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10/9/2014 -"...teve até o desfile de um mendigo novo, supostamente drogado, que andou pelo centro, o quarteirão fechado da rua Simeão Ribeiro, completamente nu, exibindo-se". A crescente degradação da Praça da Matriz e vizinhança pede:

»1 - Policiamento mais rigoroso
»2 - Redefinição do uso da praça que é o marco zero da cidade
»3 - Outra reforma física
»4 - Maior empenho das autoridades no cumprimento das leis
»5 - Uma recuperação em todos os sentidos

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           Alberto Sena    albertobatista@superig.com.br

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Por Alberto Sena - 19/11/2014 15:53:16
COM A REPORTAGEM NAS VEIAS

Era um jovem franzino, pele queimada pelo ardente sol de Montes Claros, de natureza tímida, fala baixa, disto me recordo bem, mas não tive o privilégio do convívio no dia a dia porque me mudei para Belo Horizonte logo que ele começava as incursões no O Jornal de Montes Claros.
Mas posso dizer da competência dele, que nasceu profissionalmente pelas mãos de Waldyr Senna Batista, responsável direta e indiretamente pela base jornalística de vários profissionais, em cujo rol me incluo como o menor entre todos – Robson Costa, Carlos Lindenberg, Robério Antunes, Waldemar Brandão, Flávio Pinto, Paulo Narciso, Felisberto Versiani, Avaí Miranda, Itamaury Teles, Paulo Braga, entre outros.
Naquela época, quem passava pela redação do O Jornal de Montes Claros, de Oswaldo Antunes estava apto a trabalhar em qualquer redação de grandes jornais da capital e do Brasil. Não foi à toa que a redação do JMC era conhecida na redação do jornal Estado de Minas como “escola de jornalismo”. Isto nos anos 70/80.
E como era praticado Jornalismo naquela casa velha da Rua Dr. Santos 103, numa época em que Montes Claros efervescente criava “os caminhos futuros”. Era praticado Jornalismo comprometido com o Jornalismo, que muito influenciou o desenvolvimento de Montes Claros.
Houve um período em que a redação do Estado de Minas tinha cinco jornalistas de Montes Claros, Fernando Zuba incluso, mas em redação contigua à do EM, no Diário da Tarde, jornal que desapareceu depois de 77 anos para que os Diários Associados criassem o Aqui, a fim de concorrer contra o Super, de O Tempo. Super que vinha comendo o mingau imperial pelas beiradas.
O jovem franzino, eu soube depois por intermédio do Waldyr Senna, era Luiz Ribeiro. Ele teceu elogios ao foca dizendo ver nele vocação para o Jornalismo. Essencialmente, o jovem demonstrava ser como os cães perdigueiros, com faro apurado para cavar notícias, o que é primordial em qualquer jornal, inda mais naquela época em que às vezes “os fatos se recusavam a acontecer”, como dizíamos.
E tinha faro mesmo, esse Luiz. Repórter de nascença. O tempo pôde provar isso. Só que ele não quis ou não pôde por alguma circunstância da vida fazer como os outros fizeram: ir para Belo Horizonte trabalhar diretamente na redação do Estado de Minas. Ele não foi, mas a redação do EM foi a ele, em Montes Claros, onde Luiz Ribeiro ingressou e lá está até hoje e cada vez mais provando a competência baseada numa postura de gente humana simples. Posso dizer humilde até.
É importante salientar, simplicidade é diferente de humildade. O pobre pode ser simples e não ser humilde. As pessoas às vezes confundem uma coisa com a outra. Nem toda gente simples é humilde. E não é fácil encontrar gente realmente humilde. Humildade é a maior energia. Foi a Humildade de Deus que fez o Universo. Portanto, não se encontram humildes por aí a três por dois.
Particularmente temos soberbas notícias de pelo menos dois homens realmente humildes que pisaram o chão do planeta: o maior deles é Jesus Cristo, que nos legou o “Caminho, a Verdade e a Vida”. Quem segue espiritual e racionalmente a Jesus Cristo pode fazê-lo com toda segurança e confiança que não tem erro, como se diz. O outro homem, Marátma chamado – “A Grande Alma” – foi Gandhi, que, com a força da humildade livrou o seu povo do jugo inglês com a adoção da não-violência.
Luiz é um tipo humilde. Ele certamente vai dizer que não. Mas admitirá ser simples. No caso dele, é uma simples derivação do que ele é. Por esses dias, dirigindo-me a ele, dizia: “Você possui luz própria; as pessoas que têm luz própria estão fadadas a iluminar tudo que elas fazem”.
Noutra ocasião, conversando “in box” pelo Facebook, ele externou: “Acho que na passagem pela Terra, somente ganhamos importância se fazemos algo em prol de outros ou pelo nosso modo de agir ou de ser, transmitindo algo de importância para os outros”.
E é isto que ele faz no dia a dia da profissão, e como pessoa, com a maior competência, engrandecendo o Jornalismo ao ponto de ser premiado muitas vezes. Só prêmios Esso, quatro. Luiz é o exemplo vivo mais vivo que conheço de como vencer no Jornalismo e na vida pessoal com humildade. Competência. Perspicácia. Tino. Simples assim.


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Por Alberto Sena - 15/10/2014 10:47:46
TESTE DE MEMÓRIA

Alberto Sena

Outro dia, Jarbas Oliveira, hoje amigo meu virtualmente, mas no passado, na década de 60, amigo de convivência, em Montes Claros, me enviou uma mensagem “in box” pelo Facebook dizendo ter se encontrado com “um amigo seu” (meu), Josimar Oliveira, que me enviava um abraço.
Antes disto, quando Jarbas mandou-me solicitação de amizade, de fato não o reconheci pelo nome nem pela fotografia. Mas foi ele enviar-me a mensagem, fiz as conexões, me recordei do irmão de Josimar, ex-colega de Escola Normal Professor Plínio Ribeiro, na bendita década de 60.
Mas, em vez de me informar de início ser ele, Jarbas, irmão de Josimar, preferiu fazer-me um teste ao conduzir o nosso reencontro via Facebook desta maneira, sem revelar o seu grau de parentesco, o que não deixa de ser uma maneira peculiar. Se intencional, foi criativa.
Ele testou a quantas anda a minha memória, pois desde início dos anos 70 não vejo um nem outro. A partir da mensagem “in box”, quando Jarbas disse ter se encontrado com “Josimar, amigo seu (meu)”, o sobrenome Oliveira denunciou logo o grau de parentesco. Jarbas e Josimar são irmãos. E por que Jarbas não me disse logo isso? Ficou a indagação.
Ontem, enviei mensagem “in box” a ele, nestes termos: “Outro dia, Jarbas, você me falou sobre Josimar, que, acho, é seu irmão. Lembro bem, Josimar tem um irmão com o nome Jarbas. Então fiquei pensando com os meus botões por que você não disse, na ocasião, ser irmão de Josimar? Espero que você e ele estejam bem espiritual, mental e fisicamente. Abraços pra você e ele”.
Hoje Jarbas esclareceu tudo ao responder a minha mensagem: “Eu não disse (que é irmão de Josimar), só para saber se você se lembrava, já que se passaram tantos anos. Estamos todos bem. Josimar está aposentado, mora na fazenda em Nova Esperança. Eu também estou, mas continuo ativo em nosso escritório de contabilidade”.
Convivi com Josimar na adolescência montesclarina. Ele é mais antigo que Jarbas. Ambos moravam com a família na Rua Bocaiúva, quase esquina da Praça Coronel Ribeiro, numa casa em estilo colonial, pintada de bege. Como colega de escola de Josimar, muitas vezes nós íamos e voltávamos juntos. Tínhamos 15 anos. Os hormônios em ebulição e os olhares apreciadores do andar charmoso de determinadas moiçolas.
Foi Josimar que me ensinou a fumar. Foi com cigarro Hollywood sem filtro, porque naquela época os cigarros não tinham filtro.
Se me dão licença, vou contar como foi. Íamos para a escola e ao chegarmos à Praça Dr. Chaves, chamada Praça da Matriz, Josimar deu a ideia:
- “Vamos matar aula?”
Nunca havia matado aula. Se o pessoal lá em casa soubesse que eu havia matado aula ia ser um fuzuê danado. Mas já que estávamos na praça, aproveitamos pra sentar num banco e pensar o que fazer para aproveitar o tempo.
Josimar fumava. Ele sacou do bolso da camisa um maço de cigarros Hollywood, embalagem vermelha, e fez o convite:
- “Quer fumar?”
Eu disse:
- “Não sei fumar”.
E ele:
-“Eu te ensino”.
E me mostrou como devia fazer.
Fiz como ele recomendou, puxei a fumaça, quer dizer, dei a primeira tragada. Quase no mesmo instante fiquei tonto. O mundo parecia girar mais rápido e preferi deitar no banco pra me recuperar da tonteira.
Josimar insistiu. Dei umas três tragadas mais e fiquei zonzo. Depois de recuperado, fomos andando sem lenço, sem documentos, mas com cadernos e livros nas pastas.
Naquela época, era chique fumar. A publicidade em torno do cigarro era vista em revistas e pelo rádio. Fumar, segundo a publicidade, dava “um raro prazer”. O cigarro era vendido como algo de uma “suavidade” impressionante.
Daquela época em diante, com o advento da televisão, os cigarros ganharam espaço no vídeo. Apareciam homens fumando ao lado de mulheres lindas, passando aos telespectadores a ideia de que quem fumava conquistava belas donzelas. Ou senão, conseguia façanhas mil nos esportes.
O tempo passou como flecha lançada pelo arqueiro ao espaço. Houve a mudança para Belo Horizonte, em 1972. Mais de 40 anos depois, a flecha do arqueiro cravou-se numa rocha de Grão Mogol.
Nesse tempo todo, nem notícia tive de Josimar, até Jarbas me reencontrar no Facebook e testar a minha querida memória, eficiente companheira de todas as horas e da vida inteira, até a morte, passagem para a vida, nos separar.


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Por Alberto Sena - 6/10/2014 08:39:16
Da caverna rumo a Montes Claros

Alberto Sena

Deixou a caverna, na Serra do Espinhaço, em Grão Mogol, onde de dia tem a companhia de passarinhos e de vez em quando passa uma lagartixa em busca dum petisco, e à noite conversa com as estrelas e elas se deixam contar e lá pelas tantas nem sabe quantas durma.
Deixou a caverna para ir a Montes Claros. Era um pé lá e outro cá, como dizia a mãe Elvira, que faria mais um ano se viva fosse, no dia 16 deste mês de outubro. Mais uma vez teve de enfrentar os desafios da BR 251, que precisa ser duplicada, urgentemente para evitar mais problemas.
O tráfego da bendita BR é intenso. É carreta pra lá e carreta pra cá, carregadas de hélice dos cataventos que captam a energia dos ventos, energia eólica, carga importante. E muitas outras cargas mais, que levam a refletir por que cargas d’água o governo federal ainda não duplicou a estrada até hoje. Está esperando o quê?!
Das infrações de trânsito mais perigosas a de menor perigo é quando o motorista trafega na mão certa e de longe, mas nem tão longe assim, divisa um carro que vem na contramão, tendo do lado uma carreta para ultrapassar. E o carro vem, vem, vem chegando e no último momento consegue vaguinha pra entrar na mão certa e então todos respiram aliviados.
Mas tudo vai bem quando se tem as graças de Deus e um motorista competente e seguro, daqueles que só ultrapassam em momentos adequados. Mas o tal do congestionamento de carretas principalmente nas subidas é um atraso de viagem. O tempo perdido nos congestionamentos pode ser mais bem empregado para pensar e repensar e até enxergar o quanto seria bom, o tanto que economizaria de vidas humanas e bens materiais a duplicação desta BR bendita.
Enfim, Montes Claros a vista e todos sãos e salvos. O calor, como sempre, era de sufocar. Se ventasse na cidade, talvez não sentíssemos tanto o calor. Ao contrário de Grão Mogol, onde venta muito, a gente nem sente tanto o calor do sol. Aqui, e lá na caverna também, o vento é considerado um anestésico do sol, queima tanto quanto em Montes Claros.
O compromisso era lá na Avenida Coronel Lopinho, no bairro Morada do Parque, atrás do Parque Municipal. Foi a caminho do endereço que, como montesclarino legítimo, nascido na Santa Casa de Misericórdia pelas mãos de Irmã Beata, foi surpreendido com o crescimento de Montes Claros.
Recordou-se de que quando vivia no torrão natal os dias eram belos como belíssimos são ainda hoje em dia; éramos felizes e sabíamos ser felizes. Mas naquela época, o Parque Municipal era o limite. E para se chegar ao Parque Municipal pela via da Avenida Mestra Fininha, o percurso era de mato por todos os lados. Nada além de mato havia depois do parque.
Qual não foi o espanto ao constatar o quanto onde era mato foi urbanizado nas últimas quatro décadas. Menos até, muito menos, porque 42 anos faz da partida para Belo Horizonte, e o que é visto atrás do parque, o bairro Morada do Parque, surgiu há muito menos tempo.
Convenceu-se de que não conhecia mais Montes Claros. Se fosse abandonado em determinados lugares da cidade ficaria perdidinho da Sílvia, porque é tudo novo. Evidentemente, melhor teria sido a permanência da paisagem antiga, quando se podia namorar às escondidas no interior e nos arredores do parque.
Quando em Montes Claros vivia as serras que eram de fato claras ficavam longe, muito longe. Atualmente, pelo que se pode divisar na linha do horizonte, a cidade tende a escalar os montes em meio à secura do semiárido, que parece estar mais para árido.
Sem querer espalhar notícia apocalíptica, mas só a título de observação, se Montes Claros continuar crescendo, ou o termo melhor seria inchando?, chegará o dia – e o dia já chegou – em que os moradores premidos pela insegurança pública ficarão fechados em seus cofres, quer dizer, em casas e nos apartamentos, correndo o risco de grupos do lado de fora o tempo todo tentarem entrar para cometer toda sorte de desatinos.
A solução dos problemas sociais, em todos os lugares do Brasil, tarda. Enquanto isso, os governos e a sociedade responsáveis pela geração dos problemas a cada dia mais vão se tornando vítimas e algozes de si mesmos.


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Por Alberto Sena - 29/9/2014 09:33:00
Museu no casarão da nossa história

Alberto Sena

Quem nos idos da década de 60 podia imaginar que o casarão antigo, centenário, onde durante tanto tempo funcionou a Escola Normal Professor Plínio Ribeiro, em Montes Claros não iria abaixo, como muitos outros foram, e em 2014 seria usado para abrigar o Museu Regional do Norte de Minas?
Certamente ninguém seria capaz de fazer vaticínio semelhante, muito menos ainda quem estudou naquele casarão e o tempo todo sentia a ameaça do forro do teto ruir, como ruiu numa ocasião, felizmente, sem ferir ninguém. Muitos dos ex-colegas de sala de aula vivos estão e podem confirmar o que estava preste a acontecer. A amiga Oselita Barbosa, Lita chamada pode muito bem se lembrar daquela manhã. Ou foi à tarde?!
Estávamos em plena aula de Português. Ou era de história? Não, acho que era de inglês. Não importa, o certo é que de repente a classe toda ouviu um estalido. Crec... Ficamos de sobreaviso e rapidamente saímos de fininho a tempo de ver o forro de um dos cantos da sala cair sobre a mesa do professor. A manutenção do prédio era precária.
Nós tínhamos uma relação íntima, histórica, com o casarão. Da primeira série ginasial até o primeiro ano científico estudamos naquele prédio. Nos fundos ficava a cantina onde podíamos tomar café com leite e sanduíche e preencher o tempo restante do intervalo conversando com um e outro. Éramos jovens com os hormônios e os neurônios em ebulição.
Mas o casarão por onde passaram milhares de pessoas que se formaram na vida e hoje estão em todas as partes do Brasil e do mundo não tinha mais condição de funcionar como escola. Precisava de uma reforma, urgentemente. Não cabia na cabeça de ninguém sequer a imagem da possibilidade de o imóvel ser derrubado. E foi a partir disso que os estudantes da época iniciaram um movimento para construção de um novo prédio.
Se fizermos uma retrospectiva, o casarão fez parte importante da vida de milhares de pessoas de Montes Claros e região. Olhando pelo retrovisor, numa manhã em que o carro do então governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, em visita a Montes Claros, passava pela Praça Dr. Chaves fizemos sinal para parar o veículo e ele ouviu de nós um pedido concedido poucos dias depois: “Governador, dá-nos uma escola nova”. Ele sorriu e fez sinal de positivo com o dedo.
Claro, antes de mostrar o dedo em sinal de positivo a construção da nova escola já deveria ter sido decidida e talvez fosse um dos motivos da visita do governador à cidade. A nova Escola Normal foi construída no alto da Avenida Mestra Fininha, e levou o nome do filho dela (Escola Normal) Professor Darcy Ribeiro. E como não temos notícia alguma sobre como está a situação dela hoje, esperamos esteja operante como foi no passado.
Mas retomando ao tema do casarão antigo, depois de reformado passou por várias fases e pra nossa alegria, vai abrigar agora o Museu Regional do Norte de Minas, uma bela iniciativa da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), cujo convite de inauguração neste dia 30 de setembro nós recebemos da pró-reitora de Extensão Marina Ribeiro Queiroz.
Quando funcionava como escola, o piso soalhado, madeira antiga, já muito gasta pelo tempo lembrava o ruído característico de gado transportado em vagões de trem da então Estrada de Ferro Central do Brasil. Os passos dos estudantes ressoavam em ruídos excitantes porque naquela época as moiçolas usavam saias e não tinha pejo de mostrar os joelhos.
A fim de todos se situarem no tempo, os Beathes começavam a eclodir no Reino Unido, a partir de Liverpol. Aqui, no Brasil, a Jovem Guarda iniciava a guarda. Alguma coisa preenchia os espaços vazios da atmosfera mundial e nacional. Politicamente, uma ameaça pairava sobre o Brasil e logo pudemos identificar o que era. Quem tem mais de meio século de existência se recorda como se tudo estivesse acontecendo agora, a propósito das eleições presidenciais. Calaram-se as urnas.
Entre as tábuas do soalho do casarão, em determinados pontos, como a secretaria da escola, em andar superior – tinha-se que subir uma escada – havia algumas frestas, e como naquela época as mulheres não vestiam calça comprida, podia-se ver estrelas multicoloridas em pleno dia. Era só descer à sala de baixo e ficar de papo para o ar à espreita do céu se abrir.


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Por Alberto Sena - 22/9/2014 08:33:39
Em continência ao cabo Georgino Júnior

Alberto Sena

A última vez que estive com Georgino Júnior, salvo engano, foi em finais da década de 60, quando fizemos, juntos, o Tiro de Guerra (TG 87) em Montes Claros. Ele era cabo e eu soldado raso. Aliás, até iniciei o curso de cabo, mas devido a uma simples brincadeirinha de jogar pedrinhas nos companheiros durante uma instrução do sargento, e ao ser apanhado em flagrante, fui destituído do curso de cabo e tive de me recolher à minha própria insignificância.
De lá para cá, só tive notícias dele. Soube por exemplo da parceria do amigo com Tino Gomes. Soube também que ele se revelara poeta de pena cheia e também que se mostrara dado a lidar com pinceis e desenhos geniais que o tornaram um dos intelectuais mais vibrantes da minha querida cidade, de onde saí no início da década de 70 para cumprir os impulsos do destino e alguns sonhos sonhados na intimidade do travesseiro.
Sem querer ser pretensioso demais, como gostaria de possuir o dom da ubiquidade – e quem não gostaria? E se possuísse o dom da ubiquidade, confesso com toda sinceridade, me deslocaria num átimo para Montes Claros a fim de abraçar o amigo por sua genialidade na arte de poetar, pintar e desenhar, agora que ele saiu da toca para mostrar toda a sua competência como artista.
Daqui do alto das serras do Maciço do Espinhaço, em Grão Mogol, ouço vozes cantando as maravilhas de Georgino Júnior extraídas do seu talento artístico e me pergunto por que os ditames da vida impediram-me de conviver com pessoas com as quais muito teria a aprender? Vejo as fotos do Júnior, o semblante fechado, sério demais, ele que tudo tem para desabrochar em sorrisos.
Leio o texto sobre ele escrito pela excelente Raquel Mendonça – “Georgino Júnior é isso, não menos que isso: um ser humano inteligentíssimo; super, ultra, mega criativo, enfim, um gênio em toda a acepção da palavra, que navega muito bem entre os mares e os ares estéticos das artes plásticas, ora em tons brancos e pretos, ora multicoloridos do desenho, da pintura, ou da mais densa e intensa literatura!” E fico aqui, sem o dom da ubiquidade, cobrando do destino o porquê de me ter impedido de conviver com o amigo – ele e outros mais, tão montes-clarenses quanto eu, como Tino Gomes – a fim de recolher dele e dos outros, migalhas de talento, de versos e mesmo de reversos, acaso houvesse algum, já que ninguém livre deles está.
Sem asas para voar até Montes Claros, conformo-me com a convivência virtual nesses tempos fortuitos do Facebook, invenção que nos leva a reencontrar amigos. E daqui do meu notebook espio o sucesso de Júnior e pra ele bato palmas, palmas de um cidadão simples. Gostaria de pra ele cantar loas e também para os demais artistas da nossa terra que vejo desabrocharem como o pequizeiro brota do chão árido do sertão e se multiplicam como estrelas da maior grandeza. Estrelas que fariam a alegria de um Darcy Ribeiro, se vivo estivesse no meio de nós.
Se me permitem a expressão, sinto-me privilegiado por ter a vida me dado oportunidade de conviver e aprender com gente, gente humana da melhor qualidade, em Montes Claros, em Belo Horizonte e aqui mesmo, onde as pedras falam e até mesmo gritam para quem tem ouvidos de ouvir e olhos de ver as belezas que o Criador do Universo fez para deleite próprio e nosso.
Sem querer me delongar, preciso confessar, apenas por um momento gostaria de ter a pena do poeta maior para expressar o tom da admiração e a capacidade de torcer pelo sucesso do amigo de caserna. Enquanto ele sai da toca, penetro na minha caverna em busca dos mistérios dessa intrincada terra chamada Grão Mogol, onde parece que Deus cuidou de gastar um pouco mais de tempo para construir.
Obrigado, Júnior, pela nossa convivência virtual. Não vou dizer que me satisfaz porque nesses tempos de internet, se por um lado o mundo ficou pequeno, falta calor humano. Precisamos resgatar a convivência fraternal do convívio pessoal, “antes tarde do que mais tarde”, como diria o amigo Paulo Carvalho, outro de quem eu nutro saudades porque, outra vez falaram mais alto os ditames da vida e tive de deixar Belo Horizonte, assim como deixei Montes Claros, para cumprir meu próprio destino.
P.S.: Senhor cabo, soldado Sena, número 10, deste TG, se apresentando; peço licença para me retirar, senhor. “Meia volta volver!”


78544
Por Alberto Sena - 1/9/2014 08:22:33
Velhos tempos de mim

Alberto Sena

Parafraseio a letra da música “Casaco Marron”, de Evinha – voltei aos velhos tempos de mim. Só não vesti casaco nenhum, muito menos casaco marrom porque em Montes Claros daquela época não fazia frio como tem feito ultimamente, o que é um espanto.
Mas também pudera o asfalto e o concreto armado dos edifícios, que parecem buscar as nuvens acabaram por influir no clima da cidade. Já era quente. Ficou agora parecido com o do deserto do Saara. Estorrica de dia e de noite esfria.
Isto foi no século passado, num tempo em que se amarrava cachorro com linguiça e Epaminondas, um personagem da escritora Lúcia Casasanta, no livro As Mais Belas Histórias, lido, relido e trelido, arrastava pacote de manteiga pelo chão amarrado em barbante.
Era tempo de estudo primário no Grupo Escolar Gonçalves Chaves, por onde passou gente de renome como Darcy Ribeiro e outras feras vivas no meio de nós para alegria própria e dos parentes.
A sala era da professora Bernadete Costa. Tinha fama de durona. E era mesmo. Mas possuía vocação. Sem dúvida alguma desasnou gerações de montesclarinos. Ela era mãe do, naquela época, futuro jornalista Robson Costa.
Robson iniciou carreira no O Jornal de Montes Claros, na Rua Dr. Santos 103, depois ele foi para o jornal Estado de Minas, em Belo Horizonte, e mais tarde para O Estado de São Paulo onde brilhou também no Jornal da Tarde.
Não se podia dar um pio dentro da sala em determinados momentos. Então, a meninada sussurrava porque dona Bernadete era realmente brava. Tínhamos o maior respeito. Claro, ela era brava com quem não cuidava das obrigações escolares com a necessária seriedade.
Com dona Bernadete não acontecia entra e sai na sala de aula, aquela desculpa de, “posso ir ao banheiro?”, não colava com ela. Tinha hora pra tudo. O que ela fez questão de estabelecer desde o início, pra ninguém passar por desavisado.
Mas, como a gente sabe muito bem quase nada nós controlamos no nosso corpo. Não controlamos os pensamentos – embora seja possível controlar se usarmos a técnica do “pensar consciente” e de “autocontrole” para pensar o que quer e não os pensamentos que vierem à cabeça.
Não controlamos a respiração. Em sã consciência, quem vai se rebelar dizendo que parará de respirar. Ou vai ficar sem respirar só durante 15 minutos?
Ninguém poderá dizer “não vou comer mais”. Quem controla a fome? E as batidas do coração? Quem pode dizer que controla? Alguns iogues dizem controlar.
Ainda não foi falado sobre as necessidades fisiológicas. Depois de encher o bucho d’água alguém será capaz de dizer: “Não vou mais urinar?” Claro que não.
Pois então, estávamos, todos nós, na sala de aula. O silêncio só não era igual ao do espaço sideral porque passava de vez em quando um carro ou algum cachorro latia.
Duma hora pra outra começamos a sentir mau cheiro característico. Um olhou para o outro, inclusive Carlos Meira, que morava ao lado da casa do dr. João Valle Maurício, na Rua Dr. Santos; Roberto Avelar, Marcos Tolentino, Teófilo, entre outros.
No primeiro momento não deu pra desconfiar de ninguém, mas o mau cheiro aumentou e começamos a nos inquietarmos.
Dona Bernadete escrevia de costas pra nós no quadro negro, naquela época era negro mesmo, e se virou perguntando: “O que está acontecendo aqui?” Indagação feita, a colega M. desatou a chorar.
Claro, o constrangimento foi grande. Não pra nós, pra ela, menina de 8 anos, linda. Tão linda que, anos depois, já adulta, ela foi eleita “Miss Montes Claros” e ficou bem colocada no concurso “Miss Brasil”.
A faxineira da escola entrou com balde d’água e pano, enquanto M. era conduzida ao banheiro e depois levada pra casa, aos prantos.
Veio o recreio. Alguns colegas também estavam apertados. Era quando dava a hora do recreio uma corrida só ao banheiro, em frente às escadas para o pátio. O pátio ficava abaixo do piso das salas de aula, um bom lugar pra uns e outros mostrarem as habilidades de futebol, peteca e queimada.
Por causa do constrangimento, M. ausentou das aulas por dois dias. Ela descobriu, logo cedo, controlar as necessidades fisiológicas é impossível.
Afinal, o que entrou pela boca, uma hora sai naturalmente ou por livre e espontânea pressão.


78476
Por Alberto Sena - 20/8/2014 08:26:33
Vencer o lixo

Alberto Sena

Acompanho só de longe a pendenga entre a Prefeitura de Montes Claros, na pessoa do prefeito Rui Muniz, e os montesclarinos que se negam a aceitar a cobrança da taxa de lixo desmembrada do IPTU.
E porque só acompanho de longe não me julgo capacitado para entrar no mérito da questão, se é ou não legal, se vai ou não mexer no bolso do cidadão, a essa altura de saco cheio de tanta cobrança de imposto etecétera e tal.
Como não julgo capaz de meter a minha colher de pau nesse angu de caroço, quer dizer, nesse entrevero, aproveito apenas o mote para levar ao prefeito e aos montesclarinos uma ideia que vem sendo implantada na cidade de Paulínia (SP).
Ideia bendita que poderá ajudar a pôr um basta nessa questão do lixo de Montes Claros duma vez por todas e de outras cidades que porventura estejam enfrentando o mesmo problema. Afinal até quando as partes irão ficar nessa disputa de cabo de guerra?
A gente sabe lixo sempre foi um estorvo na vida de qualquer pessoa ou família, inda mais nesses tempos de consumo exacerbado, quando se produz tanto material descartável altamente poluidor. O consumismo põe em risco a vida no planeta.
Na hora de produzir o lixo ninguém pensa na trabalheira para dar cabo dele. Lixo é tão desprezível que nós queremos dar sumiço nele o mais rápido possível. Se nós produzíssemos menos lixo, já seria um ganho enorme para todos, principalmente para os garis e os lixeiros que de caminhão caçamba saem de noite e de dia recolhendo os sacos plásticos. Verdadeira montanha todo dia.
É a coisa mais engraçada, pra não dizer algo diferente, nós só queremos saber do lixo até o momento em que a boca do saco é fechada. Depois das mãos lavadas não está mais aqui ou ali quem produziu o lixo. Não queremos nem saber pra onde vai. E e às vezes vai para lugares impróprios, como beirada de rio.
Mas retomando o fio da meada, lá em Paulínia está sendo implantado um sistema que consiste em abrir no chão um buraco de dois metros de profundidade capaz de caber um contêiner com capacidade para 700 litros de lixo.
O buraco possui um tampão. Depois de fechado ficam de fora dois latões de aço inoxidável grudados no tampão. Cada latão tem a sua tampa, e as pessoas vão metendo saco de lixo pelos dois latões como se não tivessem fundos e, periodicamente o caminhão vem e o lixeiro abre o tampão do buraco, recolhe o contêiner cheio e deixa outro vazio.
Os ganhos com esse novo sistema de recolhimento de lixo são vários, a começar pela manutenção da higiene do lugar. Impede que cachorros fiquem remexendo os sacos de lixo; evita de serem os sacos carreados pelas enxurradas em período chuvoso, o que entope as bocas de lobo e polui os rios, principalmente em se tratando de garrafas PET.
E mais: quase tudo agora é reciclado. No caso de Paulínia, antes 15% do lixo recolhido iam para o aterro porque não tinham serventia. Agora, quando muito, só 3% vão.
Se antes era necessário fazer muitas viagens de caminhão caçamba para recolher o lixo, com o novo sistema as viagens caíram pela metade. A gente não é bobo nada, sabe, a economia numa circunstância desta é em cadeia. E mesmo presa em cadeia liberta qualquer administração pública para gastar os recursos economizados com outras obras de importância para o município e os munícipes.
Como disse no início, não tenho por que meter a minha colher de pau nesse angu de caroço, mas não custa nada tentar remediar esse imbróglio porque imagino como deve estar a cidade com sacos de lixo pra tudo quanto é lado, enquanto o prefeito e a população montesclarina que se recusa a pagar a taxa ficam naquela situação típica dos dois jumentinhos.
Quais? Aqueles que foram amarrados cada um na ponta duma corda, com dois montinhos de capim, um de cada lado. Ficava um burrinho tentando comer um montinho de capim e o outro burrinho o outro.
Ficaram nessa estupidez um tempão gastando energia e se desgastando até chegarem a um acordo ao perceberam que deviam ir juntos comer um dos montinhos de capim de cada vez.
Fica aqui a sugestão. Repasso pelo mesmo custo de aquisição, com uma foto, sem cobrar nada mais, nem mesmo pelo frete da notícia.


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Por Alberto Sena - 11/8/2014 08:19:57
Orquestra “jiafônica” ou “sapofônica”

Alberto Sena

Pelo timbre do coaxar, temos jia nova no pedaço. É coaxo diferente, grave, emitido em pequenos intervalos. Parece ecoar longe devido ao silêncio e ao sossego desta noite de agosto, noite na qual a gosto trepido nas teclas do notebook a fim de registrar a novidade – há jia nova no pedaço.
Antes, quando passamos a observar com mais acuidade o coaxar das jias e dos sapos, achávamos que eles e elas ficavam entre as pedras do Ribeirão do Inferno, logo ao fundo do quintal. Depois é que o Sr. Geraldo, que nos vende hortaliças de qualidade, fresquinhas, sem resíduos de agrotóxicos, nos informou: “Não, as jias e os sapos ficam é nos tanques de criatório de peixes no quintal de João”.
Sr. João mora entre a nossa casa e a do Sr. Geraldo, onde no quintal ele possui uma horta de deixar qualquer um com o queixo caído. Tem quase de tudo na horta dele, a começar de couve, salsinha, cebolinha, mostarda e hortaliças de modo quase geral.
Os sapos e as jias ficam então nos tanques de peixes e formam uma orquestra “jiafônica” ou seria “sapofônica”? Acho que devem ficar coaxando à noite inteira. Não posso afirmar com certeza, não fico acordado ouvindo o coaxar de sapos e de jias. Durmo cedo. Em compensação, acordo cedo. Gosto e acho as manhãs mágicas. Acordo com os passarinhos. Durmo o suficiente, naturalmente. Deito e...
O gostoso daqui, daqui de Grão Mogol, onde estamos há quase seis meses, é que de dia temos uma variedade enorme de passarinhos a nos encher de alegria. É sabiá-laranjeira, pássaro-preto, sanhaço, saíra e outros que ainda não identificamos, sem falar nos beija-flores.
Esses beija-flores são maravilhosos. Hoje, por duas vezes, estendi o braço com o potinho de água açucarada e dois beija-flores vieram mamar na minha mão. Um após o outro. Foi uma emoção e tanto. Até fiz um poema – se e que posso chamar de poema – pra contar o acontecimento, inusitado, pelo menos pra mim.
Quando vem à tardinha, ali pelas cinco horas, a gente começa a ouvir os primeiros acordes da orquestra “jiafônica” ou “sapofônica”. Começa devagar. É como nos ensaios de uma orquestra sinfônica. Quem já viu e ouviu os músicos afinando os instrumentos fica encabulado como é que pode tudo dar certo na hora da apresentação.
Não fosse o maestro para pôr ordem na casa, ninguém iria aguentar ouvir os instrumentos tocados a bel prazer de cada músico.
Assim acontece com a orquestra “jiafônica” ou “sapofônica”. Enquanto os sapos e as jias esquentam a garganta, cada um com o seu jeito característico de coaxar, acho eu, um vai numa direção e outros noutras, mas à medida que o véu da noite assoma a orquestra “jiafônica” ou “sapofônica” ganha musicalidade.
Mas não chega nem aos pés do Bolero de Ravel, maravilhosa composição que ao ser tocada a primeira vez caíram de pau no autor criticando-o, dizendo ser “música de uma nota só”.
Música de uma nota só é a dos sapos e das jias, mas por ser orquestra batraquiana composta por anfíbios anuros, dá pra fazer um abatimento, porque eles não têm maestro. Coaxam porque foram criados pra coaxar. Já imaginaram se em vez de coaxar cantassem como os passarinhos?
Tudo no reino da Natureza segue uma ordem com feitio certo. A diversidade da fauna e da flora é enorme. Só de passarinhos e mesmo de sapos e jias, o que tem desses batráquios anfíbios anuros por aí, por esse Brasil varonil, lá pelas bandas da Amazônia, não está no gibi.
Quase todo dia uma espécie nova é encontrada enquanto um sem número de outras vão se perdendo em meio à ganância e o imediatismo de quem só pensa em dinheiro, como se dinheiro fosse capaz de comprar a sobrevivência humana no planeta a cada dia mais poluído, combalido, destruído.
Mas vamos voltar ao coaxar dos sapos e das jias. É o melhor que podemos fazer neste momento de paz, de tranquilidade e, principalmente, de sentimento de gratidão a Deus. Sim, porque se estamos aqui é porque Ele nos quer aqui e nos ofereceu um lugar cujo epíteto é “paraíso perdido agora encontrado”.
Aqui, toda noite, eu e Sílvia aprendemos um pouco mais da arte de sapear, ao ouvir o coaxar de sapos e de jias.


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Por Alberto Sena - 4/8/2014 08:25:00
Comentários de uma crônica anunciada

Alberto Sena

Por esses dias publiquei um texto que se pode chamar de crônica, sobre a Montes Claros querida, meu torrão natal, comparando a cidade das décadas de 60/70 com a que já vislumbrávamos para os dias atuais. Recordava-me de ter visto recentemente uma foto noturna panorâmica da cidade tão iluminada que parecia ter sido calçada de ouro. Linda foto focalizando o Parque de Exposições.
Falei que Montes Claros naquela época possuía vários lugares de encontro e que o crescimento horizontal e agora vertical fez com que se transformasse na cidade do “desencontramento”. E fui por aí relembrando os tempos em que era feliz e sabia, porque sentia ser privilegiado por ter vivido aí os melhores tempos da cidade.
Vai que recebi o comentário do conterrâneo e amigo Paulo Henrique Veloso Souto, conhecido de antes e de depois do “Cabaré Mineiro”, filme rodado por Carlos Alberto Prates em alguns pontos de Grão Mogol, no qual ele se mostrava exclamativo: “Vixe Maria, ainda não é assim não (referindo-se a Montes Claros), e Requeijão (um tipo humano citado) é nativo, da família Veloso; achei a crônica muito depreciativa, questão de opinião”, ele disse.
Fiquei deveras preocupado achando ter excedido nas minhas observações, mesmo porque morei em Belo Horizonte e moro atualmente em Grão Mogol, tenho ido a Montes Claros só pra buscar fogo, como se diz e talvez nem direito tivesse de futucar um pouco mais fundo em meus comentários, correndo o risco de ter sido injusto.
Lembrei-me de que Paulo Henrique viveu um bom tempo no Rio de Janeiro e de uns anos pra cá resolveu retornar às raízes e deve estar feliz da vida e se não estiver torço para que fique feliz porque pôde deixar toda a beleza do Rio, cuja violência urbana empana, para viver em Montes Claros, menor e por certo menos perigosa proporcionalmente. Será?
Mas qual não foi a minha surpresa ao receber dois outros comentários sobre o mesmo assunto, comentários estes que me deixaram respirar, aliviado, porque nem de longe passava por minha cabeça escrever um texto depreciando a minha terra natal, terra que exalto faz anos por meio de reportagens, crônicas e comentários.
Fora o fato de ter nascido pelas mãos de Irmã Beata e ter vivido em MOC durante 22 anos ininterruptos, onde estudei e iniciei carreira jornalística no O Jornal de Montes Claros, JMC e Mais Lido chamado.
O primeiro dos dois comentários foi enviado por Maria Helena Flávio Almeida, esposa do meu beque central preferido, Nicomedes Almeida. Maria Helena disse ter achado a crônica “realista”, e contou: “Eu saía aos domingos, pela manhã, ia até a Praça da Matriz e ficava na feirinha. Não vou mais. Nos meus 68 anos, bem vividos, as mudanças são notórias. Montes Claros mudou principalmente em questão de segurança”, disse ela.
Maria Helena foi mais além se perguntando o que muito montesclarino se pergunta diariamente se o que se passa pela cabeça “é neura, é medo?” ou quê nome dar? Ela não sabe, mas não tem a menor dúvida de que “curtir um passeio pelas ruas (de Montes Claros) está cada dia mais perigoso”.
E está mesmo, não dá para tampar o Sol com a peneira. Ou será que a mídia está inventando as ocorrências diárias as mais cabeludas? Evidentemente que eu, como filho da terra, gostaria que nada disso estivesse acontecendo, porque assim não dá pra ser feliz, “ora bolas”, diria o poeta Mário Quintana, aquele que disse em versos “eles passarão” e “eu passarinho”.
O outro comentário veio da parte de Wilma Nunes. Ela dizia, “estou em Montes Claros Alberto, dá tristeza. Maria Helena está certa, tudo mudou, para pior. O aspecto da cidade, loucura, suja, feia, esburacada... Vi aquela foto, um artista bateu”.
Eu nem cheguei a abordar essas questões urbanas achando que a essa altura isso já tivesse sido resolvido, pois constatei esses problemas numa das últimas vezes que fui à cidade. Se os problemas perduram, Paulo Henrique que me perdoe, mas não dá pra deixar de falar, porque isto sim deprecia a cidade que passa a ficar bonita só em fotografias sacadas por quem domina a arte da fotografia.
A propósito gostaria de saber do amigo onde poderia encontrá-lo numa próxima ida a Montes Claros, se é que os locais de encontro ainda existem além do Café Galo sobrevivente.


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Por Alberto Sena - 1/8/2014 11:14:42
Grão Mogol possui mais histórias que pedras

Alberto Sena

Em Grão Mogol, se o morro do Pagão chamado também por nós de Catedral, se o morro do Pagão falasse, os quase seis mil habitantes do perímetro urbano ficariam surdos de tanto ouvir história escorrer despenhadeiro abaixo, capaz de inundar a cidade.
Aliás, Grão Mogol possui fartura de história mais do que de pedras. E veja pedra, aqui, é mato, deixaria o poeta Carlos Drummond de Andrade tropeçando nelas a cada passada.
Muitas das pedras falam. Desconfiam-se de que algumas gritam. Há quem diga possuir o dom de ouvi-las. Nem toda gente possui sensibilidade para entender o dizer das pedras de Grão Mogol.
A cada conversa com certas pessoas nativas, os chamados “tipos humanos”, a gente vai enriquecendo e aprendendo mais. Talvez o fato de ser cidade pequena e as pessoas se conhecerem e se reconhecerem no dia a dia, talvez por isso Grão Mogol possua um elenco significativo de “tipos humanos”, a exemplo de “Zé do Biscoito”, José Batista batizado, personagem de uma simplicidade de fazer gosto; e dona Lucinda, que à beira da miséria, viu saltar-lhe sobre o vestido, na margem do rio, um diamante; e a vida dela mudou.
Quem sabe muito sobre as histórias desta “Cidade Diamante” é o historiador e pesquisador Geraldo Frois, discípulo da educadora Helena Wladimirna Antipoff psicóloga e pedagoga de origem russa que depois de obter formação universitária na Rússia, Paris e Genebra, se fixou no Brasil a partir de 1929, a convite do governo do Estado de Minas Gerais. Renomada pesquisadora e educadora da criança portadora de deficiência.
Frois, como é costume chamá-lo, contou outro dia a história de um delegado de polícia chamado Felicíssimo Damaceno, conhecido pelas gerações mais antigas como “Sinhô Colares”. A história, como o leitor haverá de constatar, possui elementos grotescos até, mas contêm ingredientes hilários e demonstração de exercício extremo de poder de um delegado de polícia alcunhado “calças curtas”.
Com o jeito característico de narrar fatos, palavras pensadas, medidas e gestos coordenados, Fróis contou que, numa ocasião, o delegado prendeu “Zé Cinzento”, um tipo pistoleiro, por ter armado tocaia duas vezes para matar o pai dele, Lauro José Frões, a mando de um rico fazendeiro da região, cujo nome omitiu para não ferir melindres.
Foi na roça onde tudo aconteceu. “Por ali”, gesticulou apontando uma direção aleatoriamente. O delegado foi lá, deu voz de prisão e usou uma corda para amarrar “Zé Cinzento” com as mãos atrás do corpo, pois naquele tempo não havia algemas por essas plagas. E veio conduzindo o preso igual nas fitas de cinema do velho oeste norte-americano. O delegado atrás e o preso a frente.
É de se supor, o delegado não se atrevera soltar as mãos do “Zé Cinzento” pra coisíssima nenhuma. Deve ter dado a ele água na boca durante o percurso marcado pelo silêncio e a expectativa de logo se ver livre da empreitada. A cadeia de Grão Mogol, a mesma até hoje, aguardava o prisioneiro, pois o delegado havia avisado que iria prender o tal.
A certa altura do caminho, “Zé Cinzento” deu de querer urinar. E falou com o delegado “estou apertado, vou acabar urinando nas calças”. Claro que o delegado, macaco velho, viu naquela vontade do preso de urinar um pretexto para se livrar das cordas e tentar fugir. Era ele e o delegado, só os dois, e o preso podia se apossar duma pedra “e arrebentar a minha cabeça para escapar”, pensara o delegado.
O “calças-curtas” por alguns instantes se quedou e duma vez por todas acabou com a esperança do “Zé Cinzento” de tentar escapar usando do artifício de urinar, conforme conjecturara. “Se ele está pensando que vou desabotoar-lhe a braguilha, vai ter de tirar o cavalinho da chuva”, disse pra si mesmo o delegado.
Num gesto rápido, sacou da cintura a faca tipo peixeira e de um só golpe, de quem tinha bastante experiência no manuseio de arma branca, cortou todos os botões da braguilha do “Zé Cinzento”.
Com a delicadeza necessária para não causar-lhe ferimento, retirou-lhe o instrumento com a ponta da faca.
Logo o delegado pôde comprovar a veracidade da necessidade do preso de urinar.
Estupefato diante do gesto do delegado “Zé Cinzento” urinava e fazia algo mais. Nas calças.


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Por Alberto Sena - 29/7/2014 09:50:30
“Desencontramento”

Alberto Sena

Outro dia, deparei-me na internet com linda foto noturna de Montes Claros toda iluminada, parecia calçada de ouro, se não me engano focalizando o interior do Parque de Exposições João Alencar Athayde, e fiquei deslumbrado com a beleza do meu torrão natal.
Realmente, dependendo do equipamento fotográfico, dotado de lentes várias, inclusive grande angular, e do olho de quem está por trás da câmera, Montes Claros possui ângulos magníficos e pode vir a impressionar a quem não conhece a cidade ou quem conheceu e nela viveu em passado nem tão longínquo se levado em conta à relatividade temporal.
Só um insano da cachimônia entraria numa de querer barrar o tempo a fim de evitar as transformações e as intervenções na cidade desrespeitando a sequência do cumprimento do seu destino como polo de atração que sempre foi de tudo vindo do Nordeste brasileiro rumo à capital mineira ou São Paulo.
Nas décadas de 60/70, sempre que a seca brava se instalava no norte de Minas e no nordeste brasileiro, levas e mais levas de retirantes chamados surgiam da noite para o dia na cidade amontoados em carroçaria de caminhão sem conforto e segurança fugindo do estio. Eram os “paus de arara” apelidados.
Uns nem conseguiam seguir em frente, ficavam pelas ruas da cidade e ganhavam a simpatia de quem conheceu tipos humanos como Requeijão, Galinheiro, João Doido, entre outros, de origem incerta e não sabida.
É preciso ter vivido a Montes Claros de antes para comparar com a metrópole de hoje. A cidade era um lugar de encontros. Tanto que na época surgiu uma revista batizada de Encontro, idealizada pelos jornalistas Lúcio Bemquerer, grãomogolense; e os montesclarinos Waldyr Senna Batista e Décio Gonçalves, uma publicação além do próprio tempo.
Nesse período, podíamos encontrar os amigos na Praça de Esportes, nas esquinas da Rua Doutor Santos com Dom Pedro II, nos cafés Zim Bolão e Galo, na porta da Cristal, no Clube Montes Claros, no Automóvel Clube e na porta dos cinemas (Coronel Ribeiro, Fátima, São Luis, Ypiranga).
Com o crescimento horizontal e vertical da cidade, pelo que acompanhamos daqui, dos píncaros do Maciço do Espinhaço, em Grão Mogol, Montes Claros já não possui lugares de encontro. “Encontro” agora é só revista, cujo nome Lúcio Bemquerer cedeu, em finais da década de 90, ao belo-horiozontino/montesclarino, Paulo César de Oliveira, PCO chamado, revista que atualmente pertence aos Diários Associados e circula, conforme está publicado no expediente, com 72 mil exemplares, tiragem auditada.
Pelo que se ouve dizer e é publicado pela mídia montesclarina sair de casa vem se tornando um tormento como acontece em todas as grandes cidades brasileiras. Se na época dos encontros as famílias podiam sair a qualquer hora do dia, da noite ou da madrugada, atualmente quem sai não tem certeza se voltará pra casa, ileso, sem ter sofrido assalto ou atropelamento no trânsito intenso e confuso da cidade.
O problema da insegurança pública existe e ainda é superestimado pelos montesclarinos. Surgiu, então, “uma neura coletiva”, o que faz aumentar o medo de sair de casa. Proliferam-se muros altos, cercas elétricas, câmeras e uma parafernália que em síntese não oferece segurança nenhuma. Quem está disposto a praticar um crime sabe como superar esses obstáculos.
Em vez de se ocuparem com as causas do problema, o governo federal e a sociedade brasileira continuam fazendo ouvidos moucos e quando muito combatem os efeitos como quem costura pano novo em roupa velha ou tenta enxugar gelo. As populações colhem cada dia mais os frutos amargos da omissão dos governos que tiveram todas as oportunidades para estancar o problema no nascedouro socioeconômico e político gerador da violência. Ficaram olhando o crescimento do monstro criado pelo egoísmo e pela ganância dos que só conjugam o verbo possuir. E quanto mais eles têm mais querem ter.
Montes Claros é atualmente a cidade da contradição. Nunca teve plano diretor que pudesse reprogramar a velha urbe compatibilizando o desenvolvimento com o bem-estar da população. Nunca. Houve uma tentativa seguida de desistência quando o prefeito era Toninho Rebello.
Montes Claros cresceu desembestadamente. Agora está entre a cruz e a caldeirinha vitima em potencial do materialismo e do consumismo, fenômenos que põem em risco a sobrevivência humana no planeta.


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Por Alberto Sena - 19/7/2014 12:02:32
“Zé do Biscoito”

Alberto Sena

Ele chega de mansinho, quase toda noite. Bate no portão. E quando ouve a pergunta: “Quem é?” Responde: “É o Zé do Biscoito”, com um tom de voz característico.
Toda Grão Mogol o conhece. Desde pequeno, menino de calças curtas. Ele confirma que vende biscoitos confeccionados por Maria Adelícia Gomes de Oliveira (Dé de Valdo), mulher que o adotou quando ele tinha oito anos e “vivia o tempo todo na rua”. “Gostei dela”, disse.
Hoje com 26 anos, “2º Grau concluído”, ele quer continuar os estudos para assegurar uma posição melhor na vida.
- O que você traz hoje, Zé?- a pergunta é inevitável.
E ele, na sua simplicidade, sorrindo sempre, responde:
-Tenho “espremidinho”, tareco e biscoito de farinha.
Às vezes acontece de ele chegar só com “espremidinho” biscoito feito com goma, porque vendeu todo o “tareco” e o biscoito de farinha. Noutras vezes, ele chega com “espremidinho” e “tareco”. Abre os sacos plásticos e mostra.
Zé é tímido. Nota-se essa característica dele logo no primeiro momento. Mas bem educado. Disse ter nascido “com problema mental”, o que lhe valeu aposentadoria pelo INSS.
Cada saquinho de biscoito custa R$ 2. Ele sempre agradece pela compra e pede a Deus para nos abençoar. Em retribuição, ouve: “Que Deus abençoe você também, Zé”.
E lá vai ele oferecer biscoito noutra casa, com o jeito próprio de ser. Zé cativa as pessoas pela simplicidade nata.
As pessoas costumam confundir simplicidade com humildade. Humildade, para quem não sabe, é a energia maior existente. Foi a humildade de Deus que criou o Universo. Veja Jesus Cristo como exemplo. Nunca houve na Terra ninguém mais humilde do que o Filho de Deus.
Numa noite, ao saber que estávamos gripados, Zé nos surpreendeu: meia hora depois de nos ter vendido os biscoitos, olha ele de volta batendo de novo no portão. Disse ter ido a casa onde colheu da horta no quintal funcho, capim santo, erva cidreira, hortelã e ervas outras, medicinais.
Como estava escuro, ele disse ter usado uma lanterna para colher as ervas. Pôs cada uma em sacos separados e recomendou fazer “um chá” com limão cortado em cruz.
E ainda teve a capacidade de se desculpar dizendo “não sei se vocês gostam de usar remédios de horta”. “Claro que gostamos Zé, desde criança nossa mãe fazia chá pra nós sempre que havia alguém gripado em casa”, foi a resposta.
E vejam, mais uma vez, ele pediu desculpa achando que podia haver entre as ervas mato porque “estava escuro”.
“Que isso Zé, não havia mato nenhum, você é um camarada cuidadoso”, dissemos. Ele esboçou sorriso simples e mais uma vez desejou um “Deus abençoe” e recebeu outro “que Deus o abençoe” de volta.
Zé começa a vender biscoitos às 3h da tarde e termina lá pelas 8h da noite. Ele renova as remessas sempre que é necessário, retornando a casa para buscar mais.
Zé é um dos tipos humanos de Grão Mogol, essa cidade “sui generis” incrustada nas fraldas do Maciço do Espinhaço. Aqui o relacionamento entre as pessoas não é virtual. As gentes se encontram no Rodomercado, inaugurado recentemente pela Prefeitura Municipal, para bater papo e principalmente na Rua Direita batizada de Cristiano Relo, a via mais importante da cidade, onde em meados do século 18 gentes de várias partes do mundo fervilhavam ali, em redor do brilho diamantífero.
O dia em que Zé não passa em casa pra vender biscoito, nós ficamos pensando que tudo acabou antes de ele chegar à nossa casa, na Rua Hilário Marinho, próximo ao Presépio Natural Mãos de Deus, o maior do mundo, que todo grãomogolense precisa conhecer, valorizar e se orgulhar de tê-lo aqui.
Se o Zé fosse apresentado a Carlos Drummond de Andrade, se vivo fosse, o poeta itabirano poderia escrever um poema sobre esse personagem terno, filho de Grão Mogol, iniciando com o verso seguinte: Quando Zé nasceu, um anjo de asas azuis afagou-lhe o rosto e disse: “Vai Zé, vai ser vendedor de biscoito na vida...”
Zé foi.
E continua indo.
Andando, com as graças de Deus, Nosso Senhor. Amém.


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Por Alberto Sena - 16/7/2014 15:10:24
Jeito grãomogolense de ser

Alberto Sena

Grão Mogol é dotada de identidade própria. Localizada na divisa das regiões Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha, possui luz diferente das demais cidades históricas como Diamantina, Ouro Preto, Tiradentes e outras encontradas no Brasil.
Presume-se que essas características surgiram ao longo dos séculos devido primeiro ao fato da descoberta do diamante e depois porque, com o fim do garimpo, a cidade caiu no marasmo, o que levou muitos dos seus filhos a buscarem outros centros, como Montes Claros e Belo Horizonte, principalmente.
Com o tempo, o que era negativo passou a ser positivo, porque Grão Mogol pôde conservar as características próprias. Sem fábricas cuspindo fumaça poluidora, a cidade conserva os costumes herdados dos antepassados. Numa comparação, o ritmo atual de Grão Mogol é semelhante ao de Montes Claros da década de 50.
Para quem gosta, a cidade conserva o sossego que deve ser preservado ao máximo, para não vir a ser uma urbe pequena com os problemas das metrópoles onde o ritmo de vida está a cada dia mais extenuante.
Grão Mogol possui ar puro comprovado pelos nossos pulmões e também pelos liquens impregnados nas pedras. Pedras é o que não falta por todos os cantos. Tanto que um filho da terra, Lúcio Bemquerer, que cumpriu exílio involuntário de mais de 20 anos, ao retornar definitivamente, construiu o Presépio Natural Mãos de Deus, o maior do mundo.
Além das belezas e dos mistérios do seu casario, Grão Mogol possui ao redor riquezas cênicas de deixar qualquer pessoa extasiada. As formações rochosas ao redor oferecem um panorama indescritível, formado pelo Maciço do Espinhaço, por onde o bandeirante Fernão Dias Paes Lemes percorreu em busca das esmeraldas e de fato só encontrou turmalinas.
A cada dia o automóvel criado para tornar melhor a vida no planeta, se vai revelando o maior problema urbano da humanidade. Em Grão Mogol, o trânsito ainda é pequeno. Aqui se pode ouvir o silêncio. Os passarinhos têm onde fazer os seus ninhos e fazem festa em pomares de laranjeiras, abacateiros e em frutíferas de modo geral.
Em Grão Mogol se ouve o galo cantar tanto de dia como de noite. E aqui perto há um jumento criado pelo velho Juca que zurra quase de hora em hora, concorrendo com o relógio da Igreja Matriz de Santo Antônio, que badala a cada 60 minutos lembrando os sinos das igrejas do interior da Europa.
A cidade tem a fama de possuir “clima europeu”, mas ao longo de um dia Grão Mogol pode apresentar as quatro estações do ano. Amanhece nublado e frio para logo mais cair uma “garoinha” e em seguida vir o Sol e por último os ares temperados ornamentados pelas flores da região, muitas delas endêmicas.
A própria topografia da cidade favoreceu a segurança pública aos seus quase seis mil habitantes no perímetro urbano. Em Grão Mogol, a criminalidade não tem vez. O tenente Reginaldo e o seu pelotão estão atentos. Todo desconhecido, suspeito, que adentra a cidade é abordado para dizer o que pretendente aqui.
Quem vem a Grão Mogol, daqui não segue pra lugar nenhum. Precisa retornar e pegar a BR 251, que dá acesso à Rio-Bahia. A BR 251 reclama duplicação o mais urgente possível. Nela transitam carretas e cegonheiras que tornam a estrada uma das mais perigosas do País.
Administrada pelo prefeito Jéferson Augusto de Figueiredo, em seu quarto mandato, a cidade experimenta o desenvolvimento sem perder as suas características. “O município é enorme, parece um estado”, costuma dizer o prefeito, que carrega a fama de “obreiro”.
Se se fizer uma pesquisa de âmbito nacional sobre cidades que oferecem qualidade de vida para a sua população, Grão Mogol pode se destacar entre os primeiros lugares. O importante, entretanto, é que tanto a administração pública e a própria sociedade grãomogolense preservem a cidade, cujo centro histórico já está em processo de tombamento, para o bem de todos.
A realidade das grandes cidades comprova que trânsito intenso de veículos não é sinônimo de desenvolvimento. A essa altura, a solução para as metrópoles é se espelhar em Grão Mogol. As metrópoles precisam parar de crescer. O bem-estar das populações, sim, é que sinaliza o desenvolvimento nos dias atuais. E poucas cidades oferecem bem-estar para sua gente como Grão Mogol, que vai ganhando a fama de “cidade de primeiro mundo”


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Por Alberto Sena - 5/7/2014 11:18:53
“Deus ajuda, mas amarre o seu camelo”

Alberto Sena

Toda vez ao trafegar pela BR 251, saindo de Grão Mogol para Montes Claros, e vice versa, a primeira providência deve ser entregar-se à Divina Providência. Há um ditado importado da região do Oriente-Médio que diz: “Deus ajuda, mas amarre o seu camelo”.
É necessário ter ao volante alguém experimentado, porque o trânsito de veículos chega às raias do absurdo e as ultrapassagens também.
Em outras palavras, o referido ditado significa que cada um deve cuidar de fazer a sua parte para tornar o trânsito solidário, dentro dos padrões da melhor educação e civilidade. O mínimo que se deve fazer é respeitar a sinalização. Cuidar bem da direção e dirigir também para os outros. Se não dá pra ultrapassar, não tente, não corra o risco de uma colisão frontal.
Na 251 o mais comum é o tráfego nos acostamentos. O asfalto é mais inteiriço, livre dos eventuais buracos. Até que, atualmente, a situação da rodovia não é tão ruim, pelo menos a partir do entroncamento de Grão Mogol até Montes Claros. A maioria dos buracos foi fechada na famigerada operação “tapa buraco”, em verdade um paliativo até que venham as próximas chuvas.
Deus não deixa de ajudar a quem a Ele recorre, mas o governo federal, que deveria fazer a parte dele, duplicando a rodovia para dar mais segurança e fazer o tráfego fluir melhor, ainda não tomou uma atitude. A cada acidente que possa acontecer na rodovia, nenhum será por culpa de Deus e sim da falta de providência humana, uma atitude política.
É de se especular o que impede a duplicação dessa rodovia. Será porque ainda não atingiu certo limite de acidentes fatais, tamanha é a insegurança? Ou será que é preciso atingir determinado número de capotagens com vítimas para justificar os gastos com a duplicação da BR?
Ora, com efeito, a rodovia cumpre uma função importante. Lá adiante se encontra com a Rio-Bahia, outra estrada federal perigosíssima. É por essa via que irradiam o desenvolvimento econômico e o chamado progresso.
A quantidade de carreta – veículos longos – transportando carros recém-saídos da fábrica é enorme. Cegonheiras saem de Minas com carros Fiat e outras entram no Estado, vindo da Bahia, com veículos Ford.
Uma rodovia com essa importância traz todo tipo de gente com usos e costumes diferentes do ritmo de vida em cidades por ela cortadas. Caso de Montes Claros, que nas últimas décadas vive índice de violência comparável ao das metrópoles, efeito colateral do desenvolvimento e do progresso que a torna na prática capital do Norte de Minas.
Numa rápida visita, em questão de nove horas, deslocando dentro da cidade em várias direções, qualquer pessoa ajuizada vai compreender, Montes Claros segue a passos largos na direção da inviabilidade causada pelo tráfego intenso de carros.
Com as facilidades dadas pelo governo federal para elevar o PIB, mantendo a redução do IPI, as cidades brasileiras irão regurgitar carros. Ninguém é contrário à posse de carro por parte de quem queira ter o seu. O problema é que as cidades não possuem infraestrutura capaz de suportar essa quantidade de carros em circulação. Não nasceram para isso e nenhuma obra viária é realizada para minorar os problemas de trânsito.
Em seus 157 anos comemorados quinta-feira, 3 de julho, Montes Claros vista por meio de cartões postais é verdadeiramente linda. Fotos da Catedral de Nossa Senhora Aparecida são espetaculares e nos deixam orgulhosos.
A cidade pontualmente retratada é linda, mas no seu conjunto está sendo conduzida a uma fatídica situação: todos parados dentro dos seus carros perdendo horas preciosas em congestionamentos.
E quem diria que um dia isso iria acontecer com a cidade nascida de uma fazenda de Antônio Gonçalves Figueira, integrante da Bandeira de Fernão Dias Paes Leme. Quem diria? Essa cidade de ruas estreitas feitas para o trânsito de cavalos, carroças e charretes iria um dia sofrer congestionamentos de veículos automotores inexistentes na época do seu nascimento?
Os previdentes sabem, se todos se automotorizarem a melhor opção fica sendo os pés. Andar porque as ruas ficarão entupidas de carros.
Os montesclarinos de nascimento e os filhos adotados não merecem viver o dia a dia de um trânsito próximo de certos lugares da Índia.
Caminhar é bom para o espírito, à mente e o corpo. Andar faz o esqueleto funcionar bem. Experimente. É necessário vencer o carro.


78240
Por Alberto Sena - 30/6/2014 08:23:57
Com esse futebol, não dá pra chegar

Alberto Sena

Tenho minhas dúvidas se essa ‘selecinha’ irá erguer a taça do Hexa.
Duas Copas do Mundo ficaram para sempre na nossa memória, a de 1958 e a do Tri, em 1970.
Apesar de toda efervescência futebolística consequente da Copa de 2014 no Brasil, a seleção da dupla Felipão e Parreira não tem passado de uma ‘selecinha’.
E se continuar jogando o futebolzinho que mostrou contra o Chile, não terá a mínima chance de conquistar a Taça.
Essa seleção não se compara a nenhuma vencedora, cujas imagens estão gravadas para sempre na nossa memória.
A primeira grande Copa, a de 1958, quando Pelé estreou e Montes Claros pôde acompanhar tudo pelo rádio, na maior emoção, diretamente da Suécia, tinha craques. Desde o goleiro Gilmar passando por Nilton Santos, Garrincha até Zagalo, ponta esquerda. Eram craques inclusive na simplicidade.
Foi naquela Copa que o futebol brasileiro se revelou ao mundo. Estávamos todos na sala de jantar da casa da Rua São Francisco e ouvíamos a narração do jogo. O rádio chiava, mas ainda assim pudemos ver com os ouvidos todos os lances dos gols contra a Suécia, quando a Seleção Brasileira se sagrou campeã do mundo pela primeira vez.
A segunda grande Copa foi a do Tri, em 1970. O Brasil estava mergulhado na ditadura militar. O presidente era o general Garrastazu Médici, um dos mais violentos governos militares. Era a época do “Ame-o ou deixe-o”, período do “Milagre Brasileiro”, quando o economista Delfim Neto, ministro da Fazenda, era o todo poderoso.
Quando Carlos Alberto Torres, o capitão do Tri levantou a Taça do Mundo, o Brasil entrou numa euforia que redundou em carnaval. Saímos pelas ruas de Montes Claros sentados até no capô de carros em movimento, lento, numa alegria desembestada e fomos direto para o Automóvel Clube onde houve um improviso de carnaval.
A cidade vivia os dias de tranquilidade. O ‘point’ era a Cristal ainda resistindo aos tempos, onde naquela época se reuniam os amigos. A seleção brasileira brilhou com o futebol arte.
De lá para cá, muita coisa mudou no futebol. Predominou a força em detrimento da arte. Os dribles desconcertantes de Garrincha e de Pelé já se perderam há muito tempo. O dinheiro passou a falar mais alto. Principalmente para os cartolas. O amor à camisa se foi, sepultado para sempre. Ficamos na saudade.
Dia desses, Juca Kfouri comentou em sua coluna que o ex-jogador Roger, agora comentarista da Rede Globo, teria revelado uma vingança contra o técnico do Corinthians ao chutar propositalmente para fora um pênalti decisivo.
E os torcedores até se matam pelos clubes de futebol, como se futebol fosse o que há de mais importante na vida, mais do que as necessidades básicas como educação, saúde, segurança pública e trabalho.
É de se esperar que a seleção brasileira atual melhore o rendimento em campo, faça jus ao fato de estar sediando a Copa, porque o que foi mostrado até ontem não passa confiança alguma aos torcedores que têm olhos de ver e senso crítico ativo.
O time joga novamente, sexta-feira, contra a Colômbia. Se perder vai acompanhar os jogos das arquibancadas. Na partida de ontem, o Chile também nada demonstrou que pudesse considerar os chilenos injustiçados, apesar da bola chutada no travessão.
Na seleção brasileira não há nenhum jogador que nos faz lembrar Nílton Santos, Didi, Garrincha e Pelé. Neymar ainda não mostrou o que esperamos dele.
Vimos um futebol medíocre, sem lances de belas jogadas e dribles de fazer levantar a torcida. Se tivéssemos craques como os da Copa de 58 ou de 70, a seleção brasileira não teria passado pelo vexame de ter de disputar pênaltis na própria casa porque não conseguiu fazer gols no tempo regulamentar.
Nada contra a Copa. Mas todos nós sabemos, o País possui outras prioridades mais importantes. O possível sucesso que possa ser obtido por meio duma bola de futebol não resolverá os problemas crônicos brasileiros nos segmentos político e socioeconômico, cujas soluções independem dos pés.
O importante é vencer na vida usando a cabeça não só para dar cabeçadas na bola e mordidas em adversários, mas em busca de ideias práticas em que a coletividade seja beneficiada.


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Por Alberto Sena - 27/6/2014 11:56:05
Augusto Ruschi viveu em Grão Mogol

Alberto Sena

Grão Mogol, a Cidade Diamante transpira história por todos os poros. Desde meados do século 18, quando o brilho diamantífero fez nascer cidade nas dobras do Maciço do Espinhaço, Grão Mogol se impregna de história. Em linguagem garimpeira, basta levar o carumbé pra beira do rio e recolher entre o cascalho uma história atrás da outra.
Acabo de recolher uma no meu carumbé que talvez poucos grãomogolenses saibam: o naturalista Augusto Ruschi, famoso no mundo científico, viveu uma temporada em Grão Mogol. Quem conhece a fama dele compreende, Ruschi era um Pelé do meio ambiente, estudioso de beija-flores.
Quem garante ser testemunha da presença do naturalista em Grão Mogol, onde ele instalou um viveiro de beija-flores na outra margem do Ribeirão do Inferno, atrás da Casa da Cultura, é o garimpeiro Herbert Alves do Nascimento.
Herbert tinha 9 anos de idade e como quase toda criança daquela época, vivia com estilingue pendurado no pescoço. Não podia ver passarinho que caçava.
Um dia Herbert se encontrava próximo ao viveiro, depois de abater uns cinco beija-flores, quando foi advertido pelo próprio Ruschi, em carne e osso.
_ Não faça isso não, menino – teria dito ele a Herbert, hoje com 60 anos de idade, garimpeiro de profissão.
O menino ficou assustado e a pessoa que acompanhava Ruschi disse logo:
_ Não bata no menino, não.
Ao que Ruschi teria dito:
_ Não vou bater, mas ele precisa entender, estamos preservando esses bichinhos para que possam existir no futuro.
Herbert não sabia quem era o homem que lhe falava com tanta autoridade. Simplesmente tratou de ir embora. Muito tempo depois, já adolescente, em 1972, quando circulou a nota de 500 cruzados novos, cuja estampa mostrava a figura de Ruschi, Herbert logo reconheceu ter sido advertido por um homem importante, conhecido em várias partes do mundo pelo seu belíssimo trabalho em defesa dos beija-flores.
Ainda hoje o garimpeiro se lembra da cena e se sente orgulhoso por isso. Mas poucas pessoas sabem que Ruschi viveu em Grão Mogol. Gentil Esteves Oliveira, proprietário da Drogaria Nossa Senhora Aparecida, na Rua Cristiano Rello, confirma a presença de Ruschi em Grão Mogol, embora nunca tivesse conversado com o naturalista, mas lembra de tê-lo visto na cidade.
Pelo que Herbert apurou depois, inclusive com pessoas já falecidas, Ruschi não fazia o menor esforço para mostrar quem era. A intenção dele, em Grão Mogol, foi simplesmente estudar os beija-flores e mais nada. Queria viver anonimamente. E conseguiu.
Segundo disse o garimpeiro, o naturalista famoso se hospedava numa casa de pedras na Rua Hilário Marinho. O único legado dele para Grão Mogol foi uma fotografia em que ele está sentado numa das pedras do Ribeirão do Inferno, próximo da cachoeira.
O naturalista morreu aos 72 anos, em 1986, no Hospital São José, em Vitória (ES), onde esteve internado devido a complicações gastroenterológicas agravadas por insuficiência hepática. A causa da morte foi diagnosticada como cirrose hepática.
Ruschi submeteu-se a um ritual indígena destinado a curá-lo do veneno de um sapo de espécie dendrobata, que o teria atingido no Amapá. Após o ritual, ele se disse curado dos males do veneno, mas trataria de seus problemas de fígado e estômago pela alopatia.
Atuante defensor do meio ambiente, Ruschi se envolveu em várias disputas públicas com empresas e autoridades pela preservação ambiental. Uma delas foi com o governador do Espírito Santo, Élcio Álvares, em 1977, a respeito da instalação de uma fábrica de palmito na Reserva Biológica de Santa Lúcia.
Pioneiro no combate ao desmatamento da Amazônia, ele antecipou os efeitos maléficos do reflorestamento com espécies exóticas e do uso de agrotóxicos, entre outros problemas ambientais contemporâneos.
Ruschi contribuiu para o ambientalismo e para as ciências. Ele publicou mais de 400 artigos e mais de 20 livros científicos. Foi consagrado pelo respeito entre os estudiosos de sua época e por homenagens recebidas em vida e postumamente.
Em 1994, uma lei federal concedeu-lhe o título de “Patrono da Ecologia” no Brasil.


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Por Alberto Sena - 26/6/2014 09:35:03
Clima de festival aquece inverno em Grão Mogol

Alberto Sena

Grão Mogol já entrou no clima do Festival de Inverno 14 dias antes do início, 10 de julho – vai até o dia 20. A notícia já se espalhou por toda a cidade e a região, de modo que os grãomogolenses vivem a expectativa de movimento de gente de todos os cantos do Norte de Minas, Vale do Jequitinhonha, outras regiões mineiras e de fora do Estado.
O primeiro sinal da proximidade do Festival de Inverno foi o frio, detalhe comprovador da existência de um microclima ao redor da cidade proporcionado pelas serras do Maciço do Espinhaço, o que deu a Grão Mogol o epíteto de “cidade de clima europeu”.
A queda da temperatura local persiste há 15 dias, mas o calor humano do grãomogolense cresce embalado pela recente comemoração dos 156 anos de emancipação da cidade, cujas festividades foram encerradas com a apresentação do cantor Daniel, que prometeu retornar em breve.
A cidade já se acostumou a receber multidões, como aconteceu nos últimos carnavais e também há mais de cinco anos, quando aconteceu o último festival. A organização do evento é da Unimontes – Universidade Estadual de Montes Claros.
Em termos culturais, artísticos e turísticos Grão Mogol e região terão a oportunidade de mostrar os seus atrativos e talentos. Mas o comércio local não alimenta a expectativa de ganhos extraordinários, como já ensinaram os últimos carnavais, que quase nada acrescentaram de benefícios como dizem os comerciantes da cidade.
A Polícia Militar, sob o comando do tenente Henrique, já tem pronto um esquema de policiamento. Ele acredita que se durante os carnavais tudo transcorreu dentro da normalidade, com a realização do Festival de Inverno não será diferente. Mas, afirmou o tenente, militares das cidades participantes irão integrar o esquema de segurança.
A abertura do festival será às 19h, no Presépio Natural Mãos de Deus, considerado o maior do mundo, com um culto ecumênico e apresentação artística do Núcleo de Ópera e das Pastorinhas de Grão Mogol.
Lúcio Bemquerer, idealizador da obra, disse que o presépio cumpre com a sua finalidade, pois conta com um palco feito para realização de eventos culturais, foclóricos e religiosos.
Delmira Ribeiro, gerente do presépio, informa que a área do palco será cedida à Prefeitura de Grão Mogol, por intermédio da Secretaria Municipal de Cultura, para que, juntamente a Unimontes seja feita a abertura do que promete ser o mais vibrante festival da região, principalmente pelos seus atrativos naturais e a possibilidade de revelar talentos em vários segmentos.
Cada uma das 12 cidades da região que aderiram ao festival ficou com a missão de apresentar três números dentre as várias opções a serem oferecidas. A intenção dos organizadores do evento é fazê-lo o mais completo possível abrangendo todas as manifestações culturais registradas nos municípios participantes.
A intenção é mostrar o que cada município possui, numa espécie de intercâmbio cultural, de modo a revelar e apresentar os valores culturais uns para os outros nas áreas de música, folclore, turismo etc. Riquíssima sob todos os aspectos, o festival é uma maneira de divulgar a região para que possa ocupar o seu espaço no cenário estadual e nacional.
Dentro da programação do Festival de Inverno será realizado nos dias 10 e 11 de julho o Festival de Canção Lago de Irapé, quando serão apresentadas ao público as 20 canções escolhidas pela comissão julgadora. Os três primeiros lugares receberão prêmios em dinheiro de R$ 6 mil.
Grão Mogol possui boas opções de hospedagem para receber quem vier participar do festival, como o Hotel Paraíso das Águas, de Nem Costa, com 34 apartamentos, comparado aos melhores de Montes Claros e de Belo Horizonte, situado em uma área aprazível, com lindas paisagens; e a Pousada do Eti, com 43 suítes, dentro da cidade.


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Por Alberto Sena - 23/6/2014 08:26:56
Disparou o segundo alerta

Alberto Sena

Permanece vivo na memória o dia em que Fialho Pacheco, à época trabalhando como repórter do jornal Estado de Minas, onde faturou cinco edições do “Prêmio Esso”, disse numa das suas idas a Montes Claros, pra onde ia de Rural Willys: “A cidade vai explodir”.
Isso foi em meados da década de 60 e estávamos na porta do O Jornal de Montes Claros, quando ainda funcionava na Rua Dr. Santos 103, numa casa velha de propriedade do empresário Luís de Paula Ferreira.
Fialho espichou o olhar até os arvoredos da Praça Dr. Carlos, observou as bicicletas em meio aos veículos, levou em conta o vaivém de gente descendo e subindo a rua Dr. Santos para chegar à conclusão de que a cidade explodiria em médio prazo. Quem a essa altura do campeonato do crescimento da metrópole discorda da perspicácia dele?
Montes Claros de então oferecia qualidade de vida. Mas os olhos de Fialho enxergaram além e o levaram a pronunciar o vaticínio. Com isso, ele quis dizer que a acidade cresceria, como cresceu, o trânsito de veículos ia aumentar, como aumentou; e as ruas estreitas não suportariam o volume de veículos, como de fato não suportam. Os congestionamentos são frequentes, como acontece em todas as capitais e cidades grandes do País, por excesso de veículos em circulação.
No caso específico de Montes Claros, o que fazer? Não é necessário ser urbanista para compreender que da maneira como a cidade se vai expandindo, próximo está o momento em que as pessoas ficarão paradas dentro dos carros, presas horas em meio aos congestionamentos. Em primeiro lugar, isso acontecerá e já está acontecendo porque é inadmissível um veículo de uma tonelada de peso transportar apenas 70/80 quilos.
Em outras palavras, não dá pra entender essa nossa mania de carro. Se for feita uma pesquisa, se vai verificar que em 100 carros envolvidos no trânsito a grande maioria leva apenas uma pessoa. Alguma coisa precisa ser feita antes que o caos se instale de vez na cidade, que, simplesmente cumpre a sua vocação de cidade polo, desde os primórdios dos tempos.
O que ainda não aconteceu é o surgimento de um administrador visionário que possa influir nos rumos da cidade. Se alguma coisa tivesse sido feita naquela época, quando Fialho vislumbrou o caos, que não ocorre só em Montes Claros, seria outro hoje o panorama montesclarino.
Mas é preciso dizer, alguma coisa foi realizada naquela época e seria a solução para tornar a cidade mais arejada: um Plano Diretor foi elaborado. E a ideia partiu do então prefeito Antônio Lafetá Rebello, o Toninho Rebello, considerado um dos melhores prefeitos que a cidade já teve. Ele só cometeu um erro, derrubou o antigo mercado da Praça Dr. Carlos, um casarão que, se em pé estivesse, seria uma relíquia cultural e turística.
Pelo que circulou anos depois, Toninho Rebello não conseguiu avançar no Plano Diretor “por questões econômicas e políticas”. Alargar as ruas de Montes Claros só para satisfazer as exigências de trânsito de veículos é inconcebível, seria priorizar a máquina em detrimento da gente humana.
Hoje em dia, a concepção de desenvolvimento urbano mudou, pelo menos em minha opinião. A medida do desenvolvimento não passa mais pela avaliação quantitativa do trânsito de veículos ou pelo número de chaminés cuspindo fumaça poluidora nos céus. A sociedade brasileira já não aceita mais esse tipo de “desenvolvimento”.
Os administradores das cidades devem antes de qualquer coisa se ocupar com o bem-estar das populações. Tornar as urbes agradáveis o bastante para as famílias viverem em paz e em segurança, harmoniosamente.
Os maus exemplos estão aí para serem vistos: as grandes cidades se tornaram territórios inóspitos. As pessoas estão com medo. Há, inclusive, uma neura maior do que a realidade dos perigos atuais, o que faz aumentar o medo. Todos são suspeitos até prova em contrário. As cidades cresceram para cima e sofrem com todo tipo de poluição. A atmosfera está envenenada.
Em recente pesquisa, a Organização Mundial de Saúde (OMS) comprovou isso. Apurou que as grandes cidades estão com os ares envenenados. A poluição provocada pelo monóxido de carbono e outros gases incide diretamente no aumento dos casos de câncer, principalmente de pulmão.
É necessário sentar em volta duma mesa para rediscutir Montes Claros. Meio século atrás Fialho Pacheco fez o primeiro alerta. O segundo já disparou.


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Por Alberto Sena - 20/6/2014 08:33:51
“Grão Mogol é a bola da vez”

Alberto Sena

A frase é feita – “Grão Mogol é a bola da vez” – mas está em consonância com a Copa do Mundo, que ora vem sendo disputada no Brasil. Entretanto, o importante é o conteúdo da frase, e, mais ainda quem a pronunciou: o sociólogo, economista e empresário Lúcio Bemquerer. Durante décadas, ele dirigiu a Prosper Consultoria, em Belo Horizonte, onde foi presidente da Associação Comercial de Minas (ACMinas) e diretor executivo do Fórum de Líderes da Gazeta Mercantil, composto por mais de mil grandes empresários de todo o País.
Filho de Grão Mogol, cidade para onde retornou 20 anos depois de um exílio involuntário, Bemquerer criou o maior presépio natural, perene e a céu aberto do mundo denominado Mãos de Deus. Ele explica o porquê de achar a sua terra natal como “a bola da vez”: é que a cidade ficou estagnada durante décadas, após o fim do garimpo de diamantes, e de três anos para cá experimenta o desenvolvimento a partir de incentivos da administração pública municipal.
Bemquerer costuma dizer que Grão Mogol hoje pode ser vista como cidade de “primeiro mundo”. Nela não há favelas. Não há casas sem reboco. Mendicância não existe. Crimes também não. Muitas das casas ficam de portas e janelas abertas e tem policiamento ativo e atento para impedir a chegada dos males das grandes cidades.
Em Grão Mogol o ar é puro. E a prova disso são os liquens encontrados nas pedras. E são tantas as pedras, que dariam munição abundante ao poeta maior, Carlos Drummond de Andrade para fazer milhares de poemas com pedras no meio do caminho.
Hoje a cidade é dotada de dez supermercados e por isso mesmo o comércio vem se fortalecendo. A antiga Rua Direita, chamada Cristiano Relo, é uma espécie de termômetro para tudo que acontece na cidade. Lá, o comércio de modo geral ferve. A rua é fechada ao trânsito de veículos e por isso carinhosamente, é chamada de “Savassi”, numa alusão à Savassi de Belo Horizonte.
Mas o forte mesmo, de Grão Mogol, é o turismo. “Aqui é a nova fronteira do turismo de Minas, quiçá do Brasil”, disse Bemquerer. Com a construção do Presépio Mãos de Deus, o turismo religioso, então, ganhou notoriedade e tanto é verdade que a obra, abençoada pelo Papa Francisco já recebeu mais de 50 mil pessoas em dois anos e meio de inaugurada.
Quase que concomitantemente à criação do presépio, a cidade ganhou um hotel de categoria, o Paraíso das Águas, com 34 apartamentos que em nada perde para os melhores hotéis de Montes Claros e de Belo Horizonte.
A cidade ganhou também o Balneário do Córrego, um lugar aprazível, com piscina de água corrente e chalés bem equipados, lugar ideal para se passar os finais de semana, principalmente, dotado de uma vista de deixar qualquer ser vivente boquiaberto.
Agora que o Centro Histórico de Grão Mogol está em processo de tombamento pelo IEPHA – Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais, a cidade deverá receber os incentivos próprios dessa modalidade de preservação dos bens públicos e, finalmente, entrará de vez para o rol das cidades históricas de Minas Gerais e do Brasil.
Nos últimos anos a cidade vem ganhando espaços preciosos na mídia e a cada dia cresce mais o número de turistas que vêm apreciar os seus atrativos urbanos e naturais proporcionados pelo Maciço do Espinhaço, dentro do qual se expande, mas conservando a boa qualidade de vida, artigo em falta nas metrópoles brasileiras.
É por tudo isso que Bemquerer chegou à conclusão de que Grão Mogol é “a bola da vez”. A estagnação anterior considerada negativa, porque forçou a saída de muitos grãomogolenses, soa agora como fator positivo porque a cidade não foi corrompida pela outra face da moeda do desenvolvimento. E por um acidente geográfico, não tem vocação ao crescimento, porque fundada entre as fraldas da Serra do Espinhaço.
É por demais sabido que quem vem a Grão Mogol não vai daqui para nenhum outro lugar. Tem de voltar e tomar a BR 251, o que, geograficamente, se constitui num fator facilitador da segurança pública.
Como diz o prefeito Jéferson Augusto de Figueiredo, em pleno exercício do quarto mandato, quando muito, a cidade terá em médio e longo prazo o número de habitantes que hoje possui em todo o município, isto é, 15 mil almas vivas. Atualmente, no perímetro urbano estão, se muito, seis mil habitantes e o restante na zona rural.


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Por Alberto Sena - 16/6/2014 14:17:03
E os nossos rios morreram de sede?

Alberto Sena

Para lembrar o poeta Casimiro de Abreu (1839-1860) com aquele lindíssimo “Poema da Noite – Deus” inicio parafraseando os versos dele: “Eu me lembro! Eu me lembro! Era pequeno...” e morava em Montes Claros. Acreditem, naquele tempo em que de fato era menino (agora sou menino por direito), havia nos arredores da cidade alguns rios onde muitos dos montesclarinos campeões de natação nas disputadas competições da Praça de Esportes aprenderam a nadar.
Como já faz uma data estou fora dessa cidade amada, que se agigantou numa fração de segundos se se levar em conta a relatividade do tempo, não posso garantir a existência dos rios que fizeram a alegria de gerações de conterrâneos (e tristeza de certas famílias cujos filhos pereceram afogados) ou se eles morreram de sede, como diria o amigo jornalista e escritor Wander Piroli, já falecido, montesclarino por aclamação.
Acreditem, se esses rios ainda existem devem estar no perímetro urbano a essa altura das transformações pelas quais a cidade passou nas últimas décadas. Mas naquele tempo, os rios se encontravam fora do perímetro urbano e para ter acesso a eles era preciso andar e andar um bocado.
Muita gente morreu afogada nesses rios de então. Este era o maior temor das mães daquela época. Mas ainda assim os filhos iam nadar escondido nos rios e quando chegavam a casa, a primeira iniciativa das mães era passar as unhas nos braços dos meninos. Se deixassem rastros esbranquiçados na pele eram sinais de que haviam passado a tarde nadando em rio.
Havia o rio do Melo. Quem se lembra? O que foi feito dele? A região foi toda urbanizada e se apossou do nome do rio. Na época em que o rio do Melo corria, uma das poucas casas próximas dele era do tio Abel, pai de uma penca de filhos quase todos vivos, entre os quais Mário, Ninho chamado; Saul, Fernando e Abel, mas também pai de Nice, Marlene, Clarice e outras irmãs. Era um lugar ermo. Acompanhado de Saul perambulávamos pelos matos à caça de rolinhas pra fazer guisado.
Havia a Lajinha. Várias foram as vezes em que fui a Lajinha com estilingue pendurado ao pescoço. E como não sabia nadar, espiava os amigos pulando n’água de ponta ou dando saltos mortais. Ficava com enorme vontade de fazer a mesma coisa, mas os ecos da advertência de mãe soavam mais altos. Se chegasse a casa e fosse submetido ao teste das unhas e reprovado, seria “um deus nos acuda”.
Havia também o Pai João, um rio que tinha poços fundos e deve ter sido o campeão em ocorrência de afogamentos. Este ficava mais próximo da cidade. Quem ia para a Vila Ipê passava próximo dele. Havia o rio Carrapato. E também o Vieira. Este passava nos fundos do quintal de nossa casa, na Rua Marechal Deodoro. Na época o ribeirão não recebia o esgoto da cidade como acontece impunemente até hoje.
A fase de buscar os rios terminou a partir de quando descobri ser melhor frequentar a Praça de Esportes. Mas o “medo” da água ficou como uma cicatriz porque mãe tinha medo de perder um filho afogado e só agora, tanto tempo depois, percebo a origem do temor dela. Devia estar intimamente relacionado com o fato de um dos seus irmãos, José, ter morrido afogado.
A morte de José aconteceu assim: ele seguia junto com a tropa de soldados para lutar na Itália, na Segunda Guerra Mundial. Disseram que ele teria se afogado no Nordeste, acho que em Rio Grande do Norte, onde tomaria um navio.
Um companheiro enviou foto dele como lembrança, na qual os dois estavam juntos vestidos de calção de banho a beira mar. Dele restou à família uma foto, que mãe mandou emoldurar e pendurou na sala de visitas da casa da Rua São Francisco. José vestia farda verde oliva, e para mim era um orgulho tê-lo como tio.
Na Praça de Esportes usufrui de todas as opções de atividades esportivas, menos natação. Era como gato escaldado, com medo de água fria. Nado quase nada hoje.
Mas bom mesmo era jogar pelada na pista gramada da Praça de Esportes e pingue-pongue debaixo do telhado próximo da piscina grande, lá onde morreu afogado um conhecido que morava na Rua Doutor Santos, quase esquina de Rua Dom João Antônio Pimenta.
Era ele um jovem adolescente cuja mãe descobrira estar praticando furtos na cidade e pediu a Deus para levá-lo embora “desta vida”, de tão envergonhada ela ficou.


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Por Alberto Sena - 9/6/2014 08:39:20
Porre traumático

Alberto Sena

Uísque, não toma. Não suporta sentir o cheiro. Cerveja também não bebe já faz tempo. Parece água. Gosta de vinho. Prefere tinto e seco. Mas aprecia vinho branco. Rose nem tanto.
Já bebeu cerveja e as recordações de quando bebia cerveja vêm desde quando morava em Montes Claros, final da década de 60 e década de 70, entrante.
Bebida alcoólica nunca foi o seu forte. Dona Elvira deve ter rezado ao longo da vida pedindo a Deus para afastar da bebida os filhos, principalmente os homens.
Cachaça nunca conseguiu beber daquele jeito como bebem os contumazes. Jogam um pouco “pro santo”, mandam pra dentro, num só gole, a dose e sentem o álcool arder goela abaixo. Depois soltam um “aaahhh..” e desatam o falador. Sorveu cachaça como remédio. Uma dosezinha de vez em quando e olhe lá.
Uísque é uma bebida alcoólica forte. Hoje é sabido, mas naquela época, em Montes Claros, logo depois de concluir o Tiro de Guerra, não sabia nada a respeito de uísque, além do que via nas telas de cinema, naquelas cenas em que o caubói entrava no saloom e pedia uma dose “pra matar a sede”. Como se uísque tivesse competência para substituir a água.
A melhor bebida é água. Gosta de beber água e recomenda a todos beberem um copo d’água em jejum todos os dias. Água em jejum é excelente preventivo contra doenças. Os mais velhos acabam sofrendo de males que poderiam ser evitados se bebessem água suficiente.
É recomendável de dois a mais litros de água por dia. Quem bebe água com a devida regularidade tem saúde, porque a falta d’água ocasiona ressecamento da pele, dos cabelos e outras coisas mais, além do pior, as células do corpo vão morrendo aos pouquinhos. Elas funcionam à base de água.
Mas o caso em tela é o uísque. Como dizia, havia acabado de terminar o TG quando foi a uma festa no Automóvel Clube de Montes Claros. Tinha de vestir terno e gravata. Vestiu o único terno surrado, pôs a gravata única e se foi achando dono das cocadas de todas as cores.
No Automóvel Clube encontrou-se com o primo Mário Sena, Ninho chamado, e este lhe propôs dividir um litro de uísque. Topou no ato a proposição do primo. Sentaram-se à mesa e enquanto o garçom não vinha trazer a bebida, e nada mais, apreciavam os casais dançando ao som do conjunto de Célio Balona, camarada eterno porque vive até hoje e em boa forma física e musical.
O garçom veio com a badeja contendo o litro de uísque, dois copos e um balde de gelo, no maior estilo. E veja bem, nunca havia bebido uísque. Achava que devia ser bebida saborosa, pois os caubóis das fitas norte-americanas tomavam com a cara tão boa. Devia ser o suprassumo da gostosura.
Ninho serviu a primeira rodada de uísque e o outro achando que estava sendo filmado, esperava chegar alguém pra tirar da mesa e levar à pista de dança. Tomou a primeira dose e não achou gostosa assim como os caubóis do cinema achavam.
Não se recorda bem, mas na segunda ou terceira doses simplesmente apagou-se. Nem viu o momento em que se debruçou sobre a mesa. De vez em quando abria os olhos e só enxergava vultos.
Resultado: até hoje não sabe quem foi que o levou embora e como entrou em casa. Amnésia alcoólica. No dia seguinte, não entendeu nada ao acordar prontinho para ir a uma festa, de terno, gravata e sapatos.
Desse dia em diante prometeu a si nunca mais beber uísque. Pareceu-lhe ter sido esmagado por um rolo compressor. Até hoje, não aguenta nem sentir o cheiro de uísque. Sente o estômago embrulhar.
Quase meio século depois dessa inglória incursão ao litro de uísque concluiu: a melhor bebida é água. Não troca um copo d’água por uma garrafa de cerveja. E menos ainda de cachaça. Uísque, nem se fala.
Depois da água, a melhor bebida é o suco de laranja; frutas de modo geral. Mas água e suco têm os seus momentos. Assim é também com o vinho. Diferentemente das outras bebidas, o vinho requer cerimônia. Pra começar, não se toma vinho em copo, como cerveja ou cachaça.
Vinho é bebido em taças. E de preferência de cristal. E mais: não se bebe vinho sozinho. Vinho pede companhia. De preferência, feminina. Vinho abre a caixa de sonhos. Transporta os apreciadores a lugares mágicos ao redor do planeta.


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Por Alberto Sena - 2/6/2014 08:24:08
De quando havia quintais

Alberto Sena

Mergulho na piscina dos tempos dos quintais, em Montes Claros, e muita gente vai se recordar, as famílias daquela época eram numerosas. E não havia tanta opção de lazer, além de ler livros de literatura, frequentar os cinemas, horas dançantes, jogar futebol, praticar esportes de modo geral.
Os pais de famílias dormiam cedo porque mal havia o incipiente rádio. Muitas vezes rádio asmático porque chiava, até dó dava.
O melhor programa então era fazer filhos. Havia casas de jogos e zona boêmia, e se sabia que homens casados frequentavam estes lugares existentes em pontos por onde as senhorinhas nem podiam se aproximar. Sabia-se de pais de famílias que tinham também “mulher na zona”.
Um casal da época dos quintais com dez ou mais filhos era a notícia mais comum na cidade de trânsito de veículos resumidos em alguns poucos carros das décadas de 40/50.
Numa primeira leva de lembranças anoto as famílias Correa Machado, Macedo, Araujo (Zé Amaro), dentre outras, inclusive a minha Sena Batista. Meus pais tiveram 11 filhos – seis mulheres e cinco homens.
O mesmo tanto de filhos teve Zé Amaro, sendo 10 homens. Dizem que ele queria por que queria uma menina em casa e não conseguia. A cada gravidez, Zé Amaro alimentava a expectativa de, enfim, nascer uma criança do sexo feminino. Aconteceu.
Da minha família, dez sobreviveram. Há 14 anos morreu uma das irmãs. Os nove estão vivos. Todos aparentemente em boas condições de saúde. Exceção de uma das irmãs.
Essa filharada toda dos meus pais leva-me a refletir sobre a importância de um casal gerar tantos filhos e estes se multiplicarem não com a mesma quantidade, mas de modo representativo.
É preciso levar em conta que o fim dos quintais se deu já faz décadas, e, também, precisa ser considerado que tudo rolou no pós-advento da televisão. As influências da TV em todo tipo de comportamento, nos usos e nos costumes. E principalmente pela descoberta da pílula anticoncepcional.
Terezinha a primogênita casou-se e teve quatro filhos. Depois dela veio Elza, que se casou também e teve seis filhos. Geralda, Ladinha apelidada, não se casou.
Noutra leva veio Waldyr, que se casou e teve três filhos. E, pela ordem, chegou Miguel, que não sobreviveu um ano. Depois vem José Venâncio com duas filhas; Célia com duas filhas também; Lúcia com três filhos. Wanda não se casou. Eu com quatro filhos e Antônio, com um casal de filhos.
Resultado: o casal Elvira de Sena Batista e José Batista da Conceição gerou ao todo, em duas levas, 37 pessoas, entre filhos e netos. Os netos já geraram outro tanto – qualquer dia desses vou iniciar o levantamento deles pra árvore genealógica da família. É tanta gente que se acontecer de todos se encontrarem um dia será necessário alugar um clube.
A tarefa de desenhar a árvore genealógica está muito mais fácil do que no tempo dos meus pais, quando não havia o costume de sacar fotografias e grande era a carência de informações.
Atualmente, com o advento do celular, qualquer pessoa pode vir a ser fotógrafo. Mas no caso dos meus pais, as informações são poucas a respeito dos ancestrais de um e de outro. Tenho uma ou outra foto e alguma informação. Só.
Mas eu, os irmãos e os nossos filhos tivemos a oportunidade de tirar muitas fotografias, de modo que não será uma tarefa difícil fazer álbuns.
É importante as pessoas saberem das suas origens. Essa necessidade é intrínseca aos humanos. É a herança de si mesmo.
Uma pessoa que sabe da sua origem deve ser mais segura de si do que quem nada sabe. Quem não conhece o pai ou não sabe quem é a mãe deve sofrer por isso. Há muitos casos desses por todos os cantos do Brasil e do mundo.
Conhecer as próprias raízes é tão importante quanto amar a terra natal. Amo Montes Claros porque foi onde nasci. E nada tenho a reclamar do tempo em que vivi perambulando pelas ruas estreitas da cidade, hoje metrópole com todos os problemas decorrentes do progresso e do crescimento sem planejamento.
Feito isso, a conclusão: particularmente, agradeço a Deus por me ter dado tanta vida e de ter feito nascer no seio da família de meus pais em tempos de quintais.
Peguei bicho de pé, subi em árvores, corri livre por ruas empoeiradas da urbe pacata, hoje quase perdida em meio à capital do Norte de Minas.


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Por Alberto Sena - 26/5/2014 08:28:22
Plantar jequitibá

Alberto Sena

É preciso mostrar aos brasileiros o Brasil, País que, aos trancos e arrancos, se vai tornando nação.
Em meio às informações que se propalam, há um Brasil que vai dando certo, mas isso não interessa principalmente as mídias estrangeiras.
Desde que iniciei vida profissional como jornalista, em 69, em Montes Claros, no O Jornal de Montes Claros, de Oswaldo Antunes e Waldyr Senna Batista, era assim: a imprensa buscava mostrar os fatos nas páginas de polícia para servir de exemplo aos outros e evitar a repetição.
Antigamente, era “uma vergonha” para as pessoas que se envolviam em falcatruas e outros crimes que grassam na vida pública brasileira.
Atualmente – e isso precisa mudar – quanto mais ladrão, mais bandido o camarada for, mais simpático é visto e em volta dele circulam os seus iguais.
A mídia e as pessoas ao longo do tempo cuidaram de mudar tudo. O mercantilismo tomou conta.
Hoje temos várias mídias.
Claro que este é um país em formação, em busca de identidade própria. Há os bestalhões que nunca foram lá fora para ver como os outros funcionam nem conhecem nada de história para compreender que o Brasil possui valores importantíssimos. A começar dos brasileiros como uma civilização em formação no caldeirão étnico.
Brasileiros que, se educados em todos os sentidos, e politizados darão um show para o mundo inteiro assistir.
Temos problemas, fomos sugados desde a chegada de Pedro Álvares Cabral - e ainda somos - e, no entanto, o Brasil é hoje outro país, independentemente das ingerências de maus políticos.
Nada de complexo de inferioridade em relação ao chamado primeiro mundo. Eles fazem tudo para frear o avanço do Brasil perante as nações, em todos os sentidos e mais ainda economicamente. E há brasileiros que fazem de tudo para destruir o Brasil, caindo na armadilha dos gringos.
O Brasil tem problemas; muitos. Mas tem um lado positivo a divulgar. O País é destaque nas pesquisas relacionadas ao Projeto Genoma Humano; é pioneiro e detém a melhor tecnologia para exploração de petróleo em águas profundas; é o maior produtor de café, soja, laranja; é o maior produtor de carne bovina e vai por aí afora.
O Brasil é o melhor lugar do mundo pra gente viver. Possui belas florestas, paisagens de tirar o fôlego, um litoral maravilhoso de belas praias. Os brasileiros são uma raça heterogênea de gente sem igual no mundo. Gente bonita.
A Europa é Europa graças ao ouro e a prata da América Latina (foi o ouro brasileiro levado por Portugal que fez a revolução industrial inglesa). As veias abertas da América Latina, segundo o escritor Galeano, continuam abertas.
Mas, aqui temos liberdade, podemos fazer de tudo - e as pessoas acabam fazendo de tudo mesmo, abusando até, e é por isso que estamos vivendo dias incertos.
Não entendo por que protestar agora contra a Copa do Mundo, que será realizada proximamente, quando todos se omitiram (e quantos aplaudiram?) a notícia de que o evento seria realizado no Brasil.
Por mim, que não sou torcedor de futebol, nada disso estaria acontecendo. Mas nem por isso vou sair protestando contra a Copa. Se der errado, o malfeito já estava feito desde o início e não houve protestos.
Não vou torcer contra a seleção brasileira, mas se o Brasil perder a Copa será melhor do que ganhar porque os políticos, os mesmos que infelicitam o País hoje irão se apossar do título.
Vejo em possíveis manifestações contra a Copa como pretexto para objetivos outros os mais escusos.
Independentemente dos homens e das mulheres e dos partidos políticos, o Brasil segue rumo a sua vocação de potência. Não das armas, mas do saber.
Dono de todas as condições na superfície e no interior do solo para se tornar autossuficiente, enquanto Europa, América do Norte e outras regiões do mundo quase tudo foi destruído e as civilizações vivem em crise de identidade.
Quando tivermos a sorte de eleger governantes que se ocupem com a educação, tudo poderá mudar, em dois tempos.
A educação não mudará o Brasil, mas melhorará as pessoas e as pessoas mudarão o Brasil.
Talvez nem cheguemos a pegar esse Brasil sonhado, de gente politizada. Abaixo de Deus, tudo depende da política.
Mas o importante é plantar o jequitibá, árvore que se torna adulta após 50 anos. Importa plantar.
E que bom que, em se plantando o jequitibá, muitos outros homens, mulheres, jovens e crianças usufruirão da sua sombra e dos seus frutos.


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Por Alberto Sena - 19/5/2014 10:13:30
Ilusões nós vivemos nos anos 60

Alberto Sena

Quem viveu os anos 60, em Montes Claros vai se recordar, houve um tempo em que o ponto principal da cidade era a lanchonete “A Cubana”, na esquina das ruas Dr. Santos e Dom Pedro II. Era chique ir lá pra beber cuba libre, mistura de Coca Cola com rum, gelo e uma rodela de limão.
Naquela ocasião, os carros desciam a rua Dr. Santos. Em frente “A Cubana” ficava a casa do futuro artista plástico Ray Colares e a família dele, vindos de Grão Mogol. A casa de Ray ficava ao lado do cine Fátima, o melhor de Montes Claros.
E foi nesse período de nossas vidas que assistimos ao maravilhoso “2001, Uma Odisseia no Espaço” fita norte-americana dirigida e produzida por Stanley Kubrick; co-escrita por Kubrick e Arthur C. Clarke.
Recordo-me como se fosse hoje, 2001 era um ano tão longínquo. Fazíamos as contas de quantos anos teríamos quando chegassem 2001 e pensávamos que “a vida seria uma loucura”.
Trocávamos ideias com os companheiros daquela época, Cícero Stru, Cícero Cuecão, Ronaldo (Roxxin) e Roberto Lima, Daniel Ribeiro, Fernando Veloso, entre outros sobre a possibilidade de o meio de transporte vir a ser feito em naves, como em naves, dizem, se viajava em Atlântida, o continente perdido.
O Brasil vivia anos de ditadura militar e não convinha falar determinadas coisas, principalmente contra o governo porque a impressão era a de que as paredes e os meios-fios tinham ouvidos. Sentávamos em meios-fios naquela época, pra prosear até altas horas.
Foi uma época em que a juventude de então buscava conhecimentos em livros. Televisão era apenas uma notícia vinda de fora e prometida para breve. O rádio mantinha a acessibilidade em matéria de veículo de informação e os jornais impressos eram vistos e lidos como meios importantes, principalmente o Jornal do Brasil.
As notícias publicadas geravam consequências, naquela época, diferentemente de hoje, quando os fatos se atropelam e os bandidos envolvidos viram celebridades.
O cine Fátima exibia os melhores filmes, inclusive os épicos, como Bem-Hur, e os melhores faroestes com Kirk Douglas, Burt Lancaster, Marlon Brando.
Foi lá que assistimos ao belo filme estadunidense “Amor Sublime Amor”, com Richard Beymer, Natalie Wood, sobre as brigas de gangs em Nova Iorque, tratando da questão da juventude transviada incentivada pelo ator James Dean, morto num acidente de carro em 1955.
Havia sessões de cinema aos domingos em vários horários: às 10h, 14h, 16, 19h e 21h. E como a diversão era essa, e também pretexto para namorar no escurinho, podia-se assistir a um filme e logo depois outro.
Sabíamos os nomes de todos os componentes dos elencos de filmes e acreditávamos na possibilidade de os carros ganharem asas e, enfim, saírem do chão.
Foi depois que o Brasil se sagrou tricampeão mundial de futebol que o vazio se apossou de Montes Claros. E só aumentava à medida que víamos os amigos saírem da cidade a fim de estudar ou trabalhar na capital.
Veio a década de 70 e com ela a continuidade da ditadura militar. Tinha-se a sensação de que mais dia menos dia o País retomaria o estado de direito e a democracia venceria.
As décadas se foram passando numa velocidade de fórmula 1 e logo 80 ficou pra trás e 90 passou. Enfim, o tão esperado ano 2000 chegou e com ele, 2001. E a evolução vaticinada lá atrás, na porta de “A Cubana”, lanchonete extinta, não se confirmou.
Os carros foram transformados em ameaças à humanidade. Continuam engolindo asfalto. Não ganharam asas. A não ser recentemente, quando a mídia publicou um protótipo com asas que tanto pode rodar no asfalto como viajar pelo alto, que nem avião.
Um perigo sem tamanho. Se aqui embaixo já é complicado, já imaginaram os carros voando? Saia de baixo. De repente pode vir acontecer uma chuva de parafusos, porcas e engrenagens.
As trombadas frequentes inviabilizariam essa nova modalidade, mais de cem anos depois da fabricação do primeiro automóvel no mundo.
A realidade dos anos se mostrou cruel, principalmente com Montes Claros. A cidade desembestou e se transformou numa metrópole, com todos os problemas inerentes ao crescimento.
No ranking da violência no Estado, Montes Claros está entre os primeiros lugares. Os crimes acontecem de dia e de noite. O medo toma conta dos montesclarinos e as autoridades pagas com dinheiro público para oferecer segurança à população se mostram ineficientes, reféns também.


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Por Alberto Sena - 12/5/2014 09:47:33
Uma “viúva de Sarepta” em Grão Mogol

Alberto Sena

Grão Mogol, cidade localizada no mapa de Minas Gerais na divisa do Norte com o Vale do Jequitinhonha, completará 156 anos de emancipação nesta quarta-feira, 14, cheia de histórias. Histórias que remontam a segunda metade do século 18, ainda no período colonial, até o atual início do processo de tombamento do seu Centro Histórico por parte do IEPHA.
Um dos personagens mais famosos da região, onde o diamante brilhou e ofuscou as vistas de gente vinda de várias partes do mundo, foi o coronel da Guarda Nacional, o único Barão de Grão Mogol. Por aqui ainda existem muitos sinais da existência dele, sepultado em Rio Claro (SP), para onde se mudou a fim de plantar café e morreu dez anos depois.
Mas nem só de histórias de grandes personagens vive Grão Mogol, com população de cerca de seis mil habitantes no perímetro urbano, gente simples, acolhedora.
Corre, aqui, no boca a boca dos grãomogolenses a história de uma personagem simples, uma mulher analfabeta chamada Lucinda Alves Dias, de 70 anos na carteira de identidade, mas de fato 63 anos (ela foi registrada sete anos depois de nascida), com a qual conversamos hoje durante uma hora, sentados, um diante do outro.
A história dela remete quem conhece à passagem bíblia da “viúva de Sarepta” (Reis 17-7 a 16). A viúva recebera a visita de Elias, homem de Deus, que lhe pediu água para beber e um pedaço de pão. A mulher dispunha só de um punhado de farinha e um pouco de óleo na ânfora. Era comer, disse, “e depois morrermos”, ela e o filho.
Só que ela não sabia e ficou sabendo da boca de Elias o que Deus lhe havia dito em relação à viúva: “A farinha que está na panela não se acabará, até o dia em que o Senhor fizer chover sobre a face da terra” (Reis 17-14).
No caso de dona Lucinda, ela estava passando necessidades, na miséria mesmo, com os nove filhos e o marido garimpeiro que gastava o pouco dinheiro conseguido com cachaça. E ainda maltratava a mulher sempre ao chegar a casa embriagado.
As crianças esfomeadas, uma delas paraplégica em cima da cama, dona Lucinda conta que pediu ao marido para comprar dois quilos de arroz e dois de farinha para calar o estômago dos filhos. E o marido respondeu-lhe: “Por que você não compra às suas custas”, teria dito ele.
A mulher entrou em desespero enquanto o marido saía para mais uma incursão ao boteco. Ela diz ter se ajoelhado no chão, debaixo de um pé de limão, e dirigiu as seguintes palavras a Deus: “Senhor se considerar que sou realmente sua filha, conserta a minha vida; se não me considerar sua filha, Senhor me tire desta vida”.
Ato contínuo, contou ela, apanhou uma enxada e a carumbé, uma espécie de gamela de madeira usada no garimpo e saiu de casa aos prantos rumo ao rio. Chegando lá, ajoelhou-se à margem e cravou a enxada no cascalho. Espichou o vestido para cobrir as pernas e se proteger contra os mosquitos, e na primeira vez que puxou para si o cascalho, uma pedra brilhante saltou-lhe em cima da roupa.
Dona Lucinda reconheceu logo: um diamante. Foi preciso esvaziar uma caixinha de fósforo para a pedra caber dentro dela. À época, cerca de 30 anos atrás, a notícia correu rapidamente na cidade. O então prefeito Afrânio Augusto Figueiredo, pai do atual prefeito, Jéferson Figueiredo, viu a pedra na mão dela e recomendou-lhe cuidado porque “alguém podia me passar a perna”.
Resultado: ela conseguiu vender o diamante para um comprador de Patos de Minas “por um bilhão e meio, naquela época de inflação alta”, disse a mulher e com o dinheiro do diamante saiu da miséria e até hoje vive dos resultados obtidos com a descoberta e venda da pedra.
Do dia em que encontrou o diamante em diante a vida de dona Lucinda mudou da água para o vinho. Ela, crente em Deus, não tem a menor dúvida de que foi ouvida por Ele naquele dia e em todos os dias da sua vida cheia de gratidão.
Quando vivia na miséria, inclusive naquele dia em que pediu ao marido para comprar dois quilos de arroz e dois de farinha, ninguém no comércio de Grão Mogol quis vender-lhe nada porque não tinha dinheiro. “Um dos comerciantes que se recusaram veio depois oferecer mercadoria e me pedindo para comprar na mão dele pra ajudar ele e eu ajudei”.
Como a viúva de Sarepta dona Lucinda nunca mais passou necessidade. O marido morreu quatro anos depois de encontrado o diamante. Ela casou-se com um homem que cuida dela e é carinhoso, ao contrário do falecido marido, com quem se casou aos 12 anos de idade e teve nove filhos, sendo dois partos de gêmeos.
Hoje, ela vive em casa própria. Possui alguns lotes próximos das margens do Rio Itacambiruçu onde construiu uma casa modesta, mas confortável, para passar os fins de semanas. Diz-se feliz e grata a Deus por tudo, desde o nascer do dia ao fechar dos olhos para dormir à noite.
Há anos, ela ganhou uma Bíblia e a carrega para onde vai, mesmo não sabendo ler. O importante é que dona Lucinda tem plena consciência de que “estou com a palavra e levo a palavra de Deus”. Bem não sabe ela que a sua história é uma versão moderna da “viúva de Sarepta”.
O caso de dona Lucinda é exemplo de como a perseverança e a paciência na fé em Deus levam o ser vivente aos melhores resultados. Mais do que ele merece.


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Por Alberto Sena - 10/5/2014 16:03:46
Catando agulhas e alfinetes

Alberto Sena

Minha mãe morreu no Dia das Mães. Já contei isso outras vezes. Foi no dia 12 de maio de 1985. Não vou entrar no mérito do que a levou do meio de nós porque não vem ao caso. Dia das Mães é dia de alegria. Tristeza fora. Entendo que cada um tem o seu pretexto para deixar este plano de vida. Deve ser como atravessar o umbral duma porta.
Houve um tempo em que minha mãe exercitou o ofício de costureira. Era nas horas vagas, claro, porque com uma penca de filhos, ela dava conta de tudo e ainda costurava. Chegou a ensinar corte e costura quando a família morava na Rua São Francisco, quase esquina de Rua Corrêa Machado, em Montes Claros.
Corria o ano de 1957. A casa era recuada do alinhamento da rua, rua de terra. Na época do estio, poeira. No período das águas, lama. Os adultos reclamavam da poeira e da lama, mas a meninada não tinha do que lamentar, principalmente das chuvas. Era quando podíamos jogar finca.
Recordo-me como se tudo estivesse acontecendo agora. Moças e mulheres da vizinhança, gente conhecida de mãe tomava aulas de corte e costura lá em casa, geralmente depois do almoço, quando o sol parecia querer rachar o telhado colonial de tão quente.
As aulas eram dadas na sala de jantar. Era pequena a sala, como pude constatar mais de 50 anos depois, em recente incursão à casa antiga. Havia na sala uma mesa de madeira autêntica. Não era só a casquinha, como se fazem as mesas atualmente. Tinha dois bancos dos lados. Neles cabiam quase todos os filhos na hora do almoço e do jantar.
Quando chegava a hora da aula de corte e costura, mamãe retirava os bancos e punha em cima da mesa papel, moldes, fita métrica, tesoura grande de ferro – eu herdei a tesoura, está comigo até hoje – e um esquadro de madeira. As alunas ficavam dos lados e enquanto mãe ensinava como riscar moldes de papel, cortar, cerzir e depois costurar o menino ficava, como se diz hoje, “sapinhando”.
Como naquele tempo as crianças usavam jogar bolinha de gude, o menino ali ficava rolando no chão, piso de lajotas ouvindo as conversas e ao mesmo tempo aguardando o momento propício.
Inevitavelmente, no manuseio de papeis para moldes, corta aqui corta acolá, sempre caíam da mesa agulhas e alfinetes. E em dado momento, mãe me pedia para catar o que caía. Na impossibilidade de catar agulhas e alfinetes em pé, evidentemente eu tinha que ajoelhar no chão e me enfiar debaixo da mesa.
Essa era a parte excitante, enfiar-me debaixo da mesa. Naquela época, uma ou outra mulher usava calça comprida. O comum era usar saias ou vestidos. O tempo da minissaia ainda não havia chegado. Os vestidos e as saias geralmente iam abaixo dos joelhos.
Antes de chegar ao xis da questão, necessário se faz informar que era difícil a tarefa de catar agulhas e alfinetes no chão porque os danadinhos caíam entre as frestas das lajotas, o que tornava mais demorada a tarefa e tinha de ficar um bom tempo debaixo da mesa. Às vezes era necessário usar de um palito de fósforo para retirar agulhas e alfinetes das reentrâncias do piso.
A catação passou a ficar mais demorada ainda depois da descoberta da possibilidade de ver estrelas mesmo estando debaixo da mesa. Bastava olhar de soslaio elevando o mínimo o pescoço para não levantar suspeitas e apreciar estrelas multicoloridas.
Para um menino de seis sete anos, hão de convir, não era uma tarefa fácil catar miudezas debaixo da mesa. E ficaria ainda mais difícil ainda – como acabou ficando – se alguém descobrisse o porquê de tamanho interesse e empenho de um menino em catar um por um todos os alfinetes e agulhas do chão.
Naquela época não havia televisão. O rádio predominava em todas as casas. Lá em casa, por exemplo, havia um rádio grande, madeira escura por fora. Foi nele que ouvimos a seleção brasileira ser campeã do mundo em 1958, quando surgiram de fato os verdadeiros craques do futebol arte.
Chegou uma tarde em que o menino estava embevecido debaixo da mesa catando alfinetes e agulhas, vendo as estrelas coloridas, quando uma voz firme, de quem tinha realmente autoridade, disse peremptoriamente: “Saia debaixo da mesa”.
Era a linda voz da minha mãe. Ainda agora escuto a voz dela. E a vejo diante do fogão a lenha, em plena tarefa de fazimento do almoço, cantando: “Índia seus cabelos nos ombros caídos...”


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Por Alberto Sena - 5/5/2014 08:11:51
Saudade de Wander Piroli

Alberto Sena

Foi o amigo jornalista Ricardo Eugênio enviar mensagem de amizade no âmbito do Facebook para disparar uma avalanche de recordações da nossa vivência na década de 70, em Belo Horizonte. De cara bateu saudade enorme do editor de Polícia do jornal Estado de Minas, o jornalista e escritor Wander Piroli (1931-2006).
Nem sei mais quanto tempo não tinha notícia de Ricardo. A vida parece ser feita de caixinhas sobrepostas. Sempre que se bate com o condão, ao pronunciar a palavra mágica, abre-se a caixinha correspondente e então as recordações vêm. Foi o caso da mensagem do ex-colega de redação, numa época em que nós brasileiros vivíamos sob a ditadura militar. Hoje é uma democradura.
Ricardo trabalhava na Pesquisa do jornal comandada por Carlos Felipe. Naquela época, ele gostava (não sei dizer se ainda mantém o gosto) de pescaria, de cachaça e de curtir a beleza e a grandeza da Mãe Natureza; apreciava o Cerrado, porque nascido em Curvelo, lia e relia João Guimarães Rosa, e até levou o epíteto de Diadorim, dado por Paulo Narciso.
Com essas qualidades, Ricardo tinha muita amizade a Wander Piroli e a todos nós. E foi justamente por isso, a partir da mensagem por ele enviada, que me bateu saudade de Piroli. Ele era uma espécie de pai/mestre para os da sua equipe e em geral para toda a redação, naquela época em que as máquinas de datilografia ditavam o ritmo.
Wander era um camarada de um humanismo fora do comum. Bonachão, intelectual formado na Lagoinha, lá onde hoje estão os viadutos. Entre umas e outras doses de cachaça, quando moço, via navalhas cortarem os ares da boemia, num tempo em que Belo Horizonte mantinha boa qualidade de vida, e era bom gostar da cidade.
Os primeiros “menores abandonados” incursionavam nas ruas da capital e se o problema tivesse sido atacado com a devida seriedade, não estaríamos vivendo dias tão difíceis e violentos.
Wander, carismático, àquela época já havia lançado o seu primeiro livro, “A Mãe e o Filho da Mãe”, que era ele mesmo, de quando mergulhava nas noites da Lagoinha e a mãe dele ficava até tarde acordada esperando o filho chegar, comportamento natural de todas as mães e em todos os tempos.
Debaixo da mesa de Wander quase sempre havia uma garrafa de cachaça. Da garrafa de cachaça, com o tempo, ele passou a deixar debaixo da mesa um garrafão. “Quanto mais bebo melhor fico”, dizia Wander, mas evidentemente, ele sabia muito bem dos limites e mantinha a sobriedade.
Volta e meia os companheiros da redação faziam incursões à mesa de Wander. Havia até um copinho de café pronto pra quem quisesse se servir. Esse foi um período em que os jornalistas ganharam a fama de beberrões, o que não se confirma nos dias atuais.
Quando não estava atacado pela enxaqueca, que o obrigava a se refugiar em lugar escuro, porque, dizia, a dor era massacrante, ele pegava a tralha, reunia os amigos, Ricardo, Lincoln Gonçalves e outros e buscava os rios para pescar. Foi numa dessas investidas, em companhia do filho dele, Bumba, que Wander escreveu o livro “Os Rios Morrem de Sede”.
Ricardo deve se recordar muito bem disso. Um dia Wander resolveu levar o filho a uma pescaria. Pôs o menino no carro e foi pelas estradas afora buscando um rio a fim de tentar molhar as iscas. Resultado: não encontrou nenhum rio que pudesse ter água limpa pra pescar um peixe. Todos os rios ou estavam secos ou estavam poluídos.
Um dos feitos da Editoria de Polícia do Estado de Minas, sob a direção de Wander – e Ricardo vai se recordar disso – foi a condução do Caso Jorge Defensor, um operário que a polícia da época – governo do general Ernesto Geisel e Aureliano Chaves governador de Minas – torturou a tal ponto que da cintura para baixo ele não valia mais nada.
Durante mais de seis meses, todos os dias, Wander editou uma notícia a respeito do Caso Jorge Defensor, o que valeu a Tito Guimarães e a mim (Francisco Sterling e Geraldo Elísio, da editoria de Política entraram depois na cobertura, quando o caso estourou na Assembleia Legislativa de Minas Gerais) e Sidney Lopes, como fotógrafo, o Prêmio Esso de Reportagem de 1977. Pela primeira vez na história do prêmio, a Esso premiava a notícia.
Pode-se dizer, aquela foi uma época gloriosa, Diadorim? Foi gloriosa como gloriosas são todas as épocas de cada uma das gerações de viventes. A diferença era a ditadura militar que ruía e o Caso Jorge Defensor ajudou nesse processo com uma gota do seu sangue.


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Por Alberto Sena - 28/4/2014 08:14:23
Ressurreição de Ray Colares
aos 70 anos, em Grão Mogol

Alberto Sena

Foi uma noite memorável a de 25 de abril de 2014, na Casa da Cultura de Grão Mogol, onde se comemorou o aniversário do artista plástico grãomogolense, Raymundo Colares, que faria 70 anos se estivesse no meio de nós.
E em verdade, ao som de canções de seresta como “Amo-te muito”, interpretadas pelo Grupo Luar do Sertão, de Grão Mogol, ele esteve vivo no meio de nós nessa noite memorável, quando a artista Felicidade Patrocínio, do Ateliê/Galeria de Arte Felicidade Patrocínio, de Montes Claros, se lançou escritora com o livro “Raimundo Colares e o fogo alterante da criação”.
Ray Colares, como era chamado em Grão Mogol e em Montes Claros, para onde se mudou aos seis anos de idade com a família e iniciou a trajetória de sucesso como um cometa atravessa o Cosmo, era incompreendido como pessoa, e, talvez por isso, o fim dele foi trágico.
É possível que surjam vários artistas plásticos em Grão Mogol, depois da lembrança reavivada da memória de Ray, que parecia estar além do seu próprio tempo. Em meio aos presentes se encontravam alunos da Escola Estadual Professor Bicalho, que participaram de trabalho escolar sobre Ray, em exposição no salão da Casa da Cultura.
Os jovens fizeram uma releitura da obra de Ray, sob a coordenação do secretário de Cultura da Prefeitura de Grão Mogol, Rogério Figueiredo, e puderam, enfim, conhecer um dos filhos da terra que de fato se projetou no mundo como “um ícone da arte de sua geração, e um dos mais expressivos artistas da geração 60/70”, como bem definiu Felicidade Patrocínio, em palestra antes do lançamento do livro, para encanto da plateia atenta.
Ray fez arte que marcou forte e definitivamente o cenário das artes plásticas brasileiras. Praticava pintura geométrica “representando lances rápidos de ônibus em movimento”, enfatizou Felicidade, o que no entender dela “denunciava a velocidade como nova condição do mundo moderno”.
“O que causou deslumbramento no homem, transformando para sempre a sua percepção e o seu modo de viver”, segundo Felicidade, se pode verificar na arte de Ray, que se descortina numa “trama geométrica do movimento das metrópoles, o dinamismo do progresso”.
Ainda pequeno, em Montes Claros, Ray trabalhou na papelaria de Nice David. Ele estudou no Colégio Imaculada Conceição, no Grupo Escolar Gonçalves Chaves, no Seminário Diocesano e na Escola Normal. Pretendia cursar Engenharia, mas foi selecionado para uma bolsa de estudos em Salvador. Lá, ele pintou uma série de quadros denominada “Alagados”.
Salvador foi fundamental para Ray porque ele encontrou-se com o pintor moderno, Mondrian, holandês. Foi amor à primeira vista e ele se apaixonou “por aquele geometrismo puro, matemático, espiritual”.
Ray desistiu da faculdade e rumou para o Rio de Janeiro numa época em que o Brasil vivia atolado na ditadura militar, enquanto as artes “encontravam-se em ebulição, devido às transformações em todo o mundo”, frisou Felicidade. Ray foi então atraído pela pulsação do coração de nomes como Hélio Oiticica, Cildo Meireles, Antonio Dias, Antonio Manuel entre outros.
Ray foi então convidado para participar da exposição “Nova Objetividade Brasileira”, considerada um marco na história das artes brasileiras. Segundo a palestrante, quatro são as determinantes para se entender a arte do pintor em ascensão: “A vontade construtiva, a chegada ao objeto, a participação do espectador e a rebeldia”.
Daí em diante, em curto espaço de tempo, Ray foi selecionado para os melhores prêmios de arte do Brasil. Temperamento irrequieto, “ele inovou a arte que já era inédita, produzindo obras que buscam o tridimensional, com o uso de chapas de alumínio nas quais fez dobras e arrematou com esmaltes industriais”.
Ray ganhou o mundo. Estados Unidos, Europa, tendo vivido em Milão, na Itália, por 18 meses e depois foi para Trento, cidade que o fez lembrar Grão Mogol, porque montanhosa. Retornou ao Brasil e a Montes Claros onde se tornou professor de Arte no Conservatório Lorenzo Fernandez onde demonstrou a capacidade de encantar os alunos.
Ray viveu intensamente e em alta velocidade a vida, em intimidade com drogas e homossexualismo. Escreveu poemas como “O Bolero de Brooklin”, inserido por Felicidade no livro: “Caminhei por todas as ruas do mundo/ Mão nas mãos/ De mão, das mãos, da mão/ Mão na mão (...)”.
A arte de Ray, que em vida o fez grande pintor, a cada dia mais é reconhecida e celebrada, segundo destacou Felicidade, ao encerrar a sua rica dissertação sobre um dos mais importantes personagens nascidos em Grão Mogol.
Faz-se necessário realçar a profundidade do mergulho da autora na alma do artista, ao ponto de perpetuar o nome dele em livro para as gerações de todos os tempos, sob o patrocínio da Prefeitura de Grão Mogol.


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Por Alberto Sena - 21/4/2014 11:43:42
O homem da estátua

Alberto Sena

A alienação em relação aos acontecimentos cotidianos – e principalmente os acontecimentos históricos de passado remoto ou mesmo recente – é tão evidente, salta aos olhos. Isso se dá em toda parte. Montes Claros, cidade que incha em alta velocidade, não fica de fora.
Um exemplo? Quem é aquele homem retratado numa estátua de bronze elevada em plena Praça da Estação Ferroviária? Quem souber o nome dele levante a mão. Como ninguém levantou a mão, convém explicar às gerações de hoje e as futuras: aquela estátua soberba é de Francisco Sá, e certamente, ele ali está dizendo na sua mudez a seguinte frase muitas vezes usada em discursos de políticos: “Montes Claros, coração robusto do sertão”.
Francisco Sá foi o homem que trouxe a estrada de ferro pra Montes Claros. Pra quem chegou agora, é bom saber e informar depois aos seus: houve um tempo em que a cidade tinha trem de passageiros. O trem vinha de Salvador (BA), entrava por Monte Azul e vinha pra Montes Claros e rumava puxado por máquina Maria Fumaça pra Belo Horizonte.
Houve um tempo, conterrâneos, em que o transporte ferroviário privilegiava os passageiros e quem viveu essa época sabe por experiência própria o quanto era gostoso viajar de trem. O “Trem do Sertão”, um dos seus apelidos, seguia de Belo Horizonte ao Rio de Janeiro, transmudado em trem Vera Cruz. Era elétrico, chique pra dedéo.
Era no mínimo romântico viajar de trem naquela época, décadas de 50/60. Uma viagem de Montes Claros a capital demandava 24h. O trem saía da estação às 5h e seguia estrada de ferro afora sacolejando e repetindo o ruído das rodas, ferro sobre ferro, a cada mudança da marcha. Mas geralmente, desenvolvia determinada velocidade e a cantilena era a mesma por horas, levando muitos a se espicharem como podiam para tirar uma soneca. Uma soneca após a outra.
O trem chegava a Belo Horizonte às 5h do dia seguinte. Para as crianças, uma viagem dessa era pura diversão. O gosto pela contemplação da beleza da Mãe Natureza deve ter surgido pra muitos a partir dessas viagens inesquecíveis, tantas vezes despertadas pelo apito da memória daqueles tempos melhores, sem os perigos atuais.
O responsável por proporcionar essas viagens foi aquele homem retratado na estátua erigida na Praça da Estação Ferroviária, oficialmente chamada Praça Francisco Sá.
Francisco Sá nasceu no ano de 1862, na fazenda do Brejo, de Santo André, município de Grão Mogol. A fazenda, hoje, é o município de Francisco Sá, nome dado para homenageá-lo. Por aqui, informam os alfarrábios, ele foi mais importante do que o Barão de Grão Mogol, o coronel Gualtér Martins Pereira, que dominou a região no período colonial explorando as lavras diamantíferas.
Se se interessam em saber, Francisco Sá era filho do coronel Francisco José de Sá e neto de Francisco José de Sá, conhecido pelo epíteto de Sá Velho.
Esse homem que é visto no pedestal, no meio da praça, chamando a atenção dos que vêm pela avenida, a partir do olhar atento, foi deputado provincial (1888 a 1889); deputado geral em 1889, deputado federal de 1897 a 1905. A partir de 1906 a 1930, ele foi senador. Morreu em 1936, no Rio de Janeiro.
Francisco Sá foi secretário de Estado da Província do Ceará; secretário de Agricultura de Minas Gerais; diretor do Serviço de Terras e Colonização no governo Afonso Pena; ministro da Viação e Obras Públicas em dois governos, Nilo Peçanha e Artur Bernardes. Em sua gestão se construíram mais de dois mil quilômetros de ferrovias no Brasil, inclusive a ligação ferroviária entre Minas Gerais e a Bahia.
Quem viveu os tempos das viagens de trem, como o amigo Flávio Pinto e a prima Geralda Magela Sena, saberão dizer e escrever melhor a respeito de tema tão atraente. O que fizeram com a ferrovia brasileira foi no mínimo uma estupidez e descaso com as verbas públicas, que por serem públicas, são para uso em infraestrutura e para a construção de cidadãos e cidades para o bem-estar e felicidade geral, não de “cada uns”.
O mais racional seria investir em ferrovia e rodovia concomitantemente. Juscelino Kubistchek, responsável por trazer para o Brasil a indústria automobilística, não teve a visão demonstrada por Francisco Sá. A ferrovia continua como solução de transporte de massa. Utilizam-se dela os governos que querem e são previdentes. As rodovias e os carros de modo geral cada dia mais se tornam ameaça à vida no planeta.


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Por Alberto Sena - 17/4/2014 15:12:28
Criado o GAV de Grão Mogol
(Grupo Amigo e Vinho)

Alberto Sena

Segunda-feira à noite, 14 de abril, foi criado em reunião realizada no Hotel Paraíso das Águas, de Grão Mogol, o GAV – Grupo Amigo e Vinho. Com características próprias, semelhantes aos ares europeus, Grão Mogol tem clima adequado à introdução do bom hábito de tomar vinho, bebida que requer cerimônia e certo conhecimento das espécies de uvas para bem apreciá-la.
A partir da maneira correta de abrir e segurar na garrafa para servir, passando pelo modo adequado de pegar na taça – nunca como se segura um copo – mas na haste fina e longa à harmonização da bebida com a comida certa para cada tipo de vinho – tinto, branco e rose, tudo isso e muito mais o economista e sociólogo Lúcio Bemquerer demonstrou aos participantes durante pouco mais de duas horas, na reunião introdutória do GAV de Grão Mogol.
Vinho é um caminho sem volta, explicou Bemquerer aos participantes. Eles e outros, vão se reunir daqui pra frente uma vez por mês a fim de degustar vinhos e falar sobre a bebida.
Em volta de uma mesa, durante a reunião no auditório do Hotel Paraíso das Águas, veio revelação surpreendente: os primeiros sinais da existência de possíveis parreirais selvagens datam de 68 milhões de anos. Muito, mas muitos anos antes do surgimento da Humanidade.
Sem dúvida, a criação do grupo vai estimular os comerciantes de Grão Mogol a oferecerem carta de vinho diversificada. O fato de a cidade estar rodeada de serras do maciço do Espinhaço, o que lhe confere microclima peculiar, é um convite a abrir uma garrafa de vinho.
Mas vinho de qualidade, de preferência originário da França, Itália e Espanha, mas também de países da América do Sul, como Argentina, em quinto lugar no ranking mundial da produção de vinhos, e do Chile. A produção brasileira de vinho ocupa a 13ª posição no ranking.
Vinho pede companhia. E segundo dizem os entendidos, “vinho não é bebida, mas alimento”. É muito diferente de cachaça e cerveja. Ninguém toma vinho em copo tipo lagoinha e muito menos ainda em copo de plástico. Vinho não se joga pra dentro como se faz com cachaça ou como de quase um gole se toma o primeiro copo de cerveja.
Numa roda de mesa regada a vinho, normalmente os partícipes têm a oportunidade de conversar pessoalmente uns com os outros, o que nos últimos anos tem sido difícil devido à introdução de um aparelhinho chamado “smartphone” que deixa muita gente de cabeça baixa a dedilhar mensagens frias porque virtuais. Vinho sugere calor humano.


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Por Alberto Sena - 14/4/2014 08:15:42
Ele brotou das raízes do Cerrado

Alberto Sena

Teófilo.Téo.Tiofin. Tiofo. São quatro (ou mais) pessoas numa só. Téo Azevedo, nascido em Alto Belo, município de Bocaiúva, personagem grande na sua simplicidade, é um exemplo de sertanejo que lutou, lutou e lutou. Sofreu, sofreu e sofreu. Mas venceu. A influência dele já era tanta, décadas atrás, que resgatou o nome da sua terra natal, Alto Belo, inadvertidamente substituído por “Pires e Albuquerquer”.
Téo vence todo dia. Entende que cada dia basta em si mesmo. Importa é o aqui, agora. O passado passou e dele ele escuta o eco como se ouve o som do berrante ao longe. O futuro depende do que ele fizer e faz, neste instante, neste dia.
Em pinceladas rápidas, como diria Ray Colares, que se vivo fosse completaria 70 anos e embora esquecido no final da vida, agora recebe homenagens mil (Ray nasceu em Grão Mogol e foi revelado quando a família vivia em Montes Claros, na esquina das ruas Dr. Santos com Dom Pedro II), Teófilo, Tiofin, Tiofo, Téo as quatro pessoas num só Azevedo, comeu o pão que o saci assou. Mas venceu na vida como poeta, repentista, escritor, ganhador do disputado Grammy.
Ele é um exemplo de homem que não se deu por vencido pela rudeza da vida. O seu exemplo veio de berço, o pai, Teófilo tanto quanto ele era um homem de vários instrumentos. Téo se recordou como se tudo estivesse reacontecendo, o dia em que experimentou pela primeira vez a viola do pai, sem autorização dele. Apanhado em flagrante, ele tremeu nas bases, segundo disse a Michelly Oda e Fred Mendes, da revista Tempo.
Conheci Téo Azevedo em Viçosa, cidade que foi uma espécie de refúgio para os dias do ano de 1977/78, quando o operário Jorge Defensor foi torturado em Belo Horizonte e abandonado no Hospital São Francisco quase morto. Era prudente sair de cena porque a impressão era a de que mil olhos vigiavam os passos em busca de um momento certo para promover retaliação (soube depois que haviam programado pra mim “um atropelamento”).
Como homem de folclore, autodidata, repentista já famoso, tanto quanto Caxangá, que nos tempos da Rádio Guarani Onda Rural, apresentava um programa e se intitulava “O Maior repentista do Brasil”, Téo defendia e ainda hoje defende o pequizeiro como “o Esteio do Cerrado”.
Naquela época, na Universidade Federal de Viçosa, em Viçosa, o campus universitário era uma maravilha. Foi lá onde nasceu Matheus, o meu segundo filho, músico, cantor, compositor e produtor musical. Ele nem chegou a conhecer a cidade. E se eu voltei lá um dia foi uma só vez. Não sei como está hoje a cidade, mas posso dizer por oitiva, perdeu em qualidade de vida.
Outros contatos eu tive com Téo Azevedo, principalmente quando editava Meio Ambiente no jornal Estado de Minas. Na ocasião, o jornal publicava uma série de reportagens denunciando a devastação dos nossos rios, começando pelo Jequitinhonha, agredido pelo garimpo de diamantes, entre outros rios, terminando com as agressões ao Rio São Francisco.
Nós – Téo, eu e outros – sabemos que não é por falta de alertas e denúncias que os rios mineiros, principalmente estão morrendo de sede, como já dizia na década de 70 o jornalista e escritor Wander Piroli. Ele publicou um livro dirigido às crianças de cinco a 150 anos de idade, intitulado: “Os Rios Morrem de Sede”.
Com isso se quer dizer que se corremos o risco de ficarmos sem água pra beber – o São Francisco está seco na altura de Pirapora – não é por falta de alertas e denúncias, como foi dito acima. A culpa está em cada um de nós e principalmente das autoridades constituídas, que se curvam ao poder econômico e até ajudam a poluir os rios com esgoto urbano in natura.
Antes, pelo menos um mês antes de Téo ter sido surpreendido com o Grammy Latino, o Oscar da Música, eu o encontrei no Café Galo, em Montes Claros, e na ocasião, fui presenteado por ele com alguns CDs de sua autoria, entre os quais o “Salve Gonzagão, 100 anos” que lhe deu o prêmio.
Nunca vi premiação mais justa. Quando se vive em mundo onde as injustiças são vistas nas quatro direções, uma premiação desta a um justo e competente artista brotado em Minas das raízes do Cerrado (que se vai sendo devastado pela improbidade humana), é um sinal.
Nem tudo está perdido quando se cultiva Esperança, a Mãe da Fé.


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Por Alberto Sena - 10/4/2014 14:55:46
Um jegue profano e religioso

Alberto Sena

Aqui, perto de casa, em Grão Mogol, onde o sossego é uma das principais características do lugar, vive um jegue, jumentinho chamado. Dizem que ele zurra a cada hora do dia. O relógio dele seria infalível, afirmam. Até nome o animal tem. Chamam-no de “Jegue Elétrico”.
Ele vive entre o profano e o religioso. Profano, quando o jegue desfila nos dias de carnaval, o que acontece já faz três anos. Religioso, porque na procissão do Domingo de Ramos, durante a Semana Santa, ele sai à frente dos fieis montado por uma criança, enquanto o dono dele, o velho Juca, segue lhe segurando as rédeas a fim de evitar eventuais surpresas patrocinadas pelo animal.
Que o jegue, coitado, sem entender patavina do que se passa vive entre o profano e o religioso, é verdade. Mas que ele zurra impreterivelmente a cada hora do dia, é inverídico. Em realidade, o pobre do animal zurra toda vez que o velho Juca se aproxima para lhe fazer algum agrado. E esse agrado não acontece pontualmente a cada hora do dia. Pode ser duas vezes, três vezes, a cada hora e então o jegue zurra tão alto que quase toda a população de Grão Mogol escuta.
Tive a curiosidade de marcar no relógio cada vez que o jegue zurra. Tirei a prova dos nove fora e posso dizer sem medo de errar que tudo não passa de balela. Primeiro porque o relógio biológico do jegue não tem nada de pontual. Toda vez que o relógio da matriz de Santo Antônio, toda de pedras à semelhante das pedras “são Tome”, badala para anunciar o passamento de mais uma hora, o jegue permanece mudo.
Fui ontem à casa do velho Juca a fim de buscar informações fidedignas a respeito do jegue. Contou-me ele que o animal está no quintal da casa dele, cheio de pedras, mangueira e capim misturado a várias garrafas PET vazias há cerca de três anos. É um jegue novo. Dá pra perceber isso só de olhá-lo. É um animal bonito. E o fato de ele zurrar com frequência, acaba virando mote para as mais controvertidas brincadeiras e conversas preconceituosas.
Uns dizem que o jegue zurra quando está excitado e apresenta um badalo maior do que o do relógio da igreja. O que não é verdade. Acredito mais no que diz o dono dele. Juca afirma que o jegue veio do Barrocão, distrito de Grão Mogol. Veio para ocupar a vaga de outro jegue que viveu no quintal do Juca por mais de 20 anos. O animal morreu de velho. Fazia as mesmas coisas que o atual faz, vivia entre o profano e o religioso.
Para comprovar que o animal zurra devido aos seus agrados, o velho Juca retirou uma moita de capim com as próprias mãos calejadas e atirou-a na direção do jegue e ele zurrou legal. Mais que depressa comeu o capim e ficou lá em atitude expectante esperando sei lá o quê. Grão Mogol tem dessas coisas. Até um jegue vira motivo de brincadeiras nem tão maldosas assim. Nada passa despercebido.
No próximo domingo, quando mais uma vez a Igreja Católica realiza a Procissão do Domingo de Ramos, o animal será usado. E se ele empacar no meio da caminhada, quem já viu um bicho deste empacar, sabe, será um Deus nos acuda. Há quem diga as maiores ignomínias em relação ao desempacamento de jegue. Não dá nem pra citar aqui um exemplo, principalmente em ambiente onde há crianças e senhorinhas. A menos cruel de todas é empurrar o bicho, como se empurra uma forreca ano 1930, por trás, cuidando para não levar um coice.
Essa história de jegue faz lembrar a do velho Germiniano, que viveu em Montes Claros, na década de 50. Ele tinha um animal desse e quando o bicho zurrava, era a mesma coisa de ouvir o jegue chamar o dono pelo nome, badalando o badalo: “Germiniano...hum, hum, hum... Germiniano...”
Se durante o carnaval o “Jegue Elétrico” eletriza os foliões, tornando-se uma das maiores atrações, durante a Procissão de Ramos, com todo o respeito, não é diferente. No carnaval, ele é ornamentado com os apetrechos características do reinado de Momo.
Durante a procissão, a postura do jegue é respeitosa condizente com a ocasião, para lembrar aos fieis e aos infiéis o momento em que Jesus entrou em Jerusalém triunfante na sua humildade montado num exemplar da raça, enquanto os seguidores gritavam: “Osana, Osana, Osana ao Filho de Davi”.


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Por Alberto Sena - 7/4/2014 08:30:20
As raízes do Barão de Grão Mogol

Alberto Sena

O Barão de Grão Mogol, coronel Gualtér Martins Pereira tinha 64 anos quando os ex-escravos o sepultaram nas terras da propriedade dele, fazenda Santa Angélica, município de Rio Claro (SP), em 1890. Para a baixa expectativa de vida, naquela época, ele viveu bastante. Mas viveu quase a vida toda em Grão Mogol, tendo nascido em 1826, nas terras da fazenda Santo Antônio, cujo nome foi mudado para Cafezal.
O título de barão, ele o recebeu de Dom Pedro II, aos 53 anos de idade, meio a contragosto, porque era republicano. E teria deixado Grão Mogol, depois de vendida a fazenda Cafezal, em 1880. Considerando que ele morreu em 1890 viveu só dez anos em Rio Claro, onde cultivou café.
VULTO HISTÓRICO
O barão era neto de Antônio Martins Pereira e de dona Francisca Martins Pereira e filho legítimo de Caetano Martins Pereira e de dona Josepha Carolina Dias Bicalho. Casou-se com dona Emília Martins Pereira, tendo o casal os filhos Sérgio, Matilde e Orlinda.
O barão foi um dos vultos mais importantes do sertão mineiro e chefe do partido Liberal, em Grão Mogol. Foi presidente da Câmara Municipal, em 1861, e, seguidamente, vereador (ele foi também presidente da Câmara Municipal de Rio Claro).
BATALHÃO
O coronel Gualtér organizou o 7º batalhão de Voluntários da Pátria, em 1865, para lutar na Guerra do Paraguai, no qual incluiu quatro de seus irmãos, vários parentes e escravos da fazenda Cafezal. Os escravos receberam a promessa de liberdade após o conflito. Ele não acompanhou o batalhão até a área de guerra. Conduziu-o ao Rio de Janeiro, fardado e armado à sua própria custa, o que lhe valeu os brasões de Barão de Grão Mogol.
O fato de o barão ter vivido mais de meio século em Grão Mogol justifica plenamente o traslado dos restos mortais dele para a terra natal. O túmulo dele estaria abandonado em meio a um canavial, em Rio Claro.
Em realidade, o barão ainda não recebeu de Grão Mogol, de Minas e do Brasil o reconhecimento dos serviços prestados numa época de transição do regime monárquico para o republicano. E também pelas ideias abolicionistas. Muito antes da Lei Áurea, o barão já libertava escravos. Três meses antes de princesa a Isabel assinar a Lei, ele libertou todos os seus escravos.
PEDRAS FALAM
A não ser a Serra do Itacambiruçú com o seu nome e a trilha de 15 quilômetros nada mais há que lembre o nome do barão em Grão Mogol. Entretanto, até as pedras falam dele na cidade e clamam pelo nome dele.
Gualtér tinha como irmãos João Batista Martins Pereira, Emígdio Martins Pereira, Pedro Martins Pereira, Maria Vicência de Oliveira Martins e Ramiro Martins Pereira.
Segundo registra Manuel Esteves, no livro de capa vermelha intitulado Grão Mogol, no Arquivo Nobiliário Brasileiro, organizado pelos barões Vasconcelos e Smith de Vasconcelos, editado em Lausanne, em 1918, “repositório do brasonário nacional, nele não encontramos o brasão de armas dos Martins, de Grão Mogol”.
Esse registro de Esteves gera especulações, como por exemplo: será que o fato de ele ter recusado o título dado por Dom Pedro II, no primeiro momento, tendo sido quase que obrigado a aceitá-lo teria desgostado o rei ao ponto de ele próprio não ter levado a honraria a sério? Será que o título foi só de boca?
Na hipótese do coronel Gualtér não ter sido barão de direito, o foi de fato, tanto é que o título se incorporou ao nome. Ele foi considerado “um homem bom”, ao contrário do que circula em certas publicações encontradas na internet. Rico, com prestígio na corte de Dom Pedro II, ele abriu o mercado brasileiro para trabalhadores das Ilhas Canárias, quando vivia em São Paulo.
PARENTES
Pessoalmente, não conheço nem tenho notícia da existência de sequer um parente direto do barão, que segundo a lenda teve 78 filhos, sendo a maioria deles com escravas. Conta o professor Geraldo Fróis que ele dividiu a fortuna em partes iguais para ele, a mulher e os filhos. A parte do barão, ele próprio teria dividido com os escravos. E mais: em vida, teria reconhecido 15 filhos com escravas.
Mas estou desconfiado de que conheço pelo menos um descendente do barão, considerando o sobrenome Martins. Ele é conhecido de muita gente pelo texto impecável, crônicas e artigos publicados em jornais como “Estado de Minas” e “Hoje em Dia”. E pelos livros escritos. Sebastião Martins é o nome dele, cujas raízes estão fincadas em Grão Mogol. Tem tudo pra ser parente do barão.


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Por Alberto Sena - 2/4/2014 09:55:33

Restos mortais do Barão
poderão ser trasladado
para Grão Mogol?

Alberto Sena

Os restos mortais do Barão de Grão Mogol, coronel Gualtér Martins Pereira poderão ser trasladados de Rio Claro (SP) para a sua terra natal? Esse personagem importante da história brasileira nasceu em 1826, na fazenda Santo Antônio, Grão Mogol, e até hoje o nome dele exerce fascínio nos grãomogolenses.
É possível o translado dos restos mortais do barão? Há quem defenda isso em Grão Mogol, mas pede anonimato, sabendo que é necessário haver o interesse da sociedade e tomada de atitude por parte da Prefeitura Municipal. O barão morreu em 15 de julho de 1890, em Rio Claro e o corpo foi sepultado nas terras dele, na fazenda Angélica.
Atribuem aos ex-escravos a feitura do túmulo, em homenagem póstuma ao barão. A sepultura foi encontrada recentemente num canavial, nas antigas terras dele. Levando-se em conta que o barão era grãomogolense, trasladar os restos mortais dele para Grão Mogol é possível e quem conseguir isso marcará um tento importante. A iniciativa ganhará a mídia nacional.
CUIDADOS
Em Grão Mogol, o barão seria reverenciado e os restos mortais dele bem cuidados, acreditam os que defendem o traslado. Afinal de contas, ele nasceu e viveu em Grão Mogol meio século. Há, aqui, a trilha que leva o nome dele, de 15 quilômetros. Em toda a cidade há sinais do barão, título dado a ele por Dom Pedro II ainda vivendo nesta terra onde cantam sabiás e vários outros tipos de pássaros; dotada de serras em derredor para encanto de quem tem olhos de contemplar.
O nome do barão de Grão Mogol tem poder. E se for levado em conta o quanto ele usufruiu da região durante tanto tempo, agora, mais de 120 anos depois, Gualtér Martins Pereira poderá influir, em favor de Grão Mogol, perante as autoridades brasileiras, para que conheçam e valorizem as belezas e a história impregnadas nas pedras. Pedras que falam e formam figuras humana e animal as mais estranhas.
ATRAÇÃO
A Trilha do Barão de Grão Mogol é uma sensacional atração numa região dotada de diversos atrativos, como o maior presépio perene e a céu aberto do mundo, Mãos de Deus chamado. Se bem divulgada, e se na trilha for realizada obra de infraestrutura de apoio, uma delas ali pela altura da gruta do Quebra Coco (7,5 km), para receber os turistas afeitos às caminhadas, a trilha tudo tem para vir a ser percorrida por brasileiros e estrangeiros aficionados, ganhando ainda mais fama nacional e internacional.
Os grãomogolenses precisam valorizar o que têm ao redor da cidade. O potencial turístico é enorme. À medida que as pessoas forem descobrindo os atrativos desta terra construída sob o poder do diamante, as perspectivas de Grão Mogol se abrirão como um leque.
POTENCIAL
O potencial turístico poderá gerar mais empregos e movimentar ainda mais o comércio da cidade, que dispõe de acomodações de boa qualidade, como o Hotel Paraíso das Águas e pousadas.
Nas grandes cidades a cada dia mais as pessoas estão enfaradas da vida agitada, de ruas entupidas de gente e de carros, além dos problemas socioeconômicos e de segurança pública.
Grão Mogol possui a síntese de tudo de bom para quem quer viver com qualidade: ar puro, não tem chaminés de fábrica nem trânsito intenso de carros ao ponto de infestar as ruas e as casas de monóxido de carbono.
COSTUMES
Em Grão Mogol não há semáforo. Por onde as pessoas andam a pé (ou de carro), dentro ou fora da cidade as paisagens são lindas. Há segurança pública. Quase todos os habitantes se conhecem. O costume antigo de portas e janelas abertas ainda é mantido. Quase todas as casas têm quintal. E cada quintal tem pomar com manga, pinha, fruta do conde, graviola, fruta-pão, carambola, pêssego, entre várias outras.
Nesse conjunto de atrações, a Trilha do Barão de Grão Mogol tem um apelo forte que não está sendo explorado o suficiente. O nome de Gualtér Martins Pereira possui potencial histórico, político, (era republicano) e folclórico, que colaram nele como grude. Resta usar a fama dele em benefício da terra onde ele nasceu
E tudo parece concorrer para o translado do barão, porque o túmulo dele, no município de Rio Claro (SP), estaria abandonado em meio a um canavial.
HISTÓRIA
Quem percorre a Trilha do Barão, de 30 quilômetros, ida e volta, faz um percurso histórico de mais de 300 anos, numa época em que Grão Mogol recebia gente de quase todas as partes do mundo devido ao interesse pelo diamante. Pela trilha homens e animais sem conta transitaram antes, durante e depois do barão, cujo nome ficou na história.
Além da singular paisagem, a trilha em si, cheia de obstáculos porque feita de pedras, é um atrativo para quem já fez caminhos famosos, como o de Santiago de Compostela, na Espanha; Caminho de São Francisco de Assis, na Itália e Caminho da Fé (MG/SP).
Claro, não se pode comparar a Trilha do Barão com nenhum dos caminhos citados porque é de curto percurso. Mas pode ser projetado como dos mais acessíveis para os aficionados por caminhadas. Eles não iriam precisar ir longe buscar um percurso de lindas paisagens que levam o caminhante a se sentir realmente vivo e agradecido a Deus pela vida.
Por outra, a Trilha do Barão de Grão Mogol poderia ser divulgada como um lugar para preparação das pessoas que estiverem com a intenção de fazer algum dos caminhos mais famosos, como os já citados, incluindo a Estrada Real, de 1.200 km, de Diamantina até Parati, no Rio de Janeiro.


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Por Alberto Sena - 28/3/2014 08:46:09

Memória do Barão de Grão Mogol pede resgate

Alberto Sena

O memorialista Geraldo Ramos Fróis se encontrava em Grão Mogol sentado à mesinha do escritório do viveiro de mudas de plantas diversas, alegria maior dele, instalado na Rua Hilário Marinho, em frente ao Presépio Mãos de Deus, quando foi instado a contar sobre a vida do Barão de Grão Mogol, Gualtér Martins Pereira, importante personagem da história do Brasil, cuja memória devia ser conhecida e destacada.
Fróis, de 77 anos, discípulo da grande educadora Helena Antipoff, retirou os óculos escuros resultantes de uma cirurgia nas vistas, pensou sobre o que ia responder e começou a falar do barão a partir de quando o pai dele, Caetano Martins Pereira comprou uma fazenda chamada Santo Antônio, cujo nome foi mudado depois para fazenda Cafezal (veja foto da sede) onde o barão nasceu e viveu cerca de 50 anos. Depois ele se mudou, em definitivo, para o interior de São Paulo.

HOMEM BOM

“Gualtér Martins Pereira era um homem bom, mantinha mais de 100 escravos, mas tinha espírito humanista, abolicionista, tanto que três meses antes da Lei Áurea, libertou todos os escravos”, afirma Fróis. Ele foi juiz de direito de Rio Pardo de Minas, Vale do Jequitinhonha. Quando foi assumir o posto de juiz, encontrou um homem condenado à morte. Anulou o julgamento, fez outro e o condenou à prisão perpétua. Poupou-lhe a vida.
O barão teria feito um acordo com os escravos, para calçarem a trilha de 15 quilômetros, da fazenda Cafezal até Grão Mogol. Dos diamantes encontrados no percurso 30% seria dele e 70% dos escravos. “Quando vinha a Grão Mogol, o barão ficava na casa onde hoje funciona a Secretaria Municipal de Turismo, na Praça Coronel Janjão”, ao lado da Rua Cristiano Relo, historicamente denominada Rua Direita. Foi ele que, usando a mão de obra escrava, tornou a trilha menos perigosa.
“O barão ia e vinha a Grão Mogol a pé ou a cavalo; não havia liteira”, assegura Fróis, e continuou puxando o fio de uma meada histórica não devidamente apurada, registrada e valorizada e que agora corre o risco de desaparecer como a casa dele na fazenda Cafezal desapareceu sem deixar vestígios, a não ser uma pintura, que pode muito bem ser chamada de relíquia.
Aconteceu ao barão de três escravos fugirem. Dois a três meses depois reapareceram. Foram acolhidos e ele lhes disse: “Vocês já estão castigados por terem voltado e se humilhado”.
A Casa da Cultura, na Rua Hilário Marinho, no Centro Histórico, toda de pedras, foi ele quem mandou construir para servir de hospital. O irmão dele estudava Medicina e ao se formar teria um lugar para clinicar. Funcionou como Santa Casa, sob uma condição: “Quem não tiver como pagar receberá tratamento gratuito”.

RECUSA DO TÍTULO

Com patente de coronel, Gualtér recusou o título de barão dado por Dom Pedro II, por ser republicano, mas o rei não aceitou a recusa. Eles teriam trocado algumas palavras, nesses termos:
- Majestade não faço jus ao título de barão, tenho ideias republicanas.
Respondeu Dom Pedro:
- Não agracio a um homem de ideias republicanas, mas um grande brasileiro.
O coronel Gualtér foi elevado a barão porque organizou o 7º Batalhão de Voluntários da Pátria, em 1865, para lutar na Guerra do Paraguai, ao qual incluiu quatro de seus irmãos, vários parentes e escravos da fazenda Cafezal e de Lençois (BA), onde mantinha negócios. Eram cerca de 200 pessoas ao todo e as levou, fardadas e armadas à sua própria custa. O ato chamou a atenção de Dom Pedro II, que lhe concedeu o título de barão. Aos escravos, ele prometera liberdade. Mas não se sabe se algum voltou vivo da Guerra do Paraguai pra contar a história.

LÁUREA DEVIDA

“O barão ainda não mereceu da história pátria a devida láurea pelos serviços que prestou ao Brasil, a não ser o batismo da Serra do Itacambiruçú com o nome de Serra Barão do Grão Mogol”, registrou o escritor Mário Martins de Freitas, em 1957, no livro “O Município de Grão Mogol”. Livro que nem conseguiu publicar. Morreu.
“O barão gozava de alto conceito na corte de Pedro II, não fez curso superior, era destemido, teve 78 filhos”, conta Fróis, limpando os óculos escuros na camisa. A maior parte dos filhos com escravas.
Depois de ajeitar os óculos, agora limpos, e o boné na cabeça, Fróis se lembrou do “sério desentendimento do barão com um padre na hora de batizar uma sobrinha dele”. O padre perguntou:
- Qual o nome da criança?
O pai respondeu:
- Aurora.
O padre redarguiu:
- Com esse nome eu não batizo.
Ao que o barão interveio juntando as botas:
- Em nome não se mexe. Batiza-se.
E enquanto o padre saía da igreja o coronel barão aspergia a cabeça da criança com água benta.
- Está batizada – disse.
O barão saiu da igreja com ganas de pegar o padre pelo pescoço. A recusa estaria ligada ao fato de “Aurora” ter relação com a Marçonaria.

PEDIDO DO BARÃO

Outro amante de Grão Mogol sabedor do saco de bondades do barão é o administrador de empresas Geraldo Gonçalves. Nascido em Florestal (MG), na região metropolitana de Belo Horizonte, ele é ex-funcionário do Banco do Brasil e trabalhou como gerente na agência de Grão Mogol, no período de julho de 2002 a janeiro de 2006.
Segundo Gonçalves, “pelas histórias ouvidas sobre o barão, creio não ter havido tanto sofrimento e nem chibatadas na construção da trilha, pois de acordo com estudiosos do assunto, o barão era muito bondoso com seus escravos e até pediu, em vida, que o enterrassem no mesmo cemitério em que foram enterrados seus escravos”.
Baseando-se nessa versão sobre a bondade do barão, Gonçalves considera “muito difícil que tenha feito o uso da chibata e que tenha sido carregado em liteira pelos escravos”. Mas não nega a possibilidade de ter havido “sofrimento”. E completa: “Pode ter havido sim, devido à natureza do serviço e da falta de técnicas próprias naquela época”. (Leia na próxima inserção o possível traslado do corpo do barão, de um canavial de Rio Claro (SP) para Grão Mogol, sua terra natal).


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Por Alberto Sena - 25/3/2014 14:13:28
Viagem no tempo pela Trilha do Barão de Grão Mogol (1)

Alberto Sena

Iniciamos a caminhada pela Trilha do Barão de Grão Mogol às 8h de domingo, 14 de março. Andamos 10 horas seguidas, entre ir e voltar, retornamos às 18h. A ida é mais agradável do que a volta. Em certo trecho, na volta há um aclive bastante acentuado, cansativo devido a inclemente subida. Fez-nos sentir na própria pele um pouco do sofrimento dos escravos, obrigados a levar o barão e os membros da sua corte em liteiras.
Sacamos fotos, muitas. Aproveitamos para retirar algum lixo deixado por cavaleiros que fizeram recentemente a “I Cavalgada Ecológica”. Eram papeis de bala doce, lata de cerveja, de refrigerante, garrafinhas de plástico e ferraduras deixadas pelos animais na acidentada estrada feita pelos escravos de Gualtér Martins Pereira, o Barão de Grão Mogol, cuja história será contada na próxima inserção.
EXPERIÊNCIA
A trilha é quase toda de pedras. São pedras naturais e pedras acrescentadas pelos escravos, principalmente nas partes mais dificultosas. Nem toda pessoa é capaz de fazer a trilha. É necessário ter experiência de andar grandes distâncias. Vencer os 30 quilômetros de ida e volta pela Trilha do Barão pisando sobre pedras irregulares, não é tarefa fácil.
É importante ficar de olho em tudo, prestar atenção para não torcer os tornozelos nas pedras, ficar atento para o caso de surgir uma cobra. Ali é o habitat principalmente de cascavel. E ao mesmo tempo não perder sequer um instante de contemplação da beleza cênica vista ao redor. É tanta beleza que dá a impressão, Deus demorou um pouco mais para fazer tudo aquilo.
As pedras da Trilha do Barão falam. E como falam. Gritam, até. Dos acontecimentos históricos registrados nos anais do tempo, ouvem-se muitos ais, ruídos de chibatas e de ossos quebrados nas quinas das pedras. Elas estão impregnadas de sinais e do magnetismo do lugar.
PERIGOSA
É possível enxergar com os olhos da alma os escravos levando em liteiras, o barão e a sua corte, por trilha sinuosa, cheia de obstáculos, perigosa, muito mais perigosa do que nos dias atuais. Podem-se encontrar no percurso até os espectros dos escravos mortos na difícil tarefa de calçamento da trilha, muitos carregando pedras nas costas sob os estalos das chibatas.
Deduz-se que a trilha do Barão é marcada pelo sofrimento. Supõem-se, escravos sem conta morreram ali para satisfazer os caprichos e os desejos do barão por mais comodidade. A mais ou menos um quarto da trilha, indo da cidade para o interior, se pode encontrar a Gruta do Quebra Coco, onde os escravos fugitivos se homiziavam. É uma gruta grande, linda. Quem passa nem desconfia da existência dela. Ali, muitos escravos viveram a liberdade. Só quem conhecia o lugar encontra a entrada coberta de mato. Dizem, há lá uma arca cheinha de diamantes enterrada pelos escravos.
Em realidade, a Trilha do Barão é cheia de lendas e histórias. A maioria delas corre oralmente, de boca em boca. Se não tiver uma manutenção, a trilha aos poucos irá se perder como se perdeu muito da biografia do barão, homem rico, poderoso, controvertido.
TÍTULO
Segundo o guia turístico Paulo Henrique da Silva, Gualtér Martins Pereira era republicano e não teria aceitado do rei o título de barão. Mesmo sem aceitar, ele o aceitou, pois o título colocou nele como se tivesse grude.
O máximo encontrado em meio às pedras foram lagartixas assustadas com a nossa presença. Na volta, muitas baratas grandes saíam por entre as pedras ao cair da tarde. Vimos gaviões plainando como avião planador. Mas não assistimos nenhum “looping” deles em busca duma presa.
Antes de nos embrenharmos pela trilha tivesse o cuidado de repetir, três vezes, a oração de São Bento. “São Bento proteja-nos contra bicho mal peçonhento...”
A paisagem é indescritível. De cima das pedras, divisando o encontro do horizonte com o céu, o único pensamento é o de gratidão a Deus por ter nos dado um planeta maravilhoso para vivermos. As pedras falam e ganham formatos vários, dependendo do olhar de cada um.
Embora jovem, o guia Paulinho demonstrou saber muito a respeito da trilha, do barão e das belezas encontradas em Grão Mogol. Ele é estudioso da história local e se vai aprimorando cada dia mais. Entretanto, o guia afirmou que a história de Grão Mogol está muito mais lá fora, em mãos estrangeiras, do que dentro do município.
Os grãomogolenses pouco sabem a respeito da sua história, encontrada na memória de alguns poucos homens, entre os quais Geraldo Frois e Bicalho, e também nos alfarrábios do geólogo austríaco André Banko. Ele veio a Grão Mogol atraído pela riqueza geológica da região, mas casou-se, aqui, com uma moça grãomogolense e fixou residência.
SÍNTESE
A Trilha do Barão possui a síntese da riqueza da flora, da fauna e das histórias datadas do século 17. A trilha não foi aberta pelos escravos do barão. Eles a calçaram. A trilha existia desde tempos imemoriais. Inicia bem na porta de uma casa simples, a partir de onde o visitante encontra papeis e garrafas PET jogadas ao léu. Premente é a realização de um trabalho de conscientização da população quanto à preservação do ambiente, principalmente o histórico.
A trilha carece de restauração e investimento em termos de divulgação do patrimônio histórico. Grão Mogol talvez seja mais histórica do que muitas cidades históricas de Minas e do Brasil. O patrimônio histórico já está em processo de tombamento pelo IEPHA – Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais.
Embora longe do eixo de Ouro Preto, a cidade precisa fazer parte do rol do patrimônio histórico mineiro e brasileiro. (Leia na próxima edição a história do Barão de Grão Mogol).


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Por Alberto Sena - 20/3/2014 08:34:00
Pedra Rica de beleza

Alberto Sena

Pedra Rica, primeira jazida de diamante minerada em rocha do mundo, é encontrada em Grão Mogol, mas não é todo grãomogolense que a conhece.
Fizemos, nesta quarta-feira, a nossa primeira incursão à Pedra Rica. Várias vezes ouvimos contar sobre essa pedra, da qual brotaram diamantes, e prometemos a nós mesmo fazer essa incursão na primeira oportunidade. A experiência foi rica, primeiro porque pudemos comprovar a eficiência do boca a boca. Saímos perguntando uns e outros “onde fica a Pedra Rica?” até chegar nela.
O primeiro a ser consultado foi Paulinho Henrique, da turma dos Ciclistas do Cerrado, guia turístico da cidade, que nos apontou a direção e a serra rica em pedras de desenhos os mais interessantes a ponto de imitarem coração, rosto humano, cabeça de lagarto, coração, entre outras figuras.
A escalada até a Pedra Rica, quase no perímetro urbano, envolveu o guarda municipal Natalino, a mulher dele e uma das filhas, que se prontificaram, com a maior gentileza, a nos levar até o local, um tanto acidentado, mas de grande beleza cênica, riqueza geológica e de flora, além de atração turística pouco explorada, pouco divulgada e muito menos estimulada em termos de opção para os visitantes, cada dia mais redescobrindo Grão Mogol.
A vista lá de cima da Pedra Rica alcança distância enorme e é linda, como tudo ao redor desta cidade, que entre as mais diversas opções turísticas, tem o maior presépio do mundo, chamado Mãos de Deus. O presépio abençoado pelo Papa Francisco, já recebeu cerca de 50 mil visitantes em pouco mais de dois anos.
Depois de um agradável esforço de andar sobre pedras, devidamente calçados de botas de trekking, chegamos à Pedra Rica. Bonita pedra. Ao longo dos séculos, abriram um túnel nela à base de dinamites em busca de diamantes. As marcas estão lá. Os garimpeiros saíam com lascas da pedra e em casa, meticulosamente, retiravam os diamantes a marteladas.
Uma rápida consulta científica nos informa que em 1781 foi o ano da descoberta de diamantes na Serra de Grão Mogol. Em 1827 teve início a mineração na própria Pedra Rica. Ficou esclarecido que a Pedra Rica é uma rocha de origem sedimentar. Na realidade, “um conglomerado, sem qualquer relação genética com os diamantes nela contidos”. Uma das três áreas de estudo da mineralogia dos diamantes da Serra do Espinhaço aconteceu em Diamantina, Jequitaí e Grão Mogol.
Isto posto convém registrar o fato de termos sacado fotos da Pedra Rica, agora rica de beleza e sem diamantes, para mostrar a quem estiver em sintonia com o clima de Grão Mogol, uma das mais históricas das cidades históricas de Minas e do Brasil.
O Centro Histórico de Grão Mogol já está em processo de tombamento, por parte do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA).
Semana passada, a cidade recebeu a arquiteta Ângela Dolabela Canfora e Rosana de Souza Marques, gerente de Patrimônio Natural da Diretoria de Proteção e Memória do IEPHA. Elas vieram iniciar os trabalhos de avaliação para tombamento, processo que deverá levar um ano, segundo Rosana Marques.


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Por Alberto Sena - 17/3/2014 08:29:22
Em busca da cidade perdida

Alberto Sena

Montes Claros das décadas de 50/60 tinha sossego. Quem sobreviveu a essas épocas confirmará a afirmação. As famílias sentavam à porta das casas, depois do jantar, e trocavam dedos e mais dedos de prosas umas com as outras.
Enquanto mulheres contavam potocas, a criançada brincava. Eram brincadeiras hoje em dia só encontradas na literatura infantil registrada por quem teve o privilégio de correr descalço, subir em árvores e muros para espiar o quintal do vizinho.
Quase todas as casas dispunham de quintal e a meninada nem tinha necessidade de ir pras ruas porque ficava cansada, dava duro danado no trabalho de brincar e ia dormir cedo para levantar cedo e ficar mais tempo brincando e enchendo a alma de fantasia.
Os dedões dos pés invariavelmente estropiavam. As unhas dos dedões das mãos caíam de tanto jogar bolinha de gude. As crianças de hoje nem podem imaginar a trabalheira. Quase não tinha tempo de fazer outra coisa senão brincar.
Com o calorão de Montes Claros, o melhor, à noite, era correr lá na sorveteria da Praça Coronel Ribeiro a fim de comprar uma bacia de picolés. Tinha de sair correndo de volta pra evitar o derretimento deles.
O escritor norte-americano, Ernest Hemingway escreveu “Paris é uma Festa”. Concordo com ele, discordando. Isto porque ele não conhecera Montes Claros de então, antes de escrever o livro, senão o título seria outro. A nossa terra querida cresceu desabridamente e perdeu a magia.
Adoeceu com aquela doença – como é que se chama mesmo? – “elefantíase”, responde a criança encabulada com as gentes arrastando pernas pesadas, escuras, esverdeadas, mais parecidas com um par de jacas. Tinha-se a impressão de que as pernas dessas gentes ficavam assim por causa do acúmulo de tiririca. A mesma tiririca reclamada pelas mães na hora de tomar banho. E banho de bacia, porque água faltava um dia sim e no outro também.
Mas nem por isso era ruim viver. Pelo contrário, era até bom faltar água para não ter de tomar banho todo dia. Coisa chata. A gente estava bem lá no melhor da brincadeira, de repente ouvia uma voz: “Vem tomar banho”. A resposta não era outra senão, “já vou”. Mas não ia. Passava uns instantes, a voz vinha de novo: “Vem tomar banho”. A resposta: “Já tô indo”. Mas não ia. E a voz impaciente vinha brava: “Vem tomar banho, senão pode ir preparando os fundilhos”.
Ser criança naquela época era bom, mas tinha os seus percalços. De tanto andar descalço, pegava bicho de pé e tinha de ficar esperto pra não pisar num prego e o ferimento “dar tétano”. Tétano era semelhante ao capeta. Não se sabia se tinha chifres nem rabo, mas podia matar. E morrer naquela época era mais triste do que é hoje em dia. Era o fim, Joaquim.
Hoje se sabe que morrer é outro começo de vida. E quando a gente mal desvendava um mistério vinha outro. Nenhum maroto sabia pra onde a gente vai quando bate as botas. Naquela época, pior ainda porque a compreensão era nenhuma sobre a vida eterna.
Mas ainda assim era bom. Deve ser bom pras crianças de hoje também. O que mudou foi o modo de ser. Ou de ter, verbo mais conjugado e estimulado pelas publicidades dando ordens aos pequenos para comprarem isto e aquilo.
As crianças de hoje não sobem em árvores nem em muros. Primeiro porque as árvores estão cada vez mais escassas. Depois, as poucas casas resistentes à exploração imobiliária interessada em erigir arranha-céus, com se os céus fossem baixos a ponto de serem arranhados por alguém, as casas perderam os quintais.
Andar descalço, muito menos a meninada desses nossos tempos informáticos anda. E quando acontece de alguma se apresentar descalça pisa no cimento ou no asfalto. Essa é também uma diferença. E grande, porque naquela época, nos cafundós do século passado, as crianças pisavam na terra, nua e crua.
Se hoje as donas de casa reclamam do pó de asfalto, as de ontem reclamavam de poeira. E como. Os carros do incipiente trânsito levantavam poeira. Não dava pra enxergar nada depois da passagem deles. Mas ainda era bom assim.
Sei não, mas quase tudo indica, a nossa transferência pra Grão Mogol, consciente ou inconscientemente, está relacionada à busca daquela cidade perdida, aqui encontrada.


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Por Alberto Sena - 13/3/2014 08:28:42
(...) A arquiteta Ângela Dolabela Canfora e Rosana de Souza Marques, gerente de Patrimônio Natural da Diretoria de Proteção e Memória do IEPHA – Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais iniciaram os trabalhos de avaliação para tombamento do Núcleo Histórico de Grão Mogol, no Vale do Jequitinhonha.(...) As técnicas do IEPHA se encantaram com o Presépio Mãos de Deus, inaugurado pelo sociólogo e economista Lúcio Bemquerer, em 2012, obra do gênero considerada a maior do planeta, vista como um ponto que coloca Grão Mogol no mundo. Outro motivo de encanto, segundo elas são as casas de pedras, muitas delas construídas por escravos no período colonial, século 18, sob o tacão do Barão de Grão Mogol, Guálter Martins Pereira. Ele, inclusive, mandou escravos construírem uma trilha de pedras de 15 quilômetros, da cidade à fazenda dele. O barão era carregado em liteira.


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Por Alberto Sena - 10/3/2014 17:54:36
Ficar pra indez

Alberto Sena

Com o olhos
e com o coração
abertos
Chegamos a Grão Mogol

Com os olhos abertos
queremos enxergar
em detalhes
as belezas cênicas
a passarada multicolorida
a gente que passa
a simplicidade
das pessoas
e muitos mais

Com o coração aberto
queremos amar
Queremos primeiro
o amor próprio
concomitantemente
amar o semelhante
Para poder sentir
o amor de Deus
Ele que nos deu
(a mim e a Sílvia)
a oportunidade
nesta idade
de viver
na cidade
de Grão Mogol

Alguém pergunta
O que vem a ser
O que significa
Grão Mogol
Segundo disse
Há pouco
o amigo Geraldo Fróis
Grão
“é grande”
Mogol
“é valoroso”

Aqui é terra
de um povo
valoroso
Aqui
Fróis disse
Um minuto
dura uma hora
Uma hora
dura um dia
e um dia
dura um mês
então dissemos
Que bom
Que ótimo
Aqui ficamos pra indez


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Por Alberto Sena - 10/3/2014 08:26:14
Reencontro marcado

Alberto Sena

Foi deste tamanho, ó, a satisfação de reencontrar gente amiga, que faz tempo não via. Pelo menos uns dois deles há mais de 40 anos, desde quando, de mala e cuia, fui para a capital a fim de trabalhar no jornal Estado de Minas, recém-formado no O Jornal de Montes Claros, de Oswaldo Antunes e Waldyr Senna.
O reencontro com Itamaury Teles, Nicomedes, Wanderlino Arruda, Márcia Vieira, Flávio Corrêa Machado e Roberto Amaral não podia deixar de acontecer noutro lugar senão no Café Galo, lá aonde se dão as discussões relacionadas com a política, a economia, esporte e turismo, além de assuntos debitados na conta do aleatório.
Itamaury entrou no meu lugar, no O Jornal de Montes Claros, quando, em 1972 segui o rumo seguido por outros amigos de então, quando a cidade parecia pequena para comportar a quantidade de sonhos sonhados, muitos deles realizados.
Nicomedes foi meu preferido beque central quando atuou no time titular do Cassimiro de Abreu, onde joguei no juvenil, que teve a audácia de enfrentar, no estádio General Severiano, no Rio de Janeiro, o juvenil do Botafogo, quando Ferreti estava se despontando. Revi de memória, a classe, a elegância e a firmeza como Nicomedes atuava. E pelo seu aspecto físico, ainda está em condições de atuar, se achasse por bem.
Wanderlino Arruda foi meu professor de Português, na Escola Normal Professor Darcy Ribeiro, quando havia o curso científico, na Avenida Mestra Fininha, mãe de Darcy e Mário Ribeiro. Já naquela época, ele publicava artigos no JMC e certamente influenciou a minha carreira jornalística porque desde sempre me espelhei nos melhores exemplos. Se ainda não correspondi ao aprendizado oferecido, eles nada têm a ver com isso, a culpa é todinha minha.
Roberto Amaral também foi meu professor no curso científico. Professor de Biologia. Eloquente, ele sabia e ainda deve saber lidar muito bem com a técnica de ensinar o porquê das coisas, como o fato de os humanos serem pluricelulares, dotados de 10 trilhões de células, enquanto as bactérias são unicelulares.
Flávio Corrêa Machado, embora já o conhecesse desde menino, há pouco tempo iniciei convivência com ele no âmbito do Facebook. Sabia ser ele um dos filhos de Geraldo Bilé – Geraldo Corrêa Machado – um dos mais respeitados médicos de Montes Claros, uma pessoa que tinha ouvidos para ouvir as mazelas do próximo. Agora, indo para Grão Mogol, mais perto da nossa terrinha, vamos nos encontrar mais amiúde.
Márcia Vieira, jornalista, integrante da assessoria de imprensa da Prefeitura de Montes Claros, responsável pelo blog “Márcia Vieira Yellow” conheci por meio do Facebook. De amiga virtual, pudemos, enfim, nos conhecer pessoalmente, ela que é um dos valores da safra atual dos jornalistas de MOC, dotada de “faro da notícia”.
O reencontro com essa turma, o cronista Raphael Reis incluído porque chegou depois, foi proporcionado por Lúcio Bemquerer, de Grão Mogol, montesclarino por aclamação, há muito tempo homenageado com o título de “cidadão honorário”. Lúcio, para os que ainda não sabem, deixou o ritmo acelerado de vida em Belo Horizonte para retornar à terra natal, onde criou o maior presépio do mundo chamado Mãos de Deus.
O presépio, inaugurado em 2012, já foi visitado por mais de 50 mil pessoas, gente da região, do Brasil e do exterior. Recentemente, Lúcio recebeu do Papa Francisco uma carta com Bênção Sacerdotal para ele, a família dele, o presépio, para todas as pessoas que lá estiveram e estendida a todos que ainda irão contemplar a beleza da obra, sem igual no mundo, e, principalmente, sentir o magnetismo irradiado às pessoas de fé cristã, ateus e agnósticos. Ninguém sai dali a mesma pessoa, tamanha a intensidade da emoção e dos arrepios.
Reencontrar esses e outros amigos gerou na alma e na memória a sensação de que tudo se deu ontem, tamanha a relatividade do tempo. Agora, com a devida vênia de todos, irei para o retiro de Grão Mogol, onde a outra metade da vida me aguarda. Levo duas mochilas. Uma nas costas, cheia de passados – bons passados, digo de passagem – e a outra abarrotada de sonhos passivos de se tornarem realidade porque dormitam no coração.


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Por Alberto Sena - 24/2/2014 08:29:36
Onde fica o buraco do carnaval?

Alberto Sena

Carnaval em Montes Claros, na década de 60, era excitante e sabíamos, mas fazíamos de conta que não. Era no Automóvel Clube. Carnaval de rua não havia. Se acaso descesse em Montes Claros um ET durante o reinado de Momo, achando que ia se esbaldar até o sol raiar, coitado, podia ir tirando logo a sua navezinha da chuva porque decepcionado ficaria achando ter descido em lugar errado. Nas ruas da cidade não se encontrava sinal de festejo carnavalesco.
A opção era ir pra Januária ou pra Pirapora. Mas havia um “porém” de ordem psicossocial principalmente em Januária. A moçada de lá não conseguia administrar o ciúme em relação à rapaziada de Montes Claros. Numa vez reunimos uma turma e fomos pra Januária. Tivemos de sair correndo da cidade para não sermos linchados. Quando percebemos as caras amarradas e os olhares fulminantes demos um giro de 360 graus nos calcanhares e caímos fora. Saímos ilesos.
No Automóvel Clube de Montes Claros, ambiente fechado, o carnaval era outra coisa. Aquilo parecia um caldeirão fervente. Mas difícil era encontrar ânimo logo no início da peleja. Aos primeiros rufares de tambor, entrar naquela roda de gente parada na pista observando ousados gatos pingados circulando com o braço sobre os ombros de garotas acanhadas e suadas, adornadas de confetes e de serpentinas, era uma cena no mínimo ridícula.
O estímulo para entrar na roda e esgoelar as músicas antigas – “mas que calor ôôô... será que ele é transviadooo... corta os cabelos dele, corta os cabelos dele...” e outros refrãos – era necessário recorrer ao boteco do Alcides, na esquina das ruas Dr. Santos e Dom João Antônio Pimenta. Tinha lá uma batida de limão que era um santo remédio para esquentar as partes internas do corpo e nos levar a ganhar coragem para uma incursão na pista.
Um copo cheio bebido num gutegute só, era suficiente. Retornávamos ao Automóvel Clube pisando nas nuvens ao ponto de percebermos as batidas do tambor dentro do próprio peito. Com o tanque devidamente abastecido, pulávamos – sim, o verbo era esse, “pular carnaval” – a noite inteira, até às 5h da manhã. As panturrilhas, antigamente chamadas de “batatas das pernas”, ficavam doloridas. E de tanto esgoelar, não tínhamos mais nem voz no dia seguinte.
Nas noites subsequentes, a estratégia era a mesma a fim de estimular o esqueleto e entrar no samba. Ao final, na quarta-feira, ainda havia quem ousava afrontar os padres Dudu e Agostinho indo receber as cinzas na testa, na maior cara de pau, como se tivesse dormido a noite inteira, mentira facilmente percebida a partir do exalar do bafo de álcool e aquele gosto de cabo de guarda-chuva na boca dos infiéis.
O mais excitante acontecia na sacada do Automóvel Clube, numa época em que Montes Claros mal mal havia concebido o seu primeiro motel considerado “casa do capeta” por parte da tradicional família montesclarina. Não se podia aceitar nem mesmo a possibilidade de passar na porta “daquele antro”.
Numa das noites em que o baile de carnaval, como se dizia, pegava fogo, aconteceu algo inusitado. Podia ser dramático se não fosse hilário. Um dos jovens da turma de então se encontrava naquela base com uma garota, num esfrega esfrega, amasso só, na sacada, quando apareceu de repente o pai dela. O colega apanhado em flagrante delito, não tendo o que dizer, tamanha a falta de graça, simplesmente se virou para o transtornado pai e disse: “O senhor é servido?”
Claro, ele não esperou a resposta. A moça foi arrancada duma vez e ele deve estar correndo até hoje porque o pai dela ficou uma arara. Mais nervoso teria ficado se vivo ele fosse e visse o que acontece nos carnavais atuais. As preocupações com o que rola na festa de Momo agora atormentam a cabeça da filha dele, hoje mãe e até avó, certamente, se se puder apurar o paradeiro dela nos dias atuais a fim de confirmar as suspeitas.
Para evitar más interpretações, é bom deixar bem claro, aqui, uma ressalva: hoje, acreditamos, o carnaval de Montes Claros transcorre numa maré mansa. O carnaval atual está destrambelhado é em outros lugares deste Brasil varonil, onde as pessoas nem se dão mais ao trabalho de ingerir copo cheio de batida de limão. Isso é café pequeno. E pra pobre.
O buraco é bem mais embaixo. Ou bem mais encima? Sei lá!


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Por Alberto Sena - 19/2/2014 08:28:43
Em busca do quase perdido

Alberto Sena

Acontece de os livros não lidos ganharem vida e travarem disputas na estante. Um quer se adiantar ao outro a fim de sentir-se devidamente manuseado e lido. É possível ouvir os diálogos surdos travados uns com os outros. A leitura – eles não entendem – é só uma questão de tempo.
Aconteceu até o absurdo de um deles se movimentar levemente na estante sem ser tocado. Pode ter sido movido pelo vento. A janela aberta, o vento entrou e lambeu vorazmente o livro ao ponto de tirá-lo do lugar. Pode ser.
Nesta manhã ouviu-se vozerio vindo do meio da estante e um dos livros, “Noites do Sertão”, de João Guimarães Rosa, lido há não se sabe quanto tempo deu de falar mais à frente dos outros. O gesto de tocá-lo aconteceu naturalmente. Os livros não lidos reagiram, mas se conformaram logo em seguida. Foi boa a surpresa reencontrada na página 26, em um trecho referente a Montes Claros.
“(...) Ao fim do prazo de trinta, quarenta dias, de viagem desgostosa, com as boiadas, cansativa, jejuado de mulher, chegava em cidade farta, e podia procurar o centro, o doce da vida – aquelas casas. Os dias antes, do alto dos caminhos, e a gente só pensava naquilo, para outra coisa homem não tinha ideia. Montes Claros! Casas mesmo de luxo, já sabidas, os cabarés: um paraíso de Deus, o pasto e a aguada do boiadeiro – o arrieiro Jorge dizia. As moças bonitas, aquela roda de mulheres de toda parecença, de toda idade...”
O trecho chama a atenção porque, guardadas as proporções e o interregno temporal, Rosa se refere a essa mesma Montes Claros que se agigantou e hoje guarda em si várias cidades. Os tempos são outros, mas os acontecimentos se repetem. Acompanhem o que Rosa escrevinhou em seguida:
“(...) Na Rua dos Patos, em Montes Claros. Todo o mundo se encontrava. Até boiadeiros ricos, homens de trato. Uma vez, estava lá o sr. Goberaldo, chefe político: _ “Vim também, Soropita. Quando a gente está assim em estrada, todo santo é ora-pro-nóbis...” Tocavam música, se endançava. A prumo de chegado, e cumprindo o trivial de obrigação, Soropita ardia de ir. Sabendo que podia passar muitos dias na cidade, primeiro molengava um engano de si mesmo: _ “Tem tempo, amanhã vou; agora eu sesteio...” Não conseguia. Se abrasava. Mas gostava de ir sozinho, calado, disfarçado, pela tarde. Prevenido. Ir de dia, que de noite convinha menos: muito povo vaporado, bêbados – vaqueiros, tropeiros, tangerinos, passadores-de-gado, rapaziada, vagabundos, gente da cidade; povos dos Estados todos. Armavam briga fácil, badernavam. Ao perigoso”.
Trazendo para os dias de hoje, o gado atual não possui quatro patas, mas sim quatro pneus de borracha. São os veículos que, segundo dizia o jornalista Dídimo Paiva, do jornal Hoje em Dia, “vão acabar com o mundo”. E parece que a profecia dele se vai realizar mesmo no ritmo estonteante de carros em circulação por vias públicas em vias de explodirem. Um bicho de quatro pneus de cerca de uma tonelada, geralmente transporta um bípede com média de peso de 70 quilos. Uma insensatez.
Se lá nos tempos de Rosa muitos eram os perigos, mais perigoso é viver hoje na cidade onde as caras já não são mais conhecidas. Se alguém encontrar nas ruas de Montes Claros a sua alma gêmea e não abordá-la corre o risco de nunca mais reencontrá-la, porque a cidade recebeu gente de todos os cantos do país depois de ter sido cortada pelas BRs 040 e 251.
Se Soropita baixasse em Montes Claros de hoje não encontraria mais “aquelas casas” de antanho porque, nesse particular principalmente, os costumes mudaram. Se o personagem de Rosa fugisse das páginas do livro seria capaz de ele soropitar de tão surpreso com a visão da realidade atual.
Esse trecho da narrativa de Rosa merece mais reflexão. Onde está, afinal, dentro de Montes Claros metrópole a cidade descrita pelo autor de “Noites do Sertão”? Onde ficavam os cassinos e “aquelas casas”? E a Rua dos Patos, onde era? O que ainda existe?
Eis uma boa pauta para algum intrépido repórter que queira escarafunchar o mofo a fim de encontrar algum resquício, ou alguém que tenha vivido os estertores da época, para ciceronear uma busca ao tempo quase perdido. “Ali funcionaram os cassinos, lá ficavam “aquelas casas” onde gerações de montesclarinos tiveram iniciação”. E assim por diante.


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Por Alberto Sena - 10/2/2014 08:25:59
Quando em Montes Claros os montesclarinos ausentes ainda encontravam com eles próprios em cada esquina das estreitas ruas do centro da cidade, ruas apropriadas para cavalo, bicicleta e charrete; naquela época em que “cachorros (andavam) andam devagar”, como observou uma criança de três para quatro anos de idade, espontaneamente, no princípio dos idos da década de 80, a Rua Doutor Santos ainda era a principal via pública de Montes Claros.
Um proposital recuo ao final da década de 70 traz à lembrança certa casa velha, número 103, hoje uma moderna agência bancária, imóvel à época de propriedade de Luiz de Paula Ferreira, onde era a redação e oficina do O Jornal de Montes Claros. O ponto era estratégico em termos de oferecer boa perspectiva para assistir a cidade passar à porta. Os veículos de então não deixavam ninguém estupefato como os da atualidade.
Contíguo ao jornal, na mesma casa velha, era o escritório do advogado Orestes Barbosa, bom de prosa, com seu inseparável cigarro de palha. Demerval Afonso Aguiar, Baiano chamado, era funcionário de Orestes e havia tempo para com eles bater papo porque se tinha a impressão de que a velocidade do movimento de rotação da Terra era menor comparada com a sensação de velocidade atual, pós-tsunami em terras japonesas. Segundo os entendidos, mexeu até com o eixo do planeta.
Dali da porta do JMC, ombro apoiado na pilastra da antiga casa, se podia assistir, como numa passarela, a passagem dos que tornavam frenético o vaivém dos montesclarinos pelas estreitas calçadas da Rua Doutor Santos. Em meio às relembranças, uma cena quase dramática, não tivesse um lado de graça: uma donzela fraturou o tornozelo ao olhar para trás a fim de espreitar os que comentavam sobre a beleza dela.
Tuia havia morrido. Mas o espectro dele ali ficou inclusive as marcas da casinha azul pra ele construída no espaço antes considerado garagem do jornal. Em Montes Claros viveram tipos humanos como Manoel Quatrocentos, Requeijão, Galinheiro entre outros. Eles davam alento ao provincianismo da cidade, hoje sobejamente transformada numa intrincada capital de problemas. E um deles é o de não possuir braços nem força capaz de empurrar as ruas pros lados a fim de evitar o sufoco do centro da cidade tamanha falta de espaço para tanto carro, bicicleta e gente – não necessariamente nesta mesma ordem.
Numa lanchonete incrustada no prédio onde era o hotel São Luiz – lá ocorreu estranho incêndio – se podia comer delicioso pastel de carne e de queijo regado a suco de laranja ou vitamina de frutas. Isto feito era só entrar a esquerda na Praça Doutor Carlos para logo adentrar a Rua Simeão Ribeiro e chegar ao café de Zim Bolão, termômetro especializado em questões relativas aos mais importantes assuntos aleatórios e de ordem socioeconômica, política, futebolística e, principalmente, fofocas.
Ali no Zim Bolão se podia colher as mais críveis informações sobre a vida alheia. Por bom tempo, as incursões do esperto pseudomágico Orieth Bay na cidade motivaram conversas a respeito do ponto em que ele, ao final, numa afronta à hospitalidade dos montesclarinos raptou uma senhora da sociedade. Foi um fuzuê danado lembrado por Haroldo Tourinho Filho em crônica recente.
De Zim Bolão ao Café Galo era um pulo só. Um rivalizava com o outro qual era o mais bem frequentado e informado a respeito das mazelas políticas e, claro, do disse me disse dos acontecimentos da sociedade montesclarina disputados pelos colunistas sociais Lazinho Pimenta, Theodomiro Paulino e Magnus Medeiros.
Era só atravessar a Rua Simeão Ribeiro para dar de cara com o ultradivertido Fernando Gontijo sentado a uma mesa da Cristal sorvendo uma dose de cachaça depois de doar o próprio sangue a fim de sustentar o vício. Dizem: “Morreu de paixão”. Vivo, ele era inteligente e cheio de graça engraçada, devido às tiradas bem-humoradas que fizeram dele figura lembrada. Como lateral esquerdo do Casimiro de Abreu, Gontijo arrancava aplausos da torcida feminina.
Tanto tempo depois de tudo isso, ainda dá para ouvir daqui o ruído característico das máquinas linotipo gravando em chumbo os textos datilografados em laudas de papel jornal, fazendo coro com o ruído da impressora cuspindo mais uma eletrizante edição do JMC, Mais Lido chamado.


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Por Alberto Sena - 4/2/2014 09:00:32
Grão Mogol é vista hoje como um dos poucos refúgios mineiros para quem quer fugir do estresse dos grandes centros entupidos de carros. Espalhada nas encostas do maciço do Espinhaço, a singular cidade histórica nascida no século XVIII, no Vale do Jequitinhonha surgiu sob o brilho ofuscante do diamante. Hoje, décadas depois do fim do garimpo, Grão Mogol vive basicamente de turismo.Lá, os dias e as noites lembram os costumes da década de 50, devido ao ritmo pachorrento dos seus quase 6 mil habitantes no perímetro urbano. Os vizinhos trocam oferendas e têm tempo para meias horas de prosa. Jardineiras floridas enfeitam as janelas das casas e casarões antigos, muitos construídos por escravos com pedras da região, tudo isso transmite ao visitante a sensação de estar em um pueblo espanhol.Há mais de dois anos, o surgimento de uma obra considerada a maior do mundo, o Presépio Mãos de Deus, mudou quase completamente a rotina da cidade. Concomitante à edificação do presépio, Grão Mogol ganhou um hotel compatível com a importância da cidade, de forma que não falta ao turista um lugar confortável onde hospedar para conhecer as belezas da região e sentir realmente vivos. A cidade é uma das mais belas dentre o patrimônio histórico de Minas, mas nas últimas décadas ficou estagnada depois que a garimpo de diamantes exauriu. Rios, cachoeiras, prainhas, balneário, grutas e cavernas compõem os atrativos de Grão Mogol.Com o hotel Paraíso das Águas e o presépio, administrada pelo jovem prefeito reeleito Jéfferson Figueiredo (PP), a cidade vem recebendo turistas de várias partes de Minas, do Brasil e do exterior interessados na beleza e na tranquilidade de Grão Mogol, que há tempos não registra um crime. Mas nem por isso a polícia local se descuida e aborda os visitantes suspeitos para saber o porquê de estarem na cidade.O surgimento do presépio e do hotel funcionou como estímulo para a cidade experimentar, depois de tanto tempo, um novo boom de desenvolvimento.Mexeu com o comércio de modo a levar os proprietários a investirem nos seus negócios para atender melhor os turistas. Nos últimos dois anos, segundo o construtor do presépio, o economista Lúcio Bemquerer, foram registradas a presença de quase 50 mil visitantes, mais de oito vezes a população concentrada no perímetro urbano.A cidade recebia grande fluxo de gente só durante o carnaval.Atualmente, o movimento é diário devido ao presépio, que recebeu, recentemente, uma Bênção Sacerdotal do Papa Francisco, e ao fato de ter hotel confortável para receber os turistas. Nos próximos dias de Momo, segundo o proprietário do hotel, Nem Costa, os 34 apartamentos do hotel estão lotados. Só tem vaga para março.O prefeito Jéfferson Figueiredo acredita no crescimento de Grão Mogol, mas não a ponto de atrapalhar a rotina dos habitantes (no município são 15 mil). O trânsito de veículos aumentou, mas sem incomodar. Nem os 1.200 estudantes da Escola Técnica Brasil Profissionalizado, parceria dos governos federal e estadual com a Unimontes, em construção significa ameaça à paz de Grão Mogol.


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Por Alberto Sena - 31/1/2014 10:29:36
Prenúncio do fim de batalha

Alberto Sena

Por meio de um sobrevoo de avião à noite, chegando de Belo Horizonte, a gente pode avaliar o tamanho de Montes Claros porque as luzes oferecem os meios e os entremeios da dimensão da cidade.
Desculpe-me a expressão, Montes Claros cresceu estupidamente. Essa é a verdade. E, claro, com o desenvolvimento a qualquer preço colhe hoje em dia os contrapesos do progresso, principalmente no quesito segurança.
Mas em meio à metrópole inadvertidamente criada com a ajuda de gente vinda de todas as partes do País pelas BRs 040 e 251, a minha e a sua Montes Claros pacata, caríssimo leitor (a) ainda existe. Por mais incrível possa parecer. Peguei-a em flagrante delito quando tentava se deixar sufocar pela metrópole. Inda bem. Foi a tempo de impedi-la de praticar o tresloucado gesto.
Quem tem olhos de ver e sebo nas canelas pra andar basta percorrer as ruas e encontrar resquícios de Montes Claros do passado nem tão longínquo. A cidade que teve a oportunidade de dar ao Brasil valores em todas as áreas das artes, pelas ruas estreitas e nas esquinas movimentadas do centro da cidade ainda encontram halos de nossos fantasmas a se perderem nos ares do clima seco. Particularmente, pude agarrar alguns no último momento a fim de mantê-los atualizados dentro da nova realidade desta cidade fadada a ser a capital da região metropolitana do Norte de Minas.
Em vão foram os alertas dados nas últimas décadas. “Montes Claros, não cresça; e se crescer, sua alma sua palma”. De nada adiantou. Desobediente, mas ao mesmo tempo responsável por cumprir à risca o próprio destino, a cidade cresceu desordenadamente. E com o crescimento os problemas aumentaram à mesma proporção. Uma hora, a cidade vai explodir.
O fato de estar distante durante tanto tempo nos faz ignorantes o bastante para não entender determinadas coisas numa estada ligeira na cidade em que não houve quem desse uma explicação plausível. Por que, meu Deus do céu, poluir a lagoa Pampulha de Montes Claros? Coisa desagradável transitar pela Avenida Magalhães Pinto, chegando ou voltando do Aeroporto Mário Ribeiro. A catinga lembra a estupidez poluidora da lagoa da Pampulha de Belo Horizonte, onde rios de dinheiro escorrem já faz décadas pelo ladrão rumo à foz do bolso de ditas autoridades inescrupulosas.
A lagoa Pampulha de Montes Claros lembra doente terminal que viveu a vida toda em tratamento enriquecendo médicos e hospitais até soltar o último gemido. Os montesclarinos “ficantes” não perceberam, com o tempo, a poluição gradativa da lagoa da Pampulha de Montes Claros? Onde estavam todos? O exemplo da Pampulha de BH não serviu de lição para evitar o desastre da Pampulha de Montes Claros?
Antes, muito antes do uso e abuso do asfalto impermeabilizador das ruas havia bloquetes e calçamento tipo pé de moleque. Esses tipos permitiam a respiração da terra por entre suas frestas. Não havia enchentes. As águas da chuva penetravam a terra e seguiam o seu curso.
Antes, muito antes do uso e abuso das dinamites para exploração de minério de ferro e pedreiras, a cidade não tinha terremoto. É até engraçado dizer que a terra treme em Montes Claros. Treme de medo e de dor porque terra é gente como a gente. Não é humana, mas a cada explosão em série precisa se acomodar como gente humana se acomoda na cama quando algo a desperta do sono reparador. Os técnicos não veem nenhuma evidência entre uma coisa e outra.
Montes Claros sempre teve clima quente. Mas agora está mais quente. Quem vive fora e chega à cidade pode dizer com convicção. A cidade está hoje dentro de uma bolha de calor refletido pelo asfalto das ruas e pelo concreto dos edifícios. Os famosos espigões fazem Montes Claros crescer para cima.
Diante deste quadro pintado, digno de ser assinado por um pintor daqui ou dali, vai mais um alerta para Montes Claros: por favor, não cresça mais. A continuar nesse ritmo desenfreado, a cidade ficará insuportável tanto quanto qualquer outra capital.
Quando isso acontecer, e já está acontecendo, não haverá na região nenhuma caverna onde refugiar a multidão desarvorada em busca de um lugar para se esconder porque as explosões incontidas, em nome do desenvolvimento já terão destruído todos os ambientes.
Quando isso acontecer, e já vai acontecendo, os nossos fantasmas também irão pelos ares. E a nossa batalha, enfim, estará perdida.


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Por Alberto Sena - 21/1/2014 17:40:08
Como a luz da Estrela de Belém

Alberto Sena

A notícia da Bênção Sacerdotal enviada pelo Papa Francisco por meio de carta ao Presépio Mãos de Deus, de Grão Mogol (MG), repercute até hoje. E vai continuar repercutindo para sempre como a luz da Estrela de Belém que um dia mostrou aos Três Reis Magos o lugar da manjedoura onde o Menino Jesus nasceu.
O construtor do presépio, o empreendedor Lúcio Bemquerer recebeu mensagens e cumprimentos vários de muita gente, do Brasil e do exterior. Desde o mais simples aos socialmente mais bem situados na vida, pois a mensagem do presépio é para todos. Deus não faz acepção de pessoas.
“Isto é incrível”, disse uma criança de 5 anos depois de percorrer as rampas e acompanhar a didática da aula proporcionada pelos personagens bíblicos testemunhas do maior acontecimento de todos os tempos no planeta Terra. No presépio estão esculturas em tamanho mais que o natural, desde o anjo da Anunciação, Gabriel, à manjedoura com Maria e o Menino Jesus, a sala de meditação, ambiente ecumênico, à sala das preces, onde se pode acender vela a Nossa Senhora das Graças.
A Bênção Sacerdotal, segundo a carta do Papa, é para todos, desde os que já visitaram o presépio, mais de 40 mil pessoas em pouco mais de dois anos, como também para os que ainda irão conhecer a obra edificada em 8 meses e 19 dias, conforme os registros de Bemquerer, cada vez mais envolvido com os trabalhos da “boa nova”.
De Humberto Motta, presidente da Dufry do Brasil e do Conselho Superior da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ), Bemquerer recebeu a seguinte mensagem: “Parabenizo (...) pelo merecido reconhecimento do Papa Francisco ao seu importante trabalho de evangelização e cultura, através do Presépio de Grão Mogol, que já é hoje referência de peregrinação no Brasil e no mundo”.
A empresária Beth Pimenta, da Água de Cheiro, disse ter ficado “muito feliz, pois com sua atitude em construir o Presépio Mãos de Deus, você é notório merecedor desta benção. O seu trabalho orgulha a todos nós amigos, admiradores e, sobretudo, Minas por tão grandiosa obra, fruto de seu ato desprendido e altruísta, fazendo de Grão Mogol um destino turístico religioso”.
O diretor da Associação Comercial de Minas (ACMinas), Antônio Maluf, compartilhou “desta abençoada mensagem do Sumo Pontífice, o Papa Francisco; e mais uma vez, gostaríamos de cumprimentá-lo por esta fantástica e sagrada obra, que engrandece a pessoa humana”.
O presépio já ganhou fama internacional. Ultimamente, recebeu visitas de estrangeiros vindos da Inglaterra, Estados Unidos e Alemanha. Todos eles ficaram impressionados com a obra considerada sem igual no mundo.
Outro ponto importante para o emocionado Bemquerer é o fato de o presépio vir despertando o interesse de crianças. Nesses dias de férias escolares, a quantidade de jovens vindos de vários municípios da região foi surpreendente. “Essa frequência comprova, o despertar da fé acontece é logo cedo”, comentou.


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Por Alberto Sena - 20/1/2014 08:18:41
Revisita a casa mágica

Alberto Sena

Arrepiado. Todo arrepiado ficou ao entrar na casa da Rua São Francisco, em Montes Claros, onde a família morou no século passado, finais da década de 50.
Foi quinta-feira, 17. Primeiro foi surpreendido pela notícia da existência da casa. As pessoas têm a mania de derrubar as casas antigas pra construir novas. Quantas casas importantes, em estilo colonial foram derrubadas em MOC?
Quem deu a informação da resistência daquela casa mágica foi Amelina Chaves, vizinha naquela época. Ela, Amelina, mora na mesma rua e no mesmo endereço até hoje.
Passando de passagem por Montes Claros, vindo de Grão Mogol, em companhia dela, foi brilhante a ideia de ir rever a casa da Rua São Francisco, de onde a família saiu no início da década de 60. O menino tinha os seus 10 para 11 anos quando a família saiu de lá para morar na Rua Corrêa Machado, 238.
Naquela casa as fantasias e os sonhos rolaram como rolam as águas de um rio caudaloso. Havia no quintal um pé de urucu, próximo da porta da cozinha. A mãe nem precisava andar tanto para pegar no pé sementes de urucu a fim de colorir o almoço. Tinha um coqueiro macaúbas, um pé de manga umbu e outro de manga comum, a preferida.
O quintal ia até quase a linha férrea. Era pedregoso. Quando chovia brotavam nele uma leguminosa chamada Fedegoso. Fedegoso dava vagens e nelas sementes marronzinhas garantiam a volta no ano seguinte nas águas. Um mar de Fedegoso esverdeava o quintal. E era então quando a meninada mergulhava nele e dava asas às brincadeiras. Caroços secos de manga e de coco macaúbas voavam para tudo quanto era lado em guerras de guerrilha.
Ali no quintal faziam-se tijolos de barro em forma de caixinha de fósforo vazia. As meninas brincavam de boneca e faziam comidinhas verdadeiras. Com certa frequência o trem passava e tudo largavam para acenar aos passageiros. Acontecia de um trem longo ficar parado durante horas. Alguns dos vagões levavam gado e as crianças ouviam o mugido dos bois e o bater aflito de cascos no piso do vagão.
Mais de meio século se passou nesse turbilhão da vida. Hoje quem mora na casa é a família de dona Naraci Ribeiro Amorim, mulher simpática. Amiga de Amelina, ela nos recebeu com cordialidade. Parou o almoço em fazimento e foi mostrar as dependências da casa.
Sim, a casa existe, mas na frente dela foi construída uma nova. Emendou uma na outra. Fez muito bem. A casa antiga era bem afastada do alinhamento da rua. Havia espaço para outra. Fizeram o que muitos deveriam ter feito para não destruir o patrimônio antigo de MOC.
Importa preservar o velho e construir o novo. No espaço onde foi construída a casa nova jogavam-se bolinha de gude e finca. A meninada brincava de empinar papagaio, esconde-esconde, salvo e bente altas.
O pé de urucu, o coqueiro e as mangueiras não existem mais. O quintal encolheu um pouco. Mas em compensação, dona Naraci plantou goiabeira, acerola e outras frutíferas, o que certamente garantirá o vaivém dos passarinhos e os sucos diários na safra.
A casa antiga conserva a magia. Se assim não fosse, não teria arrepiado o corpo inteiro logo ao reconhecer os primeiros cômodos. Aqui a sala de visita; ali o quarto de onde viu a bicicleta presente de Natal.
A sala de jantar tinha uma mesa comprida de madeira com banco de cada lado. Quando chovia forte, com trovões e relâmpagos, chuviscos passavam pelos furos no telhado, a meninada entrava debaixo da mesa para se resguardar. “Será que o mundo está acabando?” – era o temor.
Pode acontecer de os lugares mágicos da infância decepcionar ao serem revisitados anos mais tarde. Pode. Mas não foi esse o caso. Só de a casa estar ali firme nos adobes – prova da durabilidade daqueles tijolões de barro – foi uma alegria. Emoção gostosa ao relembrar do que ali foi vivido e curtido, sem saudosismo. Mesmo porque a vivência naquela casa faz parte da bagagem.
Entretanto, aquele trecho de rua mudou. Na esquina com a Rua Corrêa Machado tinha o açougue do senhor Nilo. Açougue não há mais. Do outro lado da esquina tinha um pé de manga comum. Atrás da mangueira havia barracões. Num deles morava dona Boneca com o marido Militão. Barracões não há mais.
O espectro da rua antiga continua nítido na lembrança. De vez em quando, ele cutuca a esperança de ser revivido. Então reviva, “ora bolas”, como diria o poeta Mario Quintana, com todo o seu bom humor.


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Por Alberto Sena - 13/1/2014 09:50:44
Confesso, em BH vivi

Alberto Sena

Vivi mais tempo em Belo Horizonte do que os 22 anos em Montes Claros, do nascimento até 1972. São mais de 40 anos de BH. Tempo suficiente para construir uma vida, sob todos os aspectos. Afora um ano e pouco vivido em Viçosa, Zona da Mata, todo o tempo foi aqui. Amo esta cidade.
A partir da capital rodei o mundo, pessoal e profissionalmente. Desses mais de 40 anos, 24 foram passados no jornal Estado de Minas, por meio do qual prestei bons serviços profissionais. Lá, trabalhei de repórter de setor (nomenclatura dada ao iniciante) a editor, de Agropecuária, Meio Ambiente e Economia. Lá, ganhei Prêmio Esso de Jornalismo, Prêmio Fenaj de Jornalismo e outros.
Do jornal Estado de Minas fui trabalhar, nesta ordem: no extinto Diário de Belo Horizonte, Hoje em Dia, Gazeta Mercantil, Fundep e prestei assessoria de imprensa a várias instituições. Publiquei centenas de reportagens. Tenho quase todas arquivadas. Por último, retornei ao Hoje em Dia onde fiquei até novembro de 2013.
Sou eternamente grato a Deus e a BH. Conheci a Europa, EUA, Israel, países da América do Sul (Equador, Colômbia, Argentina, Uruguai e Paraguai) e a Ásia (Japão, China, Coréia do Sul, Hong Kong, Tailândia e África do Sul). Fiz o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, duas vezes. Foram 500 e depois mais de 800 quilômetros, a pé, em 2001 e 2002. Fiz o Caminho da Fé quatro vezes, de Águas da Prata ao Santuário de Aparecida do Norte, também a pé, 300 quilômetros pela Serra da Mantiqueira.
A essa altura, o leitor paciente deve estar se perguntando: “Afinal, aonde esse cara quer chegar?” Quero chegar ao ponto de dizer que, depois de tudo, estou de malas prontas para viver o que me resta de vida (espero estar na metade) em Grão Mogol, cidade localizada na divisa do Norte de Minas com o Vale do Jequitinhonha. Terra natal do amigo Lúcio Bemquerer, que costuma dizer: “Há três cidades maravilhosas no mundo, nesta ordem, Grão Mogol, Rio de Janeiro e Paris”.
Concordo plenamente com ele. Aliás, é preciso dizer, a minha relação com Grão Mogol foi amor à primeira vista. Como montesclarino, nascido pelas mãos de Irmã Beata, nunca havia visitado Grão Mogol, distante de MOC só 143 quilômetros. Podia ter ido lá até mesmo a pé, de tão viciado em caminhadas. Gastaria menos de uma semana andando a média de 30 quilômetros por dia. Foi preciso morar esse tempão todo em BH para, há questão de dois anos, conhecer Grão Mogol.
Foi assim: o abençoado empreendedor Lúcio Bemquerer construiu lá o maior presépio do mundo perene e a céu aberto e me chamou para ajudar a divulgar a boa nova. Fui. Ao chegar lá senti forte sensação. Conclui: “Eis aqui o meu lugar”. Ao retornar a BH, passei dois anos martelando no íntimo do coração, onde os sonhos se realizam antes de concretizarem: “Vamos morar em Grão Mogol”.
Ajudou muito nessa decisão o fato de BH ter se transformado tanto ao longo de quatro décadas. Apesar do amor pela capital, é preciso admitir, a cidade está cada dia mais insuportável. O trânsito de veículos e de gente deixa qualquer um doente, tamanho o estresse. O ar poluído das grandes cidades provoca câncer. A constatação é da Organização Mundial de Saúde (OMS). A violência inibe as pessoas saírem de casa e nos impede de frequentar determinados lugares. As distâncias estão cada vez maiores. Aqui, o perto é longe. Como em São Paulo, outra cidade inviável em termos de falta de qualidade de vida.
Grão Mogol é hoje, depois de décadas parada no tempo, um terreno arado pronto para o plantio. É cidade histórica. Mas não se parece com nenhuma outra porque possui luz própria.
Grão Mogol lembra a Montes Claros da meninice, quando as famílias se sentavam às portas das casas para conversar e chupar picolé ou sorvete a fim de amenizar o calorão. Montes Claros de hoje está como BH atual. Cresceu. Virou metrópole. Absorveu todos os problemas verificados nas grandes cidades.
Em Grão Mogol, a pretensão é de semear sementes selecionadas para produzir bons frutos. A região é como um clube campestre. Por onde a gente anda há lindas paisagens e água em profusão. Lá o ar é puro. É possível viver bem naquele lugar. Tem qualidade. Lembra pueblos espanhóis.
Um dado importante: quem vai para Grão Mogol vai só para Grão Mogol. Quem quiser ir de lá para qualquer outro lugar precisa voltar. Esse impedimento geográfico torna a cidade um lugar seguro. Além do que a polícia vive de olho nos visitantes. À menor suspeita, aborda os desconhecidos a fim de saber o que pretendem ali.
Em virtude disso, as portas e as janelas das casas ficam abertas. Os vizinhos trocam oferendas. Todos se conhecem. O catálogo telefônico da cidade registra não o nome das pessoas, mas o apelido. Lá se pode subir serra e descer encostas. Cavernas várias convidam à visitação. O presépio atrai visitantes da região, do Brasil e do exterior. E acaba de receber uma bênção sacerdotal do Papa Francisco.
Por tudo isso e mais algumas coisas, neste dia 13 de janeiro de 2014 faço, aqui, para quem interessar possa a prestação de contas. Afinal, devo uma satisfação aos amigos. Claro, estamos indo – eu e Sílvia – mas não significa abandonar definitivamente BH. Não. Volta e meia estaremos aqui. Com internet se pode estar em qualquer lugar do mundo.
Como fixar residência novamente em Montes Claros é a mesma coisa de ficar aqui, não volto pra lá. Volto pra região onde as raízes estão plantadas, com muita vontade de assim ganhar asas.
Que Deus abençoe e guarde a todos os amigos – e os inimigos, acaso houver algum, pois não sei de nenhum. E, claro, nós incluídos.


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Por Alberto Sena - 6/1/2014 14:03:38
A faca, o queijo e a goiabada cascão

Alberto Sena

Encontra-se em gestação e possivelmente dentro de nove meses veremos a publicação de um livro especial sobre Montes Claros e os seus personagens da vida política, socioeconômica e showçaite, “mormente” – usei muito essa palavra no tempo do inesquecível “O Jornal de Montes Claros”, do jornalista Oswaldo Antunes – mormente a partir da década de 30, com destaques para as décadas de 60 e 70. O livro está sendo elaborado pelo administrador de empresa Wagner Gomes, baseado no acervo de fotos deixado pela mãe dele, Maria das Dores Guimarães Gomes, dona Dozinha, herança do marido dela, José Gomes, e que foi sendo ampliado por ela ao longo desses anos. O acervo agora é administrado por Wagner.
Imagino, será um livro riquíssimo. A gente sabe, uma foto vale por mais de mil palavras. Um acervo de mais de 2.400 fotos, boa parte delas inseridas em livro, devidamente acompanhado de textos curtos identificando os personagens e contextualizando o acontecimento ali registrado, só pode ser considerada uma publicação rica, senão relíquia.
Se, de fato, uma foto vale por mais de mil palavras, um livro com umas 250 fotos, a título de exemplo, terá quantas mil informações? No mínimo acredito mais de 500 mil informações a respeito desta nossa cidade, amada de paixão, que precisa ser mostrada e explicada para as gerações atuais e principalmente para as vindouras. Afinal, Montes Claros é cidade peculiar. E a sua gente, principalmente.
Após o falecimento de sua mãe, Wagner Gomes, esmiuçador da política mineira e brasileira em belos artigos publicados na revista “Viver”, de Paulo César Oliveira, o PCO, ficou com a responsabilidade de aumentar o acervo de fotos. Quase diariamente, ele publica as fotos no Facebook, para alegria de milhares de montesclarinos espalhados por esse Brasil varonil, porém um tanto mal frequentado por certos políticos, a nos deixar com a cara no chão de vergonha do que fazem indevidamente usando o nosso nome.
Pelo que já pudemos ver nas fotos, o conterrâneo deitará e rolará com a publicação do livro. Desde já, imagino o título, mas não adianto nada para não comprometer o impacto da publicação, porque promete ser das mais importantes. Correrá o mundo. Aonde existir um montesclarino ou quem admire Montes Claros, lá estará um exemplar do livro. “Maktub”. Ao final, nós todos teremos de admitir, não deve haver em Minas Gerais nenhuma cidade com sua história tão bem contada em livros como a de Montes Claros, a começar pela obra do inesquecível Hermes de Paula.
Considerando a sua importância, acredito, a publicação mexerá com muita gente, montesclarina ou não. Conheço uma pá de gente nascida em outras plagas, que gostaria muito de ter nascido em Montes Claros. A cidade, com o tamanho do seu coração, acolheu muitos nascidos em outros lugares, gente que diz hoje em dia com o maior orgulho, “sou de Montes Claros” nessa terra onde o chão passou a tremer de medo, certamente, das dinamites interessadas nos dólares provenientes da exploração de minério de ferro e pedras para a indústria de cimento.
Não tenho o dom de vaticinar nada, mas consigo visualizar como será a capa do bendito livro, desde já visto como preciosidade. Muita gente irá ao lançamento em Montes Claros e Belo Horizonte e haverá uma corrida às livrarias para adquirir um ou mais exemplares a fim de presentear amigos, parentes e quem mais alimentar o desejo de um dia ser adotado como cidadão honorário montesclarino.
Na empolgação para falar da novidade, desculpem-me, esqueci-me de alertar no início deste texto: tudo lido até aqui não passou de fruto da imaginação deste escrevinhador. Se Wagner Gomes tem ou não intenção de fazer do acervo de fotos um livro, sinceramente, ele nunca me disse nada. E nenhum passarinho me contou absolutamente nada a respeito de qualquer possibilidade nessa direção.
Mas bem que o conterrâneo podia pensar nisso, e coloco aqui tudo como uma sugestão. Porque você, caríssimo leitor, há de me dar razão quando imagino tudo isso: a faca, o queijo e a goiabada cascão estão nas mãos de Wagner.
Ele só não partirá o queijo pra comer se não quiser ou se não gostar de goiabada cascão.


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Por Alberto Sena - 23/12/2013 09:57:23
“Indústria da seca”
(Ou, a galinha dos ovos de ouro)

Alberto Sena

Para o engenheiro agrônomo Reinaldo Nunes de Oliveira – o Reinaldinho –, coordenador técnico da Emater-MG, o Norte de Minas amargou, neste ano, a “pior seca dos últimos 50 anos”, disse ele em artigo. Os prejuízos, na contabilidade dele, “ultrapassam a casa dos R$ 500 milhões, considerando as perdas de duas safras consecutivas de grãos, 2011/2012 e 2012/2013, e mais de 60% da produção de leite estimada em 600 mil litros/dia”.
Será que dá para dormir com um barulho deste? Como historia Reinaldinho, “a seca no Brasil data da época do império”. É cíclica. Nuns anos é de seca mais rigorosa noutros menos, mas o problema climático é antigo, anterior ao Brasil colonial. É, como se diz, “velho pra encardir”.
O próprio Dom Pedro I teve o bom senso de se ocupar com os efeitos da seca, como disse o agrônomo. Chegou ao ponto, imagina, de pôr “a coroa a prêmio para implantação de infraestrutura de convivência com a seca (...)”.
“Convivência”, a palavra-chave para abrir definitivamente a porta de entrada da solução do problema denunciado, na literatura, por Graciliano Ramos, no livro Vidas Secas; em filmes e no dia a dia pela mídia e por milhões de brasileiros. Uma coisa é criar infraestrutura capaz de conviver bem com a seca, de modo à quase nem sentir os seus efeitos. Outra, humilhante, é transformá-la em indústria.
A seca já serviu de plataforma para muitos políticos inescrupulosos. Dela fizeram e ainda fazem uso sem se sensibilizarem com o sofrimento de milhões de famílias, no sertão, mortas à míngua ou que tiveram de engrossar a massa em cidades como Montes Claros, a fim de se livrarem do sofrimento. Ou para sofrerem de outro modo.
Diante do quadro da seca repetido há séculos, no Norte de Minas, é o caso de apontar de dois um descaminho ou os dois simultaneamente para explicar o porquê de a região ainda sofrer com os maus humores climáticos: incompetência e ladroagem.
Até nós mais bobos sabemos, ao redor do mundo há cidades brotadas na areia do deserto. Criaram-se até rios para esverdearem a paisagem em lugares onde nem se plantando daria alguma coisa.
Alguém pode concordar e tentar justificar: “Nesses lugares rolam os petrodólares”. Claro, criar infraestrutura para tornar sadia à convivência da vida no Norte de Minas com a seca é preciso investir, sem roubalheira, na criação de meios capazes de atenuar os rigores climáticos. Quais sejam?
Com a palavra, os técnicos. A este escriba compete denunciar e cobrar soluções para os problemas socioeconômicos, políticos e ambientais, não necessariamente nesta mesma ordem. Se os técnicos daqui não têm ideias, busquem tecnologia no exterior. Em Israel, onde a irrigação é feita gota a gota, ou em outros países do Oriente Médio construtores de maravilhas em pleno deserto.
O que não pode mais continuar acontecendo – e se continuar a culpa é da própria sociedade norte mineira, apática, incapaz de tomar atitudes – é esse desgastante ciclo de secas, enquanto rios de dinheiro público jorram fazendo a riqueza dos detentores do poder, políticos eleitos porque prometeram indevidamente pôr um fim ao problema crônico.
A infraestrutura para assegurar aos norte mineiros boa convivência com a seca, segundo o agrônomo da Emater, está ao alcance, mas falta observamos, atitude política: “A construção de barragens nos rios e córregos ainda perenes, sistemas de abastecimento de água para os municípios do semiárido, reativação da construção das barragens de Berizal e Congonhas”.
“Caso contrário”, ele encerra o artigo com uma grave advertência, “o sistema de abastecimento de água de Montes Claros entrará em colapso”.
Medidas paliativas não irão criar infraestrutura para a convivência do sertanejo com a seca. Não irão levar empreendedores a investir economicamente na região.
Se o problema dos políticos e dos técnicos é, além da corrupção, falta de criatividade e competência para encontrar soluções, se lessem estas linhas com atenção encontrarão, aqui, caminhos para acabar com os descaminhos e a nossa vergonha de ver a seca sendo usada politicamente entra década sai década.
Devemos ou não aguardar a chegada de outro personagem com a coragem de Dom Pedro I? O do grito: “Independência ou Morte”. Reeditado, hoje, o grito seria dirigido aos políticos, às margens do Rio Verde Grande: “Competência e ética ou morte”.


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Por Alberto Sena - 16/12/2013 08:15:43
Aura sertaneja

Alberto Sena

Montes Claros, “Coração Robusto do Sertão”, no dizer de Francisco Sá, devia aprender a ganhar no dia a dia com a sua alma sertaneja, e até com a denominação do que lhe é intrínseco, cultural e turístico.
Imagina se ao trafegar pela Rua Dr. Santos, antes chamada Bocaiúva de uma ponta a outra, a gente descesse a Rua da Pitomba (eira)? Nada contra, evidentemente, o Dr. Santos, personagem até hoje considerado o maior administrador da cidade.
Dentro desse ideário, imagina se possível fosse mudar, duma hora para outra, os nomes das vias públicas da cidade. Ao invés de nomes de pessoas, receberiam denominações de árvores frutíferas e, também, das próprias frutas, flores, aves e animais quadrúpedes endêmicos do sertão norte-mineiro.
Particularmente, acharia ótimo nascer na Rua do Pequizeiro, uma das árvores mais generosas e importantes, sob todos os aspectos. Copa aberta, folhas, flores, tronco e galhos delicados, frágeis na sua rusticidade, os frutos do pequizeiro são riquíssimos. São complexos vitamínicos, e só isso justifica o cultivo dessa bendita árvore chamada de “Esteio do Cerrado” por Téo Azevedo, ganhador do Grammy.
Identificar as vias públicas com nomes de personalidades estimula de alguma forma, a vaidade e o uso político dessas pessoas homenageadas post mortem. Se ao contrário, os nomes fossem retirados das características que dão alma ao sertão e nele fazem brotar frutos endêmicos, Montes Claros a essa altura irradiaria sua luz com energia ainda maior.
Praças e ruas com nomes do tipo: da Jabuticaba (beira), do Araticum (zeiro), da Cagaita (teira), do Murici (zeiro), do Araçá (zeiro), da Pitanga (gueira), da Mangaba (beira), do Jenipapo (peiro). Bairros com nomes de árvores: do Cedro, do Angico, da Aroeira, da Imbuia, da Peroba. Logradouros com nomes de rios: Verde Grande, São Francisco, Urucuia, Lapa Grande. E com nomes de insetos: do Carrapato, do Marimbondo, da Abelha, da Muriçoca e assim por diante. O clima da cidade seria ainda mais hospitaleiro.
Wanderlino Arruda lembrou bem, semana passada, com o subsídio do historiador Hermes de Paula, os nomes antigos de ruas de nossa cidade. Montes Claros difere das outras cidades. Não precisa copiar nada de fora. Basta utilizar-se dos próprios recursos para arborizar as ruas com as árvores da região.
Já imaginou pequizeiros arborizando as praças? Cagaiteiras derramando os seus frutos no chão todo ano, para alegria de crianças de até mais de 100 anos? Claro, seria necessário colocar os espécimes certos nos lugares adequados. Não se poderia colocar pequizeiro em calçadas, sem o risco de as raízes estourarem o passeio.
Mais do que homenagear os personagens da história da cidade com nomes de ruas seria arranjar lugar para instalar um museu para contar a história da cidade até chegar aos tempos dos nomes que ainda estão acesos na memória, Tiburtina, Cyro dos Anjos, Hermes de Paula, Cândido Canela, Darcy Ribeiro, Mário Ribeiro, João Valle Maurício, Antônio Lafetá Rebello, Simeão Ribeiro Pires, Dulce Sarmento, além de vários outros.
Os europeus costumam explorar ao máximo os recursos turísticos e os valores locais, chegando ao ponto até de vender ilusões, como na Alemanha, onde uma cidade vive praticamente em função das histórias escritas pelos Irmãos Grimm, caso de Bremen.
Como mulher de coragem, Dona Tiburtina mereceria um bom espaço nesse museu. Nos dias atuais, pouco é divulgado a respeito dela, que surpreendeu o País e contribuiu para a chamada Revolução de 30 ao fazer o vice-presidente da República Fernando Melo Viana fugir de ré para BH no mesmo trem que o trouxera a Montes Claros.
Esse museu podia conter ala só de culinária norte-mineira, a partir da carne de sol. Dela se poderia contar a história remontando aos primórdios da região, antes, muito antes do advento da geladeira. O arroz com pequi também faria parte dessa ala e vários outros pratos.
O museu teria encenação permanente da nossa história, com os personagens replicados em cera. Tudo respaldado com literatura pertinente, agregada a vídeos e ao aparato tecnológico atual para bem contar a vida e a obra dos montesclarinos.
“Do tempo do bandeirante Antônio Gonçalves Figueira ao do antropólogo, indigenista, escritor, político etc., professor Darcy Ribeiro”, esta seria a inscrição na entrada.


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Por Alberto Sena - 9/12/2013 08:33:32
“Vamo’simbora” viver

Alberto Sena

Na semana passada faleceram dois amigos da mesma safra de montesclarinos, dos tempos vividos em Montes Claros. Um deles, o dentista Antônio Leão Coelho Filho e o outro, o arquiteto Aliomar Veloso Assis.
É difícil, mas precisamos nos conformar desde sempre, o inevitável vem para cada um quando é chegado o momento. Nada acontece antes.
Não há o que lamentar nos casos de Toninho e Aliomar, sabendo dos bons serviços prestados por ambos à comunidade montesclarina em meio a qual eram queridos. Foram cidadãos exemplares, criaram família, viveram o que para eles estava previamente traçado, apesar da sujeição ao livre arbítrio.
Só existe vida. Essa é a certeza. O que se sucede é como simples ato de atravessar o umbral da porta ou passar pelo parapeito da janela, entrar em dimensão desconhecida. A vida segue o seu curso inexorável e é justamente este o ponto intrincado para quem se encontra do lado de cá e fica a chorar a falta do ente querido.
Cada um tem o direito de encarar o momento derradeiro, neste plano de vida, da maneira como melhor lhe convier. Muitos dirão não temer a morte em si, mas a maneira como tudo poderá se dar, o que não deixa de ser uma forma de evitar encarar a questão de frente. É o que a psicologia chama de “misoneísmo”, o medo do novo, do desconhecido.
Mas há algo mais antigo do que a morte? Já devíamos estar acostumados com ela. Muitos dirão, falar é fácil, vivenciar as situações é difícil.
Com Toninho Leão e Aliomar tivemos convivência durante o período de adolescência e início da fase adulta, quando a Praça de Esportes viveu dias de efervescência, centro onde acontecia quase de tudo em matéria de esportes e diversão.
De Aliomar guardo os dias em que disputamos peladas na pista gramada da Praça de Esportes e também disputas de pingue-pongue debaixo do telhado próximo da piscina grande. Foi um convívio rápido. Não nos encontramos mais depois dos 22 anos de idade.
Sobre Toninho, embora o convívio também tenha sido curto, marcou-nos mais três acontecimentos que aproveito o ensejo para narrar. O primeiro foi no final da década de 50. Tínhamos de participar, no cine Coronel Ribeiro, de uma chamada da Escola Normal Professor Plínio Ribeiro para o início da nova turma de alunos entrantes na 1ª. Série ginasial.
Todas as cadeiras estavam ocupadas. Acostumado a frequentar o cine aos domingos, duas horas da tarde, quando a meninada gritava ao surgir na tela um dos caubóis da época, Rock Lane, Roy Rogers e Rex Alen, era estranho estar ali para participar de algo nada relacionado com cinema.
Sentado ao meu lado se encontrava um adolescente desconhecido, vibrante, irrequieto. Logo travamos conversação dividindo as expectativas de a qualquer momento surgir alguém no palco para prestar informações a respeito do início do curso. Antônio Leão Coelho Filho era o nome dele.
Qual não foi a nossa surpresa, dias depois ao descobrirmos, éramos colegas de sala?! Sentamo-nos juntos casualmente ali no cine Coronel Ribeiro. Fomos, em seguida, selecionados para a mesma classe. Achamos isso uma boa coincidência. Anos depois, em finais da década de 60, encontramo-nos novamente no TG 87 – Tiro de Guerra.
Depois disso, a corrente da vida nos separou e dele tinha notícias esporádicas, até receber a nota de seu falecimento por meio do Facebook.
O outro lado, o lado dos que vão e não voltam mais, deve ser um lugar maravilhoso. Nunca ninguém voltou em carne e osso para contar. Particularmente, tenho curiosidade em saber, mas como nesse campo todo tipo de especulação é possível, prefiro aguardar o meu momento, sem me preocupar com o tema porque seria estupidez querer lutar contra a corrente natural da vida.
Enquanto isso, o melhor a fazer é viver. E viver com qualidade para aproveitar ao máximo de todo momento porque, sabemos, mais dia menos dia...
Quando nascemos morremos para a vida uterina. Nascidos para o mundo, vamos morrendo todo dia, até o momento definitivo. O melhor a fazer é nos solidarizarmos com os parentes dos que já foram e cada um procurar viver a própria vida sem se ocupar com a vida alheia. Viver é o verbo a ser praticado.
A vida é bela. O planeta é lindo. Precisamos ter olhos de ver e alma de viver as belezas encontradas em derredor.
Como ninguém sabe a hora, ‘vamo’simbora’ viver.


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Por Alberto Sena - 5/12/2013 14:31:30
Grão Mogol tombada - Alberto Sena - O Núcleo Histórico de Grão Mogol, no Vale do Jequitinhonha, será tombado pelo patrimônio público municipal e estadual. O processo de tombamento está em curso, conforme noticiou hoje o promotor de Justiça, Marcos Paulo de Souza Miranda, coordenador da Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Histórico, Cultural e Turístico do Estado de Minas Gerais. Ele conduziu uma audiência pública na Casa da Cultura para tratar do tombamento do Núcleo Histórico da cidade com a participação cerca de 120 pessoas.
O promotor garante o interesse de todos em assegurar a preservação do Núcleo Histórico de Grão Mogol o quanto antes “para evitar o que se deu em Conceição do Mato Dentro, com a presença de mineradoras”. Grão Mogol tem características próprias, é histórica, data do século 18, mas não se parece com nenhuma das demais cidades, como Diamantina e Ouro Preto.
Participaram da audiência membros do Conselho Estadual do Patrimônio Cultural (Conep), órgão colegiado, deliberativo, subordinado à Secretaria de Estado de Cultura. Ao Conep compete deliberar sobre diretrizes, políticas e outras medidas em defesa e preservação do patrimônio cultural do Estado de Minas Gerais. Decide sobre tombamentos e registros de bens culturais.
Com o tombamento, Grão Mogol terá alguns benefícios em curto prazo, e alguns deles citados pelo promotor são: aporte de recursos para o núcleo; valor agregado aos imóveis; diretrizes específicas sobre padronização, o que pode e o que não pode fazer; vedação a torre de telefonia; todo cuidado com a altimetria das construções; fim da poluição visual; rede elétrica subterrânea, entre outras vantagens.
“Os estudos estão sendo feitos tendo por base um trabalho consistente; temos razões de sobra para isso”, disse o promotor. Grão Mogol, dentre os 853 municípios mineiros, ficou entre os 29 que terão os benefícios do tombamento. Segundo ele, “o que não impede o crescimento e o desenvolvimento”.
Conforme os estudos em curso, o tombamento vai ser feito a partir do Presépio Natural Mãos de Deus, na Rua Hilário Marinho, 160, passando pela Praça São Sebastião; e do outro lado, lateral do Ribeirão do Inferno até o Núcleo Histórico, onde a Rua Cristiano Relo é a mais famosa, também chamada de Rua Direita.
AÇÃO CIVIL
O promotor Marcos Paulo Miranda informou ter entrado com uma Ação Civil Pública contra o Estado de Minas Gerais, pela regularização de fato do Parque Grão Mogol. Segundo ele, “o parque existe só no papel”. Apenas 17% da sua área de 28 mil metros quadrados estão regularizadas. O parque carece de tudo, desde guardas, veículo, centro de visitante “e possui potencial enorme”.


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Por Alberto Sena - 2/12/2013 08:06:58
Tempos montesclarinos

Alberto Sena

Quando principiava o fim do ano, os meninos e as meninas gostavam mais de Montes Claros. No final do ano, com a chegada das férias escolares, a cidade recebia mais gente de fora. Os montesclarinos estudantes em BH retornavam, e, então, Montes Claros vivia uma festa.
Para tudo ficar mais gostoso, o principiar do fim do ano coincidia, e ainda coincide, com as chuvas benfazejas e a safra das frutas do Cerrado, tendo pequi como o principal personagem da festa, essa que infesta até hoje o sertão.
Só não enxergava a festança quem não tinha olhos de ver. Uma ida ao Mercado Central bastava para tirar dúvida quem porventura tivesse alguma.
Ind’agorinha, quem quiser encontrar pequi, manga de espécies várias; pitomba, tamarindo, pinha e outros frutos, é só ir lá, de preferência a pé, porque o trânsito de veículos está insuportável. Mas não se apoquente, vai piorar um pouco mais.
O Mercado Central, como ia dizendo, é um dos atrativos de Montes Claros. Não sei se ainda é possível, mas algum tempo atrás, compravam-se doces, em barras, de marmelo, de cidra e de mamão. E, claro, como não poderia deixar de ser, carne “serenada” também. Essa história de “carne de sol” é balela.
Com o advento da geladeira, a carne de sol verdadeira, aquela exposta à luz solar, desapareceu. Se existe ainda é lá pros cafundós, porque o que se faz por aí é salgar a carne e deixá-la no varal, quando muito, ou pendurada nos ganchos dos açougues. Isso pode ser feito em qualquer lugar. Depois é só batizar: “Carne de sol de Montes Claros, de Frei Inocêncio, de...”
No tempo em que a geladeira não existia no Norte de Minas, era comum salgar a carne para garantir o consumo nos dias seguintes. A carne era exposta ao sol. Desidratada, tornava-se “carne seca”. E havia quem a comesse tirando lasca, cozida ao sol.
Montes Claros ganhou fama com a “carne de sol”. Ainda hoje, aqui, em BH há quem peça “carne de sol” ao saber da ida de alguém ao Norte de Minas. Há quem se lembra do requeijão, “de Salinas, uma delícia!” Sem falar da cachaça. “Pinga, eu tomo é tendo”, dizia o jornalista Hélio Ferreira César, da época do jornal Estado de Minas. “Não tendo, não tomo”, emendava.
Apesar de todo o crescimento desordenado, a cidade e a região conservam particularidades que lhe deram fama. Houve um tempo em que possuiu cassino. E vinham jogadores de todos os cantos tentarem a sorte, dispostos matar ou morrer.
Depois da proibição dos cassinos, Montes Claros passou a ser conhecida como terra do boi. Imagina, teve até frigorífico, o Frigonorte. Depois do boi, ganhou fama com o distrito industrial, no auge da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), que tinha no economista e sociólogo Lúcio Bemquerer um baluarte.
Depois veio o período do carvão vegetal, seguido do “ouro branco”. Não fosse o bicudo, o algodão estaria fazendo a riqueza do Norte de Minas até hoje. Aos poucos, a produção vai sendo retomada com o cultivo de espécie resistente à praga.
Montes Claros tornou-se conhecida também pela cultura, disseminada por Cyro dos Anjos e Darcy Ribeiro, só para citar dois grandes; além da sua imprensa, que na década de 60/70 revelou valores para a mídia da capital e de fora do Estado.
Montes Claros, enfim, ganhou o Brasil e o mundo por meio do comércio forte de cidade polo de tudo vindo do Nordeste brasileiro. O que se acentua mais ainda nos dias atuais com a BR 251, já pedindo socorro, precisando ser duplicada.
Montes Claros, enfim, tornou-se conhecida mesmo como terra de mulher bonita. Gente queimada de sol do sertão. E pela hospitalidade, que muitas vezes lhe valeu abuso de gente inescrupulosa.
Sobrevivente a tanta administração pública sofrível, não serão os tremores de terra que impedirão Montes Claros de seguir a sua sina de cidade polo.
E aproveitando a oportunidade desta conversa à mesa, ao redor da panela de arroz com pequi, as eleições vêm aí.
É importante, desde já, fazer alongamento, esquentar os músculos para exercitar o senso crítico, político. “O pior analfabeto é o analfabeto político”, dizia Bertolt Brecht, dramaturgo alemão.
Não se pode deixar a violência urbana e a ação dos maus políticos mudarem a boa fama de Montes Claros. Sob o risco de comprometimento das gerações de hoje e as futuras.


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Por Alberto Sena - 21/11/2013 08:13:30
Papa Francisco envia bênção ao Presépio de Grão Mogol

Alberto Sena

Uma carta do Papa Francisco pegou de surpresa o sociólogo e economista Lúcio Bemquerer, construtor do Presépio Natural Mãos de Deus, tido como o maior do mundo, em Grão Mogol, Norte de Minas/Vale do Jequitinhonha.
Às vésperas de a obra completar dois anos, “foi gratificante receber a Bênção Apostólica enviada pelo Papa a todos nós, a mim, a minha família e aos quase 40 mil romeiros que já visitaram o presépio e também aos que ainda visitarão, pois é para todos”, disse Bemquerer.
Logo após a inauguração da obra, quando o cetro papal ainda estava com o alemão Bento XVI, Bemquerer ia formalizar o convite ao Papa para visitar Grão Mogol, a fim de conhecer o presépio. Mas, logo, ele passou o cetro papal a Francisco, e a ele Bemquerer escreveu pedindo uma bênção especial, quando da sua recente visita ao Brasil.
Agora, por intermédio do arcebispo metropolitano de Montes Claros, Dom José Alberto Moura, o Papa Francisco enviou uma carta abençoando a todos, Bemquerer, a família dele e os romeiros que visitaram e os que ainda vão visitar o presépio.
O construtor do presépio se mostrava radiante com o recebimento da carta, assinada por Dom Agnelo Becciu, da Secretaria de Estado de Sua Santidade, já que o Papa não assina correspondência, explicou Bemquerer.
Eis a íntegra a carta do Papa: “Sua Santidade o Papa Francisco alegrando-se com a benemérita iniciativa evangelizadora do Presépio Natural “Mãos de Deus”, na cidade de Grão Mogol, do Estado de Minas Gerais, saúda o seu autor, o senhor Lúcio Bemquerer, familiares e todos os romeiros que o visitam. A contemplação do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo revigore o seu compromisso cristão como construtores de paz, fraternidade e harmonia. Com estes sentimentos e votos o Santo padre pede oração a todos e a todos concede como penhor de constante assistência divina, a implorada Bênção Apostólica”.
No catolicismo, é tradicional a Bênção Apostólica que o Papa invoca sobre todos os que a recebem. Como sucessor de Pedro e Vigário de Cristo, ele tem essa dignidade, segundo a visão da Igreja Católica Apostólica Romana.
O Presépio de Grão Mogol vai completar dois anos em 9 de dezembro próximo. Desde a inauguração, a obra desperta a atenção de cristãos de toda parte, de Minas, do Brasil e do exterior.
ESTRELA GUIA
O grupo Estrela Guia, de Folia de Reis, composto de 20 membros liderados por Jailson Varjão, de Montes Claros, fará uma apresentação no presépio, às 20h deste sábado. Segundo Jailson, “nós vamos reverenciar o presépio e fazer “guaianos” a Nossa Senhora, a Mãe de Jesus”. A apresentação será gravada e transmitida pela TV Cultura.
(Mais informações: 38 3238-1316, Presépio Mãos de Deus, Grão Mogol).


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Por Alberto Sena - 18/11/2013 11:27:46
De pequi e do fim do Rio São Francisco

Alberto Sena

O ar de Montes Claros denuncia a chegada da safra de pequi. Nesta época, o cheiro exala das portas e das janelas das casas. Quem quiser comprovar isso, basta andar pelas ruas dos bairros de Montes Claros para sentir o aroma delicioso, estimulador do apetite, exalado da panela de arroz com pequi na cozinha de todas as casas.
Disse todas? Corrijo: quase todas, porque há quem não gosta de pequi. Quem gosta nunca fica sem roer algumas dezenas todo ano. Até congela e tem pequi o ano inteiro. Quem não gosta, detesta. Faz cara de muxoxo.
A minha relação com o pequi é telúrica. E vem de longe. O corpo fala. Às vezes, exige. Ai de mim se não conseguir satisfazer o desejo do corpo de usufruir das vitaminas, dos sais minerais e da gordura saudável do pequi. Se isso acontecer, um dia, é capaz de a terra tremer. O que não é impossível se for levado em conta as ocorrências de tremores em Montes Claros, capacidade adquirida não se sabe por que cargas de dinamite, quer dizer, d’água.
Houve uma vez, década de 70, vindo da capital, de trem, o vizinho de cabine-leito era o poeta Cândido Canela (1910-1993). No embalo do sacolejo do trem, vendo a paisagem sertaneja passar veloz, regamos conversa sobre política brasileira. Falamos baixo porque as ferragens do trem podiam ter ouvidos em tempo de ditadura militar.
Conversamos sobre os livros “Lírica e Humor do Sertão” (1950) e “Rebenta Boi” (1958), para logo abordarmos a inevitável defesa da bendita árvore chamada por Téo Azevedo de “Esteio do Cerrado”, Sua Excelência, o Pequizeiro.
Cândido debulhou como se debulha milho a sua luta em defesa do pequizeiro; mencionou uma Lei Municipal de sua autoria criada para proteger o pequizeiro; lembrou o acordo tácito existente no sertão, onde o sertanejo dependente não levanta o machado para o pequizeiro; analisou, enfim, a importância socioeconômica do pequizeiro, de cujos frutos dependiam e ainda dependem milhares de famílias no sertão brasileiro.
O tempo passou voraz, mais veloz do que o trem de ferro do sertão, estupidamente vítima dos governos, da ganância de ‘lobitas’ rodoviários e da indústria automobilística. Veio, então, a década de 80. Depois de uma série de reportagens publicadas no jornal Estado de Minas, conseguimos a edição de uma portaria proibindo o abate de pequizeiros no território nacional.
Na época, havia o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), hoje Ibama. O superintendente do IBDF, Antônio Gonçalves telefonou de Brasília para informar: “Neste momento, assino uma portaria (...)” que os defensores do pequizeiro, como Cândido Canela, Téo Azevedo, Hermes de Paula e tantos outros ansiavam.
E por falar em Hermes de Paula, ele desmitificou a acreditada capacidade afrodisíaca do pequi. Segundo me disse uma vez, o pequi não possui substância afrodisíaca. O que acontece é que se trata de um complexo vitamínico. É riquíssimo em vitamina A, principalmente.
O sertanejo, explicava Hermes, passa mal boa parte do ano à espera do pequi. Quando vem a safra, ele se farta de pequi. Fica bem alimentado, forte “e nove meses depois nascem os filhos do pequi”.
Lá em casa, três da nossa família fazem aniversário no mês de setembro. Meu pai (in memorian), Wanda, minha irmã, e eu. Fomos concebidos, então, em plena safra do pequi. Somos, portanto, filhos do pequi. Daí a força da nossa relação telúrica com o Cerrado e os seus frutos.
Quem conhece os frutos do Cerrado não morre de fome acaso perdido e sem comida no meio do mato. Temos cagaita, araticum, araçá, jenipapo, marmelada de cachorro, pitomba, goiabinha, cajuzinho do mato e tantos outros.
Garanto, a essa altura da conversa, se Cândido Canela e Hermes de Paula estivessem no meio de nós estariam enfronhados numa baita campanha de salvação do Cerrado Brasileiro, que míngua a cada ano.
Do Cerrado, guardião das veredas, potenciais rios, depende o Rio São Francisco, fadado a desaparecer do mapa sob a indiferença da mídia brasileira. Dentro de duas décadas, o rio da integração nacional será tragado, enfim, pela irresponsabilidade e a maldade dos governos federal, estaduais e municipais; dos empresários, que envenenaram as suas águas e da própria sociedade brasileira, apática, que, no mundo do faz de conta, não enxerga problema de tamanha gravidade e importância.


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Por Alberto Sena - 14/11/2013 17:46:59
Prêmio ao presépio de Grão Mogol

Alberto Sena

Perto de completar dois anos, em 9 de dezembro, o Presépio Natural Mãos de Deus, de Grão Mogol, Norte/Vale do Jequitinhonha tornou-se o mais atraente marketing para o turismo religioso da região. Considerado o maior do mundo, na categoria de “natural, perene e a céu aberto”, a notícia do presépio ecoa cada vez com mais força pelo Brasil e o mundo e da maneira como se pode espalhar com mais eficiência uma boa nova, por meio do boca a boca, principalmente.
No dia 13 deste mês, no auditório da Fiemg, o presépio foi “Hors Concurs” no prestigiado “Prêmio Primeira Linha” idealizado pelo jornalista José Lopes, do Jornal Primeira Linha, de Belo Horizonte. A promoção elege personalidades empreendedoras e homenageia cada uma delas nas categorias “Prata, Ouro, Diamante e Hors Concurs”. Trata-se, segundo Lopes, “da maior festa de confraternização e valorização do Quem é Quem de Minas Gerais”.
Quem conheceu o início da promoção dele vai se recordar de que o “Prêmio Primeira Linha” surgiu a partir do “Prêmio Confiança & Trabalho”, concedido pelo jornal “Diário do Comércio”, quando Lopes trabalhava lá. Isto foi no século passado. Com o tempo, a promoção “cresceu e enriqueceu, o que muito se deve à qualidade dos agraciados, que transferiram ao prêmio parte de seu brilho”, comentou o jornalista.
Prestígio. Isso explica o fato de a premiação ter sido concedida ao construtor do presépio, Lúcio Bemquerer. A obra, feita em oito meses, evidentemente, é o centro das atenções, mas não se pode negar, o prestígio do empreendedor influiu ao dar mais fluência à notícia de que o maior presépio do mundo havia sido construído em Grão Mogol.
Lúcio tem trânsito e reconhecimento nas áreas política, empresarial e social. Desde que voltou, definitivamente, para Grão Mogol, em 2010, a cidade ganhou mais evidência. O presépio é o maior sinal do desprendimento dele, que não faz uso político do prestígio desfrutado. O presépio é o cumprimento de uma missão que, em breve, Lúcio vai contar em livro de memórias.


76443
Por Alberto Sena - 11/11/2013 08:04:03
A 1ª calça jeans ninguém esquece

Alberto Sena

A minha primeira calça jeans era da marca Lee. Foi de segunda mão. Cícero Cruz, “Cuecão” apelidado, veio um dia oferecer a calça embrulhada num papel. Era artigo raro em Montes Claros, naquela época, década de 60.
Os Beatles estouravam no mundo e aqui concomitantemente os hoje velhinhos Chico, Caetano, Gil, Roberto Carlos e outros da mesma safra, ainda em atividade, comandavam os espetáculos, que nos chegavam via rádio e jornais porque TV ainda era chuvisco com bucha de aço na antena.
“Cuecão” chegou com o seu jeito “chapleniano” de andar e perguntou se interessava pela calça. Era desbotada, e por ser desbotada, disputada pela moçada porque tinha semelhança com as calças dos artistas estadunidenses vistos nas telas dos cines Coronel Ribeiro, Fátima e São Luís.
Montes Claros e o Brasil viviam os dias mais tormentosos da ditadura militar, no final da década, com censura prévia à imprensa. No “O Jornal de Montes Claros” havia um militar na redação. Ele lia as matérias antes de serem entregues aos linotipistas Andrezzo e Milton.
A moeda corrente era Cruzeiro e foi preciso pedir dinheiro emprestado para comprar a calça Lee desbotada porque “Cuecão” já se dispunha a oferecer a relíquia a outro. A calça ficou certinha no corpo. Parecia ter sido feita a propósito. Faltava só experimentá-la com um cinto de fivela grande e prateada para tudo ficar no jeito.
A essa altura da narrativa, o leitor curioso pergunta por que mesmo Cícero Cruz tinha o apelido de “Cuecão”. Salvo engano, porque quando jogava futebol, tanto nas peladas do antigo campo do União como no estádio João Rebello, no Ateneu, ele usava calção abaixo da cintura parecendo cueca caindo.
Apelido explicado, dinheiro repassado a ele, o passo seguinte foi pedir para lavar a calça e depressa deixar pra secar na secadora natural, quer dizer, no telhado da casa. Com esse sol de Montes Claros, o melhor lugar para secar calça jeans é no telhado.
Em pouco tempo a calça estava no ponto de vestir. Era só sacudir. Passar a ferro não convinha, deixava vinco. E calça Lee com vinco, nem pensar.
O gostoso era que se podia usá-la durante uma semana inteira sem tirá-la do corpo. Acontecia de alguém gracejar: “Quando tirar, essa calça irá andando para o tanque”.
Os cabelos eram grandes e a barba também, por um lado estimulados pelos Beatles e por outro para cumprir a promessa feita de deixar tudo crescer, após cumprir um ano exaustivo de Tiro de Guerra.
Ainda hoje calça jeans é a mais recomendável na hora de viajar, principalmente ao exterior, sem precisar encher a mala de roupas. Uma calça jeans, algumas cuecas e camisas resolvem o problema para qualquer homem desprendido de vaidades cultivadas na juventude. Com a vantagem de não precisar carregar mala grande e pesada.
Revisitando aquela época, quando o Brasil se tornou tricampeão mundial de futebol, se pode comparar com os mascates dos velhos tempos os jovens montesclarinos que rumavam para a capital a fim de estudar.
Os mascates foram precursores das novidades. Chegavam à cidade com diversos produtos de cama e mesa, roupas masculinas e femininas e visitavam as casas. Esses tipos lembram os personagens do escritor colombiano Gabriel Garcia Marques, em Macondo, no livro Cem Anos de Solidão.
Quando os jovens estudantes montesclarinos voltavam da capital, nas férias ou em determinadas datas comemorativas, vinham sempre com alguma novidade. A calça Lee foi uma delas e a moda se expandiu como água, de modo que hoje em dia todo brasileiro veste jeans parecido, de marcas várias. No início, as novidades demoravam chegar a Montes Claros. Dependiam dos montesclarinos de BH.
Para corroborar o dito, na década de 60, em Montes Claros, um só conterrâneo tinha aparelho nos dentes. E por isso, ganhou o apelido de “Boca de Ouro”, título do texto de Nelson Rodrigues levado às telas por Nelson Pereira dos Santos, dirigido por Jece Valadão e Daniel filho. Hoje, aparelho dentário está em quase todas as bocas.
As calças Lee ainda existem. Estão por aí disputando espaço com as demais marcas de jeans, qual modela mais o corpo de homens e de mulheres. Mais de mulheres do que de homens.


76403
Por Alberto Sena - 4/11/2013 08:36:17
O jogo da bolinha de gude

Alberto Sena

O tempo de jogar bolinha de gude era percebido nos ares. Vinha precedido de uma sensação transbordante de alegria, e então se sabia necessário palmilhar o quintal pedregoso em busca das bolinhas arremessadas ao léu no final da temporada anterior.
Sempre se podia encontrar uma bolinha de gude no quintal semicoberta de terra. Quando a gente queria encontrar algo perdido bastava concentrar o pensamento no que perdera e imaginar o lugar onde podia estar. Batata! Encontrava fácil. Não precisava apelar para “são longuinho” e muito menos dar três pulinhos.
Feita a prospecção pelo quintal e encontradas algumas bolinhas de gude, bastava. O outro passo era chamar Niro, Xeba, Roldão e outros meninos vizinhos da Rua São Francisco, em Montes Claros. E assim acontecia o milagre das latas cheias de bolinhas de gude, cada uma mais bonita do que a outra.
Linda era aquela em cujo interior havia uma imagem semelhante ao olho de gato. Muitas vezes se podiam dedicar minutos contemplando cada uma. Punha em frente ao rosto no rumo do sol só para visualizar com mais nitidez o interior delas.
Qualquer pessoa adulta que tenha preservado o espírito infantil pode jogar bolinha de gude em qualquer tempo. Mas é importante encontrar um local apropriado, plano e de terra nua e crua. De preferência, com os pés descalços, a fim de manter contato telúrico de primeiríssimo grau.
Pode ser que outras pessoas jogassem bolinha de gude de modo diferente, mas o melhor era abrir um pequeno buraco no chão. Havia um bocado de nomes estranhos pra esse buraco feito no chão. Os meninos de então o chamavam de “biloia”.
Aberta a “biloia”, iniciava o jogo aquele que se aproximasse mais ou conseguisse jogar a bolinha diretamente dentro dela. Quem na primeira jogada acertasse a “biloia” já podia tentar quicar a bolinha do adversário.
Se não conseguisse quicar a bolinha do adversário, este antes de qualquer coisa tinha de jogar a dele dentro da “biloia” para também ganhar o direito de quicar a do outro. O que quicasse a bolinha do outro ganhava uma de prêmio. Daí o ponto mais gostoso da brincadeira.
Pra ser um bom jogador de bolinha de gude era necessário possuir pontaria boa. E, sobretudo, ter um bom manejo dos dedos polegar, indicador e médio. Com o dedo polegar tocando embaixo do dedo médio, era possível armar uma alavanca. A bolinha ficava entre o nó do dedo polegar e o dedo indicador, enquanto se fazia a pontaria.
Convinha aprumar bem a pontaria para alavancar o dedo polegar e arremessar a bolinha na linha traçada pelo olho até a do adversário. Se a pontaria fosse boa não havia bolinha adversária que ficasse no lugar. E dependendo da força colocada na bolinha disparada esta espatifava a do outro.
Quem costumava jogar muito bolinha de gude, o dia inteiro e a noite até a hora de ir para a cama podia ser chamado de viciado. Um menino viciado no jogo de bolinha de gude tinha a unha do dedo polegar rachada. E ficava na carne viva.
Então, se alguém que conservou o espírito infantil, não obstante a rudeza da vida adulta quiser entrar numa de jogar bolinha de gude, é preciso ter muito cuidado. O jogo de bolinha de gude vicia.
O mais gostoso era quando a uma distância de metros conseguia acertar a bolinha do adversário de modo tão certeiro que ocupava o mesmo espaço da bolinha dele, arremessada longe.
Havia outra maneira de jogar bolinha de gude, assim: um triângulo era desenhado no chão e nas linhas dele eram postas bolinhas separadamente umas das outras, formando um triângulo colorido.
Os participantes tomavam uma boa distância, tiravam o par ou ímpar, e o primeiro jogava a bolinha na direção do triângulo colorido. Podia acertar, numa só jogada, várias bolinhas, jogando umas contra as outras.
Hoje em dia existe alguém que ainda jogue bolinha de gude? Pode ser que em algum rincão deste País crianças descalças joguem bolinha de gude abrindo “biloias” no chão. Lá aonde a tecnologia ainda não chegou. Naquele lugar perdido onde as crianças fazem os próprios brinquedos.
A última vez em que a alavanca dos dedos polegar, indicador e médio disparou a última bolinha de gude parece tão recente, como o dia de ontem.


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Por Alberto Sena - 28/10/2013 13:26:15
Sabedoria do velho na esquina da vida

Alberto Sena

No tempo em que se podia sentar à porta de casa com a família e os vizinhos a fim de bater-papo e fugir do calorão, Montes Claros fazia cem anos. Era uma cidade pacata, embora mantivesse a fama de lugar de gentes valentes, haja vista o episódio político de 1930, protagonizado por Dona Tiburtina, mulher do Dr. João Alves, que fez o presidente Melo Viana voltar para a capital de marcha a ré, na Maria Fumaça que o levara a Montes Claros. Dona Tiburtina tornou-se até personagem do jornalista, escritor e deputado federal Fernando Gabeira, no livro “Sinais de Vida no Planeta Minas”.
Ademais disso, Montes Claros, pode-se dizer, era um lugar que tinha qualidade de vida. Acredite, esse tempo existiu. Para não deixar de lembras das pessoas que não perdem a oportunidade de reclamar das coisas, os problemas sempre foram relacionados ao período das águas. Uns anos choviam bem noutros era seca brava.
Naquele tempo em que podíamos sentar nas calçadas com os vizinhos aconteciam de vez em quando um e outro assassinato, inclusive de ordem política. Acontecia de o pistoleiro matar e fugir pra Jaíba.
Jaíba de hoje já foi um lugar onde se podia refugiar e na maioria das vezes a polícia não ousava nem ir lá. Houve inclusive, na década de 60, o famoso caso do posseiro Saluzinho, que enfrentou homens do 10º Batalhão e do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), de Belo Horizonte, escondido numa caverna. Jogaram bombas de gás lacrimogêneo na caverna para obrigá-lo a sair e ele só saiu quando quis. Hoje, Jaíba é sinônimo de prosperidade.
Montes Claros d’agora não dá nem para comparar àquele tempo em que se podia sentar com os vizinhos nas calçadas. O intento nem é fazer comparações, mas lembrar da existência de um tempo assim para que as pessoas possam idealizar algo novo para resgatar a qualidade de vida da cidade.
As cidades grandes precisam parar de crescer. E as médias e pequenas convém ficarem como estão porque não é a expansão horizontal ou vertical sinal do verdadeiro progresso de uma cidade, e sim, como a cidade é cuidada para o bem-estar dos seus habitantes.
Paradoxalmente, Montes Claros é linda vista do alto e mais no fim da tarde quando as luzes se acendem. Nesse momento se pode constatar a expansão horizontal e vertical da cidade.
Mas o progresso não deve ser medido baseado só na economia. Antes é melhor ser do que ter. A sociedade que conjuga o verbo ser certamente colherá por acréscimo os frutos econômicos.
Montes Claros possui lindo nascer e pôr do sol. Os mais bonitos do planeta. Nos arredores da cidade há muito que fazer e divertir, mas a urbe em si não oferece condição aos cidadãos de transitarem pelas ruas em segurança.
A insegurança pública é um fator preponderante. Ela estimula o preconceito. Gera o medo. E até mesmo alucinações em pessoas que desconhecem a força do temor. “O que tememos acontece”, dizia um velho deitado na esquina da vida.
O que fazer para melhorar Montes Claros com as suas estreitas ruas abarrotadas de carros, motocicletas, bicicletas e, sobretudo gente da terra e de vários lugares de Minas e do Brasil? A pergunta salta, inopinadamente em busca de resposta. Quem tiver uma dê um passo à frente.
Como tudo abaixo de Deus está relacionado com a política, que tal reunir a uma mesa redonda um grupo de pessoas amantes da cidade, independentemente de partido político, a fim de trocar ideias sobre ações para tornar Montes Claros um bom lugar onde viver?
Um plano diretor é preciso, diria Fernando Pessoa se fosse mais da terra do que do mar. Porque é necessário, deve ter precisão, tendo em vista a Montes Claros das próximas cinco décadas. Pensar hoje nisso e tomar atitude nesse sentido é a mesma coisa que projetar o futuro.
Quem ama verdadeiramente a cidade deve agir agora, porque o tempo em que se podia sentar nas calçadas com os vizinhos é só uma lembrança. No máximo poderá servir de parâmetro para ideias novas.
Nesse mundo movido pela tecnologia, considerando o que desponta na linha do horizonte da vida dos que aqui estão e muito mais na daqueles ainda no útero materno, urge repensar Montes Claros. “Antes tarde do que mais tarde”, como dizia o velho deitado na esquina da vida.


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Por Alberto Sena - 20/10/2013 12:09:02
Tipos humanos montesclarinos

Alberto Sena

Agora que Tuia virou nome de revista, ao mexer nos meus guardados me deparei com um texto publicado em 20 de janeiro de 1979, no “O Jornal de Montes Claros”, de Oswaldo Antunes e Waldyr Sena, sobre o nosso intrincado personagem.
Não li a revista – preciso de um exemplar – mas gostei da ideia. Para muitos montesclarinos vivos, Tuia foi um personagem que perambulou pelas ruas da cidade e dela fazia parte como figura humana querida.
Montes Claros daquela época acolhia emigrantes vindos do Nordeste e indo para São Paulo. Por alguma eventualidade, uns acabavam ficando na cidade e ganhavam as ruas, como Requeijão, Galinheiro, Tarugo, João Doido, Requebra-Que-Te-dou-Doce, entre outros.
Mas de todos eles, Tuia foi o mais querido porque ganhou fama depois que Oswaldo Antunes mandou construir uma casinha de madeira para ele na garagem da sede do jornal, na Rua Doutor Santos, 103. Era uma casa em estilo colonial, mais parecida com a sede de uma fazenda. Na primeira porta ficava o escritório do dr. Orestes Barbosa, pai de Toninho e Rui Barbosa.
Na outra porta era a entrada da redação do jornal. A oficina funcionava contigua a redação. Os textos eram entregues escritos em laudas datilografadas aos linotipistas Andrezzo e Mílton, que gravavam tudo no chumbo e depois Tião Camurça “paginava” e amarrava em volta cada página com um tipo de cordão grosso para deixar firme e evitar o empastelamento.
A casinha de Tuia na garagem do jornal precisava sempre de faxina rigorosa porque as necessidades fisiológicas ele fazia espontaneamente calças abaixo.
Quando publiquei no JMC o texto a ser transcrito em seguida, fazia sete anos que deixara Montes Claros. Morava na ocasião em Viçosa, na Zona da Mata.

ANJO, DEMÔNIO

“Para mim, àquela época menino, ele era um anjo negro e, às vezes, demônio. Lembro-me muito bem dele. Só não me recordo da data em que viveu no pátio do JMC, em frente à porta da redação. Sei que ele morava numa casinha de tábuas pintadas de azul e fazia parte do meu mundo de fantasias, embora fosse uma realidade concreta. Estava sempre ali, estirado no piso de tábuas da casinha azul ou perambulando pelas ruas centrais da cidade, empunhando seu cajado, chapéu amassado na cabeça, arrastando os pés de dedos abertos e calejados.
“Era uma figura enigmática. Nunca soube de onde viera (dizem que veio de Grão Mogol), se é que veio de algum lugar. Diziam que fora escravo e, com a abolição da escravatura, ganhara a liberdade. Diziam também que tinha mais de cem anos, e a língua cortada. Muitas e muitas vezes fiquei a pensar na sua língua cortada, imaginando sua dor, sem entender por que existe gente tão má, ao ponto de corta a língua de alguém, ainda mais sendo um pobre coitado, um homem sozinho neste mundo. Era só pensar na sua língua cortada e, para mim, imediatamente, ele se transformava no anjo negro.
“Que pensamentos povoavam aquela cabeça de cabelos ralos e brancos? Como aqueles olhos cansados viam o mundo? Afligia-me vê-lo tentando dizer alguma coisa com sua língua cortada. Intrigava-me seu nariz de ventas abertas, e sua boca desdentada. Ele, nervoso, agitando seu cajado, querendo fazer-se entender, metia-me medo – e era então que, para mim, o anjo negro se transformava em demônio. “Perna pra que te quero”, evitava vê-lo por alguns dias e, refeito, ia espiá-lo na casinha azul, pisando leve, nas pontas dos pés. E lá estava ele, o anjo negro, dormindo seu sono celestial, em meio ao cheiro forte de amônia.
“Na manhã de um domingo, dia de Praça de Esportes – hoje a minha Praça de Esportes já não mais existe, agora que perdeu os fícus que a circundava, a “boate”, que nunca foi boate – procurei-o na casinha azul e não o encontrei. Andei pelas ruas centrais à sua procura, e nada dele. Pensei: “Será que levaram ele pra tomar banho?” Infelizmente, não. (É bom que se diga que, quando o preto velho tomava banho, a notícia se espalhava pela cidade inteira).
“Alguém me deu a triste notícia da sua morte. Ele deitara numa noite no velho colchão de capim, na casinha azul, e não acordara no dia seguinte. Foi então que senti o quanto aquele homem era importante para mim. Hoje, ele, Tuia, já não me é enigmático como antigamente. Agora tenho certeza, de demônio não tinha nada. Tuia era apenas um anjo negro, em figura de gente, a se arrastar pelas ruas de Montes Claros”.


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Por Alberto Sena - 14/10/2013 08:18:15
Pastoral da Criança no Presépio de Grão Mogol

Alberto Sena

Neste domingo, 13 de outubro, quando o sino da Matriz de Santo Antônio, toda feita de pedra sobre pedra, soar 9h por entre o Maciço da Serra do Espinhaço, o Presépio Natural Mãos de Deus estará recebendo cerca de 200 pessoas, que virão a Grão Mogol comemorar os 25 anos da Pastoral da Criança na região.
Escolher Grão Mogol para comemorar o quarto de século de uma instituição como a Pastoral da Criança é um privilégio para a cidade, e quando o sino da Matriz de Santo Antônio soar, um nome estará sendo lembrado e aplaudido. Zilda Arns, este é o nome da médica sanitarista que há 30 anos mudou – e ainda muda – o destino de milhões de crianças carentes, numa luta ferrenha contra a fome e a subnutrição.
Essa gente ilustre em visita ao Presépio Mãos de Deus, composta de voluntários que repetem os atos de Zilda Arns, antes participará da missa na Matriz de Santo Antônio. Calcula-se que serão necessários seis ônibus para arrebanhar essa gente que vem da região de Salinas, de oito a dez municípios.
Pode-se prever que cada um dos visitantes será uma voz ativa na multiplicação da boa nova do presépio, onde o Menino Deus nasce dia e noite em Grão Mogol para salvar a Humanidade.
A comitiva será recepcionada por Maria Passos, coordenadora da Pastoral da Criança em Grão Mogol, Cristália e Botumirim. Junto de Maria Passos estará a coordenadora Aquidiocesana da Pastoral da Criança, de Montes Claros, Eliane Souza Cândida (Léo), acompanhada de mais 20 pessoas.
Será uma linda festa, certamente, na qual o Menino Jesus é o centro das atenções, como para chamar a sociedade brasileira para a necessidade de cuidar mais das nossas crianças. Protegê-las das agressões dentro e fora de casa, dentro e fora da escola. Proteger as crianças contra a ação dos exploradores que as encaminham para as drogas e a corrupção.
Como Maria Passos disse, a Pastoral da Criança acompanha as famílias com orientações e também às gestantes principalmente quanto à higiene pessoal e a alimentação alternativa. Isto e mais ela diz fazer há cerca de quatro anos.
Cascas de legumes e folhas, que normalmente se jogam fora, são alimentos e salvam vidas de crianças e adultos. Viram bolos, tortas e garantem dias melhores para quem, no Vale do Jequitinhonha, poderia estar fadado à morte prematura.
Essas mais de 200 pessoas que virão da região de Salinas poderão se juntar a outras tantas que neste domingo irão participar do Enduro a Pé, uma interessante promoção que levará dezenas de inscritos por mais de sete quilômetros de trilhas e paisagens lindas do entorno de Grão Mogol, sob a coordenação de Fáusio Silva, da empresa O Bicho do Mato.
Quem conhece a região sabe e quem ainda não a conhece poderá desde já imaginar o quanto será divertido e prazeroso o Enduro a Pé, no mínimo diferente dos demais enduros, como de bicicleta, motocicleta e carro. É a pé que as pessoas têm mais tempo para observar a beleza da Mãe Natureza, enquanto cuida do espírito, da mente e do corpo e exercitando a quase perdida capacidade da contemplação.


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Por Alberto Sena - 14/10/2013 08:05:53
A primeira morte da mãe do menino

Alberto Sena

Era criança, tinha 7 anos de idade, morava na Rua São Francisco, em Montes Claros, acima da linha férrea, próximo da algodoeira do poeta e empresário Luiz de Paula Ferreira. O trem da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil passava bem nos fundos do quintal. Volta e meia o apito nostálgico do trem ecoava fundo na alma dele, e mais ainda quando acontecia de alguma composição descarrilar.
Ele gostava de correr ao fundo do quintal quando ouvia o ruído potente da máquina a óleo. Contava um por um, cada vagão. Quando passavam os vagões de passageiros ele dava `tiauzinho` com as mãos às pessoas debruçadas nas janelas do trem e sentia vontade de correr atrás da composição como os cães correm atrás das rodas de automóveis.
O quintal era cheio de pedregulhos. Tinha um pé de urucu próximo da porta da cozinha. Um coqueiro macaúba atrás da casa. Um pé de manga coquinho logo no declive do terreno, e mais embaixo, próximo da cerca de arame farpado havia um pé de manga comum. No período das águas surgia no quintal um mar verdinho de arbustos de fedegoso.
Era mágico o quintal. Ali todos os heróis se encontravam como se estivessem nos estúdios de cinema de “Holiude”. O cenário era o mesmo de sempre, mas o dinamismo da infância explodia em criatividade e agilidade na arte de inventar e reinventar os meios de brincar com os pés descalços na terra.
Depois da sessão das duas da tarde, no cine Coronel Ribeiro, aos domingos, chegava às carreiras em casa, livrava dos sapatos e corria ao quintal para tentar repetir nos galhos do pé de manga comum a façanha vista na tela de cinema.
Um dia o menino sonhou que a mãe dele havia morrido. Aliás, foi um pesadelo. Ele viu a mãe morta dentro do caixão no meio da sala da casa de soalho encardido de tábua corrida. As pessoas estavam em volta do caixão. O menino chorava e tanto chorou que acordou com o rosto encharcado em lágrimas.
Entre a realidade e o resquício do pesadelo a se dissipar, o menino ainda confuso, sem saber ao certo o que acontecia chamou pela mãe e ela não respondeu. Ele se levantou da cama de um salto e andou por toda casa procurando alguém. Não encontrou ninguém.
O fato de não ter encontrado ninguém em casa foi o bastante para elevar a suspeita de que o que havia se passado não fora um pesadelo. A mãe dele havia morrido mesmo porque não havia em casa ninguém àquela hora da manhã. “Aonde foram todos, será que estão no cemitério?”, se perguntava.
Cada vez mais apreensivo, restava ao menino ir para a rua ver se encontrava explicação para o sumiço de todos. “Será que foram levados pelos marcianos, como os da revistinha em quadrinhos do Bolinha?”, tremia dos pés à cabeça só de pensar.
Ao abrir a porta da rua sentiu-se aliviado ao deparar com várias pessoas na porta da casa de uma vizinha, entre as quais estava a mãe, vivinha. Quem morreu naquela manhã fora a mãe da vizinha, avó de Teófilo, menino com o qual ele brincava de vez em quando.
Isso se deu no final da década de 50. O que mais atenção chamou foi a coincidência, se é que coincidência existe, foi o menino ter sonhado com a morte da mãe quando era a avó de Teófilo que morria na casa vizinha. De lá vinha o vozerio de pessoas no velório, o mesmo vozerio que ouvira durante o pesadelo.
Essa passagem emergiu, em meio ao mar de lembranças do mundo mágico infantil, guindada pelos fluidos energéticos da Semana da Criança. “As crianças pensam com o coração”, dizia outro dia o escritor Marcelo Xavier, autor do livro “Se as crianças governassem o mundo”.
O menino de ontem continua menino porque a criança é indissociável do adulto. Ai de quem, por impropriedade, sufocar a alma infantil. Vai chegar a velhice rabugento e amargurado. No frigir dos ovos é sempre o espírito infantil que sustenta o ser.
Vinte e cinco anos depois do pesadelo descrito, em 1985 a mãe do menino partiu em definitivo. E ele pôde então descobrir que as mães não morrem. Elas vão para um lugar distante e não sabido, mas especial reservado por Deus e de lá continuam a cuidar das suas crianças como sempre fizeram.
Desde então, quando o menino precisa de colo, ele vai visitar a mãe onde ela se encontra junto a outras mães. Pra chegar lá, basta acionar o que cada criança tem dentro do peito. A chave de ignição é a energia pura do coração.


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Por Alberto Sena - 7/10/2013 09:51:27
Quando o ensino era primário

Alberto Sena

Recordo-me de quando fui ao Grupo Escolar Gonçalves Chaves, na Praça Dr. João Alves, em Montes Claros, a primeira vez, levado por minha irmã, Lúcia, para fazer um teste a fim de me matricular no 1º ano primário. Do teste me recordo de quase nada, a não ser de uma gravura apresentada por dona Maria Celestina de Almeida, então vice-diretora do grupo.
A gravura era de uma casa com uma escada de madeira que ia do chão até o telhado, encima do qual estava um porquinho. Do lado da casa tinha uma árvore. A questão posta era explicar como o danado do porco havia subido no telhado. Diante de tamanha evidência, para meu espanto, acabei aprovado e fui direcionado para a sala da professora dona Bernadete Costa, mãe do jornalista Robson Costa.
O Grupo Gonçalves Chaves foi importante na vida de gerações de montesclarinos. Recordo-me, logo depois de iniciado o ano letivo, dona Marucas Avelar passou a direção para dona Maria Celestina, irmã de Cipriano, casado com minha tia Ambrosina, irmã da minha mãe, Elvira.
Dona Bernadete era professora rigorosa. Pequena de estatura, voz fina, compatível com ela, ensinou-nos a ler, a escrever e a fazer contas. Sem dúvida, deu-nos o empurrão inicial para desasnar nossas cabeças. A nossa sala de aula era a primeira do prédio do lado direito. A porta de entrada ficava de frente para o pátio.
Para ter acesso ao pátio era preciso descer uma escada que ficava em frente aos banheiros masculino e feminino. Ir para o recreio era um bom momento porque descíamos ao pátio e ensaiávamos brincadeiras e até chutávamos uma bola de meia.
Guardo comigo uma foto de quando a turma já estava no terceiro ano primário. Nessa época, a professora era dona Alba Alkimim, mãe de Vânia e Vilma, também professoras. Mãe e filhas estão, juntamente a outras professoras, numa foto do acervo fotográfico de dona Dorzinha, que há 15 dias acabou de concluir sua missão terrena e partiu na paz de Deus.
Na foto da nossa turma estão: Roberto Avelar, filho de dona Marucas; Marcos Tolentino, Petronilho Narciso, Jorge, Marilú, Nelma, Fátima, Dolores, Luís Carlos, José Carlos, Teófilo, Eustáquio, Milton, Cleonice, Neusa, Sebastião, Délcio Costa e outros colegas cujos nomes não me vêm à memória no momento.
Toda segunda-feira, antes do início das aulas, as turmas eram formadas à frente das escadarias de entrada. A Bandeira do Brasil era hasteada. Cantávamos o Hino Nacional. Alguns alunos eram destacados para recitar poesias de Olavo Bilac, Cecília Meireles entre outros. Em seguida, disciplinadamente, todos rumavam para as salas de aula.
Nessa época, havia respeito às professoras. As aulas eram na parte da manhã. Dentro da sala de aula se podia ouvir o zumbido de mosquitos, ninguém se atrevia a falar quando era pedido silêncio. Os mais “preguiçosos” levavam puxões de orelhas. Ou ficavam de castigo em pé do lado do quadro negro, de costas para os colegas.
Constrangedor, mas era assim, para não dizer nada sobre os pais que autorizavam as professoras a baterem nos filhos se precisassem. Só não será revelado o nome de quem mais apanhava em sala de aula para não constranger o ex-colega, mas o apelido dele era “Cabeça de Abóbora”, dado pela própria professora.
Se as professoras daquela época eram bem pagas, não há informação, mas que eram dedicadas, enérgicas e ensinavam bem aos alunos, podemos garantir sem medo de errar.
Do lado direito do terreno do grupo havia um cruzeiro enorme, de madeira. Pelo menos para as crianças o cruzeiro parecia grande. Diziam ter sido encontrado enterrado no terreno quando da construção do prédio. Mais de meio século depois, o prédio não deve ter sofrido muita mudança. Mas como me disse outro dia o ex-colega Carlos Meira, o cruzeiro já não está mais no terreno do grupo.
Do outro lado, na parte que dá para a Rua São Francisco, havia uma área de terra, e ao fundo, algumas bananeiras. Já naquela época as meninas faziam a simpatia de enfiar uma faca na bananeira no dia de santo Antônio, para aparecer o nome do namoradinho gravado na lâmina.
Muita gente considerada importante estudou no Grupo Gonçalves Chaves. Na impossibilidade de citar o nome de todos, vai o de um só, Darcy Ribeiro, que elevou e levou o nome de Montes Claros, de Minas e do Brasil ao mundo inteiro.


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Por Alberto Sena - 30/9/2013 08:05:55
Em tempos nem tão antigos

Alberto Sena

Houve época, em Montes Claros, que o leite de vaca era vendido em latões, no lombo de cavalo e entregue em domicílio. Geralmente, era um vaqueiro jovem de chapéu de couro na cabeça, roupas suadas, surradas e esporas nas botinas rangedeiras. Leiteiro e cavalo tinham o mesmo cheiro.
Quando o leiteiro chegava montado, logo o ar em volta deles cheirava a leite misturado ao cheiro de urina de cavalo. Do interior dos latões, de um lado e do outro, vinha o ruído característico de leite sacudido a cada movimento do cavalo.
E o leiteiro gritava assim pela Rua Marechal Deodoro:
_ Oiaoleeeiii...teeeiro, oiaoleeei...teeeiro...
As mães iam para a porta das casas cada uma com uma vasilha na mão. O leiteiro usava uma lata para medir o litro. Ele enfiava a lata no latão e despejava o leite no vasilhame de acordo com a quantidade desejada pelo freguês.
Ele mesmo manuseava o dinheiro, recebia e dava o troco. Fazia tudo montado no cavalo. Só tinha o trabalho de virar para um lado ou para o outro quando ia abrir o latão da direita ou o da esquerda.
Quando foi isso? No tempo em que o leite era um produto altamente perecível. A ordenha das vacas era feita aos primeiros clarões do dia, e o leite tinha de ser vendido logo de porta em porta senão corria o risco de azedar.
Em casa, as mães ferviam o leite. Era preciso ficar atento diante do fogão para não deixar o leite transbordar do vasilhame no momento da fervura. Sobe uma espuma, e se a panela não for retirada logo o leite apaga o fogo. Fogão a lenha.
O pão podia ser comprado na padaria, mas também era entregue em domicílio. De manhã, logo cedo, era só abrir a janela e o pão lá estava enrolado em papel cinza.
O pão nosso de cada dia continua sendo feito de trigo importado. Mas nem sempre foi assim. Antes do trigo, o café da manhã da gente norte mineira era à base de milho, mandioca, ovo cozido, beiju, cuscuz, bolinho de chuva e biscoitos fritos ou assados em forno de barro. O fubá era de milho integral. Do fubá se faziam mingaus com pó de canela por cima e pedaços de queijo ou requeijão de Salinas.
Em finais da década de 40, início da de 50, os Estados Unidos tiveram uma grande safra de trigo e mandaram um tanto para o Brasil fazendo como os traficantes agem ao criar o vício distribuindo droga. Não que o trigo seja droga, mas foi criada a necessidade de consumo e de compra de trigo; deles, claro. A questão é que a introdução dele mudou os hábitos. Hoje o Brasil produz trigo no sul e importa outra parte pelo câmbio do dólar.
O pão tem o seu lugar em todas as mesas. É alimento de grande importância social. O rico, o remediado e o pobre comem pão. O pão nos dá a cota de carboidrato necessária ao corpo para o gasto energético do dia.
Mas no caso do leite é diferente. Numa comparação entre o leite vendido atualmente em embalagens “tetra pak” e o leite comercializado antigamente, em latões no lombo de cavalo, qual seria a opção do leitor?
Seria mesmo saudável um produto altamente perecível, como o leite, que hoje em dia fica dias nas prateleiras em embalagens “tetra pak”? As propriedades dele são mantidas?
Como dizia o Marátma Gandhi, que libertou a Índia do jugo inglês, “leite de vaca é para o bezerro”. Particularmente, prefiro sucos de frutas vários. Leite, dizem: “Faz nascer cabelo nos ouvidos”.
O ritmo de vida atual leva as pessoas a consumirem produtos com aparência “saudável e natural”. O resultado disso já é visto nas ruas das cidades: hoje a metade da população brasileira é obesa.
É fundamental investir na alimentação saudável para economizar o médico, o hospital e a farmácia. Os verdadeiros remédios estão nos sacolões, variedades de frutas, legumes e verduras em doses homeopáticas todo dia.
Refrigerantes de modo geral, Coca Cola, principalmente, devem ser riscados do cardápio. Se as gerações movidas a refrigerantes, “chips” e produtos do gênero não mudarem o tipo de alimentação, a tendência é de aumento das estatísticas de homens e mulheres obesos. Nem é preciso ser especialista no assunto para dizer: essa geração mal alimentada corre o risco de viver menos tempo.
É de bom alvitre às vezes recorrer à mochila do tempo para resgatar hábitos saudáveis como quando se podia chupar jabuticaba e laranja no pé. A banana e o mamão estavam ali, à mão, no quintal. E o leite, de fato, era integral, não benzido.


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Por Alberto Sena - 23/9/2013 07:53:07
Tempo de caçar tanajura

Alberto Sena

Quando era chegado o tempo de caçar tanajura, na Rua São Francisco, em Montes Claros, os meninos tiravam as camisas e saíam correndo atrás delas. Eles giravam as camisas sobre as cabeças e uma a uma era apanhadas e juntadas numa latinha.
Nunca comemos bunda de tanajura frita. Naquela década de 50 já diziam em Montes Claros ser “um prato delicioso, bundinha de tanajura contém muita proteína”. Mas, experimentar ou não ficava a critério de cada um. De certo modo nos despertava asco.
O tempo de caçar tanajura tinha relação direta com o fim da estiagem, da sequidão. Era quando vinham as primeiras chuvas. O pó vermelho da terra virava lama. Quando acontecia uma trégua o sol furava as nuvens e era então quando as tanajuras brotavam do chão, da terra nua e crua.
Aonde foram parar as tanajuras? Não se veem mais nenhuma. O asfalto foi o vilão de tudo. No tempo em que as tanajuras brotavam do chão, a terra respirava por todos os poros. Veio o asfalto e impermeabilizou tudo.
Além de sepultar para sempre as tanajuras, o asfalto levou multidão sem conta para dentro de sete palmos de terra ao dar aos veículos automotores a possibilidade de desenvolver mais velocidade.
Enquanto as tanajuras eram caçadas, no quintal as primeiras mangas maduras surgiam. Era um correr em disparada quintal abaixo, como um tropel de animais para trepar feito macacos na mangueira e se lambuzar com as mangas do verão entrante.
Então chegava a vez da majestade, o pequi. O cheiro forte alcançava distâncias e penetrava narinas e estômagos esfomeados. A panela crepitava no fogão a lenha enquanto o arroz ganhava o tom amarelado do pequi. As bocas se enchiam d’água. “Cuidado, devagar, roa sem enfiar os dentes”, a recomendação era ouvida e seguida à risca. Nem queiram imaginar quando acontecia de alguém encher a boca de espinhos de pequi.
Do mercado, aquele casarão da Praça Dr. Carlos vinham cagaitas, umbus, pitombas e araçás. Do quintal de dona Geralda e do senhor Nilo, vizinhos de muro, vinham cajus vermelho e amarelo numa bacia.
O sertão em plena festa anunciava a proximidade do Natal. Nessa época, vale realçar para as gerações d’agora e as futuras, o Menino Jesus nascia em todas as casas e parecia mais presente ainda nas casas onde havia armados presépios.
Era uma alegria armar presépio. Cata aqui, cata acolá, eram ajuntados jornais velhos para passar neles uma tinta escura a fim de dar a impressão de pedras. Depois, com todo cuidado, aquelas mãos pequenas e frágeis construíam o presépio, de certo imaginando como se passou o que se deu naquela bendita noite, em Belém da Judeia.
Depois de pronto o presépio, as mãos pequenas e frágeis espargiam na gruta um punhado de areia branca, fininha. Então chegava a vez dos personagens bíblicos testemunhas oculares do divino nascimento do Menino Jesus ser introduzidos em cena. “Ele veio ao mundo para nos salvar”, pregavam.
A figura do menino deitado na manjedoura só podia ser colocada no presépio do dia 24 para 25 de dezembro, quando é chegado o dia Dele.
A vida caia do céu por meio da chuva. Os primeiros pingos pareciam bólidos vindos do espaço. Os pingos levantavam o pó da rua e criavam a imagem de soldadinhos enfileirados marchando apressados. Logo desapareciam à medida que a chuva molhava a terra.
Era esse o panorama visto da janela da sala da casa em estilo colonial, paredes de cor bege. As portas e as janelas verdes, grandes e altas. O porquê de tão altas, ninguém explicava. “Seria aqui casa de gigantes?”
No campo, os agricultores de mãos grossas de empunhar enxada ajoelhavam no chão para agradecer a Deus pela chuva criadeira. Era chegado então o tempo de lançar as sementes no chão quase morto de sede.
E assim acontecia o milagre da criação na aridez do sertão montesclarino. O coração de cada um bombeava a certeza de que o Ano Novo seria melhor, farto. O gado teria pasto e estavam garantidos o leite e a carne bovina, suína e “franguína” das crianças.
A vida seguia o curso pachorrento, lento, quase parando. A mata ressequida, feito esqueletos em pé, dum dia para o outro recuperava o verde. Os olhos se enchiam do verdor e da beleza rústica e delicada do Cerrado. E enquanto isso, os passarinhos fazendo “piu piu”, de galho em galho cantavam loas à Mãe Natureza. Era (é) uma beleza!


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Por Alberto Sena - 16/9/2013 07:56:12
Mãe Terra treme

Alberto Sena

Para o bem de Montes Claros e da população montesclarina, a essa altura do campeonato, quer dizer do mandato, a administração pública já deve ter solucionado os problemas verificados há cerca de um mês quando aí estivemos com a intenção de buscar fogo e respirar os ares (secos) do Cerrado.
O que registramos “neste minifúndio” (eletrônico), como diria o falecido amigo jornalista e escritor Roberto Drummond – ele costumava dizer “minifúndio de papel”, porque publicava suas crônicas em jornal impresso – são algumas impressões que nos deixaram intrigados ao andar pelas ruas centrais e da periferia de nossa cidade.
Era sábado. Ali por volta do meio-dia. Na Rua Dr. Santos íamos rumo à Praça Coronel Ribeiro, que o então prefeito Luiz Tadeu Leite recuperou nos estertores do seu controvertido terceiro mandato. Ficou melhor do que estava, é preciso admitir.
Nem precisamos dizer, mas muitas vezes o óbvio tem de ser falado, apalpado até para ser visto. A Rua Dr. Santos e todo o centro da cidade assustam qualquer pessoa, mesmo as nascidas aí e criadas na terra, quanto as que, há muito tempo vivem fora.
Naquele dia, os carros, as bicicletas, as motos e o vaivém de gente se misturavam ao incômodo de ter de desviar de sacos de lixo entulhados na estreita calçada, à espera da coleta.
Uma má impressão sem tamanho, que gerou pergunta também incômoda: quase ao meio-dia, será que não havia ninguém para recolher o lixo? É claro que, tanto tempo depois, o problema de coleta de lixo da cidade já deve ter sido solucionado. Afinal, é um estorvo o lixo.
Mas, ficamos a nos perguntar onde estariam, àquela hora, “os mundos e os fundos” prometidos durante a campanha política? Oito meses já se vão. Será que o prefeito Muniz tem conseguido inaugurar uma obra por mês como havia prometido em campanha almejando a prefeitura?
Naquele sábado, portanto, apesar da pressa, a impressão era a de que a cidade estava largada. Os buracos deixados por Luiz Tadeu se misturaram com os buracos abertos pelas parcas chuvas deste ano e se somavam aos da administração Muniz e corriam o risco de virar crateras de raios crescentes nas ruas.
Não há roda ou suspensão de carro que aguente tanto solavanco. A cidade e os moradores não merecem tanto descaso repetitivo. Montes Claros e a população nela vivente merecem tratamento respeitoso. A cidade tem grande importância no cenário político e socioeconômico do País, mas tem sido maltratada pelas más administrações.
Pelo menos foi isto que mais se ouviu nas imediações do Café Galo, considerado termômetro, no reencontro com vários amigos. Lá, o galo canta no horário comercial o dia inteiro.
A frase do mestre jornalista Fialho Pacheco, aqui reverenciado por tudo que foi e pelos cinco Prêmios Esso de Jornalismo, ao deparar com as ruas de Montes Claros pela primeira vez, “a cidade vai explodir”, é uma realidade nua e crua hoje.
É preciso que a população se levante e exija uma cidade cada vez mais dotada do aparato necessário para oferecer qualidade de vida a todos. É preciso mudar o espectro de Montes Claros, que, de “cultural” no passado, a cada ano mais ganha o epíteto de “cidade violenta”.
Montes Claros precisa criar perspectivas para a população, ultimamente assustada com a frequência de tremores de terra mal explicados – nunca dantes na sua história, a cidade registrara esse tipo de ocorrência. Hoje em dia não se pode mais dizer que “o Brasil é um paraíso” porque em Montes Claros tem terremoto, notícia que nunca tivemos da parte dos que vieram antes e durante os 22 anos vividos no torrão querido.
A cidade cresceu de modo estonteante. Foi desfigurada de maneira agressiva. Os costumes foram modificados tanto pela voraz passagem do tempo como por parte dos que vieram de fora, pela BR 251 – que urgentemente precisa ser duplicada, tamanho assombro do seu trânsito de carretas – em busca de ouro de aluvião.
Agora, o grande risco que a cidade e a região correm é o de ser engolidas pelas gigantescas máquinas que escarafuncham a terra em busca de minério de ferro e gás natural. Só de ver essas máquinas, a Mãe Terra treme. Como toda gente treme diante do perigo.


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Por Alberto Sena - 9/9/2013 08:08:48
Rapaestrulubetobinchim, a trupe

Alberto Sena

Às vésperas de completar mais um janeiro, veio à contemplação a lembrança de quando descia a Rua Dr. Santos, em Montes Claros, década de 60, indo para a porta da Cristal. Era uma época virtuosa, como são todas as épocas. Mas é preciso ressaltar, estes eram tempos sem a agressividade e a velocidade da vida atual em convulsão mundial.
Descia a rua Dr. Santos junto a uma trupe. Antes um havia passado na casa do outro e a cada passada a trupe aumentava de corpo. Cada um tinha o seu apelido. A junção dos apelidos soava assim: Rapa-Estru-Lu-Beto-Bin-Chim. Sem os hífens ficavam mais engraçados ainda, formavam uma palavra nova da língua portuguesa, com certeza, “Rapaestrulubetobinchim”.
E, então, andavam e repetiam: Rapa-estru-lu – Rapaestrulu; Rapa-estru-lu-beto-bin – Rapaestrulubetobin; Rapa-estru-lu-beto-bin-chim – Rapaestrulubetobinchim. E tomem gargalhadas. Era uma vida animada, bem-humorada. Até se poderia pensar que ninguém estava nem aí pra nada. Mas não era assim, porque naquela época a moçada ainda estudava na Escola Normal e no Colégio São José. Alguns até trabalhavam.
Ninguém imaginava o que cada um poderia ser no futuro, 40 anos depois de tudo vivido. Afinal, salvo engano ninguém tinha o dom da vidência. Hoje, tanto tempo depois (ou pouco, considerando a relatividade temporal) dos seis restam quatro. Rapa faleceu já faz uns 20 anos. Quem informou sobre a morte dele disse ter o amigo morrido “de gole”. Mas, segundo informação recente, dada por um dos irmãos dele, Rapa morreu foi do coração. Talvez porque amou tanto a vida que o coração não suportou.
Outro que deixou a turma foi Bin. Este abusou do gole. Podia estar aqui, conosco, celebrando mais um janeiro. Entretanto, não há o que lamentar quando é sabido, só acontece o que deveria acontecer. Nada é por acaso. E essa história do se... Se tivesse feito isto ou aquilo nada disso teria acontecido é uma tremenda bobagem.
Só o peru morre de véspera. Aliás, essa questão de vida e de morte é controvertida porque, na geometria da existência humana, + morte + vida = vida; – morte – vida = vida; + vida – morte = vida; – vida – vida = vida; + morte + morte = vida; + vida + vida= vida. Só existe vida. Essa tal de morte é pretexto para a perpetuação da vida.
Então, para quem quiser uma sugestão, o melhor a fazer é viver a vida. E se possível, com qualidade. Cada um deve investir em si mesmo. Se assim não fosse, quem iria investir na saúde e no bem-estar de alguém?
O IBGE aí está e não nos deixa mentir (sozinhos): a expectativa de vida aumentou bastante. Ninguém sabe o dia de desvestir da mochila definitivamente. Tanto pode ser hoje como amanhã ou depois. Considerando que estamos aqui, vivinhos da Sílvia, temos mais é que ter satisfação e alegria de viver, intensamente, sem ocupar com o que virá depois. Porque virá depois.
No caso da trupe da noite aqui lembrada e exaltada, nos tempos de Montes Claros, a formação agora é a seguinte: (sem Rapa e Bin) ficaram Estru, Lu, Beto e Chim, que geraram outra palavra, Estrulubetochim. Até quando, só Deus sabe.
Enquanto isso, continuemos a apreciar as belezas da Terra. Quão bom é contemplar o nascer e o pôr do sol. Majestoso, misterioso é o mar com as moquecas mil, sururus aos montes, ostras tantas e o sal da terra.
Contar as estrelas do céu enluarado, escancarado. Se não temos asas nem nave para viajar pelo cosmo, usemos então a imaginação para, na velocidade do pensamento, tornar possível ganhar o espaço sideral. Este é um bom exercício para expandir o espírito e a mente.
Mas o melhor pra gente sentir a intensidade do viver é andar. Andar e mensurar com os olhos da alma a grandeza da Mãe natureza. Sentir o frescor do prana das árvores e curtir a beleza dos pássaros e a magia do canto de cada um; a impetuosidade dos animais nos gerais e sertões de Minas e por toda parte. Apesar de alguns se esforçarem tanto para tornar o mundo inóspito, imundo.
Ainda assim a vida pede para descer e subir sempre, a Rua Dr. Santos, a principal de Montes Claros. Naquele tempo em que os carros desciam a Dr. Santos. Agora, sobem. Mas há algum problema nisso? Absolutamente, nenhum. Os problemas e as soluções não estão fora, mas dentro da gente, meu senhor, ó minha senhora.


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Por Alberto Sena - 2/9/2013 08:06:43

Aluvião de lembranças

Alberto Sena

Outro dia encontramos a escritora Amelina Chaves indo de Montes Claros a Grão Mogol, a fim de visitar o Presépio Mãos de Deus, e ela punha em dia notícias de amigos com os quais convivemos há mais de meio século.
O palco, na época, era a rua São Francisco, em Montes Claros, na mesma casa onde mora até hoje, na qual criou 15 filhos; menos dois que já se foram, todos já resolvidos na vida, o que para ela é motivo de satisfação, aos 82 anos de idade.
Amelina nos falou sobre dona Geralda, mulher do senhor Nilo, dono de um açougue na esquina das ruas São Francisco e Corrêa Machado, próximo da nossa casa. Ao cair da tarde dona Elvira pedia pra ir comprar “um quilo de alcatra” no açougue do senhor Nilo, que acabava de receber as partes do boi levadas nas costas por homens altos, fortes e de capa de lona ensanguentada, do Frigorífico Otany, que ficava na avenida Cula Mangabeira, próximo de onde é hoje a prefeitura municipal de Montes Claros.
O menino sentado num banquinho via o senhor Nilo preparar os cortes de carne. Ele amolava bem a faca segura numa das mãos e com a outra passava o amolador parecido com um pirulito. Depois, cirurgicamente, desossava uma e depois a outra parte traseira do boi, naquele tempo abatido a golpes de marreta na testa. O Frigorífico Otany era fonte de um mau cheiro terrível quase todo dia ao cair da tarde.
Amelina falou-nos de Elias, Muzinho, Luís (?) e Renê, cujo pai tinha uma empresa de ônibus que fazia viagens pelo Norte de Minas. Com Elias e Muzinho convivemos um bom tempo. Elias deixou este plano de vida ainda novo, quando era funcionário do Banco do Brasil.
Vieram então as imagens do menino brincando com Muzinho de carrinho de madeira e rodas de carretéis. Ele imitava o ruído do motor de ônibus com perfeição. Dirigir ônibus seria a primeira coisa que ele faria quando crescesse. O menino tinha essa certeza em relação ao amigo.
Amelina deu notícia também de Xeba, Niro, Carlinhos, Mozart e também do senhor Mané, um homenzinho tetraplégico que para se locomover contava com um carrinho de madeira, uma miniatura de carro de boi, puxada por dois carneiros. Mané tinha fama de vidente. Essa capacidade dele intrigava o menino. Mané costumava mendigar nas imediações do mercado municipal, o casarão da praça Dr. Carlos, acompanhado de um garoto.
Enquanto Amelina dava notícia de tudo, as lembranças da rua São Francisco saltavam vivas, como se estivessem acontecendo agora. A rua era em terra nua e crua. No estio, a camada de poeira ficava alta. Quando acontecia de passar um automóvel, geralmente sedan de cor preta, “carro de praça” chamado, o pó tomava conta de tudo e as portas e janelas das casas tinham de ser fechadas. No período das águas, uns e outros levavam tombos na lama escorregadia. E era então chegado o tempo de jogar finca e bolinha de gude.
Tivemos também uma experiência circense. Foi na casa de Amelina, com Roldão e Pretinha, filhos dela. O marido, Almir, era chefe de segurança da Central do Brasil. Pra nós, ele era “detetive” e achávamos curioso o fato de o senhor Almir andar sempre com um revólver na cintura. A chegada dele inibia um pouco talvez devido ao fato de ser “um detetive”. Mas ainda assim fazíamos estripulias, voávamos em trapézio imaginário e o senhor Almir fazia de conta que nada via.
Disse-nos Amelina, a casa onde morávamos ainda existe. Nunca mais pusemos os pés nela. Tudo agora lembrado se deu entre os anos 1957 e 59. Em 1960, a família foi morar na rua Corrêa Machado, entre as ruas Dr. Veloso e João Pinheiro. Havia lá o campo do União Esporte Clube. Foi naquela casa que, em 1961, o nosso pai faleceu, José Batista da Conceição chamado, apelidado de Zé Bitaca, porque teve uma loja na rua Coronel Joaquim Costa.
A casa da rua Corrêa Machado foi outra época importante. Vieram novos amigos, entre outros, Chico Ornelas e Quizim; Paulo e Luís, filhos do ferreiro Simeão; Nêgo Ró, Osmar, Zezinho, Jésus, os irmãos Felipe, João Carlos e Ricardo Gabrich; Rubim, Sílvio, Dedinho, Mário Bode e Eustáquio, neto de dona Tina.
Foi época bem vivida. Éramos felizes e sabíamos. O vivido vivo ainda está na mochila. Mas o importante é a intensidade de viver o agora, quando construímos o futuro. Sabendo disto vamos juntos plantar o bem sem olhar a quem. Para amanhã não chorarmos a vida desperdiçada.


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Por Alberto Sena - 26/8/2013 08:10:23
Vou embora pra Marte

Alberto Sena

É com grande pesar, mas ao mesmo tempo com satisfação, que anuncio à minha família, aos parentes e aos amigos de MOC e de Beagá: estou de muda para Marte, com a passagem só de ida.
Não dá mais para viver na Terra. Já deu o que tinha de dar. Estou cansado de ver desigualdade, injustiça, violência, corrupção, trânsito (louco) de veículos, poluição etc. Desconfio, a humanidade fracassou. Apesar de ter recebido um belo planeta para bem viver.
É preciso deixar claro, a Terra em si nada tem a ver com a minha decisão. Ela é linda. Maravilhosa. Possui serras e montanhas convidativas às escaladas. O que dizer das florestas? E dos animais? Quem já singrou mares e navegou ares conhece as belezas que muitos terráqueos nunca viram nem nunca verão, pessoalmente. Mas podem conhecer pela internet, basta navegar, que é preciso e importante; viajar, dentro ou fora do país. O aprendizado é como mais tijolos no currículo.
Vou fazer parte do projeto Mars One, que quer levar uma turma de terráqueos para colonizar Marte. Vou porque estou insatisfeito com o status quo do mundo. Vou como repórter, a fim de fazer a cobertura. E, claro, nunca mais pisarei os pés na Terra.
Isso equivale à última viagem que todo ser vivo faz quando é chegado o tempo. Daí estar neste momento entre pesaroso por deixar a lindeza do planeta e determinadas pessoas e satisfeito por estar empreendendo uma viagem desta, de sete meses, rumo a Marte.
Confesso com sinceridade marciana, estou curiosíssimo. Durante esses dias, ao invés de sofrer misoneísmo, que Carl Gustav Jung define como “medo do novo”, quando a gente sente aquele friozinho na barriga, porque está vivendo uma situação pela primeira vez, ao invés disso, estou curioso e experimento até uma pitada a mais de alegria.
Posso explicar: é porque teremos – eu e os outros escolhidos – a oportunidade de iniciarmos uma versão nova da raça humana. Em que pese à necessidade de viver em módulos confortáveis por não sei quanto tempo.
Desta vez, não haverá nenhum Caim para matar Abel algum. Teremos uma terra nua e crua para iniciarmos uma vida novíssima em folha. Inda mais carregados da experiência de como não devíamos ter feito certas coisas na Terra, teremos toda oportunidade marciana para criar gente cheia de princípios verdadeiros.
Em Marte só a sinceridade valerá. O respeito de uns pelos outros. Vamos investir em gente. Com amor. Teremos que aprender a criar uma atmosfera semelhante a da Terra. Vamos plantar bilhões de árvores. Sequoia, jequitibá, ipê (de todas as cores), pequizeiro – este é muito importante porque é o alimento mais rico em vitamina A; em 100 gramas da sua polpa há 200 mil Unidades Internacionais de vitamina A. Fora as outras vitaminas, sais minerais e gorduras que o pequi, o fruto amarelo, contém. É um complexo vitamínico.
Lá em Marte não vamos tender a erros cometidos aqui na Terra em relação ao meio ambiente, quando tudo estiver construído. Jamais faremos acepção de pessoas. De fato, todo cidadão honorário de Marte e as gerações que vão se multiplicar rápida e eficientemente, serão iguais perante Deus e as leis de Deus e dos homens.
Lá em Marte, nós marcianos vamos praticar os valores verdadeiros, de modo a transformar o planeta vermelho em um mar verde de árvores; e de água doce e mel de um lado e de água salgada do outro; e até mesmo haverá um Mar Morto só para as pessoas deixarem o corpo boiar e se divertir.
Em Marte, não haverá corrupção de modo algum. Nem existirão necessitados nas ruas a serem criadas. Uns vão se ocupar com os outros sem que um incomode o outro. Os vizinhos viverão em um mar de rosas. Rosas rosas e rosas vermelhas. Até azuis da cor do firmamento.
Chegará o dia (ou a noite) marciana que será preciso alguém comandar toda a estrutura a ser criada. Certos de que abaixo de Deus é a política que determina os rumos da nossa vida, ela será praticada, de fato, como arte de governar gente humana. Algo que seja do povo, com o povo e para o povo. O dinheiro público será sagrado.
A certa altura da nova vida, em Marte, aqui embaixo os terráqueos terão desenvolvido tecnologia capaz de captar, como se fosse num reality show, o surgimento de uma nova raça humana, no planeta vermelho, onde reina o silêncio, a paz marciana e a justiça em plenitude.


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Por Alberto Sena - 19/8/2013 08:02:38
Sob as luzes do presépio

Alberto Sena

A história da bela e pacata Grão Mogol, cidade do século XVIII, incrustada na Serra do Espinhaço, na divisa das regiões do Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha pode ser resumida em duas épocas: a do garimpo de diamantes e a atual, após o surgimento do Presépio Mãos de Deus, o maior do mundo na categoria de perene e a céu aberto, construído em pouco mais de oito meses, pelo empresário aposentado Lúcio Bemquerer, e entregue a cidade, ao Brasil e ao mundo.
A obra já levou a Grão Mogol uma multidão de mais de 30 mil pessoas, cerca de seis vezes a população da cidade, em apenas um ano e meio depois de inaugurada. Sob as luzes do presépio, que fará dois anos em dezembro próximo, a cidade entrou numa nova fase e ganhou um ritmo de desenvolvimento adequado às suas características naturais e históricas.
Grão Mogol ganhou hotel de qualidade; ganhou balneário do Córrego, comparável a um paraíso, com piscinas naturais de água corrente; e, recentemente, unidade de escola técnica, já em obras, resultante de convênio entre a Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) e o Ministério da Educação e Cultura (MEC), com capacidade para 1.200 alunos.
Isso sem falar do quanto o presépio influenciou o comércio com o aumento da fluência de turistas, que se surpreendem com as opções oferecidas pela cidade e região, entre as quais a matriz de Santo Antônio, toda de pedras, e a Casa da Cultura Terezinha Vasques, que no passado foi sede de uma fazenda, com calabouço, onde escravos eram encerrados; e, em seguida, hospital; além de grutas com inscrições rupestres, a beleza das serras e a Praia do Vau.
Grão Mogol nunca chegará a ser do tamanho de Montes Claros. Embora Montes Claros já tenha pertencido ao município de Grão Mogol, no período colonial, mas devido à sua topografia bastante acidentada, edificada nas reentrâncias do Maciço do Espinhaço, isso sempre será empecilho ao crescimento da cidade. O prefeito Jéferson Figueiredo (PP) se diz atento em relação aos efeitos colaterais do desenvolvimento.
No último final de semana, ao recepcionar com a apresentação do grupo da Seresta Luar do Sertão a um grupo de empresários da Associação Comercial de Minas (ACMinas) que visitou Grão Mogol, atraídos pelo fascínio do Presépio Mãos de Deus, o prefeito estimou em no máximo 10 mil habitantes a população futura da cidade, prometendo trabalhar para a preservação do casario colonial e a história local, como a Trilha do Barão.
Por suas peculiaridades Grão Mogol, entre as cidades históricas mineiras, é a mais diferente, possui “luz própria”, dizem os visitantes. No passado, chegou a ter cerca de 100 mil habitantes. Recebia portugueses, espanhóis e holandeses.
Hoje a população goza da tranquilidade que a grande maioria das cidades perdeu. Em Grão Mogol, o sino da matriz marca as horas e lembra as catedrais europeias; encontram-se casas com portas e janelas abertas; os vizinhos trocam mimos, e as pessoas são conhecidas pelos nomes das famílias – fulano filho de ciclano ou de beltrano.
Os moradores da cidade já nem se recordam mais de quando aconteceu um crime de homicídio. Na cadeia local estão encarcerados atualmente 40 presos, todos de fora. Mas nem por isso a polícia se descuida: todo cidadão suspeito é abordado a fim de explicar o porquê de estar na cidade. Quem vai a Grão Mogol não vai para outro lugar. Comparativamente, a cidade é como uma rua sem saída.
Embora possua o Parque Estadual de Grão Mogol, na Serra Geral ou Serra da Bocaína, a região ressente da presença maciça de monoculturas de eucalipto, matéria prima da produção de carvão vegetal para alimentar os fornos das siderúrgicas. Originários da Austrália, os eucaliptos não combinam com a paisagem do Cerrado dotada de vegetação tortuosa, frágil e delicada na sua rusticidade.
Os empresários da ACMinas elogiaram a qualidade do hotel local, experimentaram a moqueca de surubim do balneário, percorreram as passarelas das piscinas naturais e os chalés, conheceu o lugar onde é coletada e distribuída em galões a água mineral Grão Mogol, conheceram o centro histórico da cidade e, por último, o lugar onde será erguido o Mirante 360º, do qual se podem divisar paisagens a mais de 100 km de distância.
No domingo, turistas em dois ônibus – cerca de cem pessoas – chegaram ao Presépio Mãos de Deus a fim de orar em busca de graças. Na entrada do presépio os visitantes liam em um baner a seguinte inscrição: “A Espanha tem Santiago de Compostela; a França tem Lourdes; Portugal tem Fátima e o Brasil tem o maior presépio natural do mundo”.
P.S.: Participaram da visita ao presépio Ruy Araujo (Jane), Fábio Guerra Lages, José Aparecido Ribeiro, Antônio Maluf (Loreta), Nacib Hetti (Maria Helena), Carlos José Moreira Cotta, Luiz Burlamaqui de Mello Júnior e a escritora Amelina Chaves e Sílvia Batista.


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Por Alberto Sena - 11/8/2013 08:50:47
O estalar de ossos do meu pai

Alberto Sena

A única palmada que levei do meu pai foi quando a polícia, um soldado PM fardado, foi lá em casa para me intimar a comparecer à delegacia. Já contei esse episódio em um outro texto, mas em rápidas pinceladas, como de certo não diria o pintor baiano mais montesclarino, Godofredo Guedes, permitam-me voltar ao assunto.
Morávamos no trecho da Rua Corrêa Machado, entre as ruas João Pinheiro e Dr. Veloso, em frente ao campo do União, à época, década de 60, um lugar mágico. A turminha brincava de atirar pedras com estilingues, do lado do campo que dava para a Rua João Pinheiro, quando um dos meninos atirou sem querer querendo, uma pedrada no para-brisa de um caminhão basculante do DER que, inadvertidamente passava por ali.
Foi nesse dia que levei a única palmada do meu pai, pelo menos ao que eu me recordo. Não pensem que conto isso agora porque guardo algum ressentimento em relação a essa bendita palmada. Conto isso porque hoje é considerado pelo comércio “o Dia dos Pais”. Naquela década entrante, com só 11 anos de idade, como é que podia um menino ser intimado a comparecer à delegacia?
Não vou me estender nisso porque, como disse, já escrevi a respeito, mas só para fechar, tudo foi resolvido da melhor maneira possível, pois o “coronel Coelho”, delegado “calça-curta” naquela época, era amigo de meu pai e foi uma boa oportunidade para os dois baterem um papo, já que “delegacia de polícia não foi feita para menino de 11 anos”, disse ele. Os mais antigos vão se recordar do coronel Coelho.
O que quero dizer, aproveitando esse minifúndio eletrônico, é que meu pai, até o quanto convivemos, pois ele morreu quando eu tinha 12 anos, foi um grande amigo. Tenho boas lembranças dele, de quando, mãos dadas, íamos ao mercado municipal, aquele casarão onde as mercadorias chegavam em bruacas trazidas no lombo dos animais, cavalos, mulas e jumentos.
Acho que o meu gosto por caminhadas se iniciou nessa fase intermediária entre a infância e a pré-adolescência, quando pai me levava à fazenda Aliança, a pé. Viajei várias vezes com ele, de trem, como uma vez em que fomos nos encontrar com a minha irmã Ladinha vinda de Belo Horizonte. Fomos até Buenópolis esperar “o trem de Ladinha”.
Pai me levava ao campo de futebol e também à Praça de Esportes, onde aos domingos funcionava uma rinha de galos de briga. Naquela época, o campo do Cassimiro de Abreu ainda não existia no bairro Todos os Santos. Havia só o estádio João Rebelo e o do Ferroviário. Foi no João Rebelo que conheci Chinezinho, Manoelzinho, Manoelito, João Batista, entre outros craques do futebol da nossa terra.
Um dos episódios mais marcantes da relação paterna foi num Natal, quando o menino acreditava ainda em Papai Noel. O sonho de ganhar uma bicicleta havia se tornado realidade. Chovia muito. Como eu soube depois, meu pai deixara a bicicleta do lado de fora, na parte da frente da casa para não desmoralizar Papai Noel. Se fosse hoje, do modo em que vai a criminalidade em Monte Claros, Papai Noel estaria com um furo no saco.
Quando acordei no dia de Natal com a porta entreaberta e vi a bicicleta, só queria ficar montado nela. Mas não podia ir experimentá-la lá fora porque, pasmem, ainda chovia em Montes Claros. Dá janela vendo a chuva cair lá fora, eu torcia para parar de chover a fim de estrear a bicicleta.
No dia do falecimento do meu pai, em 15 de janeiro de 1961, era de manhã e eu me encontrava na rua jogando bolinha de gude, quando ouvi o grito da minha irmã, Lúcia, me chamando. Foi só o tempo de quicar a bolinha do companheiro e embolsar mais uma, para atender ao chamamento.
Algo não ia bem, senti logo. De fato, meu pai estava nas últimas. Ele ficou doente durante algum tempo, na cama. Foi atendido pelo médico “Mauricim” – João Valle Maurício. Talvez para me tirar do quarto naquele momento, mãe me pediu para correr à casa de tia Ambrosina, a dois quarteirões da nossa casa. Fui voando de bicicleta. Avisei tia Ambrosina e voltei a tempo de ver pai dar o último suspiro.
Antes, ouvimos um estalo de ossos dos pés de pai. Alguém disse depois: “Foi um sinal da partida dele”. Hoje, acho que não. Os ossos estalam mesmo em qualquer situação. E podem estalar até na hora da partida final.


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Por Alberto Sena - 30/7/2013 14:02:42
Saudade dói; e como dói, João Jiló

Alberto Sena

Uma ida de menos de 48 horas a Montes Claros, a fim de buscar fogo; uma descida pela Rua Dr. Santos, em frustrada tentativa de encontrar algum casarão antigo ainda de pé; uma passada pela Praça Dr. Carlos e pela Rua Simeão Ribeiro até o Café Galo foram suficientes para a conclusão de que, ao longo de quatro décadas, uma nova cidade surgiu e a memória da outra volátil tanto quanto os gases prospectados na região, desapareceram. Aliás, existem apenas dois vestígios, um deles é a casa da família do amigo Alcebíades Batista, e a outra é a do empresário e poeta Luiz de Paula Ferreira, a ambos rendemos homenagens.
A essa altura do campeonato lúdico da vida como querer encontrar tudo como dantes no quartel de Abrantes? Muitos dos rostos conhecidos, aqueles que naquela época eram figurinhas fáceis em todas as hostes, já se foram. E quem dos que ficaram e vivos estão em Montes Claros ainda se lembra desses nomes: Fernando Gontijo, Zim Bolão, Lourinho, Waltinho Fernandes, Ildeu, Rubens Sena, Cícero “Cuecão”, Geraldo Santana Machado, Popó, Lazinho Pimenta, Tião Boi, só para citar alguns entre tantos?
O café Galo continua sendo um termômetro montesclarino. Dependendo da temperatura do café ou do conteúdo do gostoso pastel servido por Jadir Rodrigues, é possível saber um pouco do paradeiro deste, daquele ou daquela pessoa com a qual houve convívio em passado nem tão remoto considerando a relatividade do tempo. Os frequentadores do café Galo, ponto tradicional aonde intelectuais da cidade e os políticos em campanha não podem deixar de entrar para tomar cafezinho e comer pastel, têm como característica falar só bem uns dos outros. Pra eles, fofoca é coisa de gente careta. E estão certos. Montes Claros tornou-se uma metrópole e como acontece em toda metrópole, as pessoas cheias de afazeres não dispõem de tempo para cuidar da vida alheia.
Nem bem havíamos chegado ao café Galo, ainda a meio caminho da Rua Simeão Ribeiro, eis que surgiu serelepe Raphael Reys, que, com poucas palavras nos convenceu de que a vida começa realmente aos 65 anos, afinal o sentimento chamado amor é como a fase da infância, que tanto pode durar pouco como pode ir de zero aos 105 anos em gente apaixonada. De fato, o amor é lindo e pudemos comprovar isto por meio da nossa paixão por Montes Claros, mesmo sabendo que a qualidade de vida na cidade já foi há muito tempo “pras cucuias”.
Depois de pousar para fotos a pedido do Reys e de uma prosa rápida sobre literatura, lançamentos de livros e tal e coisa, conseguimos chegar ao café Galo e dar de cara com rostos conhecidos, desde muito tempo, como Saul Sena, que admitiu ter sido “fruto de um milagre” porque viu a nossa vó (ele é primo) pela greta. Hoje em dia, toma cafezinho, come pastel e recita salmos bíblicos a fim de reacender corações.
Lá se achava também o poeta repentista, cantor, compositor e escritor Téo Azevedo, de Alto Belo, a quem não encontrava desde a década de 80. Lá estava também assinando ponto o jornalista Jorge Silveira, que iniciou carreira no Diário de Montes Claros e nós no O Jornal de Montes Claros, de Oswaldo Antunes, falecido recentemente. Ponciano chegou, cumprimentou e saiu. Theodomiro Paulino passou de raspão, tempo suficiente para saber sobre o estado de saúde da mãe dele, que ele valoriza tanto como todo filho deveria valorizar os pais.
Lipa chegou e foi então que nos deu a notícia bastante retardada de como faleceu o amigo Cícero Cuecão com quem jogamos futebol e vivemos as noites montesclarinas, em companhia de outros que nem ousamos citar os nomes para não correr o risco de deixar alguém fora da lista.
Tomamos cafezinho, comemos pastéis, despedimos dos que ali estavam e fomos andando tentando reconhecer os lugares onde havia algum sinal da cidade de até o início da década de 70. Ao mesmo tempo, como quem empurra para o fundo da mochila algo que insiste em sair, evitamos ao máximo o sentimento de saudade, porque gera banzo. Saudade dói; e como dói, João Jiló.
Não resistimos à curiosidade e pedimos ao motorista do táxi para passar pela Rua Corrêa Machado, entre ruas João Pinheiro e Dr. Veloso, onde havia um campo de futebol, em verdade um paraíso mágico, palco de parte da infância, adolescência e início da fase adulta de muitos que já se foram e de muitos que ainda vivem eternamente enquanto durar o tempo.


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Por Alberto Sena - 29/7/2013 08:39:44
A transmutação da energia do futebol

Alberto Sena

Se as pessoas canalizassem para Deus e ao próximo, independentemente de religião, essa energia que direcionam ao futebol, para agradecer pelo dom da vida e de tudo mais que Dele recebemos certamente a situação aqui e no mundo inteiro seria melhor, menos desigual e menos injusta; talvez não houvesse tantos necessitados nas ruas das cidades.
Se as pessoas dirigissem o entusiasmo que dedicam ao futebol para atuarem politicamente, tendo em vista acabar com a farra dos maus políticos, que se elegem com o intuito de se locupletarem com o dinheiro público, deixando milhões de pessoas com fome, sem educação, saúde e segurança, dúvida não haveria de que esse país varonil seria uma grande nação, exemplo para o mundo.
Se as pessoas ao invés de pensarem excessivamente em futebol, que hoje em dia é motivo de brigas e até de mortes, mudassem o pensamento e passassem a ler mais, a estudar mais e a se ocupar mais com a orientação dos filhos em casa, é possível que sobrasse cabeça para exigir das autoridades uma educação formal de qualidade. Decerto não existiria nas ruas tanta violência que nos faz prisioneiros em nossas casas e poderíamos retomar os tempos de antigamente quando andávamos a pé pelas madrugadas.
Se as pessoas parassem um pouco para pensar na dureza da vida e do quanto trabalham para ganhar o dinheirinho honesto que gastam com futebol, concluiriam: achando estarem se divertindo, pondo para fora o estresse e coisas do gênero, de fato enchem as burras dos cartolas e dos jogadores vorazes consumidores de altas somas, enquanto os pobres coitados ralam recebem em troca um futebol de pouca arte e muita violência, para dizer o mínimo.
Se as pessoas fanáticas por futebol transmudassem o fanatismo em energia criadora, tendo em vista o bem-estar de todos, veriam que, ao longo da vida cotidiana, há muitas necessidades mais importantes e prioritárias que o futebol para cuidar, e então evitariam desrespeitar o silêncio noturno e deixariam de poluir o ambiente com o estouro de bombas, foguetes, buzinas estridentes e sons de péssimo gosto que denotam o baixo nível cultural de cada um.
Se as pessoas usassem essa chama ardente para descobrir que a felicidade delas não está no futebol, mas dentro delas próprias, não usariam as agremiações para discriminar uns e outros e voltariam a fazer do esporte uma maneira de unir as pessoas, independentemente do clube a que torcem. Desse modo, embora existam outras necessidades mais importantes que o futebol, este seria encarado como uma simples diversão sem risco à integridade física dos cidadãos.
Com isto posto a intenção aqui não é extinguir o futebol, que tem importância subjetiva e é usado de toda forma pelos governos e cartolas, mas alertar: assim como o governo federal tentou e não conseguiu se apoderar da visita do Papa Francisco para encobrir os deslizes políticos, usa o futebol como uma espécie de ópio para tornar o cidadão um fantoche, de olho nas eleições de 2014. A receita é antiga, vem desde os tempos romanos, quando os imperadores usavam o pão e o circo para calar o estômago e a voz do povo.


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Por Alberto Sena - 23/7/2013 08:54:23
Serra da Mantiqueira nosso amor

Alberto Sena

Depois de andar 200 quilômetros, em uma semana de caminhada, mochilas nas costas e cajado na mão, contemplar paisagens lindas na Serra da Mantiqueira (MG/SP), tudo agora parece ter sido um sonho bom. Se não existissem as fotos das pessoas que conhecemos e com as quais convivemos horas inesquecíveis, e dos lugares aonde Deus caprichou mais na criação, a realidade sonhada durante oito anos parecia ter sido uma bela viagem onírica.
Iniciamos a caminhada a partir de Tambaú (SP), seguimos as setas amarelas do Caminho da Fé. O percurso é de 400 quilômetros até o Santuário de Nossa Senhora Aparecida, na cidade de Aparecida do Norte (SP). Já fizemos essa caminhada três vezes e desta não iríamos até o santuário porque a visita do Papa Francisco a Aparecida superlotou a cidade e já não mais havia nem lugar onde hospedar. E só de pensar na multidão de gente de todos os cantos do Brasil e até do exterior, argentinos, principalmente, antes mesmo de o Papa chegar, desanimamos de ir até lá. Fomos, portanto, até Ouro Fino (MG), onde o Menino da Porteira nos recepcionou.
Mas o mais importante não foi chegar a Ouro Fino. O melhor mesmo foi viver cada instante da caminhada, contemplar as paisagens de tirar o fôlego. Subir e descer a Mantiqueira, usufruir de lugares donde se pode ter visão de 360 graus. Há quem tenha a necessidade de “ver para crer”, como são Tomé. Cremos e vimos Deus em tudo que havia de natural. As “pegadas” dele estão por todos os cantos, dentro e fora de nós. Uma caminhada desta, à semelhança do Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, é algo “para quem tem palpite”, como bem disse um fazendeiro da Mantiqueira com o sotaque paulista acentuado.
Passamos por extensas plantações de cana de açúcar; vimos lavouras de cafés Catuaí e Mundo Novo nas encostas de morro, café de qualidade; apreciamos as laranjeiras carregadas de frutos; constatamos o fim da “apanha” de café, substituída por mãos mecânicas que sacodem os cafezais e derrubam os frutos. E ficamos a imaginar o que fazem a essa altura as levas de trabalhadores do Norte de Minas e do Paraná que costumavam rumar para o Sul do Estado a fim de colher café. Acabou-se a cantoria da “apanha”. O som agora, em plena safra, é do motor das mãos mecânicas. O ronco incômodo é um contraste com a beleza do campo e do silêncio entrecortado pelo canto dos passarinhos e do martelar das seriemas.
De Tambaú fomos para Casa Branca (SP) e em seguida para Vargem Grande do Sul (SP), onde de fato começa a beleza e a grandeza do caminho. Nós nos hospedamos na pousada de Cidinha, mulher de temperamento forte, casada com o empreendedor Francisco. Na casa dela o marido, o filho e o neto levam o nome da moda, muito antes de o Papa argentino ser eleito.
Ali há lugares paradisíacos, onde não se tem notícia de que alguém pôs os pés. Pela pousada de Cidinha passa o mundo. Todos os dias, levas de peregrinos chegam e outras saem a pé ou de bicicleta. Melhor maneira de fazer o caminho e ter a oportunidade de contemplar as belezas naturais que jorram como cachoeira, é a pé, passo a passo. É enorme a sensação do prazer de andar em contato com o pó da terra, do sol benfazejo, do ar puro representado pelos liquens das árvores e do bulício das nascentes da Mantiqueira. Há lugares que nos levam a dar três passos para frente e dois para trás.
A Mantiqueira é o nosso amor. Pronto, está feita a declaração. Lá temos a impressão de que estamos mais perto do céu. Gavião para no ar a espreita da caça e num voo rasante, como arremetida de avião, garante o almoço do dia. Casais de tucanos voam baixo talvez para mostrar o brilho e as cores das penas e o tamanho do bico. Pomba verdadeira passa zunindo, feito bólido. Apesar da devastação das florestas, para exploração agropecuária, a natureza sobrevive e o verde das serras penetra as pupilas dos olhos e vai fundo na alma.
Foi a caminho de Casa Branca que a ameaça de uma tempestade com redemoinhos quase nos pegou. O céu parecia a ponto de desabar. Mas a Providência divina não abandona ninguém: eis que surgiu um anjo personificado em Marquinhos, caminhoneiro, dono de um bitrem no qual transporta cana de açúcar. Ele havia nos socorrido uma hora antes ao nos fornecer água gelada. Em seguida, de volta, desta vez dirigindo um carro de passeio, ele nos ofereceu carona. Aceitamos claro, pois em meio às ameaças da tempestade poderíamos chegar esgotados à Casa Branca. Além de encharcados


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Por Alberto Sena - 29/6/2013 11:47:11
Em agradecimento

Alberto Sena

Pode até soar piegas, mas no momento em que se inicia essa leitura, com a graça do Senhor do Universo estamos a mais de mil metros de altitude, na Serra da Mantiqueira, literalmente ouvindo passarinho cantar, o vento bulir as folhas das árvores e o ruído de nossas botas de trekking pisando o cascalho das trilhas do Caminho da Fé (SP-MG-Serra da Mantiqueira-Aparecida). Para quem gosta nada há de melhor. Quem não gosta ou por algum motivo esteja impossibilitado de fazer algo semelhante, isso pode ser “uma loucura”. Andar 400 quilômetros com qual objetivo?!
Cada qual tem o seu objetivo, tanto no singular como no plural. Andar é viver, inda mais quando se tem a oportunidade de trilhar por paisagens de tirar o fôlego. Lugares que transmitem a sensação de que no paraíso celeste é desse jeito. A clorofila de muito do que nos resta de florestas entra pela menina dos olhos e vai fundo na alma. E não assustamos se dum momento para o outro um animal quadrúpede atravessar a trilha. Pararemos para contemplar o bicho porque isso não acontece no dia a dia, na cidade, onde os bichos são outros, esses sim, loucos.
Pode ser “loucura” fazer uma caminhada desta, só que é uma “loucura” lúcida. Imagina se neste momento, ao invés de estarmos aqui, na Serra da Mantiqueira, contemplando o que há de natural e belo ao redor, numa visão 360º, estivéssemos na cidade. Imagina. Em meio à parafernália dos carros que estão a deixar as pessoas tendo ataques psicóticos no trânsito. Um formigueiro de gente de aparência surrada, sofrida, trombando uns nos outros. A poluição sonora, visual e que tal, como se vivêssemos dentro de um caldeirão onde uma bruxa malvada adiciona suas ervas para manter a confusão armada.
Ou senão, poderíamos estar defronte da tela de um computador, no trabalho, trepidando todos os dedos das mãos nas teclas dele - particularizamos isso só para dizer que temos uma base de datilografia feita naquelas antigas máquinas Remington, por isso usamos dez dedos nessa tarefa, que muita gente utiliza apenas dois. Poderíamos estar manuseando todas as ferramentas tecnológicas que estão a consumir jovens que não leem livros seguros entre as mãos, não acompanham o dia a dia dos acontecimentos, não conhecem o que seja civilidade...
Lindas foram as manifestações públicas das últimas semanas, exceção da violência dos vândalos que nenhum compromisso têm com as reivindicações políticas das pessoas de boa vontade. São bandidos. Mostramos aos três poderes da República que paciência tem limites e, agora, sim, sempre que não concordarmos com os abusos dos integrantes dos três poderes, vamos todos às ruas, manifestar o nosso descontentamento. Isso é exercer a democracia, a cidadania.
Mas nós que protestamos temos que, individualmente, fazer a nossa parte. Provamos que sabemos protestar, mas no dia a dia, no convívio com as pessoas nas ruas da cidade, no trabalho ou em família, precisamos provar que estamos praticando o que pregamos. Muita das vezes, uma coisa é o que se prega e outra é o que se pratica. E como a gente sabe que os humanos não são o que dizem, mas sim o que fazem, é conhecendo a obra de cada um que vamos concluir se os frutos das manifestações atuais não irão cair em mãos bandidas. Senão correremos o risco de o poder simplesmente trocar de mãos. Precisamos cumprir devidamente o dever como cidadãos, uns respeitando os outros, sabendo pronunciar o que chamamos de “palavras mágicas”, como por exemplo, “obrigado, por favor, licença”, além de outras.
Precisamos transformar a cidade onde moramos em lugar com qualidade de vida para todos. O Brasil é rico. Pobres de espírito são aqueles governantes, políticos de modo geral, empresários e cidadãos comuns que praticam a corrupção. Reclamam dela no dia a dia, mas quando têm a oportunidade de praticá-la não pensam duas vezes. Não podemos cair naquela de: “Faça o que eu mando e não faça o que eu faço”.
O que se pode depreender dessa nossa conversa é que precisamos nos relaxar, daqui por diante. O caminho é longo. Levamos na mochila o essencial. Menos de 10% do nosso peso corporal. O peso da mochila reflete o estado da alma. Em verdade, não precisamos de muita coisa para viver. Isso nós aprendemos ao fazer essa caminhada a primeira vez, em 2003. Agora, em férias do trabalho, fazemos o percurso pela quarta vez para agradecer a Deus pelo prazer da alegria de viver.


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Por Alberto Sena - 24/6/2013 07:57:47
Quer brincar comigo?

Alberto Sena

O lugar era a sala de espera de um laboratório de radiologia odontológica, em dia de sábado. O ar condicionado gelado estaria mais ao agrado de pinguins do que de quem nasceu e foi criado em Montes Claros, onde o clima é quente e seco. Havia na sala duas atendentes atrás do balcão, um homem de cabelos brancos sentado numa cadeira à espera de ser chamado e uma criança que brincava com dois carrinhos desenhados e recortados em papelão.
Se muito, o menino devia ter cinco anos. Ele mexia com os carrinhos de papelão e imitava o ruído dos motores daquele jeito que as crianças costumam fazer. Teve um momento que o menino levantou os olhos e perguntou:
_ Quer brincar comigo?
_ Quero.
Num átimo, o convite da criança remeteu à lembrança do Pequeno Príncipe, personagem do francês Antoine de Saint-Exupery, quando no deserto, depois de uma pane de avião, sozinho, responsável pelo correio postal da França, ele ouviu uma vozinha saída do nada que lhe pedia:
_ Desenha-me um carneiro.
O menino da sala de espera do laboratório era de pele morena, tinha os cabelos pretos brilhantes e sorriso meigo. A princípio parecia ser parente do homem de cabelos brancos. Pouco depois se pôde comprovar, ele nada tinha a ver com o homem de cabelos brancos. A mãe do menino saíra da sala para fumar e o deixara ali dentro brincando com os dois carrinhos de papelão recortado.
_ O meu carro é do Hulk e o seu do Homem Aranha.
_ Certo. E o que vamos fazer?
_ Vamos disputar corrida.
E ato contínuo o menino direcionou o carrinho do Hulk sobre o do Homem Aranha, simulando uma trombada. Logo após a trombada, ele deu uma gargalhada. Parecia uma criança carente de afeto. Um pequeno príncipe. Foi quando a porta da sala se abriu e uma mulher entrou e viu um homem de cócoras brincando com o filho dela, cada um com um carrinho de papelão. Foi nesse momento que se pôde constatar o fato de o menino nada ter com o homem de cabelos brancos.
Nisso a porta se abriu novamente e era S. Logo ela foi apresentada ao menino, que disse se chamar Mateus. A mãe dele se sentou numa cadeira ao lado e com o semblante brilhando num intenso sorriso labial, parecia se divertir com a alegria do menino brincando com um adulto desconhecido.
Mateus lembrou o espírito infantil de um menino que sobrevive até hoje num adulto, quando brincava às vezes solitário com um carrinho feito de madeira e rodas de carretéis dispensados pela mãe costureira. O menino de então vivia com os pés no chão, subia em árvores, jogava bolinha de gude, finca e pelada com bola de meia; corria para um lado e para o outro irradiando a alegria de viver nas partidas de bentealtas, salvo ou rouba bandeira.
Isto aconteceu no tempo em que as pessoas viviam em Montes Claros com as portas e as janelas das casas abertas. Acontecia às vezes de cachorro entrar tão tranquila era a cidade, antes, muito antes do advento do asfalto.
Noutro tempo, Mateus lembrou o próprio filho batizado com o mesmo nome e dos outros, quando eram pequenos, e foram criados com base na filosofia de Kalil Gibran Kalil, que dizia sobre filhos: “Vossos filhos não são vossos filhos; são filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma; vieram através de vós, mas não de vós; e embora vivam convosco, não vos pertencem”.
Depois de várias trombadas dos carros de papelão, as lembranças fizeram ploc, como fazem as bolinhas de sabão, quando uma porta ao lado do balcão das atendentes se abriu e uma voz feminina chamou:
_ Mateus.
Ele se levantou, pegou os carrinhos de papelão e ouviu um “foi um prazer conhecer você!”, mas a mãe quem respondeu:
_ Foi um prazer.
E o menino Mateus entrou para tirar a radiografia dos dentes.


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Por Alberto Sena - 18/6/2013 14:08:08
Na Trilha do Barão

Alberto Sena

Foi depois de visitar o presépio Mãos de Deus, de Grão Mogol, que o arquiteto Robson Cardoso Oliveira programou fazer a Trilha do Barão, caminho construído pelos escravos, no século XVIII. Com passagem comprada para trilhar o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, ele não pensou duas vezes, retornou a Grão Mogol, no último final de semana, para fazer a caminhada. Foram 30 quilômetros entre ida e volta.
Nascido em Pajeú (MG), Robson mora em Montes Claros já faz um tempo e voltou da caminhada pela Trilha do Barão encantado, como quem havia encontrado uma espécie de “paraíso perdido” em meio às serras da região. A trilha fica dentro do Parque Estadual Grão Mogol e além da beleza paisagística, ele encontrou uma vegetação rasteira especial, com bromélias, sempre vivas e canelas de ema por onde andou com a mochila nas costas, numa prévia para vencer os mais de 800 quilômetros de San Jean de Pied-Port, na França, até a cidade de Santiago de Compostela.
O importante nessa caminhada pela Trilha do Barão, é que o arquiteto, acompanhado de Pedro Cardoso, Fábio Freire e o guia Paulinho, pôde constatar a histórica atmosfera do lugar. E o mais curioso, segundo ele, é o fato de muitos gramogolenses nem conhecerem a trilha por onde o barão e a família dele transitaram em liteiras, carregadas pelos escravos.
Com altitude de cerca de 1.300 metros, o caminho oferece uma vista de tirar o fôlego. Lá de cima se pode ver tanto Grão Mogol como a cidade de Cristália, além dos vales cortados pelo maciço do Espinhaço citado pelo escritor Euclides da Cunha (1866-1909) no livro “Os Sertões”, que cativa qualquer indivíduo humano. A vegetação é mista e o solo diverso. Robson pôde observar que muitas das pedras da trilha – será quantas vidas de escravos ali pereceram? – estão se soltando. Além de manutenção, a trilha carece de mais estímulo à visitação, a bem do turismo de Grão Mogol, que um dia recebeu o epíteto de “cidade-presépio”.
E como um pouco mais de história cai bem, o barão, representante dos interesses dos portugueses, se chamava Gualter Martins Pereira e mandou construir a trilha para ligar a fazenda dele ao então arraial onde diamantes mil brilhavam. A trilha é pavimentada com cantaria, pedras irregulares, margeada com muros de arrimo em rocha, de rara beleza.


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Por Alberto Sena - 17/6/2013 07:56:54
O que diria Pirandello sobre Montes Claros

Alberto Sena

Se o escritor italiano Luigi Pirandello (1867-1936) estivesse no meio de nós, e, se numa hipótese, ele sobrevoasse hoje Montes Claros, de helicóptero, repetiria aquilo que disse ao então repórter Assis Chateaubriand, na década de 20: “Acabo de chegar do Brasil (Montes Claros) e estou triste porque o País (a cidade) adota o modelo norte-americano de espigões”.
Montes Claros, que nasceu fazenda, virou “Arraial das Formigas” e depois “Princesinha do Sertão”, atualmente é de fato a capital da região metropolitana do Norte de Minas, com direito aos ônus de uma metrópole plana que segue o modelo norte-americano de espigões; cresce para cima.
Pirandello é um dos maiores escritores da literatura moderna, autor do livro “O falecido Mattia Pascal” e de peças de teatro tipo “Seis personagens à procura de um autor”. Ele foi uma das personalidades entrevistadas por Chateaubriand, que, a mando de Aurélio Buarque de Holanda, fez uma série de reportagens com personalidades europeias influentes de diversas áreas do conhecimento, para publicação no Brasil.
Claro que a opinião de Pirandello em nada influenciou no processo de crescimento vertical das grandes cidades brasileiras, “um modelo urbanístico equivocado”, segundo nos disse, semana passada, em Belo Horizonte, o navegador Amyr Klink, ao participar de um seminário promovido pelo jornal Hoje em Dia, sobre mudanças climáticas. Equivocado, segundo ele, porque excludente e gerador de favelados. “As cidades têm que diminuir e crescer em oferta de qualidade de vida”, disse Klink, que já experimentou o frio da Antártida 42 vezes.
No início da década de 70, Montes Claros possuía, se muito, dois ou três espigões. Um deles, localizado na esquina das ruas Pedro II e São Francisco ficou em obras, no esqueleto, durante anos. Era usado até por estudantes gazeteiros como plataforma de lançamento de aviõezinhos de papel. Os aviõezinhos plainavam até a Praça Dr. Carlos, onde antes havia o casarão do mercado municipal, quando arremessados lá de cima.
Quarenta anos depois, vários espigões brotaram em Montes Claros e em compensação a qualidade de vida na cidade caiu, e as reclamações devido à falta de segurança tornaram-se uma cantilena sem consequência. Os problemas socioeconômicos há muito tempo escaparam por entre os dedos das autoridades, que nem tão responsáveis são no combate das suas causas.
Quem viveu a Montes Claros de até a década de 70 não conhece mais a cidade que cresceu de maneira desordenada e recebeu gente de todas as partes do País trazida pela BR 251, atraída pelas possibilidades econômicas. Primeiro o comércio e a pecuária de corte foram o forte da economia. Depois o carvão vegetal feito de árvores nativas do Cerrado e o Distrito Industrial. Agora, o atrativo é o minério de ferro e a exploração de gás natural da região.
A voracidade como tudo se deu foi de assustar e Montes Claros tanto fez que, por último, passou a tremer. As explicações sobre as causas verdadeiras dos tremores de terra não foram convincentes ao ponto de excluir as explosões de dinamites nas entranhas da gente-terra.
O que muita das vezes é chamado progresso, porque realizado a qualquer preço é em realidade atraso. O mais importante não é conjugar o verbo ter, mas o verbo ser. De que adianta Montes Claros ter isto e aquilo se não consegue ser uma cidade que preza primeiramente o bem estar dos seus habitantes?
Qualquer pessoa que der um giro nos próprios calcanhares vai perceber: Montes Claros, em seu aspecto urbanístico, não tem estrutura para suportar essa carga pesada e desordenada do que aparentemente é progresso e desenvolvimento, antes ignorando a razão da existência dos cidadãos que dão corpo e alma à cidade.
Os problemas que os montesclarinos enfrentam hoje no dia a dia são resultantes da falta de visão dos governantes. A cidade perdeu a oportunidade de conceber um plano diretor que pudesse conservar o traçado antigo das ruas e dos imóveis antigos e construir um lugar moderno voltado exclusivamente para o conforto dos seus habitantes.
Agora, pode ser tarde demais. Qualquer atitude nesse sentido pode custar os olhos da cara. A cidade se expandiu horizontalmente e, nas últimas décadas, cresce para cima, sem criatividade, imitando o modelo equivocado dos norte-americanos.
A esta altura, Pirandello poderia dizer, utilizando de uma expressão portuguesa usada no Norte de Minas, “Agora, Montes Claros, sua alma, sua palma”.


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Por Alberto Sena - 10/6/2013 10:28:49
Para a posteridade

Alberto Sena

Permissão eu peço a cada um, e se licença me é dada, não posso deixar de tecer comentário sobre a repercussão da notícia do acervo de fotos de dona Dorzinha – Maria das Dores Guimarães Gomes – postado no FB. Como sou camarada que gosta de fazer leitura das coisas, me chamou a atenção o elevado índice de leitura da “Carta à dona Dorzinha”, e, certamente, o estrondoso acesso dos montesclarinos à página dela para apreciar as fotos.
É preciso levar em conta o fato de dona Dorzinha ser mãe de uma grande família. Possui muitos parentes, amigos, e numa hora dessa o boca a boca funciona que é uma maravilha. Um dá a notícia ao outro, como no caso do acervo de fotos e em pouco tempo dona Dorzinha, personalidade conhecida e querida, ganhou o mundo sem sair do lugar, nesses tempos cibernéticos. É bom ressaltar a desenvoltura dela no manuseio da ferramenta eletrônica que, ainda hoje, muita gente de ontem resiste em adotar.
Outro ponto a respeito da repercussão da notícia do acervo de fotos de dona Dorzinha é a percepção de que os montesclarinos de ontem, os que resistem na metrópole de hoje, são gente carente de uma cidade mais humana. Querem que Montes Claros volte a oferecer qualidade de vida aos seus habitantes. Que seja um lugar onde as pessoas se conheçam e se reconheçam. Um ambiente urbano propício ao encontro de uns com os outros.
O encontro era a principal característica de Montes Claros de ontem. As pessoas se encontravam em vários pontos da cidade. “Encontro” tornou até nome de uma revista na década de 60, editada por Lúcio Bemquerer e Waldyr Senna.
Mas a nossa cidade tanto teimou que cresceu. Muitos desencontros aconteceram e acontecem no dia a dia. Com o tempo, a nossa cidade foi sendo descaracterizada. E embora se possam encontrar (ainda) alguns sinais da MOC de ontem, o que mais há são retratos na parede. Ou no FB e sites, graças ao lado bom da internet e ao desprendimento de dona Dorzinha ao nos entregar o seu acervo.
Depois de apreciar as fotos a gente chega à conclusão de que precisamos conversar mais, brincar mais e amar demais uns aos outros. Por mais longo seja o prazo de validade de cada um de nós, o tempo é curto para deixar vida escapar por entre os dedos. Inda mais em tempo de obsolescência programada de tudo – de lâmpada a carro e, o que é pior, de gente humana. Em meio à azáfama diária que tal inventarmos motivos para uns aos outros se encontrarem?
As fotos do acervo de dona Dorzinha tiveram o condão de chamar a atenção dos que viram cada uma delas, para a necessidade de construção de uma cidade onde as pessoas possam andar sem medo. Possam rir sem pejo. Um lugar onde o direito de ir e vir de todo cidadão, em segurança, seja uma premissa.
Ao final, para não delongar mais sobre o assunto, a publicação do acervo de fotos funcionou como um halo a mais de vida para os amantes de Montes Claros. Podemos até ser tachados de ingênuos ou algo parecido por acreditamos seja possível criar uma cidade com mais qualidade de vida. Tudo depende da vontade e da prática política de cada cidadão e das autoridades responsáveis pelo destino da cidade.
Todo cuidado é pouco daqui para frente. Se em meados de 2013 a cidade está do modo em que se encontra, principalmente no tocante ao trânsito de veículos de modo geral, o que será de Montes Claros em 2040? Alguém já pensou nisso? Considerando que os problemas acontecem em velocidade superior a das soluções, alguém já pensou o que pode acontecer por entre as estreitas ruas traçadas antes, muito antes de o primeiro carro trafegar por vias mais apropriadas às charretes e carroças?
Tem sido assim, primeiro criamos os problemas e depois saímos correndo atrás das soluções, quando não amargamos o prejuízo urbano e da queda da oferta de qualidade de vida.
Com efeito, o acervo de dona Dorzinha fez despertar um turbilhão de lembranças e provocou reflexões de toda ordem em cada um que teve – e tem – o privilégio de apreciar as fotos e compartilhá-las para a posteridade.


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Por Alberto Sena - 4/6/2013 08:05:06
Carta à dona Maria das Dores

Alberto Sena

Dona Maria das Dores Guimarães, tomo a liberdade de lhe escrever certo de que não se importou com o fato de eu ter tomado a liberdade de copiar, sem licença prévia, no âmbito do facebook, as fotos que a senhora postou da querida Montes Claros. Digo-lhe isso porque a senhora não me conhece e eu, despertado por Adriano Souto, acessei a sua página a fim de fazer uma viagem ao passado. Não que eu viva dele, mas para que, por meio das fotos pudesse reavivar a memória e ganhar mais lume sobre a nossa terra.
O mais importante é que sei quem é a senhora e felicito os seus por a terem, assim, vistosa, forte e feliz. É o que pude ler da foto que se encontra no frontispício da sua página, juntamente a seu digníssimo marido, quando ainda entre nós. Quanta história a senhora tem guardada, hein?! Vi uma por uma, todas as fotos e nelas pude rever pessoas. E se me permite dizer, não vi as fotos com o doído sentimento de saudade. Tomei-as como a um trampolim, feito o da Praça de Esportes daquela época, onde os atletas de então faziam acrobacias. Ganhei mais impulso para a vida.

Quanta beleza e força me despertaram as fotos da construção da Catedral de Nossa Senhora Aparecida. E as fotos de JK andando pelas ruas de Montes Claros? Naquele tempo, o fazer política era levado mais a sério. O espírito público ainda vivia. JK inaugurando o Parque de Exposições João Alencar Atayde parecia pessoa comum.
As fotos da miss Virgínia Barbosa, a beleza de Clarice Sarmento, a voz e a interpretação de Aline Mendonça... Lembrei-me das vezes que ouvi Aline declamar poesias lindas no auditório do Colégio Imaculada Conceição. O prédio do colégio está gravado para sempre na foto que a senhora postou. Daquela porta do colégio um caudal de história jorrou.
Como não poderia deixar de dizer – e de lamentar – muitos dos fotografados já se foram, mas compreendo, só existe vida. E mais vida das fotos de Montes Claros antiga jorrou. Mas não me encontrei em nenhuma delas. Entretanto, de muitos dos acontecimentos registrados participei como mero figurante, como daquela foto do Estádio João Rebello, em 1957, quando do Centenário de Montes Claros. A cavalhada. Os cavaleiros de lança em punho e a galope catavam no ar alianças. Um turbilhão de sonhos sacudiu a caixa craniana do menino de 8 anos, enquanto a multidão se unia em aplausos.
Se uma foto vale mais de mil palavras, dona Maria das Dores, o acervo que postou é um livro a espera de quem o escreva para assegurar os fios de memória com os quais fiará o espectro de Montes Claros, dentro de Montes Claros de hoje. Essa cidade que a senhora tomou o cuidado de fotografar para mostrar à posteridade como eram os costumes, a cultura, a beleza e a elegância da gente montesclarina, essas fotos, dona Maria das Dores, valem milhões de palavras.
Se me permite dizer, oh respeitável senhora, sempre achei uma bobagem sacar fotos e guardá-las numa gaveta. Inda bem que a internet e o facebook aí estão para facilitar as coisas. Fotos a gente precisa mostrar. Servem como comparativo de como era antes e de como será depois.
O professor de história Pedro Santana, que lecionou para gerações de montesclarinos, disse-nos numa das suas primeiras aulas, que “não é possível prever o futuro sem conhecer o passado”. É gostoso olhar para trás e constatar: o passado foi bom, bonito, rico em criatividade. É por tudo isso que a senhora, os seus e os meus vivem bem, graças a Deus. E eternamente enquanto durar o tempo de cada um, é necessário viver em paz. Por aqui ninguém passa em vão.
Mas, dona Maria das Dores, “se a alma não é pequena”, todos os tempos são bons. Cada qual ao seu tempo. Importa ter alegria de viver. Ter o gosto de contemplar a beleza do planeta, a nossa casa. Andar. Subir e descer a Mantiqueira. Apreciar a beleza do céu, do mar, das florestas, dos animais e das gentes que Deus pôs no mundo. Tudo depende do olhar de cada um.
Desculpe-me, dona Maria das Dores, pelo incômodo, a essa hora dos dias e das noites. A intenção era só mesmo agradecer pelas fotos. Obrigado.


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Por Alberto Sena - 27/5/2013 08:28:54
Palpo de aranha

Alberto Sena

Bisavós, avós e pais desta geração de montesclarinos precisam contar aos bisnetos, netos e filhos que a nossa cidade nem sempre foi assim como é hoje em dia. A cidade cresceu desordenada, virou uma metrópole com ônus e bônus, mais ônus do que bônus, modo irreversível.
Bisavós, avós e pais nascidos e criados em Montes Claros precisam contar tudo aos bisnetos, netos e filhos, para que eles possam pelo menos ter uma noção de como era antes, “como éramos felizes e sabíamos”, e possam ajudar na manutenção da qualidade de vida nessa cidade em meio ao turbilhão das transformações operadas da noite para o dia. Eles precisam saber de tudo.
Houve tempo em que a tranquilidade era uma marca da cidade; se podia sair às ruas a qualquer hora do dia ou da noite. Havia segurança (pública), mesmo porque “bandidos” não havia, a não ser em importados filmes norte-americanos de Roy Rogers, Rock Lane e Rex Alen, quando eles esburacavam virtualmente a tela dos cines Coronel Ribeiro, São Luís, Ypiranga, Fátima, entre outros inexistentes, com as balas dos seus revólveres cabos de madrepérola.
Nessa época, que nem tão longe está, dirão bisavós, avós e pais aos bisnetos, netos e filhos, em Montes Claros só havia artistas. Se Carlos Prates Correa tivesse de fazer um filme, como fez Cabaret Mineiro premiadíssimo, teria que buscar bandidos em outras plagas. Em nossa cidade daquela época o máximo que havia era ladrão de galinha fugidio em “desabalada carreira”.
Sem querer tampar o sol com a peneira, é preciso dizer às gerações atuais que de vez em quando acontecia de um esfaquear o outro ou até abater a tiros o desafeto nas zonas boêmias em quantidade na cidade. Houve até mesmo casos de repercussão nacional, como a morte de Olímpio Campos, ex-prefeito de São João da Ponte, assassinado por um pistoleiro – Pirulito era o apelido dele – quando fazia comício em tempo de eleição numa praça da cidade.
Fora isso, a cidade era uma beleza. Gente culta praticava a civilidade. Os usos e os costumes eram seguidos. Todos andavam na linha, em composições a vapor ou a óleo da Estrada de Ferro Central do Brasil, cujos trilhos deviam ser resgatados porque não dá para entender o porquê de investir em rodovias quando o perfil do Brasil é para estrada de ferro, devido ao seu descomunal tamanho.
Havia naquele tempo oportunidades mil para dedos de prosa no café de Zim Bolão, com Lazinho Pimenta no comando da animação. O café Galo era dos Galo. Havia a Cristal e era chique sentar às mesas de dia para tomar sundae, banana split, vaca preta e vaca amarela.
A Praça de Esportes, que tanta polêmica gerou recentemente, era o point. Ali a vida parecia ter mais calor e vigor. Ali aconteceram memoráveis partidas de vôlei, basquete, futebol de salão (hoje futsal) e natação. Para não cometer injustiças, melhor não citar nomes porque muitos craques emergiram dali da Praça de Esportes, onde as peladas da tarde na pista próxima da boate eram uma alegria.
A boate vale pelo menos um parágrafo. Nas manhãs de domingo, depois da missa do padre Dudu, na matriz de Nossa Senhora e São José ou do padre Agostinho, na catedral de Nossa Senhora Aparecida, o programa era dançar na boate que de boate nada tinha. Com banda ao vivo, todos suando mais do que tampa de chaleira, era gostoso dançar coladinho.
O importante, agora, depois de tudo acontecido para transformar Montes Claros na metrópole de hoje, é dizer aos bisnetos, netos e filhos que eles devem se ocupar com a qualidade de vida da cidade, até “em legítima defesa própria”. Eles herdarão a cidade construída por bisavós, avós e pais. Daqui por diante, eles darão sequência e se cometerem os mesmos erros cometidos por bisavós, avós e pais construirão um mundo inóspito à vida.
Urge procurar humanizar a cidade para que os montesclarinos possam usufruir de espaços públicos seguros onde todos poderão viver em paz, com saúde de qualidade garantida pelo SUS e cheios de alegria de viver. É preciso saber observar, ter olhos para enxergar o que foi feito no passado e comparar com o que é feito no presente. O espectro do futuro de Montes Claros, ó bisnetos, netos e filhos está sendo construído agora. Até que se materialize e possa ser visto e apalpado levará algum tempo.


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Por Alberto Sena - 20/5/2013 08:19:28

A terapia da fé

Alberto Sena

“Me senti mais feliz, gostei do comportamento dos meus colegas, gostei de tirar foto, distraiu meu coração!” Esse foi o resumo que E.P.C. fez da visita ao Presépio Mãos de Deus, de Grão Mogol, em companhia de mais oito pacientes “com diagnóstico relacionado ao sofrimento mental”. É possível que a maioria deles nem tenha dormido direito na noite anterior tamanha a excitação despertada pela visita na manhã seguinte, programada pelo CAPS – Centro de Apoio Psicossocial – da Prefeitura Municipal de Grão Mogol.
No dia anterior à visita foram expostos ao homem e às oito mulheres os objetivos da ida ao presépio, as orientações e as regras para organização do passeio. Tudo foi descrito em uma cartilha elaborada pela terapeuta ocupacional Bárbara Valério Veloso e entregue para cada um. Eis algumas das orientações dadas ao grupo: “Trazer a roupa que mais gosta e sapato mais confortável possível, de preferência fechado, uma garrafinha de água, protetor solar e sombrinha; vir de banho tomado; respeite e ajude os mais lentos; em locais perigosos, os mais experientes ajudam o grupo; jogue lixo no lixo”.
Foi uma das visitas mais emocionantes para o construtor do presépio, Lúcio Bemquerer. A cada dia mais ele se surpreende com a repercussão da obra construída em oito meses e que já foi visitada por mais de 30 mil pessoas em menos de um ano e meio. Bemquerer mostrou todos os passos do presépio aos pacientes do CAPS, que estavam acompanhados também da psicóloga Ara Mendes, das técnicas de Enfermagem Teresa Siqueira, Seilane Melo e do motorista Waldir Junior.
Além da possibilidade de sair do ambiente de tratamento, buscar desenvolvimento cultural, social, pessoal e intelectual, um passeio como esse, ao maior presépio natural e a céu aberto do mundo, preencheu quase todos os quesitos da lista de objetivos do CAPS, quanto ao atendimento dos pacientes: “incitar a sociabilidade e convívios; promover o exercício de cidadania e o resgate da autoestima; favorecer aceitação do novo e do desconhecido; proporcionar diversão e relaxamento; diminuir o estresse, a angústia e a tensão; buscar o rompimento do preconceito em relação às pessoas com transtornos mentais”, entre outros.
Os pacientes ficaram impressionados com as esculturas, em tamanho mais que o normal, dos personagens bíblicos testemunhas do nascimento do Menino Jesus. Da lapa manjedoura à sala de meditação e a de orações, os visitantes disseram ter gostado de tudo, inclusive da vista de Grão Mogol proporcionada pelos mirantes do presépio.
A cada leva de visitantes se vai impregnando nas pedras do presépio a energia das pessoas que por ali passam. Esse magnetismo santifica o lugar. Tanto é verdade que alguns milagres já ocorrem no presépio, casos que Bemquerer prefere não alardear. “Tudo é uma questão de ter fé”, ele diz.


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Por Alberto Sena - 13/5/2013 08:21:33
Algazarra dos meninos

Alberto Sena

Ouço a algazarra de crianças lá fora. São meninos do aglomerado. Aglomerado é uma palavra inventada para substituir o desgastado substantivo feminino favela. Mera questão semântica. Como não têm um clube, nem um espaço apropriado para brincar, eles ficam espalhados pelo meio do asfalto onde jogam futebol e correm o risco constante de atropelamento.
Já falei sobre isso, aqui, e repito: quando ouço ao entardecer a algazarra das crianças me lembro do filme Amarcord (“io me ricordo”), de Frederico Fellini. É que no filme há uma cena numa praça onde as pessoas – muitas delas crianças – saúdam os primeiros flocos de neve do inverno entrante.
Fico pensando com as mangas da camisa e perguntando se essas crianças tivessem nascido numa situação melhor, no seio de uma família rica, a essa altura estariam num sítio à beira de uma piscina se esbaldando. Mas, como a realidade deles é completamente oposta, eles não têm uma alternativa melhor senão a de jogar futebol na rua, sob o risco de serem esmagados debaixo das rodas de um veículo qualquer.
Pergunto a uma e a outra manga da camisa o que será desses meninos quando eles estiverem com os seus 18 anos? Alguns deles estudam. Sei disso porque às vezes os vejo de uniforme e com mochilas nas costas indo para a escola. Mas nada sei a respeito do aproveitamento deles na sala de aula. Será que já sabem ler, escrever e fazer conta? Torço para que deem certo na vida.
Quando não estão chutando bola, eles se concentram na porta do prédio para jogar o tal do “bafo”. No início, quando começaram a jogar “bafo”, achei estranho ouvir o ruído que faziam e então descobri ser nada mais nada menos que “jogar figurinhas”, como faziam as crianças do século passado. Com a mão em forma de concha, eles batem sobre as figurinhas e ao virá-las ao contrário ficam donos delas.
Já faz algum tempo, quando ouço o ruído característico do “bafo” digo em solilóquio: “Lá vêm eles”. Só uma coisa me incomoda nessa brincadeira. É que eles se entrincheiram na porta do prédio e se os moradores entram ou saem precisam pedir licença a fim de passar no meio deles. Nem sempre eles arredam do lugar no primeiro pedido de licença. É preciso falar mais de uma vez. É como se estivessem no habitat deles.
No mais, as brincadeiras dos meninos não me incomodam. Além de me lembrar do filme de Fellini, a algazarra deles me transporta aos tempos de antanho quando fazia a mesma coisa nas ruas empoeiradas de Montes Claros. Naquela época jogávamos futebol também, mas tínhamos outras opções, como bolinha de gude, finca e bente altas. Fazíamos a mesma algazarra desses meninos. Só não corríamos o risco de ser atropelados porque o trânsito de automóveis ainda era incipiente.
Meio século atrás, o meio de transporte mais utilizado era o trem de passageiros. O presidente Juscelino Kubitscheck havia acabado de comprar o lobby norte-americano da indústria automobilística e o resultado disso nós estamos vendo nos dias atuais – ruas regurgitando carros e transporte ferroviário só para minério de ferro.
O Brasil é muito grande e se o transporte ferroviário tivesse a primazia, certamente as nossas rodovias não estariam tão sobrecarregadas. E mais: a manutenção de uma estrada de ferro é mais barata do que a de uma rodovia. Nem é preciso ser especialista para dizer isso. Basta verificar o estrago que os veículos pesados fazem nas estradas cada vez mais perigosas.
Viajar de trem é mais divertido. Para as crianças, então, não há diversão melhor. Fiz diversas viagens de trem na infância e posso dizer isso de poltrona: é marcante. Tão marcante que o apito de um trem ecoa na minha alma e vem logo à tona o sentimento de saudade.
Mas não sou um tipo saudosista. Apenas trato das vivências porque as vivi. Gosto de lembrar o tempo vivido, mas não vivo de passado. O importante é o aqui, o agora. O passado passou. Está guardado na mochila. O futuro está sendo construído no presente. É o presente que me mete medo. Diante das realidades testemunhadas aqui e em toda parte, embora seja otimista, temo o que possa advir das sementes lançadas hoje ao largo. O que será desses meninos que fazem algazarra lá fora e lembram-me os tempos vividos numa Montes Claros cujo espectro sobrevive em meio à metrópole da minha cidade transmudada?


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Por Alberto Sena - 6/5/2013 08:59:29
Os pontos da degradação humana
Alberto Sena

Quem fizer um tour pela Praça Raul Soares, viaduto Santa Tereza, Parque Municipal e, principalmente, pela Lagoinha vai se espantar com o grau de degradação a que a sociedade e o capitalismo podem levar muita gente na capital mineira.
Na Lagoinha, na Praça Vaz de Melo ou debaixo dos viadutos e até nas suas entranhas é possível encontrar alguém deitado, dormindo. Na Lagoinha, que em passado nem tão distante serviu de mote para músicas e textos literários de escritores e contistas do nível de Wander Piroli, autor de “A Mãe e o Filho da Mãe”, veem-se imagens que lembram as ilustrações de Gustave Doré, no livro “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri.
Foi durante um tour em busca de moradores de rua para construir uma reportagem que encontrei, andando na calçada da Rua da Bahia, ao lado do Parque Municipal, um homem que, a passos lentos, lia uma revista em quadrinhos. Lia e ria. Passei por ele, achei interessante o fato de estar lendo e rindo e, confesso, até achei que podia ser mais um louco a perambular pelas ruas da cidade.
Passei por ele e, lá adiante, me veio à ideia de saber dele o que lia e por que ria. Deixei que se emparelhasse comigo e o perguntei:
- Por que está lendo e rindo?
Ele levantou os olhos da revista e com um sorriso disse:
- É do que se passa nessa revista – e apontou-me a cena de um papagaio que fazia traquinagens com as pessoas.
Eu quis saber que revista era aquela e ele mostrou-me a capa. Era sobre “Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto, um herói brasileiro, que, inclusive, já foi tema de filme. Ele a encontrara no lixo.
Pensei logo comigo, “este será um dos personagens da reportagem”. O homem disse ser de Belo Horizonte. Morava nos Estados Unidos, em Massachusetts. Viera ver a mãe e quando aqui chegou soube que ela havia morrido. Teve roubados os documentos e o passaporte. Preferiu a rua a ficar na casa dos irmãos porque um deles é traficante no Morro do Papagaio e tinha medo dele. Quando tirar novos documentos e passaporte, ele quer volta aos EUA.
R., como vou chamá-lo, vive há dois anos nas ruas. Ele disse que tem medo das ruas. Quase nem dorme de tanto medo. Mas já foi traficante e por conta do tráfico levou duas balas no corpo e uma “facãozada” no rosto. Foi esse episódio que o fez mudar de vida e ir para os Estados Unidos.
-Eu não uso drogas ilícitas, mas bebo cachaça e fumo – disse R.
Ato contínuo, ele pôs a mochila no chão abriu o feche já relaxado e retirou de dentro uma garrafa de cachaça dizendo tê-la comprado de manhã. Havia passado o dia andando de déu em déu e àquela hora da tarde, a garrafa já estava abaixo da metade.
A noite viria e R. daria conta da outra parte da garrafa e entre uma cochilada e outra, ele veria “as coisas incríveis que acontecem no meio da noite”. Na Praça da Estação, na noite anterior, R. disse ter visto “um estupro, assim, no chão”. E me propôs arranjar-lhe uma câmera para ele fazer tomadas das “coisas incríveis” que diz ver durante as madrugadas.
Para o leitor visualizar o personagem, convém traçar um desenho dele em nanquim, tinta chinesa desde os tempos das caravelas, produzida na cidade de mesmo nome, mudado para Nanjing. R. é de estatura mediana, negro; o formato do rosto dele é oval. Os olhos são castanhos, esbugalhados, esclerótica avermelhada. Os cabelos são castanhos, ao rés do cocuruto. Possui bigode a Clark Glabe e os dentes amarelados de nicotina.
A certa altura da nossa caminhada, R. disse “entro no Palácio das Artes a hora que eu quero e assisto o filme que quiser”. Ele falou assim sem que nem pra quê, talvez porque nos aproximávamos do lugar. Quando passávamos pela porta, ele desafiou:
- Quer me ver entrar no Palácio das Artes? Me fotografa com o celular.
Ele disse e se encaminhou para a porta de vidro temperado. Entrou e logo nas escadas do lado direito, onde fica a sala Humberto Mauro, havia um guardinha. R. fez com o dedo sinal de positivo para o guarda e foi correspondido. Desceu as escadas e se dirigiu à entrada, mas como não era hora de sessão de cinema, ele apenas leu em inglês o nome do filme e demos meia volta.
Saímos do Palácio das Artes e continuamos em frente. Na esquina das avenidas Afonso Pena com Carandaí, despedimos-nos. Antes, ele voltou à carga.
- Se você me der uma câmera vai poder ganhar muito dinheiro comigo – e atravessou a Avenida Afonso Pena limpando o nariz com a ponta da camisa imunda.


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Por Alberto Sena - 29/4/2013 08:22:31
Com vergonha

Alberto Sena

Costumo achar que sou ET. Não sou daqui. E o que é pior nem sei para onde vou. Consciência eu tenho, estou aqui de passagem e é nesse particular que os homens e as mulheres são iguais. Ainda bem que nós estamos de passagem. Se por mal dos pecados os humanos não morressem, o planeta a essa altura estaria expelindo gente pra tudo quanto é poro.
Sou brasileiro, gosto do Brasil, defendi e defendo aqui dentro e em oportunidades que tive de defendê-lo lá fora. Acredito que um dia o país alcançará um patamar de vida sem miséria e de gente educada, letrada, civilizada e, sem exagero, poliglota. Os nossos políticos terão a essa altura um comportamento público sueco. Claro, quando essa utopia (realizável) acontecer, muitos de nós já terá posto a mochila nas costas para o prosseguimento da vida. Esperamos que seja no paraíso, onde deve de fato haver murmúrio de águas cristalinas e pomar de frutas diversas ao alcance da mão.
Mas, enquanto nada disso se realiza, quero deixar registrado aqui, com todos os sons das letras, que estou com vergonha do Brasil. E preocupado, embora a tempo tenha me prometido retirar do vocabulário a palavra “preocupação”. Ao invés disso, ocupar com a solução das questões, porque quem se preocupa corre o risco de sofrer antes, durante e depois.
Neste caso particular me confesso preocupado porque me ocupo com a busca da resposta para a seguinte pergunta: “Quê mundo deixaremos para as gerações que ainda virão?” A pergunta deve soar no coração como o som grave do violão. E trazendo a pergunta para mais próximo: “Quê país vamos deixar para as crianças que ainda virão?”
Infelizmente, o país está a me envergonhar em quase todos os quesitos, a começar da política e dos políticos corruptos. Se cada um de nós der uma volta nos calcanhares vai perceber que a qualidade de vida está indo pras cucuias. No segmento educacional, a família, hoje se desintegrando devia educar e a escola ensinar. Embora dotado de alegria crônica, a maioria dos brasileiros tem estampado no rosto as marcas do sofrimento.
Papel, papelão, plástico e latas pululam nas ruas imundas das grandes cidades do país. A violência chegou ao ponto de dar aos bandidos o status político e socioeconômico de um “poder” a nos infringir uma série de temores que nos forçam a fechar as portas com trancas e adaptar aos condomínios uma parafernália de segurança relativa com os mais poluentes sons de alarmes de carros, portas e portões, que, se não inibem a ação dos bandidos, vão nos enlouquecendo cada dia um pouco mais.
O trânsito de carros nas grandes cidades, principalmente, a cada dia mais mostra o quanto o governo não dispõe de opções para incrementar o “pibinho”. Sem olhar as consequências encheu as ruas sem infraestrutura para volume tão grande de veículos que formam congestionamentos frequentes e quilométricos e assim os problemas de saúde física e psíquica da população surgem com prejuízos incalculáveis.
A exacerbada falta de civilidade, que torna cada cidadão livre para azucrinar os tímpanos alheios com os mais estridentes sons de mau gosto e o egoísmo que constrói para cada um uma concha; a destruição acelerada do ambiente; a inversão dos valores que dignificam os humanos; o desamor, enfim, estão a envergonhar não só a mim, mas a muita gente.
O tal “jeitinho brasileiro” precisa acabar. E quando a gente lê a notícia de que “os brasileiros acham fácil desrespeitar as leis”, aí a situação fica pior, envergonha mais. O que acontecerá conosco se os motoristas e os pedestres não respeitarem as leis de trânsito?
Somos o resultado de uma miscigenação. Raça como a nossa não existe no planeta. Basta entrar num ônibus coletivo para termos um exemplo da gente brasileira. Mas penso que não iremos longe, como nação, se além do “jeitinho”, não acabarmos com a impontualidade e a impunidade; com a corrupção que acontece de cima para baixo e ao contrário também.
O todo só melhora a partir de cada indivíduo, com atitudes positivas, numa ação de dentro para fora. É preciso cada um se acender como uma lâmpada para que seja mudado, nas pessoas individualmente e nas cidades, o negativo “inconsciente coletivo” abordado por Carl Gustav Jung, filósofo e psiquiatra suíço.
Em minha opinião, de tanto ver a vida passar pelas janelas e portas, concluo que estamos caminhando céleres para o fim, simplesmente porque a velocidade da autodestruição é bem maior do que o poder, à vontade e a prática política possam encontrar meios para minorar o desastre iminente.


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Por Alberto Sena - 22/4/2013 10:07:36
Referência de turismo religioso

Alberto Sena

Grão Mogol já não é mais a mesma desde quando foi inaugurado na cidade o Presépio Mãos de Deus, em dezembro de 2011.
A notícia de que lá o Menino Jesus nasce e renasce dia e noite se multiplica. A cada final de semana aumenta o número de ônibus de turistas religiosos para ver de perto a boa nova de Grão Mogol.
Como predestinado, coube ao empresário Lúcio Bemquerer, ex-presidente da associação Comercial de Minas (ACMinas), criar infraestrutura, com recursos próprios, para assegurar a visitação pública.
Em verdade, o presépio ali estava há milhares, senão milhões de anos, pedra sobre pedra “em harmonioso desalinho”, como ele diz. Mais de 25 mil pessoas já visitaram o presépio.
A cada dia Bemquerer se convence de que “as pessoas é que santificam os lugares”, e isso se aplica também ao presépio, diante das manifestações testemunhadas por ele e dos registros deixados pelos visitantes sensibilizados pelo magnetismo do lugar.
Para ter uma ideia a mais do quanto o presépio de Grão Mogol vai se tornando referência do turismo religioso do Norte de Minas, a equipe Missionária Arquidiocesana de Montes Claros deu “um abraço” nele por ocasião do sexto aniversário de dom José Alberto Moura como arcebispo metropolitano.
Os religiosos visitaram a Paróquia Santo Antônio, feita de pedras e se encantaram com a cidade, no que foi “a nossa primeira Romaria Missionária Arquidiocesana”, disseram e afirmaram, “o lugar abençoado propicia a todos um encontro mágico com a espiritualidade”.
A influência do presépio é notada a cada dia mais pelos gramogolenses porque eles passaram a observar a repercussão do movimento de turistas religiosos na economia da cidade.
Depois de ficar durante décadas como que paralisada no tempo, Grão Mogol vive agora um ciclo de garimpo novo, desta vez em busca do verdadeiro diamante no interior do coração de cada um, presépio onde o Menino Jesus quer nascer todo instante.


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Por Alberto Sena - 15/4/2013 09:47:02
Exemplo do alemãozinho

Alberto Sena

Um menino de quatro anos de idade, filho de mãe brasileira e pai alemão, em visita a Belo Horizonte, vindo de Bremen (Alemanha) deu uma lição, em matéria de educação de trânsito, a um grupo de adultos, nas mais movimentadas avenidas da capital. A pé, o menino não andava se quisessem atravessar com ele as avenidas estando vermelho o sinal para pedestre.
Acompanhado da mãe e da tia, que insistiam em atravessar, quando não vinham carros, o menino só arredava pé com o sinal verde. E todos ali passaram a esperar o sinal abrir, em atenção ao exemplo dele. Será que isso se deu porque a criança é nascida e mora na Alemanha, outra cultura, outra educação?
O episódio fez lembrar o que contava dias atrás uma autoridade em educação de trânsito, sobre o respeito às leis nos países do primeiro mundo, onde as pessoas automotorizadas obedecem à risca a sinalização. A rua estava deserta, mas o semáforo vermelho fez o motorista parar – ele podia seguir em frente com a toda segurança – ao que um brasileiro do lado dele sugeriu “furar o sinal”, e o motorista respondeu: “Não posso; vai que numa das janelas dos edifícios uma criança esteja me vendo, estarei dando um mau exemplo”.
Na hipótese de que cada um de nós tivesse comportamento no trânsito semelhante ao do alemãozinho, muitos acidentes teriam sido evitados. O exemplo dele é digno de mote para uma campanha nacional sobre educação no trânsito. Dentro da ótica midiática, no mínimo o comportamento dele seria uma maneira de despertar nas crianças e em adultos a prática da civilidade, o respeito aos outros e às leis (de modo geral) de trânsito, que existem tanto para os condutores de veículos como também para os pedestres.
Se todo pedestre atravessasse as vias na faixa de segurança e respeitasse a sinalização, mesmo estando às ruas regurgitando carros, e se as pessoas automotorizadas também respeitassem as leis, tivessem comportamento semelhante ao do alemãozinho, o trânsito nosso de todo dia seria uma beleza. Hoje em dia faltam-nos ruas e infraestrutura e sobram carros em circulação.
Ninguém aqui é contra as pessoas terem carro. A questão é simples como dois mais dois são quatro: hoje mais da metade da população de Belo Horizonte possui carro. Suponhamos que a totalidade dos habitantes venha a possuir um veículo. O mínimo que acontecerá será ficarmos parados dentro dos carros, em meio aos congestionamentos.
Com essa quantidade de automóveis nas ruas e esse tanto de gente cruzando nas faixas de segurança e fora delas, se as pessoas automotorizadas e os pedestres não entrarem numa de obedecer à risca as leis do trânsito, a situação do nosso dia a dia ficará incontrolável.
O automóvel tem a sua importância nesse mundo construído atabalhoadamente, tanto no segmento econômico, do qual é responsável por um quarto do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, e como meio de transporte que nos leva de um lugar ao outro mais rápido. Mas não podemos deixar a máquina nos engolir. A vida humana está acima, é preciso atentar bem para isso e também para a qualidade do ambiente, tendo em vista a saúde humana.
Em muitos pontos as opiniões da citada autoridade do trânsito foram curiosas, como a compreensão de que carro é um meio de transporte obsoleto. “Daqui a cem anos”, disse, “os que vierem ao mundo vão achar ridículo o costume da sociedade atual de ter de entrar numa caixa para se locomover”.
O desenvolvimento tecnológico, essa parafernália que nos trouxe o consumismo como forma de movimentar a engrenagem capitalista, talvez tenha sido um erro da humanidade. Se ao contrário, o desenvolvimento tivesse sido espiritual, a nossa comunicação seria muito mais fácil e sincera, sem a necessidade de nenhuma ferramenta mecânica para locomovermos.
A vida no planeta seria mais fácil, porque solidária. Em um mundo espiritualmente desenvolvido, de certo as pessoas seriam o que são por dentro e não porque têm bens materiais. Num mundo assim, a caridade seria de fato “a plenitude da lei”, pois, se “é dando que se recebe” mais importante é dar de si ao próximo e não simplesmente das posses.
Em um mundo assim, certamente não haveria ecessitados. E a paz estaria conosco independentemente de raça, cor e sexo.


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Por Alberto Sena - 9/4/2013 08:29:37
Por amor a eles

Alberto Sena

Nós humanos, aqueles que não pereceram como muitos no meio do caminho da vida fomos escolhidos por Deus para viver – e bem – as etapas: infância, adolescência, juventude e a final. Quem na última fase entrou pode alcançar o que há de melhor, se tiver cachimônia para apreciar o que há de bom e de belo ao redor, e, principalmente, no seu interior.
O fato de uma pessoa viver o bastante para ter a oportunidade de ver nos netos a multiplicação de sua descendência é algo tão maravilhoso como o nascimento dos filhos.
É uma graça de Deus ser avô e poder brincar com os netos. Muito bom brincar com eles tanto quanto se pôde brincar quando criança e depois com os próprios filhos. E é delicioso ouvir uma vozinha macia lhe dizer: “Vô, te amo muito” repetidas vezes enquanto desce para passear ou brincar no quintal do prédio.
Não sei se seria tão bom se as crianças tivessem a convicção de como é gostoso ser criança e vivessem essa fase com a maior intensidade e consciência. Essa descoberta os humanos só fazem depois de adultos. Ficam-se as graças, as lembranças, aquele sentimento gostoso dos momentos bons, porque os maus momentos criança de todo o mundo quer esquecer.
Nenhuma criança – nenhuma – deve ser maltratada, nem aqui nem em lugar nenhum do planeta. Essas almas que chegam e nos enchem de alegria, são presentes de Deus. Conheci pessoas, gente brilhante, que se ressentiam de não ter se multiplicado. O galho da árvore genealógica parou de crescer ali.
Gostoso é jogar futebol com o neto como quando o próprio avô jogava quando criança e adolescente, no Casimiro de Abreu, de Montes Claros, e depois como pai, com os próprios filhos. Indescritível é a emoção de empinar papagaio quando criança e depois com os filhos e agora com os netos. É como mergulhar no mar do inconsciente e nele navegar até as nuvens. E de lá de cima contemplar a terra nossa casa cheia de belezas e mistérios que, infelizmente, cuidamos de destruir em doses homeopáticas.
Irresponsabilidade pura. Algum de nós já refletiu sobre a qualidade de vida que estamos oferecendo a nós mesmos, aos nossos filhos e aos nossos netos? Alguém aqui já tomou alguma atitude para mudar esse quadro deplorável enquanto os filhos dos filhos dos nossos netos ainda não vieram?
Imaginemos a possibilidade de acontecer, quando eles vierem não encontrar água para beber, e, menos ainda, para se lavar. Qual será a reação deles quando souberem que desperdiçamos toda a água do planeta? A nossa ganância foi maior e nos cegou e acabamos com os mananciais, destruímos as florestas, exterminamos os animais.
A essa altura, só não teremos apagado o sol porque o nosso braço não o alcança da janela. A estupidez humana nem se compara a de certos animais irracionais, sem querer ofendê-los, pois eles são gente como a gente.
Não podemos tampar o sol com a peneira. A destruição do planeta está em curso e não temos mais como reverter o processo. Entretanto, podemos economizar o que nos resta daqui para frente. A natureza é pródiga, sempre haverá a esperança de mais um grande milagre e a regeneração natural do planeta acontecer. Podemos semear as sementes do celeiro e proteger os animais que escaparam da sanha selvagem dos humanos.
Podemos fazer isso não por amor a nós mesmos, porque já demonstramos diversas vezes o desamor, a falta de amor próprio e ao próximo. Quem de nós nesse momento, quando queríamos fazer ode aos netos de todo o mundo, já refletiu sobre a possibilidade de tomar uma atitude para amparar a descendência de todos os humanos, enquanto irmãos?
Considerando que tivemos a competência de tratar de maneira tão incompetente o planeta, nós precisamos encontrar os meios de aplacar as feridas que deixaremos expostas aos que ainda virão. Por amor a eles.
No tempo em que “os bichos falavam”, as crianças brincavam com os pés descalços na terra nua e crua, numa relação telúrica de primeiríssimo grau. Calçar sapatos era um saco.
Havia naquele tempo mais gente no campo do que na cidade. Atualmente, o campo está praticamente deserto e as cidades incham sem que os nossos governantes ocupem-se com a tarefa de garantir boa qualidade de vida para todos.
Os tempos não mudaram. Nós é que estamos mudando o mundo com as nossas mãos cheias de dedos, e de modo estabanado.
Salvem os netos! Salvemos os netos dos netos, sucessivamente.


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Por Alberto Sena - 1/4/2013 08:38:03
Incertezas da existência humana

Alberto Sena

Existimos, logo estamos vivos. Essa é a única certeza que temos. Sonhos, temos, pois nenhum humano sobrevive sem sonhar. Planos também. Mas ninguém pode ter certeza de que verá a luz do sol amanhã de manhã, por mais sábio, bonito, feio, rico ou pobre possa ser.
Sabemos pouco a nosso respeito. No meu caso particular, sei ter nascido em Montes Claros em meados do século passado. Mas, a rigor, somos uma incógnita. Melhor dizendo, somos uma tríade; isso é fácil saber – o espírito, a mente e o corpo. Mas o que sabemos do espírito, a nossa essência? O que de fato é essencial em nós? Pouco ou quase nada sabemos.
Vamos então por partes, como diria Jack, o estripador londrino. O que sabemos da nossa mente subutilizada? Dizem, “usamos, se muito, 10% do nosso potencial mental”. E o que há em 90% do potencial que não usamos?
Muitos fenômenos humanos, aparentemente inexplicáveis, podem ter escapado dessa grande fatia obscura do nosso potencial mental. Ou, senão, do espírito.
O corpo, em tese, seria a parte humana mais fácil de conhecer. Mas nem mesmo sobre o corpo nós sabemos tanto, a não ser os profissionais que, munidos de bisturis e instrumentos próprios dissecam a matéria a fim de conhecer o seu funcionamento. Mas nem esses profissionais sabem tudo ao ponto de curar as doenças do corpo.
Entretanto, o comum dos mortais desconhece o próprio corpo. E o corpo fala. Só quando ele chia é que as pessoas têm consciência de que o alicerce da morada do espírito e da mente é feito de um conjunto de ossos chamado esqueleto envolto por músculos cobertos de uma epiderme sob a qual quantidade enorme de veias tem a função de transportar o sangue por todos os quadrantes da massa corporal.
Nessa operação aritmética do ser, mais com menos é menos e menos com mais significa nada sabemos de nós mesmos no frigir dos ovos. Nada controlamos, no dia a dia. A fome, a sede, as necessidade fisiológicas, as batidas do coração, a respiração; o que controlamos? Por mais egoísta possa uma pessoa ser, ela não é dona de nada, nem do próprio corpo, que um dia retornará à origem terrena.
Da mente humana restarão, então, os registros feitos pelos que em vida foram privilegiados com QI elevado e sapiência acima do comum e por isso, intelectualmente fizeram a diferença. Mas os ensinamentos da maioria um dia desaparecerão da face (e do interior) da terra.
Há, entre nós, os registros antigos dos filósofos e sábios da antiguidade. Mas, e se não for um mero blefe a ameaça que Pyongyang, na pessoa do jovem tresloucado norte-coreano Kim Jong-un faz de explodir os Estados Unidos (e de quebra o globo), será que vai sobrar alguma coisa ou alguém para contar a história da raça humana?
Qual humano que já tenha pisado o chão do planeta Terra em qualquer época tem o seu nome falado, anunciado, rogado ainda hoje, todo momento em grande parte do mundo? Nesse instante, incontáveis vezes, o nome de Jesus Cristo é pronunciado. E somente as palavras dele “não passarão”, como ele mesmo disse. Tudo passará menos as sementes lançada há mais de 2000 anos.
Ele, sim, conhece o espírito, a mente e o corpo dos humanos porque é “o Rei do Universo”. À raça humana enviado, a fim de nos trazer a boa nova e mostrar que não há salvação para ninguém fora do amor, ele é a nossa Páscoa, “a passagem”, que comemoramos neste domingo.
Jesus Cristo, que sofreu horrores em favor da humanidade, nos deixou o modus operandi de uma vida de paz baseada no amor a Deus e ao próximo. Ninguém poderá então dizer que ama a Deus se não ama o próximo.
É justamente por isso que a cada dia mais a vida, a nossa única certeza, está comprometida em toda parte do mundo. Se não praticamos os ensinamentos do Cristo, como queremos aprender algo sobre o espírito, a mente e o corpo?
A chave do amor está perdida no interior de cada ser. Bem aventurado será aquele que a encontrar para retirar os véus da tríade humana. Este sim poderá dizer que, além da certeza da vida, apreendeu algo durante a passagem efêmera pela Terra, morada eterna do corpo.
O essencial, o espírito, “é invisível aos olhos, só se vê bem com o coração”, como escreveu Antoine de Saint-Exupéry, autor de “O pequeno príncipe”, livro eterno enquanto durar a vida no planeta.


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Por Alberto Sena - 25/3/2013 08:26:24
Como chupar laranja no pé

Alberto Sena

Numa vez, entre as muitas vezes que fomos à Serra do Cipó, nos hospedamos no hotel Veraneio, próximo da ponte sobre o Rio Cipó. Combinamos de subir o Morro da Pedreira, em frente ao camping Véu da Noiva, da Associação Cristã de Moços (ACM). Todo de granito, o morro guarda algumas grutas. Lá de cima se pode ter visão da região de 360 graus. Pedreira que um dia abraçamos, em companhia de centenas de outras pessoas, entre elas o então candidato à Presidência da República, jornalista Fernando Gabeira, a fim de livrá-la da ganância dos que só veem cifrões pela frente. Salvamos, enfim, o Morro da Pedreira, transformado numa APA – Área de Preservação Permanente.
Saímos do hotel logo após o café da manhã. Fizemos o percurso a pé. Atravessamos uma trilha, e sem o auxílio de qualquer equipamento, escalamos a pedreira usando as mãos, simplesmente. Chegamos lá em cima e ficamos um bom tempo apreciando a beleza do panorama.
De repente, uma voz masculina ecoou por todos os cantos. Era alguém recitando os dons do Espírito Santo, nesta ordem: “Fortaleza, Sabedoria, Ciência, Conselho, Entendimento, Piedade, Temor de Deus”.
A voz vinda de não se sabia onde troava como se do céu viesse, até que, num outro extremo longínquo surgiu a figura pequena de um homem vestido de branco, que acenava com um dos braços.
Sem relógio, sem lenço, mas com documentos nos bolsos perdemos completamente a noção do tempo e também o senso de direção do caminho de volta. De repente, deu-nos uma sensação de que passara muito tempo e logo o manto da noite iria complicar tudo. Foi um susto. Mas encontramos o caminho, e da mesma forma, descemos usando as mãos para agarrarmos nas pedras.
Lá embaixo, nós chegamos à conclusão de que ainda era cedo. Na estrada encontramos um homem a cavalo com relógio de pulso que nos informou: 14h. Fomos andando de volta ao hotel. Do lado direito da estrada, deparamos com uma casa de estilo simples com um quintal delicioso, cheio de laranjeiras. A produtividade ali parecia ter sido alta. As laranjeiras regurgitavam.
Ousamos bater na porta da casa para fazer o que fazíamos em Montes Claros, naqueles dias pachorrentos da década de 60, quando juntávamos a turma e íamos chupar laranjas em sítios. Chupávamos quantas laranjas cada um podia guardar na barriga e só pagávamos as que levávamos.
Fizemos proposta semelhante ao dono da casa e ele foi o mais amável possível. Deu-nos faca e nos acompanhou até o quintal. “Fiquem à vontade”, disse. Ficamos.
Chupamos laranja de vários tipos, inclusive bahia legítima, mexerica e até laranja lima. Como íamos para o hotel, a pé, não podíamos levar muita laranja. Escolhemos algumas e gritamos o dono da casa. Perguntamos “quanto é que vamos pagar pelas laranjas chupadas e essas aqui?” O homem disse, simplesmente, “não é nada não senhor”. Não adiantou insistir para que ele recebesse pagamento.
Despedimos dele e fomos andando para o hotel e lá chegamos à tardinha. Durante a caminhada, as flatulências foram um deus nos acuda. Tínhamos tomado só o café da manhã e o dia inteiro sem comer mais nada, a não serem cocos macaúba. Matamos a fome com laranja, porque perdemos o almoço no hotel e só nos restava aguardar o jantar mais tarde.
Essa experiência na Serra do Cipó, uma entre as centenas vividas naquele paraíso, nada melhor num raio de 100 quilômetros ao redor de Belo Horizonte, veio à nossa lembrança depois de ver a beleza da foto de uma laranjeira postava no facebook pelo amigo até então virtual, Geraldo Prates Maia, que, entre as várias virtudes que possui, uma é ter nascido em Juramento, terra boa da região metropolitana de Montes Claros, nascente do Rio Verde Grande, onde ele colhia, no pé, como nós colhíamos também, as mais deliciosas laranjas, com gosto e sabor de laranja.
Hoje em dia, as crianças – e os adultos também – estão se contentando com os “sucos de laranja” e de outras frutas vendidos em embalagens tetra pak. Sucos parecidos com os verdadeiros, que vêm formando uma geração de obesos, gente que nunca pegou uma fruta no pé. Gente movida a refrigerante fabricado por multinacional financiadora do golpe militar de 1964, golpe que tanto infelicitou o País, e, ainda nos dias atuais, sofremos as consequências.


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Por Alberto Sena - 18/3/2013 08:36:05
Vamos saltar de paraquedas

Alberto Sena

O colega jornalista José Antônio Bicalho Leite me deu hoje a notícia. Vamos saltar de paraquedas, ele e eu. Antes, vamos fazer um treinamento, e vamos saltar de paraquedas um depois do outro.
Ele já saltou uma vez. Eu nunca. Mas já pensei muitas vezes em saltar. Inclusive falei em algumas ocasiões, lá em casa, que um dia saltaria de paraquedas e gostaria também de voar de asa delta. Já disse, inclusive, que irei à lua. As pessoas acharam ser brincadeira da minha parte. Brincadeira nada, a ocasião chegou. O salto de paraquedas é o primeiro exercício para eu ir à lua. A determinação convida a traçar metas e persegui-las.
Não se surpreendam, mas daqui a pouco, viajar a lua vai ser possível para muitos. Por enquanto, é só para os bilionários, mas em breve, ir à Lua será tão comum que as pessoas vão preferir ir mais é para Marte e, enfim, zunir pelo universo.
Algumas vezes já senti, sem nunca ter experimentado, a sensação de um salto de paraquedas. Teoricamente, a impressão é a de que a terra vem na direção do paraquedista e não o contrário.
Quando eu disse para a mulher e os filhos sobre essa possibilidade de saltar de paraquedas, no primeiro momento, ela reagiu contrariamente, mas em seguida, passou até a achar interessante. Os filhos gostaram da ideia, sem fazer maiores comentários. E a mulher manifestou até o desejo de assistir ao salto.
Como ainda não sei nada a respeito, estou escrevendo no calor do recebimento da notícia. Não posso dar maiores informações. Temos de ir por partes. E porque sou eterno dependente do meu Pai, o Deus Todo Poderoso, desde já me entrego a Ele, e entrego também o colega José Antônio, o piloto e o avião. E que seja feita a vontade Dele.
O nosso objetivo não é saltar pura e simplesmente para depois contar vantagem ou mesmo só pelo prazer e a adrenalina que ainda desconheço de saltar de paraquedas. José Antônio, por já ter saltado uma vez, ao que tudo indica, gostou, senão não saltaria pela segunda vez para contar depois a emoção do salto e o que é necessário para isso. Eu vou relatar qual a sensação de saltar de paraquedas pela primeira vez. E já estou neste momento, iniciando o processo.
Se me perguntam se tenho medo de altura, digo não. Nunca tive, desde criança, quando subia em muro, mangueira e tudo quanto era árvore. Passei parte da infância numa casa onde no quintal havia 22 pés de jabuticaba. Onze dum lado e onze do outro, coladinhos uns nos outros. Subia num e ia passando para os outros; brincadeira e tanto.
Talvez esteja na infância vivida a explicação para essa vontade de um dia saltar de paraquedas. Já disse que fiz o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, duas vezes e três vezes o Caminho da Fé, de Águas da Prata (SP), Serra da Mantiqueira, entrando por Minas Gerais, até o Santuário de Aparecida do Norte, na cidade paulista. Mais de 800 km e mais de 300 km, a pé, passo a passo.
Tenho documentado por meio de duas “Compostelanas” e três “Marianas” cerca de 3.000 mil quilômetros andados, cajado na mão e mochila nas costas. Eu e ela, mulher companheira. Viver é andar.
Depois de saltar de paraquedas e contar o antes, o durante e o depois dessa experiência, o plano seguinte, quando vierem as férias do trabalho, é fazer pela quarta vez o percurso do Caminho da Fé, desta vez a partir de Tambaú (SP), onde de fato ele começa. São mais 100 quilômetros. Serão, portanto, 400 quilômetros de muita beleza natural. Em determinados pontos desfrutamos de panorama de 360 graus.
Numa experiência desta natureza deparamos com gente da melhor espécie. Simples. Só para mostrar o tamanho da simplicidade das pessoas nativas da região, num lugar que vamos rever há uma casa cujos donos colocaram uma placa fincada no jardim colorido de flores de matizes vários os seguintes dizeres: “Amigos, entrem; sejam bem-vindos”.


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Por Alberto Sena - 14/3/2013 09:14:20
O Papa em Grão Mogol

Alberto Sena

O empresário Lúcio Bemquerer construtor do presépio de Grão Mogol, Mãos de Deus, vibrou com a eleição do cardeal jesuíta argentino Jorge Mario Bergoglio, que, ao julgar pelo nome aditado, Francisco I, espelha-se em São Francisco de Assis.
Bemquerer acredita que, agora, ficou mais fácil levar o Papa a pequena (e grandiosa) Grão Mogol. Primeiro devido à escolha do nome de Francisco, nome do criador do presépio, São Francisco de Assis, em 1223, na cidade italiana de Greccio.
Antes, a esperança dele era de o então Papa Bento XVI, que viria ao Brasil em junho próximo, se não tivesse renunciado ao papado, aceitar o convite de ir a Grão Mogol para conhecer o maior presépio do mundo a céu aberto. Não fosse a renúncia de Bento, a essa altura o convite já teria sido feito.
O novo Papa, certamente irá à Argentina e isso facilitará a vinda dele ao Brasil. Na primeira oportunidade, Bemquerer pretende formalizar o convite, o que deverá ser feito por intermédio da Arquidiocese de Montes Claros, a qual Grão Mogol pertence.
Francisco I, o primeiro Papa jesuíta, deu ao longo dos seus 76 anos demonstrações de simplicidade e amor aos mais pobres. Ele prepara o próprio alimento e gosta de andar de ônibus. Tem trabalho social destacado em Buenos Aires, capital argentina.
A fé dos cristãos católicos prenuncia novos tempos para a Igreja. E certamente os escritos e biografias de Francisco de Assis, que de tão santo falava aos animais e tinha íntima relação com Deus, ganharão mais leitura daqui por diante.
A humildade é a maior fonte de energia existente no universo. Jesus Cristo é o grande exemplo há mais de 2000 anos. Francisco vem, em seguida.


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Por Alberto Sena - 12/3/2013 09:59:43
Presépio encanta Elos Clube

Cerca de 120 pessoas, entre elas 34 integrantes do Elos Clube de Montes Claros, funcionários do Banco do Nordeste e outros visitantes foram recepcionadas pelo construtor do presépio Mãos de Deus, de Grão Mogol, Lúcio Bemquerer, no último fim de semana. Mais de um ano depois de inaugurado, o presépio vai se consolidando como principal atração de Grão Mogol, cidade histórica a 143 quilômetros de Montes Claros.
A visita dos integrantes do Elos Clube, coordenado por Ana Valda, que substitui a falecida dona Fernanda Ramos, foi planejada com dias de antecedência pelo Instituto Sênix Terapia e Desenvolvimento Humano. Houve cantoria musical, com violão e ginástica chinesa de relaxamento também. Entre os participantes estavam o poeta Wanderlino Arruda; o ex-deputado Roberto Amaral, as escritoras Amelinha Chaves e Magela Sena Almeida, entre outras pessoas.
Para Roberto Amaral, “foi um passeio espetacular”. Ele se emocionou e viu muitos se emocionarem com a beleza do presépio. Ficou “impressionado” com o potencial de recursos naturais de Grão Mogol, que de fato é um presépio a céu aberto.
A coordenadora Ana Valda considerou a viagem “uma excursão diferente, completa”. Ela esteve na inauguração do presépio, em dezembro de 2011, mas para a maioria das pessoas, embora algumas já conhecessem Grão Mogol, o presépio foi a grande novidade. “Todos ficaram encantados”, disse Valda.
A primeira coisa que Wanderlino Arruda fez ao chegar da viagem foi disparar fotos do encontro em Grão Mogol no facebook. Além de ter gostado do presépio, Arruda levou a Lúcio a ideia, bem acolhida, de fundar na cidade o Rotary Club.
A notícia da existência do presépio se vai multiplicando cada vez mais a partir das visitas de gente formadora de opinião. Entretanto, a obra, tida como a maior do mundo, é do agrado geral. “Maravilhas têm acontecido ali”, dizem quem já foi lá.


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Por Alberto Sena - 12/3/2013 08:17:57
O maior barato

Alberto Sena

Quem leu Franz Kafka, escritor tcheco de língua alemã, deve ter se impressionado com “A Metamorfose” (1916), incrível transformação de um homem que, ao se despertar de manhã percebe haver se tornado algo parecido com uma barata.
De Kafka para lá e pra cá, as baratas ganharam certo status em toda parte do planeta devido ao enorme alcance dos escritos dele.
Parece haver nos dias atuais uma pá de gente que faz questão até de se parecer com barata. Não a que Kafka consagrou, mas aquelas viventes no interior das tubulações da rede de esgoto.
A intenção não é provocar asco em ninguém, mas tão somente registrar o que dizem: “barata contém muita proteína”. E deve ter mesmo porque lá na Ásia há gente que as come fritas. Baratas criadas como alimento.
Mas uma coisa é ler a respeito delas e outra diferente é dar cara a cara com uma barata, ao vivo e em cores. Há quem suba em mesa com medo de um simples exemplar da espécie. Conheço alguém desse tipo, não por acaso, minha digníssima. Ela tem trauma de barata. É que, quando criança, as tias dela, a título de “brincadeira”, pegavam baratas pelas antenas e ameaçavam passá-las no rosto dela.
Ela “quase morria de medo”, gritava e chorava, mas ainda assim as tias levavam tudo “na brincadeira”. Resultado: traumatizou a menina para o resto da vida. Quando acontece de encontrar uma barata, sempre foge correndo.
Noite dessas, uma barata tão grande quanto a que o personagem do livro de Kafka metamorfoseou entrou voando pela janela do quarto, no momento em que víamos televisão. O ruído das asas dela tinha algo de metálico. No primeiro momento deu-nos a impressão de ser um passarinho ou mesmo um morcego. Mas podia ser também algo vindo do espaço, um espião extraterrestre, enviado para verificar o nosso modus vivendi.
Refestelado na bergere, num salto foi a tempo de perceber que, mesmo estando o ambiente só com a luz da TV, tratava-se de uma barata. Num gesto rápido, a mulher acendeu a luz e ao constatar que era mesmo uma barata, ela correu para o banheiro e fechou a porta. Coube-me a árdua tarefa de abater o inseto, que, a essa altura, entrara debaixo da bergere.
Num relance, a mim pareceu que a barata estava tão assustada quanto Sílvia, que de lá de dentro do banheiro perguntava: “Já matou, matou?”
Armei-me de um pé de sandália havaiana e fui caçar a barata. Afastei a bergere e encontrei-a estática. Mas ao meu primeiro golpe de sandália, a barata escapou. Deu-me alguns dribles, mas devo reconhecer que, sem querer contar vantagem, ela foi perseguida com denodo até conseguir acertá-la. Não havia como a pobrezinha escapar. Foi um golpe fatal. Não daqueles que esmagam e deixam as entranhas da barata esparramada.
E a mulher dentro do banheiro perguntava, outra vez: “Matou? Matou?”
Confesso, nunca vi barata tão grande. Já ouvi dizer que as baratas voadoras costumam causar surpresas do tipo, mas nunca antes na nossa história de vida, aqui ou noutro lugar qualquer, isso havia acontecido.
“Matei” respondi à indagação dela, mas no primeiro momento, ela nem acreditou. Permaneceu dentro do banheiro com a porta trancada a chave, como se uma simples barata tivesse o poder de abri-la, embora pudesse entrar por alguma fresta.
Quando a mulher resolveu sair, entrei no banheiro e peguei um pedaço de papel higiênico. Pelas antenas, apanhei a dita cuja e a joguei dentro do vaso sanitário. Em seguida dei descarga. A barata rodopiou n`água e nada de descer. Foi na terceira tentativa que ela desceu para sempre pela rede de esgoto.
Mas em nós ficou a sensação de que já não se pode mais nem deixar aberta a janela do quarto por causa desse calorão. Além do risco de entrar pó de minério e monóxido de carbono cuspido pelo cano de descarga dos carros, pode acontecer de uma barata desavisada entrar pela janela voando com asas metálicas. Barata suspeita ainda por cima.
Enfrento qualquer barata, não importam as circunstâncias, com cara e coragem. Mas a digníssima, não, sobe em mesa e esperneia, “morre de medo”.
Eu, ao contrário dela, acho o maior barato.


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Por Alberto Sena - 4/3/2013 08:29:42
Do tempo em que os bichos falavam

Alberto Sena

Quem é da nossa geração vai se recordar da novela do “Tio Janjão – histórias do tempo em que os bichos falavam”. As histórias vinham pelas ondas curtas do rádio incipiente, acompanhadas de certos ruídos. Não sabíamos se eram ruídos do aparelho transmissor ou da confusão dos personagens apertados ali dentro daquela caixa falante.
Tio Janjão era uma voz, apenas, mas cabia na nossa cabeça como figura misteriosa. De tudo, ele sabia e tinha o dom de se comunicar com os bichos, como um Francisco de Assis, santo ainda desconhecido dos meninos. Tanto verdade era que, todo dia, de segunda a sexta-feira, bastava ligar o rádio às 4h da tarde para ouvir a voz do Tio Janjão contando as mais incríveis histórias de bichos falantes.
Depois que ele acabava de contar mais uma história, prometendo voltar no dia seguinte, no mesmo horário, era a vez da novela de “Jerônimo, o herói do sertão”. A meninada até arrepiava o couro de tanta emoção só de ouvir a vinheta de apresentação de mais um capítulo de emocionante aventura do herói a serviço do bem comum. Ele tinha um companheiro chamado “Moleque Saci”, encarnado numa voz de menino fanhoso.
A cada capítulo, Jerônimo vinha a galope em seu cavalo: “procotó, procotó, procotó...” Era o máximo. Os ouvidos ficavam grudados no rádio. Ninguém dava uma palavra sequer para não perder nenhum lance. Claro, não dá mais para lembrar o conteúdo das histórias, mas a sensação e a emoção ficaram gravadas para sempre.
Mais de duas décadas depois dessas emoções, em Belo Horizonte, na rádio Guarani Onda Rural, foi que descobrimos como Jerônimo e Moleque Saci imitavam o galope de cavalos: batendo duas bandas de cocos uma na outra. O relinchar dos cavalos era onomatopeicamente feito com a boca. Importante, naquela época, era a meninada achar tudo muito legal. Intrigava só o fato de como era possível caber tanta gente dentro daquele aparelho. Até alguém esclarecer isso, muitos capítulos se sucederam.
Acabava a novela de Jerônimo, vinha o canto da Ave-Maria e então se podia ver pela janela a tarde se esvair numa mistura de cores do pôr do sol do sertão de Montes Claros com o manto da noite a cobrir o nosso mundo de magia e fantasia.
Era chegada, então, a vez de tomar banho. “Esfregue bem o pescoço, acabe com essa tiririca; lave direito os pés e atrás das orelhas também”, a mãe sempre repetia. O banho era de bacia. A água escassa. Passar bucha no corpo doía e muitas das vezes a meninada arranjava um jeito de engambelar, era essa a expressão, e vinha então a tiririca no pescoço, que a mãe um dia cismava de esfregar, e esse era o problema. Era quando recordávamos da história de João Jiló.
João Jiló, um fazendeiro de botas de cano longo e tudo mais, tinha um galo. Ele cismou de abater o bicho, logo numa Sexta-Feira da Paixão, contra todos os argumentos contrários dos seus alertando não ser aquele um dia propício para ato de tamanha extravagância.
Mas ele teimou e abateu o galo e já o depenava quando o bicho reviveu e correu pela casa até fugir por uma janela. Entrou na igreja e ficou lá no alto da torre, vivinho da silva, gemendo: “Como dói, João Jiló...”
Esse e outros episódios eram contados por Lúcia Casasanta, no livro “As mais belas histórias”, que fizeram a cabeça e a alma de muitas crianças da nossa geração, num tempo lento, pachorrento, quando o viver era muito menos perigoso.
Nessa ocasião, alimentavam o imaginário das crianças os personagens Flash Gordon, Capitão Marvel entre outros, misturados com Saci Pererê, Mula Sem Cabeça, Lobisomem e até, pasmem, vampiros.
As dificuldades vinham à noite, na hora de dormir, o quarto escuro, o medo de algum desses personagens horrorosos sair de debaixo da cama para puxar as pernas enquanto dormíamos sono de um herói sobrevivente de mais um dia de muita brincadeira no fundo do quintal, em cima de um pé de manga, pulando de um galho para o outro como se fora Tarzan. Senão Chita, macaquinha ensinada, parecida com uma que um dia apareceu no quintal e nos deu baita susto.


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Por Alberto Sena - 25/2/2013 08:24:07
IAB premia o presépio

Alberto Sena

Grão Mogol nunca esteve tão presente na mídia como nos últimos meses. Um dos motivos dessa presença é o Presépio Natural Mãos de Deus, construído pelo empresário aposentado Lúcio Bemquerer, considerado sem igual no mundo.
Sábado, 23, o nome de Grão Mogol voltou a ocupar espaço na mídia devido ao anúncio de que o presépio foi um dos agraciados pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), no ano passado, com o Prêmio Gentileza Urbana. A entrega do prêmio foi no Museu de Arte Moderna da Pampulha, numa solenidade descontraída, que contou com a apresentação do radialista Tutti Maravilha, da Rádio Inconfidência.
Vale dizer que o museu passa por uma reforma que deverá deixá-lo lindo, à altura da competência e do prestígio do arquiteto que o idealizou, Oscar Niemeyer. O nome de Niemeyer foi lembrado várias vezes durante a solenidade, que emocionou a presidente do IAB, Rose Guedes.
Na ocasião, o sol do verão proporcionava o espetáculo do pôr do sol, cujos raios eram refletidos nas águas da lagoa da Pampulha, carentes de despoluição.
Estiveram presentes o vice-prefeito Délio Malheiros, o presidente da Associação Comercial de Minas (ACMinas), Roberto Luciano Fagundes; José Romualdo Cançado Bahia, que fez a indicação do presépio ao prêmio, e vários amigos de Lúcio Bemquerer.
Desde a inauguração, em dezembro de 2011, a obra já levou a Grão Mogol mais de 30 mil pessoas da região, do Estado, do País e do exterior. O presépio mudou a rotina da cidade, principalmente nos finais de semana. Claro que a cidade possui outros atrativos, mas o presépio se sobressai pela originalidade e pela conotação religiosa.
O prêmio Gentileza Urbana destacou a obra “pela inovação, pela beleza e pelo aspecto inusitado no fomento ao desenvolvimento urbano”. Isso dito com outras palavras significa aquilo que já publicamos em algumas ocasiões: o presépio mexeu com a vida da cidade, que ficou paralisada por décadas em virtude do fim do garimpo de diamantes, e também da região, destacando-se como importante obra de estímulo ao turismo de Minas Gerais e do Brasil.
O nome do presépio, pela sua grandiosidade, ecoa por Minas Gerais, pelo País e pelo mundo afora como um grito de alerta à humanidade para a importância da divulgação do nascimento de Jesus Cristo, numa época em que a religiosidade das pessoas está em crise e o planeta em convulsão.
O presépio, como as palavras de Cristo, não passa nem nunca passará. E porque é a representação do nascimento do Messias, o eco se multiplica de tal maneira que outros reconhecimentos a obra receberá porque existirá e resistirá até o final dos tempos edificada que foi na rocha.
Depois de receber a visita do arcebispo dom Serafim Fernandes de Araujo, o que foi considerado o maior acontecimento de Grão Mogol, quando ele rezou missa no presépio para mais de quatro mil pessoas, ano passado, agora a visita ilustre será de dom Walmor de Oliveira, arcebispo metropolitano.
Havia, a princípio, a intenção de convidar o Papa Bento XVI para visitar o presépio. Ele viria ao Brasil em junho, mas renunciou ao papado e a esperança é a de que o próximo Papa possa ir a Grão Mogol, um dia, com essa finalidade.
Com a proximidade da Semana Santa, a visitação ao presépio tende aumentar mais ainda. Vários ônibus são vistos chegando durante os finais de semana e essa frequência vem levando os gramogolenses a investir no comércio e na recepção dos turistas religiosos.
O presépio foi construído em oito meses de trabalho ininterrupto, com recursos próprios. Antes de a ideia surgir, o local eram lotes cheios de pedra e mato aos quais as pessoas não davam valor nem a menor importância. Por iluminação, Lúcio Bemquerer, que cumpriu um exílio involuntário de sua terra de mais de 20 anos, foi o pai da ideia e da construção, consolidando a fama de Grão Mogol de ser “um presépio a céu aberto”.


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Por Alberto Sena - 18/2/2013 08:26:11
Assim caminha a humanidade

Alberto Sena

Numa hipótese, se a humanidade tivesse se desenvolvido espiritualmente, a vida no planeta Terra seria outra bem melhor e diferente da que nós levamos – ou somos levados – mergulhados nesse materialismo enlouquecer, que nos remete sempre ao consumismo desenfreado.
Vivemos em plenitude os tempos da obsolescência programada de todas as coisas e até dos seres humanos – vejam as guerras, acidentes de modo geral etc. Tudo tem um prazo de validade. E é esse prazo que faz a roda do materialismo rodar para transformar em dinheiro, usufruto de quem está por trás de tudo isso.
Para pôr mais lenha na conversa, tudo relacionado com tecnologia não existiria, simplesmente porque se poderia deslocar de um ponto ao outro num átimo e ninguém precisaria entrar numa “caixa” chamada carro para viajar. Ou numa nave para apreciar as belezas que Deus espalhou pelo Universo.
Ir ao Japão seria facílimo, bastaria pensar em ir para ir de fato a fim de se encontrar com quem quer fosse, em Tóquio ou em Hiroshima e Nagazaki, onde os norte-americanos explodiram bomba atômica na década de 40 do século passado.
E por falar em bomba atômica, esta não haveria porque baseado naquela ideia que cada um tem de paraíso, ele seria aqui mesmo e as pessoas, embora presas ao corpo, poderiam se deslocar a partir do fenômeno da bilocação ou transposição corporal. O poder de estar em mais lugares ao mesmo tempo estaria ao alcance de todos.
Hoje de manhã, nos ocorreu fenômeno interessante. O ambiente era a Serra do Curral, com vista para o município de Nova Lima. A atmosfera azulada parecia tomada duma névoa diáfana. Foi quando um casal se aproximou com o filho adulto e o pai não era outro senão um vizinho, de quando a Rua Corrêa Machado, 238, em Montes Claros, lá pelos idos da década de 60, era o endereço residencial.
Durante pelo menos uma meia hora fomos juntos àquele pedaço de rua onde a alegria de jogar bolinha de gude, finca; empinar papagaio e jogar futebol no campo em frente parecia ser uma alegria eterna, enquanto durasse a fase de adolescência, em contato direto com o pó avermelhado da terra montesclarina.
Esse tempo mágico foi soterrado pelo asfalto. O asfalto acabou não com as bolinhas de gude, ainda encontradas no mercado, mas sem o jogo no chão, em contato direto com a terra. O asfalto acabou de vez com a finca. Claro que esse piche responsável pelo aumento da velocidade dos carros teve pontos positivos.
Mas os pontos negativos, nós os estamos sentindo na pele faz tempo. Nunca antes do asfalto foram registradas enchentes em Montes Claros, como a que presenciamos recentemente. As águas das chuvas penetravam a terra e alimentavam os rios e tudo seguia na santa paz.
O asfalto impermeabilizou as cidades. As enxurradas cada vez mais volumosas correm pelas sarjetas, em busca de uma saída, mas encontram as bocas de lobo entupidas e se transformam em enchentes com a maior facilidade. E, aqui, cabe a pergunta: a culpa é de quem? Das chuvas que não é. Nem de Deus.
Foi à tecnologia que nos levou a esse modus vivendi e operandi autodestruidores. Fosse espiritual o desenvolvimento da humanidade, não precisaríamos de tanta coisa para viver. Íamos, sim, precisar de um teto para nos abrigar das chuvas, do sol, dos ventos. Ninguém viveria ou morreria ao relento,
É de supor que tudo vindo do espírito seja bom. É por meio do espírito que as pessoas têm contato com Deus. Espiritualmente, estamos ligados a Ele e somos como fantoches. A mão que nos manipula, e devemos sempre nos entregar à manipulação Dele, provém da mesma fonte que nos ilumina e guarda, porque nos deu o sopro da vida.
Somos, de fato, seres espirituais, simplesmente porque a matéria não existe. O que precisamos, de fato, é nos comportar como tal. Considerando que, a essa altura, não há como reverter da noite para o dia o curso do desenvolvimento humano. Então, que este seja humanizado, apesar de material.
Quem possui cabeça pensante, a essa altura deve buscar uma maneira de reverter essa corrida desenvolvimentista a qualquer custo. Ou cuidamos da nossa casa chamada Terra ou, juntos, iremos sucumbir aos nossos próprios caprichos, porque trocamos o verdadeiro, que não vemos, pela ilusão criada por nossas ações materialistas, que são efêmeras.
Nesse compasso caminha a humanidade.


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Por Alberto Sena - 13/2/2013 10:47:33
Façanha ou loucura?

Alberto Sena

Às vezes enfrentamos situações de perigo que só muito tempo depois sobre elas fazemos uma reflexão. Um exemplo foi o que nos ocorreu, enquanto fazíamos a pé o Caminho da Fé, uma experiência sem igual. O percurso é de 400 km, de Tambaú (SP), Serra da Mantiqueira (MG) até Aparecida do Norte (SP). É um percurso mágico onde, inesperadamente, tudo pode acontecer e geralmente acontecem coisas boas. Passamos por trilhas a mais de mil metros de altitude, de onde se têm visão de 360 graus. Paisagens lindas, tão lindas que nos levavam a ajoelhar no chão para agradecer a Deus por ter construído natureza de tamanha beleza. O próprio paraíso, aqui na Terra.
Evidentemente, quando a gente assume uma empreitada desta, de trilhar o Caminho da Fé, a intenção é refletir, meditar, contemplar as “pegadas” de Deus e orar. É mais ou menos como quando a gente resolve “fazer um retiro”. Mochila nas costas, com no máximo 10% do peso corporal, com o suficiente para viver os vários dias de caminhada. Importa ouvir o bulício da natureza, sentir o sopro dos ventos e ouvir o canto dos passarinhos. Prestar atenção em tudo, ativar os ouvidos e elevar o espírito. Mas, sobretudo, agradecer a Deus, certo de que nós nem merecemos tanta beleza, diante do quadro atual do que fazemos contra a natureza.
Viver é andar. Andando, ideias mil surgem e o corpo produz a endorfina necessária para estimular e assim se pode tentar melhorar a si mesmo por dentro.
O que nos ocorreu de perigoso, por culpa única e exclusiva de nós mesmos, é preciso fazer o mea-culpa, se deu depois que deixamos Santo Antônio do Pinhal (SP) e seguíamos para Pindamonhangaba (SP). Um casal que conhecemos no dia anterior entrou numa de nos acompanhar. Andar acompanhado de pessoas estranhas, ou mesmo conhecidas, para quem quer refletir sobre a vida, nada tem a ver uma coisa com a outra. Em outras situações, andamos (ela e eu) às vezes juntos, noutras vezes vou à frente e ela atrás; ou o contrário.
E assim deve ser, quando se tem o propósito de fazer o Caminho da Fé (já o trilhamos três vezes). Evidentemente, numa jornada desta encontramos pessoas e com elas entabulamos conversações, mas vamos em frente, os dois. Pessoas estranhas tiram a liberdade, e, ao mesmo tempo, tolhem a reflexão individual, a faxina interna.
A caminho de Pindamonhangaba, aproveitando uma dianteira, optamos por entrar por um desvio pela estrada férrea, sem saber o que nos aguardava lá na frente, a fim de ficarmos livres da companhia do casal inoportuno. Seguimos observando tudo, até mesmo as britas azuis que dão aos dormentes a firmeza necessária, quando nos deparamos com assombroso desafio a nossa frente: uma ponte férrea de cerca de 30 metros de altura sobre o Rio Paraíba do Sul. Tínhamos de atravessar a ponte, de 50 metros de comprimento, pisando nos dormentes e vendo o rio lá embaixo, sem poder fixar as vistas nele.
Havia só duas opções e uma alternativa: voltar ou seguir em frente. Vínhamos andando desce cedo e era tarde. Voltar não era o caso. Havíamos obtido lá atrás a informação de que o trem já havia passado e não correríamos o risco de dar de cara com ele no meio da ponte. Sílvia foi à frente. Atrás dela eu ia para agir caso ela escorregasse e ficasse entalada entre dois dormentes, suspensa naquela altura.
Um a um, fomos pisando nos dormentes, contando com o apoio imprescindível do cajado, e principalmente, da mão de Deus. Numa situação desta, não se podem fixar as vistas nas águas do rio lá embaixo. É enorme o risco de ficar tonto e cair. As vistas devem estar fixadas nos dormentes. A minha ocupação era dupla: cuidar de mim e dela, que à frente rezava em voz alta.
Se um de nós caísse daquela altura, mergulharia nas águas do Rio Paraíba do Sul morto, tamanha à distância até lá embaixo. Se chegasse vivo lá embaixo, morreria afogado porque não teria forças para emergir, nem braços para nadar.
Passo a passo apoiado pelo cajado, pisávamos um a um todos os dormentes. Claro que os nativos da região, imaginamos, deviam fazer o percurso até com os olhos fechados. Mas para quem não estava acostumado a andar sobre dormentes, inda mais a uma altura daquela, correndo o risco de estrebuchar lá de cima, isso é no mínimo uma façanha. Ou será que está dentro da cota de loucura de cada um?


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Por Alberto Sena - 4/2/2013 08:22:35
Com o perdão da ignorância

Alberto Sena

Desculpem-me pela ignorância em matéria de prática política, mas quero entender certas coisas porque estou para chegar à triste conclusão de que os políticos estão nos fazendo de bobos ou nós somos é bobos mesmo.
Por favor, alguém me corrija se eu estiver errado: para os políticos chegarem lá nas câmaras municipais, nas assembleias legislativas, no congresso, nos governos federal, estaduais e municipais, eles precisam ou não do nosso voto?
Se eles precisam do nosso voto, quer dizer, do voto do povo, para se elegerem por que quando são eleitos os políticos fazem tudo que o povo não quer? Eles não são representantes do povo? Tinham então de fazer o que o povo quer. E não o que eles querem. Se eles viram as costas para o povo porque é que continuam lá fazendo falcatruas em nome desse povo?!
Para ser um pouco mais claro, toda hora acontecimentos políticos nos chocam. Será que vamos ter de viver em ‘estado de choque?’ Outro dia mesmo o povo brasileiro queria ver o ex-presidente Sarney (e outros) fora da política pelos motivos que todos conhecemos e ele acabou presidindo o Senado.
Agora, para substituir Sarney quem apareceu? Renan Calheiros, o mesmo que renunciou ao mandato para não ser cassado por corrupção e voltou a se eleger senador. Logo surgiram novas denúncias contra ele, de uso de notas frias para comprovar despesas e outras, antes da eleição no Senado, e ainda assim 56 entre 76 senadores votaram em Renan e ele foi eleito.
Lá no sertão norte-mineiro, em Montes Claros, especialmente, corre de boca em boca a expressão ‘um gambá cheira o outro’. Essa expressão serve direitinho para aplicar ao Senado, onde os seus ocupantes elegeram para presidente um colega que só não foi cassado por corrupção porque renunciou ao mandato e, por último, eleito senador reincidiu no erro. Para usar outra expressão corriqueira, “o semelhante atrai o semelhante”.
Qual moral tem um Senado composto de políticos que abusivamente acobertam erros dos seus? E por que esses mesmos políticos continuam no poder? Isto é uma das coisas que não entendo e gostaria que alguém com mais tino político me fizesse entender.
Será que é porque eles compram votos? E se compram, por que será que há brasileiros que se sujeitam a isso?
Quem já viajou pelo mundo sabe que não há país melhor para viver do que no Brasil. Haja vista a quantidade de estrangeiros que assentaram praça em cidades brasileiras. E eles vêm e se dão bem, porque, literalmente, essa é uma terra onde emana leite e mel. O problema brasileiro é político e está intimamente ligado aos políticos.
O pior de tudo é que eles decidem os rumos do povo e não respeitam a opinião pública nem a justiça, como se só o clamor popular não fosse suficiente para evitar as aberrações que a cada dia testemunhamos.
Vejamos o caso dos petistas condenados no júri do ‘mensalão’ e que agora movem mundos e fundos para anular o julgamento, como se tudo aquilo que vimos e ouvimos na TV fosse uma palhaçada. É preciso cumprir as condenações já, senão nós e a justiça estaremos sendo violentados.
Os políticos chafurdam na própria má fama e eu na ignorância fico matutando sobre o que podemos fazer para acabar com “essa pouca vergonha”, como diria a minha mãe, Elvira, que, assim como eu, não entendia de política, mas fora formada com base em bons princípios e soube transmiti-los.
Sou defensor do otimismo, de nascença. Acho que o Brasil tem tudo para vir a ser uma nação respeitada, em condição de dar qualidade de vida para toda a sua população, mas essa ‘crasse’ política é uma vergonha mundial e precisamos politizar os nossos patrícios para mudarmos esse quadro terrível.
Não podemos continuar mais como ‘vaquinhas de presépio’ como em passado historicamente recente, quando o regime era de exceção. Não devemos aceitar as imposições como se ainda vivêssemos na era do coronelismo tão repudiado.
É necessário que as pessoas de bem, dotadas de espírito público entrem para a política. Se quem tem vocação não assume uma candidatura para mudar o deplorável quadro político, os aproveitadores, os interesseiros, aqueles que só pensam em legislar em causa própria assumem o poder e vão se locupletando nele em nosso nome.
Se eles pensavam que nós éramos bobos, se enganaram redondamente, nós somos mesmo é idiotas.


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Por Alberto Sena - 28/1/2013 08:07:36
Como diria Casimiro de Abreu

Alberto Sena

Como diria o poeta Casimiro de Abreu, “Eu me lembro! Eu me lembro...” Ele, e não o poeta recordava também de vivências, de quando morava em Montes Claros. Até início da década de 1970, era ‘foca’ do O Jornal de Montes Claros, do dr. Oswaldo Antunes, onde deu trabalho ao sempre lembrado Lazinho Pimenta, que tinha a incumbência de copidescar o incipiente texto. As primeiras incursões no jornalismo foram em coberturas de esportes e logo depois de polícia, no JMC.
Tudo aconteceu como num estalar de dedos, de 1969 a 1972, quando de mala e cuia adentrou a jardineira, aliás, foi em trem de ferro e definitivamente rumou para Belo Horizonte, onde encontrou o jornalista Robson Costa, filho da professora, Bernadete Costa, que o levou para trabalhar no jornal Estado de Minas. Lá, teve o privilégio de trabalhar com o jornalista e escritor Wander Piroli, numa redação onde conviveu com o também jornalista e escritor Roberto Drummond, além de outras feras como Sebastião Martins, Délio Rocha, Lincoln Gonçalves, André Carvalho, Paulo Emílio Coelho Lott, Fialho Pacheco, Paulo Narciso, João Gabriel da Silva Pinto e outros mais – a lista é grande.
Mesmo consciente de sua insignificância, foi assimilando o aprendido com um e com outro e ainda hoje se considera “foca com certa experiência”, mas sempre aprendendo com os outros e com a leitura do livro da vida cotidiana. Quem lê estas linhas deve estar se interrogando querendo saber ‘adonde’ se quer chegar. Sugestão: desça os olhos ao próximo parágrafo.
Sempre esteve em reportagem, até que um dia... Bem, mas antes desse dia muito água passou por debaixo da ponte. Foi repórter de todas as áreas da redação e num dia belo do século passado foi guindado à condição de editor e então editou nas áreas de agropecuária, meio ambiente e economia. O tempo voou como condor nas alturas e durante e depois de uma parelha de anos sem fazer reportagens, dedicou-se a escrevinhar crônicas, contos e algo mais que espera poder publicar, até que Helcio Zolini, diretor de Jornalismo do Hoje em Dia fez o convite para coordenar a editoria do ‘Minas’.
Foi uma boa experiência, mas o tempo todo sentia coçar as pontas dos dedos reclamando a volta para a reportagem, considerando que tantas foram publicadas ao longo da carreira e muitas delas resultaram em consequências positivas para a sociedade. Não ia agora entrar nesse mérito para não parecer que jogava confete em si mesmo, mas quem acompanhou e ainda acompanha o seu trabalho desde os primórdios é testemunha.
Para chegar ao ponto: já não mais coordena o ‘Minas’. Está de volta à reportagem. E pode dizer de boca cheia que se sente mais útil nessa função e o primeiro resultado colhido saiu quinta-feira, 24, quando o Hoje em Dia publicou sua primeira reportagem da nova fase. A vibração foi a mesma sentida em 1972, quando no EM iniciou-se na grande imprensa, com a cobertura de um acidente de ônibus. Desta vez, no Hoje em Dia, que passou por mudança total – só manteve o nome – inclusive mudança de formato, agora em tabloide, o assunto foi o lago de Águas Claras, que a Vale do Rio Doce enche já faz 11 anos e vai continuar enchendo por mais 15 anos.
O lago é o resultado final de uma exploração de minério de ferro durante 38 anos. Tudo começou na ditadura militar. Águas Claras passou por várias mãos de mineradoras, até ser adquirida pela Vale. A intenção da empresa era fazer lá um condomínio de luxo, mas suspendeu esse projeto e agora não sabe qual destinação dar a área. A prioridade agora é a ‘recomposição’ do terreno, daí o lago em enchimento. Os sinais da degradação estão vivos lá.
A segunda reportagem desta nova fase está por sair. É sobre a barragem de Rio Manso, que fornece água para mais de 1,6 milhão de usuários da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ele foi lá com o fotógrafo Ricardo Bastos e o motorista Sílvio, acompanhado de Fabrício, da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda), para averiguar denúncias de que a barragem vem sendo poluída por lixo deixado por pescadores, que invadem a área porque a vigilância da Copasa está meio capenga.
Concomitantemente a responsabilidade de trabalhar para cumprir a tarefa, nenhum filho de Deus deixaria de curtir o lugar, paradisíaca região de Rio Manso, que desperta em toda pessoa o desejo de espetar a bandeira em algum ponto ali do chão onde puder contemplar a mais bela paisagem. O importante é saber conciliar o trabalho e a alegria de contemplar a natureza.


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Por Alberto Sena - 10/1/2013 10:38:20
Prefeito de Porteirinha pagará promessa, por ter sido eleito, no presépio de Grão Mogol

Grupo de foliões chamado Comunidade do Sítio, que fez o pedido a Deus, vai também à Matriz de Santo Antônio.
O prefeito de Porteirinha, Silvanei Batista Santos (PSB) vai neste sábado, 11, a Grão Mogol, no Norte de Minas, a fim de cumprir a promessa que os integrantes do grupo de foliões Comunidade do Sítio fizeram para que ele fosse eleito: visitar o Presépio Natural Mãos de Deus e a Matriz de Santo Antônio onde farão duas apresentações. A história do prefeito tem ingredientes que, pela ótica econômica, podem ser comparados à luta dos personagens bíblicos Davi e Golias. Neste caso, a funda e a pedra usadas por Silvanei, como Davi contra o gigante, foram o patrimônio de R$ 13,5 mil; moto no valor de R$ 4,5 mil e Parati modelo 1992, avaliada em R$ 9 mil.
Ele venceu a disputa da prefeitura contra o prefeito em busca de reeleição, o empresário e pecuarista Juraci Freire Martins (PP), que declarou à Justiça Eleitoral patrimônio de R$ 24,4 milhões (o terceiro maior entre os candidatos a prefeito do interior de Minas, na eleição passada), incluindo cerca de 20 mil reses, 32 fazendas e 12 casas.
Durante a disputa pela prefeitura de Porteirinha, Silvanei, apelidado Nei, filho de carroceiro, sofreu preconceito e até deboches, pois as pessoas achavam que, com tão pouco recurso, ele não teria como vencer o poderio econômico do adversário. “A minha eleição – ele disse à época – prova que, para a gente ser alguém na vida, não precisa ter dinheiro. Tem de ter coragem, humildade, caráter e respeitar as pessoas”.
Silvanei, que se dirigiu à prefeitura numa carroça, no dia da posse, acompanhado do pai e um cortejo de cerca de cinco mil pessoas, disse que irá a Grão Mogol em ônibus fretado e com boa parte do seu secretariado. Dentre os passageiros estarão os integrantes do grupo de foliões da Comunidade do Sítio, que fica próxima de Porteirinha e de Riacho dos Machados; e o ex-prefeito Alonso Reis da Silva (PT). Será fretado um ônibus para a viagem e depois de cumprida a promessa, ainda no sábado, a comitiva retornará a Porteirinha.
O presépio completou, em dezembro de 2012, um ano e já recebeu a visita de quase 30 mil pessoas, o que representa mais de quatro vezes a população urbana de Grão Mogol. Permanente e a céu aberto, a obra conta as passagens do nascimento de Jesus, com esculturas em tamanho além do natural de todos os personagens bíblicos do maior acontecimento da humanidade.
Construído há milhares (milhões?) de anos “pelas mãos de Deus”, conforme o responsável pela obra, Lúcio Bemquerer, costuma dizer, da descoberta dele à criação da infraestrutura para facilitar o acesso a cadeirantes foram empregados oito meses de trabalho ininterrupto, com recursos próprios. Um ano depois, a obra é de fato considerada como a maior do mundo em sua categoria de permanente e a céu aberto, candidata ao Livro Guinness dos Recordes.


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Por Alberto Sena - 7/1/2013 09:12:01
As três Anália’s e a flatulência

Alberto Sena

“Maracangalha”, letra e música de Dorival Caymmi’, foi lançada em 1957, de modo que até nos primeiros anos da década de 60, em Montes Claros, era muito tocada no rádio e até cantada exaustivamente em “grito de carnaval”. Mas o detalhe da letra da música, a personagem Anália – “se Anália não quiser ir, eu vou só...” – é que chamava a atenção porque na cidade havia uma zona de “baixo meretrício”, à época assim chamavam uma das zonas boêmias de Montes Claros, onde a ‘cafetona’ atendia pelo nome de Anália.
Ocorre que, quando a família morava na Rua Corrêa Machado, no trecho entre as ruas Dr. Veloso e João Pinheiro, havia na época o campo do clube de futebol União logo em frente. O campo era fechado por muro de fora a fora e como já se encontrava meio abandonado, os meninos fizeram aos pouquinhos um buraco circular no meio do muro. Era só passar pelo buraco e a pessoa estava no barranco do lado de dentro do campo. Ali a meninada se esbaldava o dia inteiro com bolas de meia, de borracha e de capota.
Era vizinha nossa, separada só por um muro, uma família vinda da roça. Era a mãe, viúva; um filho e duas filhas. O filho se chamava Antônio, apelidado Tone ou Toninho e uma das filhas era Anália. O nome da outra era Iara. Daquela data em diante, depois que a família se mudou para a casa vizinha, não se cantou mais a música de Dorival Caymmi porque Anália podia achar que estávamos falando dela.
É que em pouco tempo a viúva e as filhas dela encrencaram conosco. Tone ficava mais tempo na roça do que na cidade. E tudo que as vizinhas falavam tinha a ver com ele. “Quando Toninho chegar, vamos falar com ele... Quando Toninho chegar nós...” Era Tone pra lá e Toninho pra cá. Nas primeiras chuvas, as vizinhas tamparam na base do muro, uma abertura por onde escorria a água vinda de outros quintais. Resultado: o nosso quintal, que recebera toda a água da chuva vinda dos vizinhos inundou porque a enxurrada não tinha por onde escoar.
Claro, tivemos que desobstruir o buraco do muro para dar vazão à enxurrada. As vizinhas fizeram o maior escândalo. Disseram: “Pode deixar, quando Tone chegar, Tone vai dar um jeito nisto”. Mas Toninho demorou, o período chuvoso passou e tudo ficou como sempre. Outros períodos vieram e não tivemos o mesmo problema com as vizinhas. Em compensação, elas fechavam a cara para nós sempre que nos viam.
Até aqui, tudo narrado foi para chegar a este ponto: numa noite, estávamos – minha mãe, irmãs e o irmão caçula – sentados em cadeiras na calçada. Fazia calor tal e qual faz nesta época do ano. Na porta da casa vizinha estavam Anália e o noivo dela. Os dois conversavam animadamente. E nós, também. Até um momento de grande desconserto quando o noivo de Anália deixou escapar sem querer querendo uma flatulência e Anália entrou correndo para dentro de casa, envergonhada. Enquanto ela entrava, o noivo, desconsertado também, levantava da cadeira e ia embora sem nem olhar para trás.
Passaram-se alguns instantes, Anália voltou. Olhou para um lado e para outro da rua à procura de ver o noivo. Ela devia supor que ele jamais iria embora, mesmo em se tratando de uma situação constrangedora como a ocorrida. Como não podia deixar de ser, acompanhamos a movimentação de Anália, até que ela resolveu pé antepé, atravessar a rua e se dirigir, sem mais nem menos, rumo ao buraco no muro do campo.
Foi quando percebemos, Anália achava que o noivo se escondera lá. Então, ela se foi aproximando do buraco no muro, como quem queria assustar o outro, e ao pôr a cabeça do lado de dentro soltou um ruído pela boca mais ou menos parecido com “buuuuuu...” Mas ao perceber que o noivo não estava ali, ela retornou correndo para dentro de casa envergonhada em dobro.
Claro, fomos condescendentes com ela. Não rimos desbragadamente, mas entre dentes, tapando a boca com as mãos.
Desde então, toda vez que escutamos “Maracangalha” nos recordamos de Anália – dela e das outras – do noivo, do episódio da flatulência e do buraco do muro do campo, e caímos na gargalhada. Mas sem desrespeito aos personagens, mais pela comicidade intrínseca ao acontecimento.


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Por Alberto Sena - 2/1/2013 09:23:21
Injusta condenação

Alberto Sena

Quem acompanhou as narrativas sobre as agruras de um cão de raça japonesa, aqui feitas não carece de apresentações, mas quem toma conhecimento agora deve ser informado de que todas as medidas foram tomadas para livrar o animal do ambiente em que é obrigado a viver preso a uma corrente. Ninguém, nenhuma ONG nem instituição alguma que se diz “defensora dos animais” apareceu para livrar o cão do sofrimento, pois, claro está que ali não é o lugar dele e por isso ele uiva, chora como se humano fosse.
Nesta manhã de domingo, 30 de dezembro de 2012, fiquei um bom tempo na janela observando o cão. Por uns instantes a mim me pareceu que entrei no corpo do animal e pude sentir o drama dele. O ambiente onde o cão se encontra é inóspito. Fizeram para ele uma casinha e se muito a corrente o deixa ir uns dez metros ao redor. Ele tenta ir mais adiante, mas o tranco da corrente o obriga a recuar. Isto o irrita. Deixa-o decepcionado.
Posso estar enganado, mas a mim me parece que o cão foi retirado de alguma casa onde era bem tratado. Devia ter banho e tosa com frequência. Certamente comia ração de qualidade. Volta e meia ouvimos o cão uivar e chorar como gente grande e pensamos que ele uiva e chora com saudade do ambiente anterior. E ninguém pode fazer nada por ele, porque se pudesse alguém ou alguma instituição “defensora dos animais”, já teria tomado uma atitude.
Observando o animal da janela, vejo-o indo e vindo. Lembrei-me do Tio Patinhas, personagem de Walt Disney, das revistinhas do Pato Donald. Rico, dono de uma piscina cheia até a borda de moedas, quando Tio Patinhas ficava preocupado, ele costumava andar pra lá e pra cá, de modo a abrir uma pequena trilha no chão.
Claro que nenhuma relação há entre Patinhas e o caso do cão sofredor, que é pobre e pode ser considerado “cachorro sem dono”. E mais: por ser cão, ele não tem autonomia nenhuma para fazer o que bem quiser, depende da vontade de quem tem a posse dele no momento. Mas o chão onde ele pisa indo pra lá e pra cá pode até afundar de tanto que o animal, “preocupado”, anda. Só de vez em quando, depois de muito ir e vir até onde a corrente o deixa ir, ele entra na casinha e desaparece das vistas. Vai descansar frustrado, pois todas as suas tentativas de ganhar a liberdade foram em vão.
Antes de o cão chegar ali, o lugar onde fizeram a casinha dele era parcialmente coberto pelos galhos de um abacateiro. Mas porque o abacateiro estava fincado num precipício, homens do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil foram lá e cortaram a árvore. Podia acontecer de cair sobre um barracão onde vivem três famílias. Com o corte do abacateiro ficaram expostos para quem passa pela rua e olha na parte mais alta, o tronco deixado para segurar o barranco e a casinha do cachorro.
Dizem que em Belo Horizonte há 30 mil cães sem dono perambulando pelas ruas da cidade. Em minha opinião isto já configura um problema de saúde pública. Imagina o tanto de doenças que esses animais podem transmitir. O cão personagem do nosso texto está ali, limitado, mas recebe comida e água. Outro dia, num desses dias de calorão danado, o cachorro uivou feito lobo, latiu e chorou. Cheguei à janela para averiguar o que se passava e vi um homem magro, franzino mesmo, com uma vasilha na mão. Supus ser água. O cão reclamava água. Bebeu feito um animal no deserto ao encontrar o oásis.
Tenho minhas dúvidas se o cão é de fato bem alimentado e dessedentado. E para piorar um pouco mais a vida do coitado, o tempo todo amarrado àquela corrente, limitado apenas àquele espaço, isto tudo significa sofrimento. Mas o que podemos esperar de uma sociedade na qual os indivíduos vão se tornando cada vez mais individualistas, não se importando sequer com os semelhantes que vivem nas ruas. Se não se importam com os semelhantes, vão se importar com o sofrimento de um cão amarrado a uma corrente?
Mas é preciso ressaltar, aqui, que Virgínia Abreu de Paula, de Montes Claros, ferrenha defensora dos animais tentou de lá fazer algo em defesa do cão. Entretanto, mais de seis meses depois da chegada do pobre coitado àquele ambiente onde vive atualmente, ele é obrigado a levar uma vida de cão condenado por algum crime que não cometeu.


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Por Alberto Sena - 22/12/2012 13:00:12
“Filhos do dragão” lançam livro em BH

Alberto Sena

“Os filhos do dragão cospem fogo” é o título do livro que será lançado dia 26 de dezembro (quarta-feira), no Café Viena, na avenida do Contorno, 3968, no Santa Efigênia. Da obra participam 16 “anjos campesinos” filhos das gerais, sendo 14 deles sertanejos montes-clarenses e duas filhas do dragão, nativas das Alterosas. O organizador da obra é Raphael Reys, que explica abaixo:
O título foi escolhido pelo escritor Felippe Mattos Prates, descendente de Juca Prates, o criador do Jucapratismo. Ele, assim como Alberto Sena são montes-clarenses e no dizer do jornalista Luiz Carlos Novaes, editor do Jornal de Notícias, são viciados em Mocmania (mania de ser montes-clarenses).
A obra que organizei, apresentei e analisei, participando também do bojo tem como espírito, a tomada da extensão sensorial de cada participante no que se refere a sua adaptabilidade nas Alterosas, Capital de todos os mineiros.
Seus sustos, medos, superações e mesmo a sua visão como campesino que chega a metrópole para cursar universidade ou em busca de melhores oportunidades profissionais.
É, portanto, bem diversificada. Daí a sua importância como depoimento. Trafega desde o extenso relato sobre o romantismo de Belô nos anos 50, escritos pela beletrista Virgínia de Paula, filha de Hermes de Paula, historiador e escritor da nossa urbe.
Há tomadas de pura suavidade e sustentabilidade de alma, como os depoimentos da neo-acadêmica Mary Pimenta e Fernanda Belotti em escritos que nos lembram os Contos Campestres do poeta Virgílio. Essa última, morando há quase três décadas na Suíça Italiana chora a saudade de um Belo Horizonte cosmopolita.
A verve dos filhos do dragão descritos pela escritora e poeta Cláudia Cardoso
Crônicas de puro jornalismo profissional e competente, como as de Alberto Sena. Em sua vasta experiência como jornalista profissional. Mostra-nos as máscaras urbanas dos habitantes da grande cidade.
O escritor Leonardo Alvarez Campos, também jornalista em suas ousadas visões sobre a urbanidade e os urbanos. Chegam a nos confidenciar relatos sobre a sua psicografia, obtidas em exercício em fraternidades.
Depoimentos precisos como o de Ucho Ribeiro, Nilo Pinto, e as belezas escritas pelo jornalista Haroldo Tourinho, o Cabaret. A extensão e as tomadas do músico e também escritor Waldemar Euzébio e a precisão da lavra da médica e jornalista Mara Narciso.
As dúvidas e o saudosismo de Tomaz Maia, o Tomaz Capiau que, residindo nas Alterosas há 50 anos não volta a Montes Claros.
A leveza de estilo e o bom humor do nosso Coronel Tininho, o Juventino Silva, uma grande alma.
A criatividade da escritora e poeta Karla Celene nos mostrando o lado romântico dos bares de uma BH que agora só existe em nossos corações.
Os poemas de Nenzão, o sociólogo Geraldo Maurício, em mesas da Cantina do Lucas em tempos do mais puro glamour.


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Por Alberto Sena - 10/12/2012 08:19:37
Relembranças

Alberto Sena

Compartilhei de Walkiria Braga e Carlos Meira fotos do grupo escolar onde estudamos o antigo primário, hoje Escola Estadual Gonçalves Chaves, na Praça João Alves, em frente ao Automóvel Clube, que nem de leve existia. Acabei fazendo um tour por Montes Claros de quando podíamos encontrar nós mesmos em cada esquina da cidade.
Foi em 1956, quando Lúcia, minha irmã, me levou a primeira vez à escola, que tudo começou a acontecer. Era para fazer um teste a fim de determinar em que sala o menino ficaria. Feito o teste, ao final e ao cabo, ele ficou com a enérgica professora Bernadete Costa, mãe do ainda futuro jornalista Robson Costa, que, 15 anos depois levaria o menino para a redação do jornal Estado de Minas. As janelas da sala de aula davam para a rua. Da sala se podia ver a praça Dr. João Alves. Do outro lado era o Instituto Mineiro de Educação, um casarão antigo, onde hoje é o Automóvel Clube.
O mais gostoso dessas lembranças é recordar que só fizemos provas finais no quarto ano; do primeiro ao quarto alguns poucos meninos e meninas da nossa sala foram dispensados das provas finais. Entre os quais eu me encontrava e me recordo como se tudo estivesse acontecendo agora que saímos correndo carregando a pasta de cadernos, livro, estojo e tudo mais; a alegria era tanta que jogávamos tudo para cima.
Éramos os primeiros a entrar em férias. Podíamos ter mais tempo para jogar finca ou bolinhas de gude na casa da Rua São Francisco, que tinha uma área recuada à frente além do limite da rua. Lá e no quintal, com fundo para a linha férrea, eram o nosso reino mágico onde a relação telúrica se dava em primeiríssimo grau com a terra, o pó vermelho característico do sertão norte mineiro.
Houve uma vez que, ao agachar para abrir a torneira de um dos canteiros da Praça Dr. João Alves encontrei uma corrente com uma medalhinha de ouro estampada, tendo nela a figura de Nossa Senhora das Graças. Estava no meio de uma poça d’água ao redor da torneira. Alguém que fora fazer lá a mesma coisa que fui fazer a deixou cair do pescoço e nem percebeu.
Relembranças feitas, as fotos postadas por Walkiria Braga e Carlos Meira me levaram à praça Dr. João Alves, onde nas imediações moravam Marco Antônio, Haroldo Tourinho e Geraldo Santana Machado.
Revi na Praça Dr. Chaves, a Matriz de Nossa Senhora e São José e foi mesmo que ouvir a voz metálica de padre Dudu. Ali na praça moravam Waldemar Brandão e família; João, Antonilda e Fabíola Canela, além da família Mendes, cujo chefe levou o telégrafo e a telefonia para Montes Claros.
As fotos me levaram à Escola Normal Professor Plínio Ribeiro e lá pude me encontrar rapidamente com os colegas de então, como Marco Antônio e Marco Aurélio Rocha, Ricardo e Fernando Deusdará, entre outros.
Aproveitei que já estava ali e fui à Rua Padre Teixeira e adjacências e me lembrei dos Caribé, dos Gomes e dos Versiane. E me vi também aos namoricos na Praça, Dr. Chaves, achando que a qualquer momento o padre Dudu apareceria para ralhar com a gente porque àquela hora era para estarmos dentro da igreja participando da Cruzada. Nunca consegui sair da primeira faixa amarela.
Revi a foto do antigo prédio que já foi cadeia, virou colégio e já nem sei mais o quê, incrustado na esquina das ruas Camilo Prates com Dom João Antônio Pimenta. Ao lado dele funcionou e nem sei se ainda funciona o fórum onde nos tempos de repórter do JMC cobri acalorados debates no tribunal do júri, entre Sidney Chaves e Georgino Jorge de Souza.
Montes Claros era uma cidade pacata. A fama alimentada pela figura de Dona Tiburtina já estava sepultada, se bem que, de vez em quando, os membros da família dos Mió executavam mais um e a paz era quebrada.
Que Montes Claros tinha vocação para se tornar a grande cidade que vivenciamos hoje ninguém alimentava a menor dúvida. Mas naquela época não se podia imaginar que chegasse a tal ponto de se tornar uma metrópole, com os bônus e os ônus próprios de uma cidade que recebe gente do Brasil inteiro.
Mas, apesar dos pesares, ainda é possível encontrar a si mesmo, na cidade pacata existente dentro da metrópole, em meio à azáfama de todo dia.


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Por Alberto Sena - 3/12/2012 08:26:37
A culpa é do asfalto

Alberto Sena

Há muito que discutir sobre a intensidade da relação telúrica das crianças com a terra nua em comparação com a que os adultos de hoje tiveram na infância, principalmente se originários do interior.
A geração que “vai dobrando do Cabo da Boa Esperança”, como dizia o professor Pedro Santana, da antiga Escola Normal Professor Plínio Ribeiro, em Montes claros, teve infância de pés descalços, em contato direto com a terra.
Essa forte relação telúrica foi sem dúvida de grande valia e o seu quase fim estaria diretamente relacionado com o surgimento do asfalto predominante aqui e no mundo.
Senão, vejamos: quando as crianças podiam pisar os pés na terra, tinham o direito de se enlamear assim que as primeiras chuvas batizavam a poeira; nessa época, qual criança não pegou bicho-de-pé, um bichinho que provocava coceira gostosa, mas não se podia coçar?
Agora, quando iniciamos mais um dezembro em nossa vida, se não fosse o asfalto, as ruas seriam de terra batida, cobertas de cascalhos, e certamente haveria muita poeira no ar. Mas as chuvas sempre faziam a poeira assentar e era então que as crianças jogavam finca e bolinha de gude no chão molhado.
Quando as ruas eram de terra não ouvíamos falar de enchentes. As águas das chuvas caíam e se infiltravam livremente na terra. Era divertido, lúdico até ver os soldadinhos de pó que os grossos pingos de chuva faziam brotar da poeira.
Veio o asfalto e pôs um ponto final em tudo isso e muito mais, como na brincadeira de pegar tanajura. As crianças de hoje talvez nem saibam o que seja tanajura. Grosso modo é uma espécie de inseto, uma formiga grande que brotava de buracos no chão e em barrancos e ao ganhar asas voava pelas ruas de terra e lama.
Sabiam-se as tanajuras comestíveis. E quando elas surgiam voavam pelas ruas e as crianças corriam atrás delas e derrubavam-nas, em pleno voo, com a camisa ou o que fosse. Juntavam tudo num canto. Depois, havia quem levasse para casa a fim de fazer “uma fritada”. Bundinha de tanajura “contém muita proteína”, diziam.
O asfalto acabou com tudo. Ao impermeabilizar a terra, direcionou as águas das chuvas para as sarjetas. As enxurradas seguem para as bocas de lobo, geralmente entupidas pela cultural falta de educação dos brasileiros, que insistem em jogar papel, plástico, lixo, enfim, nas ruas.
Vieram então as enchentes. Se pegarmos uma fotografia sacada décadas atrás parece que foi tirada hoje, quando casas e pontes desabam devido à força das mesmas águas que sempre desceram dos céus, mas muito mais desabam devido à imprevidência e a corrupção das ditas autoridades que, desalmadas, lixam-se diante do sofrimento de milhares de famílias.
As gerações do asfalto são, portanto, completamente diferentes das gerações que tiveram essa relação telúrica com a terra nua. Os filhos do asfalto geraram logo no pós-guerra a “juventude transviada”, personificada em James Dean (1931-1955) e noutros exemplos da cultura a nós imposta pela transmudada estratégia colonialista estadunidense.
Pois foi com o advento do asfalto, que nos trouxe muito conforto, mas também fez o mundo ganhar em velocidade e, consequentemente, em acidentes com mortos, feridos e muitos prejuízos materiais; foi com ele, essa massa escura de piche com pedras, escórias e algo mais, só transposta pelo martelete, ferramenta que faz o operário trepidar agarrado nela como se estivesse em febre maleita; a culpa recai sobre ele, o asfalto.
Tudo que há de natural podemos chamar de gente. Árvore é gente. Animal é gente. Nuvem também. Nós somos gentes. A diferença é que somos humanos. Terra, a nossa casa, esse planeta maravilhoso dotado de belezas em profusão, também é gente. Não há dúvida de que a gente terra sofre dores a cada explosão em seu seio.
A terra tem também poros, respira. Será que quem chegou até este ponto da leitura já imaginou se lhe acontecesse a desventura de passar por uma seção de tortura e alguém lhe tampasse todos os poros do corpo, como é que a pele faria para respirar?
O asfalto tampou e a cada dia tampa mais os poros da Mãe Terra. Gerou e gera um tipo de gente humana que a cada dia mais se distancia dos “valores verdadeiros”.
Se o final dos tempos não acontecer nos próximos dias, nunca nós saberemos aonde a perda dessa relação telúrica com a terra nua levará a humanidade, nos próximos 30 anos.


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Por Alberto Sena - 26/11/2012 08:22:29
Ascensão e queda de um ídolo

Alberto Sena

Sei que estamos de saco cheio desse caso do goleiro Bruno e peço desculpas, mas não me contenho em falar sobre o assunto porque sou repórter do tempo. O exemplo dele é semelhante ao de alguns famosos, ainda na memória de muitos brasileiros, e de anônimos que nem memória deles nós temos.
Quem se der ao trabalho de remontar aos dias antes do desaparecimento de Eliza Samúdio vir à tona, e acompanhou o goleiro pela TV, defendendo a meta do Flamengo, pôde perceber a arrogância dele. Adjetivos como prepotente, violento, entre outros podiam ser lidos nas ações do goleiro.
Bruno, em verdade, é uma vítima. Ele é vítima de si mesmo. Originário de Ribeirão das Neves, de família pobre, o goleiro não estava preparado psicologicamente para se conservar na posição em que o futebol o colocou, por obra e graça do destino. Ele se enquadra naquela expressão popular ouvida em Montes Claros e no Norte de Minas: “Um gambá cheira o outro”.
Noutras palavras, a expressão regionalista poderá ser traduzida por: “O semelhante atrai o semelhante”. Quais eram as amizades de Bruno? Quem acompanha o envolvimento dele no caso Eliza Samúdio conhece.
Devido ao despreparo psicológico de ter em mãos dinheiro para gastar com orgias e coisas tais, ele achou que estava acima do comum dos mortais. Podia fazer o que bem quisesse, afinal era ele, Bruno, cotado para jogar no Milan da Itália e até para defender a Seleção Brasileira.
Quem tem um amigo do tipo Macarrão, que se presta a escrever nas costas (por que nas costas?) uma frase tirada da letra de música jurando amizade eterna, experimenta o cúmulo da bajulação. Evidentemente, visando ganhos pessoais, Macarrão estava disposto a tudo para agradar Bruno.
Bem, nem tudo, como se pôde compreender agora que ele jogou “macarrão” no ventilador ao apontar Bruno como “mandante” do desaparecimento de Eliza. Ele acaba de ser condenado a 15 anos de cadeia e a essa altura está tremendo e temendo pela vida, apesar de não ter entregado “Bola”, suspeito de ser o autor do sumiço da mãe do filho de Bruno.
Desde criança foi incutido na cabeça de muitos de nós a expressão: “Quem tudo quer tudo perde”, provérbio português, para explicar a ambição dos despreparados para administrar as benesses que o destino lhes põe nas mãos.
Num exercício de tentar entrar na cabeça de Bruno, a fim de apurar o que passou pela mente dele desde o início do caso, no primeiro momento, a sua postura arrogante era de quem tinha mãos limpas. E quem não se lembra do sorriso irônico dele, no dia da prisão?
Bruno pode até não ter participado diretamente da execução de Eliza (se é que ela não “está na Europa”) e na ingenuidade proporcionada pela prepotência, achou que nada o abalaria. Afinal, era goleiro do Flamengo, famoso e os seus quase dois metros de altura nunca seriam alcançados.
Deu com a cara na trave e no travessão. Este é o destino de quem não possui princípios de humildade. E por falar em humildade, não se pode confundi-la com pobreza ou simplicidade. Humildade é a maior energia existente no universo. Vejamos os exemplos de Jesus Cristo, Francisco de Assis, Maratma Gandhi, Luter King, Madre Teresa de Calcutá, João Paulo II.
Uma pessoa materialmente pobre moradora da periferia, que o prefeito de BH Marcio Lacerda não quer “ser babá” dela, pode não ser humilde, porém, pode ser simples ou pobre. Um rico pode ser humilde, embora materialmente tenha posses.
Bruno será julgado em março. Desde já devemos nos preparar para mais doses do caso, porque o julgamento foi desmembrado. Este pode até nos surpreender, pois não sabemos o que rola na cabeça de juiz ou na barriga de mulher grávida (a não ser que ela seja submetida ao ultrassom), mas tudo indica que ele será condenado, mesmo não havendo corpo para provar.
A condenação de Macarrão sinalizou o que poderá acontecer em março. A não ser que Bruno, assustado com o que lhe parece hoje um pesadelo, pratique o ato referente ao “boato” gerador de um corre-corre no tribunal, em Contagem, quinta-feira, 23: “Bruno suicidou-se”.
O título para este texto não poderia ser outro senão: “Ascensão e queda de um ídolo”, com o seguinte acréscimo, vítima de si mesmo.


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Por Alberto Sena - 16/11/2012 10:54:56
Amor de “filhos de dragão” cuspidor de fogo

Alberto Sena

“Os filhos do dragão cospem fogo” é o título do livro que será lançado das 16h às 19h, no casarão dos Maurício, dia 1º de dezembro de 2012 do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, em meio às festividades da 22ª Festa Nacional do Pequi, de Montes Claros, programada para 27 deste mês a 2 do próximo.
A publicação foi organizada por Raphael Reys, e além de textos do próprio, há também a participação de: Felippe de Matos Prates, Virgínia Abreu de Paula, Cláudia Cardoso, Leonardo Álvares da Silva Campos, Mary Pimenta Alckimin, Haroldo Costa Tourinho Filho, Ucho Ribeiro, Waldemar Euzébio, Karla Celene Campos, Juventino Silva (Tininho), Geraldo Maurício (Nenzão), Alberto Sena Batista, Fernanda Belloti, Nilo Pinto,Tomaz Maia e Mara Narciso.
No íntimo de cada um há anjos e dragões travestidos em eus vários. O fundamental é saber qual a predominância no dia a dia porque, há os anjos do bem e os dragões do mal e vice-versa. Descobrir o Eu verdadeiro é o diamante cobiçado, e de acordo com a prática Nele baseada, se poderá anular a influência dos eus, quais satélites orbitam estrelas.
Mas uma leitura rápida do mundo no início da segunda dezena de anos deste século XXI basta para concluir que os dragões diversos estão à solta nos dias atuais, e interpretar a figura mitológica desse animal depende da crença de cada um, nas nações do ocidente e do oriente, onde a representatividade dele é do bem para uns e do mal para outros.
Urge as pessoas encontrarem meios de apaziguar os seus dragões. A humanidade segue célere rumo à sina de destruir a si mesma, sem que para isso seja necessária ira divina, se é que Deus possua sentimento do tipo. Primordial é o uso que cada um faz de si mesmo.
Tudo que se encontra fora está também dentro de nós. Somos réplica ínfima do existente no universo; somos microcosmos, seres espirituais. O bem e o mal se acham tanto fora como dentro de cada humano sobre a face do planeta. O importante é a opção de vida assumida tendo por base o livre arbítrio.
Pecadores nós todos somos. Paulo de Tarso expôs o eterno conflito entre fazer o bem que queria e o mal que não queria; conflito arquetípico.
O fogo cuspido pelos “dragões” escritores do livro em realidade é fátuo, posto não queimar nem destruir; é edificante. É fogo do bem porque tem poder de transmudar corações como o ferreiro malha o ferro incandescente na bigorna do tempo. Os relatos são de época, quando o destino dos jovens montes-clarenses era Belo Horizonte, famosa pelo epíteto de “Cidade Jardim”.
Enquanto Montes Claros seguia a sina de cidade-polo, na década de 1970, a vida fervilhava em criatividade em todas as áreas culturais, movimento incontido pelo regime ditatorial militar da época, a expulsar ou cassar cabeças.
O fogo cuspido por esses “dragões” identificados, com nomes e endereços por todos sabidos, gravou nas páginas do livro o retrato de Montes Claros e de Belo Horizonte duma época que se esvaiu no tempo feito o fumo expelido por Maria Fumaça; o trem de ferro, este sim, mais adequado à simbologia do dragão porque literalmente cuspia fogo e fumaça pelas ventas enquanto vencia a rudeza do sertão; a delicadeza rústica do Cerrado desde o interior de nós mesmos.
Não convém adiantar narrativa de nenhum dos autores, sob o risco de cometer injustiças, porque a publicação é ampla e envolve “dragões” vários que remetem todos ao convite para uma viagem de mais de 300 páginas pelas entrâncias e reentrâncias da alma, da mente e do corpo de cada um dos seus escrevinhadores.
Poder-se-ia comparar também essa viagem a um mergulho em nós mesmos. Ninguém ficará imune nem impune em relação às lembranças, qual chuva criadeira torrencial, afloradas ao nível do subconsciente de quem ousar pegar as páginas do livro, como tábuas dos náufragos sobreviventes de um tempo registrado em textos e fotos.
Vida de dragão é tão ou mais difícil que a vida da gente comum. Uns e outros se identificam de modos vários, entretanto, a comparação mais apropriada para a vida de dragão é captar a imagem de um navio que chega ou de um navio que sai do porto. Mas não necessariamente nessa mesma ordem. Uma boa viagem para todos.


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Por Alberto Sena - 12/11/2012 08:26:03
Pare o mundo, quero viver

Alberto Sena

Décadas atrás, o antropólogo Darcy Ribeiro, personalidade encarnada em “vários darcys” – professor, político, indigenista, escritor, construtor de universidades, entre outros – previa os dias em que nós ficaríamos presos dentro de apartamentos ou condomínios, guardados por homens armados e com toda parafernália de segurança instalada, enquanto os ditos bandidos estariam à solta nas ruas.
Pela leitura e oitiva diária da mídia local e nacional, os dias previstos pelo notável brasileiro chegaram. O pior de tudo é a culpa, qual nuvem escura a pairar sobre as nossas próprias cabeças. Várias foram as chances das autoridades e da sociedade resolverem o problema da violência, mas tanto uma como a outra ficaram naquela situação: “Vai, que estou olhando...” E olhando estão até hoje, mas boquiabertas, perdidinhas, tanto a sociedade como as autoridades, enquanto os crimes pipocam.
Se tivéssemos atacado o problema socioeconômico décadas atrás, naquela época em que ladrões eram chamados de “amigos do alheio” e não fugiam de motos – mesmo porque motos naquela época eram raras – mas “em desabalada carreira”, o problema da violência não teria chegado ao ponto em que está hoje em dia. Literalmente, todos nós estamos presos em casa – e nem assim nos sentimos seguros.
Nem seria necessário saber um pouco de aritmética para entender que mais barato seria atacar o problema socioeconômico, numa tacada só, do que buscarmos agora uma solução, quando os furos estão por todos os lados. E o sangue escorre de perfurações à bala ou das armas brancas. Aliás, o temor é tão grande que, nem é necessário arma para assaltar. Os bandidos chegam e dizem: “Passa pra cá” e pronto.
Eles estão se constituindo em “quarto poder”, não necessariamente nessa mesma ordem. De dentro dos presídios, eles atacam como se tivessem o dom da ubiquidade. Mandam matar desafetos e policiais como se ambos fossem insetos que, no início do período chuvoso, rodeiam lâmpadas e são chamados de mariposas.
Resta saber agora, diante da cruz e da caldeirinha, o que os cidadãos – e a sociedade como um todo – que fecharam os olhos para o problema socioeconômico e o deixaram agravar com o passar das décadas, podem fazer para se sentirem seguros. Posso daqui dessa tribuna dar uma sugestão: resta entrar num cofre a prova de dinamite. Sim, porque os bandidos tornaram-se tão ousados, usam armas mais poderosas do que as armas da polícia.
Explodir bananas de dinamite tornou-se comum hoje em dia. Tão banal como estourar foguete ou traque em festa junina. O inacreditável, em meio a tudo isso, é a facilidade com que os bandidos encontram dinamite, artefato controlado pelo Exército.
O caso mais dramático, se não fosse cômico, ocorreu na pacata cidade de Campo Belo, Sul de Minas, onde um grupo de jovens, entre eles algumas meninas menores de idade, lançou uma banana de dinamite no pátio do quartel da PM e por sorte não havia nenhum policial no local naquele momento. Mas a dinamite destruiu oito carros, sendo dois ou três deles “viaturas da polícia”.
O caso de Campo Belo é citado aqui para mostrar como essa geração destituída dos “valores verdadeiros” banaliza tudo, principalmente a vida. Podia citar, também, as dezenas de casos de “saidinhas de banco” e explosões de caixas eletrônicos, que estão deixando a polícia qual “cego em tiroteio”.
Nem sempre a polícia atende aos chamados porque as ocorrências aumentaram tanto – e o efetivo cresceu feito rabo de cavalo – que não sobram homens nem carros. E quando atende algum chamado, vem de sirene aberta, o que assusta os bandidos e os policiais só se dão ao trabalho de fazer o tal do BO – Boletim de Ocorrência.
A época em que todas as ocorrências eram de fato apuradas se foi já faz algum tempo. Depreende-se em meio a todo esse emaranhado que as ocorrências são apuradas por amostragem. Claro, a preferência é sempre para os casos de mais visibilidade. Joãos (e Marias) Ninguém vêm sendo mortos a três por dois, tanto aqui, nesse Curral del Rey, como em Montes Claros – e noutros lugares – onde os assassinatos já bateram o recorde do ano passado.
Muito triste essa constatação. A tristeza aumenta ainda mais para quem se faz o questionamento: “Quê mundo vamos deixar para os nossos filhos, para os nossos netos e para os filhos dos nossos bisnetos?”


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Por Alberto Sena - 5/11/2012 08:10:42
Terapia da pia de cozinha

Alberto Sena

Outro dia confessei, aqui, neste bendito espaço, apreciar lavar pratos, louças e congêneres, como exercício terapêutico; literalmente, “ter a pia” diante de mim. Enquanto a bucha com detergente eu passo e deixo a espuma escorrer debaixo da torneira aberta, reflito sobre as coisas do mundo e descubro temas para mais um texto, como este d’agora.
Sei que nem todo homem gosta de executar essa tarefa. Os motivos são vários, não cabe aqui destrinchá-los. No meu caso particular, descobri essa via terapêutica de livre e espontânea pressão, nuns dias em que nós – Sílvia e eu – nos dávamos ao luxo de contratar empregada doméstica. Duma hora para outra, ela nos deixou com a panela engordurada na mão.
A necessidade de dar cabo da arrumação da casa nos levou a refletir sobre a possibilidade de não ficarmos à mercê de uma pessoa estranha escarafunchando a nossa intimidade. Enquanto a espuma de detergente borbulhava na tampa duma panela, descobrimos: “Se dividirmos as tarefas, será possível prescindir da doméstica e contratar uma faxineira a cada 15 dias”.
Deu certo. E vai dando certo, embora, devo admitir, fico com a parte mais leve, a lavação dos pratos, panelas e louças. Nessa tarefa, a minha maior ocupação é usar racionalmente a água. Jamais deixo a torneira aberta enquanto ensaboo panelas, pratos e que tais.
Uma das coisas mais incômodas no dia a dia é deparar na rua com pessoas desperdiçando água por meio da “hidrovarrição” das calçadas. É preciso não dispor de um mínimo de senso ecológico para fazer uma coisa desta. Enquanto em vários lugares a notícia é de falta d’água, é justo desperdiçar quando achamos tê-la em abundância?
O fato de encarar a pia como exercício terapêutico despertou, recentemente, o interesse de uma equipe da Rede Record, a propósito de uma reportagem sobres homens que executam essa tarefa. A reportagem veio ao nosso apartamento e fez uma tomada seguida de entrevista. Acredito deva alcançar grande repercussão.
Já se foi o tempo em que as tarefas caseiras eram executadas só por mulheres. Principalmente depois de elas terem feito a “revolução dos sutiãs” não seria justo deixar as mulheres trabalharem três turnos: empresa, casa (arrumação) e família.
Mas – sempre há um “mas” em história verdadeira – admito não gostar nem um tiquinho de lavar roupa. Ficamos sem máquina de lavar por um tempo e até comprarmos outra, eu tive que encarar também a tarefa. É brutal! O lado bom: descobri porque as lavadeiras de beirada de rio Verde Grande cantam, enquanto batem a roupa na pedra: pra afastar as dores.
Nem sempre fui assim. Venho de Montes Claros, de uma família de 11 filhos, seis mulheres. Nunca precisei lavar nada. E sempre gostei do que vem da cozinha. Cozinhar não é comigo. Embora de vez em quando possa fritar um bife ou um ovo. Uma vez ousei cozinhar arroz. Ninguém, a não ser eu mesmo, comeu. Dava para usá-lo como argamassa. Mas até hoje me gabo de ter ensinado à minha respectiva, exímia cozinheira, a arte de fritar ovo.
Transformações ocorreram depois de fazermos duas vezes a pé o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, em 2001e 2002; e três vezes a pé o Caminho da Fé, em 2003, 2004 e 2005, de Águas da Prata a Aparecida do Norte (SP). Mais de 800 km e mais de 400 km, respectivamente.
Aprendemos não ser necessária essa parafernália toda para viver bem com a gente mesmo e com os outros. Em caminhada longa, o importante é levar o essencial. Numa ocasião desta podemos avaliar o quanto a pessoa tem ou não apego aos bens materiais.
Esse aprendizado funciona como antídoto ao consumismo. Compro o essencial. Não gosto de ir a lojas comprar roupa. Não gosto de fazer compras em supermercados.
Não dirijo. Quem dirige é ela, por opção dela. Esse estresse de trânsito congestionado, essa loucura de determinadas pessoas ao volante, disso eu não sofro.
O que gosto mesmo é de andar. Para mim, viver é andar. Considero o exercício completo para o espírito, para a mente e para o corpo. Andar faz parte dos meus exercícios terapêuticos. Melhor do que lavar pratos.
Agora, preciso encontrar um meio de preservar as mãos contra os estragos causados pelo detergente.
Luvas?
Nem pensar. Detesto o cheiro delas.
Vou é providenciar um creme para as mãos e o conserto da máquina de lavar louças.


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Por Alberto Sena - 28/10/2012 16:50:42
Moradores de rua

Alberto Sena

Os humanos decepcionaram tanto uns aos outros, no decorrer dos séculos, que, nos dias atuais, animais irracionais em risco – ou uma árvore sob a ameaça de ser derrubada – tocam mais o coração do que uma pessoa em sofrimento na rua esparramada debaixo duma marquise dia e noite.
O mandamento – “Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo” – é afrontado em toda parte. As pessoas, embora dotadas da capacidade de amar umas as outras priorizam os animais irracionais, inconscientemente ou não, em detrimento dos da sua espécie. Desse modo, as cenas de humanos na sarjeta não sensibilizam a mais ninguém.
Quem é multissensor e aplica os ouvidos a escutar e os olhos a enxergar o mundo tal qual ele é, observa o quanto tem crescido as cenas de moradores de rua na capital mineira (e em Montes Claros, não?). Se se pudesse – e é possível, basta querer e tomar uma atitude – estabelecer com eles um corpo a corpo, saber a história de vida de cada um e buscar as raízes do problema individual e coletivo, uma solução seria encontrada para cada caso.
O fato de haver aumentado o número de moradores de rua é um sinal de alta periculosidade. Significa problemas em vista. Tanto de ordem política como socioeconômica. Mas o país não está indo tão bem? Por que então o número de gente vivendo nas ruas aumentou? Efeito retardado da crise que se abate sobre os Estados Unidos e a Europa? Cuidemos para evitar a explosão da bolha econômica.
As autoridades e a sociedade devem deixar para trás a estratégia do “vai que estou olhando...” Precisam encarar os problemas que dizem respeito aos cidadãos com o intuito de resolvê-los, caso contrário os problemas se voltarão contra nós mesmos, como um bumerangue, sob a capa tenebrosa da insegurança pública; do trânsito insuportável; das favelas em profusão, entre outros.
Priorizar os humanos no dia a dia da cidade não significa largar mão da problemática dos animais irracionais, “nossos irmãos”, no dizer de Francisco de Assis, o santo.
Não podemos nos conformar com o ocorrido em Caeté, onde um cão foi barbaramente torturado, em 19 de setembro, e agonizou por 12 horas numa área de condomínio e ninguém fez nada para socorrê-lo.
Uma pessoa – ou um grupo de pessoas – capaz de maltratar um animal, inda mais com o requinte como o cão de Caeté foi maltratado, pode praticar algo pior com o semelhante. O mais chocante: muita gente ouviu a agonia do cão, mas ninguém “viu nada”.
É cruel a maneira como certos humanos tratam a si mesmos e aos outros. O desamor é clamoroso. E como o Mestre nos ensinou: “Não é aquilo que entra pela boca que torna o homem impuro; o que sai da boca é que torna o homem impuro”.
Para muitos, porque consumistas, adeptos do ter ao invés do ser, conquanto o problema deles estiver resolvido, o que passa com o semelhante não lhes diz respeito. Afinal, dizem geralmente, “trabalho honestamente” e não dispõe de tempo para tratar de assuntos dessa natureza.
Como fermento em massa de bolo, o problema socioeconômico cresce à surdina. O Brasil vai receber o mundo em 2014 e também em 2016, se até lá ainda estiver convivendo com moradores de rua, certamente a mídia externa explorará o assunto à mancheia.
Que este é o País dos contrastes todos nós sabemos. Mas temos de ficar de olho para as estatísticas não serem mascaradas em virtude da Copa do Mundo. Agora que o Supremo Tribunal Federal (STF) pôs um basta na escalada da famigerada expressão “no Brasil tudo acaba em pizza”, ganhamos alento.
E conclamamos a quem interessar possa assumir uma nova postura, condizente com a ética, contra a corrupção, contra os corruptores e contra os corruptos.
Os ladrões de colarinho branco são os mais perversos. Encarnados em cargos políticos decisivos, eles legislam em causa própria, usufruem do dinheiro público destinado à saúde, educação e outros setores do interesse de milhares de pessoas e não dão a mínima atenção aos brasileiros moradores de rua.
Conquanto os animais de estimação possam levar os seus donos todo dia cedo para passear, a fim de fazer xixi e coco nas calçadas públicas, pouco importa a eles se humanos estejam ou não sendo covardemente queimados enquanto dormem na rua.


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Por Alberto Sena - 22/10/2012 08:22:16
Tragédias anunciadas

Alberto Sena

Naquela hora do dia quando a canícula arranca reclamações de variados tipos e até impropérios, ouviam-se os ruídos intermitentes de uma escavadeira. A máquina subia o barraco, fincava as garras no chão e arrastava a terra para baixo, terra avermelhada, constituída de tauá.
Flocos consideráveis de nuvens prenunciavam o que podia acontecer mais tarde, uma benfazeja chuva de início de temporada. Foi então que veio a pergunta a ser feita a nós mesmos e às autoridades: “As nossas cidades estão preparadas para receber o aguaceiro sem o risco de passar pelas mesmas dificuldades dos anos anteriores?”
As tragédias provocadas pelas chuvas têm se repetido a cada ano, há décadas. E em todas as vezes a ladainha das autoridades foi a mesma de sempre: “O dinheiro para ajudar as vítimas e reconstruir o patrimônio destruído será liberado rápido devido a emergência”.
Essa declaração hipócrita é um exemplo de que a teoria na prática é outra. O jornal Hoje em Dia mostrou, em uma série de reportagens, que as cidades mais atingidas pelas chuvas de janeiro deste ano receberam promessas. Dinheiro, que é bom, para algumas veio em gotas e insuficiente. Isso significa: as cidades correm os mesmos riscos, agora que troam os trovões.
De algumas décadas para cá, as imagens dos estragos feitos pelas chuvas são quase os mesmos. Daria até para usar as imagens do século passado como se fossem atuais. Os problemas são velhos conhecidos.
Guidoval, na Zona da Mata, foi uma das cidades abordadas na reportagem do jornal. Durante as chuvas de janeiro, o município foi castigado e os escombros lá ainda estão até hoje à espera das chuvas novas.
Neste momento, chove em Beagá. E enquanto o vento assopra e ao entrar pelas frestas da janela emite ruído como de uivo de lobo, os respingos de chuva se espalham pelo vidro. Na realidade, aqui para nós, desta vez o que houve foi só um ensaio de chuva. Ela começou forte, com pingos grossos, parecia até granizo, e logo em seguida diminuiu de intensidade. Apesar dos arremedos de trovões e das nuvens escuras, não se podia dizer que choveu o necessário para amenizar o calorão da primavera em flor.
Num rápido exercício de cachimônia, qualquer leigo no assunto poderá deduzir ser mais econômico prevenir, dotar as cidades de infraestrutura capaz de resistir aos impactos das tempestades, do que “socorrer” depois os municípios atingidos.
A essa altura, de tanto ver e testemunhar devido ao dever de ofício, se pode facilmente chegar à seguinte conclusão: a imprevidência é uma lástima, principalmente quando se trata de serviços públicos.
No caso particular de Beagá, onde o prefeito reeleito admite haver cerca de 80 pontos de inundação na cidade, quem exercita a massa encefálica pergunta: “Por que a PBH não toma providência para acabar com os alagamentos?” Simplesmente afixar uma placa nesses locais para avisar: “Área sujeita a inundação...” ou algo parecido, não basta. É muito cômodo. A PBH está cheia de técnicos e eles têm obrigação de encontrar “uma solução técnica” para os problemas da cidade.
Quem aqui aportou há mais de 40 anos sabe: naquela época não havia inundações. O ribeirão Arrudas corria a céu aberto canalizado em algumas ruas do centro de Beagá. Evidentemente, os problemas surgiram com o crescimento da cidade e o faz de conta das sucessivas administrações.
Da janela aberta para o mundo se pode enxergar uma obra da PBH no Aglomerado Barragem Santa Lúcia, lá de onde vem o ruído da escavadeira. Os peões trabalham pouco. A obra se arrasta. Ainda não sabemos ao certo o que está sendo construído. Dizem que serão alguns prédios para as famílias carentes.
A obra fica na parte voltada para a barragem Santa Lúcia. Claro, num ponto privilegiado, certamente para chamar a atenção de toda gente que por ali passar. É a PBH fazendo de conta que faz. Enquanto isso, a urbanização, um dever a ser cumprido pela municipalidade, continua resistindo chegar à favela.


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Por Alberto Sena - 14/10/2012 09:02:34
Minha primeira namorada

Alberto Sena

A minha primeira namorada se chamava Rosa. Era linda! Eu tinha sete anos de idade e morava em Montes Claros. Ela já era adulta. Devia ter 11 anos mais. Eu era apaixonado pela Rosa.

Tudo começou quando minha mãe me levou à casa de Rosa. Minha mãe era amiga da mãe dela. Quando cheguei à casa de Rosa, ela disse cheia de alegria:

_ Menino bonito!

Minha mãe gostou do elogio e eu muito mais. Em minha opinião, foi amor à primeira vista. Rosa morava perto de casa. A partir daquele dia, a maior sensação era ver Rosa. Ela foi a minha primeira namorada e também a minha primeira decepção amorosa.

Hoje descobri: havia entre nós, pelo menos da minha parte, o que chamam de “amor platônico”. Antes que alguém maldoso pense bobagem, vou dizendo logo, nada aconteceu entre nós.

Muitas vezes fui com os amigos jogar bolinha de gude na porta da casa de Rosa só para vê-la chegar da rua, vindo ora do trabalho, ora da escola. Nem sempre coincidia de encontrar Rosa. Mas quando acontecia de vê-la, ela dizia:

_ Eh menino bonito!

Eu ficava cheio de alegria. Gostava de ouvir a voz de Rosa. Ela era branca, mas não tão branca como Branca de Neve. Tinha os cabelos pretos e um sorriso cheio de dentes alvos.

Uma vez, Rosa me chamou para ir a casa dela. Era o dia do seu aniversário. Lembro-me bem de que à tardinha fui tomar banho e naquele dia levei a sério o dizer da minha mãe:

_ Lava bem atrás das orelhas. Tira toda essa tiririca do pescoço.

Todo dia minha mãe dizia a mesma coisa. Naquele tempo, o banho era em bacia. Mas como era o dia do aniversário de Rosa, caprichei. Lavei bem atrás das orelhas, esfreguei com a bucha os pés encardidos de tanto andar descalço. Limpei bem entre os dedos e esfreguei os braços e as pernas. Fiz tudo isso pensando: “Vai que Rosa veja sujeira em mim...”

Quando chegou a noite, fui com minha mãe e minhas irmãs à casa de Rosa. Ela estava bela. Vestia roupa branca e tinha fita azul amarrada aos cabelos. Fiquei igual bobo olhando o rosto de Rosa, enquanto as pessoas a cumprimentavam. Quando chegou a minha vez, ao invés de eu abraçá-la, pois era o aniversário dela, foi ela quem me abraçou e disse outra vez:

_ Eh menino bonito!

Ela disse e foi conversar com outras pessoas e de certo modo fiquei triste porque achava que ela ia me dar mais atenção. Mas compreendi: Rosa não podia ficar à minha disposição porque tinha de dar atenção também às outras pessoas.

Não foi nesse dia que Rosa me decepcionou. Depois do aniversário dela, passaram-se muitos dias veio a notícia: “Rosa vai se casar”. A partir desse momento, para mim o céu caíra sobre a minha cabeça.

Morto de ciúme, eu fiquei com a pulga atrás da orelha. Queria saber com quem Rosa iria se casar. Soube que o casamento dela havia sido marcado para a tarde de sábado. Hoje posso perguntar, sem medo de ser ridicularizado: “Por que Rosa fez isso comigo; foi casar com outro?!”

No dia do casamento de Rosa fiquei da janela observando o movimento lá na casa dela. Não arredei pé. Minha mãe e minhas irmãs foram ao casamento. Eu não. Era muito desaforo. As pessoas estranharam, pois sabiam do quanto eu gostava de ir à casa de Rosa. Mas ninguém sabia do “namoro secreto”.

Quando vi de longe Rosa sair pelo portão de grades verdes e entrar no carro tipo sedan preta toda vestida de branco, com véu e grinalda, senti o coração apertado. Eu podia até ouvir as batidas. O meu coração batia descompassado porque se despedia de Rosa. E para sempre.

Nunca mais me atrevi a ir jogar bolinha de gude na porta da casa de Rosa. Prometi a mim mesmo nunca mais poria os pés na casa dela. Prometi e cumpri.

Com o passar do tempo compreendi: Rosa nunca seria minha namorada, por mais que ela me achasse bonito. Ela era muito mais velha do que eu. E grandona. Se eu fosse beijá-la, o que nunca aconteceu, seria preciso subir numa cadeira para alcançar o rosto dela.

O pior aconteceu quando um dia, muitos e muitos dias depois do casamento de Rosa, ela apareceu na casa da mãe dela com um embrulho nos braços. Vi Rosa de longe. E só depois de ouvir o choro de uma criança, percebi duma vez por todas: Rosa não era mulher para mim. Ela me traiu ao se casar com outro. E para complicar mais ainda, a cegonha trouxe-lhe um filho. Para mim foi o fim, definitivamente.

Eu disse, então, de mim para mim mesmo: “Adeus, Rosa; não quero ver você nunca mais”. E nunca mais vi Rosa. Nem sei que fim ela levou.


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Por Alberto Sena - 6/10/2012 12:09:13
Na raiz do problema

Alberto Sena

Quando os ponteiros do relógio giram em sentido contrário e param no tempo da ampulheta ou quando as fases do dia eram lidas por meio da posição solar, compreende-se que nada mudou em termos de violência (urbana).
A violência é intrínseca ao ser humano, universal; desde o início da humanidade, metaforicamente inserido no Velho Testamento da Bíblia Sagrada, quando Caim matou o próprio irmão Abel.
Ao longo desse tempão o que mudou foram a roupagem e as armas usadas na prática da violência. Para corroborar isso, basta recorrer aos alfarrábios. Nos livros antigos, quem leu a poesia épica de Homero (século VIII a.C), por exemplo, aprendeu que a violência era praticada com o uso de espadas, lanças etc. E cabeças rolavam a três por dois.
Mas alguém haverá de questionar o porquê da abordagem do tema considerando ser o escriba adepto da paz apregoada por Cristo, e depois dele, o Marátma Gandhi, precursor da não-violência. Tanto Cristo como Gandhi foram vítimas dela. A intolerância faz parte da rotina da humanidade em todos os tempos; muda só a intensidade.
Alexandre Dumas, escritor francês, autor do eterno livro “Os Três Mosqueteiros” (Les Trois Mousquetaires), na oportunidade da releitura do romance escrito em 1844, retrata bem essa violência, repudiada em todos os tempos.
Em Paris daquela época, sair às ruas era um exercício arriscado, inda mais em tardias horas da noite. Em cada esquina, em cada beco, num átimo alguém podia saltar sobre o outro e... era uma vez!
Há, então, algo diferente do que presenciamos aqui e em todos os lugares do Brasil, inclusive em Montes Claros, aonde a criminalidade vinda mais de fora do que de dentro, desfigura os usos e os costumes da outrora pacata cidade hospitaleira?
MOC, como é chamada, deverá bater o recorde de homicídios dos anos anteriores. Em Montes Claros os traficantes de drogas digladiam à luz do dia e do luar.
Athos, Porthos, Aramis e D’Artagnan estavam sempre prontos a lutar por qualquer motivo. Os duelos eram praticados em nome do rei, da rainha, do cardeal ou de quem fosse. A violência corria solta como corre hoje em dia. E nós, baseados nos tempos atuais, fazemos comparações e dizemos a toda mão que “nunca se viu tanta violência quanto hoje”.
Se na época dos três mosqueteiros, na verdade quatro, a vida era banalizada, continua sendo hoje, no dia a dia perigoso do viver, e a polícia se mostra incapaz de dar cabo dela. Os crimes acontecem, e na maioria das vezes, a polícia, paga com o dinheiro público, se mostra ineficiente.
As causas dessa violência podem estar fora do ser humano (também), motivada pela desigualdade socioeconômica. Mas antes de tudo, a violência vem de dentro das pessoas e pulsa nelas no mesmo ritmo das batidas do coração.
O que fazer para mudar esse quadro deplorável? Investir maciçamente na melhoria do ser humano? Rios de dinheiro são gastos aqui e lá fora com armas e munições. O medo superdimensiona a violência.
E mesmo sabendo que violência gera violência, como Cristo e Gandhi disseram, os homens e as mulheres preferem se fechar entre quatro paredes “protegidas” por cercas elétricas. Ilusão em primeiro grau, pois isso não basta para dar segurança física a ninguém.
Quando há predisposição para o crime, nada segura alguém mal intencionado. Os exemplos são diários. É só ler jornais ou assistir o noticiário do rádio e da TV.
Pode até ser que nos tempos atuais a violência seja maior devido à superpopulação. Temos mais de sete bilhões de almas no nosso sofrido planeta. Na época do romancista Alexandre Dumas, o mundo era menor. A diferença são as estatísticas.
Senão na maneira de conviver com a violência. A nossa sociedade, ao invés de priorizar as causas da intolerância, prefere cuidar, cada indivíduo a seu tempo, da segurança própria (e da família), egoisticamente, enquanto espia da janela o crescimento medonho do problema, por enquanto, lá fora.
As oportunidades de vencer as causas da violência foram muitas, desde Adão e Eva, mas todas passaram ao léu como se não dissessem respeito à sociedade alguma (doentia).
Na raiz da violência, quem a dissecar com os bisturis adequados, e a intenção de substituí-la pela paz, concórdia e tolerância, vai encontrar o egoísmo como a causa de todos os pecados.


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Por Alberto Sena - 30/9/2012 08:41:08
Uso político da seca

Alberto Sena

Desde criança, em Montes Claros, ouvíamos dizer, e várias vezes sentimos nos ombros e até na moleira, os efeitos da seca crônica do Norte de Minas, porque tínhamos de buscar latas d’água em algum lugar. Era quando das torneiras das casas de Montes Claros só se ouviam o ronco do cano cheio de ar.
Antes, muito antes de nós o problema da seca no Norte de Minas e no Vale do Jequitinhonha existia e ao que parece ninguém conseguirá resolvê-lo um dia. O que se pode fazer – e já devia ter sido feito – é encontrar meios de amenizar o problema climático, de modo permanente. É justamente por esta janela que os maus políticos furtivamente entram: fazem uso da aflição de milhares de pessoas, em benefício próprio. Daí o surgimento da expressão “indústria da seca”. Há sempre alguém ganhando com a desgraça alheia.
Por duas vezes consecutivas fizemos uma série de reportagens para mostrar às autoridades e à sociedade o drama da seca no Norte de Minas e no Vale do Jequitinhonha. Foi na década de 1980, há 32 anos. Fizemos este roteiro: Belo Horizonte, Montes Claros, Janauba, Porteirinha, Monte Azul, Mato Verde e Espinosa, por onde entramos no Vale do Jequitinhonha, até Pedra Azul, e retornamos pela BR 116, a Rio-Bahia, perigosíssima, também naquela época.
Tanto tempo depois, secas outras castigaram e ainda agora castigam outra vez o Norte de Minas e o Vale do Jequitinhonha. Muitas promessas não foram cumpridas enquanto rios de dinheiro público inundaram os bolsos dos “políticos indignos”, numa afronta à sociedade aparentemente incapaz de reagir.
Uma das características negativas dos brasileiros é a lentidão para reagir quando é necessário solucionar problemas relacionados à coletividade. Vejamos: o Brasil foi o último país a abolir a escravidão negra. Até hoje o Brasil não resolveu o problema da Reforma Agrária. E pelo visto e revisto, nunca conseguirá uma maneira de conviver bem com a seca do Nordeste por causa dos maus políticos.
No Estado de Israel, menor que o menor estado brasileiro, Sergipe, em qualquer lugar do país é possível abrir uma torneira e ver sair dela água, mesmo no deserto da Judeia ou no Mar Morto. Neste, se pode boiar sobre água 100 vezes mais salgada que a água dos oceanos e depois entrar em um banheiro e tomar gostoso banho de água doce.
Lá em Israel, água é “uma preciosidade”. Não há desperdício. Na agricultura, a irrigação é feita em gotas ao pé da planta, de modo mais racional possível, e o resultado são frutos vários exportados fresquinhos de manhã cedo para a Europa.
Evidentemente, o problema da seca no Nordeste, aqui inclusos Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha, é político. E não basta ter “vontade política” para atenuar o problema. É necessário haver prática política porque só “vontade” muitos políticos dizem ter, mas na hora do “vamos ver”, o resultado é pífio; mas a grana escapada pelo ladrão, não; é em espécie.
Quem tem em si mesmo a imagem do planeta terra como um mero ponto de parca luz tendente a desaparecer da vista perante a imensidão do espaço sideral, não se conforma com o fato de a humanidade não se convencer, numa comparação, de que não passa de uma formiga, e pode eventualmente ser esmagada pela sola desavisada do sapato de alguém ao dar um passo.
Abaixo de Deus, já disse aqui, noutra ocasião, tudo na terra depende da política. Se nós vivemos bem é devido a política. Se nós estamos mal é a política a culpada. E como este país é cheio de desigualdades socioeconômicas, grande parcela da população sofre ano sim e no outro também por causa da política.
No Norte de Minas e no Vale do Jequitinhonha o problema é a seca. Aqui, por essas plagas, logo virá o problema das enchentes. Um e outro são problemas políticos resultantes das promessas não cumpridas.
A seca é mais antiga. E o uso político dela também. O escritor Graciliano Ramos marcou para sempre o drama da seca nordestina a partir da família expulsa da terra andando pela estrada tendo a cadela Baleia a frente. “Vidas Secas” é o título do livro. É só pegar pra ler.


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Por Alberto Sena - 24/9/2012 08:11:08
Vitória das crianças

Alberto Sena

Gosto de ouvir a algazarra das crianças na rua, quando elas estão exercendo o direito de brincar. Crianças têm de brincar, brincar e brincar. Faz bem ao espírito, à mente e ao corpo saudável delas. Aquela que brinca, um dia pode vir a ser um adulto criativo, resolvido.
Toda vez quando ouço a algazarra de crianças na rua me lembro do cinematográfico Frederico Fellini, em “Amarcord”. Lindo filme. Nele há uma cena, não só de crianças, numa manifestação de rara beleza cênica recepcionando os primeiros flocos de neve a caírem na praça onde havia uma fonte.
Essa algazarra a qual me refiro acontece à porta do prédio pelo menos duas vezes ao dia, senão o dia quase inteiro. Mas de manhã, e principalmente ao final do dia, sempre acontece. Mais me chama a atenção a algazarra do final do dia, quando meia dúzia de crianças na faixa de 8 a 9 anos se reúnem para brincar.
Nem sei do que essas crianças brincam. Importa-me a algazarra delas e o fato de a algazarra delas me remeter ao filme de Frederico Fellini, que em verdade é um mergulho no inconsciente. Essa capacidade de fazer algazarra é própria do espírito infantil. Mas sobrevive além da fase adulta.
Certa feita, em 2001, para situar bem no tempo a passagem – peço licença ao leitor para contar – íamos, Sílvia e eu, a caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, a pé, quando entramos num intrigante povoado chamado Molinaseca, depois de descermos uma montanha. Deparamos com um belo rio, largo, cheio de pedras. As pedras davam mais velocidade à água.
À beira do rio vimos um prédio onde se lia a palavra “Hotel”. Era o que mais queríamos naquele momento. Depois de andarmos naquele dia mais de 35 quilômetros, o que as pernas pediam era uma banheira cheia de água quente para nela ficarem metidas até as panturrilhas sentirem-se aptas para o dia seguinte.
Fomos direto ao hotel. Pedimos para ver o apartamento antes de aceitarmos nos hospedar e o achamos ótimo para a ocasião, muito mais pela localização, à margem do rio, de onde podíamos ouvir o divino bulício das águas. Ali pudemos encher a banheira e descansar as pernas.
Devia ser mais de sete horas da noite, embora o sol estivesse presente. Era início da primavera na Europa. Foi quando pudemos ver da janela um grupo de crianças acompanhadas, quiçá de suas respectivas mães. Como se fossem movidas a pilhas alcalinas, as crianças pulavam de pedra em pedra feito cabritinhos.
Fechamos a janela e fomos nos relaxar de fato numa cama confortável. Claro que nem só de beliches de albergues e abrigos vivem os peregrinos a caminho de Santiago de Compostela. Ali relaxados ouvimos a algazarra das crianças, e mais uma vez nos lembramos de Frederico Fellini, em “Amarcord”.
Crianças são crianças em todos os cantos do planeta. Embora iguais, infelizmente, há diferenças de ordens política e socioeconômica, pois uma criança europeia não se compara a uma criança de certas regiões da “Brasáfrica”.
Na Europa, que neste instante antropológico vive a crise do euro, as crianças têm padrão de vida digno, enquanto na “Brasáfrica”, em muitas regiões, as crianças vivem na miséria.
Em 22 de abril de 1987, ao autografar-me a 2ª edição do seu livro intitulado “Aos trancos e barrancos – como o Brasil deu no que deu”, Darcy Ribeiro escreveu, com caneta tinteiro, a seguinte dedicatória: “(...) Escrevi este livro para abrir os olhos da sua geração sobre o fracasso da minha”.
Confesso-me: fiquei estupefato com tamanha seriedade e importância da dedicatória. Pensei e ainda penso nisso até este momento em que trepido nas teclas do notebook. “Se a geração dele não conseguiu, será que a minha conseguirá?”
Peço emprestado de Hugo Werneck, o papa do ambientalismo mineiro, um dos precursores do ambientalimo nacional, a frase: “É preciso plantar jequitibá”. Para quem não sabe, Jequitibá é uma árvore que se torna adulta depois dos sessenta anos.
Nós até nem vamos pegar as boas transformações que um dia se darão a partir do investimento feito em nossas crianças, às quais, de antemão, transfiro a responsabilidade de tornar este Brasil brasileiro um país digno.
Assim como, em 1987, Darcy Ribeiro confessou o fracasso da geração dele, de antemão confesso o fracasso da minha, diante dessa política cheia de vícios e impregnada de corrupção.
Mas, apesar disso, sobrevive a certeza: um dia as crianças haverão de vencer.


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Por Alberto Sena - 17/9/2012 08:19:48
Essencial é a alegria de viver

Alberto Sena

O essencial é ter alegria de viver. Sentir-se vivo pisando o chão do planeta conscientemente. Todas as idades são boas. Cada idade depende do que se tem por dentro. O essencial não está fora do ser.
Com o passar dos anos, as transformações físicas vão se acentuando. Vêm os cabelos brancos. E quando a pessoa se olha no espelho nota as mudanças sutis, inevitáveis. O melhor que se tem a fazer é não se preocupar com isso.
O essencial é o que foi plantado dentro. O interior nunca envelhece, amadurece. Cada um de nós aqui está veio crescer interiormente. Quem tem essa consciência investe em si mesmo porque a redenção é tarefa de cada um. Mas um não redime o outro.
A felicidade não está na mulher com quem se convive. Ou no homem. Não está no filho ou na filha e muito menos no emprego. A felicidade está dentro de cada um. É parte intrínseca do essencial. Cada um deve cultivar o seu jardim interior.
Imagine o jardim de Claude Monet. Lindo, mágico. O pintor francês criou fora de si o jardim existente dentro dele. Inclusive, o jardim de dentro, materializado fora, lhe serviu de modelo para os vários e incríveis quadros.
Quem vive a reclamar constrói em si mesmo o inimigo mortal. É como disparar um tiro pela culatra. Se a energia gasta para lamuriar é a mesma para usar bem a cabeça, em benefício próprio, por que não empregá-la de forma positiva?
Só quem ignora as potencialidades internas do ser humano não se ocupa com a tarefa de controlar os próprios pensamentos. O essencial nesse caso é distribuir bênçãos, em nome de Jesus Cristo. Seja para os amigos seja para os inimigos.
A melhor idade é a idade que a pessoa tem. O passado é como a bagagem no bagageiro do carro estrada da vida adentro. O futuro é construído agora. Os nossos atos são como atos de atirar bumerangues.
Sabendo disto, é primordial lançar ao largo e ao estreito as boas palavras, inda mais quando se tratar do outro. Mas preste atenção, as pessoas não são conhecidas de fato apenas porque diz belas palavras. Os atos, a obra em si, denunciam o modo de ser das pessoas.
Ninguém ignora: vivemos dias difíceis como difíceis sempre foram os dias em todas as épocas. O que acontece no dia a dia é fruto dos nossos atos. Um gesto move as paredes invisíveis ao nosso redor.
Cada um possui o chamado “magnetismo animal”, aura reconhecida pelos sensitivos. Quando as pessoas correm, como os velocistas nas Olimpíadas, elas “furam” a parede invisível. O invisível existente é muito mais do que o visível materializado.
Por tudo isto, é preciso ter cuidado com o que falar e com o que fazer a si mesmo e aos outros. Primeiro porque a gente não sabe como é que o cérebro decodifica o que falamos. É sempre importante pronunciar palavras que causam transformações positivas.
Uma palavra negativa dita na hora errada – como se houvesse hora certa para pronunciar palavra negativa – poderá causar desastres. Vejam por exemplo o que disse o ex-presidente George Bush quando ainda comandava os Estados Unidos: “Deus disse: Bush invada o Iraque”.
Hoje, se fingindo de morto, ele sumiu do noticiário. Sabe lá o que apronta. Há perdão para quem usa o nome de Deus em vão a fim de fazer o que Bush fez no Iraque e em outras partes do mundo? Neste plano de vida, ele devia ser considerado “criminoso de guerra”.
Mas não estamos aqui para julgar ninguém. Para isto existe a justiça dos homens, falha, mas é a que temos. Infalível é a justiça divina. É nela que devemos fixar o olhar, porque ninguém, nenhum ser humano é deste planeta.
Estamos, a cada ano, nos dirigindo rumo à vida. Sim, porque só existe vida. A morte é só o pretexto para cada um arrumar as malas da alma para serem vistoriadas quando chegar a hora do desembarque n’alguma estação que não conhecemos.
Daí surgir o misoneísmo, o medo que temos do novo. Haveria algo mais novo neste plano de vida terrestre do que a morte? Ela é a janela para a vida eterna, em Deus, se a graça Dele permitir.


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Por Alberto Sena - 13/9/2012 08:44:38
Pela porta estreita

Alberto Sena

Ao lado estava um homem ajoelhado. Parecia em desespero e ao mesmo tempo não; falava com Deus.
_ Senhor, obrigado por sua ínfima, mas infinita centelha que a mim dá vida.
O homem abaixou a cabeça, escondeu o rosto com as mãos e disse quase num sussurro:
_ Senhor, dê mais vigor à minha alma. Como um leque, expanda a minha memória para eu nunca esquecê-Lo. Multiplique os meus neurônios, fortaleça a minha mente e o meu cérebro. Dê-me a sabedoria, inteligência e discernimento.
A voz do homem parecia mesmo voz de quem falava com Deus. O semblante dele se iluminou e se acaso houvesse mais alguém a observar o homem, tinha-se a impressão de que ele estava numa outra dimensão. Podia o mundo desabar naquele momento e ele ficaria naquela mesma postura.
Foi quando o homem pressionou os olhos com a palma das mãos. Ao levantar a cabeça, ele fixou o olhar num ponto à frente, no meio da cruz de Jesus. Em seguida, balbuciou:
_ Obrigado, Senhor, pelos olhos, ouvidos, nariz, boca, dentes, língua e garganta. Obrigado pelo coração, pulmões, estômago, fígado, baço, rins, bexiga, pênis, braços e mãos, pernas e pés. Obrigado, Senhor pelo corpo por inteiro.
O homem fez uma pequena pausa e prosseguiu:
_ Obrigado, Pai, pela energia curadora vinda do Senhor, essa energia que corre o corpo da cabeça aos pés. Ela restabelece o que precisa ser restabelecido; ela fortalece os órgãos que precisam ser fortalecidos; ela cura o que precisa ser curado. Dê a mim e à minha família paz, saúde e alegria de viver. Abençoe todos os meus parentes, meus vizinhos de prédio. Faça de mim, Senhor, canal. Quero ser como um cano de PVC e rogo-Lhe: seja a água a percorrer toda a extensão do cano. E abençoado seja quem comigo algum contato pessoal - ou não – tiver.
Alguém empurrou a porta e o toque de mão a fez ranger. O lugar era próprio para se ficar ajoelhado porque é ajoelhado que se deve falar com Deus. Ninguém é digno de ficar diante Dele. E muito menos em pé. O ranger da porta não incomodou o homem. Ajoelhado, mas aparentemente hirto, o homem seguiu na oração:
_ Senhor, perdoa-me as minhas faltas. São tantas, nem consigo enumerá-las. Mas o Senhor sabe. Sou alma viva fraca, como fracas são todas as almas vivas. Sei que quando me sinto fraco, no Senhor me fortaleço. Agradeço-Lhe por tudo, Senhor; pelo que sou, porque o comando de mim é Seu.
Uma mulher de trajes escuros aproximou-se do homem a passos miúdos e se curvou até um dos ouvidos dele e falou algo inaudível. O homem permaneceu imóvel por mais algum tempo e depois dirigindo o olhar para o meio da cruz de Jesus, balbuciou:
_ Obrigado, Senhor, pelas pessoas que me querem bem. Peço-Lhe, abençoe-as. Mas abençoe também as pessoas que porventura não me queiram bem. Sei que ódios, rancores e mágoas próprias e dos outros são curadas com amor, bênçãos Suas, Senhor.
Em seguida, o homem se levantou não sem certo esforço talvez porque tenha ficado ajoelhado ali por muito tempo. Ele pegou o chapéu deixado sobre um banco e com ele numa das mãos saiu arrastando os pés.
Não se sabe se outras pessoas observaram o homem. Pode até algum mais ter observado, mas ninguém ouviu o monólogo dele com Deus.
Foi à conta de volver a cabeça para trás e ver a silhueta do homem desaparecer na porta larga, aberta. Ele sim estava preparado para atravessar a porta larga, depois de ter entrado pela porta estreita de Deus.


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Por Alberto Sena - 10/9/2012 08:54:23
Eles entram com tudo

Alberto Sena

O mesmo fenômeno observado este ano com os ipês roxos se deu agora com os ipês amarelos. Ignoro se o fenômeno se repete em Montes Claros, cidade cujos montes nem tão claros são mais. Mas pelo menos os ipês amarelos vistos daqui desta janela mágica estão floridos de novo; eles perderam as flores há mais de um mês e voltaram a florescer, como aconteceu com os roxos.
Evidentemente, isto não é ocorrência natural normal. Alguma alteração deve ter ocorrido para provocar a dupla florada dos ipês, primeiro os roxos e agora os amarelos. Para nós é um privilégio poder apreciar duas vezes num ano só o mesmo espetáculo, basta arredar um pouco a cadeira e espiar pela janela.
Em tese, os ipês roxos florescem em junho. Os primeiros sinais da florada a gente observa nos espécimes da Praça da Liberdade. Mas não é só lá que há ipês roxos. Eles estão espalhados por diversos pontos da cidade. Neste ano, 15 dias depois de perder as flores, os ipês roxos já apareciam grávidos e logo estavam floridos de novo.
Essa florada dos ipês amarelos, logo depois dos roxos, não veio vigorosa como a primeira. Mas isto pouco importa. O importante é rever os ipês novamente floridos e se possível brincar mentalmente de contar as flores que o vento lépido derruba dos cachos, com ciúme da beleza dourada dos espécimes vistos da janela.
Aquele ali da esquerda, ao fundo, foi o que mais vigor em flor mostrou na primeira florada. Desta feita, foi o que menos flor renovou. Já o ipê do meio, mais próximo da janela, ficou em flor e quase tudo renovou nesta segunda florada. O espécime menor floresceu parcialmente; mas o importante foi a demonstração da capacidade de renitência da parte dele.
A nova florada dos ipês amarelos coincidiu com a da paineira, “barriguda” chamada. As maitacas gostam de pousar nos galhos da paineira. Ali deve ter algo para elas comerem. Não fosse o enfeite amarelo das flores dos ipês, a paisagem dalém da janela estaria cinza, mais para seca, tão queimada.
O tempo seco fica ainda mais seco porque há quem não consiga controlar o gesto de riscar um palito de fósforo para pôr fogo no mato. Da janela se podem observar pelo menos três grandes focos lambidos pelo fogo. Um deles até ofereceu perigo para algumas casas e foi necessária a interveniência do Corpo de Bombeiros.
O fogo afugenta os pássaros campestres para o perímetro urbano. Tonou-se cena comum encontrar passarinhos longe dos seus ninhos, em todos os cantos da cidade. A impressão é nítida: a natureza, a partir do bicho homem (e mulher), está em alvoroço.
A essa altura do campeonato da vida, não se poderá dizer que há algo de errado ou se sempre foi assim ou se foi assado, trata-se de uma questão cíclica etc. As explicações são diversas e muitas delas visam à defesa dos interesses econômicos e políticos.
Com ipês amarelos floridos ou não, independentemente de as maitacas afugentadas pelo fogo pousarem ou não na paineira, é de bom alvitre cada cidadão brasileiro tomar uma atitude para livrar os municípios de maus políticos, aqueles interessados simplesmente em legislar em causa própria ou meter as mãos cheias de dedos no dinheiro público.
Ipês floridos ou maitacas esvoaçantes nada têm haver com essa corrupção. Devemos atacá-la pela raiz, como se fora erva daninha. Quem tem sensibilidade para apreciar o fulgor duma flor não pode votar de qualquer jeito, senão perde até o direito de reclamar depois da bobagem consumada, para prejuízo de muitos.
Quem é alfabetizado em matéria de natureza sabe fazer a leitura do que ela escreve em linhas certas: a segunda florada dos ipês significa outra oportunidade para cada espécie dizer a que veio. Da mesma forma, politicamente pensando, essas eleições são uma boa oportunidade para o cidadão mostrar o seu amadurecimento.
Destruir, deturpar, desvirtuar: estes verbos são de fácil conjugação e prática. Construir, corrigir, recompor: estes são também verbos fáceis de conjugar. Difícil é tomar uma atitude e praticá-los diadia.
Temos muito a aprender com os ipês, sejam roxos ou amarelos. Se abaixo de Deus tudo tem haver com a política, miremos e adotemos a política dos ipês: as eleições próximas podem ser a nossa segunda chance para, enfim, acertarmos.
“O pior analfabeto”, Bertold Brecht, dramaturgo alemão dizia: “É o analfabeto político”, aquele que diz: “detesto política” ou “política não está com nada”. Quem assim pensa abre a porta aos maus políticos e eles entram com tudo.


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Por Alberto Sena - 3/9/2012 08:14:51
Deus no coração

Alberto Sena

Não vi nem li, aqui, ou em Montes Claros, nada mais objetivo e transparente como a luz do sol a respeito de Deus. Contam-se que teria acontecido com Albert Einstein, quando ele se achava nos primeiros anos da escola. Ressalto: se o fato sucedido tiver parte com ele ou não, importa pouco, já que nem tudo inserido na internet é verdadeiro, e por isto não é digno de fé; frases e pensamentos assinados com o nome de gente famosa, se se fizer um trabalho de investigação, a autoria pode ser de outras pessoas.
Mas verdadeiro ou não o vídeo mostra o suposto Einstein na sala de aula ouvindo o professor dirigir aos alunos, para quem queria provar a inexistência de Deus, a seguinte pergunta: “Tudo que existe foi Deus quem criou?” E os alunos, em uníssono, responderam: “Foi”.
O professor saiu com mais esta: “O mal existe, então Deus criou o mal; Deus é o mal?” Nas cabecinhas podiam-se ver pontos de interrogação. Um dos meninos levantou em seguida para corrigir o professor. Seria Albert:
_ Com licença, professor. O frio existe?
_ Que tipo de pergunta é essa? Claro que ele existe. Você nunca ficou com frio? – ele respondeu.
_ Não, professor, na realidade o frio não existe. De acordo com as leis da física, o que consideramos frio é na realidade a ausência de calor.
E o jovem emendou:
_ A escuridão existe, professor?
_ Claro que existe – disse ele.
_ Não, você esta errado, senhor, a escuridão não existe. A luz nós podemos estudar, mas a escuridão não. A escuridão é na realidade a ausência de luz.
O colóquio entre aluno e professor não parou por aí. O menino disse, então, ao vetusto professor:
_ O mal não existe. É a mesma coisa que o frio e a escuridão. Deus não criou o mal. O mal é o resultado do que acontece quando o homem não tem o amor de Deus presente em seu coração.
Dito isto, o aluno sentou-se.
Muitas das vezes atribuímos o que acontece de mal a Deus e há até quem se indigne com Ele se dizendo abandonado, “como é que deixou acontecer isto comigo?” etecétera e tal. Deus não tem nenhuma culpa. Tudo que Ele criou, Ele mesmo avaliou e viu que era bom, inclusive o ser humano, que, talvez pelo fato de ser animal racional, se revelou o pior da criação, mas não por culpa de Deus, senão do próprio ser humano.
É insuficiente ter confiança em si mesmo. Tem-se que ter primeiro confiança em Deus. E não é suficiente crer em Deus. É necessário sentir Deus em si mesmo. Nunca se sentir Deus porque ninguém é digno, mas sentir que, se vivo está, é graças à centelha divina existente em cada um de nós. Quando a centelha divina se retira, o corpo fenece.
As desigualdades existentes – poucos com muito e muitos com tão pouco ou nada; o consumismo e a ganância – quanto mais se possui mais se quer, pois em meio ao hedonismo crescente, o verbo conjugado é ter e não ser; o deus é o dinheiro. O ser humano é digno de respeito e admiração pelo que possui e não pelo que ele é em termos de índole, caráter, honestidade, capacidade de trabalho etc.. E, sobretudo, crente em Deus.
Religião alguma redime o ser humano. O que redime o ser humano é a prática diuturna da fé em Deus. A escuridão habita os corações em todos os níveis. E o resultado disto se pode acompanhar dia e noite por meio da mídia.
Jesus Cristo, o filho de Deus entre nós, deu-nos o primeiro mandamento: “Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como eu vos amei”. Quem entre os corajosos que a este ponto da leitura chegaram poderá confessar amar o próximo “como eu vos amei”, com tamanha intensidade?
É o egoísmo. Esta é a raiz dos males. Deus não criou o egoísmo. O egoísmo é a ausência do amor de Deus no coração das pessoas. E porque as pessoas depositam a confiança nelas próprias, no hedonismo, e não em Deus – não tendo o amor Dele no coração – a humanidade vive num impasse intransponível.
A não ser que, de repente, aconteça de os seres humanos abrirem o coração para as mensagens divinas, quais pingos de chuva a jorrar constantemente dos céus em forma de graças e bênçãos.


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Por Alberto Sena - 26/8/2012 11:36:51
Amor

Alberto Sena

Nunca li título mais feliz de um livro: Amor. Simplesmente, Amor. Precisaria dizer mais alguma coisa?
Flávio Pinto, o autor, escritor, cronista, jornalista de cepa, invoca em sua viagem nas ondas dos textos publicados no site montesclaros.com, a simplicidade que, ao mesmo tempo, lhe confere grandeza de espírito e humor refinado, próprio do seu modo de ser.
Amor possui cola. Gruda nas mãos. O leitor não consegue se desvencilhar do livro na hipótese remota de querer se apartar dele.
Flávio Pinto é um dos nossos precursores, num tempo em que o coração de Montes Claros pulsava com uma dose a mais de amor. Com mais fragor e fulgor, sem aleivosia.
Em Amor, ele transporta para as páginas do livro o que a cidade produziu de melhor numa época na qual o pulsar da vida era cadenciado. Podia-se ouvir o coração acelerado da donzela amada.
Nas linhas das crônicas do livro há uma espécie de código nem tão secreto. Mas o leitor conhecedor – ou não – do autor decifra um a um, palavra por palavra, todos os itens desse código aqui recriado.
Ao mesmo tempo, não há segredo algum para quem sabe de fato o significado de Amor. Amor de todas as maneiras, a vida inteira, mas principalmente o amor combustível universal, sem o qual nada existiria, nem mesmo essa “figura descolorida que vos fala”, para usar expressão costumeira de um amigo comum, Fernando Gontijo.
Daqueles tempos, Flávio desfrutou do melhor da era romântica do pós-guerra, quando as transformações prometiam mais mundos do que fundos, mas a vida seguia curso pachorrento, lento, e ao mesmo tempo dinâmico. Montes Claros era o centro do universo.
O livro transpira histórias vividas, renhidas; esparrama nomes vários de gente que com ele curtiu a vida no centro do universo, com versos e reversos, num lugar predestinado a ser o que é hoje, apesar dos ônus, que os bônus nos fazem esquecer.
É a partir do micro que se poderá alcançar o macro – e vice-versa – e Flávio consegue com isto mostrar-se um escritor de um tempo nunca perdido, sempre mantido dentro de cada um de nós, latente. Basta “futucar”.
E como quem “futuca” bicho de pé só para sentir o gostinho gostoso da coceira, ele vai ao íntimo de si e de nós mesmos com a maior facilidade, com toda propriedade, com mão de mestre.
Nas orelhas do livro está a declaração de Waldyr Senna Batista sobre a trajetória e a glória do amigo com quem interpôs elevados colóquios filosóficos estimulados por Haroldo Lívio, que escreve na contracapa. O prefácio é de Paulo Narciso.
Não podia ser melhor, um livro intitulado Amor. A pronúncia da palavra é como o disparo de um raio capaz de cruzar todos os quadrantes do planeta, na velocidade da luz.
Mas cuidado. Todo cuidado é pouco ao manusear o livro. Se você é daquelas pessoas que dizem não ter tempo para nada, o dia precisaria ter 48 horas, se porventura Amor chegar às suas mãos, é capaz de você se estacar de repente para pensar: “Hummm... viver é tão gostoso!”
Desde que seja com amor. Simples assim.
Como conheço os textos, recomendo a leitura. Faço, porém, alerta máximo: se você deixar Amor entrar menina dos olhos adentro, o seu coração se abrirá.


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Por Alberto Sena - 24/8/2012 08:07:34
Presépio recebe a 14ª escultura

Alberto Sena

Comparar a notícia do surgimento do Presépio Mãos de Deus, em Grão-Mogol, com o impacto de um bólido vindo do espaço, não é nenhum exagero. A notícia se multiplica a cada dia mais pelo mundo, 70 vezes sete, por todos os meios e principalmente o boca a boca.
Foi por intermédio da mídia que a professora aposentada da UFMG e UEMG, Regina Almeida, integrante do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (IHGMG) e da Academia Feminina de Letras de Minas Gerais soube da existência do presépio em Grão-Mogol. Movida “pela fé e pela cultura”, ela contou, reuniu 20 pessoas da Pastoral da Comunicação da Paróquia São João Evangelista, no bairro Serra, em Belo Horizonte, e rumou com elas para Grão-Mogol.
Foram de avião a Montes Claros e de ônibus completaram o roteiro. “Foi uma viagem abençoada”, disse. Regina lidera o grupo de atuação dinâmica no seio da paróquia, e com a experiência de mais de cem países visitados por ela e alguns dos paroquianos também, diz nada igual ter visto no mundo, a não ser o presépio do Santuário de Nossa Senhora Aparecida, na cidade de Aparecida do Norte (SP).
Todos os personagens do grupo “ficaram impressionados com a obra, feita com recursos próprios do sr. Lúcio Bemquerer, que nos recebeu muito bem”, acentuou Regina. O dinamismo dela tem por missão “elevar o nível da fé e da cultura”.
Das 17 esculturas de personagens bíblicos, testemunhas do nascimento do Menino Jesus previstas para povoar o presépio, 14 já estão instaladas em seus devidos nichos, algumas em pedra sabão e outras em cimento.
Nunca Grão-Mogol recebeu visita de tanta gente fazedora de opinião como tem acontecido nesses últimos oito meses, atraídas pelo presépio e as belezas naturais do município, como serras, cavernas, grutas, cachoeiras e as casas de pedras feitas por escravos do século XVIII, além da catedral de Santo Antônio e as ruas seculares calçadas de pedras. A cidade surgiu com o garimpo de diamantes e ficou como que estagnada durante décadas. A inauguração do presépio deu a Grão-Mogol outra motivação.
Uma folheada no livro de visitas, no qual as pessoas apõem a assinatura, se poderá constatar a origem dos visitantes. Nos finais de semana sempre chegam ônibus de turistas religiosos, como que seguindo a “estrela” do presépio, obra permanente e a céu aberto, tida como a maior do mundo na sua categoria.
Como costuma dizer o autor da obra, Lúcio Bemquerer, o presépio ali estava desde milhões de anos. O que ele fez além de enxergar o que estava coberto pelo mato foi dar ao local a infraestrutura necessária para receber os visitantes, priorizando as pessoas com necessidades especiais, os cadeirantes.
Recentemente, o presépio recebeu a visita do cardeal dom Serafim Fernandes de Araújo, que lá rezou uma missa para mais de quatro mil pessoas, o que foi considerado o maior acontecimento de Grão-Mogol, para a sua população de mais de sete mil habitantes.
O município dispõe de um hotel confortável – Paraíso das Águas, com 34 apartamentos – e possui temperatura agradável, parece estar dentro de um microclima, o que sugere aos visitantes internacionais a comparação com o clima europeu. Fora do município, a sensação de mudança da temperatura é nítida quando o visitante se aproxima de Francisco Sá e, principalmente, de Montes Claros, cuja BR 251 devia ser duplicada imediatamente, devido ao volume intenso do tráfego de carretas, cegonheiras e ônibus.


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Por Alberto Sena - 20/8/2012 10:37:24
Ler, ler e ler literatura

Alberto Sena

Posso estar enganado, e se eu estiver enganado, por favor, me corrijam: leitura não interessa a muitos dos nossos jovens de hoje. Ler livros, literatura. Pergunto: quantos livros você leu neste ano? Se a resposta for nenhum, a minha constatação estará corroborada. Se você disser que leu um, apenas um, isto é muito pouco, precisa ler mais.
Acredito: esse desinteresse por parte dos nossos jovens está intrinsecamente relacionado com a internet. Estamos em convívio com uma geração de internautas, jovens que preferem se comunicar via informática e a se entreter por meio das várias opções tecnológicas oferecidas, enquanto os bons livros da literatura clássica dormitam, talvez, na estante.
Lembro-me, como se fosse hoje, do primeiro livro lido: “Os músicos de Bremen”. Foi ali pelos sete anos, em Montes Claros. Em seguida “As mais belas histórias”, de Lúcia Casasanta, lido, relido e trelido. Outros livros vieram em seguida, como os das coleções de Monteiro Lobato e de Malba Tahan; “O pequeno príncipe”, de Antoine de Saint Exupéry, veio em seguida.
Este último bateu fundo na alma. Hoje tive a grata surpresa de saber que uma colega de trabalho, já adulta, em vias de se casar, confessou ter lido esse belo livro de Exupéry, recentemente. O livro dele já vendeu dezenas de novas edições. É um livro eterno. Mas o que mais me chamou a atenção foi o fato de a colega ter lido só recentemente “O pequeno príncipe”.
Mas nunca é tarde. Aliás, antes tarde do que mais tarde, sempre se poderá ler o livro desse aviador francês, precursor do serviço postal lá pras bandas do Oriente Médio. Ele escreveu também “Terra dos homens”, outro livro que até hoje corre o mundo e, claro, deve render fundos para a família do escritor.
O que podemos apreender de uma leitura dos clássicos da literatura nenhum banco de escola formal servirá de termo de comparação. Livros incríveis foram escritos muito antes de nós e são tão surpreendentemente atuais que nos levam à seguinte reflexão: “Como é que pode um ser humano escrever um livro deste?”
Por exemplos: “A divina comédia”, de Dante; Dom Quixote, de Cervantes; Germinal, de Émile Zola; “Odisséia”, de Homero; Ulisses, de James Joyce; “Cem anos de solidão”, de Gabriel Garcia Marques; “Grade Sertão Veredas”, de João Guimarães Rosa; “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, entre tantos outros.
Sobre “Os sertões”, trata-se de uma grande reportagem. Muitos devem tê-lo na estante, mas nem todos se deram ao trabalho de lê-lo. Ouve-se dizer: “O livro é muito pesado, principalmente na primeira parte”. Há discordância: “Os Sertões” é um dos livros mais bonitos da literatura brasileira (universal), em que pese à temática baseada no massacre de Canudos.
Massacre. Este é o vocábulo apropriado. Ao mesmo tempo, lendo-o se pode constatar: de fato, “o sertanejo é um forte”. Tudo começou a partir de uma denúncia esfarrapada feita por um juiz baiano contra o Antônio Conselheiro. O exército foi acionado e por vezes consecutivas acabou afugentado pelos bravos sertanejos.
Nas fugas, os soldados abandonaram as armas, canhões, principalmente, e sem querer municiavam os bravos sertanejos, lutando com espingardas, até que na última investida do exército, houve o massacre. Aquilo nunca poderá ser chamada de “guerra”. Aquilo foi um morticínio, e quem se der ao prazer de fazer a leitura do Euclides verá: foi um conflito estúpido, entre irmãos. Uns mataram uns aos outros sem dó nem piedade.
Grande deve ser o prazer de ler. Lembro-me de uma vez em que passamos uma semana num sítio em Juramento, na Grande Montes Claros, e levamos seis livros para ler. Houve quem dissesse: “Vocês não irão aguentar ficar lá esse tempo todo”. Quem disse isso não conhecia nada da nossa disposição. Em seis dias os livros já estavam lidos.
Passamos sete dias estirados numa rede debaixo de uma frondosa goiabeira. Um lugar cheio de música natural. Ora vinha o vento, cálido; ora eram os passarinhos, sanhaços, principalmente. Eles aportavam na goiabeira e usufruíam do prazer de comer goiaba ainda no pé. Nós também, goiaba e literatura.
Outro dia, os cientistas descobriram: nós devemos fazer três coisas para mantermos a cabeça azeitada: “Ler, ler e ler”. A gente deve atentar bem para isto, a não ser que alguém queira abrir a porta para aquele “alemão”, que costuma entrar sem bater com os nós dos dedos na porta.


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Por Alberto Sena - 13/8/2012 10:45:52
De olho no ano 3000

Alberto Sena

No ano de 1987, Darcy Ribeiro em Belo Horizonte como secretário Extraordinário para Assuntos Sociais, no governo de Newton Cardoso, para muita gente era ele “um estranho no ninho”. As pessoas não sabiam: o compromisso de Darcy era com a educação e em nome dela, ele estava disposto a todo esforço, até mesmo participar de um governo como o de Newtão.
O pequeno notável Darcy estava de volta a Minas e passaria aqui seis meses tentando desasnar crianças e jovens, mas não conseguiu dar os primeiros passos nesse sentido porque encontrou forte resistência dos lobistas do minério de ferro. Eles não admitiam escolas de argamassa armada, em terra onde o poderio do aço é mais forte.
Daí, quem tem memória boa vai se lembrar: construíram, em Belo Horizonte, próximo ao Bairro Primeiro de Maio, uma “escola de lata” batizada por Darcy de “forninho de assar criança” e tudo ficou como dantes, aqui e lá na casa dos Abrantes.
Mas o que quero contar é o seguinte: aqueles seis meses do ano mencionado arriba foram um dos melhores da nossa vida profissional. Era um privilégio para nós, eu e o colega jornalista Carlos Olavo da Cunha Pereira, revolucionário de esquerda, perseguido pela ditadura militar, o encontro diário com Darcy, no gabinete dele, às 8h. Foi ele quem estabeleceu: “Quero falar com os dois logo cedo”.
Foi num desses encontros matutinos que Darcy me presenteou com o livro Kadiwéu. Um livro fora do convencional, até mesmo no formato, composto de “ensaios etnológicos sobre o saber, o azar e a beleza”. E fez uma dedicatória: “... Este livro que será – único entre os mil – editado no ano 3000 ...”. A expressão dele chamou-me a atenção. Volta e meia retiro o livro da estante e releio a dedicatória.
Darcy não morreu. Ele é um homem muito além do nosso tempo. Assim como ficaram na história poucos nomes entre os inúmeros habitantes que passaram pelo planeta, desse nosso tempo, certamente, o nome de Darcy estará entre os mil.
Da dedicatória dele nasceu a reflexão seguinte: quem pode imaginar ao certo quantas civilizações passaram pela terra? Ninguém. Civilizações várias passaram por aqui e delas nenhuma memória há.
Em vida, um dos temores de Darcy era o de não ser lembrado. Mas, como não lembrar sempre dele se ele era um homem que mantinha uma relação de profundo amor ao ser humano?
Nele habitavam Darcy’s vários – o antropólogo, o indigenista, o professor, o escritor, o poeta, o político... São tantos dons numa só pessoa, não há como não imaginar alguém, no limiar do ano 3000, mergulhado na obra antropológica dele.
Assim como até nós chegaram os clássicos da literatura, os filósofos, os livros considerados sagrados e os gênios das artes plásticas e da música, quais serão as outras 999 personalidades que, entre as mil prenunciadas por Darcy, ficarão para semente no ano 3000?
Apesar de todo aparato tecnológico, se o final dos tempos ocorresse hoje, a terra num reboliço só invertesse tudo, fazendo o mar virar sertão e o sertão virar mar, será que restaria algo que provasse a sua, a minha, a nossa passagem por este planeta?
Darcy é de boa memória pela obra. Mas imagina o que sobrará, em termos de memória, de certos políticos a nos envergonhar, quando a história registrar os acordos espúrios, os enriquecimentos ilícitos e outras aberrações por eles praticadas?
Data vênia, para usar outro título de livro de Darcy, “Aos trancos e Barrancos – Como o Brasil deu no que deu”, no ano 3000, aqui por estas plagas tudo será diferente. Até lá, se a corrupção persistir e o país alcançar estágio tão evoluído de existência, os corruptos e os corruptores serão julgados, condenados e ficarão atrás das grades.
No ano 3000, o céu será da cor de anil Collmann, marca antiga de um ingrediente usado pelas lavadeiras em roupas brancas, porque a poluição do ar, do mar e da terra será banida, colocada no mesmo saco preto de lixo da corrupção.
Quem viver verá: a vida no ano 3000 será simples. Os homens e as mulheres poderão estar morando em cavernas, como augurou Darcy. Só resta saber se sobrarão em pé cavernas para abrigar possíveis sobreviventes humanos.
Eu, particularmente, já estou de olho, enquanto resta tempo, numa caverna lá pras bandas de Grão-Mogol, no Norte de Minas / Vale do Jequitinhonha.


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Por Alberto Sena - 5/8/2012 22:24:37
Na menina dos olhos

Alberto Sena

Até prova em contrário, apesar de tecnicamente ser leigo no assunto, acredito: as causas dos insistentes tremores de terra em Montes Claros estão intimamente ligadas às explosões de dinamite por parte da indústria cimenteira e das mineradoras.
E mais: a demora da equipe de analistas da Universidade de Brasília (UNB) em apresentar um resultado plausível da coleta de dados dos sismógrafos instalados em Montes Claros dá margem às especulações. Fica parecendo que no ar há algo mais além de urubus, helicópteros e aviões de carreira.
E por falar em carreira, foi cômica para não dizer trágica, a ida de uma técnica de Brasília a Montes Claros para “acalmar” a população quanto aos possíveis perigos dos tremores, quando ocorreu o abalo de 4,5 graus na escala de Richter. Ela desceu no aeroporto Mário Ribeiro e foi diretamente para a Prefeitura para dizer à mídia: “Fiquem tranquilos”, sem sequer fazer a primeira investigação na cidade.
Noutra vez, o técnico em meio ambiente e sócio da Associação Brasileira de Água Subterrânea, José Ponciano Neto acompanhou uma equipe de analistas da UNB na cidade. Ele sabe que os técnicos coletaram dados dos sismógrafos; dados recolhidos do HD interno, que iriam auxiliar os estudos dos tremores. O próprio Ponciano estranha a demora da equipe em apresentar os resultados. O que será que há por baixo desses tremores? Há temores?
Dia três deste mês foi registrado outro abalo, de pequena intensidade. Nunca ouvi ninguém dizer em Montes Claros, naqueles tempos bons de criança, adolescência e já adulto, até 1972, que a nossa terra querida tremeu algum dia. Como acredito que terra também é gente como nós, humanos, também somos gente, ela sente dores como qualquer filho de Deus.
Vamos imaginar: esse nosso torrão natal é como um Gulliver, personagem de Jonathan Swift, irlandês de Dublin. Estirado na praia de Lilipute, depois do naufrágio, imobilizado por cordas presas à terra por estacas, o que poderia fazer Gulliver se ao invés de setas recebesse pelo corpo explosões de bombas caseiras? – nem ouso fazer comparação com bananas de dinamite.
Uma, duas, três... mil, milhares de explosões de bombas depois, o que restaria de Gulliver além de gritos de dor e a sangueira a escorrer-lhe pelo corpo até que, para alívio, viesse a morte porque ninguém, terra alguma é constituída só de pedras e minério de ferro. Terra também sente dor, chora. Se se pudesse captar o choro da terra por meio de algum aparelho sensível, iríamos ouvir e sentir com quantas dinamites se fazem um abismo ou se podem incomodar as placas tectônicas que, para encontrar posição melhor de estar, se ajeitam, se recompõem e o movimento faz a terra tremer. Tremer de medo.
Em meio a essa demora dos técnicos em apresentar resultado crível sobre os abalos sísmicos, antes que nós possamos pensar na possibilidade de haver barreiras e comprometimentos entre uns e outros, com empresários, técnicos e autoridades, antes de tudo isso passar por nossas cabeças, convém explicar logo as causas desses tremores.
Cobramos, nós e a sociedade montes-clarense, uma explicação. Sempre soube: tremor de terra é ocorrência frequente lá no Japão, onde a terra treme todos os dias e os japoneses estão se preparando para o grande terremoto. Tanto é que nós gabávamos de aqui no Brasil não ocorrerem tufões, furacões, terremotos e outros desastres naturais. Mas, em compensação...
Ponciano, que também não é bobo nada, levanta a hipótese: “O pior é, se os técnicos divulgarem que o último abalo não foi registrado pelos sismógrafos locais, como já aconteceu em outras vezes”. Se porventura isto acontecer Ponciano, é necessário que a sociedade montes-clarense se reúna e faça um movimento na cidade para, não pedir, mas exigir, para ontem, uma explicação.
É possível enganar as pessoas por algum tempo, mas o tempo todo, não. E se Montes Claros não reagir, estará fazendo papel de boba, e poderá esperar pelo pior, porque a ganância é maior e não respeita ninguém. Na menina dos olhos dela há o brilho dos cifrões.


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Por Alberto Sena - 30/7/2012 09:15:17
Grão-Mogol e o presépio influente

Alberto Sena

Grão-Mogol não deve crescer assim como Montes Claros cresceu. Nem se pode comparar uma cidade com a outra porque são diferentes em tudo.
O aspecto primordial é a localização geográfica e a topografia. Uma está cravada entre serras. Nasceu do garimpo de diamantes. A outra é plana e se expandiu horizontalmente; agora cresce para cima. Grão-Mogol tem casas do período colonial e ruas originais (calçadas) de pedras.
Enquanto Montes Claros cumpria a sina de cidade polo, a bucólica Grão-Mogol paralisada no tempo ficou por longo período.
O que a princípio parecia ruim aos olhos de muitos, devido à falta de opções para os filhos trabalharem e estudarem se tornou algo positivo. Enquanto Montes Claros se expandia, Grão-Mogol conservava a qualidade de vida.
Lá o ar é puro. E essa pureza do ar é visível por meio de um sinal nas pedras que fazem de Grão-Mogol um presépio natural: os liquens, garatujas formadas naturalmente, um convite ao exercício à criatividade mental quando contemplados com os olhos de ver.
Todos se conhecem em Grão-Mogol. Na lista telefônica da cidade constam não os nomes, mas os apelidos dos assinantes. No perímetro urbano são cerca de sete mil habitantes.
Lá as pessoas passam mais devagar pela vida. Não há aquele estresse natural das grandes cidades, hoje a regurgitarem carros e as suas consequências.
Mas quem tem olhos para ver percebe, Grão-Mogol pode ser compreendida de dois modos: antes (durante) o garimpo de diamantes e depois do Presépio Mãos de Deus, inaugurado em dezembro de 2011. Quase oito meses depois, o presépio já atraiu a Grão-Mogol três vezes mais a sua população.
Concomitantemente ao presépio foi inaugurado o hotel Paraíso das Águas, com 34 apartamentos confortáveis tanto quanto os dos bons hoteis de Montes Claros e da capital. Agora a cidade ganha um supermercado.
A chegada de ônibus cheios de turistas para visitar o presépio causa mudança no comportamento dos gramogolenses. Há notícias de que alguns comerciantes vêm de requalificar os seus estabelecimentos; donos de restaurantes reveem os seus cardápios; moradores reformam casas para a eventualidade de receber visitantes.
O presépio, por ser perene e a céu aberto, lá está o tempo todo como sempre esteve há milhões de anos, até ser vislumbrado por Lúcio Bemquerer, que acabava de cumprir exílio involuntário de 20 anos sem retornar à terra natal.
Visitantes oriundos das várias cidades do Norte de Minas e do Vale do Jequitinhonha foram e continuam indo se encantar com o presépio.
Mas cada dia mais cresce o interesse de gente de fora do Estado em conhecer o presépio. Nos cinco livros cheios de assinaturas dos visitantes, religiosos ou não, podem-se encontrar gente dos estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Acre, Goiás, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e também do exterior, França, Alemanha, Bélgica e Estados Unidos.
Ao que tudo indica o presépio que “as mãos de Deus semearam”, como Bemquerer gosta de dizer, pode tanto ajudar na redenção de pessoas, individualmente, como também da Grão-Mogol como cidade histórica, pobre de diamantes, mas rica em acervos os mais diversos; desde cavernas, grutas com inscrições rupestres às múmias encontradas abaixo do piso da impressionante Matriz de Santo Antônio.
O presépio Mãos de Deus pode ser visto pela internet, por meio do Google Eart. A infraestrutura da obra privilegia pessoas com dificuldades especiais, como os cadeirantes. O acesso às dependências do presépio é todinho feito por meio de rampas calçadas de pedras tipo São Tomé, originárias do próprio município.
Além disso, o presépio recebeu 12 esculturas em cimento, no tamanho maior que o natural, de personagens bíblicos do nascimento do Menino Jesus.
Os arredores de Grão-Mogol são atrativos para o trekking. Há trilhas tão antigas quanto à cidade, como a do Barão de Grão-Mogol. Ele mandou construir uma especial para que fosse confortavelmente carregado pelos escravos, da fazenda ao perímetro urbano, numa liteira.
Por tudo isto e muito mais, Grão-Mogol emana luz própria. Desenvolve e cresce aos pouquinhos. Mas não como Montes Claros cresceu.
Em compensação, não sujeitará aos problemas característicos das metrópoles, vítimas delas próprias, onde a cada dia mais o silêncio e a paz são assombrados pelo estampido de armas de fogo ou pelo ronco das motocicletas e das descargas dos automóveis poluidores da atmosfera.
Em termos de qualidade de vida, Grão-Mogol se assemelha às pequenas cidades europeias. Há um microclima lá. Na maior parte do ano é temperado. Mais agradável que o longo inverno europeu.


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Por Alberto Sena - 22/7/2012 12:11:37
Pela volta do transporte ferroviário

Alberto Sena

Quando viajo pela BR 251, que atravessa Montes Claros e se conecta à BR 116, Rio-Bahia, reflito sobre o tamanho da estupidez humana. Não entendo, e muito menos compreendo, porque o governo federal opta por investir, em matéria de transporte, só nas rodovias em detrimento das ferrovias.
Com essa extensão territorial, o Brasil devia investir em estrada de ferro a fim de desafogar as rodovias brasileiras congestionadas de caminhões, carretas, cegonheiras, bitrens e as suas consequências.
É de assustar o tráfego de caminhões pesados na BR 251. E não é necessário ir muito longe para verificar o tamanho da estupidez humana nesse particular: do trecho entre Montes Claros até o entroncamento com a estrada de Grão-Mogol, MG 307, carretas cortam cegonheiras, que ultrapassam bitrens e assim vão-se filas e mais filas de veículos cujo peso das cargas destrói logo o asfalto. Asfalto vagabundo importa dizer.
Quem já teve a oportunidade de sair do País e conheceu rodovias holandesas ou alemãs fica boquiaberto quando viaja por uma BR como a 251. Lá fora, o asfalto das estradas é consistente, nem de leve se parece com essa rala camada preta vista aqui. As estradas são bem sinalizadas e os motoristas respeitam as leis.
O dinheiro do contribuinte é utilizado para pagar asfalto mais durável, entretanto a qualidade duvidosa redunda na baixa durabilidade; bastam chuvas primeiras para esburacar as estradas.
O declínio do transporte ferroviário de carga e de passageiros se iniciou no governo do então presidente Juscelino Kubitschek famoso, JK chamado. Ele até ganhou o epíteto de “presidente estradeiro”. E tinha de sê-lo porque comprou o lobby automobilístico norte-americano ao trazer para o Brasil a indústria automobilística. Era necessário abrir estradas para os carros, e assim o fez JK. As estradas de ferro foram relegadas, abandonadas, enferrujadas, destruídas, enfim.
Essa geração a envelhecer a cada passo viveu os tempos gloriosos da ferrovia. Houve época que se podia viajar de trem a partir de Salvador, na Bahia, passando por Montes Claros, até Belo Horizonte, onde era feita conexão para o Rio de Janeiro no trem Vera Cruz. Além do transporte de passageiros e de carga, uma viagem desta era uma aula sobre Brasil para as pessoas debruçadas nas janelas do trem.
Embora nem tão antigo assim, viajei com a família de Montes Claros à capital, de Maria Fumaça, logo substituída pela máquina a óleo. Uma viagem de Montes Claros a Belo Horizonte em trem puxado por Maria Fumaça demandava 24 horas. Saíamos às 5h da manhã e só chegávamos ao destino às 5h do dia seguinte. Depois, com o advento da máquina a óleo, o tempo de viagem caiu para 15 horas.
A estrada de ferro, depois de instalada, requer menos manutenção que as rodovias. Um vagão de carga leva muito mais mercadorias que caminhões, carretas, cegonheiras e bitrens.
Em qualquer lugar da Europa o cidadão pode viajar de trem. No Japão, território pequeno, é possível pegar um trem bala e atravessar o país. Em Israel, menor que o nosso Estado de Sergipe, trens cortam o território por onde um dia andou o Salvador da humanidade.
Pelo que se pode vislumbrar de tudo isto, em defesa da volta do trem de passageiros, o problema do transporte brasileiro é político. Alguns ganham com os investimentos em rodovias.
Nem imagino o tamanho dos prejuízos sofridos pelo contribuinte com a destruição das ferrovias, das estações de belo estilo arquitetônico e das máquinas em todos os quadrantes do País.
Mas acredito: se se fizesse um plebiscito entre os brasileiros sobre a necessidade de investimento em ferrovias, o resultado certamente seria um estrondoso “sim”. Por tudo, os trens são mais interessantes que os carros, protagonistas de acidentes horríveis, ceifam diariamente dezenas de vidas.
Não se deve ignorar: acidentes ferroviários também acontecem, mas, atualmente, trens modernos são menos vulneráveis e muito mais confortáveis. Numa viagem de trem se pode andar de um vagão para o outro ou sentar à mesa do restaurante e se servir de bebida e comida em alto estilo.
Na cabine de uma carreta, o que acontece ao condutor senão ficar atento para não trombar no outro ou ter atenção para desviar dos múltiplos buracos em proliferação nas estradas brasileiras? Estradas mal construídas compactadas com o dinheiro público, que alimenta a corrupção desenfreada a envergonhar os cidadãos de bem.


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Por Alberto Sena - 16/7/2012 08:07:47
Os ensinamentos do pai

Alberto Sena

Era manhã de sábado. Em geral, as manhãs são mágicas. As de sábado então, muito mais. Descíamos a rua pelo asfalto. Durante os dias considerados úteis (como se sábado e domingo fossem inúteis) a rua é movimentada de gente, carros e motos. Mas aos sábados, a rua fica um paradeiro só, dá até para andar pelo meio do asfalto.
A rua faz uma curva lá embaixo e do lado direito da calçada oferece a opção de uma pequena escada, adentrando por um beco entre dois prédios. O do lado esquerdo possui jardim bem cuidado, de gramado verdinho. Vale a pena apreciá-lo.
Em determinado ponto do jardim um homem de tez clara, de cerca de 1,80m de altura, curvava-se sobre um buraco aberto no gramado em declive, de onde retirava terra. Do lado dele havia duas crianças. Dois meninos, certamente filhos dele; e uma muda de árvore. Eles pareciam eufóricos vendo o pai abrir um buraco na grama para plantar uma árvore.
Íamos passando, ela e eu. Vimos a cena e enquanto descíamos outros 126 degraus de uma escada que dá acesso à rua de baixo, nós comentávamos a respeito e o que se deu em seguida: virei o rosto para a esquerda, na direção do pai com os filhos do lado, e disse-lhe em voz alta: “Agora falta só escrever o livro”.
O homem assentiu com a cabeça e em voz alta sem olhar quem havia feito a observação. Ele continuou sobre o buraco, preparando-o para plantar uma muda de árvore, talvez uma sibipiruna. Os dois meninos, em uníssono, perguntaram:
¬_“O que ele disse, pai?”
O pai respondeu:
_ “Ele disse “só falta escrever um livro”, porque na vida, o homem deve plantar uma árvore, gerar um filho e escrever um livro para se sentir realizado”.
Vimos os meninos compenetrados. Descemos as escadas comentando o quão importante foi essa cena fortuita, em que o pai ensinava na prática aos dois filhos como deviam plantar uma árvore. E o gesto dele despertou em nós, caminhantes, a observação feita em voz alta e então os meninos puderam receber a teoria – “plantar uma árvore, gerar um filho e escrever um livro” podem tornar um homem realizado.
Em nós cresceu a certeza de que aqueles dois meninos, um deles com aparência de seis anos e o outro com pouco menos, jamais se esquecerão daquele sábado mágico, quando o pai os chamou para irem ao jardim a fim de plantar mudas de árvores. Eles crescerão com o exemplo prático e a filosofia do tripé que pode tornar o homem realizado, livre do sentimento de ter passado em vão pelo planeta terra.
Fomos andando rumo ao Mercado Central. Levava na sacola uma pequena câmera fotográfica. A essa altura íamos pela rua São Paulo. Na Praça Camões, na rua Marília de Dirceu, fotografamos o acolhimento de um tronco caído que se acoplou em outra árvore da mesma espécie, numa clara demonstração do quanto a Mãe natureza é solidária.
Com a câmera na mão pudemos documentar o estado precário da rua São Paulo, onde há bueiros com tampa virada para cima e outros bueiros maiores; em pelo menos dois deles uma das lâminas de ferro solta numa das extremidades. Se não acontecer ali uma intervenção rápida, daqui a pouco vamos registrar algo pior. Abaixo do asfalto um ribeirão corre.
Belo Horizonte já foi chamada de “Cidade Jardim”. Isto foi há décadas. Hoje a capital de Minas perdeu o charme. Quem chega à cidade pela avenida Antônio Carlos, de ônibus ou desembarcado no Aeroporto da Pampulha, leva um choque ao deparar com a via sem as palmeiras imperiais que tanto a valorizava.
Os belo-horizontinos devem cuidar de fotografar a cidade por todos os ângulos a fim de guardar as fotos para a posteridade. As transformações desfiguram o que sobrou da BH “Cidade Jardim”. A próxima vítima, em nome do transporte coletivo urbano será a avenida Pedro II. Vai perder sibipirunas, paineiras, entre outras árvores.
Há uma bolha de calor em Belo Horizonte. Estamos dentro dela. Essa bolha de calor cresce. A sensação de quem tem sensibilidade é essa: devido a perda de massa verde e também devido aos edifícios recém construídos revestidos de espelhos refletores da luz do sol, isto somado ao calor do asfalto e do concreto dos prédios, torna a temperatura de Belo Horizonte, antes dotada de clima temperado, comparável a qualquer outra cidade do sertão norte-mineiro.


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Por Alberto Sena - 9/7/2012 09:36:24
Como Rei do Universo

Alberto Sena

Se você tem 59 anos de idade, não se iluda, tenha nascido em Montes Claros ou em qualquer outra parte do Brasil: você é candidato a entrar para o rol dos idosos ao completar 60 anos, quer queira, quer não queira. Não há escapatória. E antes que seja mais um nas estatísticas do IBGE, convém fazer logo a seguinte pergunta: desde a instituição do Estatuto do Idoso, em 1997, pode-se dizer que a Lei vingou? Jovens e idosos respeitam-na?
Num País como o nosso, onde “há lei que pega e lei que não pega”, pode vir a ser uma boa pergunta para início de uma reportagem de algum reporte arguto sobre os idosos, a fim de abrir os olhos e os ouvidos dos que, como você, aumentarão em breve a lista e as filas, principalmente as das casas lotéricas e dos bancos.
O atendimento prioritário aos idosos é a partir dos 60 anos. Sexagenário, você é idoso e não tem “meu pé me dói”. O melhor que tem a fazer é praticar o aprendizado teórico em termos de como viver a vida tendo paz de espírito, saúde e alegria. Senão tudo poderá lhe doer se levar uma vida sedentária, se não andar, se não exercitar a musculatura ou se pecar em não ingerir muita água (dois ou mais litros por dia, porque a demência vem aí, simplesmente porque o idoso se esquece de beber água) ou se não alimentar de frutas, legumes e verduras, principalmente.
Se você não se importar com nada disso, não haverá remédio: entrará também para o rol de outra categoria, “a do condor”. E sempre que encontrar com um amigo há muito distante ou mesmo próximo demais, irá dizer: “Tô com dor aqui, tô com dor cá”. E então ganhará logo a pecha de “velho chato, só sabe reclamar da vida”.
Observe: muitos idosos que deviam estar na fila prioritária preferem a outra, por vários motivos. Um deles é a “vergonha” ou a falta de consciência plena de se aceitar como idosos. Com isto, eles deixam de fazer valer a lei. Outros acham a fila prioritária demorada demais, porque os filhos pedem aos pais idosos para pagar contas e lá na boca do caixa eles ficam por muito tempo.
Quem se acha na outra fila também reclama dos idosos por ocuparem espaço deixando a outra criada exclusivamente para eles. Tem mais: a fila prioritária maltrata os idosos. Em determinados lugares, eles ficam em pé vendo a outra fila fluir com mais agilidade. No fundo, no fundo, essa “prioridade” nem inglês quer ver, e muito menos nós, pois segrega o idoso ao não lhe oferecer a prioridade devida, no sentido lato da palavra.
Segundo o estatuto, “o idoso goza de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhe, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, para preservação de sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade”.
Na prática, isto acontece hoje em dia? Nas filas de banco, nos ônibus lotação, onde jovens ocupam os lugares dos idosos fazendo de conta que dormem. Idosos são atropelados ao descerem do ônibus, como aconteceu algum tempo atrás com dona Maria das Graças. Ela morava em frente à antiga Fafich, na Rua Carangola, em Belo Horizonte e ao descer do ônibus levou a trombada de um jovem escolar. Caiu debaixo das rodas do ônibus em movimento e ficou com parte do corpo e da perna com os ossos à mostra. Morreu horas depois de um angustiante resgate. Flagrantes envolvendo idosos podem ser registrados diariamente. Basta ter olhos para ver.
Neste Brasil varonil, de modo geral, precisamos resgatar muitos dos valores verdadeiros solapados cada dia mais. Um deles, o mais importante entre os importantes, é o resgate do direito à boa educação a partir da família, consolidada na escola formal de qualidade.
Precisamos resgatar a civilidade, que, em comunidade, nos confere a noção de respeito ao espaço próprio e do outro. Precisamos resgatar o amor à vida própria e a do outro. Precisamos resgatar a capacidade de contemplar os elementos da natureza.
A partir desse aprendizado iremos, enfim, amar uns aos outros, como ensina Jesus Cristo. Ele vive e reina pelos séculos como Rei do Universo.


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Por Alberto Sena - 2/7/2012 11:12:03
Com a força de muitas águas

Alberto Sena

Bastaram pouco mais de seis meses para Lúcio Bemquerer, empresário gramogolense ter o nome mudado para sempre: ele é reconhecido hoje por onde anda na cidade ou fora dela como “Lúcio do Presépio”, presépio cujas pedras ele e os cerca de 15 mil habitantes do perímetro urbano e da zona rural do município de Grão-Mogol e dos demais municípios que o circunvizinham acreditam ter sido “semeadas pelas mãos de Deus”.
Visto, sentida a paz reinante no lugar, a cada dia mais santificado pelas gentes de fé obreira, o presépio já foi visitado por mais de 20 mil pessoas, contando com as mais de quatro mil que participaram da missa celebrada pelo cardeal dom Serafim Fernandes de Araujo, acontecimento considerado o maior de todos os tempos já realizado em Grão-Mogol.
O presépio existe já faz tempo suficiente para mostrar resultados e mesmo acontecimentos considerados por muitos como “milagres”, mas “Lúcio do Presépio” mantém a discrição, uma das suas características, porque ele sabe: todo milagre acontece de dentro para fora, depende do tamanho da fé das pessoas.
Dos “milagres”, ele não faz alarde. Dele só escapou uma pequena grande prova do quanto a fé em Deus, na pessoa de Jesus Cristo, pode operar nas pessoas: na sala de preces e orações, onde se encontra Nossa Senhora das Graças retratada numa imagem posta no pedestal, onde se pode acender velas, até aquela data, 30 de junho de 2012, ninguém havia deixado de revelar e fazer multiplicar o gesto por agradecimento de graças alcançadas ou promessa feita ali naquela sala onde o silêncio facilmente remete o cristão à paz de um lugar celestial.
As pessoas têm o presépio como o próprio presépio aonde o Menino Jesus veio ao mundo, há 2012 anos. Quem não puder ir à Belém da Judeia para vivenciar com mais vigor as experiências crísticas, tem bem muito mais perto o presépio de Grão-Mogol, onde as pedras cobertas de liquens denotam a pureza do ar também falam como falam as pedras de Jerusalém.
Neste final de semana, “Lúcio do Presépio” mostrou pormenorizadamente a obra a José Romualdo Bahia, ex-secretário da então pasta da Indústria, Comércio e Turismo do governo de Francelino Pereira, que se fazia acompanhar de Humberto Mota, presidente da Dufry do Brasil Duty Free Shop Ltda e presidente do Conselho Superior da Associação Comercial do Rio de Janeiro; de Roberto Luciano Fagundes, presidente da Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas); Jorge Hatem Osório, empresário mineiro residente em Campinas; de Alberto Oswaldo Araújo, engenheiro e ex-presidente da Minas Brasil Seguradora; Lindolfo Paoliello, jornalista, escritor, empresário, professor da Fundação Dom Cabral; e Rúben Veloso, economista, diretor-presidente da Prosper Consultoria.
A visita deste final de semana é a prova cabal do quanto o presépio mudou a rotina da Grão-Mogol do século XVIII que parecia fadada a viver estagnada no tempo desde que os últimos garimpeiros ávidos em encontrar o grande diamante aposentaram as bateias. Foi como se do céu viesse um bólido envolvido por um fogo diferente desse nosso fogo Elemental. Assim é visto o presépio que aos crentes enche de emoção e devoção. Nele estão cerca de 15 esculturas em tamanho maior que o natural, representando personagens bíblicos humanos e animais irracionais testemunhas do nascimento do Cristo, que aqui e lá vem a todo momento nos corações para salvar a humanidade do pecado.
Perene e a céu aberto, daqui a pouco o presépio poderá ser reconhecido pelo Guiness Book, como recomendou o padre alemão Bertram Princellius, em recente visita, como o maior do mundo. Construído em pouco mais de oito meses, inaugurado em dezembro de 2011, sem dúvida, o presépio marca para sempre Grão-Mogol e a região do seu entorno.
Numa comparação, o bólido vindo do espaço mergulhou fundo no lago de água parada chamada Grão-Mogol e suas ondas se vão mundo afora levando a notícia do presépio. Daqui a pouco essas ondas retornarão com a força de muitas águas. E nelas, se assim o Pai de todos nós der permissão, virá o Papa Bento XVI, quando visitar o Brasil proximamente, repetindo o gesto dos magos seguidores da estrela cujo foco de luz aponta para Grão-Mogol. Lá onde vive hoje o predestinado Lúcio, “o do presépio”, como ele passou a ser conhecido e reconhecido.


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Por Alberto Sena - 26/6/2012 08:21:05
Fazimento de jornal

Alberto Sena

Quem tem o saudável costume de ler jornal impresso não imagina como funciona o processo de fazimento de um jornal. O processo de fazimento de uma revista, embora seja parecido com o do jornal, tem as suas particularidades. A revista semanal, quinzenal, mensal ou bimestral, grosso modo, tem mais tempo para ser editada. Dependendo, claro, de cada caso, porque no frigir dos ovos, ambos têm os seus deadlines.
Para editar um livro, ainda que o processo tenha parecença com a edição de jornal e de revista, difere muito. Um livro não é escrito em um só dia, leva tempo. Diz a lenda: Garcia Marques escreveu Cem Anos de Solidão em 15 dias. Parece lenda, pois ele levou mais tempo.
O jornal também pode ser bimestral, mensal, quinzenal, semanal, diário ou mesmo publicado três vezes na semana. Iniciei-me em 1969, no O Jornal de Montes Claros, cujo dono, Oswaldo Antunes, faleceu recentemente e lhe rendo homenagens, um jornal feito no chumbo pelas incríveis máquinas linotipo; circulava três vezes na semana. Era divertido, lúdico, observar o passeio das peças de chumbo gravadas pela máquina linotipo.
Vivi e vivo desde os 17 anos em redação de jornal. Na minha concepção, jornalista é sentinela da sociedade. Ai de nós se porventura e por mal dos nossos pecados, a imprensa tivesse cerceado o direito e a liberdade de expressão. Vivemos isto na ditadura militar para nunca mais se repetir.
Em um diário dos nossos tempos, um grande jornal feito o Hoje em Dia, que surpreendeu o mercado neste mês de junho ao mudar completamente, conservando só a marca já consagrada, o leitor nem imagina a trabalheira que é fazer todo dia uma edição. O maravilhoso do processo de fazimento de jornal diário conta com o envolvimento de uma porção de gente no trabalho. O processo possui magia.
Se antes da informática o ruído que mais se ouvia numa redação de jornal grande como o Hoje em Dia era o das máquinas de datilografia, hoje o burburinho é de vozes e de toques de telefones.
Imagina uma composição de trem de ferro. A máquina é a redação. Puxa as editorias, quer dizer os vagões, tocada pelo óleo ou a eletricidade proporcionada por uma equipe superior, na qual cada um tem a sua nomenclatura.
A pauta é fundamental para a ordenação da edição do dia seguinte. Sem ela fica difícil fazer um grande jornal. No cumprimento da pauta estão os repórteres e fotógrafos das respectivas editorias – Primeira Página, Política, Economia, Brasil, Esportes, Cultura, Mundo, Minas, Opinião e Fotografia. Pautados, eles envolvem uma frota de carros e motoristas para saírem à cata da notícia.
Eu, particularmente, defendo a ida do repórter ao local. Sempre quando o repórter vai ao local, ele faz matéria ou reportagem mais bem elaborada. No local o repórter vê, pergunta, ouve e capta sensorialmente, até, o melhor da notícia. É ao final da apuração, dentro ou fora da redação, que o repórter encontra a melhor maneira de abrir um texto.
Quando os repórteres chegam e a redação entra em um estado de quase torpor, é que de fato começa a edição e a corrida para cumprir os fluxos tendo em vista facilitar o trabalho da gráfica e depois de impresso o jornal ser distribuído às bancas e aos assinantes por meio de motocicleta, carro, ônibus e avião para BH e o interior do Estado.
Posso estar enganado, e se eu estiver, por favor, me corrijam, mas, nos meus 43 anos de jornalismo, eu nunca ouvi dizer sobre algum jornal que tenha mudado da água para o vinho em apenas oito meses. Foi o que se deu com o jornal Hoje em Dia, dirigido por Fabiano Freitas e Helcio Zolini.
Sem dúvida, foi uma grande ousadia. O jornal ficou melhor para ser lido. Ganhou em qualidade e economia de papel com o formato tabloide. No tamanho anterior, ficava até incômodo ler jornal dentro de um ônibus lotação, sem perturbar quem estava sentado do lado ou evitar as olhadelas para bisbilhotar as manchetes.
Mas voltando ao processo de fazimento de jornal, se for um diário, levando-se em conta a rapidez como tudo se dá, a possibilidade de erros gráficos e de português é maior do que em revistas e livros.
É claro, cada vez mais se deve apurar e reduzir o número de erros. E para isto, no Hoje em Dia o professor Helinho fica de olhinhos abertos. Errar é humano. Desumano e repetir os mesmos erros.


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Por Alberto Sena - 18/6/2012 17:45:00
Como criar “monstros”

Alberto Sena

Na década de 1970, eles eram chamados, em Belo Horizonte, de “menores abandonados”. Muitos morreram jovens, em circunstâncias várias. Os que sobreviveram e não tiveram a oportunidade de mudar de vida geraram os “pivetes”, denominação inventada pelo jornalista, poeta e escritor Henry Corrêa de Araújo, que durante bons anos trabalhou na pesquisa do jornal Estado de Minas.
Ainda alçados à condição de pivetes, as autoridades constituídas responsáveis pela assistência à infância e à adolescência tiveram várias oportunidades para resolver o problema deles, e como o problema não foi resolvido, logo eles, por uma questão de sobrevivência e em defesa própria, se transformaram em “trombadinhas”.
Nessa ocasião, o prefeito Célio de Castro (1932-2008) até prometeu “acabar” com esse dolorido problema social em seis meses. Equivocou-se, a dimensão da ferida era maior do que imaginava. Segundo o levantamento que fizera na época, eles eram em número de 800. Abandonados pela cidade, abandonados cresceram, e com o passar do tempo foram alçados à condição de assaltantes a mão armada.
E se antes eles roubavam bancos, entravam armados, tiravam o dinheiro dos caixas, hoje eles não se dão mais a esse trabalho. Simplesmente dinamitam caixas eletrônicos e nem mesmo a presença de câmaras os tiram de cabeça na hora de praticar a ação.
Podemos concluir, espiando pelo espelho retrovisor do carro em alta velocidade: convivemos atualmente, pode-se dizer metaforicamente, com a terceira geração dos “menores abandonados” de então, os sobreviventes em meio à guerrilha urbana na qual a maior vítima foi a instituição familiar.
Como a família não foi assistida a tempo, o problema social transformou-se num “monstro”. Uma espécie de quarto poder, mas não necessariamente nessa mesma ordem, já que profissionais do crime, organizados, muitas das vezes eles suplantam a autoridade constituída.
No início do problema, quando ainda havia tempo de resolvê-lo, muitos morreram e muito mais morrem hoje na adolescência, na condição de “aviãozinhos” do tráfico de drogas. Tráfico que teve trajetória ascendente numa época em que os “menores abandonados” ganhavam o asfalto.
Uma espiada pelo espelho retrovisor vai nos dar conta do quanto a sociedade colaborou na evolução da “marginália”, quando teve, em vários momentos, a oportunidade de resolver o problema e não o fez. Criamos “monstros”, e estes agora vêm contra nos mesmos.
O antropólogo Darcy Ribeiro já dizia, na década de 1980, que chegaria o tempo – e já chegou o tempo – em que ficaríamos presos em condomínios protegidos por cercas elétricas e homens armados, enquanto lá foram os “marginais” estariam à solta praticando tudo quanto é tipo de crimes.
Já vivemos o bastante para percebermos que as forças policiais perderam completamente o domínio da situação. Não conseguem apurar os crimes, e no caso da Polícia Militar, há anos o efetivo é o mesmo. E com um agravante: muitos policiais acabam se envolvendo com “marginais” e se tornam piores do que eles.
Refletir profundamente sobre os vários lados da violência incontida deveria ser uma prioridade da sociedade, tendo em vista colocar um freio no problema, vislumbrando o Brasil do ano 2030. Alguém aí já pensou como será a vida aqui e alhures dentro de 18 anos? Quê país nós estamos construindo para as almas nascidas no dia de hoje?
Lá atrás, quando toda essa situação se iniciava, nas décadas de 1960/70, um sociólogo argentino, em visita ao Brasil disse a seguinte frase: “Se a riqueza não vai à pobreza, a pobreza vai à riqueza”. Se numa hipótese os que se refugiam em favelas, onde a maioria dos moradores é gente de bem (estão ali por força das circunstâncias, muitos vindos do interior do Estado em busca de uma sorte melhor), se eles combinarem com “colegas” de outras favelas um ataque em massa, com hora marcada, não haverá polícia nem exército capazes de contê-los.
É a proteção divina que nos garante. A impunidade é gritante e eles sabem do poder que, como quem toma um prato de mingau pelas bordas, foram violentamente conquistando homiziados em favelas onde a polícia teme entrar.
O Brasil evoluiu, mas para alcançar o status de primeiro mundo ainda está longe. Apesar de tudo, o mundo em crise aposta no avanço do País, ainda que mergulhado na corrupção e sofrendo as mazelas sociais lamentavelmente usadas no discurso demagogo dos políticos em todas as épocas.


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Por Alberto Sena - 11/6/2012 08:19:55
Vida (intra) extraterrestre

Alberto Sena

Há um ditado espanhol que diz: “Não creio em bruxas, mas que elas existem, existem”. Parafraseando este ditado, digo: creio em seres extraterrestres; não acreditar neles, é estultícia. Senão, vejamos: o que há no universo entre galáxias, estrelas, astros, cometas e tudo mais, numa comparação grosso modo podemos usar a imagem de um Maracanã cheinho de ervilhas, até à tampa.
Até a Igreja Católica, com todo o seu conservadorismo, que a fez crer e querer enfiar nas cabeças da Idade Média que a terra era o centro de tudo, hoje já admite a existência de vida extraterrestre, senão não entregaria a um religioso do Vaticano a tarefa de investigar o que para muita gente é tão claro como a luz do sol: em algum lugar da nossa galáxia ou fora dela há vida semelhante à nossa, superior e até inferior também.
Uma coisa é crermos em vida extraterrestre e outra é a ciência ter de comprovar a existência para crer. E nesse diapasão, os nossos cientistas mandam ao espaço naves para saber se lá há água. Claro que há água em todo o universo. Basta ler na Bíblia para concluir que há “águas de baixo e águas do alto”, em todos os cantos. Até na lua mais perto de nós tem água.
Admitir que em todos os tempos o nosso planeta recebeu e recebe visitas de seres extraterrestres não é nenhum exagero. Basta volver os olhos para trás para verificar esses grandes monumentos erigidos há milênios que parecem antenas que unem a terra com algo existente em algum lugar do universo.
Há mais de cem anos, o precursor das viagens espaciais e intraterrestre, o francês Júlio Verne escreveu “Viagem ao redor da lua” e “Viagem ao centro da terra”. Em julho de 1969, com todas as suas limitações, o homem pisou na Lua. E quem já foi até o centro da terra para saber o que há lá?
Assim como temos notícias de seres que vêm do espaço, temos também informações de seres que vieram do espaço e podem estar vivendo dentro da terra ou no fundo dos mares. Acho tudo isto possível, assim também como creio na existência de seres como o “Pé Grande”, o abominável homem das neves.
Quem neste mundo pode dizer o que acontece no mais recôndito das nossas florestas, ou no mais longíquo rincão da terra, aonde ninguém pisou, ou, ainda, no mais distante e no mais profundo dos nossos mares? Claro que é preciso levar em conta a capacidade do ser humano de imaginar as fantasias mais extravagantes. Mas dificilmente alguém poderia testemunhar uma investida de seres extraterrestres se porventura eles quisessem descer alhures sem serem vistos.
No caso dos seres extraterrestres nem é preciso ver para crer na existência deles considerando que a terra além de não ser quadrada, como se pensava antes de Cristóvão Colombo, comprovadamente, com base nas imagens do telescópio Hubble, não está sozinha no universo. Ademais, a terra linda como é, possui todos os dotes possíveis para chamar a atenção de quaisquer seres de outras galáxias que porventura estejam perambulando pelas imediações do nosso planeta.
Soube que em Olhos D’Água, próximo de Bocaiúva (MG), a meia hora de Montes Claros, no Norte de Minas, 80% da população têm casos de aparições de OVNIS para contar. A informação partiu da lavra do amigo Leonardo Campos, que além de jornalista e escritor é advogado e paleontólogo.
De certo modo fiquei deveras curioso, com vontade de ir aos Olhos D’Água para verificar “in loco” a informação do amigo, como todo repórter que se preza gosta de fazer. Crente como sou em Deus, acho que Ele não iria criar um universo maravilhoso como o nosso só para colocar num lugar chamado terra um povinho dotado de consciência sado-masoquista ou com tendências ao autoextermínio, como é o nosso caso, deixando as belezas maiores, muito maiores do que as que conhecemos, só para enfeitar a criação, para deleite Dele próprio.
Até prova em contrário, se acaso de repente eu me vir diante de um ser extraterrestre que me convide para dar um passeio pela galáxia dele, garanto aceitar o convite com a maior boa vontade. Em algum outro lugar do universo deve haver uma terra semelhante à nossa, onde se poderão lançar as sementes da justiça, da igualdade entre os povos, da paz, da concórdia e da alegria de viver entre os homens e as mulheres.


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Por Alberto Sena - 8/6/2012 11:42:11
A pequenez do ser humano

Alberto Sena

Em psicologia há um vocábulo – “misoneísmo” – que significa medo do novo, do desconhecido. A título de exemplo, esse medo se manifesta a partir daquele friozinho na barriga quando se está diante de uma experiência nova. O fato de termos medo da morte é também chamado de “misoneísmo”. Não sabemos a hora nem para aonde iremos, por mais que haja quem ache que saiba.
Diante de nova experiência, confessamos não estar atacados por nenhum sentimento “misoneístico”. Mas, como acontece sempre quando se está tomando pé de uma nova situação, é necessário ficar de olhos abertos para enxergarmos bem o que é preciso fazer a fim de desincumbir da missão da melhor maneira possível.
Mas não basta ficar só de olhos abertos. Os ouvidos, a memória e o sensorial devem estar aguçados para tudo aprender e apreender. O homem – e a mulher, também, claro! – tem capacidade de absorver o que quiser em se tendo boa vontade e curiosidade para isto. Só não tem mais essa capacidade de assimilação dos ensinamentos quem já morreu ou quem está vivo morto esperando só um toque para deixar o corpo cair no chão.
Se nós estamos vivos e dispostos, em pleno uso das faculdades espirituais, mentais e físicas temos mais é que ir em frente sem sequer olhar pelo espelho retrovisor para não perdermos um instante sequer o foco daquilo que brilha como uma nova estrela no céu.
Em outras palavras, como hoje tudo está condicionado ao computador, é preciso conhecer o sistema utilizado em rede. É claro que isto não acontece duma vez. Superada essa fase, as possibilidades são como um grande leque chinês aberto; enormes. A coisa funciona como quem aprendeu a andar de bicicleta. Quem aprendeu na infância nunca mais vai esquecer como se faz isto, mesmo se ficar sem pedalar durante décadas.
Nem tão antigos somos, mas somos do tempo em que se fazia jornal no chumbo, em Montes Claros e na capital, gravado por máquina linotipo. O linotipista tinha à frente teclas como as de máquinas de datilografia e gravava as matérias redigidas em laudas de papel nas antigas e operantes Remingtons. Assim que eram gravadas em chumbo, as peças davam verdadeiro passeio pela linotipo e iam se juntando num compartimento ao lado de onde se sentava o linotipista.
Depois da linotipia, veio a composição a frio. Durou pouco tempo e logo foi substituída pela informática. E as redações dos grandes jornais perderam as máquinas de datilografia, substituídas pelo silêncio dos computadores responsáveis pelo fim da era romântica da imprensa.
Quando estavam em uso as máquinas de datilografia, as redações se enchiam de papeis e de barulho. Numa comparação, o estresse talvez fosse maior do que hoje em dia, quando predominam nas redações as vozes dos profissionais e o toque do telefone ou o som de aparelhos de TV.
Quem quer se manter na ativa precisa se reciclar sempre porque, de fato, ninguém sabe tudo. Melhor, a rigor ninguém sabe é de nada. Quando achamos que sabemos, uma simples reflexão nos faz cair na real. Numa comparação, é a mesma coisa de quando a gente acaba de ler um belo livro. Podemos resumir o livro, mas dizer de cabo a rabo o conteúdo dele, dificilmente nós seremos capazes de fazer isto.
Claro que há exceções. Lá em Nova Iorque (EUA) havia um camarada que decorara todo o catalago telefônico da cidade. Ele fez do aparelho telefônico brinco e o dia inteirinho atendia quem para ele discava a fim de saber o número de alguém, e com isto garantia o pão de cada dia.
A capacidade de decorar é intrínseca ao ser humano. Mas uma coisa é decorar e outra diferente é entender e apreender algo novo. Estamos convencidos de uma coisa: o que mais sabemos é que, se sabemos alguma coisa, sabemos muito pouco. Saber disto é como porta e janela abertas para que possamos aprender alguma coisa. É porque sabemos da nossa ignorância em relação a muitos assuntos que, com a permissão de quem conseguiu chegar até o final deste texto, pedimos a devida licença para nos retirarmos, enfim; a fim de poder nos recolher à nossa própria insignificância.
Um bom exercício para se adquirir a consciência da insignificância do ser humano é imaginar a pequenez da terra diante da grandeza do universo. Quem viu a passagem de Vênus diante do sol pôde entender o quanto o ser humano é pequeno para ousar se arvorar em tão grande.


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Por Alberto Sena - 3/6/2012 19:01:58
O parto de nova missão

Alberto Sena

Inicio hoje, quatro de junho de 2012, uma missão nova em matéria de jornalismo. Um novo desafio, assim eu me refiro à missão que se me oferece. Depois de pelo menos uma década longe da redação de um grande jornal, distante do burburinho e até do estresse natural gerado pela corrida entre o trabalho de fazimento da matéria à edição para cumprir o fluxo, eis que me vejo de volta a esse mundo mágico da redação por meio do qual a gente tem a oportunidade de aprender um pouco mais sobre o que é ser humano e o que vem a ser a humanidade como um todo.
Vou coordenar a equipe do Caderno Minas do jornal Hoje em Dia e, evidentemente, espero poder dar a minha melhor contribuição, hoje mais maduro do que uma década atrás, podendo dar mais de mim mesmo na tarefa de prestação de serviços que sejam em benefício da comunidade, da cidade, de Minas e do Brasil.
Lembro-me duma vez, em 1979, quando eu morava com a família em Viçosa (MG), Zona da Mata. Trabalhava na Imprensa Universitária da UFV, num campus lindo, bem cuidado, um brinco de lugar. Foi quando o diretor da Imprensa Universitária esfregou na boca de um colega uma folha de jornal tabloide, porque ele não havia colocado na edição uma determinada matéria que recomendara. Isto se passou assim, diante de mim. Fiquei estupefato.
Eu não podia mais continuar ali diante de tamanho desrespeito. Foi quando o telefone tocou e era o eterno Wander Piroli me convidando: “Tenho duas ocupações para você, uma num jornal, que vamos lançar (Jornal de Shopping) e outra numa rádio (Guarani Onda Rural) que irá ao ar.” Nada melhor do que ouvir um convite desses sendo jornalista de nascença. Resultado: em dois tempos estávamos, eu e a família, de volta a Belo Horizonte.
Participar do nascimento de algo novo é gratificante para o profissional que sempre trabalhou em jornalismo diário. Ao mesmo tempo, participar do novo parto do jornal Hoje em Dia, parto natural, sem ajuda de fórceps, é uma corrida em que se tem de matar um leão a cada dia. Inda bem que leão não faz parte da nossa fauna, senão iríamos presos em flagrante todos os dias sem direito a fiança, punição que cabe a quem abater animal nativo.
A minha volta à redação vem envolta de boa aura, graças a Deus, porque retorno para participar do esforço de ajudar o colega de muitas jornadas, Hélcio Zolini, Diretor de Redação, a lançar um novo jornal Hoje em Dia. Ele está acolitado por profissionais do nível de Pérsio Fantin e Nairo Alméri, na chefia da redação.
O leitor atento então se perguntará até em voz alta: “O jornal Hoje em Dia vai mudar?” Vai, respondo. Só não estou autorizado a entrar nos mínimos detalhes dessa mudança, porque escrevo essas linhas como se estivesse redigindo uma crônica entre as muitas que já publiquei desde o momento em que essa necessidade surgiu, o que não faz muito tempo, mas já foi tempo suficiente para eu escrever cerca de 200.
Posso dizer que vem aí um novo jornal Hoje em Dia, cujas mudanças, sob todos os aspectos, irão gerar transformações na imprensa mineira. O novo jornal vai se adequando aos novos tempos pós-surgimento da internet, que diariamente nutre os navegantes on line com tudo que acontece no mundo. Quem é internauta e está ligado aos acontecimentos do mundo tem a impressão de que o jornal impresso que circula no dia seguinte já chega com notícias velhas.
O Hoje em Dia novo vai dar um ou mais passos adiante. Vai surpreender o mercado e os seus leitores de uma maneira bastante positiva. Embora eu saiba a data em que o novo jornal circulará de corpo e rosto novos – em breve – não posso informá-la agora, porque, como disse, não tenho autorização. Apenas escrevo devido à empolgação de estar diante de um bom desafio, salutar, que me estimula a gerar ideias, criar e praticar o que sempre fiz desde os 17 anos de idade, quando comecei a reportar para O Jornal de Montes Claros, final da década de 1960.
O jornalismo praticado com seriedade e responsabilidade, tendo em vista mostrar a realidade dos acontecimentos diários, enxergando na outra ponta a necessidade de resgatar os valores essenciais aos seres humanos, é um estímulo para todo profissional. Ai da sociedade brasileira se não fosse o trabalho de sentinela da sociedade atribuído à imprensa.
As denúncias, as cobranças e os caminhos apontados pela imprensa são fundamentais para a solidificação dos alicerces democráticos.


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Por Alberto Sena - 28/5/2012 09:04:42
A contemplação das nuvens

Alberto Sena

Fico com os pés no chão, mas contemplo as nuvens deste inverno realmente frio nesses derradeiros dias de maio. Converso com elas, tento enxergar nelas possíveis figuras que vão se formando ao embalo do vento. Neste momento, vendo as nuvens pela janela mágica, observo numa delas a semelhança do homem de pedra. Noutra próxima, a parecença é de uma baleia em pleno salto fora d’água.
A minha conversa com as nuvens é puramente mental. E não podia ser doutro modo, sem que eu corresse o risco de as pessoas acharem-me louco. Não sou adepto do solilóquio. Mas vejo por onde ando uma pá de gente falando sozinha, gesticulando como se estivesse diante do outro, inda muito mais nos dias de hoje em que tanto se comunica via telefone celular.
É quando me debruço no parapeito da minha janela, de onde vislumbro todo o poderio ferrífero da Serra do Curral, que emprego algum tempo no salutar exercício de observar nuvens, como ensina Carl Gustav Jung, filósofo, psiquiatra e escritor suíço, praticante de yôga. O exercício de contemplar nuvens, ele o explicita no livro “Memórias, Sonhos e Reflexões”, de excelente leitura.
Descobri que, além de observar as nuvens, posso sacar fotos delas a partir da minha janela. Fotografando-as parece que elas ganham mais vida ainda e posso, inclusive, compartilhar esse exercício com outras pessoas, muitas delas adeptas desse costume, como Virgínia Abreu de Paula, amiga em Montes Claros, onde plantou raízes.
Para dizer a verdade, tenho costume de observar nuvens desde criança, em Montes Claros. Quando menino, sim, podia gastar horas de papo para o ar, deitado na terra do quintal ou em algum monte de areia e ficar ali viajando nas asas das nuvens. Lembro-me como se fosse hoje, na Rua São Francisco, em Montes Claros, eu ficava um tempão contando carneirinhos.
Carneirinhos de nuvens se davam quando o vento parava e ficava mais frio, justamente como está agora. A partir da linha do horizonte podem se formar pequenos flocos de nuvens, de tal modo que quando a gente saca uma foto tem-se a nítida impressão da profundidade da abóboda celeste. A imagem é linda, semelhante as que eu via estirado na terra do quintal daquela casa aonde os espectros de Rock Lane, Roy Rogers, Rex Alen, caubóis estadunidenses se misturavam com os fantasmas de Saci Pererê, Mula Sem Cabeça, Lobisomen e outros personagens que pululavam por entre as páginas dos livros de histórias infantis de Monteiro Lobato e “As Mais Belas Histórias”, de Lúcia Casasanta. Fase deveras marcante, e por ter sido marcante, perdura.
Jung não disse, mas para o meu gosto de contemplador de nuvens – e de tudo que diz respeito à natureza – melhor é contemplar nuvens quando elas estão bonitas e mesclam o azul do céu. Contemplar nuvens carregadas, escuras, prontas para desabar em forma de chuva de granizo, como nos aconteceu no Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, cuja foto está entre os meus guardados, não tem nada de divertido. Ainda mais quando não há um abrigo por perto, como quase aconteceu conosco.
Há pessoas que se referem à nuvem sempre que estão diante de uma situação embaraçosa. Quando as perspectivas são sombrias. Dizem: “Vamos aguardar a dissipação das nuvens...” Não contemplo nuvens negativas. As nuvens que contemplo são boas. Até em legítima defesa procuro pensar em nuvens positivas, aquelas que se mostram límpidas, branquinhas como neve, e que afinal de contas enfeitam o azul do céu.
Uma das cenas mais engraçadas tendo como personagem central uma nuvem me ocorreu na infância, quando lia uma revistinha em quadrinhos. Não lembro mais qual, só me recordo que o personagem, uma criança, contemplava uma nuvem até que ela se foi aproximando e ao pairar sobre a cabeça dele, ganhou o formato de um regador e despejou chuva sobre ele. Volta e meia me lembro disso ao contemplar nuvens.
Ademais, reparem e depois me informem: o ser humano vem perdendo a capacidade de contemplar a natureza. O corre-corre desenfreado da vida cotidiana é o pretexto para as pessoas irem se endurecendo. E os reflexos desse endurecimento de coração e de alma nós vemos principalmente nas grandes cidades.
Para fechar esse monólogo com Jung, ele próprio diz no livro citado que a contemplação dos elementos naturais – nuvens, águas, árvores, animais etc. – é o melhor exercício para fazer as pessoas embrutecidas resgatarem de fato a natureza humana.


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Por Alberto Sena - 23/5/2012 11:47:55
Faltam agora as autoridades de Montes Claros atribuírem os tremores de terra ocorridos na cidade e região à aproximação do Domingo de Pentecostes, dia 27, quando os cristãos comemoram a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos de Jesus Cristo. Naquela ocasião, a terra tremeu como ensina a Bíblia, que para os cristãos é sagrada.
A terra tremer por força do Espírito Santo, ou por força dela mesma, que é também gente como a gente, só não é humana como nós, mas possui camadas que, ciclicamente precisam se acomodar; isto é uma questão que não compete a nós interferir. Outro argumento, mais plausível, até, é levantar a possibilidade de os tremores de terra estarem sendo provocados pelos maus-tratos à terra árida do sertão.
As autoridades norte-mineiras estão tapando o sol com a tábua de pirulito idêntica ao estado em que, sob vistas grossas e algo mais estão deixando as terras entregues à sanha das explosões de dinamite para exploração de cimento e minério de ferro. Basta ter memória para dar nela corda e verificar que os tremores começaram e estão se agravando por causa das esplosões.
Vamos por partes, como diria o estripador de Londres. Suponhamos que a terra tenha o estereótipo humano. Se se cortar-lhe um pé, ainda assim a terra andará, mas precisará adaptar alguma coisa no pé, dar uma mexida na camada mais baixa para se adequar ao novo modus vivendis. Isto vale para todos os membros e reações semelhantes as dos humanos, como uma diarreia.
Na ânsia de chamar chineses e outros empresários de várias nacionalidades, as autoridades da região estão pensando só nos impostos e nos royalties e se esquecendo de averiguar o que de fato elas estão fazendo lá pelas tantas nas pedreiras e nas minas e outras atividades relacionadas com a explotação da terra árida do sertão norte-mineiro.
Com sinceridade, a esta altura do campeonato de tremores e de explosões de dinamites ali e acolá, já passa da hora de os montes-clarenses saírem em passeatas pelas ruas da cidade e se concentrarem em algum lugar da urbe para protestar, exigir uma explicação plausível para os fenômenos que a cada dia mais deixar a população assustada.
É necessário exigir da Prefeitura de Montes Claros e da Câmara de Vereadores uma tomada de atitude. É fundamental fazer isto ressoar com força na Assembleia Legislativa de Minas Gerais e na Cidade Administrativa até chegar ao Congresso e aos ouvidos da presidente Dilma Rousseff, para que ao fim e ao cabo, os montes-clarenses tenham uma satisfação.
O ser humano quando treme, treme de frio, treme de medo e de algo mais. A terra, como gente que é, treme de medo das explosões de dinamites. Essas explosões e nem tanto a tábua de pirulito a que a região se tornou, com os poços artesianos e cisternas, são as causas dos tremores.
Como ideia apenas, pois não tenho conhecimentos técnicos suficientes para discutir o assunto, sugiro aos conterrâneos criar uma comissão integrada por técnicos – geólogos, meteorologistas, ambientalistas etc. – para apurar o que de fato se passa lá embaixo, na superfície e por trás de tudo isto.
O que não dá para engolir é a aparente apatia das autoridades em relação aos repetidos fenômenos que vêm ocorrendo em Montes Claros. Antes das ocorrências de tremores, lá as pessoas costumavam dizer: “Lugar bom para se viver é no Brasil e aqui em MOC, porque não temos terremotos, vulcões, ciclones...” Ao que o outro sempre redarguia: “Mas temos uns políticos que são um desastre maior”.

Pentecostes (em grego antigo: πεντηκοστή [ἡμέρα], pentekostē [hēmera], "o quinquagésimo [dia]") é uma das celebraçőes importantes docalendário cristão, e comemora a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos de Jesus Cristo. O Pentecostes é celebrado 50 dias depois do domingo de Páscoa. O dia de Pentecostes ocorre no décimo dia depois do dia da Ascensão de Jesus


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Por Alberto Sena - 22/5/2012 16:11:58
Os pés-chatos

Alberto Sena

Na época em que para nós Montes Claros e os montes-clarenses viviam mergulhados em romantismo, ali pelas décadas de 1950/60, a vida na cidade parecia seguir o seu curso devagar quase parando. Pelo menos esta é a impressão, ao tentar ver da janela dos fundos os retalhos do que se passou, como se um véu cobrisse as lembranças ávidas em encontrar uma fresta por onde escapar.
Entramos na fase do “Tiro de Guerra (TG)”, que para muitos antes de nós fora “uma experiência inesquecível”. No dia da primeira apresentação, cada um só de cueca passava por uma balança e em seguida eram-lhe tiradas as medidas do corpo e altura. O sargento observava cada um e como o TG não tinha capacidade para absorver todos os que se apresentaram, era preciso encontrar justificativa para considerar muitos em “excesso de contingente”.
Uma justificativa era o fato de o pretenso soldado ter “os pés chatos”. Naquela manhã em que se deu a primeira apresentação, os sargentos reuniram duas turmas. Uma delas era dos que prestariam serviço militar durante um ano, tendo 60 pontos para gastar em decorrência de eventuais falhas ou mesmo punições. Em cada uma dessas possibilidades, o atirador perdia dois pontos. Se chegasse aos 60 pontos, era excluído e teria de “prestar o exército” em Belo Horizonte.
A outra turma era dos que foram considerados em “excesso de contingente” e em meio à turma havia vários amigos. Uns olhavam para os outros sem entender entendendo o que certamente aconteceria, de modo que quando os sargentos Conca e Leite se dirigiram para eles dizendo absurdos, chamando-os de “imprestáveis para servir a pátria” e outras denominações mais que o tempo cuidou de apagar, mas eram palavras que poderiam ter influído na autoestima de cada um, eles ficaram cabisbaixos.
Cabisbaixos, alguns só de malandragem, porque de fato não queriam prestar o serviço militar, porque significaria uma transformação na vida por pelo menos durante um ano. Eles eram “imprestáveis” segundo os sargentos, porque tinham “pés chatos”. Quando crianças não tiveram a oportunidade de usar botas ortopédicas. Botas horrorosas, mas importantes porque corrigiram os pés de muita gente.
Revendo-as agora, de memória, até que não eram tão feias assim, as botas ortopédicas. Elas tinham internamente uma saliência para os lados de dentro dos pés, o que forçava com o tempo os ossos responsáveis por achatá-los, desenhando aquela curva sem maiores incômodos por ter de usá-las durante o tempo suficiente para corrigir o defeito.
Convém informar que a essa altura o golpe militar de 1964 havia acontecido fazia cinco anos. Logo nos primeiros dias do TG, passando próximo dos sargentos Conca e Marcos ouvimos um dizer ao outro, como quem falava com a intenção de nos fazer ouvir também: “Cuidado com esse, ele é perigoso”
A frase ressoou e ainda hoje ressoa e a explicação não era outra senão o fato de trabalharmos no O Jornal de Montes Claros. Naquela época ainda vigorava censura à imprensa. Um coronel da Polícia Militar era mantido na redação do JMC. Lia as matérias, mas não há lembrança de que ele tenha censurado alguma.
Incompreensível o temor dos sargentos, mas justificável porque a ditadura parecia ter olhos em todos os quadrantes, e naquela época do soldado mais raso até o de mais alto coturno se arvoravam em “autoridades”. Houve até um episódio marcante, a prisão, por engano, do jornalista do JMC, Waldemar Brandão. As autoridades estavam em busca do irmão dele, mas prenderam Waldemar, que hoje vive aposentado pelo Banco do Brasil em Belo Horizonte, onde mora próximo da antiga Fafich, na Rua Carangola.
Naquele tempo em que o Brasil e Montes Claros viveram atmosfera sombria, quando parecia haver “inimigos” espionando por todos os lados, nós vingávamos a prepotência e os xingamentos dos sargentos na quadra de futsal, que na época era chamado de futebol de salão, quando disputávamos partidas entre sargentos e atiradores.
Pernas de pau, eles, era divertido meter-lhes bolas por debaixo das pernas; gingar o corpo para um lado e ir para o outro, jogando-os no chão, sem tocar neles. Os sargentos ficavam uma fera. Principalmente o sargento Leite, um matogrossense descendente direto de índios. Ele tinha algumas falhas de dentes e correndo bufava feito um touro na arena acossado pelo toureiro.
Do TG, nenhuma saudade. Foi numa época em que a juventude tinha ideologia. E ter de submeter a sargentos cascas-grossas revoltava. O fato de ter de cortar os cabelos do tipo “príncipe Danilo” era outro fator de revolta. Saudade há dos colegas atiradores. Deles guardo lembranças. E uma foto, simplesmente.


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Por Alberto Sena - 22/5/2012 14:43:43
Uma noite no vapor Benjamim Guimarães

Alberto Sena

Quando pernoitamos no navio vapor Benjamim Guimarães, em Pirapora (MG), nem de leve passava por nossa cabeça um pouco da história dessa histórica embarcação. Hoje soubemos que o BG foi construído nos Estados Unidos, em 1913. Há, portanto, 99 anos. A famosa embarcação navegou do Rio Mississipi à Bacia Amazônica até chegar a Pirapora por meio do Rio São Francisco, onde foi restaurada pela Franave – Companhia de Navegação do São Francisco.
O BG é uma referência da navegação. Foi muito utilizado no transporte de cargas e passageiros no trecho entre Pirapora e Juazeiro, na Bahia. Mas naquela noite do ano de 1969, ali pernoitamos, eu na condição de repórter do O Jornal de Montes Claros, responsável pela cobertura de Esportes, e o time do Casimiro de Abreu e a comissão técnica, com o técnico João (ou era José?) Maria Melo à frente.
Fomos de Montes Claros a Pirapora de ônibus. O lateral esquerdo Marcelino, ex-Atlético Mineiro, brincalhão como ele só, fazia a maior bagunça dentro do ônibus e dava gargalhadas. Famoso por ser bem dotado, ele sacava da “mangueira” e saía batendo-a no encosto de braço das poltronas, assustando quem estava dormitava. E tome gargalhadas do Marcelino.
Naquela época, a estrada Montes Claros a Pirapora nem asfaltada era. O ônibus levantava poeira e no meio da noite ouvíamos os cascalhos saltarem debaixo da engrenagem. Saímos de Montes Claros à tardinha e em Pirapora fomos direto para o BG, que estava ali ancorado fazia muito tempo devido a algum problema de manutenção.
Depois de acomodados no BG, fomos todos dar um giro pela cidade. Claro que o nosso destino era o Bambuzinho, um barzinho que não sei se ainda existe. Ficava à beira do Rio São Francisco. Além de ser um lugar agradável, coberto de folhas de coqueiro e paredes de bambu, o lugar proporcionava bela vista do rio. Uma lua cheia ajudava a compor o cenário típico para se viver a dois, apaixonadamente.
De novo, Marcelino foi atração no Bambuzinho, aonde encontrou alguém para com ele dançar, separadamente. Ele ria e sacudia o corpo, principalmente as partes de baixo, o que chamava a atenção dos circunstantes, mas o craque, como se diz, “estava nem aí”. Queria mesmo é se divertir, mostrando as suas qualidades de jogador, quer dizer, dançarino experiente. Na época, antes de ir jogar no Casimiro de Abreu, ele era bajulado pela direção do Atlético. Quando acontecia um desentendimento entre ele e a diretoria, Marcelino rumava para Montes Claros e os diretores vinham buscá-lo às pressas, quando o Galo tinha uma partida importante.
Naquela noite fazia frio. A umidade do Rio São Francisco seria a responsável pelo frio de doer os ossos. Nada que não pudesse ser resolvido após sorver algumas caipirinhas. Não recordo se Marcelino ou outro jogador ali presente bebia, mas o repórter “que vos fala”, naquela época bebia caipirinha. Hoje, não. A não ser um vinho tinto, seco, procedente da Espanha ou do Chile. Até da Argentina. Los hermanos produzem bons vinhos. E churrascos também. A carne argentina é deliciosa. O gado pisoteia os Pampas e talvez isto influa de modo especial no sabor da carne.
A parte não tão boa aconteceu depois que retornamos às acomodações do navio vapor. O fato de ser uma embarcação antiga justificava o surgimento de várias frestas. De madrugada, quando o tempo parece quedar, um vento gelado entrava na cabine onde eu dormia e não havia cobertor que esquentasse o corpo. Tanto por causa do frio como devido à excitação de ir curtir a praia do rio, passei a madrugada inteira torcendo a favor do nascer do sol.
Quando o dia amanheceu, foi um alívio. Depois do café, com os jogadores concentrados até a hora do jogo, peguei os meus paninhos e fui para a praia. Diferentemente da noite, o dia prometia muito sol e calor. Sentado se podia ver o desfile de biquines. Dentro d’água, eu me metia debaixo das duchas, até a hora do almoço.
E o jogo? O leitor aficionado em futebol pode perguntar, com toda razão. Respondo, para terminar: sabe que nem me lembro? Em verdade, o que eu queria mesmo é exaltar a beleza de Pirapora e a eficiência do navio vapor, que aos 99 anos ainda está aí para servir a gregos, troianos e a nós todos que gostamos de incursionar ao passado a fim de buscar uma história para contar.


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Por Alberto Sena - 14/5/2012 15:19:21
O maior acontecimento de Grão-Mogol

Alberto Sena

A visita do cardeal Serafim Fernandes de Araújo a Grão-Mogol, no final de semana, decerto “foi o maior acontecimento da cidade” desde priscas eras, quando se descobriu lá o veio diamantífero. As crianças e os jovens gramogolenses de hoje nunca mais vão se esquecer do dia 12 de maio de 2012.
O empresário Lúcio Bemquerer, o construtor do Presépio Natural Mãos de Deus, que motivou a ida de dom Serafim a Grão-Mogol, com o adjunto da Paróquia de Santo Antônio e do prefeito Jéferson Figueiredo, telefonou no sábado à noite, assim que o cardeal viajou para Montes Claros, onde no domingo embarcou para Belo Horizonte. Entre enfático e emocionado, Bemquerer disse: “Foi o maior acontecimento da cidade”.
A princípio, se muito, ele esperava de 1,5 a 2 mil pessoas na missa que o cardeal celebrou no sábado à tarde. Mas “vieram mais de quatro mil pessoas”, disse. Ele foi surpreendido, e em um momento achou até que os corrimões ou corrimãos (tanto faz), que, como o próprio nome indica, têm a função de deixar correr as mãos, não iriam suportar tamanho acúmulo de gente.
Só da zona rural de Grão-Mogol e de cidades circunvizinhas, cada uma delas com a imagem do seu respectivo patrono, mais de 600 pessoas acorreram ao chamado para homenagear o cardeal Serafim, que, em verdade, promoveu a segunda inauguração do presépio, inaugurado que foi na primeira vez em dezembro de 2011.
Bemquerer, agora, faz exercício de mentalização para levar o Papa Bento XVI a Grão-Mogol quando da sua próxima vinda a Belo Horizonte, em atendimento ao convite que o governador Antônio Anastasia fez a ele, pessoalmente, quando da sua visita ao Vaticano. Dom Serafim acha difícil, mas não impossível a ida do Papa Bento VVI à cidade para conhecer o presépio. Mas disse a Bemquerer que a primeira iniciativa para isto seria a formalização do convite via bispado de Montes Claros, representado por dom José Alberto.
Em meio às mais de quatro mil pessoas que se acercaram do presépio, lá estavam três delas – Terezinha (Tê) Batista Murça (minha irmã/mãe), Rita Murça Amorim, filha dela; Sandra Murça, prima de Rita – que de Montes Claros e de Belo Horizonte, respectivamente, foram participar da missa celebrada pelo cardeal no presépio.
Via FaceBook, Rita enviou, além de uma foto de Tê com Bemquerer, que guardo comigo para a posteridade, uma “minirreportagem” contando maravilhas da missa que o cardeal celebrou e levou a multidão a se encher de emoção. “Adoramos a visita à Grão Mogol” – disse Rita. E completou: “Ficamos conhecendo sr. Lucio Bemquerer e dom Serafim Fernandes de Araújo, pessoas humildes, maravilhosas”.
Rita contou que “dom Serafim sentiu-se muito orgulhoso por estar em Grão-Mogol”. Disse o cardeal: “A maior riqueza desse povo simples não é a riqueza material e sim a humildade que eles possuem”.
Para dom Serafim, “Grão-Mogol é mais bonita que Diamantina, com suas belas montanhas”. Sempre muito aplaudido, o cardeal repetia que só tinha a dizer: “Eu amo Grão-Mogol e seu povo”.
O padre Geraldo Magela Rodrigues Ruas ficou com a incumbência de saudar o cardeal, e ao final da saudação, ele o agraciou com a música “Amar como Jesus Amou”, de padre Zezinho, uma das canções preferidas de dom Serafim.
Padre Geraldo Magela agradeceu também ao empresário Lúcio Bemquerer e ao prefeito da cidade, Jéferson Figueiredo, que fez um breve discurso, dizendo ter se sentido “tocado” com a manifestação de carinho dos gramogolenses e visitantes ao presépio e ao cardeal, que pela primeira vez visitou a cidade, e antes de viajar, na sexta-feira, 11, dizia: “Vou pagar uma dívida comigo mesmo e com o povo de Grão-Mogol”.
Dom Serafim Fernandes disse e repetiu várias vezes: “Gosto demais de Grão-Mogol, voltarei”. Diante do carinho e dos aplausos do povo, muitos exibindo imagens de santos padroeiros e terços, o cardeal, visivelmente emocionado, disse: “Está havendo um empate: gosto demais de vocês”.
E Rita concluiu a minirreportagem com uma opinião pessoal: “Foi tudo muito bonito!”


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Por Alberto Sena - 14/5/2012 14:07:47
Chega de barulho

Alberto Sena

Barulho. O tema é recorrente, mas é preciso reclamar sempre, até que as pessoas e as ditas autoridades responsáveis por nos evitar enlouquecer, por causa de tanto ruído sem nenhum controle, tomem de fato uma atitude. Tanto barulho assim é um sinal: a crosta, aquela tiririca dizendo melhor, de terceiro mundo perdura em nós, embora o País tenha experimentado melhorias em vários setores.
Mas ainda há muito chão a percorrer até de fato alcançarmos os mesmos níveis das condições de vida nos países do primeiro mundo, mesmo agora, diante da crise que enfrentam. Não dá para comparar o pobre brasileiro com o pobre europeu.
Ao que se depreende daquilo que pela janela se vê passar, o Brasil dificilmente chegará a esse ponto se não investir pesado em dois setores: educação e saúde. O barulho infernal que se ouve a qualquer hora do dia ou da noite está intimamente relacionado com a falta de educação das pessoas porque, mal educadas, não conhecem os limites, pois lhes falta o bom senso.
O barulho excessivo torna-se a cada dia um problema de saúde pública e assim deveria ser tratado daqui por diante. Basta observar as pessoas. O que há de gente falando sozinha, neurótica, paranoica e tal e coisa por aí, não está no gibi. Muitas delas assim estão por causa da barulheira da cidade. Esse estresse danado.
A economia do País pode derramar reais por todas as burras, mas se não houver investimento maciço em educação e saúde, o Brasil não perderá essa tiririca que nem caco de telha retira no banho de sexta-feira. Educação e saúde são o que há de fundamental para fazer o desenvolvimento criterioso de um país. Basta dar um giro nos calcanhares e verificar o que se dá em pequenos países que não dispõem de tantos recursos naturais nem de tanta gente e que investem em educação e passam quinal no Brasil.
As riquezas nacionais devastadas a partir de Pedro Álvares Cabral até os dias de hoje devem ser canalizadas para fazer deste País a maior potência mundial, não das armas, mas do conhecimento, do saber e do respeito aos seus cidadãos. Temos riquezas suficientes para fazer o bem-estar dos brasileiros e ainda emprestar dinheiro ao FMI de tristes lembranças. Mas o Brasil precisa fechar a torneira por onde bilhões de reais escoam no torpe financiamento da corrupção.
Corrupção no Brasil precisa ser considerada crime hediondo. Os brasileiros de boa vontade devem estar coesos a fim de fazer uma limpa nos governos, no Congresso e nas câmaras municipais. Urge acabar com esse cancro que nos leva a quase desacreditar na espécie humana, quando políticos que nos envergonham roubam os recursos destinados a salvar vidas e a desasnar milhões de brasileiros. Quem assim faz precisa ser penalizado para que a impunidade não nos deixe impotentes diante de tamanho descalabro.
Tudo isto faz barulho e tem a ver com o barulho que a cada dia fica mais grave. No meio da noite se ouvem caixas acústicas nas alturas; carros transitam com aparelhagem de som de mau gosto no bagageiro; durante o dia kombis velhas, caindo aos pedaços transitam com alto-falantes vendendo frutas, legumes e verduras de não se sabe qual a procedência; o vendedor de abacaxi incomoda se achando dono de si ao usar também alto-falante; depois vem o vendedor de “pamonha, pamonha”; e por que não falar também do amolador de facas? Este é o que menos incomoda ao utilizar-se de um apito do tipo gaita que ele assopra e depois grita: “Amooolaaadorrrdefacaaa, tesouraaa, alicateee e cortador de unhaaa...”
Houve um tempo em que para a utilização de alto-falante era preciso antes tirar uma licença na prefeitura. Parece que qualquer pessoa pode hoje sair por aí gritando em alto-falante ou deixar o alarme do carro disparar durante horas; buzinar, então, de madrugada, é o que há de mais comum.
Sem falar das máquinas que são utilizadas em larga escala na construção civil, como o bate-estaca, o martelete, as serras e outras ferramentas barulhentas, tudo isto misturado com o ronco dos motores dos caminhões tipo caçamba, que, além do barulho, espargem poeira e monóxido de carbono por todos os canos, porcas e parafusos.
A julgar pelo andar, esta carruagem parece transportar esqueletos sobre folhas de zinco. Com tanto barulho ao redor, o fim dos tempos deve estar próximo mesmo. Pelo jeito, tudo deverá terminar numa só explosão: booommm... Porque as ditas autoridades demonstram não dar mais conta de conter o barulho infernal. Se é que no inferno seja barulhento assim.


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Por Alberto Sena - 9/5/2012 09:04:24

Dom Serafim acha possível Papa Bento XVI visitar Grão-Mogol

O cardeal Serafim Fernandes de Araújo acha plenamente possível a ida do Papa Bento XVI a Grão-Mogol, no Norte de Minas, para conhecer o Presépio Natural Mãos de Deus. Ele aventou essa possibilidade em Belo Horizonte, às vésperas da sua viagem a Grão-Mogol, com a intenção de conhecer a cidade e o presépio considerado o maior do mundo.
É justamente o fato de ser perene e o maior do mundo que justificaria a visita de Bento XVI ao presépio, quando ele vier a Belo Horizonte, convidado que foi, pessoalmente, pelo governador Antônio Anastasia, quando de sua visita ao Vaticano. A primeira atitude a ser tomada, segundo dom Serafim, para que o Papa possa visitar o presépio, é a formulação do convite por parte do bispo da região a que pertence Grão-Mogol, dom José Alberto, de Montes Claros.
Dom Serafim vai ter recepção à altura de um postulante à sucessão do Papa Bento XVI, em Grão-Mogol. Por telefone, ele lembrou que, enfim, “vou pagar uma dívida que tenho comigo mesmo e com o povo de Grão-Mogol”. E contou que, quando era seminarista, viajando a cavalo entre Carbonita e Itamarandiba, ficava encantado com as serras de Grão-Mogol, mas nunca visitou a cidade.
Quando ele puser os pés lá, às 11h30 do dia 11, sexta-feira, os sinos da Matriz de Santo Antônio soarão e em seguida o cardeal receberá a saudação e o acolhimento de crianças da catequese e do coral infantil. Mais tarde, às 14h30, dom Serafim visitará pontos turísticos da cidade, e na Casa da Cultura receberá saudação e acolhimento feito pelo grupo de seresta e autoridades locais. Às 19h, o cardeal rezará missa na Matriz Santo Antônio auxiliado por membros do Grupo de Jovens e integrantes do Movimento Feminino Cristão (MFC).
No dia seguinte, às 9h30 várias comunidades rurais e de outras cidades vizinhas irão ao encontro de dom Serafim, no Ginásio Poliesportivo Quita Benquerer, e uma hora depois haverá “momento de oração e louvor” no local. Após o almoço, às 13h30, haverá apresentações culturais, palestra e apresentação teatral. Uma hora depois, será realizada uma caminhada com os padroeiros das comunidades vizinhas saindo do ginásio poliesportivo em direção ao Presépio Mãos de Deus, onde o cardeal rezará missa, às 17h30, com a participação de todas as pastorais.
A programação foi elaborada pela Paróquia Santo Antônio e o Instituto Mãos de Deus, responsável pelo presépio, com o apoio da Prefeitura Municipal de Grão-Mogol. São esperadas cerca de duas mil pessoas. Para os gramogolenses, a visita de dom Serafim à cidade será “um momento histórico”.
Mais informações: 3238-1316 (Presépio) e 9175-3796 (Magela)


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Por Alberto Sena - 7/5/2012 11:18:23
Religião, política e futebol

Alberto Sena

É comum ouvir dizer, há três discussões que se devem evitar para não ter o que se arrepender: sobre religião, política e futebol. Peço vênia para discordar, pois tudo nesta vida deve ser discutido, de modo democrático e respeitoso, evidentemente. Nenhuma das três vertentes tem a ver uma com as outras, mas se completam.
Para começar de trás para frente, o futebol é a paixão do brasileiro. Não só do brasileiro, mas do mundo inteiro. Basta ligar a TV lá no exterior para constatar isto. Há quem não dê importância alguma ao futebol. Mas em verdade o futebol é uma válvula de escape por onde o cidadão comum põe para fora o que já não aguenta mais guardar em si mesmo. Ele não é capaz de identificar o que é, mas enquanto está ali assistindo a partida em que o seu time ganha ou perde, o cidadão exterioriza aquilo que fica entalado na garganta, como um grito; guardadas as proporções, à semelhança do que acontecia na arena romana onde gladiadores digladiavam até a morte.
Quanto à política, esta é realmente a “arte de governar os povos”. Abaixo de Deus, o poder é político. Tudo está relacionado com a política. E quem diz “política está com nada” e “não dou a mínima para a política”, está se enquadrando naquela assertiva do dramaturgo alemão, Bertold Brecht, que disse: “O pior analfabeto é o analfabeto político”, aquele que diz de peito arfante frases semelhantes às registradas linhas atrás.
Se a sociedade vive mal ou se vive bem tudo tem a ver com a política. Daí a importância de cada brasileiro levar a política a sério e tratar de se politizar da melhor maneira a fim de mudar o Brasil. Os políticos que nos envergonham e envergonham o mundo estão lá em Brasília, nos Estados ou nos Municípios onde governam ou legislam em causa própria porque nós os colocamos lá. O voto é obrigatório e então as pessoas votam de qualquer jeito ou visando interesses próprios, perdendo a oportunidade de pensar grande, no bem-estar da coletividade. Isto acontece em todos os quadrantes do Brasil, e no caso particular, em Montes Claros, que se prepara para eleger o próximo ocupante da Prefeitura Municipal.
E quanto à religião, esta é a base do ser. Não que seja necessária à pessoa pertencer a esta ou àquela religião. O cidadão deve procurar ter “mente religiosa”. O que isto significa? Simples. Embora trabalhoso e requeira anos de estudos, leituras diversas, controle de si mesmo, consciência de que tudo está dentro de nós mesmos e se estamos vivos é graças à centelha divina que há dentro de cada ser vivente.
Quem tem mente religiosa está convicto de que ninguém consegue fugir de Deus, mesmo que se meta a viajar pelo espaço sideral à procura de um lugar onde não se possa encontrá-Lo. Ele está em nós e em todos os lugares, mesmo que os ateus não admitam – neste caso a negação é a própria confissão da existência, porque ninguém precisa negar a existência do que não existe.
Religião, política e futebol são segmentos distintos, porém, em determinadas ocasiões se interagem. O importante é discutir um e outro, os três, porque é da discussão que surgem as grandes ideias. O futebol mineiro não está lá grandes coisas. A política, a boa política clama por ser passada a limpo. A religião, a fé em Deus e o temor a Deus é que vão salvar a humanidade.
Na próxima sexta-feira, 11, Grão-Mogol, no Norte de Minas, viverá grande demonstração de fé: cerca de duas mil pessoas são esperadas para recepcionar o cardeal dom Serafim Fernandes de Araujo, que pela primeira vez vai à cidade a fim de conhecer o Presépio Natural Mãos de Deus, o maior presépio do mundo.
A ida de dom Serafim a Grão-Mogol vai coincidir com a chegada da figura do galo ao presépio, obra em tamanho muitas vezes maior que o natural. Uma coincidência, apenas. Pois como todos sabem, dom Serafim é torcedor aguerrido do Atlético, que tem no galo a sua representação. Pelo visto, uma visita como esta do cardeal a Grão-Mogol se revestirá dos três segmentos expostos nesta pauta: religião, política e futebol. Cada um na sua respectiva medida. Embora estejam juntos, não se misturarão, mas que individualmente são passivos de acaloradas discussões, ninguém poderá negar.


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Por Alberto Sena - 2/5/2012 11:12:26
Amor na Zona já tem data de lançamento

Alberto Sena

Quem cobriu o setor de polícia para O Jornal de Montes Claros (1970/ 72) e Estado de Minas (1972/79) durante quase dez anos acumulou na vida prática tudo que advém de matérias acadêmicas cujas denominações terminam em ‘gia’: antropologia, sociologia, psicologia etc., além de olho clínico para dizer o que é e o que não é. Daí fazer aqui, com base na vivência cotidiana, um vaticínio sobre o livro Amor na Zona organizado por Geraldo Maurício, do qual ele próprio participa, juntamente com mais 17 outros autores: o livro corre sério risco de ser lido e trelido em todo o Brasil depois de lançado em Belo Horizonte, na noite de 1º de junho próximo, uma sexta-feira, no Hotel Liberdade, de Paulinho Boechat. O evento já tem até nome: “Uma festa na zona”.
A equipe organizadora do lançamento concluiu que, se não mais existe aquela zona boêmia romântica e folclórica como antigamente, reconstruir o ambiente em “mise-en-scéne” de cinema poderia se encaixar bem naquela expressão: “A emenda saiu pior do que o soneto”. As zonas boêmias dos dias atuais têm outras características e se resumem em motéis, boates de show e danças. “É justamente isto que queremos mostrar”, disse Geraldo Maurício.
Amor na Zona foi organizado com base numa certa cronologia. Os textos, todos contendo narrativas do tempo em que lá em Montes Claros e de resto em todo o território nacional, a maioria dos homens iniciou vida sexual em zonas boêmias, estas existiam em profusão em determinadas regiões brasileiras, numas mais e noutras menos. Em Montes Claros havia na época contextualizada, verdadeiro “amor de zona”. Havia certo romantismo, glamour até.
O livro a ser lançado será lido tanto quanto por quem vivenciou experiências semelhantes na época retratada, 1960/70 e até antes, como pelas gerações atuais. Despretensiosamente, o livro traça uma linha do tempo e por meio dele quem não conheceu poderá conhecer agora e comparar os avanços em relação ao sexo, antes considerado tabu e hoje banalizado. Tão banalizado que as zonas boemias tão desancadas em épocas passadas perderam a razão de existir, e se existir ainda alguma deve estar restrita aos rincões do Brasil.
O leitor vai perceber, naquele tempo em que se namorava de mãos dadas, beijos fortuitos eram roubados, abraços, e quando muito em alguns casos se conseguia “um sarro”, como se dizia na época, ao contrário de hoje, tudo pode acontecer entre os namorados logo no primeiro encontro. A diferença é que naquelas décadas perdidas no tempo, amor de zona tinha romantismo também. Havia, inclusive, casos de pessoas “bem-casadas” da sociedade montes-clarense que mantinham mulheres na zona boêmia. Diziam: “Não mexa com aquela ali não porque ela é mulher de fulano...”
Amor na Zona tem prefácio do escritor, ex-juiz de direito, roedor contumaz de pequi, Augusto Vieira, que atende pelo epíteto de Bala-Doce. O livro traz textos de Darcy Ribeiro, João Valle Maurício, Mario Ribeiro Filho e de gente muito viva como Ademir Fialho, Augusto Vieira, Alberto Sena, Armênio Graça Filho, Alvarez, Haroldo Tourinho, Hildeberto Mendes, Geraldo Maurício, Marcos A. Pereira, Mazinho Silva, Murilo Antunes, Paulo Henrique Souto, Raphael Reys, Tininho Silva e Virgínia de Paula.
O lançamento do livro acontecerá na véspera do Dia Internacional das Prostitutas (dois de junho). A data veio a calhar, porque estão previstos vários eventos em Belo Horizonte neste ano. Esse foi o gancho que a equipe organizadora do lançamento precisava para promover o evento, que é do interesse de homens e mulheres, profissionais de psicologia, antropologia, sociologia, sexologia, literatura, intelectuais/jornalistas e quem mais se interessar possa.
Como escreveu em 2008, Letícia Barreto, autora de uma tese sobre a prostituição em Belo Horizonte, nas cercanias da Rua Guaicurus, “zona boêmia pode também ser uma coisa séria”. E era mesmo, pelo menos lá em Montes Claros. Naquela época, zona boêmia era tão séria que “as pessoas de bem” davam voltas para não passar próximas do local. Para as crianças então, zona boêmia era a mesma coisa que “casa do capeta”. Mal sabiam esses meninos que logo estariam fazendo diabruras por lá.


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Por Alberto Sena - 27/4/2012 16:24:08
O presépio de Grão-Mogol e a carga de emoção

Alberto Sena

Lúcio Bemquerer, gramogolense que cumpriu exílio involuntário de Grão-Mogol, para onde retornou depois de 20 anos, podia ser o que quisesse na vida, até ministro, sem falar nos convites recebidos para ser candidato a governador ou secretário de Estado. Recusou a todos com o jeito polido de ser. Economista e sociólogo, ele optou por ser empresário e durante bom tempo esteve à frente da Prosper Consultoria, em Belo Horizonte, com os companheiros Waldemar e Rúben.
Lúcio Bemquerer deu voltas pelo mundo. Foi presidente da Associação Comercial de Minas (ACMinas) por duas vezes; durante cinco anos foi diretor-executivo do Fórum de Líderes da Gazeta Mercantil, que reúne cerca de mil dos maiores empresários brasileiros. E por aqui paro.
O intento, neste momento, é contar o quanto Bemquerer vive hoje muito mais do que sempre, quando levava vida de empresário de terno e gravata entrando e saindo de aviões. Idas e mais idas a São Paulo, onde eram feitas as reuniões do Fórum de Líderes; idas e mais idas ao Rio de Janeiro, onde mantinha um apartamento.
Faz, se muito, três anos que Bemquerer redescobriu a terra natal. Lá ele vive a melhor etapa da vida dele. Reformou um casarão antigo na Praça São Sebastião. Ao final do casarão, ele construiu uma cozinha moderna com vidros temperados para não esconder a paisagem da Serra do Espinhaço. Fez duma pedra enorme deixada dentro da cozinha uma adega. Ao fundo, do lado de fora, plantou um jardim e instalou mesa e bancos, e deve ter sido dali que, de tanto observar o conjunto de pedras embaixo do terreno, veio-lhe a iluminação de construir o um presépio.
A partir desse momento, a vida de Bemquerer começou a mudar. Comprou o terreno, tomou todas as providências necessárias e contou com a participação de gente-bem e em oito meses a obra estava sendo inaugurada e o Brasil e o mundo tomaram conhecimento de que em Grão-Mogol, no Norte de Minas, surgiu um presépio, o maior do mundo na categoria de natural, perene, a céu aberto.
A carga emocional vivida por Bemquerer nesses últimos, digamos, 15 meses, ninguém a não ser ele mesmo é capaz de expressar tamanha energia. Desde o início da construção do presépio, que em verdade já estava pronto há milhões de anos, semeado pelas Mãos de Deus, ele não parou de trabalhar. Talvez esteja trabalhando mais do que antes quando estava metido em terno e gravata.
Bemquerer preservou as pedras. O que ele fez foi seguir o traçado das pedras para construir rampas pensando principalmente nas pessoas com necessidades especiais, os cadeirantes. Em outras palavras, ele retirou o mato e revelou o presépio pré-existente.
A noite da inauguração foi apoteótica. As luzes adequadamente instaladas e a lua cheia linda iluminavam o lugar de onde as vozes do Coral Maristela Cardoso, da Unimontes e do Conservatório Lorenzo Fernandez fluíam límpidas para toda Grão-Mogol ouvir. As autoridades civis, militar e religiosa ali estavam juntamente com os gramogolenses e gentes da região do Norte de Minas e da capital. Foi uma grande festa gravada eternamente, para anunciar enquanto durar a vida no planeta: o Menino Jesus nasce permanentemente em Grão-Mogol para salvar a humanidade,
Bemquerer não consegue conter a alegria e a carga emocional advindas do presépio porque foi por intermédio do presépio que ele pôde reencontrar amigos e amigas que nem imaginava pudesse rever, como por exemplo, as 48 mulheres do Grupo Lisieux. Elas estiveram em visita ao presépio e foi emocionante sob todos os aspectos. Elas, muitas delas, viúvas de homens com os quais Bemquerer conviveu, personagens importantes da sociedade montes-clarense.
Agora, do dia 11 a dia 13 de maio, Bemquerer se prepara para o que será a segunda inauguração do presépio: Grão-Mogol estará em festa com a visita do cardeal dom Serafim Fernandes Araujo. Ele visitará o presépio e depois rezará uma missa. São esperadas cerca de duas mil pessoas para a segunda inauguração do presépio.
Esta é a primeira vez que dom Serafim vai a Grão-Mogol. E se o presépio atraiu o cardeal, que, como sabemos desfruta do direito de ser eleito e de eleger o sucessor do Papa, há quem diga que a ida do Papa Bento XVI a Grão-Mogol, com o objetivo de conhecer o presépio, é bem possível, já que ele virá a Belo Horizonte, a convite do governador Antônio Anastasia.
Certamente que algum repórter astuto fará essa pergunta a dom Serafim, na primeira oportunidade que tiver. Podemos até imaginar uma possível manchete: “Papa Bento XVI em Grão-Mogol”.


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Por Alberto Sena - 23/4/2012 12:16:44
(...) Cerca de duas mil pessoas são esperadas no Presépio Natural Mãos de Deus, de Grão-Mogol, Norte de Minas, para a missa que o cardeal dom Serafim Fernandes Araujo rezará no local, dia 12 de maio. O cardeal já confirmou a ida à cidade, aonde chegará dia 11 e cumprirá intensa programação até o dia 13. Essa será a primeira vez que dom Serafim visitará a cidade, atendendo ao convite do construtor do presépio, o economista e empresário Lúcio Bemquerer.(...)


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Por Alberto Sena - 23/4/2012 08:17:54
Encontro insólito com os “Músicos de Bremen”

Alberto Sena

Encontrar os “Músicos de Bremen”, em Bremen, na Alemanha, foi mais fácil do que podíamos supor.
Fazia frio em Bremen. O frio era acentuado pelo vento. Eles, os músicos de Bremen, eram em número de quatro – o burro, o cachorro, o gato e o galo – e nós éramos cinco. Um dos integrantes do quinteto era uma criança esperta de três anos de idade.
A nossa incursão rumo ao ponto onde encontramos os “Músicos de Bremen” começou dentro de um café. Era preciso esquentar as partes de dentro do corpo antes de irmos para as ruas enfrentar o frio.
Em meio ao ruído do vento se podia ouvir longe, muito longe, ora um tropel parecido com o do burro da história contada pelos Irmãos Grimm, como se ele estivesse correndo pelas ruas; ora se podia ouvir também o latido de um cão, latido tão longínquo quanto o tropel do burro.
Houve até um momento em que se fez silêncio no café e ouvimos o miado de um gato e em seguida um galo de canto metálico cantou e encantou-nos. Tudo isto era a expressão clara de que estávamos no caminho certo.
Saímos do café e foi como se levássemos uma lambida de língua fria no rosto. Assim como quem não queria nada, fomos andando a espreitar ali e acolá, para não perder nenhum lance. Num certo ponto aconteceu aquilo que nós esperávamos: a chuva. Choveu frio e tivemos que abrir guarda-chuva e sombrinha. Mas nada, nem neve, se acaso tivesse caído, iria nos impedir de encontrar os “Músicos de Bremen”.
Fomos andando, os nossos olhos corriam em derredor em giros de 360 graus. Os nossos ouvidos capturaram um som misturado de ruído de animais, como se estivéssemos chegando num Zoo. A criança de sete anos dentro de mim se sobrepôs num salto e identificou o lugar ao virar uma esquina. E para a nossa surpresa, os quatro músicos de Bremen viraram monumento de metal parecido com cobre, quando nós é que tínhamos de virar estátuas diante da grandeza dos bichos.
Estavam lá, não em carne e osso, como gostaríamos que fosse, mas metalizados, os quatro que, na história dos Irmãos Grimm fizeram ladrões fugirem em desabalada carreira, como fugiam os chamados “amigos do alheio” de antigamente lá no Brasil, país distante cerca de oito mil quilômetros daqui. As patas do burro brilham e rebrilham sob a luz do sol de tanto que as pessoas passam as mãos nelas.
Ali estávamos diante e dos lados dos personagens que pareciam tão reais como sempre foram tanto fora como do lado de dentro do mundo da imaginação. Prova cabal do quanto são competentes os alemães ao darem vida à fantasia que ajudou a formar o imaginário de gerações de seres humanos e ainda por cima gera rios de dinheiro com a fama da história que correu e ainda corre mundos e fundos.
Em Bremen, quase tudo gira em torno dos “Músicos de Bremen”, vistos em versões diferentes umas das outras e em toda forma de miniaturas. Estar ali, ser fotografado junto ao monumento, foi em verdade uma viagem insólita até o universo fantasioso das histórias de então, em tempos bons lá em Montes Claros, carregadas de mensagens que quais pilares ajudaram a formar o caráter de gerações ao redor do mundo, porque os Irmãos Grimm, e também escritores brasileiros como Monteiro Lobato e Lúcia Casasanta, foram almas iluminadas que nos deixaram bela herança cultural.
Os brasileiros devem se espelhar no marketing alemão em torno de uma fantasia, para caírem na real de fazer o mesmo em relação aos nossos valores. Minas, como síntese do Brasil, possui escritores, poetas, cronistas, gente da mais alta estirpe, que pode ser explorada no melhor sentido, a fim de atrair o turismo cultural.
Guardadas as diferenças geográficas e as questões climáticas, o Brasil possui potencial mal explorado, e no caso particular de Belo Horizonte, o estrago que vem sendo feito na Savassi, é de partir o coração. A Savassi perde a cada dia a possibilidade de vir a ser, mal comparando, pois está aquém, ao Batel, de Curitiba, e à Rua Vieira Souto, de São Paulo, ou algo parecido.
Até o momento sob o impacto de tão impactante encontro com os “Músicos de Bremen” conformamo-nos, enfim, jamais poderíamos encontrar vivos os quatro valentes porque eles foram uma invenção fantasiosa dos Irmãos Grimm.
Invenção fantasiosa que ganhou vida própria e rende rios de dinheiro para a cidade de Bremen, numa demonstração exemplar de como fazer o marketing da fantasia materializar euros no mundo real.


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Por Alberto Sena - 19/4/2012 10:31:14
Lembranças do Dr. Oswaldo

Alberto Sena

Uma das imagens marcantes que conservo dele faz o ponteiro da vida bater em sentido contrário num mergulho ao início da década de 1970. O corpo de um homem havia sido encontrado, carbonizado, no município de Brasília de Minas. A princípio as suspeitas eram de que o crime tivesse sido encomendado por questões relativas à seara da política local. Veio de Belo Horizonte o coronel Humberto, que acabou virando delegado de Montes Claros, para apurar o assassinato praticado com características de pistolagem. Segundo a polícia, a vítima teria sido morta em Montes Claros e o corpo fora levado para o município de Brasília de Minas, de certo com intenções de transferir responsabilidades e criar dificuldades para apuração.
À época, eu era “foca” no jornalismo como se é em verdade a vida inteira. Coube-me fazer a cobertura do assassinato e corria a boca pequena que um suspeito havia sido preso. O caso foi acompanhado por uma promotora vinda de Belo Horizonte especialmente para essa missão. O “foca” em questão era tímido ou nem mesmo sabia como abordar as autoridades da época para colher informações.
Cheguei à redação e ele foi logo me perguntando, e devo confessar, levei um susto. Foi mais ou menos este o diálogo:
_ Alguma novidade sobre o caso de Brasília de Minas?
_ Não.
Disse-lhe.
_ Como não?
_ A polícia não quer dar nenhuma informação.
Eu disse.
E então ele entrou para o escritório dele, contiguo a redação, pegou o telefone preto e discou para a promotora que se encontrava em Brasília de Minas. Conversou com ela durante uns dez minutos, tempo suficiente para arrancar dela uma manchete de impacto, considerando que o caso ganhou repercussão nacional.
Enquanto ele conversava com a promotora, caneta e papel a mão, anotava tudo com agilidade, de modo que ao terminar de falar com a mulher, apanhou algumas laudas de redação e ao invés de sentar-se à máquina para escrever, ele, em questão de poucos minutos escreveu de próprio punho a reportagem e a elevou para os linotipistas Andrezzo e Milton gravarem em chumbo.
Da redação, sentado de frente a porta do escritório dele, eu observava a maneira como ele escrevia e para mim aquilo foi marcante porque o tinha na melhor conta. Sabia-o homem de respeito, competente, que além de advogado trabalhara nos bons tempos do Diário de Minas, em Belo Horizonte, onde fora colega de redação de profissionais de renome ainda hoje na ativa.
Evidente que a essa altura quem o conheceu em vida sabe que falo do Dr. Oswaldo. Ele era chamado assim. De lado da redação ficava o secretário Waldyr e do outro era a sala dele. Se a gente queria entrevistar alguém por telefone, o melhor lugar era a sala do Dr. Oswaldo porque mais calma. A sala dele havia do lado esquerdo janelas basculantes que davam para um pequeno quadrado de área onde reinava um pé de goiaba.
Isto foi no tempo em que O Jornal de Montes Claros era na Rua Dr. Santos, 103, ali onde fica hoje uma agência bancária. O espectro da cidade atual já se podia vislumbrar, mas Montes Claros mantinha ainda os seus costumes, os hábitos acolhedores de uma cidade sempre hospitaleira.
Pelas mãos do Dr. Oswaldo e de Waldyr passaram nomes importantes da imprensa. Em verdade digo que na redação do jornal Estado de Minas, O Jornal de Montes Claros era famoso e passou a ser chamado de “Escola de Jornalismo”, numa época em que escola nenhuma de jornalismo havia em Minas.
Foi uma pena que o Dr. Oswaldo tenha sido levado a encerrar a circulação do O Jornal de Montes Claros. Pena, digo eu porque se a nossa cidade é o que é hoje, em termos de desenvolvimento, damos graças ao empenho do O Jornal de Montes Claros, principalmente, porque naquela época, quando escola de jornalismo não havia em Minas, a imprensa de Montes Claros (O Diário de Montes Claros e a Rádio ZYD7) tornou-se uma referência.
Montes Claros é cidade hospitaleira, mas tem demonstrado não venerar na medida certa o nome dos homens e das mulheres que fizeram a força e a grandeza da cidade de hoje. O Dr. Oswaldo foi um deles e deve ser lembrado até o final dos tempos.


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Por Alberto Sena - 17/4/2012 14:10:28
À procura dos “Músicos de Bremen”

Alberto Sena

A história dirigida ao público infantil, nos idos da década de 1950, intitulada “Músicos de Bremen”, contada pelos alemães Irmãos Grimm, foi uma das primeiras leituras, assim que comecei a me “desasnar”, termo que Darcy Ribeiro, ex-aluno do “Grupo Escolar Gonçalves Chaves”, onde também eu estudei, gostava de repetir sempre quando o assunto era educação.
Fiquei impressionado com a história dos “Músicos de Bremen”. E impressionado me encontro até hoje, mais de meio século depois da leitura dessa história, que agora aflora na lembrança como se fora um desejo em vias de se concretizar. É que da infância até os dias de hoje fatos interessantes se deram e os dois mais interessantes compartilho.
O primeiro é que minha filha se casou com um alemão e sabe onde ela foi morar? Em Bremen, na Alemanha. Foi como se, aos sete anos de idade, ao ler a história dos Irmãos Grimm, ela fosse para mim uma premonição do que se daria na minha vida mais de meio século depois. Resultado: ganhei um neto alemão, nascido em Bremen, que vai completar três anos de idade em meados de abril.
Daqui da minha janela mágica, de onde à distância posso contemplar os contornos da Serra do Curral, começo a sonhar. No sonho estamos com as passagens compradas e as malas prontas para embarcar pela TAP, num roteiro português, “com certeza”, rumo a Alemanha, onde Levi nos espera, junto com os pais dele, com uma bola de futebol na mão.
Como sonhar não é pecado nem requer gastos monetários, importa sonhar porque o sonho “é o prenúncio da realidade”. O desejo é tão forte e persistente que mais dia menos dia dará fruto possível a toda árvore frutífera.
Vejo-nos então nas ruas de Bremen perguntando a uns e a outros onde vivem os “Músicos de Bremen” para satisfazer a curiosidade do menino de sete anos que gostaria de tê-los abraçado e acarinhado na década de 1950.
Primeiro abraçaremos o burrinho, depois o cão, em seguida o gato, e, por último, o galo. Falaremos com eles o quanto foram corajosos. E se ainda for possível encontrá-los pelas ruas de Bremen gostaria imensamente de ir a casa deles para ver de perto como eles vivem hoje.
Quem não conhece a história dos “Músicos de Bremen” talvez não esteja entendendo essa conversa, mas em rápidas pinceladas, vai um resumo: eram eles animais descartados pelos donos e se juntaram em viagem estrada afora. Acabaram ocupando uma casa abandonada. À noite chegaram alguns assaltantes e cada um dos animais exercitou os seus dotes: o burro zurrou, o cão latiu, o gato miou e o galo cantou. Foi um festival de coices, mordidas, unhadas bicadas e bater de asas.
Houve um momento em que o cão subiu no dorso do burro, o gato ficou sobre o dorso do cão e o galo lá encima. Foi uma barulheira danada. Os assaltantes largaram tudo lá achando estarem sendo assaltados por um monstro. Se vivos ainda forem, devem estar correndo até hoje sem saber do que se tratava.
Vamos aproveitar essa parte do sonho para convidar os “Músicos de Bremen” a virem ao Brasil, com passagens, hospedagem em hotel de categoria cinco estrelas, tudo pago, a fim ver se eles são capazes ainda de criar versão nova da história dos Irmãos Grimm.
Se estiverem ainda em forma, possivelmente os “Músicos de Bremen” possam sacudir as árvores das florestas brasileiras a fim de derrubar os frutos podres, principalmente os frutos corrompidos pelos vermes da má política, que, esperamos, a Lei da Ficha Limpa possa varrer da nossa seara nas próximas eleições.
Se de tudo não for possível encontrar vivos os “Músicos de Bremen”, ficaremos contentes com pelo menos uma foto junto ao monumento que foi erigido em homenagem aos três quadrúpedes e ao bípede galo que puseram os foras da lei pra correr em desabalada carreira, como faziam os antiquados gatunos daqueles tempos.
Pelo menos uma foto queremos deles mesmo estando em bronze, para se juntar aos nossos guardados, a fim de provar para a posteridade que a história dos Grimm é tão real que até parece estar sendo escrita agora, a fim de mexer com o imaginário de crianças de sete a 150 anos.
E antes que me acordem sonho que estamos a bordo de uma Airbus em viagem de quase dez horas para a Alemanha. Dona Merkel que nos aguarde, porque queremos dela explicações críveis sobre essa crise europeia que coloca em risco a economia do planeta.


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Por Alberto Sena - 10/4/2012 09:25:40
Vamos jogar finca?
(Ou viagem por meio dum “buraco de minhoca”)

Alberto Sena

Depois de descoberto o potencial elástico dos fios de lembranças, podendo puxá-los de todo jeito ou até mergulhar por dentro deles, a impressão é de que são como os “buracos de minhoca” buscados pelos cientistas espaciais na tentativa de encontrar meios mais práticos, curtos e rápidos de explorar o universo.
À exceção das ruas centrais de Montes Claros, as demais eram de terra batida. Na época do estio, a poeira levantava à passagem de cada um dos poucos carros do trânsito local. Mas em compensação, quando era chegado o período das águas acontecia o milagre do reviver vibrante de tudo em derredor. O pó das ruas desaparecia e era então que se sabia chegado o tempo de jogar finca.
De tanto jogar, a pontaria ficava afiada que nem faca amolada. A finca seguia, com a maior presteza, o gesto de mão cuja linha era traçada a partir dos olhos rumo ao chão amolecido pela água da chuva benfazeja.
Com a lembrança desses momentos, hoje, se pode compreender a importância da brincadeira, quando o contato telúrico era em primeiríssimo grau, porque os pés descalços pisavam na terra e não em calçamento ou em ainda no incipiente asfalto.
Para quem está chegando agora, o que é narrado aconteceu há mais de meio século, no tempo em que as crianças inventavam os seus brinquedos, como confeccionar uma finca com as próprias mãos, tarefa que não é para qualquer um nem para muito adulto.
Primeiro era preciso procurar no quintal ou pelas ruas da redondeza de casa um pedaço de ferro próprio para servir de finca, depois de passado por minucioso, lento, paciente parcimonioso processo de uma quase alquimia.
Encontrado o pedaço de ferro apropriado, o passo seguinte era dado rumo à caixa de ferramentas para pegar um alicate. Ato contínuo prender o ferro ao alicate e levá-lo ao fogo diretamente ou às brasas do fogão a lenha.
Quando o ferro virava brasa, era o caso de imprimir a agilidade de um raio e correr ao quintal, e com o auxílio de um martelo e uma pedra fazer a ponta da finca, num trabalho semelhante ao de uma gueixa ao manusear o alimento com gestos delicados, cerimoniosos, pacientes.
Depois de idas e vindas, a finca aprontada, o próximo passo era arranjar um parceiro e iniciar a brincadeira, que, para quem não sabe, era assim: riscavam-se com a ponta da finca dois triângulos no chão, um distante do outro cerca de dois metros. Os triângulos seriam as “casas” de um e de outro.
Para iniciar de fato a brincadeira, era preciso cada um fincar a finca dentro da própria casa e o que conseguia fazer isto primeiro saía fincando a finca com a maior elegância no chão e enquanto ela estivesse caindo em pé, o jogador traçava no chão os riscos da sua jornada ao redor da casa do adversário até voltar à própria casa, dentro da qual era dado o golpe sacramental.
O gostoso da brincadeira estava justamente na volta, quando se podia traçar outra linha paralela à primeira, fincada por fincada, a mais estreita possível, para dificultar ao máximo a vida do adversário, que muitas das vezes não tinha pontaria boa o suficiente para passar por entre as estreitas linhas paralelas, quando era chegada a sua vez de fincar a finca.
Enquanto uns brincavam de finca, outros jogavam bolinha de gude ou corriam à caça de tanajuras apanhadas ao abano de camisas. Os sonhos eram tantos, mal cabiam no interior da caixa craniana.
De uma brincadeira se podia passar à outra, do modo como se davam as conversas dos adultos sentados nas portas das casas por conta de um dedo de prosa e de chupar picolé para driblar o calor.
Baseado na relatividade do tempo, tudo isto parece ter acontecido ontem. Naquela época, a pedagogia recomendava às crianças doses homeopáticas de leituras de fábulas, contos de fadas, parábolas e histórias que, como sementes lançadas ao chão, tiveram um tempo para germinar, cada uma segundo a espécie e a qualidade intrínsecas.
Montes Claros, mais de 50 anos depois desse ouro de aluvião que tomou conta de um estágio de vida desta geração, vive o que foi augurado antes, muito antes de nós, como cidade-polo.
Os fios elásticos de lembranças espicham, mas não partem, assim como o espectro da cidade cantada e decantada sobrevive dentro da metrópole e se poderá revisitá-la sempre, por meio de um “buraco de minhoca”.


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Por Alberto Sena - 2/4/2012 08:19:24
A bola de capota

Alberto Sena

Para aproveitar da elasticidade dos fios de lembranças, espichemo-los até o final da década de 1950 ao início do arquetípico ano de 1960, em Montes Claros.
Morávamos na Rua Corrêa Machado em frente ao Campo do time de futebol União Esporte Clube. O campo ocupava quase o quarteirão inteiro. Era contiguo ao Asilo São Vicente de Paulo, na extremidade norte; tinha divisa com a Rua Corrêa Machado ao sul; a leste fazia limite com a Rua Dr. Veloso, e a oeste com a Rua João Pinheiro.
O campo tinha resquícios de grama nas laterais, mais para a linha de fundo. No meio resplandecia terra vermelha característica do sertão montes-clarense. No início da desativação do campo, o portão fechado a corrente e cadeado, pairava sobre o lugar aura melancólica agravada pelo silêncio reinante.
Não havia mais o grito da torcida, as arquibancadas de madeira estavam entregues às intempéries, o mato crescia para completar o quadro de abandono.
Foi quando descobrimos ser possível usufruir daquele espaço, e para isto, bastava puxar com força o portão, abrir uma brecha nele por onde cada um podia passar. Primeiro o dono da bola de borracha.
E assim o campo ganhou vida novamente. Com o passar do tempo, alguém de unhas possantes ou com o auxilio de alguma ferramenta, achou por bem abrir um buraco no muro. Misteriosamente, o buraco aumentava de tamanho a cada dia. Numa manhã ensolarada apareceu esburacado o suficiente para uma criança entrar em pé sem abaixar a cabeça. O muro não era mais obstáculo às incursões da meninada.
A partir deste dia foi decretado amor eterno, enquanto durasse a alegria no usufruir diário e o dia inteiro do campo como se fora a segunda casa. Naquela ocasião, as férias escolares se resumiam em tomar o café da manhã e ir para o campo. Voltar na hora do almoço e rumar de novo para o campo. No meio da tarde retornar para tomar água e fazer às pressas um lance e voltar para o campo, até o cair da noite.
Nessa época percebemos: campo de futebol vicia a gente. Às vezes, em noite de lua cheia e com o adjunto da claridade da luz do poste da Rua Corrêa Machado, convocávamos reunião extraordinária. Tirávamos par ou impa, dividíamos as turmas e bola pra quem tem pernas. Jogávamos futebol numa alegria esfuziante.
Um dia o irmão mais velho chegou lá em casa com uma bola de futebol de couro, bola de capota chamada. Os olhos ficaram enormes sobre a bola. O irmão tratou logo de jogar ducha fria no fogo daquele olhar cobiçador: “Nem toque nela; vou guardar para quando eu me aposentar”.
A bola de capota ficou no quartinho dos fundos do quintal onde imperavam pés de abacate, pinha, goiaba, fruta do conde, urucum e uma parreira, além de dezenas de latas de plantas ornamentais que dona Elvira gostava de cultivar, como costela-de-adão, comigo-ninguém-pode, begônia, espada-de-são-jorge, brilhantina, samambaia, avenca, orquídea, entre muitas outras.
Volta e meia, enquanto dona Elvira remexia vasos e conversava com as plantas, sem que o irmão soubesse, a oportunidade era propícia aos chutinhos com a bola de capota. Só que a bola era grande demais para aqueles pés descalços. Saciada a vontade de dar chutinhos, era ela recolocada no mesmo lugar, dentro do quartinho.
Se anos depois a casa não tivesse sido derrubada para a construção de outra, lá no quartinho a bola de capota estaria do mesmo jeitinho em que o irmão a guardou para quando ele se aposentasse.
Hoje, mais de meio século depois de tudo isto, vivendo a terceira juventude e de direito aposentado faz já bom tempo, de fato ele ainda trabalha muito, donde se poderá concluir, de duas uma: ou é viciado em trabalho ou trabalha porque o trabalho o diverte. Ou as duas opções juntas.
Quanto à bola de capota, dela é capaz de ele nem se lembrar. E se naquela época, nem tempo tinha para jogar uma pelada no Campo do União, agora, a essa altura da juventude terceira, é que ele não vai jogar mesmo. E é uma pena, não porque ele tenha dependurado as chuteiras antes mesmo de tê-las calçado, mas porque a velha bola de capota sumiu.
O irmão nunca desconfiou de quantas vezes ela rolou nas terras vermelhas dos campos de futebol da imaginação e dos sonhos. Mas, reservadamente, só aqui entre nós, a bola de capota rolou também muito fora dos campos oníricos.


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Por Alberto Sena - 26/3/2012 08:36:38
Como se mudam os costumes

Alberto Sena

Em Montes Claros houve um tempo, início da década de 1960, quando a Igreja Católica ainda era hegemônica, que os jovens de então eram mandados ou levados pelos pais à igreja a fim de assistir a missa. Tanto podia ser na Matriz de Nossa Senhora da Conceição e São José, na Praça Dr. Chaves, missa rezada pelo famoso padre Dudu, ou na Catedral de Nossa Senhora Aparecida, padroeira de Montes Claros, onde o padre tinha olhos verdes, cabelos penteados da testa para trás, e era considerado o terror das donzelas useiras em decotes ou blusas de mangas curtas dentro da igreja. Estas disfarçavam os decotes e as mangas curtas com xales ou véus. Se alguma delas inadvertidamente entrava na igreja com roupas decotadas, lá de cima do altar, o padre ordenava que se retirasse da igreja. Para as donzelas isto era um vexame danado.
Acontecia com a maior frequência de os jovens irem à missa mais pela oportunidade de encontrar e flertar com as donzelas do que participar propriamente do rito religioso, mesmo porque as missas ainda eram rezadas em Latim, naqueles tempos de tranquilidade e romantismo que caracterizaram Montes Claros, com seus 100 mil habitantes ou até menos.
Enquanto o padre de temperamento nervoso fazia o tradicional sermão, os jovens e as donzelas, cada uma delas mais bem vestida do que a outra, “roupinha de ver Deus”, como se dizia na época, trocavam olhares, espargiam hormônios da testosterona por todos os poros, o padre esbravejava contra o comportamento abusivo da sociedade montes-clarense, antes, muito antes do advento da televisão na cidade.
Uns diziam que o padre era nervoso porque sofria de “neurose de guerra”, problema que nunca os jovens tiraram a limpo, se é que de fato ele tinha estado mesmo na Segunda Guerra Mundial como capelão, juntamente com os pracinhas que lutaram na Itália. Assim como também não havia comprovação do fato de o padre, fumante inveterado, ignorar completamente os ditames da Igreja, no concernente ao celibato. Corria à boca pequena que ele tinha mulher e filhos. Se isto era verdadeiro, só mesmo os filhos dele, a essa altura com mais de 50 anos, poderão dizer.
Montes Claros de então era uma cidade boa para se viver. O golpe de 1964 ainda não havia acontecido e as pessoas se divertiam com as fitas exibidas nos cines Coronel Ribeiro, São Luís e Fátima, que veio em seguida, além dos parques de diversão e os embates entre os times do Casimiro de Abreu e o Ateneu. O velho Ferroviário era como o time do América da capital, sempre em terceiro lugar. Os dois primeiros clubes deram importantes valores ao futebol mineiro e nacional, como Chinesinho, Manoelito, João Batista, Manoelzinho, Dito, Marcelino, Jomar e outros.
No domingo de manhã não se podia fazer nada, antes de ir à missa. Missa “assistida”, o programa era a Praça de Esportes para jogar pingue-pongue, nadar, jogar futebol de salão ou futebol numa área gramada chamada de “pista”, atualmente em risco de sumir de vista, se vingar as intenções da Prefeitura de Montes Claros; e a singular boate.
Quem é dessa geração logo vai se identificar com tudo isto aqui narrado e poderá muito bem fazer comparação entre a nossa cidade de então e a Montes Claros de hoje. Evidentemente, sob alguns aspectos, na década de 1960 a cidade era melhor. Mas em muitos outros, afora a segurança pública, matéria em que Montes Claros toma bomba, a cidade de hoje é melhor.
Mas a Igreja Católica não é mais hegemônica. As missas há muito tempo são rezadas em português e com o padre de frente para os fieis, ao contrário de quando eram rezadas em Latim. Hoje os decotes e as mangas curtas não incomodam mais porque as pessoas “participam” – antes “assistiam” – as missas como querem. A televisão veio e hoje a cidade simplesmente cumpre o que foi prenunciado em passado longínquo sobre a sua condição de cidade polo, com todos os bônus e os ônus.
Como montes-clarense com domicílio eleitoral em Belo Horizonte, daqui vejo o período como uma boa oportunidade para alertar os conterrâneos sobre a importância de escolher bem o próximo administrador da cidade, para que não tenham do que se arrepender depois. E passar o ano inteiro a reclamar dos políticos colocados na Prefeitura e na Câmara Municipal. Quem quer mudar alguma coisa, politicamente, vê as próximas eleições como ferramentas de saneamento básico, porque, nunca, em tempo algum, se falou tão mal dos políticos como nos dias atuais.
Nunca os políticos tiveram conceito tão baixo perante a população brasileira. As notícias de corrupção, propinas, superfaturamentos etc. circulam todos os dias. Quem não quiser ter do que reclamar depois, que então vote certo, tanto em Montes Claros como em todo o Brasil.
Quem avisa amigo é, como diz o velho deitado sob a marquise de uma das ruas estreitas de Montes Claros.


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Por Alberto Sena - 19/3/2012 08:21:33
A maior novidade do presépio de Grão-Mogol

Alberto Sena

Era previsível a influência do Presépio Natural Mãos de Deus na cidade de Grão-Mogol e região. Primeiro que a obra foi considerada pelos mais de sete mil habitantes no perímetro urbano da cidade como “a maior novidade”. Comparavelmente a um bólido descido do espaço dentro de um grande lago, a repercussão da notícia se espalhou de dentro para fora e o presépio já recebe visitas de estrangeiros com crescente frequência, o que também era de se esperar, tendo em vista a grandiosidade da obra tida como “o maior presépio do mundo na categoria de perene e a céu aberto”.
É na medida da visita frequente de almas crentes em Deus que os lugares santos são santificados. Veja o que se deu ao Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, desde há quase 1.500 anos. Dá para imaginar a quantidade de pessoas que santificaram o famoso caminho espanhol? Veja o que aconteceu a Fátima, em Portugal; e veja também o que acontece no Caminho da Fé, rumo ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida (SP), pela Serra da Mantiqueira, trilhado por romeiros e peregrinos. Por onde passa cada um deixa algo intrínseco à natureza humana, e como ser espiritual ao mesmo tempo capta as boas energias dos lugares.
Em síntese, é isto que se vê acontecer com o presépio de Grão-Mogol. A frequência das pessoas interessadas em ver de dia ou à noite a permanente mostra do nascimento do Menino Jesus, tem numa constância que pode ser visualizada por meio de uma ascendente linha imaginária nos livros onde os visitantes assinam e comentam o que acharam da obra.
O dramaturgo Nelson Rodrigues, o chamado “Anjo Pornográfico”, disse um dia que “a unanimidade é burra”. Como intelectual, ele disse isto em nível cerebral. A unanimidade testemunhada no presépio de Grão-Mogol vai além da massa encefálica humana, mergulha no universo espiritual por intermédio da fé. Não há nos livros onde os visitantes se manifestam nenhuma crítica em relação ao presépio.
Neste final e início de semana, informa Lúcio Bemquerer, o construtor do presépio, um grupo de membros do Rotary Clube de Montes Claros e da região visitou a obra sábado, e no domingo, equipes de profissionais da Emater-MG também foram conhecer o presépio. Os visitantes têm inestimável potencial multiplicador, a partir do clássico boca a boca ao acesso midiático.
Propositalmente, a grande novidade do presépio ficou para ser revelada ao leitor que até a este ponto chegou: uma figura semelhante a um rosto que a pessoas associam ao de Jesus Cristo é visto numa pedra lascada. Observem a foto e tirem as suas próprias conclusões. Lugar mais compatível para o rosto de Cristo surgir não havia melhor que no presépio de Grão-Mogol.
Mas tudo na vida é milagre. O fato de estarmos vivos é o milagre maior. Entretanto, o rosto de Cristo ser observado numa pedra lascada nada tem de extraordinário. No livro “O Homem e os seus Símbolos”, o psiquiatra e filósofo suíço, Carl Gustav Jung menciona o chamado “teste do borrão de tinta”, que serve de estímulo a “livres associações”.
O teste foi projetado pelo psiquiatra também suíço, Herman Rarschach, que explica: “Qualquer forma irregular e acidental é capaz de desencadear um processo associativo”, o que se pode aplicar ao caso da figura vista numa pedra lascada do presépio.
Ainda para citar Jung, conta ele no referido livro: “Leonardo da Vinci escreveu em seu caderno de notas: “Não ser difícil a você parar algumas vezes para olhar as manchas de uma parede, ou as cinzas de uma fogueira, ou as nuvens, a lama e outras coisas no gênero nos quais vai encontrar ideias verdadeiramente maravilhosas”.
A oportunidade de fazer esses tipos de associações está por todos os cantos de Grão-Mogol, onde até os liquens das pedras são convites ao devaneio, à meditação e às associações do tipo que o psiquiatra ensina. Afinal, Grão-Mogol ostenta o epíteto de “Cidade Presépio”.
Para breve o presépio receberá a visita do cardeal Dom Serafim Fernandes de Araújo, que se fará acompanhar dos vários bispos da região de Grão-Mogol e de Montes Claros. Essa visita, pode-se dizer será a consagração do presépio se for levado em conta que Dom Serafim, por ser cardeal, tem bom relacionamento no Vaticano, além de possuir autoridade eclesiástica para escolher o sucessor do Papa Bento XVI.
E por falar em Vaticano, o Papa vindo ao Brasil e a Minas Gerais (o governador Antônio Anastasia fez pessoalmente o convite a ele), quem poderá descartar uma possível ida dele a Grão-Mogol para conhecer o presépio?
Na pedra lascada, as pessoas enxergam um rosto; observe você também e conclua com os olhos do corpo e do espírito


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Por Alberto Sena - 12/3/2012 08:14:52
De como dona Elvira morreu

Alberto Sena

Não sei exatamente o porquê, mas hoje acordei com saudade de minha mãe. Uma pequena grande mulher, que, embora não possuísse dotes intelectuais expressivos, aprendeu tudo que sabia na vivência diária de mãe, com uma penca de filhos.
Lembrei-me dos olhos castanhos dela a me olhar, a me sondar, a me escarafunchar a alma querendo adivinhar, e adivinhando, o que se passava comigo. Surpreendi-a com o olhar prescrutador de mãe, o semblante diferente do costumeiro, entre sério e vaticinador. Perguntei o que ela pensava naquele momento e mãe desconversou-se.
Naquele dia eu estava de volta. Havia me transferido de Montes Claros para Belo Horizonte e aproveitei o pretexto do Dia das Mães para revê-la. Ela estava no quarto e eu fazia não sei o quê quando a vi olhar-me com aqueles olhos inquisidores que só as mães têm. No fundo, no fundo, eu sabia sobre o que mãe pensava. Por vontade dela, eu não teria saído de casa aos 22 anos para cumprir o meu destino na capital. Se dependesse dela, a minha saída de casa só aconteceria depois de casado, como se deu com os meus irmãos e irmãs.
Naquela época, fevereiro de 1971, Montes Claros parecia, ao contrário de hoje, uma cidade pequena demais para mim. Cada um dos amigos já havia ido atrás do seu próprio destino. Ficou em mim enorme sensação de vazio. As ruas da cidade não tinham mais nenhum atrativo. Tinha mesmo que ir-me embora. A maioria dos amigos viera para Belo Horizonte.
Soube depois que mãe não se conformara com a nossa separação. Talvez porque ela não estivesse em condição de compreender que filho é como passarinho, assim que ganha asas voa para cumprir o próprio destino traçado por Deus, sujeito ao livre arbítrio.
Trago na lembrança, muito vivamente, o olhar da minha mãe. E talvez tenha sido aquele olhar que me ajudou mais tarde a viver e a compreender aquilo que escreveu Gibran Kalil Gibran em “O Profeta”, livro cheio de sabedoria: “Vossos filhos não são vossos filhos; são filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma; vieram através de vós, mas não de vós; e embora vivam convosco, não vos pertencem”.
Kalil Gibran me ajudou muito a compreender a minha atitude ao deixar a casa de mãe. E me ajudou também a não alimentar sentimento de culpa porque, afinal de contas, eu estava cumprindo o que era o meu destino. Com o tempo, mãe se acostumou com a minha ausência física, porque a toda mão mantinha contato com ela por telefone e a visitava nas ocasiões festivas.
Mas o olhar dela jamais saiu da minha lembrança. Ela partiu já faz 27 anos. Morreu em Belo Horizonte, no Hospital Mater-Dei, o mesmo hospital em que há 25 anos nasceu o meu filho Pedro, em 15 de janeiro, dia em que meu pai morreu, em 1961.
Mãe morreu devido a um erro de diagnóstico. Quanto a isto não há a menor dúvida. O médico responsável pelo tratamento, cujo nome propositalmente omito, também já morreu. Ele era muito conhecido na capital. Tornou-se político influente e talvez a política tenha suplantado a competência dele no exercício da medicina.
O médico me disse, na ocasião, que estava estudando o caso da minha mãe. Ia curá-la, como afirmou com medicação a base de cortisona e que por isto “ela vai inchar um pouco, mas não é para se preocupar”. Acontece que mãe, ao contrário, começou a definhar, mas o abdômen sim ficou inchado. E ela reclamava de dores. Mãe voltou ao médico três vezes e ele disse: “Não se preocupe, é assim mesmo”.
Na quarta vez que tivemos de levá-la ao hospital, o médico não se encontrava lá. Ela foi atendida por outro profissional, que me disse, textualmente: “É preciso operá-la com urgência, senão ela morrerá; mas ela pode morrer também na mesa de operação”. Não havia alternativa.
Lembro-me bem: eu e a minha irmã mais nova acompanhamos mãe deitada na maca até à porta da ala onde ela foi operada. Dei-lhe o último beijo na face e fiz na testa dela o sinal da cruz. Mãe tinha olhar semelhante àquele que ela lançou-me pouco depois da minha partida para Belo Horizonte.
No dia seguinte, a notícia veio por telefone: “Venha para o hospital porque mãe não está bem”. Eu a encontrei no CTI e ela respirava com a ajuda de aparelho. Aliás, como pude verificar vida mesmo não havia mais naquele corpo miúdo, valente, fervoroso de mãe. A máquina é que comandava o movimento de abrir e fechar de boca, dando a impressão de que ela ainda respirava. Era Dia das Mães.


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Por Alberto Sena - 8/3/2012 14:11:51
Padre alemão visita presépio de Grão-Mogol

O padre alemão Dertram Princellius, da Arquidiocese de Berlim, visitou o Presépio Natural Mãos de Deus, de Grão-Mogol, Norte de Minas, e sugeriu inscrever a obra no Guiness Book, “porque é o maior do mundo e não há nada igual”. O padre é coordenador de uma forania em Perleberg, distrito de Prignitz, estado de Brandenburg, e segundo o construtor do presépio, economista e sociólogo Lúcio Bemquerer, “o padre ficou encantado e escreveu no livro de visitas: Presépio feito sob a inspiração divina”.
O padre alemão fez a visita ao presépio em companhia do monsenhor José Osanan de Almeida Maia, chanceler da Arquidiocese de Montes Claros, que também não conhecia a obra e se dizia impressionado. A visita de Princellius foi de dia. Ele celebrou, em seguida, uma missa na Matriz de Santo Antônio, em Grão-Mogol, e à noite, sob o clarão de uma bela lua cheia, ele voltou para ver a obra iluminada.
Segundo Lúcio Bemquerer, vários padres já foram ao presépio, inclusive estrangeiros, mas este é o primeiro padre alemão residente na Alemanha a visitar o presépio. Princellius tem 66 anos e sofre de artrose. Mas o problema de saúde não o impediu de subir e descer as passarelas do presépio. “Ele ficou impressionado com a beleza natural da lapa / manjedoura”, disse Bemquerer, que ouviu do religioso alemão ideias sugestivas para incremento do presépio.
Inaugurado em dezembro do ano passado, o presépio já recebeu quase 20 mil visitantes até hoje. Para breve, está prevista a visita do Cardeal Dom Serafim Fernandes, que será acompanhado por todos os bispos em atividade no Norte de Minas.


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Por Alberto Sena - 5/3/2012 08:54:04
“Amor na Zona”

Alberto Sena

Uma grande parte dos homens montes-clarenses hoje na faixa dos 50 anos de idade para cima iniciou vida sexual na zona boêmia de Montes Claros. Zona boêmia havia em profusão, na cidade, nas décadas derradeiras do século passado, antes, muito antes do advento dos motéis.
Falar de sexo naquela época era tabu. Hoje em dia, tudo mudou. A iniciação sexual da juventude acontece mais cedo diante da acessibilidade às informações a respeito de sexo, via TV, internet e outros veículos mais, que fizeram desaparecer do mapa a zona boêmia.
Tanto tempo depois daquelas incursões à zona boêmia de Montes Claros, que carregava o epíteto de “baixo meretrício”, quando na realidade era “um amor de zona”, com certa dose de glamour até, o montes-clarense Geraldo Maurício percebeu que, no mínimo seria interessante traçar nos dias atuais uma linha do tempo até àquela época do século passado, quando muitos senhores “bem casados” da sociedade montes-clarense eram assíduos frequentadores das “casas das mulheres” – Anália, Roxa, Zé Coco, entre outras tantas.
Foi com essa motivação que Geraldo Maurício coordenou outro livro, este considerado primo-irmão do primeiro – “Éramos felizes e sabíamos” – intitulado “Amor na zona”, no qual personalidades de Montes Claros, muitas delas ainda no meio de nós e outras pos-mortem, contam suas experiências na zona boêmia daquela época em que se amarrava cão com linguiça.
Trata-se de uma coletânea de histórias assinadas por Ademir Fialho, Augusto Vieira, Armênio Graça Filho, Alvarez, Darcy Ribeiro, Haroldo Tourinho, Hildeberto Mendes, Geraldo Maurício, João Vale Maurício, Marcos A. Pereira, Mario Ribeiro Filho, Mazinho Silva, Murilo Antunes, Paulo Henrique Souto, Raphael Reys, Tininho Silva, Virgínia de Paula e, para completar, dois textos de minha simplória autoria.
O livro debulha o tema sem saudosismo e de forma bem humorada, sem o uso de linguagem chula, mas com boa dose de romantismo, porque naquela época a zona boêmia era com frequência o fim da noite de muitos dos que viveram as transformações sofridas por Montes Claros até se tornar essa metrópole de meter medo, devido à violência trazida de fora, a partir da BR 251, que corta a cidade.
O livro está pronto. Tenho comigo um exemplar, e posso dizer que, afora a minha participação, a picardia, a beleza e o ineditismo das histórias vão aguçar a curiosidade de gerações de ontem e de hoje, não só de montes-clarenses, mas de modo geral, dos brasileiros, porque as lembranças da zona boemia ainda estão vivas, muito tempo depois do advento dos moteis e em meio à licenciosidade sexual.
Falta agora só definir o local, o dia e o horário do lançamento do livro, em Belo Horizonte e Montes Claros. Para manter as características da abordagem, o lançamento deverá ser em algum lugar o mais próximo possível da compatibilidade do tema. Em seguida, o livro será lançado em outras praças.
O tema é instigante, despertará a curiosidade e o interesse de leitura da parte de homens e de mulheres, indistintamente.
Na época retratada nas 127 páginas do livro, “as moças de família” tinham curiosidade de saber como era a zona boêmia tão decantada em prosa, versos e outras maneiras mais que ouviam dizer e eram proibidas até de se aproximar do lugar.
Algumas delas devem ter conseguido satisfazer a curiosidade, é possível, antes do desaparecimento da zona boêmia. As que não tiveram a mesma sorte poderão, enfim, se satisfazer lendo o livro “Amor na Zona”, com prefácio do escritor Augusto Vieira, o Augustão Bala-Doce. Li o livro de cabo a rabo e posso dizer que tem tudo para ser sucesso de público, o tema é incomum. As histórias contadas pelos 18 autores são curtas e de leitura fácil porque simples. A coletânea, além de atrativa para leitores de todos os níveis e idades, é um prato cheio para sexólogos, sociólogos, antropólogos e quem mais queira pesquisar, estudar ou mesmo se divertir com os casos contados por respeitados senhores montes-clarenses, que ajudaram a transformar Montes Claros.
Lançamento em breve.


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Por Alberto Sena - 27/2/2012 08:34:27
Facebook perde a magia

Alberto Sena

Grande parte dos amigos no facebook é de Montes Claros. É possível que uns discordem e outros concordem, montes-clarense ou não: o facebook perde a magia. Deixou de ser novidade. No início, causou frisson, talvez pela curiosidade em relação à novidade, e se poderá até dizer, pela possibilidade de reencontrar, ao menos virtualmente, pessoas sobre as quais não se tinha notícia do paradeiro. Pessoas que passaram por sua vida da mesma forma como você passou pela vida delas. Mas reencontrar o fio da meada perdido depois de tanto tempo, trazer o passado para o presente pode vir a ser algo inócuo.
No primeiro momento, cada um mostrar o que anda fazendo ou mesmo dedicar preciosos minutos em bate-papos com amigos virtuais, postar comentários, fotos, vídeos etc. tudo isto foi e ainda é bom, diverte. Mas não tem mais o gostinho especial da novidade, quando era expectante “entrar no facebook”.
Com o passar dos dias, observando essa ferramenta da rede social, se pôde descobrir que é uma maneira de as pessoas massagearem o próprio ego e o ego dos outros. Quem aderiu à rede há mais tempo, se ainda não se despertou para o detalhe, poderá verificar, daqui para frente: a afluência diária das pessoas ao facebook caiu.
A situação ficou no seguinte pé, conforme se pode depreender do comportamento humano: “O importante é o que eu posto na rede; importa só que leiam ou vejam o que postei e façam comentários a respeito; assim o meu ego infla feito balão”.
O que o outro, “o amigo ‘facebuquiano’ postou não importa”. Quando muito, ganha um “curtir”. Com uma ressalva: quem clica em “curtir” não quer dizer que leu ou viu o material postado. Até pode acontecer de ler ou ver e ao invés de comentar preferiu só clicar no “curtir”. Pode ser.
Acontece com frequência de clicarem em “curtir” só para, como se diz, “fazer média”. Na realidade, além de um exercício de egocentrismo, o facebook vai levando as pessoas a exercitarem outros comportamentos também.
Há quem realmente lê ou vê o que os outros postam. Mas o número dessas pessoas diminuiu com o passar dos dias. E o fato de serem poucos os que fazem isto, é possível identificá-los e contá-los nos dedos de uma das mãos.
Outra coisa observada hoje no facebook: se antes a rede foi usada para mobilizar pessoas em torno de ações sociais de relevância, o que se vê agora, com exceções, são inserções irrelevantes, que denunciam a mediocridade do que circula nos meandros da massa encefálica.
Antes, o facebook chegou até a despertar expectativa semelhante a daquela criança, que, estimulada pela possibilidade de uma novidade guardada para o dia seguinte, dorme mais cedo para a noite passar logo e ela ganhar o presente. Em outras palavras, o facebook, para muita gente, chegou a ser quase paixão, cujo vigor se esvaiu com o tempo e a ferramenta se torna agora simples companheira.
Para dar um exemplo prático, tomemos a questão da corrupção. Houve – e isto é preciso realçar – reação vigorosa contra a corrupção, no âmbito do facebook, mas hoje pouco se age contra esse cancro da sociedade brasileira, responsável por problemas em cadeia, à medida que políticos, empresários etc., se apossam do dinheiro público.
Pior: o dinheiro furtado não volta aos cofres públicos. E precisamos exigir o ressarcimento do que foi furtado, corrigido. Notícias são publicadas, o valor do furto é anunciado, mas o dinheiro desaparece feito fumaça, o que leva as pessoas mal intencionadas a concluírem, diferentemente de outros tempos, quando se cunhou a frase, “o crime (não) compensa”. Isto é muito triste.
Posso suscitar com esta catilinária reações dos amigos “facebuquianos” as mais diversas. E se de fato isto acontecer consideremos como “uma novidade”. Ninguém é obrigado a concordar com as elucubrações dos outros, mas o marasmo poderá ser constatado a partir de um “tour” pelas postagens nas páginas do facebook.
Particularmente, opto por gerar consequências. Evidentemente, quero que as pessoas leiam o que posto e comentem. “Curtir” somente pode ser interpretado como “desinteresse?” Pode e não pode.
Gosto de curtir o que os outros postam, mas gosto também de fazer comentários. Em verdade, os comentários são o tempero, a pimenta, o azeite e os demais condimentos que poderão resgatar a magia do facebook; magia que se perde.


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Por Alberto Sena - 22/2/2012 10:06:12

Morro Dois Irmãos em questão

Alberto Sena

Nesta quinta-feira, 23, quando o País já deverá estar refeito da rebordosa do carnaval, em Montes Claros membros do Conselho de Política Ambiental (Copam) farão uma reunião técnica para examinar o pedido da Lafarge (antes Matsulfur) de operar em área próxima ao símbolo da cidade, o Morro Dois Irmãos. Mas uma resposta só deverá ser dada depois que os conselheiros representantes da Semma, MP, Fiemg e Ongs, que pediram vistas ao processo, já tiveram uma opinião formada sobre o pedido da indústria.
Munido de fotos aéreas, Eduardo Gomes, coordenador técnico do Instituto Grande Sertão, de Montes Claros, confirma a degradação do símbolo da cidade, particularmente o menor do Morro Dois Irmãos, degradação denunciada pelo paleontólogo, advogado e escritor Leonardo Álvares da Silva Campos. A exploração cimenteira destruiu um quarto do morro, já faz 20 anos.
Agora, por meio do processo Nº 00380884/2012, deu entrada na Superintendência Regional de Regularização Ambiental (Supram) de Montes Claros pedido de licença de lavra do último vizinho ao Morro Dois Irmãos, e em virtude disto, há o receio de que a Lafarge retome a exploração no menor deles, segundo mensagem Nº 70388, de 11 de fevereiro, publicada neste montesclaraos.com.
“Vale lembrar” – disse Gomes – “que em 1993, quando a ainda Matsulfur fez o primeiro Eia / Rima da indústria, houve audiência pública na Câmara Municipal e a preservação das feições do Morro Dois Irmãos, no mínimo sua visibilidade da cidade com o aspecto de símbolo”, foi uma das garantias.
Segundo informou ele, em 2007 o processo foi aprovado “com a condicionante de criar uma reserva, no prazo de 24 meses, o que não aconteceu até hoje”. Gomes afirma: “O Estado foi conivente com a falha da empresa, contra a qual caberia, inclusive, uma autuação e um processo no Ministério Público; mas passaram por cima de tudo, e agora, ela veio com novo processo de licenciamento, sem cumprir as determinações anteriores”.
Como se poderá observar em fotos aéreas feitas por Gomes, o Morro (o menor) Dois Irmãos se encontra nessa situação faz 20 anos, com um quarto dele explorado. “Não houve avanço” – disse – “quer dizer, como está ainda temos a possibilidade de preservação do que restou do símbolo da cidade”.
A escritora Virginia Abreu de Paula, da Academia Feminina de Letras de Montes Claros, conta que a fábrica de cimento foi inaugurada em 1969, na gestão do prefeito Toninho Rebello. “A autorização foi dada no mandato do prefeito Pedro Santos”, disse ela. E apresentou o Decreto Nº 57165, de 04 de novembro de 1965, que “autoriza a Companhia Materiais Sulfurosos Matsulfur a Pesquisar Calcário no Município de Montes Claros, Estado de Minas Gerais”. O ato foi publicado no Diário Oficial da União (DOU) número 57165, de 08 de Novembro de 1965. “Quero saber quem eram os vereadores e se existe algum registro deste dia na Câmara Municipal”, disse Virgínia.
Ela se recorda muito bem “do susto que levamos ao saber que isso aconteceria”. A família estava à mesa de jantar quando soube da notícia e o pai dela, Hermes de Paula, saiu para buscar informações. Ao voltar, ele já estava mais tranquilo, mas “penso que meu querido pai, com toda sua sapiência, era facilmente ludibriado”. Ele chegou dizendo que a mineração não afetaria o Morro Dois Irmãos.
O Grupo Lafarge é francês e chegou ao Brasil em 1959, conforme informa o site da indústria, que tem como slogan “Matéria-prima para a vida”, com a inauguração da fábrica de cimento de Matozinhos (MG). A empresa se foi consolidando “no mercado brasileiro e construiu uma trajetória marcada pela capacidade empreendedora e pelo compromisso com o desenvolvimento sustentável”.
Lafarge possui sete unidades da divisão Cimento no Brasil, além de Matozinhos: Arcos, Santa Luzia, Montes Claros (MG); Caaporã (PB), Candeias (BA), Cantagalo (RJ) e Cocalzinho (GO)
Ainda conforme o site da empresa, “o Cimento Montes Claros é líder absoluto no norte de Minas Gerais e comercializado também na Bahia, é reconhecido como componente ideal para todos os tipos de obras, especialmente as que necessitem apresentar maior resistência e durabilidade”.
Considerando que “desenvolvimento sustentável” é uma das prioridades da empresa, a questão do Morro Dois Irmãos se apresenta como uma boa oportunidade para a Lafarge demonstrar, na prática, coerência em relação ao seu slogan.


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Por Alberto Sena - 15/2/2012 11:00:26
O símbolo virou casquinha?!

Alberto Sena

“O Morro Dois Irmãos será como o Pico do Itabirito, em Itabira (MG), apenas um retrato na parede”. Foi o que a jornalista, cronista e médica Mara Narciso disse ao acompanhar os textos publicados neste montesclaros.com e no Facebook sobre o que acontece com o símbolo de Montes Claros. “Nosso símbolo virou isso”, ela completou.
Para Mara Narciso, “quem pode fazer não faz por não querer ou por ter interesses monetários; e assim vamos vendo a desfiguração da nossa paisagem”. Ela lembrou que na década de 1970 “era o progresso, a glória, a industrialização, os empregos, o nome de Montes Claros sendo levado para o Brasil inteiro. Agora ficamos com a ferida, e os dólares se foram. A poluição deve ter matado de silicose um bocado de gente, e a degradação ambiental e a vergonha ficaram a nos espiar, a nos acusar de omissos, de cegos e idiotas. Estou envergonhada e nem sei por onde começar”.
Ao final, ela considerou “bom tema” este, jornalisticamente falando. Como repórter, Mara sabe avaliar bem uma boa pauta, mas além de ser isto ou aquilo, o mais importante é que o clamor tenha conseqüências. Se a mineração rói o Morro Dois Irmãos, feito rato rói o queijo, é porque “alguém” autorizou. Os empresários não seriam doidos ao ponto de agir ali de madrugada, em surdina.
É preciso questionar as autoridades de Montes Claros, e é o que fazemos neste momento, a partir da Prefeitura Municipal, Secretaria de Meio Ambiente, ambientalistas, poetas, gente simples do povo e o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) e quem mais tiver envolvimento nisto: quem autorizou os empresários a minerar no Morro Dois Irmãos? Isto, no mínimo, vale uma verificação, uma investigação.
“Ao menos os sonhos não morrem”, foi com essa frase que o paleontólogo, jornalista e escritor Leonardo Campos encerrou a catilinária romana em resposta à pergunta: “Como Montes Claros deixou isto acontecer?!" Disse ele: “Capitalismo selvagem, respondo eu. Se, quando o morro era devorado por trás, a fábrica gerava empregos diretos e indiretos, havia arrecadação a alimentar a obesidade do Estado, nós, preservacionistas, só víamos aquilo, impotentes. Eu mesmo denunciei o fato, diversas vezes, no jornal “O Diário de M. Claros”, até cansar. Os poetas, Alberto, os sentimentais, estão ficando em desuso, ou perdendo seu prazo de validade. Importante, no contexto geral de uma sociedade, é encher as burras de dinheiro, mormente em Montes Claros, onde grassam e se multiplicam como bactérias os colunistas sociais. Que se atropelem tudo, que tudo venha abaixo, como o Colégio Diocesano, o mercado velho, a casa de d. Eva, a sede antiga do Colégio Imaculada, desde que concomitantemente o dinheiro traga sorrisos e muito gáudio aos potentados, não tendo nenhuma força a voz dos sonhadores. Alberto Sena, Virgínia de Paula... Montes Claros assim se transforma: o forasteirismo descompromissado com nossas melhores tradições, sempre abocanhando um naco delas, como prova o Morro Dois Irmãos: só restou a casca da frente; o interior lindo virou cimento para construir novos espigões insentimentais, “ad perpetuam”.
A escritora Virginia Abreu de Paula, cujo pai, Hermes de Paula, é apontado pelo poeta e escritor Wanderlino Arruda como um dos “construtores de Montes Claros” acercou-se da roda do Facebook para dizer: “Pelo visto, assim como temos o livro “Construtores de Montes Claros”, seria importante editar um livro sobre “Os Destruidores de Montes Claros”, com fotos na capa.
Às voltas com os seus botões, Virgínia fica “pensando se não seria hora de se criar aqui uma sociedade de amigos da cidade, que realmente tivesse a função de trabalhar pela preservação do que ainda resta; não podemos desistir”.
Virgínia já tomou a iniciativa de enviar cópia do texto anterior ao Eduardo Gomes, do Instituto Grande Sertão, que encabeçou o pedido de tombamento da Serra com o Morro Dois Irmãos. “Sei que há pessoas lá dentro do conselho que nos apoiam, que têm real interesse. Não podemos dar por perdida essa causa porque ainda temos munição”, ela disse.
Pessoalmente, achei boa essa ideia de se criar uma “Sociedade dos Amigos de Montes Claros” para ajudar a frear a ação dos destruidores da nossa cidade e da região. Um livro sobre os destruidores também vale a gente pensar com o maior carinho. Como destruidores, eles também merecem figurar em livro tanto quanto os construtores. As diferenças entre uns e outros não são uma mera questão semântica.
Entretanto, ponho o tino jornalístico em funcionamento e concluo: no momento, o melhor a fazer é visitar o Morro Dois Irmãos, sacar fotos dele de todos os lados, filmá-lo. Se não aparecer ninguém que em Montes Claros esteja para fazer isto, irei aí exclusivamente para visitar o morro, porque, confesso, estou envergonhadíssimo. Achava que o morro (os dois) estava preservado, intocado. E tudo aconteceu e não ouvi nenhum clamor da imprensa de Montes Claros e de lugar nenhum contra essa agressão, esse desrespeito contra o símbolo da cidade.


70419
Por Alberto Sena - 14/2/2012 10:17:43
Morro Dois Irmãos pede socorro

Alberto Sena

Debruçado no parapeito da janela, inocentemente, pensava ter alertado os montes-clarenses que ficaram quanto à necessidade de proteger da sanha mineraria o Morro Dois Irmãos, símbolo de Montes Claros, quando fui surpreendido pelo comentário do paleontólogo, advogado e escritor Leonardo Álvares da Silva Campos, no âmbito do Facebook, que me permito transcrever, achando que, em assim fazendo, estamos iniciando uma discussão sobre a terrível degradação do nosso patrimônio; mais, o símbolo de Montes Claros.
Disse Leonardo Campos, autor do livro “A Inacabada Família Humana”, o que para mim, confesso, foi estarrecedor: “Infelizmente, Alberto, a coisa não está “mexida”, mas arrombada. Vendo o Morro Dois Irmãos por trás, a impressão que se tem é a de dois dentes com cáries na face oculta. Ou seja, o Dois Irmãos são uma dupla de casquinhas, para quem os vê da cidade, nada mais. Como está, nem com cirurgia “dentária”, eis que sua formação data do pré-cambriano superior, equivalendo eu dizer que sua idade é de 600/700 milhões de anos. Enfim, o que não tem remédio, remediado está”.
Em seguida respondi a ele declarando minha total ignorância em matéria de preservação do Morro Dois Irmãos: “‎Como Montes Claros deixou isto acontecer?! Fico espantado diante da inércia dos montes-clarenses que ficaram lá, Leonardo. Suas informações são gravíssimas, em minha opinião. Como que os poetas, os ambientalistas e as autoridades do setor ambiental deixaram isto acontecer? Foi em surdina? De madrugada? Ninguém viu?”
Nisto, a escritora Virgínia Abreu de Paula, da Academia Feminina de Letras de Montes Claros, em incursão pelo Facebook, pôs mais combustível na conversa que, sinceramente, espero, seja semelhante à água morro abaixo e ao fogo morro acima.
“Um grupo de pessoas”- disse Virgínia – “deu entrada a pedido de tombamento de toda a Serra dos Montes Claros, incluindo os Dois Irmãos. Esperemos que nosso Conselho do Patrimônio Histórico volte logo a funcionar e atenda nosso pedido.
“Uma coisa é certa: uma vez feito o pedido não poderiam fazer nada contra o local enquanto o Conselho não der seu parecer. Assim é a lei. Mas, quando fiz o pedido de tombamento do Ginásio Diocesano, ele veio abaixo sem o menor problema. O pedido não foi levado a sério. Eu acredito que este pedido referente a Serra será acatado. Mas é bom investigar. Como deixamos isso acontecer? Bem, não são muitos os montes-clarenses que dão valor a patrimônio histórico e à natureza. O dinheiro fala mais alto. Além disto, há muita informação errada. Eu, pelo menos, tinha certeza que o Morro Dois Irmãos estava tombado. Lembro de meu irmão conversando sobre isso, muito confiante que a Matsulfur ia parar com sua destruição. Mas, assim como eu estava enganada muitos outros também estavam. Pensando que o Morro estava a salvo, nada fizemos. No ano passado fiquei sabendo que a destruição continua. Quando trabalhei na Fábrica de Cimento tinha remorso por estar participando de uma firma que estava destruindo minha cidade. Não aguentei ficar mais de dez meses e foi este um dos motivos. Alguém conhece a poesia “O Morro Morrendo?” É sobre o Dois Irmãos. De autoria de Walmor, meu irmão. E vejo aí outra explicação para que a coisa tenha chegado a esse ponto. Geralmente, os sensíveis não são bons para tomar providencias. Não sabem o que fazer. Escrevem poesias, crônicas sentidas, compõem músicas em defesa deste e daquele lugar. Mas não conseguem ir á luta de fato para impedir os abusos. Gente, ainda é hora. Leonardo, não é verdade que não há jeito, que “o que não tem remédio remediado está”. Podemos salvar nosso símbolo se realmente nos empenharmos. Me ajudem a cobrar do Conselho uma resposta favorável. A cobrar que a lei do tombamento seja respeitada. Um pedido com várias assinaturas foi entregue ao secretário de Cultura Ildeu Braúna. Vamos todos ligar para lá e saber o andamento disto”.
Aos montes-clarenses ausentes e aos montes-clarenses que ficaram, principalmente à mídia local, o desafio está posto. Alternativa é uma só. Opções são duas. Ou salvemos o nosso símbolo agora, ou amargaremos em pouco tempo o peso da nossa omissão.
Leonardo, Virgínia, Simone, esta autora da mensagem Nº 70388, de 11 de fevereiro de 2012, publicada no montesclaros.com, que fez a denúncia baseada no fato de já ter dado entrada na Supram de Montes Claros, o processo Nº 00380884/2012, com pedido de licença de lavra do último vizinho ao Morro Dois Irmãos; e eu, jornalista montes-clarense radicado em Belo Horizonte, nós achamos que Montes Claros, se a cidade em união quiser poderá salvar o Morro Dois Irmãos da destruição. Antes agir tarde do que mais tarde.


70408
Por Alberto Sena - 13/2/2012 10:39:24
Poetas e ambientalistas uni-vos

Alberto Sena

“O Morro Dois Irmãos (complexo da Serra do Melo ou Ibituruna) poderá ser parcialmente destruído”. A denúncia abre a mensagem Nº 70388, de 11 de fevereiro de 2012, publicada no montesclaros.com, assinada por Simone. Ela faz a denúncia baseada no fato de já ter dado entrada na Supram de Montes Claros, o processo Nº 00380884/2012, com pedido de licença de lavra do último vizinho ao Morro Dois Irmãos.
O Morro Dois Irmãos, o símbolo de Montes Claros, lembra as pirâmides do Egito, uma ao lado da outra. Pensando bem, e se forem mesmo pirâmides como se pode observar por meio desta bela fotografia que estamos vendo agora, assinada por Vinícius Queiroga, imagem selecionada para o Google Earth?
Nesta perspectiva, se pode dizer também que o Morro Dois Irmãos se parece com os seios da terra do semi-árido. E se forem mesmo os seios da terra do semi-árido, além da necessidade de preservá-los a qualquer custo seria também o caso de mudar-lhes o nome? Ao invés de “Dois Irmãos” passaria a ser chamado “Morro Duas Irmãs”, porque se parecem com dois seios. Certo?
Errado. Estamos ocupados com a defesa de um morro, que, em verdade são dois, ambos investidos da força de um símbolo para uma cidade da grandeza de Montes Claros. Mexer num só fio telúrico do Morro Dois Irmãos devia ser a mesma coisa que mexer com os brios dos montes-clarenses de modo geral.
Deveria ser a mesma coisa que rasgar e queimar a bandeira de Montes Claros em praça pública. Ou senão apagar para sempre da memória dos montes-clarenses o hino da cidade, ou a canção “Amo-te muito”, de João Chaves.
Em símbolo não se mexe.
Nós já vimos muita coisa acontecer em Montes Claros, embora nem sejamos tão antigos assim. É que o progresso se acelerou de tal forma que nem se pode fazer uma comparação do que era com o que é hoje a cidade. Vimos o município alcançar as eras socioeconômicas do comércio de gado bovino ao carvão vegetal e ao algodão que o bicudo do algodoeiro comprometeu. Do comércio como cidade polo à cidade industrial e cultural da região. Todas as fases tiveram, e porque ainda persistem cada uma ao seu modo, têm ainda os seus lados positivos e negativos; uns mais negativos do que os outros e vice-versa.
Montes Claros e o Norte de Minas de modo geral entram noutro momento neste século XXI: a era mineraria. Trata-se de uma atividade devastadora, mais devastadora do que as outras atividades econômicas juntas, que, aos trancos e arrancos, fizeram o desenvolvimento de Montes Claros.
A mineração, além de devastadora é voraz sob todos os aspectos, porque ela chega com o poder dos dólares e se acerca de tudo. As áreas onde a mineração atua se assemelham a laranjas antes e depois de chupada até o bagaço.
Foi o que as Minerações Brasileiras Reunidas (MBR), hoje Vale do Rio Doce, surgida durante a ditadura militar, fez ao quase destruir o principal cartão postal de Belo Horizonte, a Serra do Curral. Foi preciso denunciar que a mineradora tinha planos de minerar na serra ao ponto de rebaixá-la ao nível da Praça Rui Barbosa (Estação Ferroviária).
Um estudo da Fundação João Pinheiro feito, à época, alertava para o perigo, e então publicamos no jornal Estado de Minas uma reportagem editada por Roberto Drummond, que deu o seguinte título: “Sou gente-serra e eu hoje solto meu grito: estão me matando”. A partir desta denúncia e de outras que se seguiram, o poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu o poema “Triste Horizonte”, e a MBR buscou tecnologia (por bancadas) menos degradante para preservar a fachada da serra vista pelos belo-horizontinos, porque do lado de Nova Lima ficou enorme buraco de mais de 200m de profundidade, que se vai enchendo d’água para virar um grande lago.
A Serra do Curral é um símbolo para Belo Horizonte tanto quanto o Morro Dois Irmãos o é para Montes Claros. A mineração costuma utilizar da tática do rato que come o queijo a partir das beiradas. Se o último vizinho do Morro Dois Irmãos já tem pedido de exploração, e sabendo da condescendência das autoridades, que os montes-clarenses fiquem de prontidão.
Que ninguém ouse tocar nos seios maternos do semi-árido. Poetas de Montes Claros socorram o Morro Dois Irmãos, como Drummond fez ao defender o símbolo dos belo-horizontinos. A força, a leveza e a beleza da poesia são fulminantes.
Portanto, poetas e ambientalistas uni-vos.


70404
Por Alberto Sena - 13/2/2012 09:15:52
Lembranças do tio Severo

Alberto Sena

Ele se recordou da infância, e foi como se tudo estivesse acontecendo novamente, mas não com a mesma afluência e nitidez como quando viveu mais de meio século atrás. Viu-se então sentado no chão da cozinha. Empurrava um carrinho de carretéis vazios, desses usados para linha de costura, com direito a todos os ruídos próprios dos carrinhos de brinquedo, ruídos produzidos na garganta, com ajuda da língua e dos lábios, costume que as crianças de hoje achariam no mínimo ridículo. A mãe dele junto ao fogão a lenha estava às voltas com os preparativos do almoço. No fogão ardiam as rachas de lenha que ele havia trazido nos braços escalavrados, compradas de um vendedor próximo de sua casa. No momento em que um passarinho que ele ouvia, mas nunca o via, cantou um canto mais ou menos parecido com “fii-fiii”, a mãe dele pensou em voz alta, antes de assoprar as rachas de lenha para aumentar as chamas do fogão:
_ Quando esse passarinho canta é porque vai chegar alguém.
_ Quem? Ele perguntou.
_ Não sei – a mãe respondeu.
Sempre que ela dizia isto geralmente acontecia de chegar alguém, mas era improvável a relação entre a chegada de alguém e o canto do passarinho. Muitas das vezes quem chegava era o irmão mais novo dela, Severo chamado, uma pessoa querida, boníssima, tímida, cujos pés eram virados para os lados, à moda Chaplin, o que lhe dificultava o andar.
Como sobrinho, ele amava o tio, que quando chegava de Jequitaí (MG), sempre trazia algum presente ou mesmo dava dinheiro “para você comprar o que quiser e o dinheiro der”.
Quando o tio chegava, alguém tinha de ceder-lhe a cama. E isto sempre sobrava para ele, ainda mais porque o tio era também o seu padrinho de batismo.
O tio tinha o costume de assoar o nariz à mesa, bem no meio da refeição, enquanto todos almoçavam ou jantavam. Naquela época eram quatro as refeições diárias, contando com os cafés da manhã e do “meio-dia”, este nunca servido antes das 2h.
A calma do tio, pelo que pôde observar muito depois, já adulto, era aparente. Embora nunca o tivesse visto demonstrando o nervosismo latente, soube que ele tentara tirar carteira de motorista seis vezes consecutivas, sem sucesso. Só conseguiu na sétima vez.
Talvez ele não fosse tão nervoso assim. Os pés dele possivelmente o impedissem de mostrar ao instrutor que já sabia dirigir bem, mas na hora de provar, se enrolava com freio, embreagem e acelerador.
O tio era exímio contador de piadas. Quem o visse contando uma piada não seria capaz de imaginar ser ele tão tímido. Uma vez, o tio contou a piada dos loucos que cismaram que eram jacas ainda na jaqueira. Todo dia um subia na árvore enquanto os outros gritavam lá de baixo: “Amadureceu”. E a jaca despencava lá de cima.
Essa piada contada desse jeito não tem a menor graça. Pelo contrário, isto era no mínimo uma tragédia diária, se de fato fosse verdade. Mas era só piada e contada pelo tio, com “misancene” ou mise-en-scéne, era de fazer as pessoas rirem até a barriga doer. Aquela pantomima parecia ao sobrinho e aos demais, o que havia de mais engraçado.
Mas havia uma terceira coisa no tio que o sobrinho e afilhado observava: o pito de cigarro de palha. Quando ele acendia o tal cigarro, com uma binga, o ambiente ficava com o cheiro do fumo de rolo. E ele costumava fumar o cigarro de palha dentro do quarto.
Evidentemente, as lembranças pululam na memória como simples reações naturais de uma criança, e só a essa fase as recordações devem ser creditadas. Crianças têm maneiras e maneiras de interpretar o mundo ao seu redor.
Se fosse hoje, se o tio entrasse por aquela porta, o sobrinho e afilhado o receberia com forte abraço e muita emoção. As lembranças a essa altura da vida, seriam motes de piadas contadas ao modo dele, o mais tímido e o mais engraçado contador de piadas. Para o sobrinho, o tio só não era melhor do que Oscarito, Grande Otelo e Zé Trindade, em voga na época.
Para compará-lo com alguém dos dias atuais, com uma dose de exagero, o tio podia quase se igualar a Chico Anísio, insuperável comediante que luta pela vida numa cama de hospital. Pena que naquela época não havia televisão. E o rádio nem tempo teve de descobrir o tio Severo Sena Leite, que foi, sem ter sido, grande humorista.


70339
Por Alberto Sena - 6/2/2012 09:30:50
Revolução armada na madrugada

Alberto Sena

Há fortes indícios de que eles estejam se organizando, cada madrugada um pouco mais, para lançar um movimento de guerrilha revolucionário. Nós pudemos constatar isto na noite passada, quando eles se reuniram na frente do nosso prédio, para discutir, certamente, um posicionamento quanto à estratégia de ação.
Não temos notícia se os mesmos indícios ocorrem também em Montes Claros, mas aqui, num raio de 200m ao redor de onde eles se reuniram ninguém dormiu na noite de sexta-feira para sábado.
Não dá para dizer ao certo, mas em cálculo por baixo, eles não são menos de 30 integrantes barulhentos. E porque fazem barulho, as pessoas já estão com medo deles. Vimos o grupo crescer de pouco em pouco e achamos que eles vão crescer mais em número e podem se transformar num exército apátrida. É só esperar para ver.
Da nossa janela, no meio da madrugada, enquanto eles estavam lá na rua, em algazarra infernal, se é que lá no inferno seja também assim, cada um querendo se expressar mais alto do que o outro, pudemos ver que são tipos heterogêneos.
Cada um quer impor a sua ideologia e se manifesta atabalhoadamente, de modo contundente, um querendo sobrepujar o outro. Mas já dá para notar um líder no meio deles.
Achamos que se a reunião deles fosse de dia, ninguém ajuizado ousaria passar próximo do grupo sem correr o risco de sofrer algum tipo de violência. Não dá para confiar em nenhum deles estando em grupo. Esfomeados, o poder de fogo deles aumenta consideravelmente, e é aí onde mora o perigo.
A impressão é de que se alguém for contra o grupo, a possibilidade de uma reação da parte deles será imediata. E é preciso considerar que nada têm a perder e nós temos tudo a perder porque eles podem ser capazes de fazer qualquer coisa esfomeados como estão e em grupo composto de cerca de 30 integrantes.
Além do mais, porque não têm residência fixa, nem recebem assistência alguma, eles vivem perambulando pelas ruas ao deus dará e a essa altura se transformaram em tipos que podem ser hospedeiros de doenças transmissíveis. Para frear essa insipiente organização revolucionária será necessário as autoridades agirem rápido, se é que ainda resta tempo.
Sabendo que as autoridades são lentas para tomar atitude em questões dessa natureza, se eles não forem contidos, o risco ao sair de casa e com eles dar de cara é grande de dia e maior à noite. A ferocidade está na cara de cada um. Quando mostram os dentes, não estão simplesmente sorrindo, estão mostrando o que são capazes. Que ninguém se engane quanto a isto.
Eles não vestem farda de exército revolucionário. Cada um é diferente do outro. O que os une, pelo que pudemos constatar, é o fato de viverem na rua e se encontrarem em meio à madrugada, enquanto a cidade dorme.
Nós não temos meios para detê-los. O máximo que podemos fazer é o que fazemos agora. Lançamos este alerta às autoridades a fim de tomarem uma providência o quanto antes, dentro do princípio de que é melhor prevenir do que remediar.
As autoridades costumam tomar providências tarde demais contra os perigos que nos cercam; quando fazem alguma coisa é depois que há vítimas fatais. Por enquanto não há notícia de que eles já fizeram alguma vítima. Mesmo porque ainda estão em fase de organização. E o temor é justamente este: organizados, eles poderão ser mais perigosos do que os lobos das estepes de Hermann Hesse.
Mas de lobos eles nada têm. São cães abandonados, que ninguém quer cuidar deles, nem as autoridades. Se os direitos humanos são solapados, os dos animais nem se fala. Esses cerca de 30 passam as noites se juntando uns aos outros, formam uma matilha de meter medo. Só vendo para crer. Alguém já imaginou do que eles serão capazes se acontecer de serem liderados por um cão com mais sapiência canina?
De dia, escondem-se em lugar incerto e não sabido. Dispersam-se. Mas à noite, como é o caso agora, já podemos ouvi-los ladrar como se estivessem convocando os demais para nova assembleia legislativa, quer dizer, deliberativa.
Somos a favor deles. Este texto é uma prova disto. Discordamos do modus operandi. Entretanto, pressentimos, o estouro de uma revolução dos bichos, de George Orwell é iminente, a partir do movimento guerrilheiro dos cães abandonados. Quem viver vai morrer de medo.


70278
Por Alberto Sena - 30/1/2012 08:50:44
Superlativo presépio

Alberto Sena

A superlatividade do Presépio Natural Mãos de Deus, de Grão-Mogol, no Norte de Minas, medida por meio de um livro de registro de visitas, de cem páginas, cada uma delas com 32 assinaturas e comentários variados, quase todos superlativos, realmente impressiona.
Da inauguração, em nove de dezembro de 2011, até hoje, o presépio já foi visitado por quase dez mil pessoas da região, de outras cidades mineiras, de estados como São Paulo, Goiás e Mato Grosso, e até gente do exterior, França e Suíça, atraída por mais este atrativo de Grão-Mogol.
O referido livro de registros é uma peça importante como fonte para que seja contada a história dessa obra sem precedentes no mundo. Nas páginas dele pululam nomes, localidades de origem e os adjetivos mais superlativos saídos do coração e da alma dessa gente fervorosa, crente em Deus, na pessoa do Menino Jesus.
Quem ainda não foi lá ver para crer, como precisou fazer o apóstolo Tomé, em relação à ressurreição de Jesus, devia ir o quanto antes a fim de sentir a energia emanada do lugar, que desde milhões de anos atrás era só “um amontoado de pedras sobre pedras em harmonioso desalinho”, como diz o economista e sociólogo Lúcio Bemquerer. Ele, que em oito meses criou, com recursos próprios, a infraestrutura necessária à visitação ao presépio.
Téo Azevedo, de Alto Belo (MG), folclorista, repentista, poeta, autor de vários livros, célebre defensor do pequizeiro e da preservação do cerrado, ficou encantado com a grandeza e a beleza do presépio que, de dia, como geralmente dizem os visitantes, “é muito bonito”, e à noite “é lindo demais” devido às luzes que dão às pessoas a sensação de estarem na região da Galileia, no Oriente Médio.
“Uma ideia peculiar, que manteve a religiosidade do povo de Grão-Mogol, além de conservar a tendência pedrelina da região”, registrou o empresário Iran Rêgo, de Montes Claros, que visitou a obra em companhia da família. Bispos e padres da igreja católica; pastores evangélicos; estudantes universitários, jovens como o filho do jogador Montillo, do Cruzeiro, muita gente já esteve lá, e a tendência da afluência é aumentar.
“Maravilhoso” e “espetacular” são adjetivos campeões dos comentários dos visitantes, juntamente com “fantástico”, “inacreditável” e “deslumbrante”. Rita Buéri, de Francisco Sá (MG), escreveu: “Que esta obra seja suficiente para tocar no coração das pessoas e despertá-las para o grande amor de Deus para conosco”.
Em tempo cibernético, quando as pessoas se mergulham no individualismo, porta para o hedonismo, o presépio é visto como uma maneira iluminada de comemorar, em qualquer época do ano, de dia ou à noite, o nascimento do Menino Deus, há mais de dois mil anos ressuscitado, conforme creem os cristãos.
Grão-Mogol possui intrinsecamente particularidades que a tornam cidade única no mundo, histórica tanto quanto Ouro Preto, Diamantina, Mariana, Sabará e outras de Minas e do Brasil, porém, com lume próprio. Surgida no século XVIII, do meio de aluvião do garimpo de diamantes, a cidade ficou como que estagnada no tempo depois da extinção do veio precioso.
A estagnação foi e ainda podia ser encarada como negativa, mas se acabou transformando em algo positivo nos dias atuais porque Grão-Mogol não se contaminou com os vícios dos grandes centros, como Montes Claros, distante menos de 150 km.
Como escreveu recentemente o historiador e cronista Haroldo Lívio, o inventor do dístico “Cidade-Presépio”, em Grão-Mogol, “se você souber apenas o apelido ou o nome pelo qual a pessoa é conhecida, o catálogo da cidade tem para você a informação segura do número que deve discar; não tem como errar”.
Este e outros são os privilégios de morar em cidade onde as pessoas são conhecidas pelos apelidos. Com mais de sete mil habitantes no perímetro urbano, Grão-Mogol ostenta qualidades só encontradas em cidades européias, a começar do micro-clima, milagrosamente diferente da secura do calor de Montes Claros.
Quem conhece a cidade não duvida que o presépio criado com tanto esmero, seja um marco desenvolvimentista histórico para Grão-Mogol. A obra trouxe mais combustível e daqui para frente a cidade se apresenta como a mais atrativa e ao mesmo tempo a mais barata nova opção de turismo (religioso) para o Norte de Minas.
A boa nova se espalha aos quadrantes, transmitida pela mídia e por meio do boca a boca.


70125
Por Alberto Sena - 20/1/2012 10:09:53
Excitação ao primeiro voo

Alberto Sena

A tarde vencia a primeira metade da quinta-feira de verão. Dentro do ônibus-lotação, em Belo Horizonte (MG), duas meninas, cada uma com no máximo seis anos de idade, conversavam sentadas nas cadeiras laterais, exclusivas para pessoas com necessidades especiais – a mãe de uma delas estava ao lado, em pé, escorada num dos vidros daquele espaço reservado.
Uma das meninas então perguntou à outra:
_ E se não tivesse lugar nenhum neste ônibus para você sentar, o que você ia fazer?
_ Eu ia ficar em pé – ela respondeu.
Morenas, uma das meninas tinha a pele mais clara. Os cabelos castanhos de ambas eram grandes, batiam abaixo dos ombros, sendo que os da outra eram cacheados da metade para baixo. Bonitas e simpáticas, elas tinham as unhas pintadas com esmalte cor de rosa e postura precocemente adulta.
A mãe, ares displicentes, não parecia ser mãe de nenhuma das meninas. O celular dela tocou na bolsa e a menina mais amorenada foi a primeira a ouvir e a denunciou: “Mãe, o celular está tocando”. Se não fosse isto não dava nem para suspeitar ser ela a mãe de uma daquelas crianças.
_ E se não tivesse lugar dentro do ônibus para sentar e nem para ficar em pé, o que você ia fazer? Continuou a menina de pele mais clara, ao que a outra respondeu:
_ Eu ia ficar de cócoras.
_ E se não tivesse lugar no ônibus para sentar, ficar em pé e nem para ficar de cócoras, o que você ia fazer?
_ Eu ia ficar deitada – a outra respondeu.
_ E de que você prefere viajar? A de pele mais clara perguntou. E ato contínuo externou:
_ Eu prefiro viajar de avião.
Ao que a outra redarguiu:
_ Eu prefiro viajar montada num unicórnio.
_ E se não tiver um unicórnio, como você vai viajar?
A outra respondeu:
_ Vou viajar montada num cavalo branco.
E a de pele mais clara reafirmou:
_ Pois eu prefiro viajar de avião.
A moreninha dirigindo-se à mãe, perguntou:
_ Mãe, nós vamos viajar para Disney de avião? Ela [a mais clara] disse que quer viajar de avião e eu quero viajar montada num cavalo branco.
_ Montada num cavalo branco não pode, sua boba – disse a outra menina.
O acontecido depois não foi registrado simplesmente porque o ônibus parou no ponto e as três desceram.
Mas as duas meninas deixaram impressão forte de coraçãozinhos acelerados. Deviam pulsar ao mesmo compasso dos coraçãozinhos de duas crias de passarinhos excitadas pela expectativa de voar a primeira vez.


70109
Por Alberto Sena - 16/1/2012 08:47:37
O tratador de cães abandonados

Alberto Sena

Ele dá de comer aos cães. Acontece de estando a prosear em roda de amigos, de repente, como se tivesse o condão de ficar invisível, ele desaparece.
“Cadê o homem?” Perguntam. “Está ali dando de comer aos cães”, alguém responde.
Não importa o lugar, desde que surja um cão, abandonado ou não. Quando acontece de não ter comida, sem um gesto de carinho não fica o cão de olhar baixo, semblante perdido, vazio tanto quanto a própria barriga.
Ele não é a encarnação de nenhum novo Francisco de Assis, que falava aos animais quando os racionais não queriam ouvir suas pregações.
Ao dar de comer aos cães, ele o faz não com a intenção de se tornar “santo”. Se é que essa seja a alternativa de caminho para uma pessoa se santificar.
Não é porque dá de comer aos cães – e mesmo se fosse aos animais racionais – que um lugar no céu lhe será assegurado. Disso ele sabe bem.
Mas que o fato de uma pessoa se ocupar em dar de comer aos cães abandonados é algo digno de exaltação, dúvida não há.
Ele é crente em Deus. Diz acreditar piamente em Jesus Cristo. Certamente, a fé o faz enxergar Deus na criação e nas criaturas e é essa fé que o leva a dar de comer, de beber e a conversar com os cães abandonados.
Em meio à roda de amigos quando alguém pergunta: “Cadê ele?” Ouve-se a resposta: “Está dando de comer aos cães”.
Por precaução, ele costuma trazer no bolso algo para dar de comer aos animais. Aproxima-se deles com fala mansa, usa linguagem que só cães e ele entendem. Talvez seja um dialeto, mistura de linguajar canino com palavras da língua portuguesa.
Ele fica de cócoras diante dos animais, passa carinhosamente a mão na cabeça deles e lhes fala um tanto de coisas próximo do ouvido, como se falasse com crianças enquanto nelas faz um cafuné.
Ele sempre encontra vasilha, uma lata vazia, para pôr nela água de torneira e dar de beber aos animais. Como todos já perceberam, ele assegura assistência aos cães abandonados de modo à quase nada lhes faltar. Nem carinho.
Ninguém se arriscou perguntar a ele o que faria se, duma hora para outra, uma matilha o rodeasse e todos os animais em uníssono latissem querendo comida, água e resposta para tantas quantas indagações caninas tiverem.
Num outro dia, nos encontramos na Rua Cristiano Rello, em Grão-Mogol (MG), no Bar do Tone, contiguo ao comércio de secos e molhados de Antônio de Pádua Bicalho. Ele estava irrequieto. Entrou e saiu várias vezes do bar para buscar algo de comer.
Era para o grupo de amigos que fraternalmente dividiam cerveja sob o sol a pino de Grão-Mogol, em época de horário de verão, e também para algum cão, certamente.
Não dá nem para imaginar o tanto de poesia e a cantoria improvisada acontecida naquele sábado ao som de um violão.
Foi quando alguém perguntou: “Cadê ele?” E veio a resposta: “Foi dar de comer aos cães”.
Lá estava ele no meio da Rua Cristiano Rello. Cuidava de dar osso fruto da costela de um suíno anônimo, e gorduras retiradas da feijoada famosa do Bar do Tone.
Na verdade, não era cão, mas cadela de pelo negro brilhoso. Ela surgira ali de repente, como de repente sempre chega alguém de chapéu, “trebado”, querendo mais bebida.
Se acontecer de alguém vir um homem de estatura mediana, simpaticamente calvo, voz de locutor de rádio FM, prosa boa, que de repente desapareceu do meio da roda de amigos e foi visto dando de comer aos cães nas ruas de Montes Claros, onde seres humanos são mortos quase que diariamente (ano passado, até onde pudemos contar, 110 pessoas foram assassinadas) pode ser que seja ele, o tratador de cães abandonados, pessoa sobre a qual falamos desde o início.
“Rúben...” Chamem. Caso o tratador de cães abandonados atenda ao chamado perguntem para identificá-lo melhor: “Rúben Veloso?”
Se ele disser que “sim”, esteja certo, trata-se de um economista competente, consultor em Montes Claros; poeta nas horas vagas e alimentador de cães abandonados sempre que surge a oportunidade.
Com ele poder-se-á puxar prosa boa, falar do carinho que tem pelos animais e quaisquer outros assuntos mais.
Com ele poder-se-á falar, sobretudo, de Deus, com quem nós suspeitamos, Rúben tenha comunicação direta.


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Por Alberto Sena - 12/1/2012 12:09:32
A transformação pelo presépio

Alberto Sena

Uma empírica análise socioeconômica do recém-inaugurado Presépio Natural Mãos de Deus, em Grão-Mogol, mostra naturalmente a quem tem olhos para enxergar, o impacto da obra idealizada pelo sociólogo e economista Lúcio Bemquerer. Foi como se um bólido descesse do espaço, e os reflexos desse impacto se estendem pelas terras do Norte de Minas inteiro.
A possibilidade de fazer dos lotes de pedras um presépio estava ali diante dos olhos dos gramogolenses desde os primórdios da cidade, para não dizer milhões de anos, à espera do momento de a ideia brotar na cabeça de alguém predestinado.
Coube ao Bemquerer o privilégio, que dele ninguém poderá tirar, e o seu nome ficará gravado para sempre naquelas “pedras sobre pedras, em harmonioso desalinho”, como costuma definir o lugar.
O prefeito de Grão-Mogol, Jéferson Figueiredo apóia e sabe que precisa investir em infraestrutura a fim de oferecer cada vez mais condições para condignamente receber os turistas que, em crescente afluência, são despertados pelos atrativos do presépio. Na última medição, a média diária de visitas ao presépio foi de 300 pessoas.
A inauguração do Hotel Paraíso das Águas, categoria três estrelas, com 34 apartamentos confortáveis, melhor do que muito hotel de cidades grandes foi um vigoroso sinal do desenvolvimento anunciado para Grão-Mogol.
Entretanto, a cidade nunca chegará ao porte de Montes Claros. E a favor de Grão-Mogol há fatores vários. O principal deles é a sua topografia. Enquanto Montes Claros cresce exageradamente em terreno plano, Grão-Mogol se esconde por detrás de serras, o que lhe valeu o epíteto de “Cidade Presépio”.
Mais ainda: enquanto a BR 251 atravessa o perímetro urbano de Montes Claros e leva gente de todas as partes do Brasil para a cidade, mudando os costumes dos montes-clarenses, Grão-Mogol não padecerá de inchaço porque não é cidade-pólo.
Embora possa alguém achar cedo ainda para tirar conclusões, não é precipitado considerar: o presépio dá mostras de que, apesar da descrença de pessoas quanto à prática religiosa e o desvirtuamento da tradição do Natal, literalmente engolida pela sanha comercial, o presépio, por são Francisco de Assis idealizado em 1223, não morreu. E se antes não morreu, não morrerá jamais, depois da criação deste, o maior do mundo.
O presépio de Grão-Mogol tem tudo para se tornar um lugar de peregrinação durante o ano inteiro. As pessoas ficam impressionadas com o que veem. Em tamanho maior que o natural, os personagens bíblicos esculpidos em cimento despertam a atenção dos turistas.
Com 72m2 de frente e 30m de altura, ali o visitante usufrui de momentos de paz no espaço ecumênico de meditação e no de preces, onde tem a opção de acender velas.
Não raro, a partir da observância do semblante das pessoas, a emoção arranca lágrimas nos olhos e do coração saem efusivos comentários registrados em livro próprio. Ali as pessoas podem ver a representação do nascimento do Menino Jesus tanto de dia como à noite.
Não é exagero nenhum dizer que o Presépio Mãos de Deus irá redimir Grão-Mogol.


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Por Alberto Sena - 9/1/2012 09:37:22
Centenário da santa alma

Alberto Sena

Belíssima agenda 2012 da Santa Casa de Montes Claros, intitulada “Centenário Irmã Beata”, em papel reciclado e em espiral, que a médica, jornalista e escritora Mara Narciso teve a gentileza de enviar.
Na apresentação de cada mês, a agenda, ilustrada, traz versos de cordel que contam parte da vida e da trajetória da Irmã Beata, a holandesa mais montes-clarense que conheci, pessoalmente, no dia 15 de setembro de 1949.
Apreciei a agenda com os olhos da alma, porque elaborada foi para homenagear a Irmã Beata, de quem sou amigo de data nem tão longa assim se considerarmos a relatividade do tempo. Digo sou amigo porque volta e meia bato papo com ela, até publicamente.
Como leigo em matéria deste tipo de publicação, de antemão, peço desculpa aos responsáveis pela edição da agenda, pois não sei se não é usual ou se há alguma restrição quanto ao registro dos nomes dos autores das ilustrações e dos versos de cordel num material desta natureza. Mas acho que, para informação pessoal, seria bom ter lido os nomes de um e de outro na publicação, pois que se trata de algo para ser guardado como se guarda uma relíquia.
E fiquei pensando também se não seria o caso de um registro na agenda, por meio de uma nota, sobre a importância da impressão em papel reciclado. Seria uma boa oportunidade de dar um recado positivo aos usuários, quanto à importância do uso de papel reciclado, tendo em vista a necessidade de preservar o meio ambiente.
Poder-se-ia até chegar ao requinte de calcular o percentual economizado em matéria de celulose para se fazer uma agenda desta. Valorizaria ainda mais a homenagem e certamente estaria dentro do espírito voluntarioso da Irmã Beata.
Preciso tornar isto claro: apreciei muito a agenda, e toda gente deve ter apreciado também, principalmente quem nasceu pelas mãos da Irmã Beata ou por ela tem alguma devoção. Mas não podia deixar de fazer as observações, na condição de comum usuário da agenda.
Acredito piamente que a Irmã Beata tenha gostado da homenagem; ela, que tanto deu de si aos cidadãos de Montes Claros e à própria cidade, a qual amou como se nela tivesse nascido, ao ponto de ser confundida com a própria terra deste sertão, realmente longínquo quando aqui aportou ainda jovem.
Mas à Irmã Beata precisamos render mais homenagens devido à importância que representou e representa para Montes Claros e para a própria Santa Casa, instituição por ela dirigida durante 40 anos.
Penso que, mulher forte como era, e voluntariosa, se viva fosse, a esta altura talvez estivesse lutando politicamente para que a área de Saúde Pública seja vista com mais respeito e tenha os recursos necessários para financiar o melhor atendimento à população. Afinal, saúde diz respeito a todos, pobres, ricos, feios e bonitos.
Talvez fosse o caso de a Santa Casa, por intermédio da Federação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos de Minas Gerais (Federassantas), promover um evento, congresso, seminário ou ciclo de palestras para, tomando emprestado a energia e a força da Irmã Beata, discutir a Emenda 29, cuja regulamentação foi aprovada pelo Senado e aguarda a sanção da presidente Dilma Rousseff.
O projeto original previa o investimento em Saúde, por parte do governo federal, de 10% da arrecadação bruta corrente. Se isto não tivesse sido derrubado pela bancada governista no Senado, o Brasil poderia ter em breve espaço de tempo, um dos melhores atendimentos em matéria de Saúde Pública do mundo.
Entretanto, do modo em que foi aprovado, o ônus maior continua com o município, obrigado a investir 15% da arrecadação em gastos com Saúde, e muitas das vezes levado até a dobrar. Isto só prova a crueldade dos governos federal e estadual.
Sabe-se que é o prefeito municipal, por estar mais próximo do povão, que, por livre e espontânea pressão socorre os cidadãos doentes que batem à sua porta.
Irmã Beata talvez gostasse de estimular uma discussão profunda em defesa da Saúde no Brasil, assim como posso dizer em seu nome: ela agradece a homenagem da Agenda 2012 – edição, ilustração e cordel – e agradece também a Mara Narciso, cujo material sobre Irmã Beata contribuiu para o poeta escrever em versos a história desta grande mulher; santa alma.


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Por Alberto Sena - 3/1/2012 10:05:27
Em socorro ao Estádio João Rebello

Alberto Sena

Contristado. No mínimo. Assim fica quem vir fotos do estado de abandono em que se encontra o Estádio João Rebello, do Ateneu de Montes Claros, no Norte de Minas.
Quem conheceu o “campo do Ateneu”, como é chamado, ficará contristado ou soltará impropérios vários ao bater os olhos naquelas fotos do mato em todos os espaços, como se fora prenúncio do que se dará ao mundo como no seriado “A Terra sem ninguém”.
O estado em que se encontra o Estádio João Rebello só não mexe com a alma de quem não conheceu a sua importância em tempos nem tão longínquos. A partir dos portões, o abandono do Ateneu pede para merecer manchetes em toda a mídia mineira e nacional.
Só quem não lançou aos ares, ali naquele campo, um grito de gol, talvez não se importasse tanto se visse as fotos do abandono do estádio que motivou manchetes no “O Jornal de Montes Claros”, dadas pelo cronista social Lazinho Pimenta, na década de 1960, quando editor de esportes: “Cassimiro X Ateneu: clássico come-fogo”.
As fotos do estado de abandono do Estádio João Rebello remexeram o fundo do baú de relembranças de quem menino assistiu, com o pai, os aguerridos embates entre Ateneu e Cassimiro de Abreu, equipes que deram ao futebol mineiro e brasileiro craques como Manoelito, Manoelzinho, Jomar, Marcelino, Dito, Alcides, João Batista, entre outros.
Um dos últimos, e gloriosos, times do Ateneu, numa das vezes em que tentou alçar à 1ª Divisão do futebol mineiro, tinha àquela época no ataque a seguinte formação, que no dizer do locutor do rádio, se falava rápido – e falava – soava engraçado: “Dadá, Iaúca, Tibira e Biu”.
Numa vez, o time do América do Rio de Janeiro foi jogar em Montes Claros, no Estádio João Rebello. O goleiro americano era Pompeia, grandalhão de mãos tais como garras de onça. Desde o dia anterior ao jogo contra o Ateneu, Pompeia fez espalhar pela cidade o desafio: “Quem fizer gol em mim, ganha um par de chuteiras”.
O desafio serviu para pôr mais condimento na disputa, e Pompeia, para mexer com os brios dos jogadores do Broca, como o Ateneu era chamado, dizia: “Ninguém é capaz de fazer gol em mim”. E instigava mesmo: “Agarro tudo com uma mão só”.
O que a torcida do Ateneu achava ser mera esnobação ou mesmo mania de grandeza da parte do goleiro do América, logo se confirmou como demonstração da sua real capacidade: numa cobrança de pênalti contra o América, ele agarrou a bola com a mão direita.
O placar do jogo não importa, nem lembrança há. Mas a verdade é que Pompeia, homenzarrão, abriu os braços, fechou todos os ângulos e quando o pênalti foi cobrado, ele só levantou a mão direita e segurou a bola. O espanto foi geral.
Ali naquele campo que o mato engole a cada dia, estão marcas indeléveis, plásticas exibições de grandes goleiros, dignas de retratos na parede, “pontes” patrocinadas por Coró, Buião, Eustáquio, Felipe Gabrich, entre outros que tanto animaram as tardes de sábado e de domingo dos montes-clarenses, num tempo em que as opções de lazer e de diversão em Montes Claros eram poucas.
Nada justifica deixar, em estado de abandono total, o Estádio João Rebello. Por mais intrincados sejam os problemas burocráticos ou a falta de bom senso de associados, nada justifica deixar naquele estado de abandono área de tamanha importância.
Até por se tratar de um estádio carregado de história numa cidade qual Montes Claros, e na iminência da realização de uma Copa do Mundo no Brasil. E se a isto somarmos o fato de o prefeito Luiz Tadeu Leite estar necessitado de espaços para expandir os seus projetos, por que não investir no Estádio João Rebello, ao invés de arrendar parte da Praça de Esportes?
O prefeito procurou a direção do Ateneu para conversar. Disse não ter havido “entendimento”. A direção do Ateneu admite duas conversas rápidas e deixa entrever a possibilidade de entendimento.
O estado de abandono do Estádio João Rebello estampado nas fotos, como Fênix, fez renascer dos escombros as imagens do ano de 1957, quando em meio à multidão de alegria transbordante, um menino assistia as comemorações do Centenário de Montes Claros, com apresentação de cavalhada e outras manifestações folclóricas.
Passada década e meia do marcante acontecimento, ali no Estádio João Rebello, o mesmo menino, agora adolescente, enfrentava o juvenil do Botafogo do Rio de Janeiro, atuando naquele gramado, hoje abandonado.
E noutra ocasião, das arquibancadas que o matagal encobre, pôde ele testemunhar o início do sucesso de um ainda incipiente cantor chamado Roberto Carlos.
Agora, depois de constatar, por meio das fotos que retratam o estado de abandono em que se encontra o Estádio João Rebello, resta como esperança contar com a interveniência de dona Albertina, a matriarca do Ateneu, ela que é mãe do craque “Garrincha”, ponta esquerda, pequena grande mulher, valente, para pôr ordem na causa e na casa.
Ela que cuidou durante anos dos jogadores, lavou os uniformes deles e os tratava com rigor carinhoso; e até morou dentro do estádio, onde constituiu família.
Por onde andará Dona Albertina que ainda não veio socorrer o patrimônio de Montes Claros que se esvai vítima da desfaçatez humana?


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Por Alberto Sena - 2/1/2012 08:21:27
Quando os netos chegam

Alberto Sena

Cheguei de Curitiba (PR) havia 22 minutos quando me debrucei sobre o teclado do notebook. Fui à bela e acolhedora capital do Paraná a fim de conhecer a netinha, filha de Thalita e do meu filho, Matheus, o Match, músico de nascença, um dos principais nomes hoje lá no ramo dessa arte de dedilhar cordas de guitarra ou de violão e expandir a voz para cantar a vida em pop rock.
Além disto, ele é produtor musical e já se embrenha também selva adentro do cinema, como promessa de compositor de trilha sonora, ramo carente, segundo dizem, que ressente falta de novos valores mais competentes.
Mas o objetivo deste filho de Montes Claros não é falar de Matheus, pois quero contar é sobre a minha netinha Melissa, um amor de menina, com quase oito meses de vida. Não porque se trata da minha netinha, sem pieguices, quero que entendam bem, mas de fato ela é criatura fofinha. Todos haverão de entender, evidentemente, pois netos são provas da multiplicação e do melhoramento da espécie humana.
Particularmente, nunca tive avós. Como décimo de uma família de onze irmãos, um falecido com pouco mais de um ano e uma irmã que nos deixou há mais de dez anos, nunca conheci avós. Do lado de pai nem de mãe. Acho que nenhum dos meus irmãos conheceu avós.
A netinha, Melissa, é a cara do nome dela. Ou será que o nome é que é a cara dela? Melissa, um mel de menina. Impossível evitar chamar de Mel criança com este nome. Menina de olhos como de jabuticabas amadurecidas pelos raios do sol penetrados por entre as folhas da jabuticabeira.
Mel tem no formato dos olhinhos a mistura brasileira e japonesa. Ela nasceu cheia de vida, criança esperta. Agora, com mais de sete meses, já fica em pé sozinha segura nas bordas do cercado.
Ela integra a safra de seres humanos que chegam para ajudar na difícil tarefa de melhorar o mundo, porque é filha de gente que assim pensa e, claro, tem o que repassar a ela neste sentido.
Não é de bom alvitre pensar que o mundo esteja irremediavelmente perdido nesse emaranhado em que a humanidade se meteu.
Melissa agora faz par com o meu netinho alemão Lévi, que em abril fará três anos. Ele é filho da minha filha Maalali, casada com Norman, alemão, boa praça. Pai, mãe e filho moram na região de Bremen, na Alemanha. Quem leu na infância as histórias dos Irmãos Grimm conhece os “Músicos de Bremen”.
A história do burro, do cão, do gato e do galo, todos eles de alguma forma rejeitados, que se unem para sair pelo mundo e sem querer querendo, como diria Chaves, o humorista mexicano, se envolve com uma quadrilha de ladrões que vai se esconder justamente numa casa abandonada onde eles se encontravam.
Resumindo: os bichos põem os ladrões para correr ao emitir, cada um ao seu tempo e todos ao mesmo tempo, os sons característicos. No escuro, os ladrões pensaram estar em meio a assombrações. Fugiram em desabalada carreira, como fugiam os larápios de antigamente pelas ruas de Montes Claros, onde mais de 110 pessoas foram assassinadas em 2011.
Mas o objetivo não é falar dos “Músicos de Bremen”, e sim do netinho Lévi, que tem tudo para se revelar ao mundo também músico, pois desde cedo ele toca piano, bateria, flauta, tambor e guitarra. Acho que ele pode até mesmo vir a ser grande jogador de futebol. Vi recentemente, fotografia dele ao chutar uma bola que, pelo amor de Deus, vai parecer com Beckenbauer assim, lá na Alemanha. E de preferência, em Bremen.
Já até recomendei à mãe dele apresentá-lo ao Bayer de Munique ou mesmo ao Bremen porque o menino parece ter nascido com uma estrela na testa. Ele corre o risco de vir a ser um grande músico ou famoso craque de futebol. É um garoto mais bonito que o avô e os pais juntos. Ele tem os cabelos lisos, brilhantes, escorridos. Os olhos possuem brilho próprio.
Sinto-me privilegiado. E ao mesmo tempo não me julgo merecedor de tanto: ter um neto alemão e uma neta descendente da gente do Sol Nascente é no mínimo interessante.
E como os filhos são quatro, Deus pode bem me dar pelo menos quatro netos, seguindo a lógica aritmética. Pelas contas, falta-me ganhar mais dois.
Quiçá possa eu ter mais ainda, pois o gosto de ver multiplicar a descendência é algo demasiadamente rico. Aprendizado enorme. Gratificante.


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Por Alberto Sena - 28/12/2011 09:13:51
Personagem fugidio de um livro

Alberto Sena

Ele nos remete à lembrança de Quasimodo, personagem do livro Notre-Dame de Paris, do principal representante do Romantismo literário francês, Victor-Marie Hugo (1802-1885).
Ou senão, ele nos lembra personagem fugidio do surrealismo do colombiano Gabriel Garcia Marques, no livro Cem Anos de Solidão, no qual o Prêmio Nobel de Literatura mergulha fundo no universo da imaginária Macondo.
Esse cidadão grãomogolense seria facilmente confundido como alguém da gênese da aldeia tecida e bordada, com intrincado esmero, por Garcia Marques.
“Essa figura impoluta”, expressão do bon vivant Fernando Gontijo, nos seus melhores anos, em Montes Claros, possui memória comparável a do elefante. Só falta lembrar a árvore genealógica do interlocutor.
O que ele tem por fora esconde a beleza interior, o diamante verdadeiro, cobiçado por garimpeiros e encontrado no garimpo do intelecto.
Ele é pequeno. E como toda gente pequena, é homem esperto, porque respira camada telúrica de ar mais baixa. Ágil aos 83 anos de idade.
A silhueta dele, a maneira de ser, o fato de ele trabalhar diariamente na Rua Cristiano Rello, em Grão-Mogol, negócio próprio, tudo nele e dele lembra personagem de algum romance da literatura universal. Um jagunço de livros como Os Sertões, de Euclides da Cunha; ou Grande Sertão Veredas, de João Guimarães Rosa.
A fama dele corre toda Grão-Mogol e região. Ele é conhecido da intelectualidade montes-clarense. As pessoas o têm como “verdadeira enciclopédia”. Com memória privilegiada, nos escaninhos dela, ele guarda boa parte da história de Grão-Mogol, de acontecimentos, de casos relacionados com o povo.
Conheci-o, recentemente, por intermédio do amigo, sociólogo e economista Lúcio Bemquerer, que deu de voltar para Grão-Mogol, onde fez enorme presépio a céu aberto, com recursos próprios, depois de ausentar 20 anos da cidade.
Já tinha ciência da sapiência dele e Lúcio avisou-me que ia dar nele “um susto”, enquanto hirto ele se mantinha sentado no batente daquela casa secular onde fica a loja dele de secos e molhados, mais molhados do que secos, contigua ao bar do Tone.
De cabeça baixa, entre as pernas, ele tinha um livro aberto e parecia absorto na leitura. Se o telhado desabasse naquele momento, ele seria capaz de manter-se naquela mesma posição, e lendo.
Aproximamo-nos dele e ele nem percebeu. Lúcio entrou de supetão porta adentro e foi então que ele se levantou num salto para ver quem ali entrara apressadamente. Ao perceber de quem se tratava a fisionomia dele se abriu num largo sorriso. E, então, ele abraçou o amigo.
Lúcio apresentou-me a Bicalho. Logo os dois entabularam conversa animada por alguns instantes. Pelo menos naquele momento, ali na bela, poética e ao mesmo tempo intrincada Rua Cristiano Rello, ele parecia feliz da vida.
A Rua Cristiano Rello é fechada ao trânsito de carros. As pessoas se sentam à porta dos bares ou transitam livremente, como os belo-horizontinos na Savassi; como os montes-clarenses na Rua Simeão Ribeiro; como os curitibanos no Batel; como os ingleses no Soho.
Os casarões coloniais da Rua Cristiano Rello têm portas e janelas coloridas. E em cada porta e em cada janela há marcas indeléveis, que só a memória privilegiada desse pequeno grande homem guarda.
Ele deixou o livro de lado, e a boca pequena, confidenciou algo ao Lúcio. Pouco depois, Bicalho olhou na minha direção com os olhos miúdos, duas testemunhas oculares de acontecimentos históricos de Grão-Mogol – ex-Comarca de várias cidades circunvizinhas, a qual pertenceu Montes Claros – e disparou:
_ Você é nascido onde?
_ Montes Claros.
_ De qual família?
_ Sena Batista – respondi.
_ Então, você é irmão de Waldyr?!
Ele perguntou e ato contínuo deu-me um abraço.
As pupilas dos meus olhos viram Antônio Pádua Bicalho assim, conforme descrito aqui, figura encantada, que Grão-Mogol venera.
Outros personagens importantes Grão-Mogol possui, como Geraldo Ramos Frois, mestre da cultura e botânico responsável pelo viveiro de mudas da cidade.
Mas é preciso dispor de mais tempo, e com mais vagar, extrair do garimpo intelectual dessa gente grãomogolense, os diamantes carreados por aluvião da existência humana; da vida benfazeja, às vezes sofrida, mas também feita de momentos felizes, inesquecíveis.


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Por Alberto Sena - 18/12/2011 14:09:47
As diferenças entre o viver daqui e o de lá

Alberto Sena

São várias as diferenças entre a Rua Cristiano Rello, em Grão-Mogol, no Norte de Minas, cidade de pouco mais de sete mil habitantes na área urbana, e a Região da Savassi, em Belo Horizonte.
A Rua Cristiano Rello é toda fechada para o tráfego de veículos. Na Savassi é grande a quantidade de carros no vaivém diário pelas avenidas Cristóvão Colombo e Getúlio Vargas.
A Rua Cristiano Rello é constituída de casarões do século XVIII, em estilo colonial, de portas e janelas coloridas, e o conjunto arquitetônico sem igual esbanja poesia. Cada uma daquelas casas tem histórias mil para contar; se as paredes falassem, o vozerio delas seria inaudível para tanto acontecimento desde quando a cidade surgiu em decorrência do garimpo de diamantes.
A Savassi surgiu no século passado. Não possui casarões antigos, coloniais. Lá, algumas das casas mais antigas art déco, onde hoje são lojas, foram tombadas pelo Patrimônio Público. A Savassi passa por requalificação, feita a passos de tartaruga, o que deixa descabelados os comerciantes, inda mais em época tida como a melhor do ano para as vendas.
Na Rua Cristiano Rello a poesia tem cheiro. O cheiro perfumoso fica no ar e exala da loja de secos e molhados de Antônio Pádua Bicalho. Ele vai ao interior da loja e volta com um copo plástico meio suspeito na mão contendo cachaça. Diz: “Esta é da boa”. Retorna. Vaivém. Conversa com um, conversa com outro, exercita a memória de elefante, o seu mais rico diamante.
Ao que consta, a Savassi não possui Bicalho nenhum. Mas possui um Ronaldo Brandão, jornalista, cinéfilo, a maior autoridade em cinema de Belo Horizonte. Ronaldo pode ser o Bicalho da Savassi e o contrário pode ser também a mesma coisa, guardadas as preferências pessoais e intelectuais.
A Rua Cristiano Rello tem o boteco do Tone, que serve cerveja geladíssima para ser sorvida debaixo do sol de verão de Grão-Mogol, degustada com feijoada completa ou linguiça no palito. Para quem aprecia feijoada, a do boteco do Tone, para ser completa precisa só de lascas de madeira da pocilga.
No bar do Tone a liberdade é total, quem quiser pode até assumir a cozinha, basta dobrar as mangas da camisa e fritar linguiça para consumo próprio.
Na Savassi, o comportamento é outro: se alguém se senta à mesa dos bares, cafés ou restaurantes logo um garçom uniformizado vem saber o que o cliente quer. Cheio de cerimônia, e de olho na gorjeta, o garçom se esforça para ser agradável e prestativo.
No bar do Tone, e nos demais bares da Rua Cristiano Rello são os donos, propriamente, que atendem os fregueses. E correm para lá e correm para cá, com cara de que bebem quase todas enquanto atendem um e outro, os que gritam o seu nome. Na Rua Cristiano Rello há comércio de eletrodoméstico e de quase tudo, até mesmo sorveteria para espantar o calor tem lá.
Na Savassi há pontos onde se reúnem intelectuais em livrarias. Lá é a região da capital onde há mais livrarias. E nos sábados, pintores de quadros incríveis e de estilos variados se reúnem para vender suas obras num corpo a corpo salutar com os apreciadores das artes plásticas.
Na Rua Cristiano Rello não há livraria. Mas em compensação, num determinado dia e numa determinada hora, com sorte o cidadão grãomogolense, corre o risco de dar de cara num interior de botecos ou mesmo nas portas, sentados à mesa de plástico amarelo, personalidades estimadas como Lindolfo Paolielo, empresário, jornalista e escritor; Paulo César Callado Souza, arquiteto; Rúben Veloso, economista e consultor; Marcos Bemquerer, empresário; Helinho Faria, publicitário; Antônio Dias, ex-deputado e ex-presidente da Assembleia Legislativa de Minas, ex-prefeito de Francisco Sá, fazendeiro e dono de emissora de rádio; Paulo Narciso, jornalista e também dono de emissora de rádio; e Murilo, da Receita Federal, lotado em Bocaiúva.
Como na Rua Cristiano Rello tudo pode acontecer, mais até do que acontece na Paris de Lúcio Bemquerer, para completar é possível ao espectador sentado à porta do boteco do Tone ver passar o historiador, cronista e escritor Haroldo Lívio, devidamente acompanhado da sua Maria do Carmo e uma das filhas, numa manhã de sábado de sol quente. Haroldo possui casa em Grão-Mogol, onde ele se refugia sempre para se livrar do estresse de Montes Claros, transmudada em metrópole.
Por tudo isto e por muito mais que não foi contado, a Rua Cristiano Rello ganha disparado da Savassi, onde a vida corre em velocidade alta. Em Grão-Mogol, ao contrário, a vida vai pachorrenta, pode até ser apanhada em flagrante através de uma janela ou duma porta aberta de um dos seus vários casarões feitos de pedras seculares.


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Por Alberto Sena - 12/12/2011 10:29:34
A grandeza do presépio

Alberto Sena

O que Lúcio Bemquerer fez em Grão-Mogol, ao revelar ao mundo o Presépio Natural Mãos de Deus, é um exemplo de “loucura lúcida”.
Como sociólogo, economista, homem de negócios, ele, que durante 20 anos ficou longe de lá, enxergou no perímetro urbano da cidade, o que ali está havia milhões de anos à espera de alguém predestinado a revelar o que o mato cobria, lotes que ninguém neles tinha interesse. “Um amontoado de pedras sobre pedras em harmonioso desalinho”, como ele próprio define.
O presépio já estava pronto. Mas precisava que alguém criasse a infraestrutura para tornar acessível o que “as mãos de Deus semearam”, prioritariamente às pessoas com necessidades especiais, os cadeirantes, daí a necessidade de construir rampas entre as pedras, sem retirar nenhuma.
Grão Mogol está em festa. E toda essa alegria comunga com o momento natalino. A inauguração do presépio, em nove de dezembro de 2011, foi um acontecimento marcante tanto quanto a obra em si.
Há oito meses, o assunto em Grão-Mogol é o presépio, mas no dia da inauguração, entre as serras ora azuladas ora esverdeadas que escondem e protegem a cidade; nos ares, nas paredes de pedras das casas, no interior da matriz de Santo Antônio feita de pedras, nas pedras do calçamento das ruas seculares, nas árvores, por todos os cantos se ouviam vozes. O encanto estava e permanece em todos os cantos e recantos.
Em Grão-Mogol as pedras falam – e ouvem. Neste momento, desde a inauguração, as pedras falam para o mundo inteiro ouvir, que o Menino Jesus se mostra ali na lapa/manjedoura do Presépio Natural Mãos de Deus, obra perene, eterna enquanto durar a vida do planeta Terra. Porque eterna é a mensagem de conteúdo sempre novo, que de novo o Menino Jesus nos traz.
Enquanto “um amontoado de pedras sobre pedras em harmonioso desalinho”, para se revelar ao mundo como presépio, havia a necessidade de alguém, homem ou mulher, retirar os véus. Coube a Lúcio Bemquerer fazer a revelação. A obra agora é da humanidade e já ganha repercussão na mídia internacional.
A notícia do surgimento do presépio em Grão-Mogol soou feito o barulho do impacto de um meteoro descido sobre as águas paradas de um grande lago. Simplesmente porque o presépio, idealizado em 1223 por são Francisco de Assis, não morreu. Se alguém achar que o presépio morreu, não crê na ressurreição dos mortos, pois o presépio aí está e chama a atenção do mundo por ser o maior em sua categoria de “natural, perene e a céu aberto”.
A não ser no setor administrativo, que funciona em área à parte, o presépio não tem porta para ser fechada. Está sempre aberto, de dia e à noite. Se de dia o presépio é bonito, à noite ele é lindo. Iluminado, as luzes são vistas ao longe.
Da porta de muitas casas se podem enxergar a beleza do presépio e se ouvem os cânticos de corais e o suave som de músicas misturado ao bulício das águas que escorrem por enorme pedra, no ecumênico “Espaço de Meditação”.
Por tudo o presépio chama atenção: por ser presépio; por ser grande e alto (30m2); por possuir personagens bíblicos do nascimento do Menino Jesus em tamanho natural; por dispor de uma “Sala de Preces”, onde os frequentadores podem acender velas; por possuir palco onde se podem apresentar corais e outras manifestações culturais; por ter dois mirantes, e por possuir um “Recanto de Pássaros”, onde ração apropriada será servida aos passarinhos.
Quem no presépio trabalhou, desde o mais simples operário, alguns ex-presidiários, passando pelo mestre de obras, os fornecedores, o escultor criador dos personagens em cimento, todos se orgulham do fato de terem ajudado Bemquerer a transmudar aquilo que aparentemente quase nenhuma utilidade tinha, e que parecia “uma loucura” de alguém tão Lúcio, quero dizer, lúcido.
A partir do presépio e do hotel três estrelas recém-inaugurados, sem dúvida, para a alegria da administração da cidade, Grão-Mogol, quase parada durante décadas no espaço e no tempo, experimentará surto de desenvolvimento.
Mas, felizmente, por mais que a cidade cresça, nunca crescerá tanto quanto Montes Claros, cidade pólo cresceu, de maneira desordenada, ao ponto de se tornar uma metrópole, com os respectivos problemas.
A topografia de Grão-Mogol não favorece a expansão, o que torna a cidade um lugar especial, com qualidade de vida só encontrada em poucos lugares do Brasil. Ou por que não dizer, do mundo?
Grão-Mogol possui brilho e atmosfera próprios.


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Por Alberto Sena - 5/12/2011 08:16:43
Outra conversa macia com ela1

Alberto Sena

Foi num sábado como este três de dezembro do ano de 2011, exatamente no dia 11 de setembro, a última vez que conversei com a senhora por meio de um texto adrede escrito e publicado.
Sei que neste mês de dezembro faz cem anos que a senhora chegou ao Brasil.
Desculpe-me a ignorância, não sei se daí, de onde a senhora está, é possível ler o que escrevemos aqui, neste plano de vida, “neste vale de lágrimas”, como se reza na oração do Credo.
Mas o que quero dizer é que chamei a atenção da sociedade montes-clarense para a necessidade de lembrar o seu benemerente nome por ocasião do centenário da sua chegada ao Brasil.
A senhora há de convir comigo: como ser humano vindo ao mundo pelas suas mãos piedosas e laboriosas, eu fiz – e faço – todo o possível para chamar a atenção da cidade para a importância do centenário da sua chegada ao Brasil e a Montes Claros.
Fiz e faço isto movido, talvez, por sentimento de gratidão que trago desde que nasci pelas suas mãos, na Santa Casa de Misericórdia de Montes Claros.
Mãe Elvira me contou várias vezes como tudo se deu naquele dia 15 de setembro de 1949. E sempre gostei de ouvir mãe contar a mesma história a outras pessoas, toda vez que a conversa era em torno do seu nome.
Informo-lhe que, embora eu tenha me esforçado, juntamente com outras pessoas, cujos nomes a elas licença peço para citar – os escritores Augusto Viera e Mara Narciso – nada aconteceu ou pelo menos nenhuma notícia chegou-me sobre o interesse de alguém ou de alguma entidade filantrópica de Montes Claros ou mesmo a Prefeitura Municipal em lembrar o seu benemerente nome nesta data.
Mas se ninguém moveu uma palha até agora, tempo ainda há de lembrar o seu nome, reverenciando-o convenientemente porque mesmo a senhora não tendo nascido em Montes Claros, devido a mero acidente geográfico, é como se a senhora tivesse nascido aqui, no sertão, nessa nossa terra vermelha do cerrado, onde o pequi é considerado “o esteio”, como para sempre gravou Téo Azevedo.
A senhora chegou ao Brasil em dezembro de 1911, mas foi em fevereiro do ano seguinte que a senhora veio para Montes Claros. E mesmo sem falar português escorreito, mais falando com as mãos laboriosas do que com a língua estrangeira, a senhora adotou a cidade e gerações de montes-clarenses vieram ao mundo pelas suas mãos.
O seu trabalho benemerente sempre foi reconhecido. E tanto é verdade que o seu nome volta e meia é lembrado quando o assunto é beatificação, canonização, santificação. Costumam dizer: “Ela é a principal candidata a santa de Montes Claros”.
Sem querer incomodar, pois presumo, a senhora aí está num ambiente de paz celestial, quero lhe dizer, nesta manhã de sábado, de tempo nublado, sujeito a chuva benfazeja: se a Santa Casa de Misericórdia de Montes Claros ou outra instituição da sociedade montes-clarense não se interessar em lhe prestar uma homenagem, contente-se então com esta homenagem que ora prestamos.
Veja que o verbo da frase foi propositalmente escrito no plural – “prestamos” – porque, sem ter uma procuração de cada um dos que vieram ao mundo pelas suas mãos, falo em nome de todos, e também em nome do veículo que publica este texto.
Aproveitando o solilóquio, se não for abuso da minha parte, em rápidas pinceladas, como diria o pintor Godofredo Guedes, baiano dos mais montes-clarenses que já se viu, quero contar pra senhora algumas coisas; talvez a senhora ainda nem saiba.
Por exemplo: Montes Claros virou cidade grande. E do mesmo tamanho são os problemas advindos do crescimento desordenado. Imagina a senhora o horror: 2011 ainda nem acabou e cem pessoas – isto mesmo, cem pessoas – entraram para as estatísticas do morticínio local. Parece mais estatística de vítimas de ações bélicas. Guerrilha urbana fratricida.
Outra coisa: acredita a senhora?, o prefeito Luiz Tadeu Leite, pela terceira vez ocupante da Prefeitura de Montes Claros, disse estar firme no propósito de entregar parte da Praça de Esportes – lembra dela? – à sanha empresarial. A senhora acredita numa coisa desta?!
Por último querida Irmã Beata, quero lhe informar: veio na hora a graça que intermediou, como intercessora de nascença. Foi para mim prova de que, numa comparação, a nossa relação espiritual é como tênue fio invisível, mas forte o bastante para perdurar por toda a vida. Aqui, e na eterna. Amém.


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Por Alberto Sena - 2/12/2011 10:27:17
Grão-Mogol ganha maior presépio do mundo sexta-feira

A cidade está em festa; personagens do nascimento do Menino Jesus, em tamanho natural, chamam a atenção de dia e à noite
O Presépio Natural Mãos de Deus, de Grão-Mogol, no Norte de Minas, considerado o maior do mundo na sua categoria de “perene e a céu aberto”, será pré-inaugurado nesta próxima sexta-feira, dia nove.
A obra foi construída pelo empresário aposentado Lúcio Bemquerer, em oito meses de trabalho ininterrupto. Ele foi presidente da Associação Comercial de Minas (ACMinas) de 1991 a 1995.
O presépio fica no perímetro urbano de Grão-Mogol, numa área de 3,6 mil m2. Foi utilizado 1,5 km de ferro para corrimões; 1,2 mil m2 de pedras tipo São Tomé, originárias de Grão-Mogol, para calçar a passarela de acesso ao presépio, que tem 72 m2 de frente e 30 m2 de altura.
Construído com recursos próprios, o custo da obra ficou entre R$ 500/600 mil. Trata-se, como o define Bemquerer, de “um aglomerado rochoso de pedras sobre pedras em harmonioso desalinho”. O que ele fez foi simplesmente criar a infraestrutura para acesso dos visitantes ao presépio que ali estava havia milhões de anos à espera de alguém predestinado a descobri-lo.
O presépio conta com 17 personagens bíblicos em tamanho natural, esculpidos em cimento pelo escultor Antônio da Silva Reis: Nossa Senhora jovem e mãe; São José; Menino Jesus; anjo Gabriel (e outro anjo); pastores (2); Reis Magos (3) cavalo, boi, galo, carneiros (2) e burro. Os visitantes têm acesso aos personagens como num palco de teatro.
O Instituto Mãos de Deus, recém-criado, vai gerir o presépio que é o principal assunto em Grão-Mogol, cidade a 143 km de Montes Claros, duas horas de viagem de carro pela BR 251; e a 576 km de Belo Horizonte. A cidade surgiu no século XVIII em função do garimpo de diamantes.
Várias são as atrações turísticas de Grão-Mogol, mas o presépio surge como a maior delas. A cidade possui a Matriz de Santo Antônio, toda de pedras; lapas, cânions, sítios arqueológicos, o Rio Vau e a barragem de Irapé, que forma um lago sem precedentes no País.
(Mais informações: 38 3238-1434, em Grão-Mogol, com o empresário Lúcio Bemquerer; 3344-9076, em BH, com o jornalista Alberto Sena Batista)


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Por Alberto Sena - 30/11/2011 09:45:00
Deixa de “bestage”

Alberto Sena

Imaginação demais ou imaginação de menos é o que pode ter acometido o prefeito Luiz Tadeu Leite ao querer fazer a “bestage”, como se diz em “montesclarês”, de entregar a Praça de Esportes – Montes Claros Tênis Clube (MCTC) – de histórias e glórias tantas, à sanha empresarial.
Daqui dos píncaros da Serra do Curral, onde – pasmem! – em certos trechos se encontram pequizeiros, refleti sobre o que deu na cachimônia do prefeito de Montes Claros para ele querer fazer a “bestage” que diz querer fazer com a Praça de Esportes.
Imaginação de menos ou imaginação demais. Será que o prefeito nunca viveu a Praça de Esportes? Perguntei-me, e contemplava a Babilônia em que Belo Horizonte se transformou vista daqui, desses píncaros.
Naquelas manhãs e naquelas tardes de décadas em Montes Claros, desde a infância, passando pela adolescência e a fase adulta, será que o prefeito em algum momento pensou no desastre à memória física da cidade, o fim da Praça de Esportes como patrimônio público? Será que ele avaliou o dano à memória cognitiva e transcendental de milhares de montes-clarenses?
Não me recordo de nenhuma vez ter encontrado o jovem Luiz Tadeu naqueles embates aguerridos em torno das mesas de pingue-pongue da Praça de Esportes. Nem nas saborosas peladas daquelas tardes e nos fins e inícios de semanas, depois da missa na Catedral ou na Matriz.
O jovem Luiz Tadeu pode até ter vivido a Praça de Esportes. Em algum ponto pode até ter a marca dele, mas se ele não tem a noção do equilíbrio quanto ao que é demais e ao que é de menos, e quer meter estapafurdiamente as mãos na Praça de Esportes, isto é o suficiente para eu duvidar do amor que ele tem a Montes Claros.
Fazer o que o prefeito intenta fazer sinaliza claramente, como os claros montes ao redor, o desamor trancado no coração dele. Além do mestre Oswaldo Antunes e de Waldir Senna, muitos outros escreveram sobre a “bestage” de Luiz Tadeu. Neste momento, as pessoas estão de alguma forma comentando sobre a falta de equilíbrio do prefeito entre o que é demais e o que é de menos.
A memória de Montes Claros vai indo de popa ao vento, dilui feito fumaça. O clássico exemplo é a Rua Doutor Santos. A transformação da principal rua da cidade aconteceu em menos de 40 anos. Até a década de 1970, ela possuía graça. Casarões antigos, que, se preservados, dariam um toque especial à hoje desfigurada Rua Doutor Santos.
Da Praça Coronel Ribeiro abaixo, até a Praça Doutor Carlos, as edificações que lembram a Rua Doutor Santos de então é a antiga casa de Senhorzinho Batista e a de Luiz de Paula Ferreira. Tudo mais ali está mudado para sempre; e no ar fica a pergunta: “Por que não cuidar da memória sociológica e arquitetônica da cidade e construir o novo noutro lugar?”
Se o prefeito Luiz Tadeu fizer a “bestage” de tocar sequer em um fio da Praça de Esportes, ele ficará marcado na história de Montes Claros como o prefeito que deu o golpe mortal na nossa memória. Na memória de quem deu braçadas na piscina olímpica; de quem fez acrobacias ao pular dos trampolins; de quem fez a galera gritar de emoção no Ginásio Darcy Ribeiro; de quem furtivamente, escolhia a Praça de Esportes como recanto para namorar.
E a boate? A única no mundo que funcionava aos domingos das 11h às 13h e cujas paredes eram praticamente uma vidraça só.
No futuro, se o prefeito fizer a “bestage”, as pessoas vão se lembrar, sim, de que ele assumiu a Prefeitura de Montes Claros três vezes, “mas na terceira vez ele caiu na “bestage” de acabar com a Praça de Esportes”.
Na história política da cidade, até hoje o Doutor Santos é conhecido como o melhor prefeito de Montes Claros de todos os tempos. E como não fui do tempo dele, pouco posso dizer a não ser crer ser uma verdade o que dizem as pessoas de bem.
Assim como o prefeito Toninho Rebello, este do meu tempo carrega a fama de “um dos grandes prefeitos de Montes Claros”, dizem dele que “o único erro cometido foi derrubar o casarão do Mercado Municipal antigo”, em cuja torre havia um enorme relógio.
Nem vou repetir aqui quesitos importantes tratados por outros defensores da manutenção da integridade da Praça de Esportes. Nem me julgo no direito de crucificar a administração pública porque há décadas não vivencio o dia a dia da cidade.
Mas alertar o prefeito, sugerir a ele utilizar-se da medida do bom senso e do equilíbrio para não cometer “bestage” que o marcará para sempre, isto eu posso fazer daqui dos píncaros da Serra do Curral. Posso e faço-o agora em bom “montesclarês”: prefeito deixa de “bestage”.


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Por Alberto Sena - 28/11/2011 08:05:25
Manga transcendental

Alberto Sena

O sobrinho André Rodrigues Senna Batista, nutrólogo, trouxe um saco de linhagem de 60 kg cheinho de manga, lá da fazenda de Juramento (MG).
Manga do tipo comum, conhecida por aqui, nessas paragens, pela alcunha de “manga-sapatinho”. O apelido procede; se repararmos bem, o formato dela se assemelha ao de sapatinho de lã para recém-nascido.
A relação com esse tipo de manga é forte. Tão forte quanto à relação com o pequi.
É uma relação telúrica, das entranhas da terra avermelhada do sertão (cerrado), lá onde o sol se esparrama pelas mangueiras e as folhagens refletem calmante halo de prana, a energia vital, e em cujos galhos os passarinhos fazem ninhos.
Não dá para não saborear o suco divinamente preparado nesta época do ano pela Mãe-Natureza.
As chuvas, enfim, vieram na sequência do sol causticante de Montes Claros e as mangas amadureceram. O corpo, então, fala: “Chegou o tempo de chupar manga comum”.
Depois de a pança cheia, basta usar a fita dental – eficiente preventivo até ao ataque cardíaco – para se ver livre dos fiapos de manga.
Já foi dito noutra ocasião, mas a conveniência recomenda repetir: manga comum parece conter reminiscências do paraíso perdido. Desde criança comparamos o suco saboroso de manga comum ao néctar divino.
Enquanto se saboreia o fruto, originário da Ásia, se pode imaginar como deve ser no paraíso, lá onde se pode passar boa parte do tempo chupando manga.
Rica em vitaminas e outros elementos importantes para o organismo, a manga sofreu durante muito tempo o peso de preconceitos.
Já foi até considerada veneno “se misturada ao leite”, invencionice dos senhores escravagistas para impedir o consumo de leite por parte dos escravos.
Outra falsidade cometida contra a manga: “É pesada, indigesta, especialmente se ingerida no desjejum ou à noite”. Nada a ver. Segundo a literatura, “manga é importante como auxiliar dos movimentos peristálticos intestinais”.
A gostosa fruta possui vitaminas do complexo B. A carência das vitaminas desse complexo no organismo “torna impossível a ingestão equilibrada de carboidratos e proteínas”. Resultado: vem a falta de apetite, fadiga, apatia e outros transtornos.
Manga possui também potássio. Em menor quantidade do que o encontrado no abacate, na banana e no mamão, mas ainda assim é significativo. Encontram-se também na manga fósforo, magnésio e ferro, em menores quantidades.
Manga contém principalmente vitaminas A e C, variando. No caso da C, conforme a qualidade da manga, e a rosa é a que possui a mais elevada cota.
A matéria-prima da vitamina A é o betacaroteno, que combate os radicais livres, considerados “a ferrugem do corpo e responsáveis pelo envelhecimento precoce; a manga é um excelente antioxidante do organismo”.
Quem não tem o costume de chupar manga vai correr ao mercado agora a fim de comprar um bom bocado.
A “comum” exaltada aqui nesse minifúndio virtual é diferente da manga encontrada em sacolão e supermercado, originária de plantio irrigado.
A manga comum é fruto de época, encontrada só em meados de novembro até final de janeiro; com um esforçozinho, adentra fevereiro.
Como nutrólogo, o sobrinho André sabe que o corpo do homem e o da mulher é o resultado do que nas refeições diárias eles comem. A compleição física de quem consome mais vegetais, e se exercita regularmente, tende a ser bem diferente da performance de quem se alimenta mais de massas e carnes gordurosas e é sedentário.
Sendo o homem e a mulher fisicamente resultados do que comem, também é verdade que eles são frutos dos próprios pensamentos. A mesma energia gasta para alimentar pensamentos negativos é gasta para elaborar pensamentos positivos.
Assim como no dito antigo: “Diga-me com quem andas e te direi quem tu és”; se pode dizer também: “diga-me o que pensas e te direi como vai o templo da sua alma”.
A manga apanhada no pé, descascada e chupada com as duas mãos livres; sem querer, mas também sem poder conter a escapadela do suco saboroso pelos cantos da boca; e menos ainda deter os dois filetes que, livres escorrem pelos braços até se alojarem nos cotovelos – há algo melhor para fazer o pensamento voar às profundezas da alma?
Saborear manga comum proporciona sensações e recordações as mais recônditas adormecidas nos escaninhos da memória própria e transcendental.


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Por Alberto Sena - 23/11/2011 17:11:27

(...) Experimentalmente, Nossa Senhora e o Menino Jesus foram introduzidos à lapa/manjedoura do Presépio Natural Mãos de Deus, em Grão-Mogol (MG) O presépio terá pré-inauguração, dia nove de dezembro, segundo informa o seu idealizador, o empresário aposentado Lúcio Bemquerer, que em oito meses construiu toda a infraestrutura necessária, com recursos próprios, para facilitar o acesso preferencialmente aos cadeirantes. O presépio já é considerado o maior do mundo na categoria de “natural, perene e a céu aberto”. Com 17 personagens bíblicos do nascimento do Menino Jesus, em tamanho natural, esculturas feitas pelo artista de Contagem (MG), Antônio da Silva Reis, a obra chama a atenção pela sua grandiosidade e beleza. (Mais informações com Lúcio Bemquerer pelo telefone 38 3238-1434, Grão-Mogol).


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Por Alberto Sena - 21/11/2011 07:22:43
Mangas, deliciosas mangas

Alberto Sena

Por pelo menos uma década não fiz de carro e sob a luz do sol o percurso entre Belo Horizonte e Montes Claros. Das vezes em que retornei a Montes Claros, nesse período, foi de ônibus, durante a noite, ou de avião.
Mas foi prazeroso ir de BH a Grão-Mogol, de carro, debaixo do sol, passando de raspão por Montes Claros, naquele sábado, 12 de novembro de 2011, porque levávamos no banco traseiro do carro a imagem do Menino Jesus, para o Presépio Natural Mãos de Deus.
Observei a paisagem de um lado e do outro da estrada e ao mesmo tempo verifiquei com os próprios olhos o estado da BR 135, que, no geral, está bom.
Nessa viagem pude fazer incursão ao passado espiando pelo espelho retrovisor. Contei a Humberto Abdon, fazendo uma comparação: no início da década de 1970, principiante ainda no jornal Estado de Minas, na Editoria de Polícia, o editor Wander Piroli me pediu para fazer a cobertura de um julgamento no Fórum de Curvelo, cidade que se gaba de ser “o centro de Minas Gerais”.
Fui. Quero dizer, fomos – o motorista do carro, Durvalino; o fotógrafo Bicalho e eu. Logo no início da viagem, saindo dos limites do município de BH, observamos caminhões carregados de carvão vegetal indo em direção à capital.
Caneta e papel a mão anotava a quantidade de caminhões carregados de carvão indo na direção de BH. Para quem não sabe, um caminhão de carvão vegetal leva mil a 1,5 mil árvores abatidas. Naquela época, grande era a ocorrência de desmate em áreas nativas do Cerrado para produção de carvão vegetal.
Resultado: contei mais de cem caminhões carregados de montanhas de carvão indo no sentido contrário ao nosso, rumo a BH.
Fomos a Curvelo buscar uma reportagem e retornamos à redação do Estado de Minas com duas. A dos caminhões de carvão valeu uma página inteira na “2ª Seção” do jornal, à época editada pelo recém-falecido jornalista Geraldo Magalhães.
Agora vem a comparação: passaram-se 41 anos. Neste momento, enquanto se pode ler esta frase, caminhões carregados de carvão vegetal continuam indo em direção à capital mineira. A cena se repete diariamente. Mas desta vez não me ocupei com a tarefa de contá-los, mesmo porque o movimento nas BR’s 135 e 521 é infernal – se é que no inferno há movimento de carretas em profusão – o que pode ser constatado a qualquer dia da semana.
É esse movimento perigoso de caminhões e carretas cheias de carvão vegetal e de uma porção de outras mercadorias que chama a atenção para a falta de investimento no País em ferrovias. Se o transporte de carga pesada fosse feito via vagões de trem de ferro, mais eficiente e barato seria até em relação à manutenção e aliviaria bastante o movimento das rodovias.
Por tudo, o transporte ferroviário é mais interessante do que o rodoviário. Antes de o presidente JK comprar o lobby automobilístico norte-americano, que lhe valeu a fama de “presidente estradeiro”, o transporte era feito por via férrea.
O mais agradável durante uma viagem como esta, de BH a Grão-Mogol e vice-versa, é que, além da oportunidade de constatar os pequizeiros, em fase de produção, e porque choveu – mesmo as chuvas tendo chegado atrasadas, o Cerrado está em recuperação fantástica, e exibe o seu verdor em vários tons.
E na periferia de Montes Claros, já na BR 351 cheia de carretas cegonheiras levando ou trazendo carros recém-saídos das fábricas e de caminhões de cores variadas e de cabinas modernas, pudemos sentir o quão perigosa é a estrada, que em oportunidades diversas regurgita um e outro carro, porque se torna estreita para movimento tão intenso.
Além dos pequizeiros, as mangueiras de várias espécies de mangas estão carregadas. Neste momento as mangas proporcionam aos que saboreiam fruto de época verdadeiros manjares brotados do seio da terra vermelha do Cerrado.
Sei de quem acredita piamente: no céu se vive boa parte do tempo a saborear e a lambuzar o rosto por inteiro do suculento caldo de mangas. Mangas, deliciosas mangas!


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Por Alberto Sena - 16/11/2011 07:57:30
Levamos o Menino Jesus para Grão-Mogol

Alberto Sena

Levamos o Menino Jesus para o Presépio Natural Mãos de Deus, em Grão-Mogol, presépio que o empresário Lúcio Bemquerer revela aos mineiros, aos brasileiros e ao mundo. O maior e sem igual, único “presépio natural a céu aberto”.
Pode parecer estranho, mas ninguém seria capaz de medir a emoção da missão que coube a nós, a de levar o Menino Jesus a Grão-Mogol, depois de sete horas de viagem pelas BR’s 135 e 351, de tráfego intenso.
A leitura da nossa tarefa de transportar o Menino Jesus até o presépio de Grão-Mogol, é de fácil entendimento. Lermos o que quer nos dizer a simbologia da tarefa de ir ao ateliê do escultor Antônio da Silva Reis, em Contagem-MG, a fim de pegar a imagem devidamente embalada em plástico-bolha, e em seguida levar o Menino Jesus, deitado no banco traseiro do carro, com os braços abertos como se saudasse a Humanidade em meio a qual acaba de chegar – isto não é um grande privilégio?
O Menino Jesus chegou a Grão-Mogol na tarde de sábado, 12 de novembro de 2011, por volta das 18h, horário de verão. Quando Humberto Abdon parou o palio, em cujo banco traseiro dormia o Menino Jesus, lá estava em visita ao presépio o cronista, historiador, escritor, Haroldo Livio, de Montes Claros, que possui casa em Grão Mogol, acompanhado de Maria do Carmo; também o jornalista Paulo Narciso, da Rádio Montes Claros FM; o filho dele, Paulo Estevão, jovem cuidadoso com o pai e que bem o pai cuida dele – um tão menino quanto o outro; Antônio Pádua Bicalho, que guarda a memória da cidade; Geraldo Frois, mestre na história de Grão-Mogol; Edson Natividade Oliveira, mestre de obras do presépio; e outras pessoas; além, claro, de Lúcio Bemquerer.
Quando o Menino Jesus foi retirado do palio e levado para a entrada do compartimento da administração, os olhares das pessoas se convergiram para a imagem. Boquiabertas ficaram todos no momento em que por detrás da embalagem surgiu a imagem de um menino, o Menino Jesus, esculpido pelo escultor Silva Reis – qualquer dia desses haverei de contar aqui um pouco da história dele, fascinante.
As pessoas se acercaram da imagem do Menino Jesus naquele entardecer de sábado, e depois foi levada para uma sala aonde pernoitou, e na manhã de segunda-feira, levada para a lapa/manjedoura.
Lúcio Bemquerer acompanhou e acompanha tudo e sabe que o presépio é o que de melhor fez até então, em sua carreira empreendedora. Ele ultima os preparativos para a inauguração do presépio, dia nove de dezembro.
O padre Geraldo Magela, pároco da Matriz de Santo Antônio, de Grão-Mogol, se diz em “estado de êxtase” com o presépio edificado em oito meses de trabalho ininterrupto.
Trata-se de “um amontoado de pedras sobre pedras em harmonioso desalinho, que as Mãos de Deus” semearam há milhões de anos e lá ficou esse tempo todo à espera de alguém predestinado, que desse o toque final para torná-lo de fato um presépio em condições de ser visitado por quem se interessar possa.
Com recursos próprios, Bemquerer precisou só criar a infraestrutura necessária para tornar o presépio viável. Ele fez passarelas calçadas com pedra são Tomé, originárias de Grão-Mogol. Contratou o escultor para esculpir em cimento 17 personagens e animais bíblicos, sendo só o Menino Jesus esculpido em resina; e desenvolveu um projeto de iluminação para que os visitantes possam ter acesso ao presépio à noite.
E mais: adaptou uma lapa que a natureza fez a propósito de uma manjedoura; edificou um espaço de meditação, onde de uma enorme pedra cai água e torna o ambiente reconfortante, reforçado por música suave; fez dois mirantes, um de altura média e o outro mais elevado, de onde se descortina esplendorosa vista de Grão-Mogol; fez numa área fora dos limites do presépio construção de equipamentos sanitários, administração e, por último, murou de pedras a parte da frente e os fundos do presépio, tendo o cuidado de instalar vidro temperado no frontispício para não tolher a visão do interior da obra.
Resultado: Bemquerer, que para o padre Geraldo Magela foi “inspirado por Deus”, construiu em Grão-Mogol um presépio “natural e perene a céu aberto”.
Mas não é só o padre que está em “estado de êxtase” com o presépio que será inaugurado dia nove de dezembro. Toda a população de Grão-Mogol e das cidades circunvizinhas não se cansa de fazer os melhores comentários a respeito da obra, antes mesmo da sua inauguração.
Outro que está ansioso também para ver o projeto inaugurado é o prefeito municipal de Grão-Mogol, Jéferson Figueiredo. Ele promete todo apoio necessário para tornar mais fácil o acesso ao presépio, como a construção de um estacionamento, próximo ao local, para carros e ônibus, e uma nova rua de acesso a obra.
O prefeito acredita que o presépio impulsionará o fluxo turístico da cidade, surgida no século XVIII, a partir do garimpo de diamantes. Várias são as atrações turísticas de Grão-Mogol, entre elas, a Matriz de Santo Antônio, toda de pedras; lapas, cânions, sítios arqueológicos, o Rio Vau e a barragem de Irapé, que forma um lago sem precedentes no País.
Mas o presépio, perene, por sua grandeza como presépio e também pela sua grandiosidade natural, é agora, à proximidade do Natal e por ser o maior do mundo na sua categoria, o que mais chama a atenção de Minas, do Brasil e do mundo, em Grão-Mogol.


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Por Alberto Sena - 11/11/2011 15:34:32
Inauguração do presépio em Grão-Mogol

Alberto Sena

Na categoria “natural e a céu aberto” é o maior do mundo - O Presépio Natural Mãos de Deus, em Grão-Mogol, a 576 quilômetros da capital, será inaugurado dia 9 de dezembro. Idealizado pelo sociólogo e economista Lúcio Bemquerer, presidente da Associação Comercial de Minas (ACMinas), de 1991 a 1994, o presépio fica no perímetro urbano da cidade, a 500 m do centro antigo.
Com recursos próprios, Bemquerer edificou o presépio, que considera o maior empreendimento da sua vida, em oito meses de trabalho ininterrupto. Ele ficou 20 anos distante de Grão-Mogol, e ao se aposentar retornou à cidade e logo identificou em um lote de pedras enormes próximo à sua casa, a possibilidade de instalar um presépio tendo em vista estimular o turismo religioso.
A obra possui 3,6 mil m2 de área, 72 m2 de frente e 30 m2 de altura. Foram utilizados 1,5 km de ferro para instalar corrimões e 1,2 mil m2 de pedras tipo São Tomé, originárias de Grão-Mogol, para o calçamento das passarelas que facilitam o acesso até de cadeirantes à lapa manjedoura e ao alto dos dois mirantes. Além disto, foram precisos 70 caminhões de pedras para preencher os espaços ociosos, e dez caminhões de areia branca, o que dá ao presépio um toque especial.
O MAIOR
O custo total da obra foi de mais de R$ 400 mil e pela sua grandiosidade, já vem sendo considerada “o maior presépio natural e a céu aberto do mundo”. O inigualável projeto possui 17 personagens em tamanho natural esculpidos em cimento pelo escultor Antônio Silva Reis. São os seguintes: Nossa Senhora ainda jovem e ela mãe; São José; Menino Jesus; anjo Gabriel (e outro anjo); dois pastores; os três Reis Magos; cavalo, burro, boi, galo e dois carneiros.
Ao sintetizar o presépio, Bemquerer costuma dizer: “Trata-se de um aglomerado rochoso de pedras sobre pedras em harmonioso desalinho”. O que ele fez foi criar a infraestrutura necessária, sem remover uma pedra do local, para possibilitar o acesso a todos os pontos do presépio, que, em verdade, ali estava em estado bruto há milhões de anos à espera de alguém predestinado a identificá-lo.
Para gerir o presépio, que poderá ser visitado tanto de dia como à noite, foi criado o Instituto Mãos de Deus. Tanto debaixo do sol como das estrelas, o espetáculo religioso do nascimento do Menino Jesus é inusitado e de rara beleza. À noite, as pedras recebem focos de luzes, o que deixa cristãos e ateus embevecidos com a beleza do lugar.
DUAS ERAS
Na sua modéstia, Geraldo Ramos Frois, mestre na história local, disse que considera a participação dele “muito pequena”. Nascido e criado na cidade, ele está certo de que “Grão-Mogol passa a ter duas eras distintas: uma antes e a outra depois do presépio”.
A cidade surgida em decorrência do garimpo de diamantes, no século XVIII, ficou como que parada no tempo durante décadas, e com a instalação do presépio, Frois acredita que Grão-Mogol terá “fluxo turístico permanente”. A contribuição da obra tem valor “imensurável, não só em termos de revigoramento da fé cristã, mas para a cidade como um todo”.
Antes mesmo da inauguração, diariamente o presépio recebe visitantes de Montes Claros, Cristália, Salinas e outras cidades da região e até mesmo de países europeus, como a França. Os comentários sobre o presépio sãos os mais expressivos, pois se trata de um “teatro permanente do nascimento do Menino Deus”.
APOIO OFICIAL
O prefeito de Grão-Mogol, Jéferson Figueiredo, vem dando todo apoio necessário a Lúcio Bemquerer para facilitar o acesso dos visitantes ao presépio. Ele disse que já está providenciando um estacionamento para carros e ônibus nas proximidades do presépio e também uma rua ao lado para facilitar o acesso.
Figueiredo elogia a visão empreendedora de Bemquerer e acredita que o presépio impulsionará o progresso da cidade e a melhoria da infraestrutura para o turismo. Um hotel de categoria três estrelas está pronto para ser inaugurado, com 34 apartamentos, e a paróquia Santo Antônio, do padre Geraldo Magela, conclui um centro social com capacidade para abrigar 150 pessoas.
ÊXTASE
O padre se diz “em estado de êxtase” com o presépio, que considera um fato histórico, “porque em si, Grão-Mogol já é chamada de cidade presépio do Norte de Minas, por causa das serras e a igreja Matriz toda de pedras, que se destaca muito como patrimônio”. Para ele, o presépio “é uma bênção porque retrata um acontecimento bíblico que expressa a nova e eterna aliança de Deus para o seu povo, que se dá em Jesus Cristo Senhor, o Emanuel, Deus conosco, como diz o profeta Isaías”.
Na opinião dele, “esta obra bonita de Lúcio Bemquerer vai ficar para sempre dentro da cidade como expressão de fé e amor e ajudará na evangelização, ele, que é abençoado por Deus ao ter essa inspiração”.
O padre afirma que a relação da igreja com o presépio será a melhor possível, e ele ficará incumbido de divulgar a obra em toda oportunidade a todas as paróquias da diocese. Já tomou a iniciativa de convidar o cardeal Dom Serafim para visitar o presépio. Serafim já sinalizou a intenção de se comunicar com o Papa Bento XVI para que a obra seja divulgada pelo mundo inteiro.
PARCERIA
João Costa de Oliveira – o Nem – quatro vezes vereador em Grão-Mogol, duas vezes vice-prefeito e uma vez prefeito, fazendeiro de nascença, é o proprietário do Hotel Paraíso das Águas que será inaugurado em breve. Ele já estabeleceu uma parceria com Lúcio Bemquerer e garante acomodações para os peregrinos que forem à cidade a fim de conhecerem a obra.
O hotel será administrado pelas filhas dele, Diná Ferreira Costa, recém formada em Turismo; Ana Laura Ferreira Costa Mota e o marido dela, Romeu Gabriel da Silva Mota administrador de empresas. Eles se mostram entusiasmados tanto com o hotel como com o presépio, certos que estão do boom desenvolvimentista que Grão-Mogol experimenta, depois de décadas de estagnação socioeconômica.
Juliana Frois, responsável pelo setor de turismo da Prefeitura Municipal de Grão-Mogol vislumbra novos tempos para a cidade. Ela acha que o presépio irá gerar renda para o município e estimulará o comércio local a partir do turismo religioso. A obra, ela disse, “dará uma injeção de ânimo em toda a população”, se somando ao rico potencial turístico do município, que conta com atrativos como o Rio Vau, cânions, balneário, lapas, sítios arqueológicos, cachoeiras, a Igreja Santo Antônio edificada em pedras, trilha do barão e outras atrações.


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Por Alberto Sena - 8/11/2011 08:07:48

Pedra quase solta no ar

Alberto Sena

Quando Bill contou sobre a grande pedra quase solta no ar, nas imediações do hotel Paraíso das Águas, em vias de ser inaugurado em Grão-Mogol, no Norte de Minas, de propriedade do ex-vereador, ex-vice-prefeito e ex-prefeito João Costa de Oliveira – o Nem – confesso, não acreditei. Precisava fazer como São Tomé: ver para crer.
Fomos lá; ele, Lúcio Bemquerer e eu armados de uma câmara fotográfica a fim de registrarmos a tal pedra quase solta no ar, algo deveras inusitado. O lugar fica a poucos minutos do centro da inigualável cidade surgida no século XVIII em decorrência do garimpo de diamantes.
Paramos o carro num ponto até aonde havia trilha e depois embreamos mato adentro e logo divisamos grande quantidade de pedras. Ali, em algum tempo, parece ter sido fundo de mar, senão, como explicar o fato de as pedras terem sido desgastadas até tomarem formatos vários?
Não demorou muito e estávamos diante da pedra quase solta no ar. Em realidade, o formato dela é de uma nau antiga, daquelas usadas por Pedro Álvares Cabral para visitar as terras do Brasil e Cristóvão Colombo utilizou para ocupar a América dos antigos Maias.
A majestosa pedra – veja a foto, garantia da veracidade da informação – é de fato extraordinária. Olhando-a de todos os lados, tem-se a impressão: se alguém subir nela, de uma extremidade à outra, assim quase solta no ar, ela poderá desabar. Bill achou graça, disse: “Não tomba de jeito nenhum”, ele já subiu nela e nada aconteceu.
A pedra está apoiada numa das extremidades em três pontos. Para mim, ela tem tudo para virar ponto turístico. Contornei-a e pude contemplá-la com os próprios olhos e confesso sem a menor cerimônia, fiquei de boca aberta.
Os moradores de Grão-Mogol parecem não dar a mínima importância à pedra. Talvez porque a cidade é toda empedrada. Goza da fama de “presépio a céu aberto”. E como de fato é mesmo. Por todos os cantos encontramos pedras de vários formatos. Há uma parecida com leão sentado; há outra idêntica a galo de peito arfante cantando cocoricó; há pedra parecida com tartaruga e até uma com cara de sapo de boca aberta.
Grão-Mogol é dotada de luz própria. É histórica, mas não se parece com Ouro Preto, nem com Diamantina e muito menos com Sabará. O garimpo deixou a cidade estagnada por séculos. Esse fato nada tem de negativo. Pelo contrário. Por causa disso, Grão-Mogol é hoje modelo de qualidade de vida. Lá o ar é puro e os liquens das pedras denunciam isto.
Em Grão-Mogol não há cerca elétrica. Aliás, há uma, assim mesmo de um homem vindo de fora. Ele parece ter posses. Construiu bela casa e certamente teme ser surpreendido por alguém saltando o alto muro, por isto levou essa coisa esquisita, hoje comum nas grandes cidades, para Grão-Mogol. Razão ele não tem. Tem neurose, talvez, doença típica de quem vive nos grandes centros.
Grão-Mogol é lugar tranquilo. Lá há muito passarinho. As maitacas passam em bandos. E estão se refestelando agora com as mangas amadurecendo em todos os quintais. Sim, lá quase todas as casas têm quintais. E os passarinhos fazem a festa porque os moradores cultivam frutíferas várias. Uma delícia!
Recordo-me bem, quando criança, Montes Claros era igual Grão-Mogol. Lá as famílias sentam-se às portas das casas e batem altos papos. As portas das casas ficam abertas e o vendedor de biscoito passa diariamente. De casa em casa, ele deixa os pacotes. No fim de semana, volta e recolhe o dinheiro fruto das vendas. Há coisa melhor?
Quem vive numa cidade como Montes Claros de hoje, como Belo Horizonte, Rio de Janeiro ou São Paulo, morre de inveja, tamanha paz, amizade, tranquilidade. Morre de inveja ou sente saudades, porque nos bons tempos viver era muito menos perigoso. Hoje em dia a coisa está feia e barulhenta, parecida com briga de esqueletos com foice e no escuro, em cima de telhado de zinco.
Segundo dizia o antropólogo Darcy Ribeiro, montes-clarense da gema, o fim da Humanidade será de volta às cavernas. E a julgar pelo andar da nossa carruagem, ele está coberto de razão. Se o “degas” aqui estiver vivo até lá, o meu lugar já está escolhido: viverei debaixo da pedra parecida com nau antiga, quase solta no ar. Pelo menos terei a sensação de estar em alto-mar, ao sabor das ondas.


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Por Alberto Sena - 7/11/2011 07:47:35
Dois lindos ninhos

Alberto Sena

Wanda de Sena Batista é minha irmã. Ela mora em Montes Claros, no Norte de Minas, a 433 km de Belo Horizonte, em companhia de Geralda Batista – Ladinha – a terceira irmã nascida da primeira leva de onze filhos dos meus pais, José Batista da Conceição e Elvira de Sena Batista, que já não se encontram no meio de nós.
Wanda mora com Ladinha na Rua Ana Dionísia, no Bairro Clarindo Lopes. A casa onde elas moram tem uma varanda na frente aonde se é possível espichar numa rede, na parte da manhã, porque na parte da tarde a área ferve por causa do sol causticante de Montes claros.
Do lado direito de quem entra pelo grande portão da garagem Wanda cultiva mussaenda rosa. Mussaenda dá flores enormes, uma beleza! Mussaenda é uma planta perene, originária da África e da Ásia. Segundo nos ensina o Google, trata-se de uma planta pouco tolerante ao frio, indicada para as regiões tropicais. Ela está, portanto, no lugar apropriado. Pode até ser cultivada em vasos, isolada ou em grupos, no jardim. O porte da planta pode atingir entre dois e três metros, o que bem comprova o espécime plantado por Wanda na frente da casa, lado esquerdo de quem sai.
O motivo desta abordagem nem é bem a mussaenda, mas um ninho de rolinha marrom lá brotado em meio às folhagens, como se pode constatar por intermédio da foto anexa ao texto. Comigo é assim: capturo a cobra e ainda mostro o pau utilizado, contrariando, claro, o dizer antigo, antes, muito antes de surgirem os grupos de ambientalistas que desaprovam (eu entre eles), a prática de matar os répteis, em verdade, úteis, pois fazem parte da cadeia ecológica, alimentam-se de ratos e outros espécimes encontrados no mato.
Numa visita à casa de Wanda, aonde fui “buscar fogo”, como se diz, quando se trata de uma visita rápida, tive a satisfação de saber: as minhas irmãs não estão sozinhas, pois dos pés de mussaenda brotou o ninho de rolinha. Pude então pegar a mãe rolinha em flagrante, no ninho, e depressa saquei uma foto. A mãe rolinha nem se importou com a minha presença inoportuna, mas cheia de curiosidade. Sentada no ninho, sentada ela permaneceu. Isto me deu a entender: o momento era fundamental para o bem-estar dos futuros filhotes, por isto ela não se moveu do lugar, apenas volveu o olhar, despertada pelo clarão do flash.
Foi ao observar e fotografar o ninho com a rolinha presente que, juntos – Wanda e eu – pudemos constatar outra novidade em fase de broto numa das touceiras da mussaenda: pegamos em flagrante também um cebinho fazendo ninho numa outra galhada. Cebinho, também conhecido como “caga-sebo”, é um passarinho miúdo, de peito amarelo. Quem não o conhece pode se enganar achando trata-se de um canário chapinha.
Quando alguém coloca frasco contendo água açucarada para atrair beija-flor, o cebinho costuma aparecer também e até tenta imitar o dito cujo, que para mim é como anjo descido do céu. Os beija-flores não temem nem gaviões, devido à sua capacidade extraordinária de voar para cima, para baixo e para os lados, numa rapidez de raio; além, claro, do enorme bico mais parecido com agulha grossa de seringa.
O cebinho estava com um talinho seco de planta no bico e nós esperamos que voasse para localizarmos, em meio às galhadas da mussaenda, o lugarzinho escolhido por ele para instalar o ninho. Uma lindeza! Quão delicado é o ninho de cebinho! A essa altura, enquanto escrevo essas mal traçadas linhas, o cebinho já deve estar cuidando de botar os ovinhos, fazendo companhia à rolinha, em convivência pacífica, dando exemplo aos humanos que, muitas das vezes, vivem às turras com a vizinhança.
Diferentemente das rolinhas, os cebinhos cantam. Cantam e encantam o que para Wanda já se tornou uma atração. Quando alguém chega a casa dela, ela não controla o ímpeto de dar a notícia: “Venham ver os presentes que Deus me deu”. Ela diz e convida as visitas para observarem os ninhos. Wanda defende os ninhos como relíquias; com todo o carinho.


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Por Alberto Sena - 1/11/2011 09:12:00
Os bons ares de lá

Alberto Sena

Lá a vida passa devagar, vista de todo lugar. Seja da janela, seja da porta ou do fundo do quintal.
A cidade fascina quem está enjoado dessa correria dos grandes centros. Lá se pode escutar o silêncio, que não é como o silêncio do vácuo, porque a natureza esbanja os seus ruídos característicos.
Os sabiás laranjeira cantam neste momento lá, em todos os cantos. As árvores, muitas deles seculares, são verdadeiros campos de pouso para os passarinhos. Uns chegam, cantam e partem para outros campos de pouso. Outros chegam, cantam, limpam o bico num galho e voam para outras paragens. Mas é preciso ter olhos para enxergá-los e sensibilidade para apreciá-los.
Lá é assim: violência não há. Há amizade. Os vizinhos trocam oferendas. A campainha toca. Chega um com prato de biscoito. Passa um pouco, outro vizinho chega com vasilha de mandioca cozida junto com uma porção de carne de sol. E assim vai o dia inteiro. Uma beleza de cortesia.
Lá as mangueiras regurgitam mangas. Mangas de todos os tipos: espada, sapatinho, rosa etc. Com as chuvas caindo devagar, sem aquela força das temporadas anteriores, dentro em pouco as mangas amadurecerão.
Concomitantemente à safra de mangas, vem o saboroso e forte pequi. Dizem que o pequi de lá é o melhor. Um dia, certamente, vou experimentá-lo. Dizem: “o pequi é vermelho, carnudo, uma beleza!”
Lá, as pessoas falam baixo. São educadas para isto. Não ligam som nas alturas. Por isto também lá é diferente de tudo quanto os muitos lugares vividos e sentidos. É por isto que lá a gente pode ouvir os ruídos característicos da natureza; o bulício das folhas das árvores; o som da jia noturna.
Lá é desse jeito, “sem tirar nem pôr”, como se diz por lá. O ar é puro e se pode saber o ar puro por causa dos liquens que se espalham pelas pedras. A cidade é um verdadeiro presépio ao ar livre. As pedras formam imagens. Basta ter olhos para ver e sensibilidade para enxergar.
Lá tem pedra parecida com leão preguiçoso espalhado no chão. Lá tem pedra parecida com galo. Tem também pedra que se parece com tartaruga. E até pedra com aparência de navio, quase suspensa no ar.
A essa altura deste monólogo quem se dá ao trabalho de ler estas linhas está curioso para saber aonde é lá.
Lá é Grão-Mogol, cidade distante 143 quilômetros de Montes Claros, no Norte de Minas.
Lá é a terra de Lúcio Benquerer. E como reza o próprio nome dele, lá – e em todos os lugares – ele é querido por todos. Vai inaugurar em breve um presépio já considerado o maior do mundo em sua categoria: natural e a céu aberto.
Lá é a terra de Antônio de Pádua Bicalho, que já conta mais de 80 anos e guarda a memória da cidade. Garanto que neste momento ele está sentado na soleira da porta do estabelecimento comercial com um livro aberto, lendo. Grande Bicalho! A cidade toda o reverencia.
Lá é a terra de dona Nem – Maria Paulina Benquerer – com os seus 86 anos vividos na paz e na tranqüilidade de Grão-Mogol. Ela não troca a cidade por nada deste mundo. Ela conta histórias mil. Até mesmo de uma jiboia que um dia apareceu, pasmem todos, no quintal da casa dela.
E quê quintal ela possui! No quintal da casa de dona Nem tem parreira de uva. Bananeiras têm. Mangueiras abarrotadas de mangas por amadurecer. Têm pés de café, de graviola. Este é o paraíso dela. Vida longa para dona Nem.
Lá é onde nasceu e vive Geraldo Ramos Frões, que esbanja sabedoria botânica. Ele cuida do viveiro e do presépio da cidade. Produz uma quase infinidade de mudas. Até de pequizeiro, que é difícil. E as mudas são distribuídas de graça para quem se interessar possa.
Lá não podia ser diferente de tudo isto porque tem a proteção de Nossa Senhora do Rosário, lembrada e festejada no feriado local, segunda-feira, 31 de outubro, com uma alvorada de foguetes.
Grão-Mogol é também do padre Geraldo Magela, que nasceu em Montes Claros, mas adotou a cidade e a região, aonde conduz a paróquia Santo Antônio, toda feita de pedras. O padre se diz em “estado de êxtase” com o presépio enorme em fase de conclusão. Os olhos dele brilham com a novidade.
Lá é assim, como disse em poucas palavras. E se Deus quiser continuará assim, porque cada um dos seus mais de sete mil habitantes cuida de Grão-Mogol como cuida da própria casa.


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Por Alberto Sena - 24/10/2011 09:14:46
Fígado do lado errado

Alberto Sena

De tanto buscar aqui e ali, pesquisar lá e acolá fui descobrindo na vivência diária que o corpo humano, essa carcaça que nos prende ao chão, fala. Só que nem sempre a gente costuma dar ouvidos a ele, a não ser quando alguma coisa nele falha e é então que escutamos o seu apito.
O meu corpo, graças ao bom Deus, continua firme e forte, e antes que pudesse apitar, aprendi que é preciso conversar com ele diariamente.
Descobri que é necessário ter intimidade com ele, da mesma forma como temos de cuidar do espírito, que, em verdade, é o ente mais importante dessa tríade a qual somos formados, nessa ordem: espírito-mente-corpo.
Pois bem, aprendi que pelo espírito e através da mente nós podemos entrar em contato com o Criador de todos nós, por meio das orações. E não há nada mais forte e importante no dia a dia do que orar a Deus.
Assim faço diariamente porque em verdade, nada sou; nada posso; nada resolvo por mim mesmo e só Deus, que de fato conduz a bicicleta da vida, me dá o alento diário, se eu ocupo com a tarefa de pedalar.
Pedalar é preciso. Se eu paro de pedalar, a bicicleta para, porque Deus faz a parte Dele, mas eu – e cada um de nós seres humanos – preciso fazer a minha parte. E a minha parte, pelo que sei, é a parte mais fácil, pois o mais difícil é atribuição divina.
Vai daí que aprendi já faz algum tempo: a gente precisa ter uma relação mais íntima com o corpo. Assim é que todo dia, ao me despertar de mais uma noite de sono, sento-me na cama e tenho o seguinte monólogo com Deus, monólogo estritamente de agradecimento, porque não sou digno – nem nenhum ser humano o é – de ouvir a voz de Deus, por isto chamo a minha conversa com Ele de monólogo e não diálogo:
_“Deus, obrigado pela vida do meu espírito; obrigado por minh’alma; obrigado pela minha mente e pela minha memória, companheira de todas as horas e da minha vida inteira. Obrigado, Senhor, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Salvador, por todos os átomos e todas as células que constituem o meu corpo; obrigado pelos meus ouvidos, meus olhos, minha boca, meus dentes, minha língua e minha garganta. Obrigado, Senhor, pelo meu coração; meus pulmões, meu estômago, meu fígado, meus rins, minha bexiga, meus intestinos, meus braços e minhas mãos; minhas pernas e meus pés.
“Enfim, Senhor, obrigado pelo meu corpo por inteiro, forte, saudável, e principalmente pela energia curadora que vem do Senhor e percorre o meu corpo da cabeça aos pés”.
Essa energia curadora a que me refiro faz parte da “medicina divina”. Ela está em cada um de nós e à medida que nos conscientizamos da existência dela, essa energia cumpre com a finalidade atribuída a ela por Deus.
Enquanto vou conduzindo o monólogo com Ele em agradecimento pelo meu corpo, visualizo em mim cada órgão em seu devido lugar a partir da cabeça, passando pelo tórax, abdômen e membros.
Houve, entretanto, ocasião em que me abateu uma dúvida atroz: aonde se localiza em mim o fígado? É do lado esquerdo ou do lado direito? Tive então de pesquisar para acabar com a dúvida. Afinal, o fígado, esse importante órgão, que funciona como uma espécie de glândula se localiza no lado direito do corpo.
Foi ao acabar com essa dúvida sobre a localização do fígado no meu corpo que me lembrei de um amigo conterrâneo, de Montes Claros, cujo nome licença peço para omitir, que, nos últimos anos de inglória vida de praticante de “alterocopismo”, inveterado bebedor de cachaça, se dava ao trabalho de doar sangue e depois de receber míseros trocados, se enfurnava na Cristal daqueles bons tempos para se embebedar.
Não sei se por ignorância ou por gracejo próprio do caráter dele, depois de encher a cara, ele apalpava o lado esquerdo do abdômen e dizia: “Tô com o fígado alquebrado”. Foi talvez por isto que, embora tenha estudado o corpo humano naqueles anos de colégio, perdi a noção da localização do fígado no corpo.
Hoje não. Sei bem que o fígado está debaixo da costela, do lado direito. E quando agradeço a Deus pelo fígado, visualizo-o direitinho, inteiro, mesmo depois de ingerido na noite anterior uma garrafa de vinho tinto compartilhada com a minha respectiva companheira.
Mas nunca deixo de me lembrar do amigo montes-clarense, sujeito bem apessoado, de cabelos loiros, de olhos azuis, que batia no fígado do lado errado.


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Por Alberto Sena - 17/10/2011 07:36:41
Parem a roubalheira ou paramos o Brasil

Alberto Sena

Montes Claros não ignora que está em curso no Brasil um movimento crescente feito fermento em bolo, contra os corruptores, os corruptos e a corrupção endêmica que atrasa o desenvolvimento do País. Trato deste assunto hoje porque faço parte deste movimento, do qual não participam políticos partidários nem sindicalistas. É um movimento político, sim, mas estritamente popular.
Publiquei no Facebook um texto que poderá ser lido abaixo e o jornalista Jorge Silveira, um dos mais novos integrantes da “Academia Montesclarense de Letras”, fez questão de acrescentar algumas considerações importantes no rol de reivindicações populares para sanear o sistema político do País.
“Em primeiro lugar” – disse ele – “voto distrital, para que cada eleitor saiba quem é o seu deputado (assim se liquidaria com os compradores de voto e tornaria as campanhas mais baratas). Fim do quociente eleitoral, para que Tiririca não eleja Valdemar Costa Neto (seriam eleitos sempre os mais votados). Fim do suplente de senador (é duro votar em Itamar e eleger Zezé Perrela). Fidelidade partidária, para acabar com o troca-troca de partidos, o que é um desrespeito ao voto do cidadão. Quem trocar de partido fica inelegível por dez anos. Por fim, acabar com as coligações, ralo por onde se inicia o processo de corrupção. São bandeiras pelas quais devemos lutar, para purificar os ares da política nacional”.
Brilhante essa participação de Jorge Silveira, que no dia a dia de Montes Claros mete o dedo na ferida da política municipal, assim como Waldyr Senna e outros que dão o bom exemplo a ser seguido. Entendo que – e aqui insiro o texto publicado no Facebook – se juntos dermos um jeito nesse cancro chamado corrupção, juntos transformaremos o Brasil numa grande Nação, não só em termos territoriais.
Sem corrupção, o Brasil será senão a maior, uma das maiores potências do globo, não em termos bélicos, como os Estados Unidos da América do Norte, cuja economia é centrada na fabricação e no comércio de armas, no fomento às guerras.
O Brasil, esse Brasil que a mídia não mostra, tem todos os requisitos para se transformar numa potência do saber; num País onde a miséria foi extirpada; numa Nação de gente educada; território rico de belezas cênicas e recursos minerais, detentor do maior caudal de grandes rios e de matas exuberantes.
E principalmente, os brasileiros serão reconhecidos no mundo inteiro como uma raça sem igual no planeta, miscigenação meticulosamente preparada no caldeirão étnico invejado pelos países ditos desenvolvidos.
Sem corrupção, que revolta a quem preza a ética, sobrará dinheiro para a saúde, e nunca mais os governos haverão de pensar em impostos para financiá-la. E os brasileiros terão assistência médica de qualidade, igual tanto para pobres como para ricos, e daremos adeus às filas do SUS.
Sem corrupção, sobrará dinheiro suficiente para os governos darem educação de qualidade a todos os brasileiros, indistintamente, a partir da base, até os cursos de graduação e pós-graduação.
Brasileiros sem conta serão doutores, pois nossa gente é gente inteligente, capaz de participar ativamente da transformação do mundo, um mundo sem miséria.
Com educação de qualidade, os professores terão bons salários, como acontece na Coréia do Sul, um pequeno país do oriente onde os professores são respeitados, têm os melhores salários. E porque são bem pagos e têm infraestrutura também de qualidade, aquele pequeno país dá um banho, atualmente, no Brasil, em termos de educação e cultura.
Sem corrupção, as cenas horripilantes de irmãos brasileiros dormindo na sarjeta desaparecerão. Há algo mais triste do que andar pelas ruas das cidades e ver seres humanos como nós dormindo no chão frio das calçadas mal engendradas, esburacadas?
Sem corrupção, a fome será banida para sempre do País, porque não dá para aceitar esse descalabro verificado diuturnamente de pedintes nas ruas implorando dinheiro “para comprar pão”. Crianças descalçadas, maltrapilhas de nariz a escorrer catarro e cheio de melecas; crianças que podiam estar em creches com todos os recursos dignos para formá-las tendo em vista um futuro promissor.
Mas para acabarmos com a corrupção é necessário sairmos do comodismo. Enquanto dormimos em camas macias, enquanto nos cobrimos com cobertores quentinhos; enquanto forramos o estômago com frutas, legumes, verduras e carnes de variados tipos milhões de irmãos perambulam pelas ruas das cidades à míngua.
Quem não se posicionar contra a corrupção dará demonstração de conivência com o grupo dos corruptores e corruptos, porque não é compreensível que diante desse descalabro assistido diariamente pessoas de bem possam ignorar ou aceitar que maus políticos e maus empresários continuem usurpando do dinheiro público, nos fazendo de bobos, otários.
Não dá para não reagir contra a ação dos corruptores e dos corruptos que depois de meterem a mão no dinheiro público vão para a TV posar de “celebridades”. Juntos, temos que pôr um basta nisto.
Daqui para frente, os potenciais corruptores e corruptos (eles não têm vergonha mesmo) precisam ter medo da nossa reação, reação política – antes mesmo de nascer, ainda na fase de gestação, o ser humano é político – mas não uma reação político-partidária. Não devemos misturar uma coisa à outra.
Não devemos aceitar partidos políticos em nosso meio. Não devemos aceitar sindicalistas. Esta é uma reação autenticamente popular, de quem tem vergonha na cara e preza a ética como a melhor maneira de construir uma grande Nação melhor para todos.
Precisamos juntos, construir uma reação semelhante às “Diretas-Já”. Temos que ser fermento. Precisamos fazer crescer o bolo da indignação para mostrarmos aos corruptores e corruptos que eles são dejetos da sociedade e devem ser lançados na rede de esgoto.
Corrupção é “crime hediondo”. Quem malversar dinheiro público, além de ser preso e devolver todo o recurso roubado com juros e correção monetária, terá os direitos políticos cassados para sempre, sofrerá todo o escárnio da sociedade. Terá julgamento rápido, sem nenhuma regalia, passará os anos de condenação literalmente atrás das grades.
Queremos, pela ordem (além do que sugere Jorge Silveira e outros ainda poderão sugerir): “Reconhecimento da constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa no STF, com validade para as eleições de 2012; imediato julgamento, no STF, do “mensalão”, para evitar que os crimes praticados sejam prescritos e os corruptos saiam impunes; inclusão dos crimes de corrupção na categoria de crimes hediondos, sem direito a fiança nem quaisquer outras regalias; prisão e imediato confisco de bens de juízes pegos vendendo sentença, que beneficiam delinquentes e corruptos; imediata devolução aos cofres públicos dos recursos desviados pelos corruptores e corruptos; investimento maciço em Educação, com a imediata adoção do Piso Salarial Nacional dos professores; promoção da Reforma Política, com a abolição do voto secreto nas votações do Congresso Nacional; extinção das emendas individuais no orçamento federal e redução dos cargos comissionados; maior transparência na aplicação dos recursos públicos, com a publicação das receitas e gastos, em todos os níveis – municipal, estadual e federal” – entre outras reivindicações.
Não dá mais para suportar. Quem ficar estático diante da corrupção precisa entender: você também está sendo roubado, reaja. Se nada fizer, de duas uma: poderá ser visto como corruptor ou corrupto. Não dá nem para aceitar a repugnante desculpa de “comodismo”. Reação de protesto, indignação, é preciso.
Dia 15 de novembro, Dia da Proclamação da República, que todas as pessoas dignas, republicanas, saiam do comodismo das suas casas para marcharem contra a corrupção. A palavra de ordem é: “Ou acabem com a roubalheira ou paramos o Brasil”.


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Por Alberto Sena - 14/10/2011 11:54:23

Os passos da paixão de Dídimo Paiva

Alberto Sena

O lançamento dos livros sobre a “Vida e Obra” do jornalista Dídimo Paiva – “Passos de uma paixão” e “Um bunker na imprensa”, na noite de 13 de outubro de 2011, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, reuniu centenas de pessoas entre jornalistas, intelectuais, amigos e parentes do homenageado, que, aos 83 anos autografou os dois volumes, de 190 e 311 páginas, respectivamente.
Presidente do Sindicato dos Jornalistas na década de 1970, Dídimo Paiva é considerado “um dos últimos dos moicanos” do jornalismo mineiro e nacional pela sua coragem, ética profissional e senso de justiça – ele enfrentou a ditadura militar desde os primeiros momentos do golpe que lançou o País em trevas – defendeu e defende a ética profissional como um guerreiro numa trincheira, tendo sido talvez o jornalista que mais escreveu editoriais num só veículo de comunicação, em torno de 15 mil, durante 40 anos de profissão.
Foi uma verdadeira festa o lançamento organizado por “Conceito Editorial”, de José Eduardo Gonçalves e Sílvia Rubião, editores das publicações que marcaram para a posterioridade a vida e obra deste grande jornalista considerado “reserva moral do jornalismo mineiro”.
Com prefácio do escritor Fernando Morais e notas finais de Anis José Leão no primeiro livro, o da vida de Dídimo Paiva, e prefácio do jornalista e escritor Mauro Santayana, no outro, as publicações foram escritas pelos jornalistas Tião Martins e Alberto Sena (Reportagem); e André Rubião, cientista político, organizador da obra, parte da grande série de artigos publicados ao longo da vida profissional do jornalista, hoje aposentado.
Os livros foram idealizados pelos jornalistas Paulo Emílio Coelho Lott e Washington Tadeu de Mello, amigos de Dídimo Paiva de longa data, com recursos da Lei Federal de Incentivo à Cultura. E com o apoio de Andrea Neves da Cunha, Édison Zenóbio, Henrique Bandeira de Melo, J. D. Vital, Luiz Henrique Michalick, Paulo Brant e Sérgio Esser.
Sem dúvida, foi uma noite memorável. O homenageado, cercado pelos parentes, estava visivelmente emocionado, e embora tivesse se restabelecendo de recente fratura sofrida no braço direito, em decorrência de uma queda, o que o impediu de redigir nos últimos meses, já que aposentou definitivamente a máquina de escrever e o computador (os textos dele são manuscritos), pôde abraçar a todos com satisfação e alegria.
“Passos de uma paixão” foram contados a partir de longas conversas gravadas com Dídimo Paiva, o que demandou quase um ano de exaustivo trabalho, tempo em que a vida dele foi escarafunchada desde o nascimento, em Jacuí, no Sul de Minas, até os grandes momentos de sua rica vivência no jornalismo.
Para organizar o livro sobre a obra de Dídimo, André Rubião contou com pesquisa minuciosa feita por Rosângela Guimarães, auxiliada por uma equipe técnica composta por Dejanira Ferreira Rezende, Denise Maria Ribeiro Tedeschi, Joelma Aparecida do Nascimento, Pedro Eduardo de Andrade, Rafael Fanni e Tágila Gonçalves Mendes; com apoio de Bárbara Vieira, projeto gráfico e diagramação de Diogo Droschi, revisão de Cecília Martins e apoio administrativo de Kênia Perdigão.
Os artigos de Dídimo Paiva estavam em cerca de cem caixas de papelão num cômodo fechado a cadeados na casa que ele tem em Mariana, aonde costuma passar o fim de semana com a esposa, Cidinha. Todo o acervo dele foi devidamente organizado, de modo que daqui para frente, sempre que Dídimo quiser encontrar um dos seus guardados será uma tarefa fácil.
Em verdade, para contar a vida e a obra deste homem inigualável seriam necessários vários livros, tamanha a riqueza do que ele obrou nessas mais de quatro décadas de jornalismo. Viciado no trabalho, ele era famoso por trabalhar quase 24 horas por dia. Nos últimos anos, costumava se levantar às 5h e antes de qualquer outra iniciativa, se dirigia à mesa de trabalho, em casa, para redigir os seus famosos manuscritos, artigos publicados em revistas e especialmente no Observatório de Imprensa.
Dídimo poderia ser hoje, homem rico. Mas recusou pomposas ofertas de emprego público para se dedicar única e exclusivamente ao jornalismo. Ele foi o espelho através do qual o ex-torneiro mecânico Luiz Inácio Lula da Silva colheu as primeiras substâncias para iniciar no ABC paulista o “Novo Sindicalismo”, que o levou a ser, anos depois de quatro tentativas, presidente da República do Brasil.


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Por Alberto Sena - 11/10/2011 14:30:31
O começo e o fim da “guerra” de Canudos

Como certamente fui um dos últimos a ter a graça, a honra e o prazer de ler “Os Sertões”, belíssimo e riquíssimo livro do grande escritor Euclides da Cunha (se por acaso houver ainda alguém que não o leu – o que não acredito, pois me julgo o último leitor dessa grande obra – recomendo ler), tomo a liberdade de inserir no âmbito doméstico deste Face Book, a reação primeira da Igreja Católica (faço questão de ressaltar que ao apor isto aqui não tenho a menor intenção de combater a Igreja Católica) contra as pregações de Antônio Conselheiro, o que se poderá constatar nas páginas 130 e 131 da edição da Abril Cultural, 1982. Ao final de tudo, que cada um que se der ao trabalho de ler esses registros até o fim, possa tirar as próprias conclusões dos motivos que geraram um dos mais violentos episódios da história do Brasil, que, em certa época da nossa vida de estudante, povoaram os nossos parcos estudos e conhecimentos. Leiam abaixo:
Tentativas de reação legal
“Os vigários toleravam com boa sombra os despropósitos do Santo endemoninhado que ao menos lhes acrescia a côngrua reduzida. Percebeu-o, em 1882, o arcebispo da Bahia, procurando pôr paradeiro a esta transigência, senão mal disfarçada proteção, por uma circular dirigida a todos os párocos.
“Chegando ao nosso conhecimento, que pelas freguesias do centro deste arcebispado, anda um indivíduo denominado Antônio Conselheiro, pregando ao povo, que se reúne para ouvi-lo, doutrinas supersticiosas e uma moral excessivamente rígida com que está perturbando as consciências e enfraquecendo, não pouco, a autoridade dos párocos destes lugares, ordenamos a V. Rvma., que não consinta em sua freguesia semelhante abuso, fazendo saber aos Paroquianos que lhes proibimos absolutamente, de se reunirem para ouvir tal pregação, visto como, competindo na igreja católica, somente aos ministros da religião, a missão santa de doutrinar os povos, um secular, quem quer que ele seja, ainda quando muito instruído e virtuoso, não tem autoridade para exercê-lo.
“Entretanto sirva isto para excitar cada vez mais o zelo de V. Rvma., no exercício do ministério da pregação, a fim de que os seus paroquianos, suficientemente instruídos, não se deixem levar por todo o vento de doutrina, etc.”
“Foi inútil a intervenção da Igreja”.
(Nas páginas 166 e 167 se podem ler o que de fato foi o principal motivo do sangrento episódio da história brasileira, no qual um sem número de pessoas, tanto do exército quanto da jagunçada, perdeu a vida de maneira bisonha).
Causas próximas da luta
“Determinou-a incidente desvalioso.
“Antônio Conselheiro adquirira em Juazeiro certa quantidade de madeira, que não podiam fornecer-lhe as caatingas paupérrimas de Canudos. Contratara o negócio com um dos representantes da autoridade daquela cidade. Mas ao terminar o prazo ajustado para o recebimento do material que se aplicaria no remate da igreja nova, não lho entregaram. Tudo denuncia que o distrato foi adrede feito, visando o rompimento anelado.
“O principal representante da justiça do Juazeiro tinha velha dívida a saldar com o agitador sertanejo, desde a época em que sendo juiz de Bom Conselho fora coagido a abandonar precipitadamente a comarca, assaltada pelos adeptos daquele.
“Aproveitou, por isso, a situação, que surgia a talho para a desafronta. Sabia que o adversário revidaria à provocação mais ligeira. De fato, ante a violação do trato aquele retrucou com a ameaça de uma investida sobre bela povoação do S. Francisco: as madeiras seriam de lá arrebatadas, à força.
“O caso passou em dias de outubro de 1896.
“Era esta a situação (Mensagem do Governador da Bahia (Dr. Luís Viana) ao Presidente da República – 1897) quando recebi do Dr. Arlindo Leôni, Juiz de Direito de Juazeiro, um telegrama, urgente comunicando-me correrem boatos mais ou menos fundados de que aquela florescente cidade seria por aqueles dias assaltada por gente de Antônio Conselheiro, pelo que solicitava providências para garantir a população e evitar o êxodo que da parte desta já se ia iniciando. Respondi-lhe que o governo não podia mover força por simples boatos e recomendei, entretanto, que mandasse vigiar as estradas em distância e verificado o movimento dos bandidos, avisasse por telegrama, pois o governo ficava prevenido para enviar incontinenti, em trem expresso, a força necessária para rechaçá-las e garantir a cidade”.
(A mim não cabe, aqui, entrar nos detalhes do que se deu depois, senão teria que transcrever o livro inteiro e não é o caso. O certo é que o conflito se iniciou e foi uma coisa horrenda. Passo, então, a transcrever os momentos finais dessa “guerra” fratricida dando um salto para as páginas 427 / 428 / 429, já depois de morto Antônio Conselheiro, que foi sepultado por um jagunço chamado Antônio também, apelidado de “Beatinho”, que deixou as trincheiras de Canudos e se entregou ao exército juntamente com um dos seus companheiros, conforme descreve Euclides da Cunha).
“Um deles era Antonio, o “Beatinho”, acólito e auxiliar do Conselheiro. Mulato claro e alto, excessivamente pálido e magro, erecto o busto adelgaçado. Levantava, com altivez de resignado, a fronte. A barba rala e curta emoldurava-lhe o rosto pequeno animado de olhos inteligentes e límpidos. Vestia camisa de azulão e, a exemplo do chefe da grei, arrimava-se a um bordão a que se esteava, andando. __ Veio com outro companheiro, entre algumas praças, seguido de um séquito de curiosos.
“Ao chegar à presença do general, tirou tranquilamente o gorro azul, de listras e borlas brancas, de linho; e quedou, correto, esperando a primeira palavra do triunfador.
“Não foi perdida uma sílaba única do diálogo prontamente travado.
_ “Quem é você?
_ “Saiba o seu doutor general que sou Antônio Beato e eu mesmo vim por meu pé me entregar porque a gente não tem mais opinião e não aguenta mais.
“E rodava lentamente o gorro nas mãos lançando sobre os circunstantes um olhar sereno.
_ “Bem. E o Conselheiro?...
_ “O nosso bom Conselheiro está no céu...
“Explicou então que aquele, agravando-se antigo ferimento, que recebera de um estilhaço de granada atingindo-o quando em certa ocasião passava da igreja para o Santuário, morrera a 22 de setembro, de uma disenteria, uma “caminheira” – expressão horrendamente cômica que pôs repentinamente um burburinho de risos irreprimidos naquele lance doloroso e grave.
“O Beato não os percebeu. Fingiu, talvez, não os perceber. Quedou imóvel, face impenetrável e tranquila, de frecha sobre o general, olhar a um tempo humilde e firme. O diálogo prosseguiu:
_ “E os homens não estão dispostos a se entregarem?
_ “Batalhei com uma porção deles para virem e não vieram porque há um bando lá que não querem. São de muita opinião. Mas não aguentam mais. Quase tudo mete a cabeça no chão de necessidade. Quase tudo está seco de sede...
_ “E não podes trazê-los?
_ “Posso não. Eles estavam em tempo de me atirar quando saí...
_ “Já viu quanta gente aí está, toda bem armada e bem disposta?
_ “Eu fiquei espantado!
“A resposta foi sincera, ou admiravelmente calculada. O rosto do altareiro desmanchou-se numa expressão incisiva e rápida, de espanto.
_ “Pois bem. A sua gente não pode resistir, nem fugir. Volte para lá e diga aos homens que se entreguem. Não morrerão. Garanto-lhes a vida. Serão entregues ao governo da República. E diga-lhes que o governo da República é bom para todos os brasileiros. Que se entreguem. Mas sem condições: não aceito a mais pequena condição...
“O Beatinho, porém, recusava-se, obstinado, à missão. Temia os próprios companheiros. Apresentava as melhores razões para não ir.
“Nessa ocasião interveio o outro prisioneiro, que até então permanecera mudo.
“Viu-se, pela primeira vez, um jagunço bem nutrido e destacando-se do tipo uniforme dos sertanejos. Chamava-se Bernabé José de Carvalho e era um chefe de segunda linha.
“Tinha o tipo flamengo, lembrando talvez, o que não é exagerada conjetura, a ascendência de holandeses que tão largos anos por aqueles territórios do norte trataram com o indígena.
“Brilharam-lhe, varonis, os olhos azuis e grandes; o cabelo alourado revestia-lhe, basto, a cabeça chata e enérgica.
Apresentou logo como credencial o mostrar-se duma linhagem superior. Não era um matuto largado. Era casado com uma sobrinha do capitão Pedro Celeste, de Bom Conselho...
“Depois contraveio, num desgarre desabusado, insistindo com o Beatinho recalcitrante”:
(Passando, na sequência, para a página 429, Bernabé disse o que se segue).
_ “Vamos! Homem! Vamos embora... Eu falo uma fala com eles... deixe tudo comigo. Vamos!
“E foram”.
“O efeito da comissão, porém foi de todo em todo inesperado. O Beatinho voltou, passada uma hora, seguido de umas trezentas mulheres e criança e meia dúzia de velhos imprestáveis. Parecia que os jagunços realizavam com maestria sem par o seu último ardil. Com efeito, viam-se libertos daquela multidão inútil, concorrente aos escassos recursos que acaso possuíam, e podiam, agora, mais folgadamente delongar o combate”.
(Agora, Euclides da Cunha narra a chegada dos prisioneiros, na página 430)
“Alguns enfermos graves vinham carregados. Caídos logo aos primeiros passos, passavam, suspensos pelas pernas e pelos braços, entre quatro praças. Não gemiam, não estortegavam; lá se iam imóveis e mudos, olhos muito abertos e muito fixos, feitos mortos. Aos lados, desorientadamente, procurando os pais que ali estavam entre os bandos ou lá embaixo mortos, adolescentes franzinos, chorando, clamando, correndo. Os menores vinham às costas dos soldados agarrados às grenhas despenteadas há três meses daqueles valentes que havia meia hora ainda jogavam a vida nas trincheiras e ali estavam, agora, resolvendo desastradamente, canhestras amas-secas, o problema difícil de carregar uma criança. Uma megera assustadora, bruxa rebarbativa e magra – a velha mais hedionda talvez destes sertões – a única que alevantava a cabeça espalhando sobre os espectadores, como faúlhas, olhares ameaçadores; e nervosa e agitante, ágil apesar da idade, tendo sobre as espáduas de todo despidas, emaranhados, os cabelos brancos e cheios de terra, _ rompia, em andar sacudido, pelos grupos miserandos, atraindo a atenção geral. Tinha nos braços finos uma menina, neta, bisneta, tataraneta talvez. E essa criança horrorizava. A sua face esquerda fora arrancada, havia tempos, por um estilhaço de granada; de sorte que os ossos dos maxilares se destacavam alvíssimos, entre os bordos vermelhos da ferida já cicatrizada... A face direita sorria. E era apavorante aquele riso incompleto e dolorosíssimo aformoseando uma face e extinguindo-se repentinamente na outra, no vácuo de um gilvaz
“Aquela velha carregava a criação mais monstruosa da campanha. Lá se foi com o seu andar agitante, de atáxica, seguindo a extensa fila de infelizes...
(Vamos juntos, para a página 433, na qual o editor do autor inseriu ao lado direito da página o que seria um versal: “Canudos não se rendeu”).
“Fechemos este livro.
“Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.
“Forremo-nos à tarefa de descrever os seus últimos momentos. Nem poderíamos fazê-lo. Esta página, imaginamo-la sempre profundamente emocionante e trágica; mas cerramo-la vacilante e sem brilhos”.
(Ainda na página 433 até o final do livro, na página 434, o editor interpôs o seguinte versal: “O cadáver do Conselheiro”)
“Antes, no amanhecer daquele dia, comissão adrede escolhida descobrira o cadáver de Antônio Conselheiro.
“Jazia num dos casebres anexos à latada, e foi encontrado graças à indicação de um prisioneiro. Removida breve camada de terra, apareceu no triste sudário de um lençol imundo, em que mãos piedosas haviam disparzido algumas flores murchas, e repousando sobre uma esteira velha, de tábua, o corpo do “famigerado e bárbaro” agitador. Estava hediondo. Envolto no velho hábito azul de brim americano, mãos cruzadas ao peito, rosto tumefacto e esquálido, olhos fundos cheios de terra – mal o reconheceram os que mais de perto o haviam tratado durante a vida.
“Desenterraram-no cuidadosamente. Dádiva preciosa – único prêmio, únicos despojos opimos de tal guerra! – faziam-se mister os máximos resguardos para que se não desarticulasse ou deformasse, reduzindo-se a uma masa (no livro parece faltar um ‘s’ na palavra, que deve ser ‘massa’) angulhenta de tecidos decompostos.
“Fotografaram-no depois. E lavrou-se uma ata rigorosa firmando a sua identidade: importava que o país se convencesse bem de que estava afinal extinto aquele terribilíssimo antagonista.
“Restituíram-no à cova. Pensaram, porém, depois, em guardar a sua cabeça tantas vezes maldita – e como fora malbaratar o tempo exumando-o de novo, uma faca jeitosamente brandida, naquela mesma atitude, cortou-lha; e a face horrenda, empastada de escaras e de sânie, apareceu ainda uma vez ante aqueles triunfadores...
“Trouxeram depois para o litoral, onde deliravam multidões em festa, aquele crânio. Que a ciência dissesse a última palavra. Ali estavam, no relevo de circunvoluções expressivas, as linhas essenciais do crime e da loucura...”


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Por Alberto Sena - 10/10/2011 08:26:45
Pequeno traço, polêmica grande

Alberto Sena

Um pequeno traço gramatical pode gerar uma grande polêmica. Exemplo disto é o caso do hífen (ou a ausência dele) na palavra que identifica as pessoas nascidas em Montes Claros. Eu e meus conterrâneos somos “montes-clarenses” com hífen, mas a Academia Montesclarense de Letras, como se pode ler, grafa a palavra sem o referido sinal, porque assim foi registrada em cartório.
O porquê disto ainda não é sabido. O que se sabe é que o fato de a academia ter sido registrada sem hífen e o sinal gráfico ser parte integrante da nossa condição de montes-clarenses, gera certa confusãozinha porque a tendência de quem desconhece é seguir os cânones acadêmicos.
O texto publicado aqui, semana passada, a propósito disto, ao que parece, não despertou, oficialmente, reação alguma da Academia Montesclarense de Letras. Mas no âmbito doméstico do Face Book, o falatório foi intenso como se poderá comprovar abaixo.
Virginia Abreu De Paula, que pertence à Academia Feminina de Letras de Montes Claros teceu alguns comentários: “Gramaticalmente”, ela escreveu, “claro, o correto é com hífen. Pessoalmente, penso que, embora os acadêmicos soubessem da necessidade do hífen, optaram pela sua ausência, pois era assim que todos escreviam no passado. E assim a nossa academia é montesclarense. E, sabendo que os montesclarenses de então, gente tão dedicada à cidade, com amor verdadeiro e desinteressado, gosto de dizer que, montesclarense sem hífen, somos todos nós que também amamos Montes Claros de verdade, que queremos preservar nossa memória e nossa natureza. E com hífen são aqueles que chegaram depois, com nova maneira de ver a cidade, sem muito interesse pelo que é nosso. Devo deixar claro que há jovens montesclarenses e muitos da “velha guarda” que se tornaram montes-clarenses. Enfim, para mim, quando digo que sou montesclarense, assim sem o hífen, é algo como “carioca da gema”. Invencionice minha. Só quando, ao escrever, forçosamente, a bem da gramática tenho de colocar o tal hífen, mesmo que a contragosto. Sei que dona Yvonne (a presidente da Academia Montesclarense de Letras) tem algo escrito a respeito. Ela é pela ausência do hífen. Seria bom que ela compartilhasse o artigo conosco”.
Em resposta a Virgínia, pessoa de docilidade peculiar, eu escrevi no Face Book: “Tudo bem, mas você vai “presa assim mesmo”, como se diz na brincadeira. Mas se a Academia Montesclarense de Letras não utiliza o hífen, considerando que é uma academia que reúne os “imortais da literatura”, de duas uma: está certa ou errada. Se estiver certa, todos nós acompanharemos a Academia. Se estiver errada, que ela reconheça o erro e coloque o hífen. Afinal, a Academia é uma referência. O que não deve acontecer é essa dúvida: com ou sem hífen?”
Mais que depressa, Virginia redarguiu (sem trema): “Está errado dentro da gramática. Está certo nos nossos corações. O que vale mais? Como eu disse, dona Yvonne tem um artigo onde ela tece comentário sobre a razão dela preferir sem o hífen. Talvez tenha encontrado alguma brecha na gramática que permita a opção. Eu não conheço o artigo e gostaria de conhecer. Durante a formação da academia feminina veio essa questão. Foi um bate boca danado. Finalmente, alguém deu o famoso “golpe de João sem Braço” e sugeriu colocarmos o nome Academia Feminina de Letras de Montes Claros. E ficou assim”.
Vai daí que Itamaury Teles de Oliveira, que é acadêmico, deu a sua contribuição: “Alberto, bastante oportuna a sua dúvida. E é bom que se esclareça. Como editor da revista da Academia, adotei o seguinte princípio: onde falava da Academia Montesclarense de Letras, grafava-a sem hífen, pois foi assim batizada no Cartório de Títulos e Documentos. Nos demais casos, eu segui o que manda as normas ortográficas: montes-clarense, com hífen, evidentemente. Já comentei com alguns acadêmicos sobre a necessidade de fazermos uma alteração nos registros, para torná-los consentâneos com as regras ortográficas. Enquanto isso, convivamos com as duas formas, embora o certo seja com hífen”.
Pus, então, um pouco mais de gasolina na conversa: “Aproveitando o mote, Itamaury, acho que é uma boa hora de provocarmos uma solução da questão, porque senão vamos prolongar o problema, que nem é tão problema assim, mas gera uma dúvida incômoda, considerando que se trata de uma Academia de Letras, que, em tese, dita normas que devem ser seguidas, pois reúne a nata dos literatos montes-clarenses. Se a própria Academia grafa a palavra desse modo, e levando-se em conta a respeitabilidade dela, fica parecendo que o outro modo, com hífen, é errado, concorda?”
Itamaury, com o seu jeito diplomático de ser, concordou com a necessidade de uma alteração “para evitar confusão”. E foi mais adiante: “Mas como se trata de nome próprio, não está errado grafá-lo sem hífen, pois assim foi registrado. Se, porventura, tivesse trema, este também poderia ser mantido, embora já defenestrado da língua portuguesa. Curioso, não?”
Virginia voltou à baila: “Seria interessante saber por que registraram assim. Com certeza não foi por desconhecerem a regra gramatical. Teve alguma razão que dona Yvonne sabe a resposta. Por mim, continuo achando que montesclarense “da gema” é sem hífen; eu sou montesclarense”.
Leonardo Campos, que além de jornalista, escritor e advogado é paleontólogo, passava por perto e deu também o seu palpite: “Foi registrado sem hífen mesmo, por desconhecimento da regra gramatical (na época achavam que era assim), isto é, errado”.
Virginia armou-se de mais munição e disparou: “Ainda gostaria de ouvir o que dona Yvonne tem a dizer. Todos escreviam sem hífen. Todos: Cyro dos Anjos, Nelson Viana, Guimarães Rosa. Será que todos ignoravam a regra? Olha, se eles ignoravam essa regra, é que se trata de uma regra a ser ignorada. Sou muito mais eles do que quem fez a regra”.
Itamaury emendou: “Todos os bons dicionários registram esse gentílico com hífen. E mais: em conformidade com a Academia Brasileira de Letras – signatária do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa – os gentílicos permanecem com hífen”.
Virginia concordou e foi avante: “Como venho falando desde a primeira postagem, a gramática pede o hífen. Quanto a isso, não resta a menor dúvida. Mas, por que temos de seguir gramática imposta por outros? Logo esse pessoal que vive inventando mudar as regras de ano em ano? Por que damos a eles tal poder sobre nós? Se gente como Cyro dos Anjos etc. escrevia sem hífen, eu fico com eles, porque gosto mais deles. Ai, cadê Márcia Yellow? Ela também não gosta do hífen. Cadê meu irmão Virgílio? Detestava o hífen na palavra montesclarense, considerado pelos antigos da cidade como um invasor. E cadê o artigo de dona Yvonne Silveira? Não estou dizendo que todos nós devemos abolir o hífen. Eu o uso sempre quando escrevo. Estou, porém, defendendo que sem hífen é bem mais bonito e muito mais nosso, muito mais com cheiro de Montes Claros. E que deve haver um motivo para isso porque não posso acreditar que tantos literatos desconheciam a regra gramatical”.
De lá da sua trincheira, Itamaury contra-atacou (com hífen): “Trata-se de uma boa briga, Virgínia. Quem sabe um plebiscito não resolveria a questão? Hífen em montes-clarense, sim ou não? Se for mantido o hífen, fica como está nos dicionários. Se não, enviaríamos o resultado para a Academia Brasileira de Letras, como um protesto do povo de Montes Claros, exigindo mudanças nas próximas edições dos “pais dos burros”.
Virginia, docilmente, acrescentou: “Isso resolveria o problema de Alberto. Ele acha que temos de decidir isso de uma vez (na nomenclatura da Academia, Virgínia). Eu não penso assim. Já está decidido, não por nós, que tem hífen. Recentemente tiraram mil hífens devido a uma reforma boba da nossa língua. Falta de orgulho nacional. Uma reforma ortográfica do inglês jamais seria cogitada muito menos aceita, pelos britânicos. Pois então, como eu dizia, retiraram mil hífens de palavras que estavam bonitinhas com eles. Mas deixaram o hífen onde não era preciso. De qualquer forma, ao que parece, temos a obrigação de seguir esses tontos que vivem modificando o que querem sem nos consultar. Então, não há necessidade de plebiscito! Já foi decidido. Porém, não podem obrigar a modificar um nome próprio já registrado. E não podem denegrir a imagem dos nossos acadêmicos que, vai ver, sabem mais português do que eles. Há muita coisa nossa não registrada nos dicionários, nem por isso estamos falando “errado”. Bestagem, por exemplo. Não creio que exista essa palavra. Mas existe para nós. Assim como sempre existirá algum livro de gente muito boa com a palavra montesclarense. Não é preciso fazer revisão. Deus me livre de corrigir Guimarães Rosa”.
Itamaury trouxe mais munição: “Bestagem está dicionarizada desde 1913, segundo o Houaiss: “Substantivo feminino, regionalismo: Brasil. Ato ou efeito de bestar, asneira, besteira, bobagem; falta de educação, inconveniência, vagabundagem, ócio”.
Virginia de novo: “Que boa notícia, Itamaury. Obrigada. Então são os montes-clarenses com hífen que ainda têm a mania de não dar valor ao regionalismo. E geralmente, nem sabem o que dizem”.
Mara Narciso, an passant deu uma contribuição: “Depois da reforma tenho escrito com hífen, e antes escrevia junto”. Ao que Virginia respondeu: “Mara, penso que havia o hífen antes da reforma. A primeira vez que vi escrito montes-clarense foi no fim dos anos 1970, na casa de uma amiga professora de português. Mas vejam o que acabei de encontrar no site jurisway: “Adjetivos Pátrios Brasileiros Estado: Minas Gerais – mineiro; capital: Belo Horizonte – belo-horizontino ou belohorizontino”. O quê? Então, eles podem escolher e nós não podemos? Ou é devido a alguma regra maluca como “belo” termina com vogal e “montes” com consoante? Pode parecer loucura, mas nossa língua está cheia de bobagens desse tipo. Gramáticos de plantão, socorro”.
Itamaury pôs, então, um hífen, quero dizer, um ponto final na conversa (por enquanto): “Acho que poderíamos usar o exemplo belorizontino e criar mais um: monsclarense. Aí, sim, sem hífen”.


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Por Alberto Sena - 3/10/2011 08:11:03
Montesclarense com ou seu hífen?

Alberto Sena

Quem quiser se encontrar com o escritor e jornalista Itamaury Teles, quando ele vem a Belo Horizonte, basta ir à Praça da Assembleia Legislativa, na manhã de sexta-feira, quando ele se incorpora ao “petit comité” dos ex-colegas aposentados do Banco do Brasil, certamente, gente competente e com as burras cheias. Entre eles há quem seja crente em Deus, há ateu e pelo menos um que diz ser nem crente nem ateu, “à toa”.
Encontrei-me com Itamaury, nesta última sexta-feira, quando o amigo me presenteou com um exemplar da “Revista da Academia Montesclarense de Letras”, volume II, por ele editada e publicada, tendo na capa a imagem da Catedral de Nossa Senhora Aparecida, edição bem feita, composta de textos de acadêmicos de estirpe elevada.
Vários deles eu tive a oportunidade de conhecê-los pessoalmente, em vida, como Hermes de Paula, Cândido Canela, João Valle Maurício, Corbiniano Aquino e Yvonne de Oliveira Silveira, a presidente da Academia Montesclarense de Letras, que por amor de Deus, no meio de nós se encontra.
Logo ao manusear o livro, fui assaltado por uma dúvida: se a Academia é Montesclarense (de Letras), sem hífen, por que logo na apresentação feita por dona Yvonne encontramos montes-clarense com hífen? Essa dúvida me acompanha já faz tempo e até hoje ninguém me esclareceu, afinal: sou montesclarense sem hífen ou montes-clarense com hífen?
Eu, cá na minha insipiência, acho que é preciso definir isto duma vez por todas e até peço licença para sugerir: se a Academia é Montesclarense, sem hífen, talvez fosse o caso de adotar essa nomenclatura baseada na titularidade acadêmica, porque assim se poderá pôr um ponto na questão.
Mas embora isto seja um pormenor, a dubiedade se transforma num problema maior cada vez que preciso escrever que sou natural de Montes Claros e, portanto, montesclarense sem hífen ou montes-clarense com hífen? Quando me perguntam até para gracejar, digo: “Vivo num “diadema retrós”, quero dizer, no dilema atroz, nunca sei se sou montesclarense sem hífen ou montes-clarense com hífen”.
Claro é que tudo isto não passa de um mote para eu escrever estas linhas, que só não são mal traçadas porque seguem a simetria do computador, que grava linhas retilíneas. Quem duvidar faça a experiência, pegue uma régua e constate quão retas são as linhas. Ainda bem, porque se o texto fosse manuscrito, além de ninguém conseguir ler, devido a minha péssima caligrafia, as linhas seriam incertas e não sabidas, descidas e subidas, como são aos montes claros, hoje sumindo do mapa devido à exploração imobiliária.
Entretanto, quero mesmo é falar um pouco de como conheci os acadêmicos imortais, primeiro dona Ivonne, que certamente não se lembra de mim, mas fui aluno dela na Escola Normal Professor Plínio Ribeiro, naquele casarão antigo, recém-reformado, pelo que aplaudo porque o imóvel guarda histórias mil, por lá passou sem número de gente importante que faz a grandeza do Brasil.
Eu gostava de ouvir dona Ivonne declamar o poema de Jorge de Lima, “Essa Negra Fulô”. Pergunto: Fulô, ô Fulô, por onde você (anda) andou? Dona Yvonne declamava o poema com tamanha maestria que parecia ser dela a autoria. Gesticulava com tanto empenho e graça que a mim parecia, a negra Fulô realmente existia.
Conheci Hermes de Paula, pai de Virgínia Abreu de Paula, por causa do pequi, quando era tempo de murici e eu reportava a vida para “O Jornal de Montes Claros”. Entrevistei-o várias vezes; entretanto, os reveses da vida o levaram, mas dele deixaram para nós a memória.
O poeta Cândido Canela, eu o conheci durante uma viagem de trem, de Belo Horizonte a Montes Claros. Éramos vizinhos de cabine e fomos conversando a viagem inteira. E ele, de maneira peculiar falava de tudo, de poesia, de política e pau metia na ditadura, que naquela época desgovernava o Brasil varonil.
João Valle Maurício muitas vezes foi lá em casa, pois era o médico do meu pai. Vejo-o ind’agora com o estetoscópio a examinar o meu pai doente, que a morte inclemente levou embora em 15 de janeiro de 1961.
Lembro-me de Corbiniano Aquino, ali atrás da Praça de Esportes, quando eu era menino e morava na Rua Marechal Deodoro. Ele produziu o saboroso licor de pequi, que ainda hoje encontro aqui, no Mercado Central.
Sobre outros tantos acadêmicos eu poderia falar com carinho, como do Veloso, o Waldir de Pinho, que pessoalmente não conheci, mas acompanho por meio do site na internet. Peço perdão aos demais, porque não há mais espaço, e constrangido, digo, já sei o que faço: noutra ocasião retomo o assunto e até lá espero afinal, ter esclarecido essa questão: sou montesclarense sem hífen ou montes-clarense com hífen? E ponto final.


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Por Alberto Sena - 26/9/2011 11:11:38
“Amanhã é domingo, pede cachimbo”

Alberto Sena

Hoje é sábado, 24 de setembro de 2011. Não é nenhuma novidade que o sábado suscita em nós uma avalanche de recordações de bons momentos vividos, haja vista músicas e poemas que enaltecem este dia da semana feitos por renomadas personalidades da música brasileira e da literatura.
A bem dizer, gosto de todos os dias da semana. Nós é que fazemos o dia e não o contrário. A questão é que estamos presos à convenção do calendário, porque o tempo é o mesmo, sempre. Não existe passado nem futuro. O que há é o presente, o aqui, agora. Nós mortais estamos limitados ao tempo e ao espaço neste plano terreno. Eis a questão.
O que me suscitou falar do sábado foi um bando de maitacas que passou próximo à janela e se aninhou numa enorme fícus da esquina próxima.
A bibliografia ensina que há cerca de 800 espécies de fícus – “Ficus Benjamina (Figueira chorão)”. Trata-se de uma planta “angiospérmica porque tem sementes escondidas no fruto”. É da família das “Moraceae, de folhas perenes (perenifólia)”. O ficus é originário da Índia, Himalaia, Malásia e Norte da Austrália.
Esse fícus que é meu vizinha possui as folhas grandes, grossas e dá frutos miúdos e arredondados, e é isto que, acho, atrai as maitacas.
Outra espécie de fícus possui folhas bem menores e quem não faz distinção de uma e de outra, é só se lembrar da cerca viva que rodeava a Praça de Esportes de Montes Claros até a década de 1970, se me recordo bem.
Aqui, neste Curral Del Rey, os fícus de folhas miúdas reinaram décadas no canteiro central da Avenida Afonso Pena, de uma ponta à outra. Mas houve uma época em que a capital elegeu um prefeito chamado Aminthas de Barros e aconteceu de uma praga de insetos miúdos, pretos, infestarem as árvores. Quando eles caíam nos olhos das pessoas provocavam ardor “fedazunha”.
O inseto foi apelidado de “Aminthinhas” e quem pagou o pato foram os fícus, que tombaram a golpes de serras. Foi um ato tão violento, que mudou de um dia para o outro a paisagem da Avenida Afonso Pena, tendo a Serra do Curral lá no fundo e no alto.
Ainda me lembro bem de quando isto aconteceu porque desde criança fui de Montes Claros a Belo Horizonte várias vezes, de trem. Na primeira vez, os fícus ainda estavam em pé na Avenida Afonso Pena. Numa outra vez, a avenida já estava sem as árvores. Foi um baque para mim.
Beagá ainda tinha bonde. Foi nessa época que deve ter sido cunhada a expressão “mineiro não perde o bonde (ou o trem)”. Tempo lento e pachorrento. Quem viveu e viu pôde fotografar com as meninas dos olhos ou com uma câmera fotográfica para guardar as fotos de lembrança.
Mas a intenção era falar do sábado, a partir da provocação suscitada por um bando de maitacas que ainda agora, enquanto escrevo, está no fícus ali da esquina. Toda vez que passo debaixo da árvore, o olhar contemplativo é distribuído pela copa e o emaranhado de raízes que brotam com gêiser de todos os lugares.
Pelo que posso calcular, aquele fícus é centenário. Às vezes imagino que um dia aquela imensa árvore já não mais estará ali. E quando esse dia chegar, o vazio na esquina será enorme e vamos demorar um bom tempo para nos acostumarmos com a esquina vazia.
As maitacas, então, e muitos outros passarinhos que ali se aninham ou fazem da árvore uma estação de parada para voos mais distantes, irão sentir a falta dela. Garanto que sem a sombra ampla e irrestrita proporcionada pelo fícus, o micro-clima dali desaparecerá duma vez; o “prana” da árvore, a energia vital, se esvairá como a fumaça no ar.
A intenção, como disse desde o início, era tratar aqui do sábado. Mas no decorrer deste monólogo fui descobrindo que tudo isto aqui gravado saía espontaneamente. E saía assim, creio eu, porque hoje é sábado. “Amanhã é domingo, pede cachimbo...”


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Por Alberto Sena - 18/9/2011 10:24:18
Quando os galos cantam

Alberto Sena

Quero deixar clara, antes de ir adiante, a minha ignorância em matéria de galo (e de raposa), tanto no reino animal quanto na seara futebolística. O que sei de galo, especialmente, se limita ao parco aprendizado, em Montes Claros, vivenciado quando era menino de calças curtas e pés descalços chafurdados no quintal.
Naquela época, dona Elvira criava galo, galinhas, patos e perus no quintal e em meio àquela trabalheira toda de brincar o dia inteirinho, sobrava tempo ainda para observar o comportamento dos bichos. E, evidentemente, o galo chamava mais a atenção porque ele tinha mania de perseguir as galinhas que, cansadas, coitadinhas, não tinham alternativa senão agachar, a fim de descansar, e nesse momento o safado aproveitava para pular sobre elas e ainda por cima bicava o cocuruto delas.
Por mais acionada seja a memória, companheira amada de todas as horas, não consigo lembrar se havia no terreiro mais de um galo. Na minha ignorância em assuntos galináceos, acho complicado um galinheiro com mais de um galo. Isto deve motivar brigalhada danada.
Digo isto porque daqui da janela vejo o quintal de uma casa vizinha onde há várias galinhas e quatro galos. Por diversas vezes vi um galo perseguir o outro, perseguição diferente daquela que costumam fazer às galinhas, e tiro conclusões: “Devem estar disputando quem é o mais macho, o dono do terreiro”.
Enquanto os galos e as galinhas estão ali no terreiro, ciscando, aprecio a beleza das penas coloridas deles e delas. São da espécie legorne. Consigo até mesmo ver o brilho das penas quando o sol do meio-dia bate lhes nas cacundas.
Volta e meia uma galinha apronta um escândalo e entendo: acabou de botar um ovo. Acho que as galinhas cantam daquele jeito que cantam quando acabam de botar um ovo só para contar vantagem. Chamar a atenção.
Só galinha bota ovo. Isto é uma verdade? Acho não. Galo também bota. Já vi isto no terreiro de dona Elvira. Claro que não é um ovo do tamanho do ovo da galinha, mas é ovo. Quero dizer, ovinho.
E por falar em ovinho, lembrei-me de um texto de Clarice Lispector, “O ovo e a galinha”. É um dos textos mais doidos que já li. Nele, Clarice escarafuncha o ovo de todo maneira, dando a impressão de que estava possuída enquanto escrevia. Trata-se de um texto complicado, embora escrito com simplicidade.
Retomando a narrativa sobre o terreiro visto da janela, acho que a questão dos quatro galos num só galinheiro não significa, a meu ver, um sofismável problema. A questão, que para mim não é nenhum problema, mas para outras pessoas acaba sendo “um problemão”, é o fato de os quatro galos cantarem de dia e de noite.
Já até questionei a que hora esses galos dormem, se é que dormem, porque cantam o tempo todo e não deve sobrar tempo para dormir. Claro, eles cantam mais durante a noite quando parecem disputar canto com outros galos.
Quem quiser empregar um pouco do tempo apreendido ouvindo um galo cantar aqui perto e escutar outro responder longe, faz um exercício interessante. No meu caso, me leva a mergulhar e chafurdar no quintal de dona Elvira como nos velhos tempos. Tempos nem tão velhos assim, hão de convir comigo.
Em meio aos quatro galos há um que deve ter problema qualquer na goela. O canto dele não sai livre e sonoro como se há de esperar de um galo cantor em perfeitas condições de bater as asas fortemente contra o peito e soltar a garganta. O canto desse galo sai meio fanho.
Eu não consigo daqui da janela, distinguir afinal qual dos quatro é o galo fanho. Neste momento, às 10h33 da manhã, enquanto digito no notebook este texto, ouço o galo fanho cantar e escuto a resposta de outro perdido na distância. O canto dele se mistura ao ruído irritante de uma serra na construção de um prédio próximo.
À noite, naquele momento em que a vida acalma e as pessoas entram em sono REM, os galos cantam que é uma beleza. A mim não incomoda, mas sei de pessoas que se sentem incomodadas e até ameaçam comprar espingarda de atirar chumbinho para executar os galos. Já chegaram até ao ponto de dizer que vão comprar veneno para acabar com eles.
Como disse e repito, a mim o canto dos galos não incomoda. Pelo contrário, o canto deles embala o meu sono. O canto deles me leva a mergulhar em mim mesmo, até ao fundo do inconsciente, como se fora um personagem de filmes do italiano Frederico Fellini.


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Por Alberto Sena - 11/9/2011 22:14:49
Uma conversa macia com ela

Alberto Sena

Era sábado, 16h30, quando abri a mensagem recebida pela internet. No alto da mensagem havia uma foto dela tamanho 3/4. Olhei a foto dela que me foi enviada por Mara Narciso. Fitei bem no fundo dos olhos azuis dela.
E então me atrevi a dizer:
_ O que a senhora deseja que eu faça em retribuição à graça que, por sua intercessão, recebi?
Em resposta, ela pareceu rir. Entretanto, o semblante dela estático ali na foto continuava o mesmo, o rosto redondo, o olhar penetrante, como dois mares de bondade.
A nossa comunicação ocorreu em nível elevado, como o leitor crente em Deus pôde depreender. Ao mesmo tempo, o ambiente transudava a sensação de que ela me ouvia, mas evidentemente um não podia tocar para sentir o outro.
Foi quando eu disse a ela:
_ Dita que eu digito no computador.
E ela, então, começou a falar:
_ Diga a todos os meus filhos que estou bem, graças a Deus. Os meus filhos são os que chegaram ao mundo pelas minhas mãos. Sãos os primogênitos. Mas todo aquele que crê que Jesus Cristo é o enviado do Pai, considero filho meu.
_ A senhora tem alguma mensagem que queira transmitir?
Foi como se ela precisasse de um átimo de eternidade para pensar no que responder:
_ Tenho acompanhado o dia-a-dia das santas casas e posso fazer uma comparação. Muita coisa mudou. E para melhor. No meu tempo, a Santa Casa de Misericórdia de Montes Claros, onde vivi boa parte da minha vida, sobrevivia só de doações de grandes fazendeiros, de gente de posse e de bom coração. Era uma luta! Mas eu sempre, com a ajuda de Cristo Jesus, sempre consegui avançar para resolver os problemas. Hoje, há o SUS, em verdade, um importante serviço gratuito ao alcance de todo cidadão. Mas vejo que ainda assim os problemas são muitos.
_ E como são – ousei pensar alto.
Disse que a população de Montes Claros aumentou muito depois que ela deixou esse plano de vida, em 1952. Comentei o fato de o SUS ser um programa importante para os brasileiros e para as santas casas e os hospitais filantrópicos, mas os problemas de manutenção continuam proporcionalmente à voracidade dos tempos atuais.
Ela meneou a cabeça, como quem concordava com a minha argumentação, e disse em seguida:
_ A questão das santas casas e hospitais filantrópicos é política. Para resolver o problema da saúde pública, é imprescindível haver vontade política seguida de atitude política. Dinheiro há. É só estancar a sangria.
_ Concordo plenamente com a senhora – eu disse. E completei:
_ É preciso haver uma atitude, semelhante ao movimento das Diretas-Já ou do impeachment de Collor contra a corrupção. É preciso haver mobilização. Se não fizermos isto, vamos entrar para a história como idiotas, otários. Os corruptores e corruptos furtam o nosso dinheiro e depois ficam com a cara de tacho afrontando a nossa indignação.
Ela quedou por uns instantes, ajeitou o véu sobre a cabeça e disse:
_ O viver nesse plano terreno sempre foi difícil e não será fácil, mas percebo que as coisas aí estão mais difíceis porque, onde há ror de gente muitos são os problemas de toda ordem. A assistência médica hospitalar tem um custo. Cada dia mais elevado. Mas além dos recursos de manutenção é de bom alvitre alimentar a capacidade de enxergar as pessoas também com os olhos do coração.
Ela se calou por um momento e ficou me perscrutando com o olhar doce. E enquanto me olhava, foi como se eu fizesse regressão ao dia do meu nascimento, pelas mãos dela, na Santa Casa de Montes Claros. Eu estava nos braços dela e ela, com o jeito meio holandês de dizer, pedia à minha mãe, ainda sob o efeito do parto, cujo resguardo durava dias:
_ Dá este menino pra mim?
Ao recordar a passagem de início de vida, senti-me confortável nos braços de Irmã Beata. Experimentei de fato o calor e a ternura do colo dela, e o sentimento que parece jorrar daqueles olhos azuis. Para mim dois mares transbordantes de bondade, paz de espírito.
(O centenário da chegada da Irmã Beata a Montes Claros, em fevereiro de 2012, certamente será comemorado pelos montesclarenses de boa vontade).


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Por Alberto Sena - 5/9/2011 09:55:12
Os pais impõem os limites

Alberto Sena

Todo Roberto, Adalberto, Humberto, Dagoberto ou Alberto corre o risco de ser apelidado de Beto. Comigo não foi diferente. A mim me chamam de Beto, Betinho, Albertinho, Albertim, Betim. Em casa, quando criança, o mais comum era Beto. A gente estava lá fora naquela difícil e trabalhosa tarefa de brincar o dia inteiro e vinha mãe ou uma das minhas irmãs chamando: ‘Beto tá na hora de tomar banho’ ou ‘Beto, mãe tá chamando pra almoçar’. Pior quando chamavam: ‘Beto, corre pra casa, vá preparando o traseiro, o couro vai comer’.
Lá em casa os meus pais impunham os limites. Pai nunca foi de bater. Dele só levei tapa na bunda uma vez. Essa história, eu até contei noutro dia. Foi porque um soldado da Polícia Militar foi lá em casa para me intimar a ir à delegacia, por causa do vidro de um caminhão do DER que eu não havia quebrado.
Imagina: ‘Intimar um menino de dez anos, onde já se viu isto?’ Disse o coronel Coelho, quando pai me levou à presença dele.
De mãe apanhávamos quase todo dia. Era de chinelo. Havia ocasiões em que ela distribuía chineladas no atacado e no varejo. Pegava um, dava chineladas. Pegava o outro, dava chineladas. E assim por diante.
Mas também pudera, eram tanto menino e menina arteiros, falar só não resolvia. Era preciso impor os limites, coisa que não vemos hoje em dia e por isto muita criança acaba praticando as mais extravagantes artes.
É preciso mostrar aos filhos que eles na podem fazer o que der na telha. Sobre isto tenho uma experiência interessante: na década de 1990, quando repórter de jornal, eu solicitei a uma professora do Colégio Montessori, ali na Cidade Jardim, em Belo Horizonte, para pedir aos mais de 30 alunos uma redação sobre ‘como eles eram tratados pelos pais’.
Em algumas redações as crianças reclamavam que em casa podiam fazer de tudo que bem entendessem e os pais não reclamavam nem corrigiam suas estripulias. As próprias crianças demonstravam não ter senso de limites. Claro que isto é prejudicial, pois quando adultos podem praticar atrocidades, porque não aprenderam a distinguir o certo do errado, quer dizer, os limites.
Um dia pai falou que não era para brincarmos com o carrinho de madeira de Xeba, um vizinho nosso, na Rua São Francisco, em Montes Claros. Quando pai falava, estava falado. Desobedecer? Nem pensar.
Na realidade, o carrinho era carrão. Todo de madeira e pintado de verde, dentro dele cabiam duas crianças folgadas. As rodas eram de rolimã. Tinha até volante. Xeba ficava na frente e tinha sempre alguém que empurrava. O veículo desenvolvia velocidade, dependia de quem o empurrasse.
Xeba brincava com o carro juntamente com outras crianças e nós só podíamos ficar olhando. ‘Se eu vir vocês brincarem nesse carrinho vocês se haverão comigo’, as palavras de pai ressoavam aos ouvidos.
De tanto ficar espiando, a tentação era grande e teve um dia que não resisti e fui empurrar o carrinho. Minhas irmãs reagiram: ‘Beto, você vai apanhar; não ouviu o que papai disse?’ Estávamos eu e Teófilo empurrando o carrinho, quando por um descuido, uma das rodas passou sobre o peito do meu pé esquerdo. Feriu. O ferimento sangrou.
E agora? ‘Bem que pai falou que não era para brincar com esse carrinho’, lamentei a desobediência. Senti por antecipação o que podia acontecer à minha retaguarda. As irmãs trataram logo de fazer um curativo no meu pé usando mercurocromo, gaze e esparadrapo.
Durante pelo menos dois dias, eu me escondi de pai dentro de casa. Ele saía para trabalhar e eu permanecia na cama. Fazia de conta que estava dormindo. Ele vinha almoçar, eu já havia ido para a escola. Ao anoitecer, ele chegava e eu já estava pronto para dormir.
Foi indo, no terceiro dia ele desconfiou: ‘Cadê Beto que não vejo já faz dois dias?!’ Não pude mais me esconder e ao aparecer diante de pai com o pé machucado, tive que explicar. Fiquei daquele jeito que a gente fica quando tem culpa no cartório.
E para o meu espanto, sabem o que aconteceu? Nada. Nada além de uma reprimenda verbal. O pior ia acontecer se houvesse uma segunda vez.
Foi um alívio! Aquele friozinho na boca do estômago de Beto desapareceu como num passe de mágica.


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Por Alberto Sena - 29/8/2011 15:41:25
‘Seu’ Mané

Alberto Sena

Para as crianças, ele era um homenzinho misterioso. Aguçava a nossa curiosidade.
Nós o chamávamos de ‘seu’ Mané.
Paralítico das pernas e cego, para se locomover, ele usava uma carrocinha puxada às vezes por um carneiro e noutras vezes por dois.
A carrocinha era uma miniatura de carro de boi. Ele se sentava nela de um jeito semelhante ao do Maratma Gandhi sentar para conversar, com ambas as pernas de um lado só.
Com um bastão, ele dava um toque na madeira, sinal que os carneiros entendiam como sendo a ordem de partida. Os animais sabiam direitinho o caminho.
A fama de ‘seu’ Mané cresceu.
Quem morou pelos lados da Rua São Francisco, em Montes Claros, acima da linha férrea, deve tê-lo conhecido ou ouvido contar histórias a respeito dele.
De fato, ele era ‘homenzinho’ porque miúdo de pernas atrofiadas.
‘Seu’ Mané parecia não se preocupar com nada disso. Era cego, mas podia enxergar mais do que muita gente com luz nos olhos só para espiar e se intrometer na vida dos outros.
As crianças ouviam dizer que ele possuía ‘o dom da adivinhação’.
Para localizá-lo bem, a casinha dele ficava na Rua São Francisco à esquerda, depois da esquina de Rua Corrêa Machado. Próximo de onde moravam Niro, Xeba, Eustáquio e Jurandir.
O lugar era ponto de visitação de pessoas crentes de que aquele homenzinho visto numa carrocinha puxada por um ou dois carneiros, ‘adivinha as coisas’.
As pessoas iam a casa dele saber aonde encontrar determinado objeto perdido ou mesmo o que lhe reservava o futuro, mesmo sabendo que ‘o futuro a Deus pertence’.
‘Seu’ Mané pedia com a mão um pouco de paciência, assumia postura de quem estava concentrado no pedido e com os olhos do coração ou com o terceiro olho ou com seja lá o que, ele localizava o objeto perdido e até refazia os moldes do futuro do pobre à sua frente.
‘Seu’ Mané é um dos que ocuparam o baú de relembranças, os que povoaram a nossa infância e exercitaram a nossa perspicácia. A imaginação corria solta como um papagaio aos ventos de agosto, ali na Rua São Francisco.
Volta e meia se podia ir a casa dele conversar sobre coisas irrelevantes e saber se ele estava precisando de alguma coisa.
Muitas vezes nós ficávamos lá vendo o ‘seu’ Mané, em silêncio, e procurávamos os motivos de ele ser como era, vivendo como vivia ali naquele cubículo onde mal cabia um catre.
O ambiente cheirava a lã de carneiros. Quando chegava o tempo de tosquiar os carneiros, ele ganhava alguns trocados extras, pois o homenzinho viva de esmolas.
Há quem tem de tudo e se sente infeliz. Acha que é quem mais sofre no mundo. Mas basta dar volta de 360 graus nos calcanhares para encontrar um filho de Deus carente de algo, seja material ou não.
Uns têm dinheiro e carecem de saúde. Outros têm saúde, mas não dispõem de dinheiro. Há os que prejudicaram a saúde para ganhar dinheiro e agora gastam o dinheiro para resgatar a saúde.
O ‘seu’ Mané era miserável. Morava de favor com os carneiros. Vivia da ajuda. Mas tinha cara boa, tudo para ele estava às mil maravilhas.
Um dia alguém furtou a bicicleta do nosso irmão. Mãe lamentou. Sem bicicleta, como haveria de ser? Procuramos e nem sinal dela encontramos.
Foi quando mãe se lembrou de ‘seu’ Mané e fomos a casa dele fazer ‘uma consulta’. O homenzinho lamentou o sumiço da bicicleta com o jeitinho característico, manso, de ser.
Corria o ano de 1958. Montes Claros nem sonhava ser o que é hoje.
Naquela época, quem furtasse uma bicicleta corria permanente risco de um dia dar de cara com o dono numa das ruas estreitas do centro. Todos se conheciam.
Chegamos para consultar ‘seu’ Mané e mãe contou-lhe o ocorrido. Ele pediu calma com um gesto de mão. Ficamos em silêncio.
Ao lado dele um dos carneiros ruminava capim colonião. ‘Seu’ Mané então quebrou o silencio. Repetiu tudo o que mãe lhe havia contado a respeito do furto da bicicleta. Disse em seguida:
_ Estou vendo uma bicicleta, Monark encostada numa parede. Pode ser a bicicleta do seu filho. Está num lugar parecido com uma praça, um lugar que tem grama...
Como ele não apontou exatamente o lugar, deu-nos margem para interpretações. Podia ser num campo de futebol. Podia. Procuramos, mas não encontramos nem sinal da bicicleta.
Para nós, crianças, ele era um santo vivo.
Se ‘seu’ Mané não era santo vivo de direito tinha tudo para sê-lo de fato. Víamos até auréola nele.
Era um homenzinho semelhante a uma estrela, dotado de luz própria.


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Por Alberto Sena - 22/8/2011 08:10:52
Providencial furo de reportagem

Alberto Sena

O jornalista Robson Costa, filho da professora Bernadete Costa, de Montes Claros, abriu a sala do editor geral do jornal Estado de Minas, na Rua Goiás 36, no Centro de Belo Horizonte, e lá no fundo surgiu a figura de um homem de cabelos lisos e negros, de bigode ao estilo lusitano, de quem o cofia enquanto pensa. Parecia ser ele homem sisudo, mas ciente de si mesmo.
Robson se aproximou da mesa dele e disse:
_ Cyro, trouxe o rapaz que vai me substituir. Ele é de Montes Claros, trabalhou no O Jornal de Montes Claros...
Feitas as apresentações, Cyro ficou algum tempo de cabeça baixa e ato contínuo olhou por cima dos óculos quem Robson apresentava como substituto. E disse em seguida:
_ Não posso prometer nada. Ele fica como estagiário. Apresente-o ao Piroli.
Foi assim a integração à equipe de Wander Piroli, uma das figuras mais queridas do jornalismo mineiro, nascido e criado no Bairro da Lagoinha, em Belo Horizonte, advogado, escritor.
Piroli trabalhou no polêmico jornal Binômio, que homens do Exército empastelaram porque, entre outras coisas, José Maria Rabelo, o dono, dera socos no rosto do general Punaro Bley, comandante do Exército em Minas, logo antes do golpe militar de 1964. O general havia ido à redação do Binômio tirar satisfações com José Maria devido a uma reportagem que ele não gostou de ler.
Piroli levava fama de comunista, mas na verdade era um socialista, senão um democrata liberal, uma pessoa que tinha grande respeito ao ser humano e queria ajudar a construir um Brasil melhor para todos.
Integravam a equipe de Piroli: Paulo Emílio Coelho Lott, parente d