/10 - 7h
Contador que acessou o Imposto de Renda da filha de Serra foi filiado ao PT, mas ele diz que não se lembra


03/09/10 - 18h30
Centros de saúde e Prefeitura emendarão o feriado; só voltarão a funcionar na próxima quarta-feira

03/09/10 - 18h
INSS pagará atrasados para 42.519 aposentados no próximo dia 10

03/09/10 - 17h
Cientistas israelenses eliminam células com vírus da Aids sem atingir as saudáveis

03/09/10 - 16h
Prêmio de 85 milhões da Mega-Sena, que será sorteado neste sábado, dá para comprar 420 casas

03/09/10 - 15h
Americano que recebeu transplante duplo de mãos já consegue mexer os dedos

03/09/10 - 14h
“Gás descoberto em Minas equivale a meia Bolívia” - “Reserva de gás em Minas Gerais é de grande dimensão” - “Aposentado por invalidez pode acumular o auxílio-acidente”

03/09/10 - 13h46
"Parada no tempo, e até andando para trás nos últimos anos, é compreensível que Montes Claros não tenha figurado no minucioso trabalho da revista “Veja”, para frustração dos bairristas"

03/09/10 - 13h
Umidade do ar em Minas deve melhorar com a chegada de frente fria no feriadão, diz meteorologia

03/09/10 - 12h
Carga tributária no Brasil é maior do que a dos Estados Unidos, Japão e Canadá

03/09/10 - 11h
Economia brasileira cresceu 1,2% no 2º trimestre e 8,9% no semestre, aponta IBGE

03/09/10 - 10h
Defesa do goleiro Bruno quer filmes pornôs e ficha criminal de Eliza no processo

03/09/10 - 9h
Gás em Morada Nova deve ser explorado a partir de 2011; reserva do poço é metade do que vem da Bolívia

03/09/10 - 8h59
Queima de lixo hospitalar em M. Claros: "Como a doação foi realizada sem passar pelo crivo da Câmara Municipal, não teria valor legal. Diante da constatação da irregularidade, a doação foi cancelada"

03/09/10 - 8h
Atropelador do filho de Cissa Guimarães responderá por quatro crimes

03/09/10 - 7h
Contador que acessou dados da filha de José Serra diz que agiu a mando de terceiros e indica suposto contratante


02/09/10 - 18h45
Físico britânico famoso diz que Deus não tem mais lugar na criação

02/09/10 - 18h30
Revista americana afirma que John Travolta trai a mulher com rapazes

02/09/10 - 18h
Carro com cinto de dois pontos pode ter regra diferente para uso da cadeirinha

02/09/10 - 17h30
Polícia pega dois que trouxeram 40 quilos de maconha para o Carnamontes

02/09/10 - 17h
Produção industrial cresce em 7 das 14 regiões pesquisadas

02/09/10 - 16h
Segundo tipo do vírus da Aids é detectado em 15 pessoas no Brasil; origem é o Senegal

02/09/10 - 15h
Brasil mantém o maior juro real do mundo, à frente da África do Sul, Rússia e China

02/09/10 - 14h
“Advogado mineiro é primeiro mensaleiro condenado à prisão“ - “Importação do país cresce mais que a da China” - “Sigilo fiscal da filha de Serra foi violado com procuração falsa”

02/09/10 - 13h30
Corrupção (veja as imagens) deixa cidade do Mato Grosso do Sul sem comando - prefeito, primeira-dama e vereadores foram presos

02/09/10 - 13h
Taxista é atraído por 6 ladrões ao bairro Ibituruna, uma semana depois da morte de outro, durante assalto

02/09/10 - 12h
Previsão é de temperatura de 29 graus e ventos de 11 km, hoje, em M. Claros

02/09/10 - 11h
Liberada no Brasil a cirurgia de mudança de sexo para mulheres transexuais

02/09/10 - 10h38
"Revolucionou minha vida e espero e desejo que faça isto com as de milhares de brasileiros, especialmente os de menor poder aquisitivo, porque internet, diferentemente do que eu imaginava, é também cultura"

02/09/10 - 10h25
"Na prática, um estorvo, pois refletirá negativamente no dia a dia das pessoas. Vejamos:"

02/09/10 - 10h06
"...a transgressão deste compromisso implicará na suspensão do alvará municipal de funcionamento, apesar do licenciamento concedido pelo Conselho de Política Ambiental do Norte de Minas"

02/09/10 - 10h
Vitória sobre o Goiás foi a primeira do Atlético fora de casa neste Brasileirão



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